domingo, 28 de junho de 2026

ALEGORIA DA FOME

Fonte: Google

 

ALEGORIA DA FOME


Elmar Carvalho 

 

A pobreza um dia

bateu à minha porta

sob a forma de um menino

magro, sujo e maltrapilho.

E catou com suas mãos esquálidas

o sujo conteúdo

de meus sacos de lixo.

Foi quando eu saía

para o trabalho.

O menino, ou antes, um

bicho assustado correu.

Fui no seu encalço

em minha moto uivante.

O menino correu ainda mais,

varou cercas de arame farpado,

penetrou no terreno baldio por entre

arbustos espinhentos e urtigas,

com olhos e gestos de terror,

como se eu fosse espancá-lo.

E eu somente queria dizer

que ele podia catar o lixo.

Apenas não espalhasse

o resto do lixo

sobre a calçada.

Mas o meu pequeno irmão

feito bicho espavorido

tem medo dos outros bichos

que se dizem seu irmão.

E o meu irmão tem razão.

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