sexta-feira, 12 de maio de 2017

DEPOIMENTO SOBRE JOSÉ HAMILTON FURTADO CASTELO BRANCO


DEPOIMENTO SOBRE JOSÉ HAMILTON FURTADO CASTELO BRANCO

               Alcenor Candeira Filho

     Minha amizade com José Hamilton Furtado Castelo Branco remonta à nossa meninice, ele mais novo do que eu três anos.
     Nos anos 60, quando não havia ainda em Parnaíba curso universitário, implantado em 1969 com a Faculdade de Administração do Piauí, logo incorporada à Universidade Federal do Piauí, fomos estudar em outros centros do país: eu no Rio de Janeiro (curso de direito) e ele em Recife (curso  de engenharia agronômica).
     Durante as férias de julho e de fim/começo de ano fizemos muitas farras, ambos apreciadores de cerveja, como até hoje. Participavam desses encontros etílicos , dentre outros, Renato Diniz Machado, Rossine de Souza Lima,  Weber Mualem de Moraes, Rubem de Oliveira Fontenele  e Gervásio Pires de Castro Neto, que fora seu colega de ginásio no Instituto São Luís Gonzaga, em Parnaíba.
     Já  nesse tempo presenciei  muitas vezes José Hamilton, sob o efeito da boa bramota, bater forte na mesa do bar e bradar: “Um dia serei prefeito desta cidade!”. À época ninguém acreditava no vaticínio. O espirito gozador e brincalhão dele nos levava a crer que a frase não passava de mera fanfarrice. Mas o tempo mostraria que ali já estava escrito nas estrelas que ele viria a ser o recordista no exercício do cargo  de prefeito de Parnaíba, com três mandatos conferidos pelo povo: 1993-1996 pelo Partido da Frente Liberal-PFL, 2005-2008 e 2009-2012 pelo Partido Trabalhista Brasileiro.
     Formado e de volta a Parnaíba, José Hamilton dedicou-se a atividades agropecuárias e empresariais, emprestando ainda a sua inteligência e trabalho à EMATER, à Cooperativa de Leite Delta como um de seus diretores e à Prefeitura Municipal de Parnaíba como secretário municipal de agricultura na primeira administração de Mão Santa (1989-1992), de quem foi sucessor em 1993.
     José Hamilton é descendente da quase milenar família Castelo Branco, cuja mais antiga referência, segundo o notável escritor Renato Pires Castelo Branco no livro OS CASTELO BRANCO D’ALÉM E D’AQUÉM MAR, são os seguintes versos de D. João Ribeiro Gaio, Bispo de Malaca, transcritos na sua HERALDOLOGIA MÉTRICA, - versos esses que nos transportam “à famosa batalha de Ourique, em que D. Afonso Henriques derrotou os mulçumanos a 25 de julho de 1139 [...] quando Portugal ainda não existia como país e o Condado Portucalense, que se limitava entre o Douro e o Minho, era vassalo do rei de Leão”:

       Dos que nos campos valentes
       d’Ourique sacrificaram
       seu sangue onde alcançaram
       fama, mays seus descendentes
       Casteis Branco se chamaram.”

     Filho da professora Albertina Furtado Castelo Branco e do coronel Epaminondas Castelo Branco, José Hamilton herdou do pai, que foi grande líder político em Buriti dos Lopes e em Parnaíba e que exerceu mandato de deputado federal e presidiu a Assembléia Legislativa do Estado do Piauí (que aprovou a Constituição do Piauí em 1946) o gosto pela política.
     Democrata, com convicções políticas socialistas e sempre atento  aos interesses da  maioria marginalizada, - José Hamilton adotou nos três períodos em que governou a cidade uma gestão participativa e desenvolvimentista. Da MENSAGEM DO PREFEITO, publicada 68ª edição do ALMANAQUE DA PARNAÍBA, transcrevo os seguintes trechos:

               “Como resultado de reflexões advindas de nossas
               duas administrações à frente do Executivo Municipal,
               reafirmamos que as soluções para os problemas de Parnaíba
               estão nas mãos dos parnaibanos. O poder público municipal
               precisa agir muito mais como organismo catalisador das boas
               iniciativas em prol do desenvolvimento local, dando à sociedade
               e seus diversos representantes a oportunidade de contribuir,
               de fazerem cada um a sua parte.
                                           [...]
               A concretização de obras estruturantes é uma
               constatação do que estamos afirmando. Alguns exemplos: a
               retomada das obras do Projeto Habitar Brasil, a implantação
               do novo Pronto Socorro e do SAMU; a construção da Unidade de
               Piscicultura, que em poucos anos impactará positivamente  a
               economia local; o novo Mercado da Quarenta que, finalmente,
               dará dignidade à população; a urbanização da praia da Pedra
               do Sal; além da ação estruturante na área  educacional com
               construção de escolas e ampliação de outras”.

     Coerente com esse modo de pensar e contando com a  orientação de dois dois grandes economistas brasileiros, os parnaibanos João Paulo dos Reis Velloso e Antônio de Pádua Franco Ramos, suas três administrações foram repletas de realizações. Numa enumeração não exaustiva, destaco:
     - construção do Mercado da Quarenta em parceria com o governo estadual;
      - retomada e conclusão das obras do Projeto Habitar Brasil, com a construção de blocos de edifícios populares com 200 apartamentos, posto de saúde , escola de ensino fundamental e creche no local;
     - construção da Praça de Eventos Mandu Ladino, que provavelmente se tornou no gênero o maior logradouro público da cidade;
     - construção  de postos de saúde em diversos bairros e do SAMU;
     - recuperação do piso, dos bancos, da iluminação e dos jardins da praça da Graça;
     - construção e ampliação de creches e escolas, destacando-se, no primeito governo, com Francisco de Canindé Correia como secretário de educação,  a construção do CAIC-Escola Mun. Profª Albertina Furtado Castelo Branco e a ampliação da Escola Roland Jacob, justamente as duas maiores escolas municipais;
     - implantação do Conselho Municipal de Educação e do Conselho Municipal do FUNDEF/FUNDEB;
     - qualificação universitária para todos os professores efetivos da rede pública municipal interessados sem graduação em pedagogia plena;
     - implantação do Planejamento Participativo;
     - campanha pela implantação de dois cursos de medicina na cidade (UFPI e IESVAP);
     - instalação do Restaurante Popular;
     - obras de saneamento  básico em 75% da cidade;
     - campanha pela implantação da ZPE de Parnaíba;
     - aquisição de ônibus e micro-ônibus para o transporte escolar;
     - novas instalações para a secretaria municipal de educação;
     - obra de urbanização da orla marítima da Pedra do Sal.
     Tive o privilégio de participar de seus dois últimos governos como secretário de educação.
     José Hamilton é casado com a professora Valéria de Carvalho Castelo Branco, com que tem três filhos e vários netos, exercendo atualmente mandato de deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro-PTB e de presidente desse partido em Parnaíba.   

quinta-feira, 11 de maio de 2017

João enganou-se com joão?

Fonte: Google

João enganou-se com joão?

Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos (*)

Abismo: garimpei/ qual rude garimpeiro/se mais não pude-errei. É este o último terceto do soneto de introdução ao poema “Nas veredas do Grande Sertão”, onde o poeta transformou em mais uma poesia alguns dos mil achados das páginas preciosas de João Guimarães Rosa.

Também garimpei nos escritos deste escritor invulgar, não à cata do poético que sempre existe na sua produção fenomenal - obra capaz de abolir, como nos informam alguns críticos, as fronteiras entre a prosa e a poesia - mas no objetivo de apreciar descrições sobre os pássaros que reputo como verdadeiros encantos da natureza. Criaturas que muitas vezes são presas e viram objeto de tráfico quando deveriam sempre ser livres e protegidas para preservação do Cerrado Brasileiro.  Procurei, com o necessário cuidado, comparar o que encontrei em tão magníficos escritos com o que conheci pessoalmente, nas minhas costumeiras andanças pelo sertão.

