terça-feira, 29 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


Mesa de honra, vendo-se o deputado Themistocles Filho, desembargador Tomaz Gomes Campêlo e o autor Paulo Ferreira




30 de junho

TRÊS IRMÃOS EM TRÊS TEMPOS

Recebi o livro “A Medicina, a Família e as Letras”, da autoria de Paulo Ferreira, de caráter autobiográfico. Nele, o autor conta a sua vida, desde o nascimento até a sua carreira vitoriosa de médico e de empresário do setor de saúde. Conheci o Paulo e seus irmãos Clemilton e Gilberto Ferreira, desde nossa adolescência e juventude. Com eles mantive amizade e respeito recíprocos. Gostava de ouvir a gargalhada reverberante e altissonante do Clemilton, quando via ou ouvia alguma coisa engraçada. Certa feita, ao chegar a uma bodega, cumprimentei os presentes, e dirigindo-me a ele disse que ele era um gigante, um verdadeiro cavalo batizado. Ele, no mesmo instante, respondeu-me que não, que apenas batizava os cavalos. Todos riram da resposta, e o Clemilton mais que todos. Não perdi o rebolado, como se diz, e retruquei-lhe: - “Então corre, vai buscar água, e batiza-te primeiro a ti mesmo, pois tu és o mais cavalo de nós”. Todos acharam graça do meu repente, inclusive o Clemilton, que disse eu não ter mesmo jeito, e querer ganhar sempre. Ele, que nessa época, começo dos anos 70, fazia o curso de Técnica Agropecuária no famoso Colégio Agrícola de Teresina, foi abordado por um vizinho para fazer o diagnóstico de uma vaca que havia morrido. Respondeu que não poderia fazer tal coisa, porquanto se o animal estava morto só poderia fazer a necrópsia, e soltou o estardalhaço de sua vibrante gargalhada. Quando foi trabalhar como técnico em agropecuária ganhou fama logo no início de sua carreira. Havia uma rês magérrima, quase à morte, pois se recusava a comer. Outros técnicos e veterinários examinaram a vaca e não conseguiram descobrir a doença. O nosso bravo Clemilton também foi chamado para solucionar o problema. Logo ao chegar, pediu que atravessassem um pau na boca do animal. Meteu-lhe a mão garganta a dentro, e remexeu-a, atentamente e de forma circunspecta, de um lado para outro. Descobriu um caroço de mucunã, mas o escondeu na mão, para valorizar o seu trabalho. Logo que pode, guardou o caroço no bolso da calça, de forma discreta, de modo que ninguém visse. Depois, aviou uma receita para desinflamar a garganta bovina. E esperou o resultado. Depressa soube que o animal voltara a comer e que se encontrava completamente restabelecido. Ganhou fama de ser o maior “veterinário” da região e de ser quase milagroso. O Gilberto é mais sisudo, embora também tenha senso de humor. De boa voz, rítmica entonação e de bom poder argumentativo, tornou-se respeitado advogado criminalista. Foi atuante e dinâmico líder estudantil, sendo um dos fundadores da AUCAM (Associação dos Universitários de Campo Maior). Presidiu a Casa do Estudante Pobre do Piauí, situada na Rua Rui Barbosa, em Teresina. Em sua gestão foi inaugurado o anexo, que fica por detrás do bloco antigo. Professor de História, certamente essa disciplina lhe serve para enriquecer e ilustrar a sua retórica forense. Foi, durante algum tempo, uma das lideranças proeminentes do PDT. Quanto ao Paulo, veio para Teresina, onde cursou o 2º Grau e se formou em Medicina. Graças a seu esforço e tino administrativo e empresarial, construiu, aos poucos, mas sempre de forma segura, sem endividamentos temerários, o Hospital das Clínicas de Teresina. Dentro de seu planejamento e possibilidades, foi expandindo a área construída, com novos anexos e melhoramentos, e hoje pode ser considerado um dos grandes empreendedores de Teresina. Já se prepara para construir um shopping na zona norte da capital, mais precisamente num grande terreno que possui na frente do HCT. Não duvido que esse empreendedor logo dará a Teresina um novo centro comercial; coisa, aliás, de que a capital já está precisando. Não deixou, contudo, de ser aquele rapaz simples, afetivo, amigo dos amigos, de sorriso largo e franco, além de ser o médico humanitário e vocacionado que é.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"PRESENÇA": UMA PUBLICAÇÃO GRANDIOSA

Cunha e Silva Filho (*)


Muita gente ainda torce o nariz para publicações oficiais não sabendo que, assim agindo, comete um erro palmar. Se o Estado custeia, no plano cultural, revistas ou mesmo livros, não me parece haver mal algum nessa iniciativa. Tampouco vejo como uma ação paternalista de um órgão público se este escolhe pessoas certas e capazes para cuidarem de uma publicação, a exemplo da já consagrada revista Presença há anos editada pelo Conselho Estadual de Cultura do Piauí. Dela guardo um grande número de edições que preservo como uma coleção fundamental, um inegável patrimônio de importantes estudos por ela enfeixados ao longo de toda a sua produção. A revista tornou-se, por isso, uma inestimável fonte de pesquisa sobre a história cultural piauiense nos seus vários setores de pesquisa, não só erudita mas de natureza popular.
Desde a sua estreia já dava sinais de que chegaria para ficar, ao contrário de tantas revistas culturais brasileiras que geralmente tiveram existência efêmera. Presença tem resistido ao tempo e alcançado o seu mais recente número, a sua 43ª edição, além de dar demonstração insofismável de seu efervescente espírito catalisador e de ser expressivo instrumento de divulgação não só da história cultural piauiense mas também por nunca esquecer o fato de que o regional faz parte do nacional e, nessa diversidade, consegue integrar-se harmoniosamente como unidade especificamente brasileira.A revista constitui um verdadeiro fórum de discussões de temática piauiense no mais elevado padrão ético-cultural-literário. Por esse motivo, ela se diferencia de outras congêneres e daí também sua duração.
Grande parte do extraordinário sucesso da Presença, cujos lançamentos de edições já se tornaram um evento em Teresina, mobilizando imprensa e leitores, deve-se ao trabalho incansável e fecundo do presidente do Conselho Estadual do Piauí, o professor e escritor M. Paulo Nunes. Creio que a pessoa desse escritor se confunde mesmo com parte significativa da feliz história dessa revista. Do editorial à revisão, a par da constante e operosa contribuição dele próprio à revista, M Paulo Nunes já deixou nas suas páginas uma marca inconfundível e duradoura. Presença, essencialmente, é uma publicação literária na mais rigorosa acepção do termo.
Dessa maneira, se explica sem muita dificuldade o quanto a revista deve ao esforço e ao critério do presidente do Conselho Estadual de Cultura, quer na escolha de sua equipe, quer na crescente qualidade de um número para outro, quer na supervisão de outros itens envolvidos na publicação: impressão, capa, cores, disposição gráfica, revisão, ilustrações e suporte jornalístico, tudo realizado com dedicação, esmero e beleza.
Li, de ponta a ponta, o nº 43, que está estupendo. Abrangente, como de costume, na escolha das matérias selecionadas, neste número apresenta dois temas centrais, o primeiro, uma homenagem ao centenário da morte de Euclides da Cunha, incluindo contribuições sobre a vida e a obra do grande escritor fluminense, a cargo da Redação da revista, uma visada geral do valor literário, jornalístico, histórico, sociológico e científico de Os sertões, em breve ensaio assinado pelo ficcionista Oton Lustosa, num desdobramento de sua participação em mesa redonda realizada, em agosto do ano passado, pela Academia Piauiense de Letras durante uma exposição da vida e obra do homenageado e um estudo vigoroso e atualizado do historiador Dagoberto Carvalho Jr. de título “Euclides da Cunha: Inflexões sociológicas do realismo literário brasileiro.” Neste estudo, só senti a falta de uma referência à obra de Clóvis Moura, Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964).
O segundo tema refere-se a duas matérias que valorizam a cidade de Amarante, sobretudo seu patrimônio arquitetônico e cultural. A primeira, “Cultura, Memória e Identidade da Cidade de Amarante”, feita a quatro mãos, tem um sentido de reivindicação para que essa cidade seja incluída entre outras que foram contempladas com o programa PAC instituído pelo governo federal com o objetivo de desenvolver ações de revitalização, recuperação e preservação do patrimônio arquitetônico-paisagístico de cidades históricas brasileiras. Amarante, incompreensivelmente, ficou de fora. O segundo artigo, assinado por Natacha Maranhão, tem cunho mais jornalístico e, portanto, fala de Amarante, sob um foco mais pessoal, mostra a cidade nos seus aspectos econômico, histórico, literário e sociológico, mencionando vultos intelectuais mais conhecidos da cidade e ainda traz um fac-símile de uma carta do presidente Juscelino Kubitscheck ao prefeito de Amarante Simão de Moura Fé, com data de 1961.
O número da revista ainda insere um comovente poema em quadras, em homenagem a Teresina, “Cidade Verde” da autoria de Hardi Filho, belo poema no qual as qualidades sonoras e rítmicas do poeta são novamente confirmadas. Não conheço poema melhor de exaltação a Teresina., verdadeeiro hino de amor à capital piauiense.
A revista se completa com uma resenha enxuta, de Enéas Athanázio sobre recém-publicado livro de crônicas de Jorge Amado, Hora da Guerra;um breve estudo-técnico sobre a arte rupestre; um conto de um autor que não conhecia, Pedro da Silva Ribeiro; um breve, claro e elucidativo artigo histórico, acompanhado de fac-símiles de documentos, de Jesualdo Cavalcanti Barros, de título “Fundação da Vila de São João da Parnaíba”; um texto de alto valor para as artes plásticas piauienses que aborda, em resumo, alguns ângulos da vida e obra do artista Genes Celeste Soares, falecido prematuramente e, por final, um cartum de Jota A no qual o talento do artista, entre a ironia e a destreza do traço, vergasta os inimigos das florestas brasileiras – tema sempre bem-vindo enquanto houver irresponsáveis e criminosos no maltratado meio ambiente brasileiro.
(*) Cunha e Silva Filho é professor universitário, e mestre e doutor em Literatura Brasileira.

