quinta-feira, 29 de julho de 2010

DECÁLOGO


FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

R - Lá pelos meus 15 a 16 anos, quando li o romance “Inocência”, de Alfredo d’Escragnolle Taunay ( Visconde de Taunay). Fiquei encantado e procurei ler outros e outros, inclusive livro de poesias. Antes, lá pelos meus 10 a 12 anos, eu já havia lido textos escolares, na famosa “Crestomatia” e poemas infanto-juvenis de Olavo Bilac, nos livros escolares, decorando-os e recitando-os na escola.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária ?

R - Posso considerar que foi a partir da publicação de um poema no jornal “Flâmula”, do Grêmio Estudantil dos ginasianos de Picos, no ano de 1953.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

R - Primeiramente de Casimiro de Abreu, Castro Alves, Álvares de Azedo, e direi que de todos os grandes poetas românticos brasileiros. Depois de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva e por aí vai. Finalmente, de J.. G. de Araújo Jorge, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa. São esses os que me vêm à lembrança, embora tenha lido dentre os modernos praticamente quase tudo. Romances também muitos, especialmente José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Lígia Fagundes Teles, enfim quase todos os que me caíram nas mãos.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

R - Tudo, a partir de minha estréia em 1966, com AREIAS, do elogio que recebi de Drummond quando publiquei UNIVERSO DAS ÁGUAS, em 1979, até a publicação de minha POESIA (IN) COMPLETA, pela Fundação Mons. Chaves, quando o editor era poeta ELMAR CARVALHO.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

R - Aos trancos e barrancos, brigando com a mulher e comigo mesmo, sem saber se teria leitores ou não. Felizmente, tenho vendido sempre e quando não vendo dou, empresto, mostro, mando para bibliotecas e escritores do Brasil e do Exterior. Assim, acredito que ganho alguns leitores. Lucro, praticamente nenhum. Mas não me queixo do pouco dinheiro que investi neles. Aliás, os livros meus de mais aceitação não são os publicados por editoras, mas, sim, aqueles que eu mesmo banco a edição.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

R - O principal livro, para todo escritor, é o mais novo. Dos romances, é o “D.Xicote”, premiado por concurso do Governo do Estado do Piauí e ainda não editado em edição “solo”, como dizem os músicos e cantores; de poesia – e o “Tempo contra Tempo” (em parceria com o poeta Hardi Filho). Contos e crônicas, eu os escrevo por brincadeira, não os considero de grande importância. Já a crítica, eu faço porque alguém tem que fazer. E é uma obrigação de todo bom escritor, pois somos nós que opinamos e temos peso perante a imprensa, muito mais do que os jornalistas que não são escritores. Tenho publicado poucos livros de crítica. O que me valeu nome nacional foi “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”. Mas, como um todo, o mais importe é a “Literatura do Piauí”, onde teoricamente, coloco todas as minhas idéias sobre literatura. Dessa obra, estou preparando a 2ª edição, a pedido da Academia Piauiense de Letras..

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

R - Não têm cumprido de modo satisfatório. Ressalvo a Fundação Cultural “Mons. Chaves”, cujos recursos são geridos pela Prefeitura Municipal de Teresina. Nossos produtores culturais vivem à mingua de recursos para suas produção, a literatura não é exceção. Os processos são morosos, misturam-se com a política, são minguados, precisam melhorar. Esses subsídios, de modo geral (Estado, Prefeitura, Governo Federal) provêem dos impostos que pagamos, noutra parte da vida econômica, e são muitos. A fim de que a cultura e a educação avancem, num país tão sem educação e cultura, é necessário que tenhamos muito mais e mais bem administrados..
8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

R - Diria que é uma grande literatura regional (o Brasil, tão grande, é feito de regiões). Nomes como Da Costa e Silva, O. G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Assis Brasil e tantos mais, da atualidade e do passado, são jóias da literatura de qualquer país, em qualquer região.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

R - A princípio, por desconhecimento, eu não dava muita importância à internet. Depois, meu filho me ofereceu três blogues, coisa que eu posso manejar plenamente. Hoje, estou convencido do seu valor. Não há mais jornais que publiquem literatura, a boa literatura que publicava a nossa imprensa, no passado. E a imprensa alternativa teve sua fase áurea, mas vai minguando, minguando. A internet veio pra ficar. É um bom meio de divulgação literária. Claro que ela não basta, é preciso que livros e livros sejam publicados, que a imprensa, a televisão e todos os meios de comunicação de massa façam o seu papel de difusores de cultura e educação, não apenas de divertimento.

10 – Como e por que se fez literato?

R - Vamos resumir: não creio em inspiração como motora principal da produção artística. Mas cada homem nasce com algumas inclinações. Eu, acredito, nasci com esse pendor para as letras. Se tivesse nascido num tempo e lugar em que não existisse a literatura, acho que a inventaria. Digo isto pensando nos meus 13 a 14 anos, já fazendo versos imitativos dos grandes poetas românticos. Meu pai era professor e, dentro das possibilidades da época, leitura, escrita e livros começaram cedo em minha vida. Quando não conseguíamos literatura impressa, tínhamos manual. Meu pai era um grande redator de cartas, fazia composições excelentes, tudo isto eu li, ele me incentivou a escrever dessa forma, foi meu primeiro mestre – grande mestre. Com minha inclinação para a poesia e o meu temperamento romântico e introvertido, daí nasceu o literato, o poeta e o que mais me digam que sou e faço.

Um comentário:

  1. A respeito deste questionário denominado DÉCALOGO que o poeta Elmar Carvalho, em tão boa hora idealizou, devo dizer será, no meu juízo, muito útil à comunidade literária piauiense, e mesmo fora do Piauí. Será útil aos pesquisadores da história literária piauinese. Isto porque, ao receebermos as perguntas, o entrevistado será tanto mais sincero e inspirado quanto não demorar em dar-lhe respostas. Esse procedimento tem aquele mesmo efeito de um livro recém-editado que, indo para as mãos de um crítico, dele recebe uma resposta quente, em cima da hora, no calor da leitura. Se nessa reação ao estético possa haver uma certa pressa de julgamento, por outro lado, a crítica da primeira leitura faz despertar no julgamento e impressão da obra os mais fortes dons de perceção do fenômeno criativo. E por isso julgo que tem alguma validadade além de ser necessária ao dinamismo da atividade judicativa.
    Eu aprecio muito ler entrevistas desse tipo que o Elmar houve por bem inserir na diversidade em que está se transformando o espectro do seu blog, cujo epicentro se assenta em seu Diário Incontínuo.
    Valeu a pena poder compartilhar das respostas do Francisco Miguel de Moura, resposta que , nãço se pode negar iluminam a compreensão global de se pensamento poético e da sua personalidade literária.
    Cunha e Silva Filho

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