Iniciando pela obra-prima, Grande Sertão: Veredas – livro deveras singular e de difícil leitura - pude constatar, dentre outras descrições de rara beleza, as seguintes anotações: “Aquele pássaro mede-léguas erguia voo de pousado no meio da estrada, toda vez ia se abaixar dez braças mais adiante, do jeito mesmo, conforme de comum esses fazem. Bobice dele – não via que o perigo torna a vir, sempre?” “...e os jacús voam para outras árvores, se empoleirando para o sono da noite.” “Eu tinha uma lua recolhida. Quando o dia quebrava as barras, eu escutava outros pássaros. Tiriri, graúna, a fariscadeira, juriti-do-peito-branco ou a pomba-vermelha-do-mato-virgem.  “O birro e o jesus-meu-deus cantavam”  “...bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente.” “Mas mais o bem-te-vi. Atrás e adiante de mim, por toda a parte, parecia que era um bem-te-vi só.” “Era o manuelzinho-da-crôa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea – às vezes davam beijos de biquinquim – galinholagem deles.” –“ É preciso olhar para esses com um todo carinho...” “De todos, o pássaro mais bonito gentil que existe é mesmo o manuelzinho-da-crôa.”

E assim segue, livro afora, curiosas observações sobre estas belezas que cantam, encantam e voam  através das paragens deste  segundo maior bioma da América do Sul, lugar onde a seriema, nos finais de tarde, emite sua cantoria saudosa  que é a voz do Serrado - rica savana que deve ser resguardada para que possa continuar vivo um dos encontros mais agradáveis da natureza: do homem com a avifauna.

Prosseguindo com minha garimpagem através deste universal e infinito sertão rosiano, e depois de vasculhar Sagarana, deparei-me com delicada e interessante, porém um pouco descuidada observação sobre o joão-de-barro - parte do excelente conto Conversa de Bois. Cito-a, para com cautela, comentar: “Um par de joãos-de barro arruou no caminho, pouco que aos pés de Tiaozinho. Galinhando “aos pulos” abrem bico e papo, num esganiço de alarido, mesmo de propósito, com rompante. Arrepicam e voam embora, soprando penas. Marido e mulher.”.

Descuidada porque o joão-de-barro, Furnarius rufous, descrito no parágrafo acima, onde coloquei entre aspas o verbo pular, não pula. Não pula nunca! Ao contrário de outros passarinhos, como o pardal, por exemplo – somente para citar um bem conhecido que só se locomove aos pulos – o joão-de-barro somente sabe caminhar, depressa ou devagar, usando sempre interessantes passadas, como que imitando as pessoas que lhe observam. Já constatei isto pessoalmente, de vista e por intermédio da leitura: “Quando não está empoleirado desce ao solo, onde passa boa parte de seu tempo ‘caminhando de modo bem típico’, alternando pequenas corridas com intervalos nos quais anda mais devagar”. (http://www.wikiaves.com/joao-de-barro). (aspeio a frase “caminhando de modo bem típico”).

E não somente minha observação visual e a descrição da Internet. Veja-se Helmut Sick, ao descrever a mesma ave, em Ornitologia Brasileira, talvez a mais completa produção sobre as aves em nosso país - Editora Nova Fronteira, p.566: “... abundante nas fazendas sulinas, parques e até nas cidades procurando mesmo a vizinhança humana; atravessa pátios e ruas andando e correndo.” Note-se que o reconhecido mestre diz: “andando e correndo”. Não fala em pulos. Por tudo isso, pergunto: Será que João Guimarães Rosa viu, realmente, um joão-de-barro pulando? Acredito que não e, portanto, penso que também os gênios se enganam. Senão, engana-se eu ao tentar fazer reparos a um dos maiores de nossas letras. E se finalmente ele um dia viu o nosso herói dando um pulinho, por menor que fosse, me desculpo por não saber garimpar direito e digo, como disse Alcenor Candeira Filho, membro das academias Parnaibana e Piauiense de Letras, no poema antes citado, publicado no Almanaque da Parnaíba, edição de nº 61, 1994: “Abismo: garimpei/  qual rude garimpeiro. / se mais não pude – errei.”


(*) O autor do vertente ensaio é poeta e escritor. É o presidente da Academia Parnaibana de Letras – APAL.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

APAL EMPOSSARÁ NOVOS MEMBROS NO PRÓXIMO DIA 12 DE MAIO


APAL EMPOSSARÁ NOVOS MEMBROS NO PRÓXIMO DIA 12 DE MAIO


                  A Academia Parnaibana de Letras (APAL) irá empossar no próximo dia 12 de maio vindouro,às 19:30 horas, quatro novos membros. A solenidade, a ser presidida pelo imortal Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos, será no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil - subseção Parnaíba gentilmente cedido pelo presidente José Lima, para essa solenidade. O discurso de recepção será proferido pelo acadêmico José Elmar de Mélo Carvalho.


                   Os novos acadêmicos a tomarem posse na APAL são os seguintes: Breno Ponte de Brito que ocupará a cadeira nº 05 , cujo patrono é Alarico José da Cunha e teve como último ocupante  a professora Aldenora Mendes Moreira.  Breno é publicitário  e autor dos livros “Broadside – A propaganda vista por dois lados” e “Da brancura à sujeira: uma análise dos discursos das propagandas do sabão Omo”;  Roberto Cajubá de Britto, advogado, professor universitário e escritor. Roberto Cajubá irá ocupar a cadeira de nº 15 que tem como patrono Patrono Simplício Dias da Silva e  teve como último ocupante o imortal Francisco Iweltman Vasconcelos Mendes; Antônio de Pádua Marques da Silva, escritor, cronista e jornalista, autor de vários livros dentre eles o romance  "Gato Ladrão de Sebo" que tem  como cenário o interior de Pernambuco, na região de Garanhuns. Pádua Marques ocupará a cadeira de nº 24 que tem como patrona (patrona mesmo, patronesse tem outro significado) a poetisa Luiza Amélia de Queiroz de Queiroz Brandão e  como ocupante a professora escritora e poetisa Edmée Rego Pires de Castro; finalmente para ocupar a cadeira de nº 35 foi eleito o professor Antônio Gallas Pimentel,  jornalista, escritor, poeta, autor dos livros "Meu Sobrinho Prodamor e Outros Causos", "Fragmentos" e outras publicações. Antônio Gallas irá ocupar a cadeira de nº 35 que tem como patrono o segundo Bispo de Parnaíba Dom Paulo Hipólito de Sousa Libório e como primeiro e último ocupante o seu conterrâneo Rubem da Páscoa Freitas.  

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tia Felicinha – 100 anos de história


Tia Felicinha – 100 anos de história

 Lara Larissa Bonfim*

Em 1917 o mundo assistia ao desenrolar da Primeira Grande Guerra. Enquanto as grandes potências mundiais estavam em conflito, a Vila do Curador, na época Distrito de Barra do Corda, ia se desenvolvendo sem pressa, distante da agitação dos grandes centros.

Naquele ano nasceu, nos Estados Unidos, o filho ilustre John Kennedy, que mais tarde se tornaria o 35º presidente daquele poderoso País. No Brasil, veio ao mundo Jânio Quadros, nosso 22º presidente. Na Vila do Curador despontou, no dia 28 de março, Feliciana Nunes Guterres, nossa querida Felicinha. Desses citados, a única que segue com vida.

Naquele tempo na Vila não existia energia elétrica, nem água encanada, mas a pequenina Felicinha encontrou conforto e aconchego em sua grande família.

Seu pai, Diolindo Luiz de Barros, detinha o posto de Capitão da Guarda Nacional. Em primeiras núpcias, fora casado com a senhora Maria Barros, com quem teve 6 filhos: Gentileza, Bento, Francisco, Maria(Maroca), Genézia(Sinhazinha) e Reginalda.

Com o falecimento da primeira esposa, casou-se com Maria José Nunes Barros, mais conhecida por Zezé. Desse último relacionamento surgiram: Deoclécio, Maria(falecida ainda criança), José (Zeca), Feliciana(Felicinha), Estevão, Basiliano(Bazu), Teresinha, Frederico (tio Barrim).

Interessante observar que o registro civil era realizado em Barra do Corda, então sede do município. O senhor Diolindo, de posse das informações sobre os inúmeros filhos, partiu a cavalo para a sede com o intuito de registrá-los. Na ocasião acabou ocorrendo um grande equívoco, pois ele trocou os anos de nascimento de Feliciana, nascida em 1917, pela do filho Estevão. Por essa razão, na Certidão de Nascimento de Feliciana consta erroneamente o ano de 1919 como o de seu nascimento.

Além dos treze irmãos citados, Felicinha sempre lembra com carinho da existência de outros três: Isabel, Luísa e Frederico, que faleceram ainda crianças, em uma semana trágica, vítimas de uma epidemia de sarampo.

