domingo, 12 de junho de 2011

TEMPO DE NAMORO


VICENTE LEAL DE ARAÚJO
Advogado e Ministro Aposentado do STJ

A cultura de um povo tem nas suas tradições uma das suas maiores formas de expressão. São elas páginas vivas de sua história, transmitidas de geração em geração, com o colorido de cada época e de cada região. Nós, brasileiros, herdamos das gentes que constituíram a nossa maravilhosa raça mestiça – europeus, índios e africanos – uma fantástica mistura de hábitos e festejos que embelezam a nossa aquarela de tradições.
No calendário de festas que marcam a riqueza do nosso folclore, o mês de junho tem especial destaque, pois nele se celebram os dias dos santos de maior prestígio popular – Santo Antônio, São João e São Pedro. Comemora-se também outra data de grande fascínio nos corações apaixonados - o Dia dos Namorados. Na verdade, as festas de junho podem ser consideradas como as festividades magnas da juventude, porque todas expressam as atitudes de um tempo esplêndido que marca a iniciação nos divinos espaços do amor.
O Dia dos Namorados remonta aos tempos antigos e relembra o sacrifício de São Valentim (270 d.C.), defensor dos jovens enamorados. Diz a tradição que o imperador Claudius II, para fortalecer o exército romano, proibiu o casamento. O bispo Valentim celebrava às ocultas o matrimônio de casais apaixonados e, por isso, foi condenado à morte.
O namoro é essa relação de eterna magia, iniciada na fase encantada da vida em que somos surpreendidos pelo mais sublime dos sentimentos, aquele que nos transporta às estrelas: a busca da alma gêmea. Na minha juventude, nos anos 50/60, o namoro era precedido de um ritual de atos sucessivos: um olhar, um sorriso, um flerte, um encontro marcado, uma cantada e, finalmente, uma declaração formal de namoro, com ares de compromisso e juras de fidelidade. O namoro tem a marca do afeto, da ternura, da paixão e do encantamento. O primeiro beijo provoca o fenômeno misterioso de sinos invisíveis que tocam, o tremor de pernas, o pulsar descompassado do coração, o arrepio da pele. O namoro, infelizmente, encontra-se em decadência. A permissividade dos novos tempos retirou a beleza do afeto entre dois jovens, que no primeiro encontro avançam para o estágio de “ficar”, esvaecendo todo o mistério da relação. A deformação do namoro tem projetado reflexos negativos na solidez do casamento, em visível estado de crise.
O ponto alto das alegrias de junho são as festas juninas, de origem européia, que se incorporaram à tradição brasileira com um colorido místico e popular. Tendo como centro atrativo a devoção a Santo Antônio (dia 13 – patrono dos que desejam casar e dos procuram objetos perdidos), a São João (dia 24 – protetor dos casados e dos enfermos) e a São Pedro (dia 29 – padroeiro das viúvas e dos pescadores), esses eventos constituem fulgurante atração no nosso calendário festivo.
As festas juninas são compostas de grande diversidade de folguedos, tendo como principais a fogueira, a quadrilha e as brincadeiras de roda, tudo realizado em comunidades de amigos, parentes e vizinhos, que se banqueteiam com comidas típicas, originárias dos produtos da roça. E nesses festejos, o namoro tem forte presença. Nos meus tempos de juventude, os casais brincavam de saltar a fogueira, construída com lenha verde cujo braseiro refletia o calor dos corações apaixonados. À beira do fogo, sob a magia das chamas, faziam-se juras de amor eterno. Na “passagem do anel”, deixava-se a jóia na mão da pessoa desejada. Na composição da quadrilha, buscava-se fazer par com quem se queria namorar. E naquela brincadeira do “meu lado direito está desocupado”, cujos componentes eram identificados por números, procurava-se identificar o da pessoa querida. E assim, no calor da fogueira de São João e sob as bênçãos de Santo Antônio, nascia o namoro.

sábado, 11 de junho de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXXVI

Na natureza morta de Dalí
a morte ganhou vida
na rosa ceifada que levitava.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

POSSE DO DES. JOSÉ JAMES E DO JUIZ LIRTON NA AMALPI




DINAVAN FERNANDES

O Des. José James Gomes Pereira e o Juiz Lirton Nogueira Santos foram empossados na Academia de Letras da Maçonaria Piauiense (Grande Loja e Grande Oriente). Ambos receberam a titulação perpétua das cátedras 13 e 33, da   A solenidade de posse foi realizada no último dia 01 de junho deste ano.
Em seu discurso de posse o Des. José Gomes Pereira  reverenciou os nome dos dois grandes homens que ocuparam as cadeiras acadêmicas que ora estão sendo assumidas: José Francisco Dutra e Mathias Olímpio de Melo. 
O patrono da cadeira 33, ocupado por Lirton Nogueira Santos, fora integrante da “Fraternidade Florianense”, tendo assumido o primeiro malhete daquela venerável loja, em 24 de junho de 1933, quando instituiu um “livro de ouro”, objetivando angariar donativos para a construção do Templo, inaugurado em 11 de janeiro de 1935.
Mathias Olímpio de Melo, patrono da cadeira nº 13, assumida pelo Des. José James, nasceu na Vila de Nossa Senhora da Conceição, atualmente Barras do Maratoã, em 1882 e falecido em Teresina em 1967. Bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Recife em 1904. Terminado o curso de direito, regressou a sua terra natal, sendo nomeado Promotor Público de Teresina; Secretário de Governo em três administrações no Piauí; Governador do Estado, eleito sob a legenda do Partido Republicano, a partir de 1º de julho de 1924, para mandato de quatro anos.
Mathias Olímpio combateu o banditismo com firmeza e resolução, restabelecendo a ordem pública. O Piauí teve ainda, no seu Governo a invasão do seu território pela famosa coluna Prestes, chefiado por Luiz Carlos Prestes, Juarez Távora, Cordeiro Farias, Siqueira Campos, João Alberto e outros revolucionários. Teresina ficara em estado de sobressalto, cheia de medo e insegurança.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CONFERÊNCIA "RESPONSABILIDADE JURÍDICA DO JORNALISTA"


