quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

Elmar Carvalho



I

Com seu recurvo bigode surreal
chifre e aguilhão –
Dalí touro e toureiro
toureia consigo mesmo.
Dali Daqui Dacolá
Daquém Dalém
de toda p’arte
de toda arte’manha manhosa
de toda ante-manhã maviosa
onde arde uma tarde
dentro da noite/dia surreal
que não é feita de preto e branco
mas de cores (b)errantes
e nunca de pusilânimes
cores cambiantes.

A LUA E AS LUZES DE TERESINA

O amigo Gisleno Feitosa fez um belo flagrante da lua cheia sobre as luzes de Teresina. Com base nessa foto, o Cineas Santos fez um igualmente belo haicai. Como a foto não me foi enviada em jpeg, não sendo eu um perito internauta, não pude postá-la. Assim, pesquei uma outra lua nos mares internéticos, pairando sobre as luzes verdecapianas, adicionei o poema, e com isso pretendo prestar uma pequena homenagem aos dois amigos, Gisleno e Cineas. Peço desculpas pela minha barbeiragem.


Alheia ao frêmito da rua,
sobre a cidade agitada
baila, sossegada, a lua...
Cineas Santos

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




29 de setembro

ENCONTRO DOS RIOS

Elmar Carvalho

Desejando comer uma piaba frita, fui ao Encontro dos Rios, no local onde o Poti, vindo das ribas do Ceará, depois de passar pelo cânion de Castelo, vai afogar suas águas nas águas do Parnaíba, rebento da longínqua Chapada das Mangabeiras, na região de Santa Filomena. Fui para o restaurante flutuante. Procurei ficar na lateral do recinto, para melhor contemplar as águas e a paisagem. Dali, eu via, na ribanceira da outra margem do Poti, um orgulhoso e solitário buritizeiro acenar suas palmas no alto e para o alto, tendo como pano de fundo a toalha azul do céu. Perto dele, uma mangueira, como rotunda matrona vegetal, espargia sua sombra acolhedora. Numa ilhota, estreita e comprida, os urubus contrastavam o seu negrume solene com o branco absoluto das garças. Contudo, não se misturavam; cada espécime ficava em seu reduto, porém convivendo de forma pacífica, cada qual senhor de seu território. Uma gaivota passou a planar, livre, soberana do espaço, sem nada desejar, sem nada invejar. Tinha o bico, arpão certeiro para fisgar os peixes de que precisasse, e tinha as asas e o espaço para voar e talvez sonhar.

Um pescador passou placidamente numa canoa, a conduzir sua bicicleta; ao aportar, já teria à disposição seu outro meio de transporte. Envergava uma camisa do glorioso Flamengo. Senti certa inveja do canoeiro. Talvez de sua canoa ele me invejasse, a degustar minha piaba entre lentos goles de cerveja. Lembrei um poema de Fernando Pessoa, em que o bardo dizia que, ao seguir para Sintra, no seu automóvel Chevrolet, sentiu inveja de um rurícola em sua casinha de pau a pique, em sua vida simples e bucólica; mas que o campônio, da janela, talvez também lhe invejasse o fato de dirigir aquele veículo que tomara de empréstimo. Tudo pelo simples motivo de um não ser o outro. Como já questionou alguém, a outra margem do rio sempre nos parece a mais bela. Quando chegamos ao outro lado, a margem em que estávamos passa a ser a que mais nos encanta. É a eterna inquietação do homem, o desejo de possuir o que não possui, e de não valorizar o que é seu. Disso advém a insatisfação, os desejos espúrios e a ganância.