sábado, 26 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


19 de junho

O ABANDONO DO JERICO SARNENTO

Quando saía, à tarde, para minha caminhada, deparei-me com um jumento à porta de minha casa. Parecia cansado, com aspecto doentio, como se estivesse à morte; deu-me a impressão de haver sido covardemente abandonado pelo dono, para morrer em local distante, e não lhe dar o trabalho de se desfazer do cadáver. Apresentava feridas no corpo. Seu pelo era falhado, amarfanhado, sem brilho, como se tivesse sarna ou outra doença semelhante. Era magro, como se passasse fome, e tinha as patas tortas, em virtude, talvez, de já haver sofrido algum acidente, provavelmente de trânsito. Roçava o pelo no poste, certamente na intenção de mitigar as coceiras da pele sarnenta. Quando me aproximei, para fotografá-lo, me olhou, com resignação, mas sem medo. Talvez esperasse alguma bordoada, recordando-se de algum fato passado. Outrora, os jumentos eram queridos e respeitados. Eram úteis, seja para o transporte de carga seja para o de pessoa. Tem muita força; desproporcional para o seu porte. Por isso, eu os comparo a um pequeno trator, com tração nas quatro patas. Hoje, numa época em que quase toda família possui um carro ou uma motocicleta, seja de primeira ou de quinta mão, os jericos foram “encostados”, mesmo na mais remota zona rural. Os carroceiros preferem um burro, que é maior, tem mais força e é mais veloz. Muitos vivem abandonados, à margem das estradas, correndo risco de vida e pondo em risco a vida dos motoristas e motoqueiros. A respeito do jumento, já escrevi uma crônica, da qual extraio o seguinte: “É um animal dócil e paciente. Segundo a tradição, foi o escolhido para conduzir a Virgem Maria e o Menino Jesus, na fuga para o Egito, evidentemente com a presença de São José, na constituição emblemática da Sagrada Família. Provavelmente tenha sido a sua proverbial docilidade, mansidão e humildade a razão dessa escolha e honraria. Como a maioria desses animais ostenta uma mancha sobre as pás dianteiras, considera o povo simples, na voz da lenda, que essa marca é o sinal milagroso e honorífico do xixi com que lhe ungiu o Salvador, como uma forma de homenagem e gratidão pelo serviço prestado. Depois, encerrando apoteoticamente sua participação na Bíblia, foi o escolhido por Cristo para conduzi-lo em sua entrada triunfal em Jerusalém”. Quando retornei da caminhada, vi o jerico mais animado, a provar que a vida é forte, surpreendente e dinâmica, a pastar o renitente e insolente capim de burro, que nascera, quase por milagre, por entre as pedras do calçamento. Depois, não mais o vi. Não sei que rumo terá tomado. E jamais saberei que destino a vida ainda lhe reserva, além da ingratidão daqueles a quem serviu.

DUNGA X REDE GLOBO

O velho Dunga, no seu conhecido estilo turrão de sempre, em seu "arranca rabo" com a Globo, quando não permitiu, segundo dizem, a reportagem exclusiva a essa rede de televisão, na arte do mestre Gervásio Castro.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

SELETA PIAUIENSE


OS NAMORADOS

H. Dobal

ESTA ELEGIA PARA OS NAMORADOS
QUE ANDAM EM SILÊNCIO PELA PRAÇA MORTA,
DE PASSO LEVE, INCERTO COMO O SONHO
A QUE SE ENTREGAM SOLITARIAMENTE.

É TRISTE E BREVE COMO OS NAMORADOS
E O SEU AMOR DE ADOLESCÊNCIA. MORTA
TODA A TERNURA FICARÁ E O SONHO
TAMBÉM SURGINDO SOLITARIAMENTE.

QUE ESTE SILÊNCIO VENCE OS NAMORADOS,
COMO UM AVISO FÚNEBRE E FATAL,
APARECENDO EM MEIO AOS CARINHOS.

LEMBRANDO AMOR E SONHO ABANDONADOS
E O RISO FRÁGIL, RÁPIDO, IRREAL:
“TANTO MAIS JUNTOS QUANTO MAIS SOZINHOS”.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro

Que dizer do Rodrigão?
Que ele era um novo Atlas
a sustentar em suas costas
a esfera azul do sonho?
Não. Era um atlas de carne e osso
porque sua cara vista de perfil
era um mapa da América do Sul.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

NOTÍCIA CULTURAL


SARAU ÁGORA

O Sarau Lítero-Musical Ágora, em sua XXXII edição, homenageia o poeta Edilberto Vilanova. O evento acontecerá no próximo dia 24, quinta-feira, no restaurante Nova Brisa. Como sempre acontece, o poeta homenageado recitará poemas de sua autoria. Os presentes poderão dizer poemas seus ou de outros autores. O recital é intercalado com números musicais, a cargo de artista especialmente convidado. Na oportunidade, será lançado um opúsculo com poemas de Edilberto Vilanova. O poeta nasceu em Simplício Mendes, no povoado Altamira, mas aos dezessete anos foi morar em Oeiras, onde se formou em Letras/Português na Universidade Estadual do Piauí. Na plaqueta encontramos a informação de que o poeta “trabalha com a desconstrução e a recriação dos vocábulos. Conhecedor da obra completa do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, ele o aponta como um dos expoentes responsáveis pela sua atual produção poética, assim também como o poeta piauiense H. Dobal, que muito o tem ajudado na busca de uma linguagem definida e na concisão do poema”. O sarau é realizado graças à perseverança e esforço do poeta e médico João Carvalho, que busca apoio e parcerias, e chega a gastar dinheiro de seu próprio bolso, para manter a regularidade da promoção, que acontece sempre na última quinta-feira de cada mês. Merece ser prestigiado por todos que gostam de cultura, sobretudo música e literatura, e desejam fugir da mesmice.



DOIS POEMAS DE EDILBERTO VILANOVA

SEDE

Ainda deságuo quando você demora
a descansar seu coração selvagem
em meu peito
pois sei que teu cais
é qualquer porto
qualquer poço
mas você sempre volta
e não tem jeito mesmo
minha sede cede a qualquer encanto seu
tenho a sede dos oceanos
você é minha sede
sede minha represa
sou mulher oceano
e nem a tempestade sacia minha sede
pois quem chove sou eu
a tempestade sou eu
vem cedo navegar em meu pano
deixa teu navio-coração
descansar no peito meu


PUBERDADE

Minha infância sem rios
se fez barquinho de papel
e naufragou
nas águas turvas da cacimba
do interior de minha adolescência

terça-feira, 22 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho





César Carvalho, Zé Francisco e Elmar Carvalho. Atrás da câmera, o quarto mosqueteiro: Antônio José

22 de junho

CORREDORES, UM LAGO NA CAATINGA

No domingo, fomos eu, meus irmãos César e Antônio e o Zé Francisco Marques à barragem dos Corredores, distante cinquenta quilômetros da cidade de Campo Maior. Deixamos a estrada asfaltada, que vai para Castelo e São Miguel do Tapuio, e seguimos por uma carroçável. Em certo ponto, encontramos um grande rebanho de gado bovino, tocado na retaguarda por dois vaqueiros, cada qual em seu cavalo, devidamente paramentados, como nas músicas de Luís Gonzaga, o inesquecível Rei do Baião, com seus ternos de couro, ou perneira e gibão, além do indispensável chapéu de couro, que lhes protege dos espinhos e galhos secos do agreste. Fiz questão de assinalar que os vaqueiros estavam a cavalo porque hoje não é rara a figura dos vaqueiros motorizados, a campearem em suas barulhentas motocicletas, de buzinas estridentes, que já não usam o bucólico e melancólico aboio, que parece tanger e amansar as reses. Conduzi a picape lentamente, enquanto os bois se afastavam do leito da estrada, de modo que pude passar sem nenhum problema. As vacas seguiam pachorrentamente, imperturbáveis, como impassíveis matronas. Nada lhes apressava o passo nem lhes alterava a elegância do andar, quase desfile. As corcovas dos novilhos se destacavam, a balançar de um lado para outro, ao compasso da marcha. Nesse percurso a gente se depara com a beleza seca, árida, agreste da caatinga, que nos faz recordar as histórias e fotografias de Lampião e seu bando de cangaceiros. Na paisagem plana do tabuleiro, recoberto pelas gramíneas e capim mimoso, surgem os arbustos da mata rala e a beleza agressiva e espinhenta dos mandacarus, xiquexiques, macambiras e coroas-de-frade, e esparsas moitas de mufumbo, de folhagem densa, a alegrar a aridez da paisagem, em que repontam a graça dos leques das carnaubeiras. Algumas cabras pastavam, enquanto outras buscavam a sombra de alguma árvore mais copada, como nos poemas de Dobal. O lago de Corredores é um mundão d'água, insolitamente perdido e encravado na sequidão das pedras e da caatinga. Para não termos o trabalho de armar nossa barraca, nos dirigimos a uma palhoça que se encontrava desocupada. Pelos cocôs espalhados, logo vimos que ali se abrigavam caprinos, à noite. Quando nem bem nos acomodamos, logo chegou um homem, numa motocicleta, a nos perguntar se não desejávamos alguma coisa. Percebemos que ele queria marcar território e faturar algum dinheiro. Encomendamos uns espetinhos, e demos como pago o nosso tributo. Ao som de boa música, degustamos um delicioso tira-gosto que trouxemos, a contemplar sem nenhuma pressa a beleza do lago e dos morros que lhe dão forma e ornamento. No retorno, fotografei um cemitério campestre, abandonado na solidão e no abandono do abandonado semi-árido. Com o êxodo rural, é muito provável que até as almas tenham se exilado daquele campo santo do sertão. E já não entoem os miseres e excelências nas noites mortas do ermo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



