domingo, 6 de junho de 2021

Seleta Piauiense - J. Coriolano

Fonte: Google

 

Como a Flor do Bulebule (*)

 

J. Coriolano (1829 - 1869)

 

Os cabelos de Maria

À mais leve exalação

Se embalançam,

Brincam, dançam.

Buliçosos eles são,

Como a flor do bulebule,

Aos beijos da viração.

 

Anelados por seus ombros

De uma candura sem fim,

Ora adejam,

Ora beijam

O seu seio de marfim.

Como a flor do bulebule,

A brisa agita-os assim.

 

Quem a visse descansando

Sua face sobre a mão

Docemente

Negligente,

Dissera-a etérea visão,

Ou a flor do bulebule,

Se não sopra a viração.

 

Mas e a brisa se levanta

Como as aves de manhã,

Os cabelos,

Louros, belos,

Da terna virgem – louçã,

Como a flor do bulebule,

Beija-os a brisa da chã.

 

Os cabelos de Maria,

Aos beijos da viração

Se embalançam,

Brincam, dançam

Resplendem meigo clarão.

Como a flor do bulebule,

Seus lindos cabelos são.

 

(*) O nome mais corrente hoje dessa planta é bole-bole. Optei por deixar a grafia que se encontra no livro “Poesias de José Coriolano de Souza Lima”, organizado por Saulo Barreto Lima Fernandes.   

sábado, 5 de junho de 2021

A árvore da vida




A árvore da vida


Carlos Rubem


O maior comprador, por várias décadas, do pó de carnaúba, na região de Oeiras, foi o Sr. Mário Freitas. Extração agrícola beneficiada no Armazém Bela Aurora, de sua propriedade. Menino curioso, vez outra, gostava de ver o seu processamento industrial.


Sei que havia umas grandes prensas de madeira, enorme fornalha com seus tachos de bronze onde era derretido tal produto. 


Em seguida, a cera quente era colocada em inúmeros flandres. Uma vez fiz uma experiência desastrosa: queimei meu dedo indicador direito. Foi um vexame!


Seca, era quebrada em pedaços. Ensacada, era transportada, no caminhão de Abdias Viana, para Fortaleza, e exportada, posteriormente.


Homens fortes se dedicavam a esta estafante labuta, a exemplo de João Pequeno, Luís Preto, Antônio Grande, David da Várzea e tantos outros sob a gerência do Sr. Geraldo Martins.


Assaltam-me estas lembranças após a leitura do livro “Carnaúba — uma riqueza do Piauí”, de autoria do jornalista Zózimo Tavares. Obra bilíngue ilustrada com belíssimas fotografias. Foi lançada virtualmente há poucos dias contando com a honrosa participação do Presidente do Conselho Estadual de Cultura, Nelson Neri Costa e de Wellington Dias, Governador do Piauí.


A vistosa publicação traz todas as mais diversas e preciosas informações acerca desta árvore que bem simboliza a nossa identidade cultural. Repositório de saberes. É lugar comum dizer que da carnaubeira tudo se aproveita.


Sempre me compraz descortinar um denso carnaubal. O farfalhar de suas irisantes folhas é de uma beleza indescritível. 


Na fazenda Golfos, que pertenceu ao meu pai, Ditinho Reis, há uma piscosa lagoa onde aprendi a nadar. Ao seu derredor, a aludida planta se espraiava. Na minha infância, colhia talos de carnaúba para fabricar meus cavalos de pau com todos seus  apetrechos.


Como dito, se um carnaubal enche os meus olhos, tenho afeto especial por uma única carnaubeira. É aquela que se destaca, hoje, de forma isolada e altaneira, na Praça da Bandeira, na Primeira Capital piauiense. A cidade inteira lhe rende homenagem. Lugar de memória.


Antigamente, estava fincada no pátio interno da ampla e extinta Cadeia Velha construída, em 1839, pelo Presidente da Província Manoel de Sousa Martins - o Visconde da Parnaíba. Projeto arquitetônico do engenheiro alemão Pedro Cronemberg, patriarca dessa família espalhada no Piauí afora. Testemunhou os horrores sofridos pelos segregados que povoaram as masmorras daquele equipamento público.


Nos anos quarenta, o então prefeito José Tapety recebeu em visita o poeta Severiano da Costa Andrade, natural de Simplício Mendes, donde foi mandatário. 


Provocado pelo anfitrião, Da Costa Andrade compôs o belo poema intitulado “A Carnaubeira da Praça de Oeiras” (sic), o qual, momentaneamente, não o localizo nos meus arquivos implacáveis.


A carnaubeira em apreço também é testemunha de muitos outros fatos históricos, religiosos, políticos, sociais havido naquele aconchegante espaço urbano.


Namorei muito sob a vigilância dessa solitária carnaubeira. Cala-te boca!...

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Lampião perdeu os tamancos



Lampião perdeu os tamancos


Pádua Marques

Cronista, contista e romancista

 

Foi de ficar ali de queixo caído ouvindo o cantador de romances cantar e exaltar os feitos e a valentia de Lampião. E o tempo e o sol foram passando por cima da cabeça dele naquela manhã de agosto de 1939. Chico do Tinga era rapaz até que bom, pouco mais de vinte anos, nem branco nem preto, cara chata, roupa ordinária, calçado de tamancos gastos nos calcanhares, um fio de bigode riscando embaixo do nariz e a barba espinhenta e mal cuidada. Mas tinha dessas caídas pra ficar se interessando por coisas ditas dos outros, principalmente tratando de valentia.

Filho de Chico Tinga, o maior cortador de boi do Curre, gostava de ficar ouvindo conversa pelas portas das agências e casas de comércio do centro pelo lado do mercado e na rua Grande, tão logo encerrava os serviços de botar água nas casas de seu Pedro Machado, doutor Mirócles e outros ditos ricos e importantes de Parnaíba. O pai agora vivia gemendo no fundo de uma rede e praguejando tudo e todos pelo seu sofrimento. Mas não fazia força pra deixar dona Rita, a mulher, procurar ajuda. Mas deixasse falar em seu Alarico que ele se acalmava.

