TRIBUTO A UM
POETA MORTO
Elmar
Carvalho
Outro dia, não sei a propósito de quê, lembrei-me de um texto que escrevi
há alguns anos, em homenagem a um velho poeta, meu amigo. Poucos meses após eu
conhecê-lo, ele faleceu. Sua viúva presenteou-me com o livro que ele estava
lendo quando o conheci. Tratava-se de Castro Alves – Poesias Escolhidas, edição
publicada pela Imprensa Nacional, em 1947, em comemoração ao centenário do
grande poeta condoreiro.
Numa de suas páginas iniciais, fiz a seguinte anotação: “Este livro me
foi ofertado pela viúva do poeta (...), Sra. Emídia Mendes. Teresina,
05.06.06”. Portanto, devo ter conhecido o poeta poucos meses antes. Alguns anos
antes, por ocasião do sesquicentenário de nascimento de Castro Alves, eu havia
adquirido um box, em material de alta qualidade, em sua homenagem, publicado
pela Fundação Banco do Brasil, com o patrocínio da Construtora Norberto
Odebrecht S.A.
Segue a crônica que escrevi em homenagem ao poeta:
Numa manhã,
enquanto eu esperava, um tanto impaciente, o retorno de minha mulher, resolvi
caminhar pela calçada, nas proximidades de onde se encontrava meu carro.
Então, para
minha surpresa e contentamento, vi, num terraço, sentado numa cadeira, de
costas para a rua, aproveitando a luz difusa que entrava pelo largo portão, um
homem idoso, magro, de cabelos brancos, lendo um antigo e grosso volume de
poesia, em verdadeiro estado de êxtase, ou até mesmo de beatitude.
Via
perfeitamente que se tratava de poesia, pelo aspecto formal da mancha gráfica,
que me permitia enxergar o formato dos versos e o contorno das estrofes.
Contudo, minhas retinas, já um tanto fatigadas, não me permitiam decifrar o
conteúdo nem o nome daquele felizardo poeta, que requeria tamanha atenção e
respeito de uma pessoa já avançada na idade. Como desejei dispor de uma luneta
ou, ao menos, de um binóculo, desses com que os jovens aproximam a beleza das
mulheres, na ilusão, talvez, de tocá-las.
Fiz
movimentos e caminhei para despertar a atenção daquele leitor contrito, mas em
vão. Como a minha curiosidade aumentasse a cada segundo que passava, e podendo
minha mulher retornar a qualquer momento, não resisti e o interpelei,
perguntando quem era o autor daquele alfarrábio.
Fiquei
contente ao saber que se tratava de Castro Alves, poeta sublime, morto no
verdor dos anos, mas no auge de sua glória, um dos autores de minha predileção,
que é bastante eclética, embora severa.
O leitor não
ficou aborrecido com a minha impertinência. Aliás, pareceu-me mesmo ficar
contente com a minha abordagem e curiosidade. Revelou-me seu nome e disse ser
também poeta. Convidou-me a entrar. Conversamos um pouco.
Era um poeta
da velha guarda, porém da melhor estirpe. Ao falar de poesia, parecia
transfigurar-se e rejuvenescer. De gestos largos e teatrais, enchia-se de
entusiasmo e vida. Deu-me a impressão de ser um crítico rigoroso, avesso a
fazer concessões graciosas.
Recitou-me
maravilhosos versos de sua autoria, de forma vibrante e emocionada. Revelou-me
episódios de sua vida. Era gaúcho. Fora herói do nazifascismo. Conhecera o meu
saudoso amigo, o general João Evangelista Mendes da Rocha, escritor, fidalgo de
fino trato e igualmente herói da 2ª Guerra Mundial.
Voltei a
revê-lo, oportunidade em que lhe dei alguns livros de versos de minha autoria.
De imediato, leu alguns e os elogiou, para meu contentamento e estímulo.
Outro dia,
bateu-me uma saudade e desejei rever o poeta. Não sei por quê, temia não mais
encontrá-lo. Queria também lhe ofertar a segunda edição de meu livro Rosa dos
Ventos Gerais.
Bati à sua
porta. Recebeu-me uma senhora da casa. Perguntei-lhe pelo poeta. O poeta havia
morrido, disse-me ela. Confirmara-se o meu presságio de que talvez o velho aedo
já tivesse empreendido sua derradeira viagem. A pessoa que me atendeu
informou-me a data de seu falecimento e comentou que a viúva vira recentemente
um dos meus livros, observando que o poeta gostara de minha poesia.
Resta-me a
lembrança de um homem educado que, sem ainda me conhecer, fora bom e atencioso
comigo, convidando-me a adentrar sua casa. Resta-me a saudade de um poeta que,
embora talentoso, nunca buscou as luzes da ribalta nem os refletores da
publicidade.
Apenas
cantava porque era seu destino cantar. Cantava como cantam as aves, sem
necessidade de aplausos e elogios, não raras vezes insinceros e dissimulados,
quando não irônicos e escarnecedores.
Resta-me, por último, como derradeiro tributo e laurel, a quem nunca precisou dessas exterioridades, declinar o nome de um poeta e herói que se chamava Dario Mendes, amante da poesia e da vida.

Excelente crônica, caro Elmar. Texto repleto de leveza e de sensibilidade. Lá, no indecifrável horizonte, o poeta Dario Mendes deve ter diante de si uma biblioteca com muitos livros de poesia.
ResponderExcluirAbraços e obrigado pelo texto!
Muito obrigado digo eu. Abraço.
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