quinta-feira, 1 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Elmar e os tutoienses Rubem Freitas e Antônio Gallas Pimentel, na Praça da Graça, em Parnaíba

1º de abril

A GALLÁTICA TUTOIA

Por ocasião da solenidade de lançamento de meu livro PoeMitos da Parnaíba, entre vários amigos, como o prefeito Zé Hamilton, os poetas Alcenor Candeira Filho e Wilton Porto, o jornalista Bernardo Silva, vários confrades da Academia, encontrei Antônio Gallas Pimentel, que conheço desde o início de minha chegada a Parnaíba, no começo da segunda metade da década de setenta. Ele era professor de inglês, jornalista e diariamente uma crônica sua era transmitida pela Rádio Educadora, a mais antiga do Piauí e, então, a única emissora da cidade, através da bela voz do locutor Gilvan Barbosa. O professor Joaquim Furtado de Carvalho, primo de meu pai, que falava o inglês fluentemente e era um grande causeur, recomendou-me fizesse amizade com o Gallas. Um dia, vencendo a minha timidez de ainda adolescente, fui à sede do jornal Folha do Litoral perguntar se o hebdomadário aceitava colaborações literárias. Estavam na redação o Gallas, B. Silva e o Xixinó, um grande compositor; bem entendido, compositor tipográfico. Tinha extraordinária habilidade de recolher cada tipo de sua respectiva caixa e colocá-lo no componer, na composição dos vocábulos e períodos. Gallas era professor de minhas irmãs Maria José, Josélia e Joserita. Em acidente automobilístico, em que, entre várias outras pessoas, eram passageiras minhas três irmãs, Josélia veio a falecer. No dia do seu enterro, o diretor suspendeu as aulas para que os estudantes pudessem ir assistir à missa na catedral e acompanhar o sepultamento. Nesse dia, foi lida na Educadora uma crônica do amigo Gallas, sobre minha irmã, o que muito comoveu a nossa família. Às vezes, na boca da noite, eu e o B. Silva íamos até a casa dele, para ouvirmos um tangos, pelo rádio, enquanto degustávamos umas três doses de boa pinga. Eram uns belos e vibrantes tangaços, como dizíamos. Um dia o Gallas me convidou a ir até sua residência ouvir uns tangos e tomar umas duas ou três talagadas de calibrina. Para me convencer, como se estivesse falando de uma raridade quase impossível disse: - Elmar, eu tenho até dinheiro!... Verdade que naqueles tempos inflacionários e de vacas magérrimas, dinheiro era um tanto difícil e arredio. Certa feita, eu e ele fomos ao aniversário do Moreira, meu contemporâneo no Campus Reis Velloso - UFPI, hoje ocupante de importante cargo de carreira jurídica do governo federal. Fui convidado ou me autoconvidei a fazer uso da palavra. Entretanto, na empolgação do discurso terminei chamando o Moreira de Monteiro, ato falho provocado porque um meu colega de turma tinha este último nome. A mulher do Moreira, me aparteou, e perguntou como é que eu, que me dizia amigo de seu marido, trocava o seu nome. Não me dei por achado, e respondi que o fizera de propósito, para saber se estavam prestando atenção a meu discurso, e, ao mesmo tempo, porque Monteiro se referia a monte, e o Moreira havia atingido a culminância da cultura e do saber. As palmas espocaram e preferi encerrar o discurso nesse momento estratégico. Já estive com o Gallas na sua bela e histórica Tutoia, outrora importante cidade portuária da região do Delta do Parnaíba. Contemplei as suas lindas praias, como a de Andreza, e a sua exuberante lagoa, ornamentada de coqueiros e outras árvores. Nessas ocasiões, tomei agradáveis banhos nos córregos e rios do percurso. Certa época correu a notícia de que Tutoia estava prestes a ser soterrada pelas dunas; mas, pelo visto, ela continua impávida e inabalável como a conheci. Sempre que vou a Parnaíba tenho encontrado o Gallas. E sempre na condição de bom amigo, e de mestre de sábias libações.

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