Naquele dia o serviço terminou cedo e ele Chico do Tinga, depois de lavar as canelas e os pés no rio lá embaixo no porto Salgado, subiu o barranco e tocou no rumo da Casa Inglesa. Era lá onde sempre havia movimento no sentido da praça da igreja de Nossa Senhora das Graças, do Cassino, das lojas de tecidos, dos engraxates e das pensões e do Hotel Carneiro. Ele conhecia aquilo tudo como a palma da mão. E era de onde que de repente podia aparecer um freguês da sua água pra o dia seguinte. E foi na frente da agência de seu Ranulfo que ele encontrou o mundo naquele dia.

O cantador era um sujeito até que de boa estatura. No chão da calçada ele estirou uma esteira de palha e muitos romances, com as histórias e os feitos do cangaceiro que havia morrido em confronto com as volantes do tenente Bezerra em Angicos no ano passado. E no meio daquela cantoria ele ia oferecendo os romances, respondendo uma pergunta aqui e outra mais na frente. Depois falava de onde vinha e pra onde iria depois, gabava a gente da Parnaíba e ia recebendo o tostão da venda de mais um. Aquele era bom, senão dos melhores que já haviam aparecido na Parnaíba!

E naquela arrumação toda da manhã de agosto de 1939 havia instante que o cantador estava rodeado de gente. Operários das forjas, caixeiros, estudantes do Instituto São Luiz Gonzaga, velhos, estivadores, gente passando da Coroa pra o Mercado na praça Coronel Jonas. Mas era questão e um rasgo de tempo pra que todo mundo se afastasse e fosse atrás do que fazer. Mas Chico do Tinga ficou ali, convencido, ouvindo o cantador de romances e de vez em quando metia a mão no bolso procurando coragem e um tostão pra comprar um daqueles livros.

Chico do Tinga não sabia ler e nem escrever. Nem ele e nem os outros cinco irmãos de dentro de casa e os que já viviam fora. O pai nunca procurou dar nome a eles. As duas irmãs, as mais velhas, Zita e Socorro, ganharam o mundo no rumo de São Luís no Maranhão e a notícia na Parnaíba era de que ganhavam a vida sendo mulheres da vida. Uma delas foi parar até em Belém, no Pará. Diziam que tinha casa boa e até automóvel. Isso fazia o velho Tinga ainda mais desgostoso da vida das filhas e reclamando com dona Rita. O antigo cortador de carne do Curre vivia se lastimando. Mas tinha lembranças dos bons tempos quando em junho botava o boi de pano pra brincar. Ele na frente de tudo.

E lá pelas tantas a praça em volta do cantador ficou tão cheia com a história de Lampião que o botador de água deu de garra e comprou um romance. Não sabia ler, mas iria pedir pra algum conhecido fazer pra eles em casa de noite, antes de tomarem o rumo da rede. Chico do Tinga meteu a mão no fundo do bolso e de lá veio a moeda. Negócio feito com o romance, foi buscar o jumento e as ancoretas ali perto e seguiu no rumo da banca de café com bolo de dona Zefinha, a vizinha de sua mãe, no Mercado Central. De hora em hora pegava no romance e ficava assuntando que história podia estar escondida naquelas folhas de papel.

E de tanta admiração com o cantador de romances na frente de seu Ranulfo Raposo ali na rua Grande, contando os feitos e a valentia vencida de Lampião e seu bando que Chico do Tinga nem se deu conta de que na lavagem dos pés na beira do rio, quando arregaçou as pernas da calça de que o par de tamancos ficou lá esquecido. Naquele movimento todo de ver gente e embarcações no porto, o calçado foi perdido. Quando já estava caminhando na areia quente da Guarita foi que se deu conta. Seguiu em frente e morto de feliz amaciando os dedos nas folhas do romance que tinha dentro Virgulino Ferreira da Silva.     

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Elegia a Campo Maior (fragmento)

Foto: Elmar Montagem: Elmara Cristina

terça-feira, 1 de junho de 2021

OS BARES DE TERESINA (*)



OS BARES DE TERESINA (*)


Eugênio Rosa de Oliveira Ribeiro


Certa noite, pertinho do aniversário de 161 anos de Teresina, numa das cervejadas no Bar do Osvaldo, ficou uma pergunta no ar: O que ou quem mais representaria o jeito de ser da cidade de Teresina? 

Conversando com o Conselheiro Fernando Porto, primeiro e único Comendador do Barrocão, veio a solução! Nossos bares e botecos são quem mais refletem a alma do Teresinense. 

E por qual razão? Qual é a característica dos nossos botecos? O que os diferencia? Quais são eles?

A maioria de nossos bares é bem simples. Despojados, não muitos limpos (tem um com o nome “Bar do Imundo”), copo americano, cadeira de espaguete, ás vezes nem cadeira têm! E, apesar de serem um templo de celebração da mulher, são um ambiente eminentemente masculino.

O dono, geralmente mais grosso que lixa 40, contraria todas as lições do SEBRAE sobre a cortesia e atenção aos clientes.

No entanto, estes botecos são ponto de intelectuais, médicos, engenheiros, jornalistas, empresários, um sem número de pessoas conhecidas e bem sucedidas, além dos tradicionais cachaceiros dos diversos matizes.

Tem boteco frequentado pelas mesmas pessoas faz 40, 50 anos. Agora já são os filhos que estão tomando o lugar dos pais.

O Bar do Osvaldo, por exemplo, que funcionava perto da casa do estudante, antes de mudar para o Barrocão (ficou no lugar do bar do seu Luís Veloso, pai da primeira dama Lilian), foi frequentado por sucessivas gerações de estudantes (iam comprar ovo e sardinha!).