Juiz Roberto Veloso

Na próxima sexta-feira, às 9h, no auditório da Justiça Federal, o Juiz Federal Roberto Carvalho Veloso, Presidente da Associação dos Juízes Federais da 1ª Região, ministrará conferência sobre a "Responsabilidade Jurídica do Jornalista".
O encontro encerra o curso "Judiciário, Mídia e Democracia", realizado pelo Judiciário no Estado do Piauí, por meio da Rede de Solidariedade CenaJus, em parceria com a Universidade Federal do Piauí e instituições da Mídia.
A programação dos painéis contemplou especialistas nas áreas de Direito e Jornalismo, tendo sido discutido temas atinentes ao Sistema Judiciário e Mídia, com painéis apresentados pelo Juiz Federal Diretor do Foro Carlos Brandão e pelos professores Mike Stricklin – Doutor em Comunicação pela Universidade de Iowa e Gustavo Said – Doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos.
Inscrição gratuita para a conferência de sexta.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Carlos Cardoso e Elmar



8 de junho

CAMPOS DE FUTEBOL

Elmar Carvalho

Logo ao chegar ao patronato, procedente de Teresina, seguindo em direção à casa de meus pais, situada na rua do Estádio, naquelas imediações, notei a novidade. O terreno baldio, ao lado do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco, apresentava seis postes com refletores, três em cada lateral. Joguei bola, quase diariamente, nesse terreno, no início de minha adolescência. Alguns anos depois, quem o comprou o murou, mas nunca ergueu nenhuma edificação em seu interior. Sem uso, sequer por algum tipo de esporte, matapasto, matagal e ervas daninhas tomaram de conta do imóvel. Ao ver esse local, onde tantas vezes joguei futebol, abandonado, fechado ao esporte, sendo pasto de cobras, lagartixas, carambolos, camaleões e outros bichos miúdos, não pude deixar de me recordar do soneto Saudade, de Raimundo Correia, cujo verso inaugural diz: “Aqui outrora retumbaram hinos”. Sentia-me o próprio Jeremias desse poema, a espraiar os olhos tristonhos “sobre a Jerusalém de tantos sonhos”... Tudo passou, como diz o texto poético.

Num país em que o poder público pouco investe em equipamentos de esporte e de cultura para a ocupação e entretenimento dos jovens, tirando-os do ócio, que muitas vezes é mau conselheiro, o chamado futebol de várzea (ou dos terrenos baldios) é que permitiam a prática futebolística, integrando as comunidades, consolidando o companheirismo e a amizade. No meu livro O Pé e a Bola, em que tratei da história do futebol em Campo Maior e Parnaíba, tive a oportunidade de dizer: “Nos campinhos de várzea ou nos encravados em terrenos baldios, havia memoráveis partidas de treinamento ou até mesmo torneios e campeonatos amadores. Essa prática saudável do futebol certamente contribuía para afastar a meninada do ócio, que muitas vezes é mau conselheiro, e concorria para afastar esses menores das traquinagens e vandalismos, e principalmente do cometimento de atos infracionais de mais graves consequências, hoje tão comuns nas grandes e desumanas cidades. A “pelada” suburbana servia para provocar a interação entre os garotos, eliminando as discriminações raciais, sociais, religiosas e econômicas, através da sociabilidade desse esporte coletivo. Infelizmente, em decorrência do êxodo rural, do crescimento desordenado das cidades e da especulação imobiliária, entre outros fatores, esses campos de futebol vão sendo sufocados e desaparecendo”.

Quando morei na rua Capitão Félix (rua do Estádio), em minha adolescência, joguei futebol sobretudo no campinho do Colégio Estadual, que hoje leva o nome do professor Raimundinho Andrade, e nos campos situados perto do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco e da casa do tenente Jaime da Paz, numa prainha de alvíssima areia, à margem do Açude Grande, que na época não era muito poluído. No início, eu preferia este último, na orla arenosa do açude, pois me permitia arquitetar “pontes” e ensaiar saltos ornamentais, verdadeiras pulutricas e aéreas acrobacias, cujas quedas eram amortecidas por sua areia, além de que tinha a vantagem adicional de nos proporcionar um saboroso banho após o o jogo.

Depois, em virtude de minha amizade com o Otaviano Furtado do Vale (irmão do grande craque Augusto César), que era meu colega de classe no Colégio Estadual, passei a jogar com mais assiduidade no campo ao lado do Leopoldo Pacheco, onde ele era o cacique e dono da bola. Contudo, ele não precisava ser o proprietário da pelota para ter o seu lugar assegurado, pois além de atleta habilidoso, era aguerrido, lutador, e um verdadeiro líder futebolístico. O Otaviano, conforme disse no referido livro, era “jogador rápido, hábil e vigoroso, que transitava pela defesa e pelo ataque, funcionando como um coringa e líbero, com atuação predominantemente pela lateral esquerda; era uma espécie de capitão dos dois times, mas tinha o defeito de não gostar de perder, por mais amistosa que fosse a partida”. Nas derrotas, ele não era nada amistoso.

Por tudo isso, atropelado por essas emoções, após ter degustado uma gostosa traíra no boteco do Cacheado, localizado no outro lado da cidade, após o bairro Flores, à margem da estrada que vai para Barras, fui em companhia de meu irmão Antônio José e do meu amigo Carlos Cardoso, verificar as “torres” de iluminação do campo do Leopoldo Pacheco, que chamo, brincando, de Estádio Otaviano Furtado do Vale. Foram colocadas traves metálicas e uma camada de areia, além de haver sido feita a sua demarcação lateral. Fiquei com certa nostalgia, por causa desses melhoramentos, sobretudo da colocação de areia.