Provavelmente esse foi o primeiro evento a lhe trazer profundo sofrimento. A cena da morte de seus irmãos e a loucura que acometeu sua mãe nos meses próximos seguintes lhe marcaram profundamente. De tal maneira que, ainda hoje, relata a cena com sensibilidade, e destaca que o episódio fez com que ela assumisse responsabilidades novas, como por exemplo lavar a roupa da casa, pois as lavadeiras da região recusavam o serviço, receosas com a epidemia que acometera a família.

Durante a sua infância, a pequena vila do Curador não possuía uma escola formal, com um prédio físico. Por essa razão a educação ficava por conta dos chamados Mestre-escola, que ministravam aula para a criançada em suas próprias residências. O primeiro mestre-escola do Curador foi Eloy Barbosa Uchoa. Depois vieram os professores Tonico Braga e Neném Assunção. Aliás, foram esses dois os mestres de Felicinha até o terceiro ano do primário quando ela teve que se mudar para Pedreiras para continuar os estudos.

Na nova cidade passou a residir com seus avós maternos, José Almeida e Maria(Marica). Lá estudou no Grupo Escolar "Oscar Galvão". Foi em Pedreiras que conheceu o jovem Antônio Celestino Guterres Martins, que trabalhava como escriturário na "Mercearia Cateb". Eles namoraram por pouco tempo e logo firmaram compromisso. O ano provável do casamento foi 1934.

O relacionamento não durou muito tempo. De uma das inúmeras viagens a trabalho, ele não voltou mais. Ainda assim, Feliciana considerava-se uma senhora casada e por isso não contraiu novas núpcias. Apesar da situação adversa, nunca ocupou o lugar de vítima. Pelo contrário, sempre foi uma mulher grata e ativa. Trabalhou como costureira, preparando enxovais infantis e bordando colchas e toalhas. Preservou um pequeno rebanho, fruto dos animais enjeitados que ganhava de presente dos irmãos. Posteriormente construiu salões para aluguel, de modo que nunca faltou mantimento em sua casa, podendo declarar como o salmista, em Salmos 37.25: "Já fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo desamparado, nem seus filhos mendigando o pão”.

De volta a Presidente Dutra, acompanhou o crescimento e desenvolvimento da cidade. Observou a construção do primeiro prédio escolar do Curador, em 1937: o Grupo Escolar "Magalhães de Almeida", situado na rua de mesmo nome, no local onde hoje está a casa do Sr. Noveli Sereno.

Em 1953, possivelmente tenha vibrado quando o prefeito Gerson Sereno instalou um motor de luz e implantou cerca de 200 postes de madeira em algumas das ruas do centro. E, em 1972, quando a CEMAR(Centrais Elétricas do Maranhão), tomou o controle do setor elétrico no município, instalando dois motores mais potentes com grupos geradores capazes de levar energia também às residências e ao comércio.

Feliciana também foi testemunha da construção, em 1947, do primeiro templo evangélico de Presidente Dutra: a Igreja Cristã Evangélica, construída na rua Magalhães de Almeida, fruto do trabalho evangelístico do missionário canadense Perrin Smith, que chegara em 1930 ao Curador, anunciando as boas-novas de salvação. Ressalte-se que a primeira convertida da Vila do Curador foi a sra Gentileza, irmã mais velha de Felicinha.

Esses são apenas alguns dos inúmeros acontecimentos que os muitos anos de vida lhe oportunizaram presenciar. Basta conversar alguns minutos com ela para perceber que há mais, muito mais. Por isso esta noite é tão especial. Quem tem a oportunidade de chegar aos 100 anos de vida?! Quem tem o privilégio de atravessar tantas primaveras, resistir a tantos invernos, contemplar as folhas do outono e o sol luminoso do verão?!

Aliadas aos cabelos brancos vêm a sabedoria, as memórias, experiências incontáveis. Como está escrito em Provérbios 20.29:  "A beleza dos jovens está na sua força; a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos". Quanta história tem esses cabelos grisalhos!

Desde que me entendo por gente Tia Felicinha é uma presença marcante em minha vida, com seu corpinho serelepe, sorriso contagiante e marra característica. Ela é do tipo que não manda recado, nem passa despercebida, faz amizades com pessoas de todas as idades e tem conselhos pra dar e vender. Sempre gostei de ouvir suas histórias, mesmo quando elas se repetiam.
Com certeza, tia Felicinha está no rol de mulheres que mais me impressionaram e inspiraram. Apesar de ter nascido em um tempo em que a mulher era desprezada, fez e faz sua voz ecoar. Diante das intempéries, guardou o que era bom. Do abandono, não herdou rancor. Em suas mãos sempre o livro preferido: a Bíblia. Entre as páginas sempre papéis com marcação. Quando lemos juntas ela sempre aplaude e diz:
- Minha filha, marque aí. Esse versículo é muito importante, quero lembrar depois.
E eu sempre objeto.
- Mas, tia, a Bíblia já tem tantos papéis que o que fica em destaque é a página em branco.
Ela ignora o que eu digo e não descansa enquanto eu não cumpro a incumbência dada.
Mesmo sem ter terminado os estudos, me admiro de sua visão de mundo e educação. Ela sempre tem papel e caneta para suas anotações e registros. Mesmo com tantos anos, a vida continua a encantá-la. Acho que esse é um de seus segredos. Ela contempla a natureza sempre maravilhada, percebe as formigas e as rosas menina. Festeja cada gesto, surpreende-se com a tecnologia:
- O ser humano é muito sabichão. Como conseguiu inventar uma coisa dessas?! E no final ela sempre glorifica ao Criador da natureza e da inteligência humana.
Por ela ser essa mulher versátil, sensível e observadora é que muitas vezes tenho a impressão de que converso com uma amiga de minha idade, tal a sintonia. Aos adolescentes, ela gosta de dizer: “não tem melhor amigos do que seus pais”. Aos jovens apaixonados: “ore para ver se é da vontade de Deus o casamento”. Aos casais: “perdoem-se e não discutam na frente dos outros, nem quando o seu cônjuge estiver irritado”.

Quando eu tinha 13 anos ela me deu uma missão: guardar a sete chaves uma boneca de porcelana, a última lembrança concreta que seu grande amor lhe deixou. Tomei aquela tarefa com seriedade, pois eu sabia tudo o que ela representava. Mantive aquele objeto envolto em muitos paninhos e papéis para que não quebrasse. Se tia Felicinha a guardou por tanto tempo, eu deveria cuidar daquela pequenina com igual zelo. Hoje a boneca tem mais de 80 anos e tenho o prazer de dizer pra senhora, amada tia, ela está aqui intacta e bem cuidada, como quero que a Sra. esteja não só hoje, mas todos os dias.

Que Deus a abençoe hoje e sempre! Que seus dias sejam para o louvor e a glória de Deus! Que sua vida continue a inspirar pessoas e a fazer diferença nesta terra! Porque não importa nossa idade, Deus nos criou para este propósito especial e louvo a Ele por ver que a Sra. ainda crê e desempenha com maestria o seu papel neste mundo.


 (*) Lara Laríssa é escritora, advogada e jornalista, e coordena o portal Palavrasprabeber.com.

domingo, 7 de maio de 2017

Seleta Piauiense - Rogério Newton


Poética

Rogério Newton (1959)

aqui acolá
um verso um texto
mas olhe
não sou bissexto
sou campeão de poemas ao cesto

sábado, 6 de maio de 2017

A filial do Estado Islâmico em Parnaíba


A filial do Estado Islâmico em Parnaíba

Pádua Marques
Escritor e jornalista

Imagine se o prefeito de São Paulo, João Dória Júnior, metesse naquela cabeça de vento de desocupar o centenário edifício do Museu do Ipiranga, onde segundo a história do Brasil o príncipe dom Pedro proclamou a independência e instalar um abrigo pra moradores de rua, drogados, ladrões de celular, de carros e de motos, arrombadores, homicidas e arruaceiros que estão infestando a famigerada Cracolândia na região do centro velho de São Paulo?

Imagine o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, mandando sem mais nem menos, desalojar os centenários e importantes Museu Nacional de Belas Artes e a Biblioteca Nacional na avenida Rio Branco pra neles instalar abrigos de drogados, fumadores de crack e de maconha, ladrões, arrombadores de lojas e de residências e que infernizam e intranquilizam a segurança de toda a população carioca?

Imagine se os prefeitos de Petrópolis e Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, seguissem os exemplos nefastos de seus colegas, carioca e paulistano metessem a marreta no Museu Imperial pra neles instalar abrigos de moradores de rua? São centros culturais e de pesquisa científica de referência no mundo inteiro e são procurados por centenas de milhares de estudantes, turistas, curiosos. Dão estes centros orgulho e dimensão à história do Brasil.