 Muitos desses estudantes se formaram e, apesar de profissionais de sucesso, mantiveram o hábito de visitar o veterano da guerra (seu Osvaldo lutou no Suez).

No Osvaldo não há cadeiras, nem mesas. Quando aparece uma pessoa conhecida (só se for conhecida) ele tira detrás do balcão um tamborete e, assim, os fregueses se posicionam uns de frente para os outros nos dois lados do balcão.

O balcão de madeira do seu Osvaldo tem mais de cem anos e pertenceu ao comércio do senhor Adelino, depois fiscal de rendas do estado, pai do Agenor (engenheiro), Juscelino e Dilson Pinheiro (médicos já falecidos) que permaneceram, como o pai, assíduos frequentadores.

Local de encontro de muitos amigos como: Tancredo Serra e Silva, Edmar Mota e Bona, Peninha, Manoel Afonso, José Jucá Marinho, Bernardo Castelo Branco, Oscar Castelo Branco, Ivadilson, Raimundo Marvignier, Os irmãos Raldir, Bizarria e Roosevelt Bastos, José de Sousa Santos, Afonso Ferro Gomes Filho, João Agrícola dos Passos, Walter Moura, Alberoni Lemos Neto, Ismar Andrade, e muitos outros. 

Dá tristeza saber que uma grande parte já se foi!

Outros bares formam uma verdadeira confraria. Um grande exemplo é o Santana. Reduto de famílias tradicionais, os clientes se sentem irmanados e muito amigos. É muito frequentado por empresários e profissionais liberais. Os membros promovem diversos eventos durante o ano: Carro dos Amigos do Santana no Corso, filme do ano, enduros e por aí vai... Tem cliente que começou criança tomando refrigerante no antigo endereço em frente à Igreja São Benedito.

Mas afinal, quais são os bares tradicionais de Teresina do passado e do presente? Eis alguns exemplos:

Maria Tijubina: ficava no Mafuá entre o muro do Cemitério São José e a linha do trem era frequentada por boêmios e notívagos muito conhecidos como José Lopes dos Santos e o mestre do cavaquinho da Rádio Difusora Caco Velho.

Bar do 71: na Praça do Fripisa, o dono “o Neguin Baixo” só usava branco, roupa e chapéu. Era o ponto dos estudantes da Faculdade de Direito, que funcionava na praça, quando terminavam as aulas.

Bar do Zé Garapa: na Piçarra onde funciona hoje a Jacaúna, ponto de encontro dos melhores jogadores de sinuca. O melhor jogador era o Raimundinho da Bindá. Seu irmão Antônio da Bindá era conhecido como o maior boêmio do Piauí e um grande cantor.

Restaurante da Dona Maria Maior: localizado na Rua Paissandú, reduto boêmio. Quando terminavam os filmes, as tertúlias e o movimento da Praça Pedro II, os homens desciam. O nome oficial era Fála-se Hotel, possivelmente uma corruptela de Pálace Hotel.

Bar Carvalho: Muito famoso, frequentado pela elite, era da família do prefeito Firmino Filho e do vereador Inácio Carvalho, ficava na Praça Rio Branco e era considerado a melhor comida de Teresina.

Bar do Cabecinha: No cajueiro, antes funcionou na Santa Luzia com David Caldas, reduto do famoso Basilão dos Cajueiros .

Bar Carnaúba: dos irmãos argentinos Carlos e Osvaldo Fassi, ao lado do Theatro 4 de Setembro, totalmente feito de carnaúba. Em suas proximidades funcionava a Rádio Calçada, em frente a Lanchonete Americana, onde as decisões políticas do Piauí eram tomadas. Entre os seus frequentadores temos: Deputado Ciro Nogueira (pai), Dr. João Mendes Nepomuceno Neto, Prof. Magalhães (pai de secretario de segurança) dentre outros.

Bar do porão do Clube dos Diários: onde existia um cassino

Largo do Boticário, no Clube dos Diários: no corredor a esquerda de quem entra no Clube, reduto de escritores e intelectuais, até os garçons eram famosos: Raimundão (pai da delegada Vilma), Careca e Cirilo.

Bar e Hotel Avenida: onde hoje é o Hotel Piauí (Luxor), frequentado pelos sírios e libaneses, nossos conhecidos carcamanos.

Cantinho do Tufy: também de árabe, o dono era o Jesus Thomaz Tufy, exercia suas atividades na Rua Álvaro Mendes esquina com a Rua Simplício Mendes, foi a primeira lanchonete a vender esfirra e quibe na cidade.

Bar e Restaurante do Auto Esporte Clube: Na Rua da Palmeirinha (Clodoaldo Freitas), lugar de quem queria comer uma boa panelada. Primeiro restaurante “delivery” de Teresina.

Chicona do Poti Velho: figura folclórica fazia piaba frita e peixe de primeira (era quem fritava os peixes – bem poucos por sinal– de minhas pescarias no encontro das águas).

Galinha da Júlia: única comida que se pode dizer que é genuinamente teresinense, funcionava perto do Hospital São Marcos. A galinha era feita em panela de ferro e lenha, recheada com mexidos e bastante condimentada. A receita morreu com ela, mas fez tanto sucesso que a tripulação da empresa aérea Real Aerovias, ao fazer escala em Teresina já vinha com a incumbência de levar a galinha para o Rio de Janeiro e outras cidades.

Bar do Zé de Melo: em pleno funcionamento na Dom Severino, tão frequentado e querido que existe uma confraria organizada dos amigos do seu Zé.

VTS: Na Rua João Cabral, vende um peixe muito famoso e possuía uma seleta freguesia, exemplo: Totó Barbosa, Elisiário, Carlos Said e Nodgi Nogueira

E quantos outros! Miúda, Bar do Edverton, Gela Guela (a cerveja mais gelada da cidade), Rifona , Zé guela, Sapucainha, Coqueiro Verde, Bar do Gelatti, Pesqueirinho, Bar do Lula, Bar do João Veloso, Bar do Amauri (reduto de jornalistas), Bar da Tia Maria (no encontro das águas), do Ulisses, Zé Filho, Pé Inchado, Ribamar, do Pernambuco, Bar e Restaurante Acadêmico (do Pedro Quirino).