É que, no meu tempo, esse campo era terrível para um goleiro, pois seu terreno era de piçarra, que funcionava como uma verdadeira lixa, a arranhar e mesmo arrancar a pele dos atletas, além de o solo ser duro, o que não favorecia o amortecimento em caso de quedas, acidentais ou voluntárias. Nos três campos referidos, com maior ou menor frequência, jogavam bola, no início da década de 1970, os atletas Otaviano, Carlos Cardoso, Antônio Francisco Sousa, Hugo Reis, Valdinar Cardoso, Nena, Xixá, Cajuí, Assis Capucho, Dragão e Losa, entre outros. Todos ou quase todos foram embora de Campo Maior ou já foram convocados pela “indesejada das gentes”, no dizer de Manuel Bandeira, e partiram para a eternidade, onde jogam futebol em algum campinho de várzea, encravado nas imensas campinas do infinito.



SAUDADE


Raimundo Correia

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...

terça-feira, 7 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO





Vespasiano Ramos


7 de junho

O PANTHEON DE CAXIAS

Elmar Carvalho

No domingo, dia 29 de maio, estive em Caxias – MA, aonde fui levar meu filho João Miguel para fazer concurso do TRE. Já estivera nessa cidade uns treze anos atrás, em viagem de lazer. Mais uma vez fui ao balneário Veneza, que na verdade é a vertente em que nasce o Itapecuruzinho, afluente do Itapecuru, um dos rios emblemáticos do Maranhão, cantado pelos seus poetas. Apesar do longo tempo decorrido, o poder público nada fez para embelezar e urbanizar essa nascente e local de lazer, exceto o início da construção de bares e restaurantes mais adequados ao turismo.

Além da forte ligação comercial que Caxias sempre teve com o Piauí, desde o período provincial, dois fatos históricos a ligam ao nosso estado. Segundo o insigne historiador padre Cláudio Melo, o seu idealizador é o marechal de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador de São Miguel do Tapuio e Campo Maior, no Piauí, e de São Bernardo, no Maranhão, onde encerrou os seus dias; seu filho Miguel de Carvalho e Aguiar é um dos fundadores de Barras – PI. Após o término da Batalha do Jenipapo, em Campo Maior, em que teve uma vitória de Pirro, inclusive tendo grande parte de sua bagagem bélica sido apreendida pelos heróis nacionalistas, João José da Cunha Fidié resolveu seguir para Caxias, onde se refugiou e tentou resistir, tendo fixado seu quartel no Morro do Alecrim. Todavia, terminou sendo sitiado e vencido pelos combatentes do Piauí, Ceará e Maranhão, que não lhe deram trégua. Nesse local existe o Memorial da Balaiada; não sei se existem peças e documentos sobre a luta contra Fidié.

Andando pela cidade, flagrei o poeta Gonçalves Dias a declamar seus versos, lavrados numa folha de papel que segurava, para uma praça deserta, encarapitado no topo do pedestal de sua estátua. Apenas eu, em meu íntimo, aplaudi o poeta. Ali perto, na praça de uma igreja centenária, vi uma estátua de N. Senhora, protegida por uma redoma de vidro. É que os pássaros e os vândalos não respeitam as esculturas e as obras de arte; os primeiros através de suas necessidades fisiológicas, e os segundos, mediante o uso de sprays ou de instrumentos que lhes danificam e mutilam. Há mesmo poetas que não querem essas homenagem, para que as aves não lhes sujem a cabeça esculpida.

Logo ali perto, no centro histórico, vi um casarão fechado, já um tanto em ruínas. No beiral, que outrora deveria ter sido belo, equilibravam-se árvores e trepadeiras, estas no bom e literal sentido do vocábulo. Sem dúvida, eram sinais ostensivos de abandono. Vi outros sobrados que também apresentavam fissuras, desbotamento de tinta e deterioração do reboco, que são as chagas, os achaques e reumatismo dos velhos prédios, abandonados pelos donos ou pelos responsáveis pelo espólio, no caso de complicados, turbulentos e infindáveis inventários. Nota-se que já foram belos, sobranceiros, quase soberbos em sua época de fastígio, quando os capitães da indústria e do comércio ditavam suas ordens e promoviam suas festas faustosas.

No meu périplo caxiense, encontrei o prédio de extinta fábrica têxtil, que outrora fora símbolo de poder e de orgulho, com os seus operários e administradores na azáfama do dia a dia. Como os engenhos do romance de José Lins do Rego, o seu fogo de há muito já era morto. Todavia, um penacho de nuvem por detrás da alta e soberba chaminé, que, como uma torre de Babel, parecia querer desafiar o céu, provocou-me uma ilusão de ótica, dando-me a impressão de que ainda soltava as suas últimas baforadas de fumaça, e eu tive a ilusão de que os operários ainda teciam as peças de pano, e que os teares ainda se movimentavam com seus dedos de fiadeiras mecânicas. Contudo, as plantas que nasciam na boca da chaminé me trouxeram de volta à triste realidade, e eu tive a nítida certeza de que o facho de vida da fábrica já estava morto e emborcado. Também em Caxias existiu famosa indústria de óleo de coco babaçu, já inativa há longos anos. Não pude deixar de me lembrar da fábrica têxtil de Teresina, onde hoje funciona uma loja do Armazém Paraíba, e das grandes indústrias de óleo do Piauí, como a Moraes S. A., a Livramento e a Gecosa, que foram sendo devoradas pelas indústrias mais modernas, e que usavam outros insumos e matérias primas mais rentáveis.

Por fim, cheguei à Praça do Pantheon, de belo, justo e adequado nome. Ao longo de seu quadrilátero, vi os bustos dos filhos ilustres de Caxias. Lá estava Gonçalves Dias, a que já me referi, um dos maiores poetas do Brasil, um verdadeiro homem de ciência, que se orgulhava de ser o amálgama de três raças: a indígena, a negra e a branca. Amargou o amor interdito por Ana Amélia, mas que lhe rendeu excepcionais versos líricos, que ainda hoje nos encantam. Lá estava o poeta Vespasiano Ramos, que concebeu famosos sonetos, que eram decorados e recitados nos saraus e nas conversas, seja de intelectuais, seja de botequim, dentre os quais o celebérrimo Samaritana. No Pantheon, mudo em seu pedestal, contemplei a imagem de Coelho Neto, hoje quase esquecido pelos historiadores da literatura brasileira, talvez por causa dos ataques ferrenhos de próceres do modernismo, que o crucificaram sem dó nem piedade. Segundo Josué Montello, o grande escritor preferiu recolher-se ao silêncio, sem revidar às bordoadas que lhe foram atiradas. No entanto, no seu auge, era um dos mais ativos e mais famosos escritores. Ficou com a pecha de ser um parnasiano da prosa, de ter um estilo excessivamente rebuscado. Entretanto, talvez volte a ser reabilitado, pois não há dúvida de que escreveu belos textos, e muitos de seus contos e romances hão de ficar, com o seu estilo rigoroso e castiço.