Mais aqui em baixo imagine se ocorressem situações semelhantes em Manaus, Belém, Salvador, Recife e Fortaleza? Qual o destino do Teatro Amazonas, do Mercado do Ver o Peso? E lá em Minas, o Museu da Inconfidência? Em Brasília o Museu do Candango? Tem é lugar pra num espaço desses se elencar como de natureza importante pra  história e o patrimônio de pedra e cal.

Se for desse jeito e se esses prefeitos seguirem o exemplo de Mão Santa, prefeito de Parnaíba, no Piauí, dentro de pouco tempo não vai restar pedra sobre pedra pra contar a história. Semana passada estive no Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, na rua Conde D’Eu. O presidente Reginaldo Pereira do Nascimento Júnior estava aflito. E não era pra menos. A prefeitura, depois de retirar a Biblioteca Municipal da parte do térreo pretende instalar um abrigo pra moradores de rua.

Até que a questão da retirada da biblioteca pública pra uma escola desativada na rua Marechal Pires Ferreira faz sentido, se justifica, dada a precariedade em que estavam as salas e o acervo. O que não se justifica e nem entra na cabeça de ninguém é a pretensa vontade de se instalar ali um abrigo pra moradores de rua na região do centro histórico! Pelo que ouvi do presidente o pessoal da prefeitura não quis nem saber dos argumentos e as consequências desta medida.

Realmente o prédio onde está instalado o instituto é de propriedade da prefeitura, mas cedido através de documento à destinação cultural ao próprio instituto, biblioteca e espaço de eventos. E mais grave, dentro da área de tombamento do IPHAN. Nem o instituto e nem esse órgão federal, pelo que estamos sabendo, foram notificados formalmente sobre qualquer intervenção na sua estrutura. Onde já se viu uma coisa dessas, colocar num prédio histórico e com destinação definida um abrigo pra moradores de rua? Onde é que Mão Santa está com a cabeça?


O Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico, certo que não tem lá essas coisas valiosas, já foi arrombado várias vezes e dele roubados documentos e peças! E todas as pistas levam a esse pessoal, moradores de rua como suspeitos. Ora, se esse pessoal, apenas circulando pela região já foi capaz de produzir esses estragos, imagine morando no próprio prédio?! O que não pode e nem tem cabimento é a prefeitura está dando uma de Estado Islâmico, destruindo tudo e dando destinação errada, enfim, interferindo onde não é de sua competência. As consequências futuras são realmente as imagináveis!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DEPOIMENTO SOBRE LAURO ANDRADE CORREIA



DEPOIMENTO SOBRE LAURO ANDRADE CORREIA

Alcenor Candeira Filho

     Desde criança conheço o dr. Lauro Andrade Correia, que foi um dos grandes amigos de meu pai, a respeito do qual  prestou comovente depoimento inserido no meu livro O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, que trata do assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira, em 11 de outubro de 1959, Dia da Padroeira de Parnaíba – Nossa Senhora da Graça - , antecipado  em 1992, inexplicavelmente, para 8 de setembro. Os dois foram colegas de trabalho no então escritório da Federação das Indústrias do Estado do Piauí,  presidida pelo grande empresário José de Moraes Correia: Lauro na qualidade de secretário executivo e meu pai como contador.
     Em 1995 o reitor da Universidade Federal do Piauí, professor Charles Camilo da Silveira,  me incumbiu de fazer o discurso na solenidade em que Lauro Correia foi agraciado com o título de Professor Emérito da instituição. Naquela oportunidade desenvolvi os seguintes tópicos: Descendência e Formação Escolar, O Industrial, O Político,  O Professor, O Historiador, O Orador, O Advogado, O Jornalista, O Acadêmico, Campanhas Cívicas  para Prefeito Municipal e pela Integridade Territorial do Município.
     Neste depoimento pretendo reportar-me especialmente a episódios relacionados com a vida de Lauro Correia a respeito dos quais tive conhecimento como testemunha ocular.
     Nas eleições municipais de 1962 três candidatos disputaram o cargo de prefeito municipal: Cândido Oliveira (UDN), José Oscar Freitas (PSD) e Lauro Andrade Correia (PTB), que foi o vencedor.
     Logo que assumiu o cargo, Lauro Correia enfrentou uma grande batalha pela preservação da integridade territorial do município. A Assembleia Legislativa do Estado do Piauí havia aprovado e o governador Petrônio Portella Nunes (que depois se tornaria grande amigo do prefeito) sancionado as leis que criaram os municípios dos Morros da Mariana e de Bom Princípio, dilacerando o domínio territorial de Parnaíba. O objetivo principal do desmembramento era beneficiar os candidatos derrotados, que deveriam ser contemplados com os cargos de prefeito desses povoados.
     O prefeito Lauro Correia, derrotado politicamente nesse episódio, foi vitorioso no Supremo Tribunal Federal, que julgou inconstitucionais as referidas leis.
     A partir de 1965 trabalhei com ele, sob sua liderança e comando, em várias instituições: Prefeitura Municipal de Parnaíba, Federação das Indústrias do Estado Piauí, Campus Ministro Reis Velloso/Universidade Federal  do Piauí, Academia Parnaibana de Letras e em algumas campanhas eleitorais.
     De junho a dezembro de 1965, aos dezoito anos de idade, servi à administração de Lauro Correia  como auxiliar do Departamento de Estudos e Planejamento, chefiado por meu tio, médico e oficial do Exército Jefferson Rodrigues Moreira. O país atravessava um período conturbado em razão  do golpe político-militar de 31 de março de 1964, com o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco como presidente da República. Na função pública datilografei inúmeros documentos oficiais dirigidos a autoridades do país e do Estado do Piauí, ora redigidos por meu tio ora pelo prefeito. Muitos desses papéis tratavam de problemas relacionados com inquéritos policiais militares.
     Em dezembro de 1965 pedi exoneração do cargo que ocupava na Prefeitura para ir fazer o curso de direito no Rio de Janeiro.
     Lauro Correia foi prefeito de Parnaíba no quadriênio 1963 a 1966, realizando a primeira administração planejada em território piauiense, através dos Planos Quinquenal, Diretor e Urbanístico, bem como dos Códigos de Posturas, de Obras e Tributário.
     Outras realizações:
     -oficialização do Hino da Parnaíba e de outros símbolos municipais: Bandeira, Armas e Selos;
     - aquisição da primeira sede própria da Prefeitura na avenida Presidente Vargas;
     - campanha pela construção da Barragem de Boa Esperança;
     Implantação do serviço de abastecimento d’água tratada e canalizada;
     - construção do Centro Cívico na praça de Santo Antônio.
     A exemplo de Graciliano Ramos, que deixou um detalhado relatório ao concluir o mandato de prefeito de Palmeira dos Índios, no Estado de Alagoas, - Lauro Correia escreveu um livro de 134 páginas ao término de sua administração, denominado HISTÓRIA ADMINISTRATIVA DA PARNAÍBA (1963/1966).
     No limiar dos anos 70, já de volta a Parnaíba com o diploma de bacharel em direito e inscrito na OAB-PI, fui nomeado pelo presidente Lauro Corria assessor jurídico da Federação das Indústrias do Estado do Piauí, que tinha como companheiros de diretoria  Antônio José de Moraes Souza, Cândido de Almeida Athayde, Carlos Henrique Pires Athayde, Télius Memória Ferraz e outros industriais. Nessa época o grupo dirigente da Federação enfrentou em acirrada luta vários empresários que queriam assumir o comando da entidade, como Marc Jacob, Maurício Pinheiro Machado, Paulo Dutra, Carlos Alberto Teles de Sousa, que acabaram sendo derrotados.
     Pouco tempo depois, quando tudo indicava que Lauro Correia continuaria a presidir a Federação sem maiores problemas, eis que falece prematuramente Tellius Ferraz, presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado do Piauí. Assume então a presidência desse Sindicato o industrial que já presidia o Sindicato das Indústria do Mobiliário e Construção Civil. À época só existiam cinco sindicatos da indústria no Estado, de modo que três votos eram suficientes para eleger o dirigente máximo da FIEPI. Lauro Correia foi abandonado pelos aliados. Praticamente sozinho lutou bravamente pela permanência no cargo, tendo sido derrotado, contudo, porque se insurgiu contra ele uma união das principais lideranças políticas e empresariais da cidade, que achavam que ele detinha excessivos poderes como diretor da firma Moraes S.A., presidente da FIEPI, diretor regional do SESI-PI, diretor do Campus Ministro Reis Velloso e representante do governador Dirceu Mendes Arcoverde em Parnaíba.
     Nos dez anos em que esteve à frente da Federação das Indústrias, muitas obras foram construídas: Centro Esportivo Dirceu Arcoverde, Escola Comendador Cortez, restauração e ampliação da Escola Simplício Dias, reforma do Clube dos Trabalhadores, reforma e modernização do Auditório Benedicto
Jonas Correia/SESI e, finalmente, a obra mais importante – a construção da Casa da Indústria, um dos maiores prédios
 da cidade, edifício majestoso e funcional com quatro pavimentos.
     Como educador Lauro Correia foi professor titular de Direito Tributário, Contabilidade de Custos e Diretrizes Administrativas, impressionando os alunos pelo conhecimento das matérias ministradas, pela habilidade na exposição dos assuntos, pelo espírito superior com que discutia os problemas trazidos à baila, dentro ou fora de sala de aula.
     Integrou com os professores Cândido de Almeida Athayde, José Pinheiro Machado e Monsenhor Antônio Monteiro de Sampaio a equipe fundadora da Faculdade de Administração do Piauí, em 1969, da qual foi vice-diretor e diretor. A partir de 1972, durante onze anos, exerceu os seguintes cargos: coordenador do Curso de Administração de Empresas e diretor do  Campus Ministro Reis Velloso.
     Sua gestão foi plena de realizações, sobressaindo a construção de vários  blocos do Campus e a implantação de dois outros cursos: Ciências Contábeis e Economia. Merece ainda registro a realização temporária de três cursos de licenciatura: Letras, Pedagogia e História.
     Com a saída de Lauro Correia da FIEPI e com o término de seu mandato de diretor do Campus Ministro Reis Velloso, seus adversários imaginavam que ele não teria mais sequer uma tribuna para proferir os brilhantes e empolgantes discursos que costumava fazer. Ledo engano: pouco tempo depois da morte do presidente da Academia Parnaibana de Letras-APAL, o grande escritor João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, Lauro Correia foi eleito por aclamação presidente do sodalício, tendo a minha pessoa como secretário-geral. Permanecemos na direção da  APAL , sempre por aclamação, durante sete mandatos, num total de quatorze anos, com múltiplas realizações:
     -  reuniões ordinárias semanais;
     - ampliação do acervo da Biblioteca Renato Castelo Branco, com a aquisição de mais de dois mil livros;
     - publicação regular de “Informações Acadêmicas” (informativo da APAL);
     - apoio no lançamento de dezenas de livros de autores piauienses;
     - promoção de palestras e seminários;
     - permanente intercâmbio cultural com diversas entidades piauienses e de outros Estados;
     - publicação, através de convênios celebrados com órgãos oficiais, de mais de dez livros;
     - aquisição, através de doação feita por herdeiros de Ranulpho Torres Raposo, do direito de propriedade do ALMANAQUE DA PARNAÍBA;
     - publicação de seis edições do ALMANAQUE DA PARNAÍBA (nºs. 61 a 66);
      -  aquisição da sede própria da entidade na rua Alcenor Candeira, viabilizada na primeira administração de José Hamilton Furtado Castelo Branco.
     Hoje. aos 94 anos de idade, Lauro Correia continua escrevendo e publicando artigos em jornais e blogues/portais, normalmente focalizando assuntos de interesse piauiense.
     Acho que ele deveria reunir em livro seus principais trabalhos.
     Concluo este depoimento com as palavras finais de meu discurso proferido há mais de vinte anos, quando Lauro Correia recebeu o honroso título de Professor Emérito da Universidade Federal do Piauí:

Lauro Correia é exemplo do indivíduo que “é grande” na acepção pessoana, quer dizer, do que “nada/ seu exagera ou exclui”, do que é “todo em cada coisa”, do que “põe quanto é/ no mínimo que faz”.                                        
     

             

quinta-feira, 4 de maio de 2017

UM JURISTA E UM MAGISTRADO DE ESCOL

Flagrantes do curso de aperfeiçoamento "O Positivismo Jurídico e a Jurisprudência", vendo-se o prof. dr. Luís Carlos Martins Alves Júnior, juízes (alunos), o des. Edvaldo Moura, prof. Luís Carlos e o des. Sebastião Martins.

UM JURISTA E UM MAGISTRADO DE ESCOL

Elmar Carvalho

Terminou neste sábado, o Curso de Aperfeiçoamento “O Positivismo Jurídico e a Jurisprudência”, ministrado pelo procurador da Fazenda Nacional junto ao Supremo Tribunal Federal Luís Carlos Martins Alves Júnior, que se houve com invulgar competência e conhecimento da matéria, inclusive provocando ampla e calorosa participação dos alunos.

Entre outros, fizeram o curso os desembargadores Sebastião Martins, presidente da AMAPI, e Edvaldo Moura, diretor da ESMEPI, bem como os juízes Thiago Brandão, Oton Mário, Nazildes Lobo, Fernando L. Silva Neto, José Ramos, Vidal Freitas, Virgílio Madeira Martins, Moura Mendes, Sérgio Fortes, Jorge Veloso, Pedro Macedo, José Airton, Marcelo Mesquita, Antônio de Oliveira e Lirton Nogueira. Também participou do curso o magistrado Carlos Dias, que vem escrevendo um diário, não sei se secreto, como o de Humberto de Campos, se discreto, como a maçonaria, ou se apenas inédito, esperando o momento oportuno de ser dado à estampa da publicidade.

Entreguei ao mestre um exemplar de meu livro Cromos de Campo Maior, em que faço a louvação de nosso pago natal. No encerramento do curso, como homenagem a ele, recitei o meu poema Elegia a Campo Maior, que foi aplaudido pelos colegas magistrados. Saudaram-no os desembargadores Edvaldo Moura e Sebastião Martins e os juízes Oton Mário e José Airton. O professor, que tem doutorado em Direito Constitucional, é filho de Luís Carlos, irmão maçônico e amigo, sendo ambos naturais de Campo Maior, onde também nasci.

Nessa cidade, foi juiz, durante décadas, o doutor Hilson Bona, meu mestre no velho Colégio Estadual, na disciplina Organização Social e Política Brasileira (OSPB). Ilustrava e enriquecia suas aulas contando episódios engraçados ou pitorescos de sua vida, com o que nos atraía ainda mais a atenção. Magistrado íntegro, sem mácula, tinha o respeito de seus jurisdicionados, podendo ser tido como um paradigma da magistratura piauiense.

Humilde, pedalava sua velha bicicleta preta pelas ruas da cidade. Segundo se comenta, no tempo das campanhas políticas, pedia o seu afastamento das funções de juiz eleitoral, quando seus parentes eram candidatos; mas os adversários pediam ao Tribunal Regional Eleitoral para que ele fosse mantido no cargo, tão grande era a confiança que tinham em sua imparcialidade.


Comentava ele que muitas vezes ia visitar o velho cemitério da cidade, para afastar as tentações da vaidade, certamente para se lembrar de que o homem é pó e que ao pó voltará. Numa época em que nada se costuma recusar, em que o ego e a vaidade imperam de forma abusiva, quando quiseram batizar o fórum com o seu nome honrado, teve que insistir com muita firmeza para que não lhe fosse prestada a homenagem, por sinal mais que merecida e justa.  

30 de janeiro de 2010

quarta-feira, 3 de maio de 2017

ESTAMOS, OU NÃO, PERDIDOS, SANDOVAL?

Foto meramente ilustrativa

ESTAMOS, OU NÃO, PERDIDOS, SANDOVAL?

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                No nosso último encontro já havia percebido uma mudança sintomática, para não dizer radical, em Sandoval.

Falante e perspicaz, dia desses, quase o assusto, sentado que estava no banquinho de movimentada praça do centro da cidade, taciturno e sorumbático, ao cumprimentá-lo; parecia, sequer, ouvir o barulho ensurdecedor dos vendedores de gororobas medicamentosas que ali se haviam instalado há meses. Pediu-me para sentar a seu lado. Brincando, perguntei-lhe se estava a pensar na morte da bezerra, tão sisudo daquele jeito. Que nada, companheiro, estou mesmo é pensando na vida.