Em Teresina, o bar é tão importante que até candidatura de governador já foi decidida em um.

Até hoje, não há maior diversão para um teresinense da gema que encontrar os amigos no final da tarde e fins de semana, no seu boteco favorito, para trocar informações e esmaecer as tensões de um dia de trabalho.

Nem melhor local para se fazer amizades que duram toda a vida.

São os bares e botecos que fizeram a alegria dos teresinenses de ontem e de hoje.

E que refletem muito do nosso jeito simples e amigo de ser.


 Teresina, 10/08/2013  

(*) Recebi o vertente texto por WhatsApp. Não tendo o contato do autor, não lhe pude pedir autorização para a publicação em meu blog. Espero que ele não se aborreça. Quem me enviou o texto também não tinha o endereço virtual dele. Publiquei porque achei um texto muito bom e importante para a memória de Teresina.   

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Barras no Quadro de Acoram

 



Recebi, através de José Pedro Araújo, um lindo quadro enviado pelo amigo Francisco Carlos Araújo, o Chico Acoram, que considero, brincando, como sendo o último cacique da tribo dos Marataoãs.

Trata-se da folha de rosto do seu importante livro, em fase de editoração, O menino, a cidade e o rio, que contém crônicas, biografias de filhos ilustres de Barras e do Piauí e poemas.

O quadro, que já veio emoldurado, estampa uma belíssima ilustração feita pela barrense Ângela Rêgo, em que se vê o centro histórico da cidade, a velha igreja demolida no início dos anos 1960, voltada para o poente e para o rio, uma nesga do Marataoã e a Ilha dos Amores, além os versos iniciais de meu poema Barras das sete barras.

Foi um grande mimo e um afago no meu ego, que me deixou muito contente.    

Cícero de Andrade Veloso



PREFÁCIO

(ao livro Cícero de Andrade Veloso: biografia de um bom homem e um grande maçom)


João Paulo Peixoto Costa

Historiador e Doutor em História Social


Há muitas décadas as/os historiadoras/es mudaram o foco de suas pesquisas. Antes voltada exclusivamente a enaltecer “heróis”, grandes vultos dos meios político, militar ou econômico, a História transformou suas prioridades e se direcionou à vida “dos de baixo”. A humanidade, com suas conquistas e reviravoltas, não se fez apenas pela ação de figuras ilustres, mas principalmente pelas massas de pessoas anônimas, tantas vezes esquecidas, mas que fizeram o mundo caminhar, inclusive no cotidiano e nos momentos aparentemente mais banais. Cícero de Andrade Veloso por certo não era um homem de cabedal ou que se enquadraria nos antigos parâmetros de protagonista de um livro de História. Felizmente, o mundo mudou, e quem o conheceu sabe que sua vida inspiradora deveria continuar a ser contada quando não estivesse mais aqui. Para a tarefa, não havia pessoa mais indicada do que José Ataíde Torres Costa Filho. 

Com memória aguçada, olhar sensível aos acontecimentos e escrita leve, José Ataíde Filho nos embala pela trajetória de Cícero e nos faz querer saber mais ao longo da leitura, desde seus primeiros anos de vida em meio à numerosa família de Valença, passando pelo percurso profissional, suas andanças pelo Piauí, a apaixonada experiência maçônica e a amorosa construção de sua prole. Na condição de genro do personagem principal, a proximidade do autor com seu biografado não se resumia a conexões formais, mas se explicava pela personalidade acolhedora dos dois e pelo caráter honesto, bondoso, humilde e extrovertido de Cícero. Sagaz na escolha do tema e no desenvolvimento narrativo, José Ataide Filho generosamente compartilha conosco um pouco do que conheceu em meio à convivência tão prazerosa e daquilo que presenciou do afeto com seus filhos, netos, bisneto e sua esposa Vilma, amada companheira de tantos anos.

A vida bem vivida de Cícero ultrapassava a casa e se estendia àqueles com quem conviveu no trabalho e na Maçonaria, a que dedicou muitos anos de serviço. Os depoimentos recolhidos em anexo, bem como os diplomas e certificações que acumulou pelo caminho, atestam a pessoa batalhadora, carismática e querida que era. Eu, como sobrinho do autor, compartilhei em algumas confraternizações de família ou em almoços de fim de semana um pouco de sua companhia sempre muito agradável e divertida, e só posso imaginar a sorte das/dos que com ele conviveram. A saudade deixada com sua partida também é prova das coisas boas que disseminou por sua vida. 

Se engana quem vê a rua e a loja maçônica batizadas com seu nome e o imagina como uma poderosa autoridade de alguma elite qualquer. Cícero Veloso apenas viveu sua vida da melhor forma que pôde, e, por isso, é merecedor das melhores lembranças para quem o conheceu. Das maiores conquistas aos hábitos engraçados do dia-dia, sua trajetória tão bem contada por seu genro e amigo José Ataíde Filho é fonte rica para quem quer conhecer a história do Piauí por uma biografia e inspiração para as pessoas a quem tanto queria. No fim das contas, Cícero foi um homem comum: maçom, trabalhador, pai e avô, filho com muitos irmãos, um menino do interior do Piauí. Ao mesmo tempo, uma pessoa extraordinária porque teve uma vida que certamente todas/os nós gostaríamos de construir: trabalhando honestamente, apaixonado pelo que fazia, amando a família que construíra e, enfim, sendo feliz. 


Teresina, 16 de abril de 2021.

domingo, 30 de maio de 2021

Seleta Piauiense - Ovídio Saraiva


 

Soneto XXVII


Ovídio Saraiva (1787 – 1852)

 

Vamos, querido bem, formosa Alcina,

Nossas juras cumprir feitas a tanto;

Quem teme o braço do alto Numen Santo,

Aos votos que produz a fronte inclina.

