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ADOLESCENTES & ABORRECENTES
Elmar Carvalho
Lembrei-me hoje de um conversa
que tive com o Ataíde Coelho, fiscal da Fazenda Estadual, durante caminhada no
calçadão direito da beira do Poti. Contou-me ele que uma médica da sua amizade
havia dito que os filhos, quando bebês, são tão fofos que a pessoa sente
vontade de comê-los, creio que pela beleza e pelo cheiro dos pimpolhos, mas
que, quando se tornam adolescentes e aborrecentes, a pessoa se arrepende de
efetiva e literalmente não os haver comido. Isso me fez lembrar a mitologia
greco-romana, em que Saturno devorava os próprios filhos. Também dizem que a
venenosíssima cascavel se arrasta a parir, e depois faz o caminho inverso a
comer os filhotes.
Esse fato, se verdadeiro, seria
bom para os outros animais, porquanto o número de animais peçonhentos seria bem
menor. O Vinicius de Moraes, que se dizia um homem desprovido de arestas,
proclamou, a versejar, que “... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os
temos / Como sabê-lo?” Na dúvida, o poetinha, no maior e melhor sentido do
diminutivo, preferiu ter a sua cota, pagando o seu tributo à reprodução da
espécie.
De qualquer sorte, a problemática
da adolescência sempre existiu, só que hoje, com o uso de drogas e com os
jovens ingerindo álcool cada vez mais precocemente, parece que os conflitos
entre adolescentes e pais se agravaram de forma acentuada. Li, tempos atrás,
que o filósofo Sócrates, nascido alguns séculos antes de Cristo, já se
inquietava com a rebeldia dos adolescentes. O fato é que a explosão hormonal
contribui para que esses jovens se tornem mais desabridos e contestadores,
desrespeitando normas, convenções, tabus e os mais velhos, inclusive pais e
avós. É como se a geração mais nova, para se firmar, precisasse fustigar a mais
velha.
Contudo, é comum vermos os jovens
permanecendo por mais tempo a morar no lar paterno, onde têm pão, teto,
vestuário, conforto, sem nenhuma despesa e preocupação. Alguns ainda querem
constituir família a morar na casa dos pais, com estes sendo os responsáveis
pelo sustento dos netos e da nora ou genro, o que afronta o aforismo antigo que
dizia que “quem casa quer casa”.
Como se tudo isso fosse pouco, vemos garotas, sem nenhum preparo psicológico e financeiro, tendo filhos cada vez mais precocemente, e forçando os pais a criarem os netos, quando eles mais precisam de sossego, tempo e dinheiro para o enfrentamento das mazelas que a velhice impõe. Se Cícero ainda fosse vivo, certamente continuaria a bradar, censurando: Ó tempos! Ó costumes!
16 de fevereiro de 2011

O costumes
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