                Resolvi “puxar” assunto, instigá-lo. Que me diz de essa história de “baleia azul”, Sandoval? Um anacoluto, se me permite, amigo: antes de ser assaltado, olha só, achava que essa coisa de assalto só acontecia aos outros. Respondendo-lhe: não estranho mais nada. Está cada vez mais difícil entender as pessoas. Um exemplo: Meio mundo anda bastante feliz com as escaramuças jurídicas que o juiz responsável pela Lava Jato vem fazendo com essa corja de bandoleiros que dilapidam o país há décadas; logo, ele seria “o cara”, certo? Não! Diz a mídia que famoso ex-presidente da república, incluído em diversos inquéritos, denúncias, réu em alguns processos; verdadeiro santo do pau oco – ferrenho defensor e mecenas de ditadorezinhos mequetrefes da América do Sul -, se a eleição presidencial fosse hoje, ele estaria eleito. Temos cura? Não! Provavelmente, vamos votar, indiretamente, para o parlamento, em lista fechada – na qual, segundo entendem alguns, um mesmo listado poderá concorrer, simultaneamente, a dois cargos eletivos. A propósito, por aqui, não é mais ou menos assim que há muito acontece? Não raro, votamos e elegemos parlamentar tal, vem o governo e, em nome de uma pretensa ou espúria governabilidade, troca o eleito por alguém que as urnas rejeitaram. Se deixarmos o congresso nacional aprovar essa ignomínia, a maioria não vai anular seu voto, como seria ideal, mas votar feito cordeirinhos. Depois reclamaremos.

Começava a ficar interessante o “papo”, pensava cá com meus botões. E lhe digo mais, colega, voltava Sandoval a assumir as rédeas do diálogo - bem feito, quem me mandara cutucar onça com vara curta -: acidente de trânsito, quantas vezes não julguei culpado alguém que se envolvera em alguns, simplesmente por tê-lo considerado causador do mesmo, e ponto final. Mudei de opinião e de cometer tal injustiça, a partir do momento em que, conduzindo o próprio veículo, envolvi-me em vários deles, e, em muitos, a culpa foi minha, não dos outros condutores.

E continuava. Antes de ser avô, achava que amigos haviam se transformado em toleirões, bobalhões, bobocas demais depois do surgimento dos netos em suas vidas. Como alguém poderia mudar tanto após a chegada de essas “cabecinhas de sangue”? Muda mesmo, meu prezado; eles mexem, de fato, com nossa estrutura emocional; passamos a fazer o que querem, e com muita alegria e satisfação. E ainda ficamos irados quando nos relembram do que, antes, dizíamos a respeito do assunto. Os avôs dos seus filhos – você os tem, quero crer – não devem ser diferentes, pois não? Não, não são, velho amigo. Menos mal: se meus filhotes e os velhinhos ficam felizes, por que não eu? – como diria Paula Toller.

                Pois bem, prosseguiu Sandoval: aprendi a aceitar, como verdades, evidências em que desacreditava ou via como suscetíveis de somente acontecerem a outrem. Além disso, hoje, tudo está diferente de quando era mais jovem. Vai concordar, obviamente, que existe muita informação circulando, abalroando-nos a todo momento; antes de decodificarmos uma, bateladas de novas se lançam sobre nós. Chega a ser enlouquecedor o modo e a velocidade com que elas nos sobrevêm. Assim, meu caro, concluo: tudo, tudo mesmo pode acontecer, notadamente, de ruim, porque, dizem, as notícias más têm preferência na corrida existencial: elas sempre chegam à frente das boas. Parecia lugar-comum o que estava falando Sandoval, mas preferi entender sua fala como constatações de alguém que tenta viver seu tempo com um mínimo de sustos ou surpresas. Pensei que se ia calar, enganei-me.

                Você me perguntou o que penso a respeito de essa maluquice de “baleia azul”. Acho-a isto mesmo: uma maluquice, mais que bizarrice. A propósito, há algum tempo, bizarro é algo que não cabe no universo das ideias. Nada mais nos parece estranho; é como se já houvéssemos visto tudo e, portanto, tudo é normal. Essa “novidade” está no mesmo rol; mas, logo, logo, envelhece, vira coisa do passado - tomara, sem nos impor grandes perdas -, e outra a substitui.

                Só para fechar nosso proveitoso bate-papo. Vou lhe revelar uma decepção: nutria esperança de que do seio de nossa juventude sairiam os líderes de que andamos precisando faz tempo, em todas as áreas: política, econômica, ética, moral, científica. Perdi-a. Concordo com o que Rui Barbosa falou, certa feita, que, um dia, ainda iríamos sentir vergonha de sermos honestos. Hoje, já parece algo ultrapassado, coisa de tolos e fracos respeitar valores como a Moral e a Ética. 

Então me diga, companheiro: estamos, ou não, perdidos? Teríamos assunto para mais de metro; fica para depois. Desculpe-me, creio que já percebeu: ando sem paciência e minha fé está enfraquecendo. Foi-se.                  

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A ESCRAVATURA NA VILLA DE SÃO JOÃO E OS TAMBORES DA PARNAHIBA


A ESCRAVATURA NA VILLA DE SÃO JOÃO E OS TAMBORES DA PARNAHIBA

Vicente de Paula Araújo Silva “Potência”   
Escritor e historiador

    Após a Instalação da Villa de São João da Parnahiba em 18/06/ 1762, João Paulo Diniz implantou a feitoria de salga de carne no lugar “Cítio dos Barcos” ,  onde existiu a primeira oficina sob o comando  do Capitão-Mor João Gomes do Rego Barros, na então Villa de Nossa Senhora do Monserrate da Parnahiba em 1711. A partir daí,  houve uma acentuada movimentação econômica na região tornando-se necessária a importação de mão de obra para os serviços nas lavouras ,  fazendas de gado e  oficinas de charque . Assim, chegaram levas e levas de  escravos principal mão de obra na época.  Dentre os empreendedores  salientaram-se, entre outros,  Domingos Dias da Silva, Manuel Antonio da Silva Henriques, Thomé Pereyra de Araújo, José Lopes da Cruz, Antonio Álvares Ferreira de Veras , Diogo Álvares Ferreira de Veras,  José Pereira Montaldo, Jacinto Botelho de Siqueira, Lourenço de Passos Pereira, Rosendo Lopes Castelo Branco, André Coelho Gonçalves e Manoel Ferreira Pinto de Azevedo, tendo todos eles participado do posicionamento para que a sede da Villa fosse o lugar “ Cítio dos Barcos” atualmente Porto das Barcas. E é exatamente lá na beira do rio Iguará  (Igaraçu) onde estão as principais marcas dos negros que por aqui passaram, vindos de muitos lugares, e dispersaram-se a partir da Balaiada no Maranhão e Piauí em 1839, quando já estava em declínio o poderio da família Dias da Silva após a morte de Simplício – filho de Domingos – e seu primo Manuel Antonio da Silva Henriques .

           No dia 13 de maio p.v., em todo o país a comunidade negra e os órgãos ligados a cultura brasileira celebrarão a data em que a princesa Izabel assinou a Lei Áurea, em 1888, extinguindo institucionalmente a escravatura no Brasil. Entretanto, até agora, não tomei conhecimento de algum evento que venha a comemorar  esse feito histórico em nossa cidade.  Nem mesmo os órgãos a quem de direito é exigível que o faça. Mas, na noite passada de 13 de maio de 2016 , lembrei-me dos tempos de criança , quando  todos os anos  na mesma data,  se ouvia ao longe o batuque dos tambores, ecoando a partir do Catanduvas , Igaraçu, Ilha Grande de Santa Isabel e Tabuleiro, ondem descendentes de negros  comemoravam  na  DANÇA DO CÔCO  a lembrança do fim do cativeiro ao qual os seus antepassados e também meus vivenciaram.  

 O “Gominha”, negro boêmio de saudosa memória , gostava de entoar uma velha cantiga, ainda, hoje repetida por Djalma Borges nas horas brahamais,   a qual , tem o  seguinte trecho :

                  “ Mamãe não quer casca de côco no terreiro
                  Que é pra não lembrar do tempo do cativeiro” ...