 

Aquela Garça, que o verdor faz dina,

É do nosso prazer, do nosso encanto;

Vai-se o Sol, vem da noite o escuro manto,

Vamos, querido bem, formosa Alcina.

 

Nenhum, nenhum Pastor da nossa Aldeia

A notícia terá destes amores,

Pois de amantes é mãe a noite feia.

 

Júpiter, se o souber, não muda as cores;

Pois dous ternos mortais, que amor enleia,

Nunca acenderam seus fatais rigores.   

sábado, 29 de maio de 2021

Tributo ao Poeta Jorge Carvalho

 


Jorge Carvalho


 

GRANDES VULTOS: FILHOS DA PARNAÍBA


Jorge Antônio Costa Carvalho (1951-2021) - Advogado e Auditor Fiscal do Trabalho 


Notável Poeta 


Memorialista e Genealogista 


Colecionador e Vanguardista


(Extraído do Instagram de Diego Mendes Sousa) 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Link da live Tributo ao Poeta Jorge Carvalho


Live Tributo ao Poeta Jorge Carvalho

Data de horário: 28 de maio, às 18:00.

Link para entrar na reunião Zoom:

https://us04web.zoom.us/j/75152837650?pwd=UC96YmcrQ1RWckQ4T3pyQzhLeVAyUT09

ID da reunião: 751 5283 7650
Senha de acesso: F3M9bw     

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Sobre a obra Joana, de Pádua Marques (*)


Sobre a obra Joana, de Pádua Marques (*)


Claucio Ciarlini

 

E se todos os teus sonhos dependessem de um alguém que um dia vai retornar?

 

Incerta é a vida… Cheia de armadilhas, tropeços e desvios.

 

De espera: espera por um alguém, espera por um sorriso, por um alento, por uma notícia, por um destino, um milagre…

 

Vivemos a esperar, sem nem ao menos saber, quando as nossas respostas virão (e como virão). E a partir daí, passamos a construir, as nossas histórias: de tijolo e memórias… Certos que um dia, um belo dia, tudo fará sentido, e poderemos então suspirar, tranquilos e contentes, deitados em nossas redes de estimação e, claro, ao lado de quem nós mais amamos.

 

Tive o doce privilégio, nos últimos dias, de mergulhar no mundo sensível e psicológico que é a escrita do amigo Pádua Marques (O Padinha), em sua obra ainda inédita: Joana e seus filhos – uma verdadeira amostra do que é vida, e toda a bela angústia que ela nos traz. O enredo: Uma partida, sem data para o regresso. Um pai de família, que desaba pelo mundo à procura de uma vida melhor, deixando esposa e filhos, a aguardar o seu retorno, em meio a toda dificuldade, dúvida e tristeza, que uma saudade pode trazer.

 

E a vida não é assim?

 

Uma história que nos prende, do inicio ao final. Que nos remexe, que nos envolve, que cutuca com força os cantos mais protegidos de nossas mentes, de tal forma que a entrega se faz, por assim dizer, total e inevitável.

 

O livro Joana e seus filhos é leitura obrigatória para quem trabalha com o sentimento, ou para quem vive a realidade, sonhando que um dia ela se torne o sonho, que você sempre quis e pensou… Mas tenho que advertir, caro leitor, cuidado com o que você sonha!

 (*) Este texto, datado de 2012, tornou-se o prefácio do romance, publicado em 2021, pela Editora Tremembé.    

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Live Tributo ao Poeta Jorge Carvalho



Em março deste ano, Parnaíba e o mundo perderam o brilhante poeta Jorge Carvalho. E chegou a hora de prestar nossa homenagem ao autor que tanto nos presenteou com seus poemas criativos e ousados. 

A live Tributo ao Poeta Jorge Carvalho, que se dará no dia 28 deste mês, a partir das 18h, via plataforma Zoom e contará com a participação dos escritores Danilo de Melo Souza, Elmar Carvalho e Luiz Ayrton. É uma produção de O Piaguí e traz o apoio da Academia Parnaibana de Letras e da Academia Piauiense de Letras. Ao final, será aberto o microfone para os que quiserem deixar algum comentário ou homenagem. 

Em breve será divulgado o link. 

domingo, 23 de maio de 2021

Seleta Piauiense - Rodrigo M. Leite

Fonte: Google


Delírio ao Meio Dia


Rodrigo M. Leite (1989)

 

ao meio-dia:

temíveis ondas de calor!

 

algumas nuvens ainda tornam a cidade nublada

claro-escura / óculos escuros

 

a sensação térmica dispara botões abertos

copos d’água, tragos

 

                     idas à tabacaria

 

poentes bancos de mármore circulam a praça seca

pessoas escondidas entre outras (refresco!)

gargarejos, risadas, lamentações

 

ao meio-dia

anúncios comercias em bicicletas falantes:

 

fogo! fogo! fogo!   

sábado, 22 de maio de 2021

Um santo!





Um santo!


Carlos Rubem 


Tornei-me amigo e admirador do Professor Possidônio Queiroz (1904 - 1996) em criança. Morador da Rua da Feira, meu vizinho. Desde a mais tenra idade, frequentava sua casa. Sempre me tratou — como a qualquer um — com o maior desvelo. Por lá estando, ficava a observar sua conversa com visitantes, seja com gente simples ou intelectuais, a exemplo do polígrafo José Vidal de Freitas, ilustre conterrâneo. Vez outra, com toda sua mansuetude, interrompia o diálogo com o interlocutor e dizia: — Agora vamos ouvir o jovem Carlos Rubem!


A nossa amizade se consolidou ao longo do tempo. No fim da sua vida, cego, me tornei seus olhos, o secretariava no que me era permitido. Acompanhei-o até o o seu último suspiro!