O ANJO REBELADO

Elmar Carvalho

O evangélico mais uma vez transmitia seus ensinamentos bíblicos, na periferia da cidade, a um homem simples, que mal sabia ler e escrever. Estavam, como das vezes anteriores, à mesa de jantar, com as Bíblias abertas sobre a mesa. A do instrutor continha notas e estudos aprofundados, e já estava bastante surrada pelo constante manuseio. O estudo daquele dia tratava da expulsão de demônios, operada por Cristo. Mas também fazia remissões ao livro de Gênesis, e abordava o episódio do pecado original, com as explicações sobre a árvore do conhecimento e a tentação perpetrada pela serpente, em que o velho Diabo se metamorfoseara. Como estudo correlato, a tentação de Cristo igualmente foi comentada, para mostrar a ousadia do demônio, que chegara ao ponto de tentar corromper o próprio filho de Deus. Nas vezes anteriores, o dono da casa sempre se mostrara humilde, cordato, de poucas palavras e de difícil entendimento, tendo o instrutor de se esforçar muito para que ele pudesse entender as explicações e exegeses bíblicas, por mais singelas que fossem. Porém, naquele dia, o homem se mostrava loquaz, eloquente mesmo, de argutos e sibilinos raciocínios, chegando inclusive a contraditar o seu instrutor e a questionar as suas explicações e ensinamentos. Parecia ter decorado a Bíblia, pois citava os trechos a que aludia sem o erro de uma única palavra, e indicava os capítulos e versículos com espantosa precisão. Falava com autoridade, como alguém que estivesse muito acima do interlocutor; e mais do que isso, explanava como se fosse testemunha ocular dos fatos narrados na Bíblia. O evangélico notou que ele parecia criticar as obras, os atos, as intenções e o próprio plano de Deus. Parecia ressentido contra o Criador. Construía as frases de forma bem articulada, com absoluta correção gramatical, com pronúncia impecável e com uma clareza inigualável. Embora parecesse sofismar, e por vezes cometer paradoxos, seus argumentos tinham a aparência de profundos e de infensos às dúvidas comuns dos mortais. O instrutor cotejou as citações e os números dos versículos e capítulos e constatou que não havia erro, o que mais ainda aumentou o seu assombro. Quando aquele homem, outrora simplório, mas no momento tão cheio de autoridade e de aparentes certezas e verdades absolutas, falou no caos primordial e em Adão e Eva, narrou fatos que não estavam nas Escrituras, mas que ele parecia haver presenciado, e sempre o fazia de forma maliciosa, como se pretendesse por em dúvida os verdadeiros desideratos do Onipotente. Essa forma de desrespeito ao Senhor, acabou por provocar uma revolta no evangélico, que lhe perguntou como ele poderia ter tanta certeza do que afirmava e como ousava por em dúvida a benevolência de Deus. O homem respondeu de forma tranquila, mas firme e peremptória: – “Porque eu estava lá!” O instrutor arrepiou-se todo. Os cabelos como que se eletrizaram. Um pavor indescritível lhe tomou o ser e a consciência. Não sabe como deixou aquela casa. Quando voltou a si, estava a dois quarteirões de distância, todo trêmulo e ainda com a pele eriçada. E só então se deu conta de que conversara com o próprio Satã, o anjo rebelado.

A MORTE DE E EM SARAMAGO

Joseli Magalhães (*)



A morte de José Saramago deixa um vazio na historiografia da literatura de língua portuguesa. Em uma das obras que li dele – As Intermitências da Morte – parece brincar com aquilo que agora vivenciou. A obra acopla um misto de ficção e realidade, onde os personagens se identificam com muitos tipos comuns de nossa própria vida. Tudo se inicia quando em um país imaginário simplesmente as pessoas pararam de morrer. Quando retrocedemos no tempo e estudamos culturas e povos antigos, temos a impressão de que o homem sempre abominou a morte, e provavelmente, sempre a repelirá. No nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos. É inconcebível para o inconsciente imaginar um fim real para nossa vida na terra, e, se a vida tiver um fim, este será atribuído a uma intervenção maligna fora de nosso alcance. A morte é a personagem principal do livro. A estória idealizada por Saramago aponta que em um determinado país o governo (primeiro-ministro ou o próprio rei) não admitia o que estava acontecendo - absolutamente ninguém morria no país. O caos começa exatamente aí. A morte desce à terra e começa a dialogar com as pessoas. Um livro, sem dúvida, para não se ter pressa para ser lido, afinal ninguém vai morrer mesmo... A primeira questão filosófica levantada pelo autor é que o Cardeal do país pediu que não divulgassem esta notícia. Com razão, sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há Igreja. Depois, o caos se assola sobre as empresas funerárias: sem mortos as empresas logo fechariam sem a matéria prima do trabalho: a solução, interessante, foi a obrigatoriedade das pessoas terem, agora, de enterrar seus animais de estimação, gatos, cachorros, canários, todos teriam que ser sepultados, com caixão de defunto e tudo. Não se deve esquecer-se das seguradoras, as quais igualmente seriam levadas à falência (sem morte quem iria pagar seguro de vida?): mais uma solução engenhosa para o problema – todos a partir de oitenta anos de idade seriam tidos como virtualmente mortos, assim poderiam receber seus seguros. E a super população! Se as pessoas morrendo ainda assim existem pessoas demais na terra, imagine sem se “passar desta para uma melhor”. Engraçado, também, é a ironia que Saramago expõe em relação aos doentes dos hospitais, cujos leitos estariam completamente ocupados por moribundos que se recusavam a morrer, e portanto não deixavam espaço para outros doentes. A solução era serem entregues a seus familiares, não iriam morrer mesmo, logo não precisariam de cuidados médicos. Era mesmo o caos...
Em suas obras, Saramago imprime um viés profundamente religioso, humanístico, psicológico e, sobretudo, sociológico, além de humorístico, claro, e sarcástico em muitas situações, sendo difícil até para o leitor menos avisado e mal acostumado com o teor pesado de seus escritos, identificar. Para Saramago, em uma das últimas entrevistas que deu quando veio ao Brasil, “Se nós nunca tivéssemos imaginado representações da morte, vivíamos simplesmente com a idéia de que temos de morrer e não "fulanizaríamos" isso num esqueleto ou numa coisa com um lençol branco, posto por cima, essas imagens tópicas”. O que critico em Saramago é a falta de pontuação que ele imprime a seus textos, coisa de português mesmo – talvez por falarem rápido demais...

(*) O advogado Joseli Magalhães é professor de direito da UFPI-UESPI.

domingo, 20 de junho de 2010

HOMENAGEM AO "O PIAGÜÍ" (*)


EXPRESSÃO LITERÁRIA

Daniel C. B. Ciarlini

No ano de 2001, veio a lume, no Piauí, a obra condensada e organizada por Francisco Miguel de Moura: “Literatura do Piauí”. Com certa curiosidade, decidi, nesses últimos tempos, abri-la, como que esperando encontrar algo que se somasse às outras tantas pesquisas minhas, ora, é de praxe um autor-pesquisador, como o Sr. Moura, alavancar uma nova concepção; uma nova visão dos fatos.
O professor, integrante da geração moderna piauiense, então, usando-se das visões modernistas da crítica, oferece aos leitores algumas reflexões acerca do conceito de literatura e do fazer poético. Das tantas afirmações introdutórias, alguns deslizes geraram equívocos, como a própria significação latina de littera (“significa exatamente letra” [Op. Cit. p. 13]), sabemos, pois, que, embora littera tenha advindo de litteratura, sua real significação não mudou: Ensino das primeiras letras; eis aí o motivo de tantos filósofos e estudiosos da língua confundirem o termo com “gramática”.
Ainda dentro do mesmo conceito, o autor infere: “literatura é tudo o que se escreve” (idem), ferindo o verdadeiro conceito aristotélico; ora, sendo a literatura a expressão polivalente das palavras, dos signos linguísticos, “tudo que se escreve” não pode ser considerado literatura, uma bula de remédio, por exemplo, não expressa polivalência, avalie a emoção, o subjetivismo..., ingredientes estes fundamentais que exige a literatura como forma. Na condição de estudioso das letras, posso discordar do seguinte pensamento: “... há duas línguas e sua respectiva linguagem: a falada e escrita” (ibdem); no campo da literatura, nesse, e só nesse sentido, apontado pelo Sr. Moura, a construção e variação da arte não implica que a língua se fragmente, já que aplicada ao fazer literário, continua sendo apenas uma, promulgada, porém, em duas formas distintas, oral e escrita; e a oral, como sabemos, não implica literatura, tal qual o teatro, que só é literatura na sua condição impressa, logo, como advertiu, certa vez, o estudioso Massaud Moises, o teatro, ambiguamente, só interessa para a literatura quando não é teatro.
Analisar conceitos tão amplos como “literatura”, “moral”, “poesia”, “ética”, enfim, rege ao pensador e ao ensaísta reflexões profundas que visam observar as mudanças dos tempos e as transformações que uma dada ideia sofre, seja de forma positiva ou, até mesmo, não coerente com o sentido original. Como o Sr. Moura citou, “... na antiguidade, tudo o que se considerava ‘literatura’ era feito em poesia, com ritmo e metrificação” (Op. Cit. p. 14), sem dúvidas, mas é, também, sabido que esta regra vale-se para a antiguidade ocidental, que é o nosso caso. A propósito, a base do conhecimento, tanto antigo quanto contemporâneo, nunca deixou de se fixar nas artes, filosofias, religiões e ciências, sendo, aí, possível ainda, uma segunda classificação: As de base palpável, ou seja, física, concreta; e as de caráter abstrato, não-física, suposta, meditada; classificando-se, então, as ciências e as artes no primeiro caso e as religiões e filosofias no segundo.
Mudemos um pouco a análise do conceito de literatura e vejamos um pouco mais, aliás, como o Sr. Moura avalia a poesia, “palavra mais abrangente, na sua origem significava fazer” (idem). O verbo “fazer” pareceu empregado de forma insatisfatória, a palavra “poesia” vem do grego poiesis e significa, ao pé da letra, criar, no sentido de imaginar. O conceito sempre foi o mesmo. Muito me espanto quando percebo a secular confusão que existe entre a diferença de poesia para poema, talvez por serem palavras análogas; todavia, como o próprio sentido original nos dita, poesia é, na realidade, o elemento espiritual da arte, sendo refletida tanto na literatura quanto na escultura, pintura, fotografia etc., trocando em miúdos, a poesia é abstrata, individual, única, está em cada um de nós. Uma obra de arte, por exemplo, não possui poesia enquanto não for interpretada como poesia; o ponto de vista é que faz a diferença. O poema, então, é apenas uma ferramenta da qual o artista se utiliza a fim de expressar as suas emoções, ou seja, a poesia que sente no momento produtivo; o poema é o pincel, ou a tela, ou a tinta, do poeta. O Sr. Moura, na busca de entender e licenciar-se em tais conceitos, lança mão das palavras do diplomata e escritor mexicano Octávio Paz, quando cita: “o poema é poesia” (Op. Cit. p. 15); assim, desprezando o verdadeiro sentido já, aqui, descrito. Poema pode, ou não, ter poesia e a poesia pode, ou não, ser constituída em forma de poema. Vejamos a assertiva do brasileiro Hermes Vieira, quando em ensaio sobre Humberto de Campos, nos legou as palavras do mestre Orris Soares: “há, muito verso sem poesia e muita poesia sem verso. O verso propriamente dito não é arte, é artifício”; sendo todo poema um conjunto de versos, o conceito de forma generalizada aplica-se, logicamente, ao poema.
Não dando ouvidos ao alerta de Massaud Moises, Francisco Miguel de Moura entende, através de Fidelino de Figueiredo, que “a arte literária é, verdadeiramente, a ficção, a criação de uma supra-realidade” (Op. Cit. p. 16), e assim, como que tentando entender, fico nesta mesma linha, matutando o quê pode existir acima da realidade, já que ficção, por mais surreal que seja, busca na realidade as bases de sua construção. O certo, porém, é classificar, sim, a literatura como a “criação de uma” para-realidade, como bem reflexiona o mestre Moises: “o mundo ficcional não está ‘acima’ senão ‘ao lado’, paralelo à realidade ambiente, com ela realizando um permanente intercâmbio e nela se integrando inextricavelmente”, o intercâmbio de que fala é tão constante que sem ele jamais o artista poderia criar ou poderíamos interpretar uma criação à luz do raciocínio comparativo.
No aspecto de conteúdo, notamos que o livro carece de algumas reflexões e nomes únicos da literatura piauiense, como Berilo Neves (primeiro ficcionista científico brasileiro), Jonas da Silva (um dos três pilares do simbolismo piauiense), dentre outros, mas como o próprio autor registrou nas primeiras páginas: “é um livro prático [...] pretende ser também uma introdução ao estudo da literatura”, nada mais podemos nos queixar. Em suma, é uma obra boa, mas nada que uma adequada revisão e acréscimos, para reedição, não a torne melhor.

