quinta-feira, 23 de abril de 2026

EU E SÃO MIGUEL DO TAPUIO

 

Recriação de uma foto pela IA GPT, com um toque de surrealismo

Pedi que IA GPT transformasse em pintura impressionista uma foto


EU E SÃO MIGUEL DO TAPUIO

 

Elmar Carvalho

 

Somente uma vez estive em São Miguel do Tapuio. Creio que tenha sido em meados dos anos 1980, numa viagem de fiscalização da extinta SUNAB. Portanto, a lembrança dessa então pequenina e bucólica urbe já se esgarça e se esfumaça em minha memória. Sei que havia um poço jorrante no centro da cidade, uma paisagem de várzea, a mata pontilhada de carnaubeiras, além de discreta serrania e suaves colinas e morros a emoldurá-la.

Depois, por meio das obras do grande historiador Pe. Cláudio Melo, de quem tive a honra de ser amigo e de ter publicado artigos historiográficos na revista Cadernos de Teresina, fui conhecendo um pouco de sua história antiga, desde o episódio dos Tacarijus e dos padres Francisco Pereira Pinto e Luís Filgueira, no qual houve o martírio do primeiro.

Cláudio Melo fora vigário de São Miguel e contribuiu para que a memória dessa boa terra fosse salva das brumas do esquecimento, desde os tempos de Bernardo de Carvalho e de sua quase mítica fazenda Cabeça do Tapuio, que depois se fragmentou em várias outras fazendas e glebas.

A partir de 2008, quando ingressei na Academia Piauiense de Letras, propugnei para que os principais livros do grande historiador, sobretudo sobre o colonialismo piauiense, fossem reunidos em um único volume. Meu esforço foi acolhido pelo presidente Nelson Nery Costa, quando ele editou mais de 150 obras como parte das comemorações alusivas aos 100 anos de nossa Academia, fundada em 1917.

Assim, em 2019, a APL, por meio da Coleção Centenário, iniciada por Reginaldo Miranda e à qual Nelson Nery deu extraordinário impulso, editou o livro Obra Reunida, que enfeixa mais de uma dezena de livros do Pe. Cláudio Melo, com mais de 850 páginas. Como “punição” pelas várias cobranças que lhe fiz, Nelson disse que o publicaria, desde que eu lhe fizesse a revisão e o prefácio. Embora detestando o serviço de revisão, fiz esse “sacrifício”. Serviu-me para aprender muitas informações sobre a história do Piauí. Essa obra contém muito sobre a história de Marvão e de São Miguel do Tapuio.

Por essa época, travei amizade virtual e virtuosa com o professor de História, compositor, escritor e radialista Reginaldo Soares, deficiente visual de ampla e profunda visão, uma das mais ativas lideranças das pessoas com deficiência visual de nossa São Miguel. Enviei um exemplar da Obra Reunida de Cláudio Melo aos seus cuidados, para que se tornasse útil aos pesquisadores são-miguelenses. Em uma live, disponível no YouTube, tive a oportunidade de falar sobre a vida e a obra de Cláudio Melo, velho e saudoso sacerdote da Paróquia de São Miguel Arcanjo.

Recentemente, em conversa telefônica com Reginaldo Soares, ele me disse que uma velha máquina a vapor se encontrava ao relento, em terreno baldio. Respondi-lhe que ele poderia procurar os descendentes dos proprietários dessa máquina, para que a restaurassem e a colocassem no principal logradouro da velha urbe.

Ele levou essa sugestão aos herdeiros de seu primeiro proprietário, e hoje essa bela máquina a vapor orna a principal praça da cidade. Seu proprietário era o ex-prefeito Manoel Evaristo de Paiva, que, por meio de seu busto, parece olhar para ela — outrora laboriosa e polivalente —, a auxiliar nos serviços de fabricação da cachaça Tiririca e no beneficiamento da palha de carnaúba. O atual prefeito de São Miguel, Pompílio Evaristo Filho, é bisneto de Manoel Evaristo.

Vários primos e tios de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, tinham o sobrenome Furtado ou Furtado de Carvalho. Meu bisavô paterno chamava-se Miguel Furtado do Rego. Eu supunha que esse sobrenome Furtado pudesse provir de Miguel Alves, União ou Brejo dos Anapurus. Porém, ao examinar a árvore genealógica de Elpídio Lucas Furtado de Carvalho, irmão de minha avó paterna, Joana Lina, descobri nossa ligação ancestral com São Miguel, conforme consignei em meu trabalho Breve Notícia Familiar, que recentemente reformulei:

“Meu bisavô paterno, Miguel Furtado do Rego, era filho de Antônio José do Rego e Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante; Antônio José era filho de Antônio José do Rego Castelo Branco e Ana Maria de Jesus; Antônio José era filho de Francisco José do Rego Castelo Branco e Auta Inês de Castro. Minha trisavó Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante era filha de Inácio Furtado de Albuquerque Cavalcante e Maria Vicência de Albuquerque Cavalcante, que era filha de Luís Furtado de Albuquerque Cavalcante e Rosaura Muniz Barreto, filha de Aleixo Muniz Barreto. Luís e Rosaura foram figuras ilustres no território que veio a constituir o município de São Miguel do Tapuio, e que pertencera à vila de Marvão (Castelo do Piauí).”

Sobre a grande matriarca Rosaura Muniz Barreto, pela qual nutria grande admiração o notável historiador Pe. Cláudio Melo, transcrevo este trecho da Wikipédia:

“Rosaura Muniz Barreto nasceu na Serra Vermelha (hoje, Castelo do Piauí), provavelmente no ano de 1823, e faleceu em 1908. Filha do tenente Aleixo Muniz Barreto. Casou-se em primeiras núpcias com Luís Furtado de Albuquerque Cavalcante. Em 1905, rica proprietária de terras no município, por dote e herança, atendendo ao pedido das lideranças locais, resolveu doar para São Miguel Arcanjo uma gleba medindo 880 metros de comprimento, de nascente a poente, e 480 metros de largura, de sul a norte, formando um quadro no lugar denominado Deliciosa, para que fosse erguida uma capela para São Miguel Arcanjo. Doou também a imagem do santo, que mandou buscar na França. Pediu, porém, que o povoado se chamasse São Miguel do Tapuio, em homenagem ao santo, a seu filho Miguel e aos guerreiros indígenas tapuios. Seu pedido foi atendido. A imagem original do santo ainda se encontra no altar principal da igreja matriz de São Miguel.”

Finalizando, devo dizer que, com a colocação da linda máquina a vapor na praça, mudou-se a posição do busto de seu antigo proprietário, que agora parece olhar para ela, como nos áureos tempos em que, em seu árduo labor, ela soltava suas baforadas de fumaça e vapor.

Apenas, com tristeza o digo: o poço jorrante já não jorra como dantes.

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