Quando do meu enlace matrimonial com a Dirce ocorrido já no recuado ano de 1985, convidei-o para ser testemunha deste memorável acontecimento.


Possi não pode comparecer a este ato solene, em Teresina, mas se fez representar pelo nosso comum amigo Ferrer Freitas, incumbência cumprida mediante procuração.


Hoje (20.05.2020), ao ensejo da pandemia covidiana ora vivenciada, em plena quarentena, a Dirce fez uma limpeza geral em nossas coisas. E localizou a cópia de uma carta cujo destinatário é o Ferrer, subscrita pelo meu aludido ídolo, na qual se sobressai todo seu bom humor, carinho e polidez angelical.


Possi era santo!...  

sexta-feira, 21 de maio de 2021

MINHAS TANKAS E HAICAIS

 


MINHAS TANKAS E HAICAIS

(Poemas curtos)


José Luiz de Carvalho *

 

              No ano de 2019, iniciei um estudo e também a produção de poemas haicais, os publicando em jornais e portais de notícias com o título, “MEUS HAICAIS”, em 2020, participei da coletânea Poemas Entre Gerações, (organizada em parceria com Cláudio Ciarlini, com a participação vários escritores piauienses), nela destaquei os “poemas curtos”. Hoje, apresento aqui a minha primeira   TANKA e um breve comentário sobre esse assunto, apenas com a intenção de contribuir um pouco para a melhoria e o fortalecimento dessa produção literária na nossa região.

             A Tanka é mais antiga que a poesia haiku (ou haicai), ambos são poemas curtos e tem as suas origens no Japão, século VII. Tendo se espalhado pelo mundo a partir do início do século XX, logicamente sofrendo algumas modificações. Um poema tana, por exemplo, tem trinta e uma sílabas, com apresentação métrica de cinco linhas (versos) com 5, 7, 5, 7 e 7.  O Haicai, tem uma organização com dezessete sílabas distribuídas em apenas três linhas com 5, 7 e 5. 

              Os chamados “poemas curtos” são necessariamente pequenos, porém sem perder a essência do pensamento poético que motivou a sua escrita. Consiste em uma poesia na sua forma mais pura, natural e límpida, como senti o cheiro de uma flor, ouvir o canto de um pássaro, o prazer da brisa do vento e o calor sol em sua pele. Olhar um nascer, um pôr-do-sol, o subir e o descer das marés de um oceano infindo.

 

TANKAS

 

SABOR

 

Não quero casar,

com ela, nem com ninguém.

Quero é saber,

Se de manga ou cajá?

O sabor que “nina” tem.

 

(Em 21.01.2021)

 

METRIFICANDO:

 

não-que-ro-ca-sar  ---->  (5 sílabas)
com-e-la-nem-com-nin-guém  ---->  (7 sílabas)
que-ro-é-sa-ber  ---->  (5 sílabas)
se-de-man-ga-ou-ca-  ---->  (7 sílabas)
o-sa-bor-que-ni-na-tem  ---->  (7 sílabas).

 

 HAICAI

 

CANTIGA DE NINAR

 

Quero é cantar

Uma canção que calma,

Embala, nina...

 

(Em 03.01.2007)

 

METRIFICANDO:

que-ro-e-can-tar  ---->  (5 sílabas)
u-ma-can-ção-que-cal-ma  ---->  (7 sílabas)
em-ba-la-ni-na  ---->  (5 sílabas).

 * José Luiz de Carvalho – Poeta e Contista (Membro da APAL) 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

As gotas poéticas de Claucio Ciarlini


 

As gotas poéticas de Claucio Ciarlini

 

Elmar Carvalho

 

Neste dia 13, quinta-feira, através do programa Chá das 5, da Academia Piauiense de Letras, veiculado pelo Canal Nestante, iniciei uma amizade com o escritor e cronista Carlos Castelo, nascido em Teresina, mas desde criança radicado em São Paulo, graças a uma simpática brincadeira do apresentador Zózimo Tavares, que era coadjuvado pelo acadêmico Dílson Lages Monteiro. Recomendo assistam a essa excelente entrevista, que se encontra disponível no You Tube.

Quando foi ontem, por WhatsApp, recebi um texto de Carlos Castelo sobre haicai, publicado na revista virtual Bravo. Conciso, mas recheado de informações e em linguagem exemplarmente didática. Respondi-lhe que no dia anterior fizera um prefácio para um livro do poeta parnaibano Marciano Gualberto, em que lhe comentei alguns desse tipo de poema, contido nessa obra ainda inédita. Em resposta, ele me afirmou que nossas ideias eram coincidentes.

Do seu elucidativo e sintético artigo acho importante pinçar o seguinte: “A forma poética teve início com Matsuo Bashô, nascido em Osaka, em 1644. Adentrou pela Terra Brasilis através de traduções do francês, feitas por Afrânio Peixoto. E depois espraiou-se por muitos outros haicaistas, que vão de Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Pedro Xisto, Ciro Armando Catta Preta a Paulo Leminski e muitos outros.”

Em seguida, o articulista esclarece que o haicai hoje é tão popular quanto o soneto o foi no século 19. Porém, pergunta se o leitor já ouviu falar em senryu, para explicar que o gênero fora criado por Karai Senryu, no século 17, e que seria “uma forma mais mundana de haicai”.

Tendo ele dito que a nossa concepção sobre essa forma poética convergia, não me acanhei em lhe perguntar: “Poderíamos dizer que o senryu seria um haicai sem rigidez formal e mais aberto para vários temas?” Sua resposta foi afirmativa e sem titubeios. Acrescentei que iria repassar o seu artigo para um escritor e poeta amigo meu, o professor e editor Claucio Ciarlini, que produz os seus haicais.   

O Claucio, então, se lembrou que havia me pedido para escrever um comentário para o seu livro em elaboração, titulado “HaiCaos: Poema em quarentena”.