COMENTÁRIO DE “EXPRESSÃO LITERÁRIA” EM O PIAGÜI

Wilton Porto

Há, em Parnaíba, muitas pessoas com conhecimentos satisfatórios em literatura. Mas existem aqueles que precisam se aprofundar mais, com o intuito de crescerem na árdua tarefa de escrever bons textos, penetrarem com segurança no sensível e belo mundo da poesia.
Daniel C. B. Ciarlini, como estudante de Letras/Português (UESPI) e com uma boa experiência no reino do jornalismo impresso e virtual, interpretando o livro “LITERATURA DO PIAUÍ”, no texto “Expressão Literária” (Cf. Ed. n.º 28 – Fevereiro de 2010, de “O Piaguí”), do poeta Francisco Miguel de Moura, literato consagrado do nosso estado, membro da Academia Piauiense de Letras (APL), nos traz informações consequentes, o que facilita o nosso entendimento sobre literatura. Revela a diferença entre poema e poesia, em que ele leva em consideração nomes reconhecido nacionalmente, como é o caso de Massaud Moisés, em confronto com outros respeitados na área literária: Fidelino Figueiredo, Octávio Paz e não esquecendo Orris Soares.
No conceito de literatura, Daniel demonstra o erro que se comete, quando do uso do termo, de forma desavisada. Ou por confiar-se em literatos experimentados na arte de escrever e elogiados pela crítica.
É comum pensar-se: “Se ele tem projeção, devemos confiar”. Inclusive no tocante à gramática. Esse pensamento vem a lume, porque aqueles que se destacam, costumam aprimorar-se na língua, sem contar que recorrem a professores tarimbados no conhecimento da língua com que escrevem.
A palavra “literatura” vem do latim “littera” e significa “letra”. Assim, quando Daniel Ciarlini informa que, o teatro não é literatura, porque o repasse da mensagem é oral, baseando-se no conceito aqui visto, ele tem razão.
Ler a peça teatral é leitura de uma obra de arte, obra literária. Assistir a uma peça teatral não o é. A oralidade tira o sentido de literatura, conforme visto acima.
Tudo que se escreve é literatura? Tomando mão do Filósofo Aristóteles, Daniel tenta nos convencer de que não. Ele se vale da frase “expressão polivalente da palavra”. Quem lida com literatura conhece de cor e salteado os sentidos: conotativo e denotativo. Ouvimos com frequência a seguinte oração: “fulano deu um sentido conotativo à frase”. Isso nos remete para “um sentido de múltipla interpretação”. É o caso da poesia. Na crônica jornalística, em que se escreve sobre um acontecimento: briga de rua, pode-se aproveitar tanto a forma denotativa como a conotativa. A primeira, o autor (que quase sempre é um repórter do jornal) se prende aos fatos, registrando o que vê e ouve em terceira pessoa, não se envolvendo emocionalmente durante a preparação da matéria. Na segunda, ele (polivalentemente) pode tirar proveito das figuras de linguagem, tem liberdade de criar, usar o verbo na primeira pessoa, tornar o caso um ato literário, poético, porque leva o leitor à emoção, à subjetividade, em que imprime estética, funções...
Poema é a ferramenta para se construir o palacete onde brilhará a poesia com sua essência expressa em arte. Se na poesia verifica-se a criatividade, por isso subjetiva, no poema se distingue – pelo verso – a materialidade. Entretanto na estrofe abaixo, de Cruz e Sousa, é inegável a criatividade, em que se nota o jogo de palavras e a presença de figuras de linguagem, como o caso da aliteração e a sinestesia. Versos com uma poesia contemplada por todos os críticos.

Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Plausível que se diga, valendo-se de Orris Soares: “Há muito verso sem poesia e muita poesia sem verso. O verso propriamente dito não é arte, é artifício”. O artifício é o meio para se chegar ao objeto artístico. A arte e a capacidade de criar.
Daniel Ciarlini interpreta a “supra-realidade”. Francisco Miguel de Moura, com base em Fidelino de Figueiredo, diz que “a arte literária é, verdadeiramente a ficção, a criação de uma supra-realidade”.
Todo ficcionista bebe na fonte de uma realidade presente e passada. Usa de cenários reais: um parque, um rio, um palacete, um cemitério ou tudo isso juntos. Parte de algo que vivenciou, viu ou foi vivenciado por outro. Até quando a suprarrealidade se relaciona com o mundo invisível (já foi provado e comprovado que outros mundos existem e são habitados), dependendo do nível de dimensão, a realidade difere da nossa. São mais preparados, com vivência ética mais elevada. Ainda assim é um ambiente onde os moradores são seres que um dia passaram pelo que nós, do mundo visível, estamos passando agora.
Dessa forma é coerente a afirmativa de Massaud Moisés: “O mundo ficcional não está ‘acima’, senão ‘ao lado’, paralelo à realidade ambiente, com ela realizando um permanente intercâmbio e nela se integrando inextricavelmente”.
(*) A publicação dos dois textos foi uma forma de homenagear o site e o jornal "O Piagüí, feitos por jovens talentosos e dedicados, que importante contribuição vem dando à cultura e à literatura piauiense.