Não conhecia o outro grande vulto do Pantheon, o Dias Carneiro. Pesquisei na grande rede, mas nada pesquei que me desse segurança. Fiquei na dúvida sobre se seria o prefeito e industrial João Paulo Dias Carneiro, ou se seria o governador Antônio José Dias Carneiro, que era um bom homem, partidário da abolição gradual da escravatura, ou se seria o poeta e industrial Francisco Dias Carneiro. Ao que tudo indica, todos mereceriam figurar no Pantheon, mas um busto é individual, e não tricéfalo, de modo a poder representar os três. Portanto, para dirimir essa dúvida, recorri, através de e-mail, ao jornalista Lima Coelho, de quem recebi a honra de ter contos de minha autoria publicados em seu importante portal, e ao historiador Renato Meneses, que me informou que “trata-se do industrial e poeta Francisco Dias Carneiro o busto exposto na Praça do Pantheon. Fundador da Sociedade Industrial Caxiense, constituída em 1884 e fundada em 1888”. Vi apenas um poema desse último vate e capitão de indústria, mas considero que ele cantou belamente os rumores e as ramagens do Itapecuru, em versos sonoros, melodiosos, refertos de imagens e sentimentos.  

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Centenário de nascimento de Afrânio Coutinho e algumas reflexões à parte