Contudo, tendo em vista que, sendo o haicai um gênero poético de rigidez formal, com versos de métrica certa, contada, e de temática sempre ou quase sempre voltada para a natureza e suas circunstâncias, inclusive a beleza da paisagem, o poeta passou a entender que talvez tenha que modificar o título de seu livro em preparo.

Pedi-lhe não se angustiasse, que ante essa rigidez de forma e fôrma, os poucos haicais que tive a ousadia de cometer, também já não o seriam; seriam senryu, que mais se adaptam a minha personalidade não afeita a “espartilhos” estéticos rigorosos, mas sim a uma mais ampla liberdade criativa. Observados os pressupostos formais do haicai oriental, os de Millôr Fernandes também não se enquadrariam; seriam também senryu.

No site Recanto das Letras, em artigo de Raul Pough, colhi a seguinte informação: “O SENRYU nada mais é do que um Haikai (três versos de 5-7-5, sem rigor absoluto), também sem título e sem rima, mas que em linguagem geralmente coloquial, de conteúdo cômico, humorístico, irônico ou satírico, conceitual ou filosófico, de forma epigramática, trata principalmente do cotidiano da vida, dos sentimentos, hábitos, atos e vicissitudes do homem e da sociedade.” Encerrou seu texto dizendo que o senryu seria um terceto à moda ocidental.

Todavia, ao entendermos que o senryu é uma “forma mais mundana de haicai”, não podemos deixar de compreender que de qualquer maneira não deixa de ser haicai, embora possamos considerar que seja uma variante, uma espécie de mutação. Então, nada demais. Até o famigerado coronavírus tem as suas variantes, sofre as suas mutações, e para o mal, por se tornar mais feroz e mais contagioso, enquanto a modificação do gênero poético oriental entendo tenha sido para o bem, para nos dar mais amplitude e diversidade formal e temática.

Os haicais ou senryu de Claucio Ciarlini não são orientados para uma métrica fixa e nem para obrigatórias rimas, vez que o poeta cultiva a liberdade formal, para alcançar uma mais espaçosa inventividade. Todavia, não quis transformar a sua liberdade em anarquia ou desregramento, porquanto usa com sabedoria e parcimônia as rimas, os ritmos e a concisão,  esta sobretudo em virtude dos tamanhos curtos dos versos, que o levam, creio, a uma polimetria, e não a uma ausência total de métrica; porém, não as fui contar.

Por outra parte a sua temática não ficou adstrita aos assuntos costumeiros do haicai ortodoxo. Como não poderia deixar de ser, pelo seu projeto delineado a partir do título, abarca vários problemas e circunstâncias físicas, sociais, políticas e psicológicas, desencadeados por esses sombrios tempos pandêmicos. Vejamos, à guisa de exemplo:

Alguns pastores sem noção

Numa loucura pelo dízimo

Podem dizimar uma nação

* * *

Mergulho em literatura

Aliviando-me a tortura

Até encontrarem a cura

* * *

Como pôde?

Perguntou o capitalista...

Pois pôde!

Acredito sejam esses três poemas acima suficientes para demonstrar a criatividade e a inventividade de Claucio Ciarlini, sobretudo o seu poder de síntese, a sua capacidade em dizer muito com um mínimo de palavras, sem descurar da emoção, da beleza e da sensibilidade.

Invocando o espírito do excelso bardo Manuel Bandeira e evocando a sua verve admirável, diria que os poemas minimalistas do nosso vate, sejam eles chamados de haicais ou de senryu, cometeram “o milagre de colocar o universo em uma gota d’água”.         

quarta-feira, 19 de maio de 2021

POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DOS MAGISTRADOS



POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DOS MAGISTRADOS


Des.  inativo Valério Chaves

 

Em solene cerimônia virtual realizada na noite do dia 12 de maio corrente, com o prestígio confortador de intelectuais, magistrados, autoridades  constituídas e círculos culturais mais expressivos do Estado do Piauí, a Academia de Letras da Magistratura Piauiense  deu posse na cadeira 24, ao seu mais novo imortal, dr. Thiago Brandão de Almeida.

 O ato, marcado por instantes de deslumbramento espiritual, foi presidido pelo desembargador e presidente da ALMAP, Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, cabendo ao acadêmico e desembargador federal Carlos Augusto Brandão de Carvalho proferir o discurso de recepção.

            O novo imortal é Juiz de Direito com atuação em comarcas do Piauí e em Teresina há vários anos, apesar de jovem. É ex-presidente da Associação dos Magistrados Piauienses (AMAPI), professor da UESPI  e da AMAPI, além de profundo estudioso e conhecedor da Ciência do Direito.

 Indicado pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), integrou a Comissão de Notáveis presidida pelo ministro Luz Fux, do Supremo Tribunal Federal, responsável pela elaboração do projeto do novo Código de Processo Civil.

            Thiago Brandão é um jovem e respeitado magistrado piauiense.

Mas como disse o ex-ministro Jarbas Passarinho, em discurso proferido a 24 de julho de 1971, na sede da Escola Industrial de Belém, entendemos  que “é preciso contar com a pressão renovadora da mocidade.  Ela tem pressa e, na pressa não raro julga mal seus antepassados, próximos e remotos”.

            Em seu discurso de posse, profundamente emocionado e integralmente honesto, Thiago Brandão traçou sua própria biografia familiar e profissional numa síntese reveladora de seu caráter de cidadão e magistrado

            A partir de sua posse no sodalício dos magistrados piauienses, acho que posso chamar de meu ilustre confrade e dizer-lhe que essa foi a mais alta de suas conquistas, porque ela irmana e estimula na perpetuação da chama que outros que, antes de nós, conservaram, viva e perene a ALMAP como o símbolo do pensamento mais elevado da nossa terra e dos magistrados piauienses.

            Nobre é a missão da Academia de Letras da Magistratura.

 Portanto estou convencido de que de agora em diante o confrade Thiago Brandão, do alto de sua competência, dela participa com o entusiasmo de sua juventude de homem da ciência jurídica e homem de letras preocupado com os problemas da justiça.

