quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

TRIBUTO A UM POETA MORTO

 

O poeta e dona Emídia, na Praça do Liceu, na época do namoro. Segundo uma mensagem do amigo e escritor Anfrísio Lobão Castelo Branco, a Praça seria a João Luís, pelo formato do banco. Abaixo, a mesma foto melhorada pelo chatgpt:

Creio que essa fotografia seja de data próxima à da época em que o conheci



TRIBUTO A UM POETA MORTO

 

Elmar Carvalho

 

Outro dia, não sei a propósito de quê, lembrei-me de um texto que escrevi há alguns anos, em homenagem a um velho poeta, meu amigo. Poucos meses após eu conhecê-lo, ele faleceu. Sua viúva presenteou-me com o livro que ele estava lendo quando o conheci. Tratava-se de Castro Alves – Poesias Escolhidas, edição publicada pela Imprensa Nacional, em 1947, em comemoração ao centenário do grande poeta condoreiro.

Numa de suas páginas iniciais, fiz a seguinte anotação: “Este livro me foi ofertado pela viúva do poeta (...), Sra. Emídia Mendes. Teresina, 05.06.06”. Portanto, devo ter conhecido o poeta poucos meses antes. Alguns anos antes, por ocasião do sesquicentenário de nascimento de Castro Alves, eu havia adquirido um box, em material de alta qualidade, em sua homenagem, publicado pela Fundação Banco do Brasil, com o patrocínio da Construtora Norberto Odebrecht S.A.

Segue a crônica que escrevi em homenagem ao poeta:

 

Numa manhã, enquanto eu esperava, um tanto impaciente, o retorno de minha mulher, resolvi caminhar pela calçada, nas proximidades de onde se encontrava meu carro.

 

Então, para minha surpresa e contentamento, vi, num terraço, sentado numa cadeira, de costas para a rua, aproveitando a luz difusa que entrava pelo largo portão, um homem idoso, magro, de cabelos brancos, lendo um antigo e grosso volume de poesia, em verdadeiro estado de êxtase, ou até mesmo de beatitude.

 

Via perfeitamente que se tratava de poesia, pelo aspecto formal da mancha gráfica, que me permitia enxergar o formato dos versos e o contorno das estrofes. Contudo, minhas retinas, já um tanto fatigadas, não me permitiam decifrar o conteúdo nem o nome daquele felizardo poeta, que requeria tamanha atenção e respeito de uma pessoa já avançada na idade. Como desejei dispor de uma luneta ou, ao menos, de um binóculo, desses com que os jovens aproximam a beleza das mulheres, na ilusão, talvez, de tocá-las.

 

Fiz movimentos e caminhei para despertar a atenção daquele leitor contrito, mas em vão. Como a minha curiosidade aumentasse a cada segundo que passava, e podendo minha mulher retornar a qualquer momento, não resisti e o interpelei, perguntando quem era o autor daquele alfarrábio.

 

Fiquei contente ao saber que se tratava de Castro Alves, poeta sublime, morto no verdor dos anos, mas no auge de sua glória, um dos autores de minha predileção, que é bastante eclética, embora severa.

 

O leitor não ficou aborrecido com a minha impertinência. Aliás, pareceu-me mesmo ficar contente com a minha abordagem e curiosidade. Revelou-me seu nome e disse ser também poeta. Convidou-me a entrar. Conversamos um pouco.

 

Era um poeta da velha guarda, porém da melhor estirpe. Ao falar de poesia, parecia transfigurar-se e rejuvenescer. De gestos largos e teatrais, enchia-se de entusiasmo e vida. Deu-me a impressão de ser um crítico rigoroso, avesso a fazer concessões graciosas.

 

Recitou-me maravilhosos versos de sua autoria, de forma vibrante e emocionada. Revelou-me episódios de sua vida. Era gaúcho. Fora herói do nazifascismo. Conhecera o meu saudoso amigo, o general João Evangelista Mendes da Rocha, escritor, fidalgo de fino trato e igualmente herói da 2ª Guerra Mundial.

 

Voltei a revê-lo, oportunidade em que lhe dei alguns livros de versos de minha autoria. De imediato, leu alguns e os elogiou, para meu contentamento e estímulo.

 

Outro dia, bateu-me uma saudade e desejei rever o poeta. Não sei por quê, temia não mais encontrá-lo. Queria também lhe ofertar a segunda edição de meu livro Rosa dos Ventos Gerais.

 

Bati à sua porta. Recebeu-me uma senhora da casa. Perguntei-lhe pelo poeta. O poeta havia morrido, disse-me ela. Confirmara-se o meu presságio de que talvez o velho aedo já tivesse empreendido sua derradeira viagem. A pessoa que me atendeu informou-me a data de seu falecimento e comentou que a viúva vira recentemente um dos meus livros, observando que o poeta gostara de minha poesia.

 

Resta-me a lembrança de um homem educado que, sem ainda me conhecer, fora bom e atencioso comigo, convidando-me a adentrar sua casa. Resta-me a saudade de um poeta que, embora talentoso, nunca buscou as luzes da ribalta nem os refletores da publicidade.

 

Apenas cantava porque era seu destino cantar. Cantava como cantam as aves, sem necessidade de aplausos e elogios, não raras vezes insinceros e dissimulados, quando não irônicos e escarnecedores.

 

Resta-me, por último, como derradeiro tributo e laurel, a quem nunca precisou dessas exterioridades, declinar o nome de um poeta e herói que se chamava Dario Mendes, amante da poesia e da vida.  

2 comentários:

  1. Excelente crônica, caro Elmar. Texto repleto de leveza e de sensibilidade. Lá, no indecifrável horizonte, o poeta Dario Mendes deve ter diante de si uma biblioteca com muitos livros de poesia.
    Abraços e obrigado pelo texto!

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  2. Muito obrigado digo eu. Abraço.

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