CUNHA E SILVA FILHO

Assisti, ontem, dia 30, a uma homenagem prestada a Afrânio Coutinho numa dos auditórios do Instituto de Letras da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Comemorava-se data do centenário do seu nascimento. O escritor e Membro da Academia Brasileira de Letras nasceu em Salvador, Bahia, em 1911 e faleceu no Rio de Janeiro em 2000.
Foi convidado pelo Departamento de Letras daquela universidade a fim de fazer uma palestra alusiva à data o filho do escritor, Eduardo de Faria Coutinho, professor titular PH.D de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A apresentação do palestrante coube ao ensaísta e professor Roberto Acízelo de Souza, lecionando hoje na UERJ. Acízelo, segundo relatou no evento, foi aluno de Afrânio Coutinho décadas atrás.
Eduardo Coutinho, por sinal, conhecia de vista nos meados dos anos sessenta quando éramos alunos de graduação no curso de letras da conceituada Faculdade Nacional de Filosofia. Só depois, cheguei a conhecê-lo mais de perto. É pessoa educada e acatado ensaísta e pesquisador na sua área. Fez mestrado e doutorado em universidades americanas de renome. Por conseguinte, ninguém mais indicado para fazer uma exposição sobre o papel sobranceiro que seu dileto pai representou para os estudos literários universitários no país.
Na palestra que de improviso fez (embora tenha afirmado que havia preparado um texto) para um auditório lotado, Eduardo Coutinho revelou abalizado conhecimento da vida profissional do pai e ressaltou, pelo menos, três aspectos que justificariam o respeito e a admiração que gerações de estudantes de letras dispensavam a Afrânio Coutinho. Muitos desses ex-alunos se tornaram também, como o próprio filho, eminentes professores do nosso ensino superior.
O primeiro aspecto diz respeito ao pioneirismo da ação pedagógica exercida pelo critico, historiador literário e ensaísta Afrânio Coutinho ao divulgar, no meio acadêmico-universitário, o chamado new criticism, de procedência norte-americana logo que o crítico regressou ao país e retomou sua atividade docente. Sem dúvida alguma, a novidade de abordagem crítica repercutiu como divisor de águas entre o que os estudos literários eram até então e o que começaram a ser daí por diante.
Com seus estudos realizados na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, aproveitando sua permanência de 1942 a 1947, Afrânio Coutinho pôde entrar em contato com grandes mestres norte-americanos e europeus com os quais desenvolveu sólida formação teórica nos domínios da teoria literária, historiografia literária e crítica literária. Foi lá que conheceu o teórico René Wellek, Roman Jakobson. Com o primeiro fez amizade e manteve correspondência.
Coutinho, como diretor da Faculdade Letras da UFRJ, no final da década de sessenta e início de setenta, convidou, em diferentes oportunidades, aqueles dois scholars a proferirem conferências no auditório daquela faculdade quando ainda se localizava precariamente na Avenida Chile, Centro do Rio de Janeiro.
De posse dessa formação em bases atuais, de regresso ao país, Afrânio Coutinho procurou reestruturar o nosso ensino de literatura e métodos de análises e interpretação da obra literária hauridos nos Estados Unidos. Por certo encontrou vários obstáculos para que suas idéias se materializassem.
Afrânio Coutinho era formado em medicina, porém nunca exerceu efetivamente essa atividade, porquanto sua vocação, ainda quando estudante de medicina, o dirigia aos estudos literários e históricos, chegando mesmo a lecionar, em Salvador, no curso secundário, literatura e história Já em 1941 fora convidado a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.
Sobretudo após a estadia na América, sua carreira docente deslanchou, pois, já em 1947, foi estabelecer-se no Rio de Janeiro quando o nomearam catedrático interino do Colégio Pedro II na disciplina literatura. Em 1951, faz concurso para catedrático efetivo de literatura daquela instituição de ensino defendendo a tese Aspectos da literatura barroca, estudo que lhe deu notoriedade e que, nos anos futuros, o tornaria um respeitado especialista, até mesmo no exterior como citação bibliográfica na conhecida obra Teoria da literatura de René Wellek e Austin Warren e na indispensável obra Teoria literária de Vítor Manuel de Aguiar e Silva.
Em 1951, ainda foi professor da Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette e nela fundou a cadeira de Teoria e Técnica Literária sendo pioneiro na implantação dessa disciplina no país.
Em 1958, prestou concurso para livre docente de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil que, depois, passou a denominar-se Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com a livre docência, obteve o título de doutor em letras clássicas e vernáculas. Aposentando-se Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) da cátedra de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1963, Coutinho tornou-se professor catedrático interino daquela disciplina. Em 1965, Afrânio Coutinho foi aprovado em concurso para professor catedrático efetivo, preenchendo, assim, a vaga deixada por Alceu Amoroso Lima. Sua carreira de professor universitário estava agora consolidada só se interrompendo com a sua aposentadoria em 1980.
É preciso não esquecer que essa ação pedagógica visando a mudar práticas conservadoras no ensino de literatura e na crítica literária no país não se fez pacificamente. Coutinho ganhou desafetos notadamente no âmbito da crítica literária. Sua veemência revestida do propósito de divulgar os princípios e métodos do new criticism não deu trégua a seus opositores. Polemizou desabridamente com Álvaro Lins, conforme se pode ver da leitura do livro No hospital das letras (1963).
Entretanto, tanto Álvaro Lins quanto Afrânio Coutinho constituem duas personalidades de intelectuais que deram uma forte contribuição à cultura brasileira. Por terem formação intelectual diversa, embora fossem contemporâneos cronologicamente, infelizmente, exageraram e cometeram injustiças mútuas no desforço polêmico que só o tempo e o distanciamento poderão ser melhor compreendidos em seus papéis e nas suas respectivas visões crítico-teóricas. Álvaro Lins tipificou um modelo de crítico de formação humanística com um impressionismo original e de grande vocação para o julgamento de obras.
Por outro lado, Afrânio Coutinho representa a reação crítica ao mau impressionismo, sobretudo baseado no chamado “achismo” no julgamento de obras. O new critcism, sem desprezar completamente os aspectos subsidiários da obra, fundamentados no contexto histórico-social-biográfico, desloca a atenção do analista da obra para os seus elementos constituintes, de base supostamente científica, assentados no objeto da análise da obra, ou seja, na autonomia do texto literário que somente o conhecimento teórico pode propiciar ao crítico: a linguagem, o conhecimento interno de que se compõe uma obra, o exame de suas partes, sua visão da vida, suas técnicas suas estratégias, sua formalização em gêneros, suas especificidades estilísticas, ou como resumiria T.S. Elliot, a autonomia do fenômeno literário é o pilar primordial do entendimento da obra ( apud Martin Gray) Quer dizer, ao historicismo prevalente da crítica tradicional preferiu-se a close reading, na qual o texto seja visto como uma estrutura em que as partes formadoras de uma obra permaneçam num estado de “tensão de paradoxo”, ‘ironia” e “ambiguidade”, “palavras”, símbolos, “imagens” (Martins Gray, ibidem)
É bem verdade que, no caso de Álvaro Lins, com rigor, não poderíamos rotulá-lo de “impressionista”, mas de um crítico em permanente inquietação com novas aberturas e perspectivas de tratar o fenômeno literário., i.e., um critico arguto “...muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral” (Alfredo Bosi).
Álvaro Lins não abomina o new criticism anglo-americano Ele se indispunha contra o exagero de alguns seguidores dessa corrente crítica, os quais passaram a dar uma sensação de que a obra literária seja um objeto que possa ser dissecado com frieza e excesso de cientificismo, meramente como uma abordagem mecanicista que afastasse o crítico, o professor de literatura, e o leitor do que, mais tarde, já no período pós-estruturalismo, alguns teóricos (à frente Todorov) chamariam de análise dissociada do “prazer da leitura”.
Afrânio Coutinho era homem de temperamento forte e combativo, mas capaz de atitudes reconhecidamente humanas e corajosas – sobretudo quando diretor da Faculdade de Letras nos anos difíceis da ditadura militar. Não poucas vezes lidando com agentes da repressão, sempre que possível, procurou proteger alunos ideologicamente adversários da ditadura implantada ao país.
O segundo aspecto digno de anotação na carreira de Afrânio Coutinho foi seu pertinaz trabalho de educador e de organizador da vida acadêmica universitária. Nesse ponto, seu esforço foi igualmente notável. Conseguiu desmembrar o curso de letras da Faculdade Nacional de Filosofia transformando-o em Faculdade de Letras da UFRJ, com a ajuda, conforme assinou Eduardo Coutinho na palestra, de professores como Celso Cunha, Thiers Martins Moreira e outros. Isso foi uma decisão nova e original no ensino de letras do Rio de Janeiro que provavelmente deve ter se alastrado por outras regiões do país. Em suas muitas viagens ao exterior ( Estados Unidos, Alemanha e França), países nos quais também foi professor visitante, Afrânio Coutinho examinou minuciosamente as estruturas burocráticas e curriculares de cursos de humanidades que resultaram na formação de Faculdade de Letras naqueles lugares visitados. Daí, pois, aquele desejo de aqui implantar uma faculdade de letras.
Claro é que nessa mudança burocrático-administrativa muita coisa deixou, no inicio, a desejar, sobretudo na infraestrutura parte burocrática, como, por exemplo, a questão da implantação de créditos, os períodos de inscrição nos cursos que, por vezes, prejudicavam a vida acadêmica de alunos que não dispunham de horário integral para fazer o curso, atrasando-os no itens cruciais que são a conclusão dos créditos para a obtenção dos diplomas de bacharelado e licenciatura.
Contudo, no plano pedagógico, como diretor da Faculdade de Letras, o professor Afrânio Coutinho revelou-se sempre dinâmico e progressista, compensando, desse modo, deficiências pontuais de natureza burocrática.. Exemplo disso foi a criação dos cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado, os quais obrigavam,, pela necessidade de sua continuidade e aperfeiçoamento, os próprios professores da Faculdade de Letras, que ainda não tinham mestrado pelo menos, a fazerem o mestrado e doutorado, ou mesmo, em alguns casos, a procurarem realizar tais cursos no exterior. Com os anos, os cursos de pós-graduação stricto sensu, coordenados por ele, se tornaram um centro de alta qualidade no país. Realizações como essas só dignificam a trajetória bem-sucedida de Afrânio Coutinho na vida acadêmica brasileira, em especial no âmbito dos estudos e ensino de literatura. Finalmente, foi também de sua iniciativa a criação da Biblioteca a Faculdade de Letras, considerada hoje a melhor de que o Rio de Janeiro dispõe na área de humanidades.
Seu dinamismo intelectual também se refletiu no plano pessoal, como é exemplo a dedicação e amor aos livros (segundo seu filho, era um leitor voraz), reunindo, ao longo da vida, uma quantidade assombrosa de obras, de documentos, de arquivos, pastas, manuscritos que ia adquirindo e que se transformou numa das mais preciosas bibliotecas particulares. Foi dessa biblioteca, de seu valioso acervo, que fundou a sua Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), espaço cultural destinado a uma multiplicidade de eventos culturais, com maior ênfase para a divulgação e conhecimento da literatura brasileira. Com a sua morte, em 2000, a biblioteca pessoa do escritor foi vendida e incorporada à Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Nada mais justo que o fundador da Faculdade de Letras, pelo menos no plano material, se juntasse ao seu espaço de direito e de fato.
O terceiro aspecto da vida desse crítico e educador está fortemente conexionado com a sua produção literária e às suas iniciativas de poder legar à posteridade relevantes realizações no campo editorial. Foi ele quem dirigiu, orientou e planejou a ambiciosa obra Literatura no Brasil, em seis volumes (1968-1971), trabalho empreendido por uma equipe de especialistas de diversas orientações críticas, precedido cada volume de uma introdução do organizador. Essas várias introduções lhe renderam uma das melhores obras de sua produção intelectual, que é a Introdução à literatura brasileira, já traduzida para o inglês e o espanhol. Sobressai nesta obra a riqueza da bibliografia criteriosamente selecionada pelo autor, bibliografia abrangente, atualizada e fonte de consulta obrigatória para o estudioso de letras.De sua produção ressaltaria a obra A tradição afortunada, os seus estudos do Barroco, a Coleção Fortuna Crítica por ele dirigida e editada pela Civilização Brasileira, reunindo importantes textos críticos escritos por grandes nomes da literatura brasileira, além de incluir introdução ao volume, cronologia da vida e obra do autor selecionado e bibliografia ativa e passiva. Mencionaria ainda a sua prestimosa e utilíssima Enciclopédia de literatura brasileira, em 2 volumes (2001)