sábado, 19 de junho de 2010

FUTEBOL E CONSTRANGIMENTO

CUNHA E SILVA FILHO



Até hoje não sei explicar direito por que nunca fui dado a torcer por times de futebol, logo este o mais amado esporte brasileiro a ponto de se confundir com a própria imagem do país aqui ou além-mar. Em geral, gente do meio literário dificilmente não estima este “esporte das multidões”. Vários são os exemplos: Nelson Rodrigues, o pai e o filho, Tristão de Athayde, José Lins do Rego, um grande torcedor e muitos e muitos outras figuras da cultura brasileira.
Desnecessário dizer que a bola fascina multidões e individualidades. É algo impregnado na consciência do nosso povo que, junto com o samba e o carnaval, formam o tripé dos admiradores de nossas manifestações culturais mais arraigadas no quotidiano das pessoas em todos os níveis sociais. Chega mesmo a ser aquele ‘catalisador” de que nos fala Tristão de Athayde.
As origens do futebol remontam ao século III, na velha China. No Brasil, tem origem nobre e estrangeira, pois foi para aqui trazido por Charles William Miller (1874-1953), nascido em São Paulo, filho de escocês e mãe brasileira, mas de ancestrais ingleses Era, pois, primeiro um esporte praticado pelas classes elevadas, porém se disseminou e se consolidou nas camadas pobres da sociedade brasileira. Não há como sonega um dado primordial r o futebol encanta, em suas linhas gerais, os indivíduos e, entre nós, há um forte elo de natureza lúdica entre esse esporte e a fase de nossa primeira infância. Na adolescência, nem se fala, pois é aqui que a ubíqua bola conquista a simpatia dos jovens, muitas vezes transformando estes em grandes torcedores dos diversos times , quer em nível nacional, quer em nível regional.
Quem não aprecia dar uma bola de futebol pra uma criança? Que criança recusaria uma bola como presente? Nenhuma. Em casa, na rua, na calçada, nos descampados, nas quadras esportivas, não faltam crianças e jovens batendo uma bola. Daí a popularidade deste esporte. Daí seu atrativo. Daí ainda ser um tópico de conversação excelente pra entabular uma conversa com um estranho ou com alguém conhecido muito mais forte do que iniciar uma conversa com um inglês sobre a condição atmosférica.
Certa vez, numa colônia de férias fiquei isolado de um grupo de associados porque dissera que não sabia jogar futebol e, por não aceitar jogar uma pelada com eles, quase brigaram comigo.
Confesso que o futebol nunca me fez vibrar como torcedor dos chamados campeonatos regionais ou nacionais. Por algum tempo, andei inventando que era flamenguista só para evitar a pressão de grupo. Ou melhor, era uma forma de eu me manter socialmente simpático com os outros, porquanto os sabia doentes pelos seus times e alguns atingiram as raias do fanatismo.
Tive um amigo professor de português e literatura que era doente mesmo pelo fluminense. Mas, essa condição de torcedor o ajudava enormemente a manter uma boa disciplina escolar com seus alunos, visto que nada melhor para o relacionamento entre ele e as turmas do que levantar o tema do futebol com seus alunos. Assim fazendo, conquistava didaticamente a atenção e o apoio do seu alunado. Eu, que não dado a esse esporte, tinha que usar outros expedientes menos aliciantes para captar a adesão dos jovens para a minha causa - poder ministrar minhas aulas sem quebra do manejo de turma.
Havia, porém, uma exceção ao meu absenteísmo concernente ao grande esporte da brasilidade.Era por ocasião das Copas Mundiais. Aí sim, me descobria na condição de torcedor, não dos simples tradicionalismo dos campeonatos brasileiros ou regionais, mas de componentes psíquicos que vinham à tona e só Freud explicaria ( ou não explicaria). De repente, o evento mundial me mudava o comportamento. Até alguém poderia dizer que ali estava um torcedor, desses fanáticos que vibram, gritam, pulam e choram com a vitória dos seus times.
A coluna de esportes dos jornais – que nunca praticamente lia - já me interessava . Me transformava, lia sobre a programação dos jogos, os dias, as horas, o local, os times adversários. Lia também sobre a biografia dos nosso jogadores, dos jogadores estrangeiros. Assistia a programas na TV sobre debates de futebol. Tudo me era necessários saber. E não estou ainda falando dos dias em que nosso país jogava com os adversários estrangeiros. Não me reconhecia, pois pulava, gritava, me indignava, xingava os gringos, comovia-me com os grandes dribles de Rivelino, de Tostão, de Zico. Enfim virava “brasileiro”, virava torcedor, virava fanático. Eita esporte danado de bom! E, assim, o grande catalisador me ganhava por inteiro. Viva o nosso futebol! Viva o Brasil! Nas minhas aulas, chegava ao cúmulo de discutir fanaticamente pelo nosso futebol, pela nossa seleção com tanta vibração que mais parecia uma grande torcedor do esporte.
Hoje, não estou vibrando tanto pelas nossas seleções. Até isso tiraram do meu pobre e frágil modo de sentir a grande arte da bola. Não consigo dissociar a prática do futebol com o componente capitalista em que ele se viu transformado. Esse é o meu nó górdio da questão e que explica a minha quase aversão ao assunto. A verdade, leitor, é que o grande esporte foi assimilado pela engrenagem ideológico-capitalista, transformando o que era simples, espontâneo, amor à bola, em matéria-prima do mercantilismo, num intrincado cipoal de bastidores e de vias subterrâneas que seria difícil elucidar, sobretudo agora que não tenho mais a chama olímpica de torcedor bissexto de Copas Mundiais. O exacerbado matrimônio entre o jogador e o vil metal embaralharam o meu tênue fio de torcedor de Copas. Há no ar um pesador clima de desordenada e injustificada mitificação de uns poucos e desleal divisão dos louros. Não gosto disso e, por isso, o melhor pra mim é o recolhimento e prudência de vibrar nas Copas com uma certa fleugma inglesa sem grandes estardalhaços nem saudosas alegrias nascidas da pureza dos dribles geniais de um Garrincha ( “alegria do povo”) ou de assemelhadas grandes figuras brasileiras de um esporte no qual o que importava eram as jogadas magníficas de nossos velhos craques tão distantes dos gramados enxovalhados por moedas milionárias e coisificados troca-trocas de bons jogadores a serviço de um cartolismo internacional cooptando mesmo aqueles outrora bem-intencionados craques nacionais. A carne é fraca e o dinheiro é forte.
Isso, por linhas tortas, explicaria porque não vingou em mim o sentimento de amor incondicional, sopitado que ficou numa relação ambígua de aversão e amor, como também justificaria porque não me tornaria jamais aquele torcedor alegre e descontraído gritando das arquibancadas dos meus sonhos no sexagenário Maracanã.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

EVOCAÇÃO DE PIRACURUCA

Elmar Carvalho




Meus ancestrais maternos nasceram em Piracuruca. De modo que, desde a minha infância, eu ouvia falar nessa terra de muita tradição e história. Também ouvia contar, em narrativas em que a história se misturava com lendas e mistérios, que ali existiam as Sete Cidades, onde pessoas haviam sido transformadas em pedra, como se por ali tivesse andado uma poderosa Medusa. Falavam de uma igreja de pedra, que fora erigida por causa de uma promessa dos irmãos Dantas. Eles haviam sido aprisionados por índios canibais, e prometeram a Nossa Senhora do Carmo que, se escapassem, ergueriam o majestoso templo. As lendas falavam que essas cidades de pedra seriam desencantadas, e que as pessoas petrificadas voltariam a ser de carne; que as carruagens e os habitantes voltariam a percorrer as ruas e veredas do sítio, liberto do feitiço ou maldição que lhe transformara em cidade morta. Dizem os doutos, que num tempo muito antigo, Sete Cidades foram o fundo de um oceano que então havia. Schwennhagen, que as pessoas simples chamavam de “chove n’ água”, afirmou, em seu livro, que ali estiveram os fenícios. Erich Von Daniken escreveu que elas foram visitadas por “deuses astronautas”. Também contam que esse parque teria um túnel que o ligaria a Pedra do Sal, no litoral parnaibano. O certo é que os índios deixaram suas marcas, através das inscrições rupestres, que ali são encontradas. De minha parte, acho que todo o encantamento e beleza, que a natureza produziu ao longo de milênios, possibilitaram o surgimento dessas lendas e mistificações, que mais contribuem para o fascínio desse sítio cheio de mistério e feitiço.
Em meados de 1975 fui morar em Parnaíba. Em nossa mudança, descansamos um pouco em velho sobrado, que tinha uma espécie de torre cilíndrica, a evocar pequeno castelo. Anos depois, quando fui residir em Teresina, passei várias vezes pelo centro histórico de Piracuruca, e sempre admirei as suas várias praças, a sua imponente matriz, os seus vetustos casarões e solares e os sobrados povoados de recordações, fantasmas e saudades de uma época que persiste em permanecer. Por uma decisão própria dos piracuruquenses, e não de iniciativa governamental, esses antigos prédios ainda se encontram relativamente bem preservados, ao contrário de outras cidades, em que esses monumentos arquitetônicos foram substituídos por “modernosos” e feios prédios comerciais.
Várias vezes estive em Sete Cidades, e sempre admirei as formações rochosas, esculpidas pelo tempo, pela chuva e pelo vento, em paciente trabalho de arte e encantamento. Contemplava, com muito gosto, a floresta, os regatos, as piscinas naturais e a cachoeira, a estender o “véu de noiva” de suas águas. Por demorados anos, alimentei o desejo de lhes dedicar um poema épico moderno, mas sempre adiava esse projeto, porque não me vinha nada que fosse digno dessas cidades encantadas. Somente me sobreveio esse ensejo quando, em janeiro de 1998, tomei posse de meu cargo de juiz nessa Comarca de Piracuruca, em curta temporada, de menos de um mês, como auxiliar do magistrado titular, Dr. Dioclécio Sousa. Mandei fazer um cartaz da primeira parte do poema, ilustrado pelo grande João de Deus Netto, e o divulguei em pequena e breve solenidade no fórum, em que estiveram presentes o padre Oney Braga e o intelectual Valdemar Meneses, se não me falha a memória. Sob o impacto da satisfação de ter escrito esses versos, mandei uma carta ao meu amigo General João Evangelista Mendes da Rocha, escritor e herói da guerra contra o nazifascismo, com cópia do poema, em primeira mão. Esse saudoso amigo escreveu uma crônica sobre o meu texto e o publicou num de seus livros. Dias depois, escrevi-lhe outra missiva, em forma de crônica, que agora transcrevo, parcialmente:
“Estive em sua bucólica e simpática Piracuruca, de muita glória e tradição, hospedado nas proximidades da velha estação ferroviária, onde os trens não mais passam, onde só passam os longos comboios de saudade e solidão.
Acordei cedo e resolvi olhar a linha férrea. Era uma manhã de densas névoas. Os frondosos oitis se esvaíam, embranquecidos, no meio das brumas, como em certas pinturas impressionistas. Ao longe, na curva, a estrada férrea se dissolvia na neblina, despertando a imaginação para longas viagens no tempo e no espaço, feitas de pura emoção. O bairro sossegado mais parecia uma aldeia, em que só faltavam os repiques saudosos de um sino e o canto vibrante e melancólico de um galo, ambos anunciando e saudando o alvorecer.
De longe eu contemplava a pequena estação, de longa história, pois uma inscrição em suas paredes assinalava a sua construção como sendo de 1922. E eu lamentava que ao invés do progresso, com locomotivas mais ágeis e confortáveis, a velha ferrovia estivesse desativada, em completo abandono e desperdício.
O frio leve e gostoso dessa madrugada de muito sentimento e quietude era por vezes avivado pela carícia suave de uma quase imperceptível brisa, que perpassava como um leve toque sobrenatural, em que nos sentimos envolver pela paz e proteção do Onipotente, em verdadeira sensação de êxtase e beatitude.
E como não poderia deixar de ser, lembrei-me do amigo, um dos mais ilustres e dedicados filhos de Piracuruca, sempre fidalgo nos gestos e no trato, e sempre em prontidão, na defesa dos interesses maiores da pátria, do Piauí e de sua cidade natal. É que a sua condição de militar, e de militar herói da guerra contra o nazifascismo, nunca o impediu de ser um perfeito cavalheiro e cidadão sensível e preocupado com a justiça social, com os desmandos administrativos, com a sorte dos miseráveis e com os valores artísticos e culturais de seu Estado natal.
O senhor tem, com muita propriedade e argúcia, analisado em seus artigos e crônicas as mazelas que afligem o povo brasileiro, sempre com um elevado senso de justiça, e invariavelmente apontando sugestões e alternativas.
Embora não seja propriamente um crítico literário, em sentido estrito, todavia pela sua capacidade de análise e observação, embasada em larga cultura humanística e em profunda sensibilidade e empatia para com a arte literária, tem produzido comentários críticos com muita propriedade e pertinência, e desvelado ângulos e aspectos que os afoitos, apressados e superficiais nunca vislumbrariam.
Quando estive em sua Piracuruca, por força de minha nova função, como forma de homenageá-lo, e talvez movido pelos incentivos que o senhor sempre me dispensou, escrevi longo poema sobre Sete Cidades, em que canto:

Sete Cidades:
Sonho feito
de pedra
pedra feita
de sonho
sonho que se fez sonho
na concretude da pedra.”

quinta-feira, 17 de junho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Um dia
ou melhor uma noite
Boa Idéia teve a idéia
de construir um telescópio
para sonhar/sondar aqueles pontinhos
cheios de pontinhas chamados estrelas.
Galileu Galilei da Parnaíba
construiu sua luneta
desvendou estrelas e planetas e cometas
e perscrutou os umbrais do infinito.
Autodidata da astronomia
com seu telescópio passeava
pelos “mares” da lua
dizendo coisa com coisa
que ninguém sabia.
Brincava de bambolê
com os anéis de Saturno.
Jogou bola de gude
com as luas de Júpiter.
Morfeu o levou para ser
centurião de galáxias. Mas
voltará não num rabo de foguete
mas na caudabundante flamejante -
mente reluzente do cometa de Halley.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho




16 de junho

BULLING E OUTRAS MAZELAS HODIERNAS

Fui convidado pelo professor Alexandre Mota a proferir hoje, na Unidade Escolar ABC da Alegria, uma palestra para os alunos e seus pais, a respeito de disciplina e do respeito que o estudante deve ter para com seus mestres. Estavam presentes, entre outros, a diretora, professora Rejane Helal, a presidente do Conselho Tutelar, Márcia Rejane, o presidente do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, senhor Raimundo Inês, o assessor jurídico da Prefeitura, Dr. Hilton Araújo. Obviamente, falei sobre disciplina, respeito, hierarquia, amor, etc. Mas, sobretudo, enfatizei o fato de que se o aluno não presta atenção às aulas, ao que o professor está explicando, quem mais se prejudica é ele próprio, uma vez que o mestre irá receber o seu vencimento normalmente. Falei que, até para ser gari do município, vigia de uma praça, o interessado teria que ser aprovado em concurso público, e lhes disse que mesmo as empresas da iniciativa privada fazem os seus testes seletivos, inclusive com relação ao uso da informática. Chamei-lhes a atenção para o fato de que somente através do estudo eles poderão obter uma melhor condição de vida. Entretanto, deixei claro que a disciplina, a orientação, os conselhos e mormente os exemplos devem partir, em primeiro lugar, do seio da família, e desde os primeiros anos de vida, pois quando o jovem é acostumado a não ter limites nem freios dificilmente os aceitará após os doze anos de idade. Contudo, deixei claro que, numa época em que, em muitos casos, a mãe e o pai trabalham fora de casa, há que haver também a contribuição da escola na educação dos jovens. Todavia, quando o jovem não teve essa base educacional em casa se torna muito difícil a contribuição dos mestres, porquanto essa criança ou adolescente já está acostumada a não ter limites, a não ter regras de convívio. Hoje, vê-se falar em bulling e em professores acuados e intimidados por alunos. Talvez isso seja provocado pela falta da presença ativa dos pais na criação, orientação e disciplinamento dos filhos. Tenho dito e repetido que se a sociedade não está boa é porque as famílias, em geral, não estão boas, pois que é a sociedade senão a soma de todas as famílias? Provavelmente, numa época de uso avassalador de audiovisuais, internet, celulares, etc., a escola precise repensar seus métodos e equipamentos para melhor atrair a atenção do corpo discente. Suponho deva ser inserida na grade curricular uma disciplina que ensine ética, cidadania e noções ecumênicas de religião, pois todas as religiões pregam o bem, a caridade, a generosidade e a fraternidade. Além disso, a escola e o poder público precisam ocupar o jovem com esporte, literatura, música, artes plásticas, dança, teatro, gincanas culturais, etc., para tirar o jovem do ócio nocivo, que pode levar às drogas e à prática de atos infracionais. Não sendo da área, pouco sei; mas sei que algo de novo precisa ser feito. Como não poderia deixar de ser, falei no amor, em Cristo e em Deus.

terça-feira, 15 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


15 de junho

QUASE QUASÍMODO

Acabei de assistir ao jogo da Seleção Brasileira contra a da Coreia do Norte. Jogo morno, sem lances emocionantes e sem nenhuma jogada excepcional. O Brasil venceu pelo magro placar de 2 a 1, com gols de Maicon e Elano. O grande goleiro Júlio César, atualmente considerado o melhor do mundo, que vinha há várias partidas sem ser vazado, praticamente não teve trabalho. Quase que o seu trabalho consistiu apenas em tentar impedir o gol que sofreu. Terminei por me lembrar dos meus tempos de golquíper, sobretudo dos tempos em fui jogar algumas partidas no campo do Rabo da Gata, que ficava perto do pontilhão da estrada de ferro, no bairro que depois passou a se chamar Paulo VI. Os filhos do falecido Luís Pinto, dentista prático e funcionário dos Correios, organizavam um time com o pessoal das imediações da chamada rua da pista, no trecho próximo de onde moram o senhor Brito e o doutor Zé Laurindo, e acertavam os jogos com o time da região do outro lado do açude, como se dizia. Numa dessas vezes, o Otaviano insistiu para que eu não fosse, no intuito de que eu atuasse no campinho do Leopoldo Pacheco, como de costume. Mas eu me sentia honrado com a confiança que o Luís Pinto Filho, o seu irmão Deus Luís, que, brincando, eu chamava de diabo Luís, e os seus companheiros depositavam em mim, como goleiro, e aceitei o convite; até porque eu já tivera algumas atuações muitas boas no campo do Rabo da Gata, a fazer umas voadas acrobáticas e cinematográficas, ao menos na minha avaliação ególatra de hoje. No auge da empolgação de meus dezessete anos, quando eu vi o atacante Garrafinha se aproximar com a bola dominada para me fuzilar a meta com um tirambaço, já que ele era habilidoso, não vacilei e corri velozmente para me arremessar a seus pés e bloquear o chute. Esse atleta, ou por maldade ou por imprudência ou porque já não houvesse mais tempo de se desviar, chutou fortemente e me atingiu o rosto em cheio. Creio que cheguei a ter um leve desmaio. Vi os jogadores curvados sobre o mim, preocupados com a gravidade do acidente ou incidente pebolístico. Foi a mais grave contusão de minha vida. Isso me tornou mais prudente e mais precavido, para não mais me arriscar desnecessariamente. No dia seguinte, quando o Otaviano foi me chamar para o jogo no Leopoldo Pacheco tomou um grande susto quando abri a janela de meu quarto e ele viu o meu olho direito com um coágulo sanguíneo e a área próxima inchada e com um grande hematoma. Dizia ele que eu parecia o Quasímodo, ou seja, o Corcunda de Notre Dame, ou outro protagonista de um filme de terror.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

Elmar Carvalho



A CURICA FULÔ

A menina viu o ninho da pequenina curica jandaia. Lembrou-se das constantes recomendações da mãe para que não retirasse os ovos e os filhotes dos ninhos. A mãe dizia, com muita emoção e ênfase, que a avezinha iria ficar muito triste pelos filhos perdidos, assim como ela também morreria de dor se a menininha lhe fosse arrebatada. A menina relutou, pensou muito, mas terminou não resistindo e levou a pequenina curica. Ao chegar em casa, ouviu os sermões e a reprimenda da mãe, que lhe disse para repor o filhote no ninho. Muito sentida, a menina se preparava para cumprir o que a mãe lhe recomendava, quando o pai chegou da roça. Este, vendo a tristeza e o choro da filha, pediu à mulher, que por aquela vez deixasse a filha criar a curiquinha. A mulher, com muita relutância e de má vontade, concordou com o marido. Um largo sorriso estampou-se na face daquela menina tristonha, que não tinha brinquedos, exceto uma boneca muito feia, feita de trapos e palha de milho. A criança dedicou todo o seu esforço e tempo a criar a pequenina ave. Preparava a comida, limpava a caixa de papelão em que a colocava e punha água numa tampa de flandre bem limpa. Todo o seu cuidado reservava para a sua jandaia. Constatado que era do sexo feminino, deu-lhe o nome de Fulô. A ave nunca soube o que fosse uma gaiola. Nunca ficou presa, e, no entanto, nunca foi embora. Mesmo quando a menina ia buscar água ou dar algum recado na vizinhança a jandaia voejava perto da dona ou pousava-lhe no ombro. Nunca aprendeu a dizer palavras, exceto o nome daquela criança que lhe criara e amara. A tristeza da menina diminuiu desde que passou a criar o passarinho. A própria mãe já admitia que a vinda da curiquinha fora o melhor remédio para a permanente melancolia da filha. Um dia, não se sabe de que, a menina amanheceu morta. Morrera enquanto dormia. Parecia sorrir. Dir-se-ia que estava mais feliz do que nunca estivera em vida. Os pais choraram tudo que tinham de chorar; verteram as lágrimas que tinham de verter. Num caixãozinho tosco de madeira apenas serrada encerraram a filha, e a sepultaram no cemitério campestre, debaixo de uma faveira, que então estava florida, com as bolotas se debruçando sobre a cova. Quando olharam para cima, viram a Fulô pousada num galho, muda, encolhida, como se estivesse triste, como se soubesse o que acontecera. Parecia sentir que nunca mais veria a sua pequenina dona. Quando todos se foram, a curica ainda permanecia no galho da faveira. Na visita de sétimo dia, após a reza do terço, perceberam que Fulô estava na faveira, sozinha. Ao entardecer, quase na hora do por do sol, viram Fulô dar algumas voltar ao redor da casa que fora sua, a dizer, bem alto e de forma bem pronunciada, o nome de sua dona. Depois a viram juntar-se a um bando de jandaias que passava. E nunca mais se teve notícia daquela curica, que fora a única alegria de uma criança triste.

sábado, 12 de junho de 2010

SELETA NACIONAL



NOTURNO

Fagundes Varela

Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro que rói-lhe o seio!

Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo
Motejam dos vendavais;
Coberto de atros matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!

Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


Cartaz da Bitorocara Festa, da autoria de João de Deus Netto

Hoje o velho Ron Montilla foi reabilitado pelo Zé Francisco Marques, que eu chamo de Gran Montilla, pirata mor dos sete mares de água doce de Bitorocara

11 de junho

OS EMBALOS DOS SÁBADOS DE ANTIGAMENTE

Na antessala da Corregedoria Geral da Justiça, enquanto esperava ser atendido pela desembargadora Eulália Ribeiro Gonçalves, uma pessoa me ofereceu um bombom. Escolhi um da marca Piper, e fiquei admirado de que ainda fosse fabricado. Enquanto o saboreava, lembrei-me de minha adolescência. Eu, o Otaviano, o Carlos Cardoso, Zé Moura, Zé Wilson, e creio que quase todos os adolescentes da época, o usávamos para disfarçar o bafo de onça provocado por algumas talagadas de pinga que tomávamos, para criarmos coragem de, nas festas, fosse no Campo Maior Clube, no Grêmio Recreativo ou na AABB, tirarmos uma garota para dançar. Com escasso dinheiro na algibeira, adotávamos a estratégia de, antes do baile, ingerirmos algumas doses de bebida destilada, geralmente cana serrana ou cuba libre, um coquetel de rum, invariavelmente da marca Ron Montilla, que chamávamos de Velho Pirata, limão e Coca-Cola. Guardávamos uns trocados para, no interior do clube, degustarmos umas duas ou três garrafas de cerveja, o que achávamos o máximo, e que nos davam a impressão de ser os próprios donos da festa. Nunca fui um legítimo dançarino. Retraído, algo tímido nos primeiros contatos com o belo sexo, a dança era meu principal estratagema para iniciar um namoro. Isto porque, conforme o modo como a garota se aconchegava e de acordo com o modo como ela me enlaçava e punha as mãos em minhas costas, era uma sinalização de que ela desejava ou não iniciar um namoro ou mesmo tirar um simples “pino”, “sarro” ou “amasso”, que era, na linguagem dos jovens da época, uns beijos e abraços mais apimentados e apertados. Mas também dançava – por que não confessar? – para sentir o aconchego e o calor de um corpo feminino. Nessa época, década de 70, as moças do interior do Piauí se conservavam virgens até o casamento, de modo que namoro era apenas namoro, e namorado era apenas namorado, e não tinha o significado de amante, como nos dias atuais. Recentemente, por causa dos retumbantes anúncios da Bitorocara Festa, trombeteados nos blogs Bitorocara e no do ZAN, que se propunha reviver os bons anos 60 e 70, das festas de arromba da Jovem-Guarda, das quase ingênuas tertúlias dançantes, que eram quase sempre regadas a “leite de onça”, um coquetel de cachaça e leite “Moça”, lembrei-me desses bons tempos dos sapatos “cavalo de pau”, das calças boca de sino e do jeans US-Top; das minissaias assanhadas, que mostravam pelo menos um palmo de coxa, dos singelos “tubinhos” das cocotas, e dos “tomara-que-caia”, que nunca caíam, para frustração geral da galera masculina. No final dos anos 70 inventaram a chamada “dança solta”, que eu abominava, pois se fosse para dançar sozinho eu preferiria fazê-lo no aconchego de minha casa. Então, resolvi sepultar, de vez, a minha incipiente e insipiente carreira de dançarino; de dançarino sem nenhum talento, admito.

CHURRASCARIA RADAR

Corinto Araujo Filho (*)


Bastante conhecida e frequentada por toda uma geração, também denominada de Churrascaria do “Zé Didôr,” funcionava em um local privilegiado de nossa cidade, (hoje Hotel Pousada do Lago), estava a mercê da brisa dos ventos vindos do açude, dos raios do sol e principalmente da visão do crepúsculo nas tardes de verão o qual era apreciado pelos seus assíduos e mais variados frequentadores. Com todas essas características, somadas à boa música da época, tocada em uma aparelhagem de som ultramoderna da Gradiente, o bom drink, o bom atendimento, o sabor delicioso dos mais variados pratos feitos com esmero pela cozinheira dona Eugênia e os churrasqueiros Pedro Nega, Ota e Joâo do churrasco, com destaque para carne de sol, paçoca e “marizabel” acompanhadas com vinagrete, pratos que nos orgulham pois hoje são reconhecidos internacionalmente. O bom relacionamento que tinha o proprietário Zé Didôr fazia daquela churrascaria o local mais assistido pelos campomaiorenses de todas as idades no periodo que se estendeu desde a sua inauguração, ocorrida dia 11 de agosto 1978, até meados de 1989. A construção das instalações foi realizada com recursos do Estado que na época era governado por Dirceu Mendes Arcoverde em contrapartida com a prefeitura, na gestão do prefeito Mamede Lima. O projeto do engenheiro Carlos Burlamarque da Silva (Deputado PAVÃO) possuía caracteristicas artesanais: A carnaúba, era a principal materia prima, (o caule eram feitas as paredes, os balcões e os pés-de- mesas; da casca do caule era feita a ripagem e a cobertura era feita com a palha), além da carnaúba eram usados outros materiais como: o bambú para fazer as cercas e biombos; a laje de pedras para fazer as mesas; por fim o couro que era usado nos assentos das cadeiras e tamboretes. A obra se estendia por toda a praça do açude, posteriormente denominada de praça Antonio Cícero Correia Lima que no entanto, ficou conhecida mesmo como “Praça da Radar.”

Assim era a churrascaria Radar, (nome inspirado em uma multa decorrente de uma infração rodoviária detectada por instrumento chamado “radar”, quando Zé Didôr vinha de Parnaiba para Campo Maior e em determinado trecho ultrapassou o limite de velocidade permitido). Reconhecida pelas suas características, foi premiada pelo guia 4 RODAS, que a incluiu no roteiro turístico gastronômico cultural do Brasil consequentemente passou a ser reconhecida nacionalmente o que trouxe-lhe vários benefícios, sendo o maior deles o fato de receber turistas de todo o Brasil que ali se deliciavam com a gastronomia e davam gargalhadas com as “prosas” do Zé Didôr. Passaram por ali várias personalidades como: Elba Ramalho, Fagner, Waldik Soriano, Altemar Dutra e diversas autoridades como o comandante do Exercito Brasileiro da 10 Região Militar de Fortaleza e muitos frequentadores assíduos entre os quais Ivon Pacheco, Zé Paulino, Oswaldinho Lobão, Janduí Bezerra, Carlos Paz, Dr. Expedito, Chico Olimpio, Chico Boca Azul, Vinícius Lima, Serjão, Gil Barbosa, José Luis Félix , Joãozinho Félix, Haroldo Bona, Zé Bona, Zé Wagner, Belchior (editor desta revista), Gilmar Melo, Cezar Melo, Bernadete Rodrigues, Angela Brasil, Mônica Bona . Por ser bastante visitada, ela representou para nossa cidade destaques importantes: aumentou a divulgação da nossa culinária, das nossas belezas e dos nossos costumes. As vendas de cervejas eram tão altas que as distribuidoras locais brigavam entre si para negociar com ela. Houve um determinado período, mais precisamente no carnaval de 1980, em que essas empresas de bebidas perderam as vendas para uma terceira distribuidora, da qual o Zé Didôr, mesmo muito criticado, comprou duas carretas de cerveja em latas, que no terceiro dia de carnaval acabou tudo.

Zé Didôr, homem de caricatura espiritual fácil de descrever: amigo, alegre, inteligente, com carisma e poderes do repente presencial, incrível contador de histórias com um rápido raciocínio que lhe é muito peculiar, é um artista das rodas. Esse era o empresário da Radar que todos os dias por trás do balcão trazia consigo ao pescoço os inseparáveis quatro cordões de ouro 18 kilates, cada um com uma medalha mais reluzente que a outra, em um dos punhos um relógio Mido folheado a ouro (presente do seu maior amigo, Ivon Pacheco ) e no outro mais duas pulseiras de 18 kilates, muito bem trajado, calçando um par de botas daqueles usados por Clint Eastwood no cinema com a camisa abotoada até o meio do peito, um cinto largo com fivela sempre atravessada para um dos lados da calça, mania esta que inspirou o apelido de “tremendão” e por fim a tiracolo uma bolsa cheia de dinheiro com dois revólveres calibre 38 que graças a Deus nunca precisou usar. Regia com maestria aquele estabelecimento e com a maior categoria atendia a todos no tempo e na hora com uma simples batida de palmas. Cheio de artimanhas, certa vez, fechou acordo com um amigo motorista de ônibus que transportava turistas para Parnaiba, caso parasse lá, ganharia um churrasco completo e um refrigerante misturado com rum na própria garrafa, para disfarçar a inspeção da empresa. Moral disso: os ônibus evadiram-se da churrascaria do Manoelzinho por longo tempo.

A Radar, era enebriante, só se saia pra lá, aqui não tinha outra opção, nos finais de semana muitos aportavam às dez da manhã, curtiam ate à tardinha, vinham em casa, jantavam ,davam um tempo e voltavam, e lá estavam todos outra vez, era o ponto de encontro dos meninos, dos adolescentes, dos rapazes, das moças, dos idosos, dos profissionais liberais, dos estudantes, das autoridades, dos viciados, das profissionais do sexo, etc. Nos finais de semana a casa tinha que requisitar soldados junto ao quartel para fazer segurança, mas mesmo com todo aparato, rolava umas confusões porque era comum aglomerar um público de 1000 a 1500 pessoas por dia. Era uma praça de eventos sem eventos o público era atraido pelo o próprio movimento, ou por encontros, paqueras, papos e por uma pequena mas aconchegante boite com luz negra onde os casais se soltavam. Ali era um desfile de moda onde se podia ver grifes como: Yves Saint laurent , Yes Brasil, American Denim, Levis, US Top e Dior. A música que se ouvia era um repertório altamente eclético e de acordo com o público presente. Tinha LP (Long Play) e Fita Cassete de variados cantores como: Frank Sinatra, Michael Jackson, Roberto Carlos, Caetano, Chico, Alceu, Raul, Vinícios, Fagner, Djavan, Trio Nordestino, 3 do Nordeste, Magal, Bartô Galeno, Alipio Martins, Luis Gonzaga, Raimundo Soldado, Francis Dalva, Teixeira de Manaus e Temas de Novelas. Se cadenciava com os rítimos dos chorinhos, sambas, forrós, rocks, Reeagues, Boleros, bregas, Tangos . Era um mundo cultural da música. A churrascaria funcionou durante o período de abertura politica do Brasil quando todos se sentiam com ar de liberdade, não sei se por isso ou por outra razão, acontecia um fato interessante na Radar; é que existia uma separação de classes, não que fosse imposta mas que fluía normalmente com o ambiente, e sem distinção todos eram tratados com igualdade. Esse era um cuidado especial mantido sempre pelo proprietário.