        Hoje, as manifestações folclóricas dos tempos da Villa de São João da Parnahiba são vistas nas apresentações dos grupos de macumba e capoeira, onde estão  presentes  e  latentes   as marcas do passado no requebro dançante dos seus figurantes sob a batida forte de batuqueiros dos TAMBORES DA PARNAÍBA.   Phb, 14/05/2012 – Vic

domingo, 30 de abril de 2017

FLAGRANTES


FLAGRANTES

Elmar Carvalho

no céu azul
um urubu

sob o negror
do guarda-sol
o pelotão azul
de teus olhos
da sombra
me fuzilou


           Te. Dom. 06.08.95  

sábado, 29 de abril de 2017

Afrânio Nunes


Afrânio Nunes

Reginaldo Miranda

Faleceu no dia 3 do corrente mês de agosto(de 2011), na cidade de Teresina, onde residia, o ex-deputado Afrânio Messias Alves Nunes. A Academia Piauiense de Letras por proposição minha e do acadêmico M. Paulo Nunes, aprovou voto de profundo pesar pelo infausto acontecimento. Afrânio Nunes prestou larga folha de serviço ao Estado do Piauí.

Nasceu em 15 de fevereiro de 1924, na cidade de Amarante. Era filho do farmacêutico e contador José Alves Nunes Filho, que o deixou órfão com menos de dez anos de idade, e de sua esposa, dona Etelvina Ribeiro Gonçalves Nunes, chamada Vinita, ambos oriundos de tradicionais famílias médio-parnaibanas. Iniciou as primeiras letras sob orientação da professora Nenen Rodrigues, em Amarante, e depois da professora Estefânia Conrado, em Floriano, para onde mudou-se no ano de 1928, cursando o primário no Grupo Escolar “Agrônomo Parentes”. Portanto, viveu a sua infância entre as cidades de Amarante e Floriano. Nessa última cidade contava com a orientação de seus tios Djalma Nunes, Osvaldo da Costa e Silva e Theodoro Sobral, todos figuras marcantes da política local e estadual. Em princípio de janeiro de 1937, aos treze anos de idade, mudou-se para Teresina, matriculando-se no Colégio Diocesano “São Francisco de Sales”, onde cursou o ginásio em regime de internato, ao lado de Petrônio e Lucídio Portella, Dirceu Arcoverde, Djalma Veloso, Alfredo Nunes, Expedito Resende, Raimundo Santana, Sebastião e Raimundo Leal, entre outros. Depois, cursou o ensino secundário no Colégio Estadual do Piauí, antigo Liceu Piauiense, concluindo-o no Colégio São João, de Fortaleza, onde esteve nos anos de 1944/45. De regresso a Teresina, matriculou-se na Faculdade de Direito do Piauí, onde bacharelou-se  na turma de 16 de dezembro de 1950, ao lado de A. Tito Filho, M. Paulo Nunes, Omar dos Santos Rocha e alguns outros.

Depois de formado inscreveu-se na OAB, exercendo a advocacia. Mas sua vocação mesma foi o magistério para o qual dedicou o maior esforço profissional, lecionando Geografia e História. Ainda em 1949, iniciou no magistério como examinador do Ginásio “Des. Antonio Costa”. Nesse tempo já exercia o cargo de postalista da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Em 1950, passou a lecionar no Colégio Diocesano “São Francisco de Sales”. No ano seguinte, passa a lecionar também no Colégio Estadual do Piauí, ministrando aulas de Geografia Geral para duas turmas. Em 1956, em substituição ao mestre Álvaro Ferreira, foi nomeado para a Escola Normal “Antonino Freire”, passando a dirigi-la a partir de 1958 até quando desincompatibilizou-se no ano de 1966, a fim de disputar as eleições de deputado estadual. Nesse ínterim, a convite do governador Chagas Rodrigues, exerceu o cargo de Secretário de Educação, Cultura e Saúde(1959), permanecendo também no governo Tibério Nunes.

Frise-se que o Prof.º Afrânio Nunes tentou morar no Rio de Janeiro, para onde mudou-se com a mulher e filhos no ano de 1953. Ali também foi professor. Porém, não adaptando-se retornou a Teresina ao fim de oito meses. Era casado com a senhora Camélia de Alencar Nunes, que lhe sobrevive. Do consórcio teve seis filhos: José Neto, Adolfo, Cassandra, Sônia, Luciene e Afrânio Filho, que faleceu prematuramente.

A outra grande vocação de Afrânio Nunes foi o esporte. Desportista autêntico, fundou ainda quando estudante em Floriano o Infantil Futebol Clube, de curta duração. Todavia, em 1947, com um grupo de amigos funda o Ríver Atlético Clube, de grande projeção no Estado, treinando inicialmente nas dependências de 25.º BC. Era um dos atletas do novo time. Em 1954, assume a presidência do clube, levando-o à conquista dos campeonatos estaduais de 1954/55, quando encerrou seu biênio. Retornou ao comando do tricolor piauiense em 1958, iniciando a construção da sede social e conquistando os campeonatos estaduais de 1958/59/60/61/62/63, quando o Ríver sagrou-se hexacampeão piauiense. Depois de dois biênios, retorna ao comando do time no biênio 67/68, quando concluiu a construção da sede social. Por fim, retornou ao comando do time em 1972, quando este amargava nove anos sem vitória, comandando-o nas conquistas de 1973 e 1975, esta última dividida com outro clube. É, portanto, um dos grandes nomes do esporte piauiense e justamente reverenciado pela torcida riverina.

Na política, iniciou-se no ano de 1946, quando filiou-se à União Democrática Nacional, seguindo os passos de seu tio e protetor, senador Luís Mendes Ribeiro Gonçalves. Assumiu o Departamento Estudantil da nova agremiação política, que então se organizava no período de redemocratização do país. Mais tarde, passou a integrar o diretório estadual, onde permaneceu desde 1950 e até sua extinção, quando filiou-se à ARENA, em 1966. Deputado estadual por quatro legislaturas, venceu os pleitos travados em 1966, 1970, 1974 e 1978, sempre com expressiva votação. Na Assembléia Legislativa participou de importantes comissões, presidindo a de educação durante seis anos; foi membro da mesa diretora nos biênios 1968/69 e 1977/78, como 1.º secretário, e 1973/74 como 2.º secretário, Líder da ARENA em 1975/76 e presidente da Assembléia Legislativa no biênio 1979/1980, tendo nessa qualidade assumido o governo do Estado em outubro de 1979. Foi um parlamentar dos mais atuantes naquela casa. Em 1982, abandonou a política partidária depois de ver frustrada uma tentativa de disputar a vice-governadoria do Piauí, porém, sendo nomeado pelo governador Lucídio Portella para Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, onde tomou posse em 04.02.1983 e permanecendo até a aposentadoria compulsória. Ainda quando deputado empreendeu viagem de estudo e intercâmbio à Europa, visitando Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra. Na política, foi sucedido pelo filho Adolfo Nunes, que elegeu-se deputado posteriormente.

Dedicou-se também à literatura, publicando o livro Homens e fatos do meu tempo(1991). Fundou e presidiu por largos anos a Academia de Letras do Médio-Parnaíba, com sede em Amarante, de que foi titular.

Afrânio Nunes foi um político íntegro, correto e leal, lutando denodadamente pelas causas que abraçou. Deixa, pois, uma lacuna na sociedade piauiense. Com essas notas desejamos destacar a sua personalidade e enviar nossas condolências à família enlutada. O Piauí perde um grande filho.
  

(Parcialmente publicado no jornal Meio Norte, coluna Academia, edição de 26.8.2011).

sexta-feira, 28 de abril de 2017

DEPOIMENTO SOBRE M. PAULO NUNES


DEPOIMENTO SOBRE M. PAULO NUNES

         Alcenor Candeira Filho

     Recentemente publiquei em portais/blogues piauienses um depoimento sobre Celso Barros Coelho e agora desejo prestar um testemunho sobre outro grande intelectual piauiense, também nonagenário e ex-presidente da Academia Piauiense de Letras – Manoel Paulo Nunes -, que ao longo  de sete décadas tem-se dedicado como professor, técnico em assuntos educacionais, jornalista, cronista, ensaísta e crítico literário a assuntos educacionais, culturais e literários.

     Publicou nessas áreas inúmeros livros: A GERAÇÃO PERDIDA, A PROVÍNCIA RESTITUÍDA, O DISCURSO IMPERFEITO, TRADIÇÃO E INVENÇÃO (4 volumes: 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries), AS SOLIDÕES JUSTAPOSTAS, MODERNISMO & VANGUARDA, TRADIÇÃO E INVENÇÃO, AS DUAS FACES DE NOSSA CULTURA, A LIÇÃO DE GRACILIANO RAMOS, O FRACASSO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA, além de outros.