Sua atividade de crítico militante e combativo na imprensa (Diário de Notícias, Última hora, em livros e revistas especializadas foi fecunda e incessante. Seus diversos ensaios críticos merecem ainda ser lidos e pesquisados por estudiosos da literatura brasileira e, last but not least, seus criteriosos trabalhos de organizador de edições críticas de diversos escritores brasileiros do passado que, com suas judiciosas introduções, compõem um retrato intelectual desse escritor que, durante toda a existência, se empenhou, de corpo e alma, na defesa dos valores estéticos da produção literária brasileira, de um ensino atualizado e da profissão e valorização do professor brasileiro em todos os níveis.Seu centenário de nascimento é digno de comemoração e sua obra está ainda a merecer justificada atenção da intelectualidade brasileira.

Referências:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 38 ed. Cultrix: São Paulo, 2001, p. 491-492
GRAY, Martin. A dictionary of literary terms. Second Edition, 3rd impression, 1994,. Longman York Press, p. 195-196.
LINS, Álvaro. Teoria literária. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970, p. 119-150.

sábado, 4 de junho de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO



JÚLIO ROMÃO DA SILVA

Júlio Romão da Silva nasceu em Teresina em 22/05/1917. É jornalista, poeta, etnólogo, teatrólogo, bacharel em Letras, em História e Geografia. Publicou: “Evolução do Estudo das Línguas Indígenas do Brasil, entre outros. No teatro: “José, o Vidente ou as Videiras do Faraó” – Prêmio Academia Brasileira de Letras.

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

Elmar Carvalho


XXXV

Nos justapostos cubos suspensos
em forma de cruz, um Cristo
dolorido retorcido pelos séculos
ainda sente as mesmas dores
dos cravos, da lança e da maldade
humanamente desumana.
Uma Madona solitária contempla
triste rainha em xeque –
mate no chão de xadrez
a agonia do “corpus hipercubicus”.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A LIBERDADE SONHADA


ALCIONE PESSOA LIMA

Por anos tendi a me tornar semelhante aos meus pais.
Mas, de olhos abertos, esforço-me por alcançar a espécie de grandeza da felicidade que me é própria.
Passei a me definir em todo esse emaranhado em que se revela o mundo.
E adentro a portas diferentes...
Há sorrisos e lágrimas, como de um mortal.
Descubro um caminho a cada dia
Cheio de temores e de esperanças.
Uma realidade tão óbvia.
Sinto os perigos que são possíveis conjurar.
Há mãos que me afastam de grandes males e outras que apenas observam o meu caminhar.
Sou fruto de muitos acontecimentos: raça, solo e clima.
Mesmo preso a um ciclo fatal,
Percebo asas querendo sobrevoar os vastos limites.
Há algo de poderoso em mim!
E a servidão que abandono é a ponte para alcançar toda a liberdade que almejo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Anita não perdoa, morde