Pontualmente aberta às 10:00h da manhã de segunda a segunda e tudo funcionando normalmente, o bar, a cozinha no preparo dos pratos e das marmitas para atender o fornecimento, tornou-se o ponto de referência de Campo Maior que servia de apoio para todo tipo de encontro, qualquer pessoa da cidade ou não, tivesse que resolver qualquer negócio, lá era o local do primeiro contato, lá se resolviam problemas politicos, sociais, economicos e até jurídicos.

Nas festividades de final de ano, (Natal e Reveillon), a Radar se transformava, ficava toda personalizada a seu modo, preparando-se para aquele momento de muitos campomaiorenses. Aumentava o número de mesas, de garçons, de material para atender a lotação que triplicava, mesmo assim, se você não chegasse cedo ou seja: 7 (sete) da noite, ficava em pé. Era casa cheia. Uma quermesse. Muita gente bonita. Ficava completamente cercada de pontos de vendas com todos os tipos de guloseimas, em seu estacionamento havia mais bicicleta do que carros e motos. A equipe de garçons era a melhor que tínhamos em nossa cidade, eram eles: Moleza, Camilo, Gravatinha, Ox, Nenê e João Maroca, Zé Ibiapina, Chicão, Mancha, Pedro Mangureba e Tarcisio, todos profissionais de primeira linha.

Em 1988, ano de eleição, (quando não se está do lado certo,tudo da errado ) a pressão do prefeito Cezar Melo em querer tirar das mãos do Zé Didôr aquela casa, era uma questão de honra, sempre tentou mas a força deste era maior com a comunidade e o prefeito nunca teve sussesso. Naquele ano quem saiu vitorioso nas urnas foi o Carbureto que ao assumir no ano seguinte (1989) fez um acordo com o Zé Didôr e demoliu a Radar prometendo uma reforma completa em toda a beira do açude na qual incluía uma construção mais moderna para a Radar. Não deu outra, foi enganado junto com os apreciadores das coisas boas de Campo maior.

Atualmente, José Cardoso da Silva Neto, (Zé Didôr), campomaiorense, é reconhecido na imprensa de todo o Brasil e até no exterior por ser proprietário do maior museu do mundo na categoria particular com mais de 70. 000 mil peças cadastradas, entre elas um acervo de objetos que pertenceram à antiga e saudosa Radar como: cadeiras, talheres, medidor de doses, baldes de gelo, fotos etc.

(*) Corinto Araujo Filho é membro da Academia Campomaiorense de Artes e Letras. Fonte: Zé Didor.


quinta-feira, 10 de junho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Hosana nas alturas!
Hosana nas alturas
de sua vida sofrida
de pobre e alienada.
Interventora dos gabinetes
(cediam-lhe os pequenos tronos
de burocratas para rirem
o riso fácil e gratuito).
Cobradora de impostos e taxas
(davam-lhe ínfima moeda em
troca do riso rasgado).
Andava sempre com sua
roupa branca de marinheiro –
primeira e única almirante:
alma mirante
alma errante
alma navegante.
Sempre de
branco como as nuvens
que alvejavam em sua
cabeça de nefelibata.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



9 de junho

A LEMBRANÇA DE BRUENQUE

No meu discurso proferido quando recebi o Título de Cidadão Regenerense, abordei o fato histórico do aldeamento dos índios nesta região. Falei na figura sinistra de João do Rêgo Castelo Branco, de sua fúria feroz e sanguinária na perseguição dos indígenas, e que por isso mesmo foi chamado de El Matador pelo poeta H. Dobal, em poema com esse título. Segundo me contaram, quando estavam sendo feitos os serviços de ampliação da igreja de São Gonçalo, foram encontrados indícios de que o local poderia ter sido um cemitério indígena. Feito esse breve preâmbulo, entrarei no mérito do que quero contar. Fui convidado, pelo presidente João Alves Filho, para fazer o discurso de louvação dos patronos da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, cuja solenidade aconteceu no dia 29 de maio. A peça retórica foi planejada para ser parte escrita e parte improvisada. Eu teria que falar, entre vários outros, em Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da fazenda Bitorocara, que deu origem à cidade de Campo Maior. Foi um dos chamados heróis da Conquista e mestre de campo, considerado fundador de outras cidades, no Piauí e no Maranhão. Ressaltei que ele combatera os índios, porém sem a ferocidade e sanguinolência de João do Rêgo, o que desagradava os senhores da Casa dos Ávila, na Bahia. Citei os historiadores padre Cláudio Melo e Afonso Ligório de Carvalho para dizer que ele tinha o respeito dos índios, e que chegou a defendê-los e protegê-los da fúria de seus perseguidores. Porém, quando eu meditava sobre o que ia dizer sobre Antônio da Cunha Souto Maior, que o antecedera no comando das armas do Piauí, e que fora um feroz e brutal perseguidor de indígenas, tanto que foi assassinado numa espécie de rebelião de silvícolas, que estavam sob seu comando, aconteceu um fato estranho, para o qual não desejo emitir opinião, mas apenas dizer enfaticamente que aconteceu. Em Regeneração, cidade ligada aos massacres e extermínios de índios, por causa das deserções ocorridas no aldeamento de São Gonçalo, a que já me referi, resido num dos apartamentos do condomínio Pingo d' Água. Quando mentalizei o nome de Souto Maior, imediatamente minha rede vazia foi sacudida com muita força, e ouvi um ruído de ferros, como se fora um ranger de correntes. Isso foi ao entardecer, quase anoitecendo. Fiquei arrepiado durante um bom tempo. Em meu imaginário, era como se os espíritos dos índios trucidados quisessem protestar contra a lembrança de um homem cruel. Lembrei-me do bravo e indômito cacique Bruenque, em sua luta contra as crueldades, falsas promessas e traições dos seus algozes, cuja saga heroica foi bem relatada pelo historiador Reginaldo Miranda, em seu livro São Gonçalo da Regeneração, que está a merecer nova edição. Julguei que a agitação da rede tivesse sido provocada pela ventilação do aparelho de ar condicionado, mas verifiquei que suas aletas estavam direcionadas para baixo. E por que essa ventilação só sacudira a rede naquele dia e no momento em que pensei nas atrocidades do Souto Maior? Descarto, pela mesma razão, o vento que poderia passar pelas venezianas da janela do quarto, ainda mais porque a porta estava fechada e, portanto, não poderia ser formada uma corrente de ar. É certo que várias explicações poderão ser aventadas. Deixo que cada um fique com a sua. Eu, na minha condição de franco atirador e de não sectário, admitirei todas as possibilidades. Contudo, não me apegarei a nenhuma.

terça-feira, 8 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



8 de junho

UM SÍRIO EM ARRAIAL DO PIAUÍ

Esteve hoje à tarde no fórum um neto de Elias Helal Tajra. Seu nome é o mesmo do avô, trocado o sobrenome Tajra pelo vocábulo Neto. Fez o curso de Edificações na velha Escola Técnica Federal do Piauí e formou-se em Licenciatura Plena em Química. Tem funcionado como perito ou como assistente técnico em alguns processos. Contou-me ele a história desse seu ancestral. O velho Elias nasceu em Damasco, na Síria. Era alto, alourado e de olhos azuis. Para fugir da primeira guerra mundial, foi para a Turquia de onde conseguiu embarcar em um navio. Para conseguir a vaga, embriagou um marinheiro e tomou o seu lugar na tripulação. No Brasil, esteve inicialmente em Belém, de onde seguiu para São Luís. Desta cidade foi para Teresina, de onde foi dar com os costados em Floriano, onde havia uma colônia de sírios e libaneses. Seus patrícios conseguiram-lhe a ocupação de caixeiro-viajante, em cuja atividade percorreu várias cidades do interior do Piauí, inclusive a cidadezinha de Arraial do Piauí, na qual terminou se fixando. Estabeleceu uma farmácia. Lá, exerceu informalmente várias atividades, porquanto se tornou uma espécie de conselheiro, juiz, conciliador e médico, além de farmacêutico. Dificilmente, cometia erro em suas consultas, diagnósticos e receitas. Tanto que um posto de saúde ostenta seu nome. Também seu nome foi dado a uma rua dessa urbe. Conviveu com quatro mulheres, com as quais gerou 14 filhos. Quando a primeira morreu, convidou uma mulher para ser a ama de leite de seu filho mais novo, que tinha apenas um pouco mais de mês de vida. Terminaram convivendo como marido e mulher. Quando a segunda veio a falecer, preferiu não sair da família, e se tornou companheiro de uma irmã dela. Com a morte desta, arranjou a quarta e última companheira. Ao que se sabe, teve apenas uma mulher de cada vez. Viveu até os 108 anos, como um homem ativo e rijo. Nessa idade fez uma operação de hérnia. Inquieto, mesmo operado, trepou num monte de tijolos, para tirar algo de cima de um muro. Pisou em falso, vindo a cair, o que lhe arrebentou novamente a hérnia objeto da cirurgia. Em consequência, veio a óbito, vinte e um anos atrás. Foi sepultado na pequenina Arraial, onde exerceu as suas atividades e a sua liderança natural, carismática e humanitária, sem os interesses escusos da politicalha. Deixou vários filhos e netos. Muitos não carregam os sobrenomes Helal e Tajra. Mas carregam o DNA de um homem que foi sábio, bom e digno.