             Receba meu fraternal abraço expressando o apreço, o respeito e admiração que devoto ao amigo.

            Teresina/PI, maio/ 2021

terça-feira, 18 de maio de 2021

Misticismo e Raça na Poesia de Marciano Gualberto

Caros leitores, reverbero através das luzes e sombras de minhas humildes palavras, uma prévia de meu segundo livro prefaciado pelo meu querido amigo e irmão Dr. Elmar Carvalho. Marciano Gualberto


Misticismo e Raça na Poesia de Marciano Gualberto
 

Em tudo que fizerem, trabalhem de bom ânimo, como se fosse para o Senhor, e não para os homens. Colossenses 3:23.

 

Elmar Carvalho

 

No contato inicial que tive com o escritor e poeta Marciano Gualberto para a elaboração deste prefácio e da leitura de suas palavras na Nota preambular, tive um insight sobre o conteúdo deste texto, um espécie de intuição ou estalo à Vieira. Poderia tê-lo escrito de imediato. Mas preferi cumprir o dever de ler todos os poemas do livro para constatar se a minha premonição seria confirmada. Devo confessar que, em matéria de apresentação, que sempre requer estudo e pesquisa, foi a primeira vez que isso me ocorreu.

Constatei que o autor canta o seu misticismo de forma clara, sem nenhum hermetismo, como ocorre em muitos dos versos de William Blake. A sua religiosidade parece conter um sincretismo de várias manifestações ritualísticas, um certo ecumenismo de quem não cultiva preconceito religioso. E nesse seu misticismo, de forma viril, faz a afirmação de sua raça, com orgulho e ênfase. Os seus anjos não são os anjos brancos, intocáveis, diáfanos, quase inefáveis em sua evanescência, de Rainer Maria Rilke, quando este solta seu brado sublime de angústia e solidão:  

“Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos

me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse

inesperadamente em meu coração, aniquilar-me-ia

sua existência demasiado forte (...)”

 

Os seus anjos não são angelicais, alfenins/querubins de doçura e beatitude. Podem ser justiceiros de asas negras:

“Samael, anjo demiurgo, que de tanto ouvir a si

Próprio, criou seu próprio mundo

Gloria a ti, Samael, nas alturas, pelo apoio

Que me deu, no escombro de mim mesmo

Acompanhado sou de vós, e de toda a legião

Dos 200 caídos que lhe seguem”

Nos seus versos, além do simbolismo maçônico, da cabala e do cristianismo, ressoa de forma muito forte os tambores dos terreiros, dos candomblés, da umbanda, das encruzilhadas, dos salões de macumba, como retumbaram em os Tambores de São Luís, de Josué Montello, ou como percutiram na noite da Bahia os atabaques, em vários romances de Jorge Amado.

A sua poética repudia os preconceitos, sobretudo os religiosos, o racismo e as idiotices dos supremacistas brancos. Portanto, nos seus versos não perpassam as brancuras liriais, as carnes brancas das monjas ardentes e ciliciadas do imenso poeta negro Cruz e Sousa. Ele faz a afirmação e mesmo a exaltação de sua raça, mas sem condenar nenhuma raça. Vejamos esse cotejo, para comprovação do que digo:

“Maravilhoso como sou:

Preto, guerreiro, sonhador

E acima de tudo: AFRONTA.”

Em vários de seus haicais, que não têm o rigor excessivo ou os espartilhos dos orientais, condena o colonialismo político e cultural. Em versos simples, sem desnecessárias firulas e malabarismos, enaltece os ancestrais e pede que os elogios e reconhecimentos não sejam póstumos, como sói acontecer. Nesse aspecto está em boa companhia, ao seguir as pegadas de Nelson Cavaquinho:  

“Me dê as flores em vida

O carinho, a mão amiga,

Para aliviar meus ais.

Depois que eu me chamar saudade

Não preciso de vaidade

Quero preces e nada mais”

e as do poeta Manuel Bandeira, que consultado sobre se achava correto lhe erigem uma estátua em vida, respondeu que não só a desejava, como até se recusava a morrer enquanto o monumento não lhe fosse erguido. O nosso poeta Gualberto, não sendo um fariseu, um hipócrita, disse em seu versejar:

“Não diga que me ama!

Não elogiem meus livros

Depois de minha morte...”

Nos seus versos, bem elaborados em sua exemplar concisão, por vezes destila ironias e até mesmo constrói verdadeiros epigramas, como estes:

“Enfim, tu chegou cabelo

Grisalho, prova, que

Estou mas sábio e morrendo.”

Ironias sutis, às vezes, bem-humoradas, um tanto fesceninas (em raros casos), quiçá, autobiográficas:

“Quando criança, não

Tive aqueles balões, mas

            Meus pensamentos voavam.”

................................

“Somos bem mais

Muito, muito mais

Que uma greta ingrata.”

Em sua caminhada poética vislumbra anjos de asas pretas, devassa portais secretos, desvenda enigmas e segredos, como os do livro da capa preta de Cipriano e os da necromancia, além de outros mistérios templários e egípcios. Seja como for, o certo é que os seus anjos não são alvinitentes como os de Rilke e nem como as monjas do “cisne negro”, de carnes brancas, lindas, tentadoras. Mais se assemelham, creio, a essas figuras caricatas e emblemáticas de Rimbaud: “Mercador, tu és negro; magistrado, tu és negro; general, tu és negro; imperador, velho prurido, tu és negro; tu bebeste um licor não selado, da fábrica de Satã.”

Este livro, com as sacadas do poeta, com os seus insights, com o borbulhar de sua inspiração, merece ser lido e refletido com atenção. E ser relido. Dizem que poucos livros merecem uma releitura. E dizem que, se não merecem uma releitura, sequer merecem ser lidos.

Leiamos e releiamos, pois, esta exuberante flor de lótus do jardim poético gualbertiano.