Belinha, paz e amor

2 de junho

ANITA ATACA NOVAMENTE

Elmar Carvalho

Continuando a ler os diários titulados Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, cujo exemplar me foi emprestado pelo professor Manoel Paulo Nunes, na anotação referente ao dia 10 de fevereiro de 1995, li interessante trecho, que faço questão de transcrever literalmente: “Vá lá uma pessoa entender os cães. Desde que apareceu aqui a cadela Rubia (mudamos-lhe o nome, este é o que lhe vai bem à figura), Greta, por ciúme, despeito ou descabida inveja, declarou-lhe guerra total. Os escarcéus que as duas têm levantado nesta casa, só vistos e ouvidos. Por vontade de Rubia, discreta e tranquila, haveria paz, mas Greta não lhe deu, em todo este tempo, um minuto de descanso. Ladrava-lhe de manhã à noite, focinho contra focinho, irritada porque a outra se deitava, irritada porque se chegava a nós, irritada porque fazíamos festas, irritada porque lhe púnhamos comida. Já dizíamos: 'Isto não pode continuar, a ver se alguém quer ficar com a Rubia', o que seria a maior das injustiças, uma vez que a malcomportada era a outra – e eis que hoje de manhã viemos dar com as duas na mais bela brincadeira que imaginar se pode, qual de baixo, qual de cima, fervorosamente empenhadas num jogo que só elas devem conhecer. Agora mesmo, enquanto escrevo, aqui estão as duas, a rolar, caladas e felpudas, sobre os tapetes, felizes, apressadas, insistentes, como se quisessem recuperar o tempo que haviam perdido em vãs querelas. Um conflito que tinha visos de vir a terminar com a morte ou o afastamento de uma das contendoras, está resolvido. Não sei como. Que conversas terão tido estas duas a noite passada, enquanto a casa dormia? Se perguntasse a Pepe o que pensa ele do caso, sendo cão também ele, estou certo que me responderia: 'Eu sou homem, de mulheres não percebo nada...'”

Agora, remeto o leitor mais curioso a meu registro deste diário relativo ao dia 17 do corrente mês, em que falo dos temperamentos díspares de nossas cadelas Anita e Belinha. A primeira veio morar conosco há mais tempo, quando ainda era bebê, ao passo que a segunda veio mais tarde, e já adulta, de sorte que a primeira sempre teve ciúme da outra e nunca a aceitou de bom grado. A situação piorou recentemente, quando a Pantica foi embora, e a Belinha passou a dormir no mesmo quarto em que dorme a Anita. Como expliquei na referida anotação, a Belinha é mansa, tímida, humilde, pratica a política da boa vizinhança e da resistência pacífica, evitando os confrontos e até mesmo fugindo, quando possível, dos enfrentamentos físicos. Hoje, após o almoço, trouxe a pequenina Anita para o meu quarto, nos braços, uma vez que ela, envelhecida e já um tanto gordinha, não mais consegue subir a escada.

Quando ela ouviu os passos da Fátima a subir os degraus, postou-se à porta, como se estivesse à espreita ou de tocaia. No momento em que sua desafeta passou pelo umbral, avançou contra ela, e a atacou com vontade, tendo a outra que se defender. Minha mulher interveio, levantando a Belinha. Porém, a fúria da Anita era de tal monta que pulou e mordeu a parte traseira da rival, ficando com a boca cheia do pelo arrancado da adversária. Portanto, enquanto as cadelas do Saramago terminaram se apaziguando, a rolarem ludicamente no chão, como velhas amigas, a Anita parece ter feito voto de ódio eterno a sua semelhante, o que me faz lembrar o título de um filme de faroeste, do meu tempo de garoto: “Django não perdoa, mata”, estrelado por Franco Nero. Penso até, como uma espécie de homenagem à rainha do cangaço, em mudar o nome de Anita para Maria Bonita, que seria muito apropriado uma vez que ela é bonita e “braba pra cachorro”, no caso, cachorra. Pensando bem, na verdade o seu nome é muito adequado, porquanto Anita foi uma mulher corajosa, de fibra, na qualidade de companheira de Garibaldi, herói gaúcho e italiano.   

PARNAÍBA - 300 ANOS DE HISTÓRIA


Programação Alusiva aos 300 Anos de História da Parnaíba
Dia 06/06 : Segunda-feira às 08 h
Local : Ermida de Nossa Senhora de Monserrathe
- Abertura das Festividades com Instalação do Memorial “ Parnaíba 300 Anos”
- Apresentação da Banda de Música Municipal Simplício Dias
Outros Locais : Visitações à sede do IHGGP , e ao Memorial Humberto de Campos, na sede da Academia Parnaibana de Letras (APAL) .
Dias 09/06 : Quinta-feira - Auditório da Associação Comercial de Parnaíba
Local : Porto das Barcas
Horário: 08h30min
- Solenidade alusiva aos 300 anos de história da Parnaíba
- Lançamento de livros de autores parnaibanos
- Lançamento do concurso de redação ¨Parnaíba 300 anos”
- Premiação do vencedor da logomarca ¨Parnaíba 300 anos ”
- Exposição de Artes Plásticas com artistas da terra
- Abertura da Feira Cultural.
Horário: 10h30min
- Abertura do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentações culturais.
Horário : 14 h
- Continuação do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentações Culturais com artistas da terra.
Horário: 19 h
- Feira Cultural
- Show com artistas da terra
- Desfile de Modas
- Exposição de Artes, Artesanato e Culinária Regional.
Dia 10/06 : Sexta-feira
08h30min
Local : Auditório da Associação Comercial de Parnaíba
- Continuação do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentação Cultural;
- Atendimento à população com serviços comunitários
- Continuação da Feira Cultural no Porto das Barcas.
14h30min
- Continuação do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentação Cultural
17h - Monumento da Independência no Piauí – Praça da Graça
- Apresentação da peça teatral “ Auto da Independência do Piauí “ .
18h - Sede do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba
- Sarau (música, teatro, dança, culinária e poesia)
18h - Porto das Barcas
- Continuação da Feira Cultural ¨Parnaíba 300 anos¨ e show com artistas parnaibanos.
19h - Auditório da UFPI
- Apresentação do 1º Censo de Cultura da Parnaíba.
Dia 11/06 : Sábado
06h - Alvorada com fogos de artifícios em diversos bairros
07h30min - Catedral de Nossa Senhora da Graça: Praça da Graça
- Tedeum Laudamus
08:00 h, Praça da Graça, em frente à Câmara Municipal
- Hasteamento das Bandeiras
08:15 h - Desfile militar em alusão aos ¨ 300 Anos de Parnaíba ¨;
08:45 h - Procissão de Nossa Senhora de Monserrathe, saindo da Matriz de Nossa Senhora da Graça, até a Ermida de Nossa Senhora de Monserrathe, onde a imagem da primeira Padroeira da Parnaíba será entronizada.
09:30 h -Auditório da Associação Comercial de Parnaíba
- Sessão Solene da Câmara Municipal para outorga de comendas
- Lançamento da 4ª edição da Revista Histórica do IHGGP.
- Apresentação da Banda Municipal “Simplício Dias” .
16:30 h – Av. Dr. João Silva Filho (Após Conjunto Betânia)
- Largadas do Passeio Ciclístico “Parnaíba 300 Anos”, e da “Corrida de Rua da Parnaíba 300 anos” , com saídas da Av. Dr. João Silva Filho, na confluência dos Bairros Piauí, Planalto Conselheiro Alberto Silva, e Planalto Monserrathe , com chegadas ao Porto das Barcas .
19:00 h - Porto das Barcas
- Continuação da Feira Cultural ¨Parnaíba 300 anos¨ , e show com artistas parnaibanos
- Entrega das premiações aos vencedores da corrida de rua e sorteios de brindes aos participantes do passeio ciclístico.
Dia 12/06 - Porto das Barcas
08:00 h- Concentração para roteiro dirigido de visitas a pontos históricos e culturais da Parnaíba, entre eles , Ermida de Nossa Senhora do Monserrathe, Instituto Histórico,Solar dos Dias da Silva, Academia Parnaibana de Letras, Museu do Trem, Estação de Floriópolis, e Testa Branca.
Phb, junho/2011.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