     Desde que ingressou no Liceu Piauiense como professor, aos 22 anos de idade,  Paulo Nunes vem se dedicando aos problemas da educação no país, sobre os quais  publicou inúmeros trabalhos, destacando-se os inseridos nos livros A GERAÇÃO PERDIDA (“Ensino Superior e Mercado de Trabalho”, “Formação do Pessoal Docente para o Ensino do 1º e 2º Graus”, “Aspectos Renovadores da Reforma do Ensino” e “Educação Média e Fundamental”) e  O FRACASSO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA, que reúne estudos sobre um dos maiores educadores do Brasil – Anísio Teixeira -  e os artigos “Globalização e Burocratização da Universidade”, “Aprovação Automática”, “Cristovam Buarque e Brás Cubas”, “Toda Criança na Escola” e uma entrevista em que defende o ponto de vista de que “uma prova não pode avaliar o sistema”.

     Como confessa no Prefácio do citado livro sobre o erro e o  fracasso na escola brasileira, Paulo Nunes se refere a algumas de suas preocupações com a educação no Brasil, como os problemas da organização  do sistema público de ensino; o da inadequação do nosso ensino à realidade social do país; o da unidade e diversidade dos sistemas educacionais; o da função inócua  de nossas reformas educacionais; o do centralismo burocrático e da descentralização ou regionalização do ensino brasileiro.

     Ainda na área da educação, Paulo Nunes teve destacada atuação, como presidente da Fundação do Ensino Superior do Piauí durante a tramitação do processo de constituição da Fundação Universidade Federal do Piauí em 1969, na organização da entidade, o que o credenciava a ser escolhido como o seu primeiro reitor. Mas injustamente seu nome foi preterido, o que o levou ao seguinte desabafo transcrito no  livro – CONVERSAS COM M. PAULO NUNES - organizado pela professora Teresinha Queiroz: “Organizei a Universidade nos moldes mais modernos possíveis [...]. Eu podia organizar a Universidade, só não não podia dirigi-la porque era considerado subversivo para o pessoal do regime militar dominante, e aí, segundo consta, fui vetado para dirigir a Universidade”. 
     
Nessa época já era funcionário do Ministério da Educação e foi convidado para transferir-se para Brasília. Como estava muito decepcionado com o que lhe acontecera no Piauí, aceitou o convite.
  
   Quis o destino, que escreve certo por linhas tortas, que no MEC, em Brasília, exercesse importantes funções: participação em comissões e assessorias, culminando com o cargo de  Assessor Especial do Ministro da Educação.

     Com a aposentadoria, retornou no início da década de 90 ao Piauí, onde reside até hoje e presidiu a Academia Piauiense de Letras e preside a partir de 1994 o Conselho Estadual de Cultura.

     No campo da literatura, são notáveis suas análises sobre Eça de Queirós, José Saramago, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge Luís Borges e Pablo Neruda. Escreveu também com grande senso crítico sobre expoentes da literatura piauiense, como Da Costa e Silva, O.G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Odilon Nunes e muitos outros.
    
     Paulo Nunes se autoproclama integrante da “Geração Perdida”, constituída por  ele, José Maria Soares Ribeiro, H. Dobal, Eustáchio Portella Nunes,  Vítor Gonçalves Neto e O. G. Rego de Carvalho. No  mencionado livro organizado por Teresinha Queiroz – CONVERSAS COM M. PAULO NUNES – o escritor relembra:
                                          
        “Eu considero o meu interesse de viver, de fazer as coisas, depois que comecei a participar                  da minha geração. O encontro com a minha geração – seis gatos pingados que discutiam                       literatura, filosofia – um pequeno grupo que passou depois a se reunir na praça Pedro II à                    noite, isso a partir  de 1945”.

     Paulo Nunes pôs inclusive num de seus livros o título A GERAÇÃO PERDIDA.

     A propósito, lembro que em Portugal da 2ª metade do século XIX os intelectuais que participaram da polêmica com Antônio Feliciano de Castilho  conhecida como “Questão Coimbrã” ou “Questão do Bom Senso e do Bom Gosto” (Eça de Queirós, Antero de Quental, Teófilo Braga...) formaram o grupo dos “Vencidos da Vida”, que  segundo Massaud Moisés, no terceiro volume da obra PRESENÇA DA LITERATURA PORTUGUESA, era “uma espécie de agrupamento de homens maduros a gozar com jantares galhofeiros a sensação dúbia do passar irrecuperável do tempo”. Penso que em verdade essas gerações portuguesa e piauiense deveriam, pelo legado que deixaram, ser chamadas de “Os Vencedores da Vida” e “A Geração não Perdida”, respectivamente.

     Na época em que era presidida por M. Paulo Nunes, se não me falha a memória em 1995, a Academia Piauiense de Letras promoveu com enorme sucesso o “Seminário sobre Modernismo e Vanguarda”, tendo eu sido convidado para dele participar como um dos expositores, com o tema “Vanguardas do Modernismo”.

     Em fins do mesmo ano, Paulo Nunes e Raimundo Nonato Monteiro de Santana reuniram-se em Parnaíba comigo e o professor Lauro Andrade Correia, que era presidente da Academia Parnaibana de Letras. Assunto principal: eleição para preenchimento da Cadeira nº 19 da APL, vaga com o falecimento do parnaibano e extraordinário escritor Renato Pires Castelo Branco. Os três achavam que a vaga deveria ser suprida por um parnaibano e que eu deveria ser candidato. Como ainda era jovem para os padrões acadêmicos, sugeri que a candidatura ideal  seria a de Lauro Correia ou a de Assis Brasil, parnaibanos mais velhos e com mais serviços prestados à cultura do que eu. Mas o dr. Lauro, com a concordância dos visitantes, me convenceram a candidatar-me. Fui eleito e empossado em 15 de março de 1996.

     Na solenidade de posse na Cadeira Nº 19 da Academia Piauiense de Letras o discurso de recepção foi proferido pelo professor Paulo Nunes. Da sua bela peça oratória destaco e transcrevo  o momento em que ele se refere com muita emoção ao “terrível episódio”  do assassinato de meu pai Alcenor Rodrigues Candeira em 1959, em Parnaíba, com a omissão do meu poema “Passando em Revista”, citado na íntegra:

          “Se pudesse acentuar, nestas breves considerações, os aspectos essenciais da poesia de Alcenor Candeira, diria que quanto à temática ela se cinge à preocupação social (...) , aliada ao tom fortemente elegíaco que no caso, ao que suponho, decorre da tragédia familiar por ele e por seus familiares dramaticamente vivida e sofrida. Esta nota reponta em vários de seus poemas e de forma contundente naquele poema elegíaco ‘Passando em Revista’ (...) em que expressa o sentimento de dor e de revolta, pelo assassinato de seu pai, terrível episódio que o colheu em sua meninice. Numa comovida homenagem a este excelente poeta que hoje aqui festivamente recebemos, transcrevo-lhe aquele seu poema:
(...)

A leitura deste poema convoca à memória o trágico poeta Garcia Lorca, um dos maiores deste século, assassinado, no início da Guerra Civil Espanhola, pelas milícias de Franco, em seu belo poema elegíaco ‘Llanto por Ignacio Sánchez Mejías’:

‘las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde
y el gentio rompia las ventanas
a las cinco de la tarde.
Ay que terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!
Eran las cinco en sombra de la tarde!’”
           Destaco ainda nesse primoroso discurso o seguinte trecho:

“ Aqui, portanto, vos assentais hoje, em uma das cadeiras emblemáticas desta Academia, a de nº 19, que tem como patrono um dos nossos pró-homens, Antônio José de Saraiva e como ocupantes (...), e o último, o distinto companheiro, vosso amigo e conterrâneo, Renato Pires Castelo Branco (...), que tanto se empenhou pelo vosso ingresso nesta Casa.
Devo constar a propósito um episódio de que fui protagonista. Quando presidente desta Casa, o único pedido de voto por mim recebido foi em vosso favor e feito por aquele querido e saudoso amigo . Devo dizer-lhe, valha a verdade, que não faltei ao seu apelo”.

    Encerro este trabalho com mais uma curiosa revelação: a partir de minha posse, eu e Paulo Nunes conversamos por telefone sobre cada disputa eleitoral na Academia, num total de vinte, e sempre nossos votos têm sido dados ao mesmo candidato.  É o que acontecerá na  eleição a ser realizada em breve para preenchimento  da Cadeira Nº 24, vaga com a morte de Paulo de Tarso Mello  e Freitas. Coincidência? Talvez, mas sobretudo prova insofismável da sintonia existente entre nós.