1º de junho

FÉRIAS E PERIPÉCIAS CULTURAIS

Elmar Carvalho

Neste meu primeiro dia de férias, saí para resolver algumas coisas. Passei inicialmente no Tribunal de Justiça, para solucionar duas pendências funcionais, onde terminei encontrando o doutor Márcio Mendes de Cerqueira, sempre educado e afável, e que tem invariavelmente uma piada novinha em folha para nos contar. Lembrou-se ele de que no início de minha carreira, quando da inauguração da reforma do prédio do fórum de Oeiras, na gestão do desembargador José Luís Martins de Carvalho, assistira à encenação de meu poema Noturno de Oeiras, feita pelo ator Bonifácio, e que se emocionara com a performance.

Por associação de ideias, lembrou-se de que o espaço aberto, existente no anexo do TJ, construído na gestão do des. Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, poderia ser utilizado em apresentação cultural. Recordei-lhe que nesse “pináculo” do templo a cantora Fátima Castelo Branco já realizara um sarau, em que fomos homenageados este diarista e o des. Albuquerque. Foi um belo e memorável evento lítero-musical. Ia contar-lhe uma piada, mas o Márcio disse que seu pai, o des. Manfredi Mendes de Cerqueira, igualmente sempre bem humorado, já a contara. Portanto, indiretamente, eu já lhe contara a anedota. Sendo ele de família piracuruquense, disse-lhe que havia escrito um texto sobre o saudoso general João Evangelista Mendes da Rocha, seu parente, herói da guerra contra o nazifascismo, no qual eu reivindicava fosse esse militar e escritor homenageado em sua terra natal, que injustamente não lhe reverencia a memória. O Márcio argumentou que eu deveria dar uma palestra sobre esse ilustre patriota, e ficou de falar com seu pai a esse respeito.

A seguir, fui ao gabinete do des. Brandão de Carvalho, presidente da Academia de Letras da Magistratura, de que faço parte, para apresentar-lhe uma sugestão. Após relembrar-lhe que o prédio anexo do TJ fora construído em sua profícua gestão, disse-lhe que o espaço aberto situado em seu topo poderia ser usado em eventos culturais promovidos pela Academia, e sugeri-lhe a realização, bimestral ou trimestralmente, em noite de lua cheia, de sarau lítero-musical. O desembargador pediu-me que eu fizesse a sugestão por escrito, para que ele a submetesse à apreciação dos acadêmicos. No arremete, brincando, eu lhe adverti que o único risco que corríamos era o de que algum confrade pudesse ser lobisomem, que viesse a se revelar no plenilúnio.

Por fim, fui à agência da Caixa Econômica Federal do shopping Riverside, pagar umas dívidas e cumprir uma promessa, que também é dívida. Dirigi-me ao Roosevelt, meu conterrâneo, dinâmico e carismático gerente da unidade. Disse-lhe que vinha pagar a promessa que lhe havia feito, que consistia em dar um exemplar do livro Noturno de Oeiras e outras evocações a uma funcionária oeirense e um do opúsculo |PoeMitos da Parnaíba a um servidor natural de Parnaíba. Roosevelt me falou brevemente de suas realizações e inovações na agência, de seu diálogo constante com os servidores, na busca de melhorar e dinamizar os serviços. Falou-me que era um visitante de meu blog, e aproveitou para divulgá-lo perante umas pessoas que se encontravam presentes.

Mandou chamar os dois servidores a quem eu iria autografar os livros, que eram a Francineide e o Edgard Júnior. A Francineide me falou que sua irmã participara do lançamento de meu livro em Oeiras, na qualidade de aluna do IBENS – Instituto Barros de Ensino, e que na agência havia uma outra servidora oeirense, que era homônima, sobrinha e afilhada de Celina [Vieira Martins], regente da Orquestra de Bandolins de Oeiras. Pedi-lhe chamasse a colega, porquanto no texto Minha Geografia Oeirense eu homenageara a maviosa orquestra e sua maestrina. Foi uma verdadeira solenidade cultural relâmpago, feita ao sabor das circunstâncias e do improviso. Para coroar tudo, paguei minhas contas e me fui embora contente e satisfeito.