Contam que célebre figura histórica admoestou seu desafeto de que este era muito mais rico do que ele, mas ao mesmo tempo muito mais pobre, muito mais miserável; porque toda a riqueza que o outro tinha não lhe era o bastante, ao passo que ele nada desejava, nada queria, e por isso mesmo era muito mais rico, conquanto tivesse muito menos cabedal. No Encontro dos Rios ainda rascunhei estes versos, que jamais integrarão um poema: “o encontro das águas é um ponto de encontro, mas nesse ponto, muitas vezes, as pessoas se desencontram”. E seguem sozinhas, por estradas diferentes, e não juntas, como as águas do Poti e do Velho Monge. Um chalana singrava as águas dos rios, no deleite da paisagem, talvez a promover encontros e desencontros, ocasos e acasos.

MEDOS

ALCIONE PESSOA LIMA

Eu tenho medo do olhar reprovador,
De um amor desconfiado...de tantos cuidados...
Do amor jogado...desinteressado.
Pois sei que há espinhos..ou
Um vinho derramado...!
Eu tenho medo da solidão sorridente.
De tudo que acontece de repente.
Das coisas sem nexo,
Que me deixam perplexo,
Sem rumo e sem voz.
E o que dizer de quem tem telhado de vidro
E vive perdido em uma ilusão?
Eu tenho medo da falta de sorte,
Do suspiro da morte, da felicidade completa.
Causa-me pavor a fome sem jeito
Que trava o peito só em olhar...
E o que dizer daquele sorriso,
Que disfarça o guiso, e a mão traiçoeira de quem vai colocar?
O medo é o freio que me põe na linha,
Que me distancia da rinha que se torna a vida...!
Eu tenho medo de dois pesos e duas medidas...
De abrir algumas feridas que já cicatrizaram...
Eu tenho medo do desconhecido, do gesto atrevido, ou invertido que se me apresentam...
Tenho medo da sombra do benfeitor, quando não sei se o ato
é por vaidade ou por amor.
Eu tenho medo de andar sozinho, quando não conheço o caminho da volta...
A angústia que prende e solta a respiração,
A mágoa que não se desprende do coração,
A língua que sente prazer na maldição,
São causas do medo, tão cedo vivido,
Que travam o amor incontido que quero para mim.
Mas a vida é assim! Há sempre um começo, e as causas do medo
Um dia terão fim!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



28 de setembro

NAQUELA MESA

Elmar Carvalho

Contou-me Neto Leal, outro dia, que embora seu pai não bebesse, nunca lhe recriminou as libações. Ao contrário, quando estava bebendo, seu velho se sentava a sua mesa, para conversar e lhe fazer companhia. Chegava mesmo a lhe trazer tira-gosto. Sem dúvida, amava o filho e procurava lhe ser útil, agradável e gentil. Certamente, o rebento fez por merecer essas dádivas e considerações paternas. Anos depois, creio que já na maturidade, Leal estava num barzinho, curtindo umas músicas de seresta, quando o trovador cantou a música elegíaca Naquela mesa, de Sérgio Bittencourt, que se celebrizou como jurado do programa de Flávio Cavalcante, por muitos proclamado como o Rei da Televisão. Sérgio imortalizou-se com essa música, sobretudo através do gogó de ouro de Nelson Gonçalves, na qual homenageou seu pai, Jacob do Bandolim, notável virtuose desse instrumento musical, de acordes quase celestiais. Ao ouvir essa melodia, os olhos de Neto Leal marejaram, e ele se retirou do recinto. Seu pai falecera fazia poucos meses. O seresteiro, ao perceber a “mancada”, lhe foi pedir desculpa por ter cantado tão sentida endecha, como diziam as belas letras das músicas de outrora, verdadeiros poemas, de rico conteúdo e de versos rítmicos e elegantes, que se harmonizavam com as bem elaboradas melodias da Velha Guarda.

Esse depoimento, me fez lembrar um episódio de que foi protagonista meu amigo Otaviano Furtado do Vale. Acredito que o fato se passou aproximadamente em 1973 ou 74, pois eu devia ter 17 ou 18 anos. Seu pai, o senhor João Capucho, também havia falecido fazia poucos meses. Havíamos tomado umas talagadas de serrana, para esquentar as turbinas, e seguíamos em direção à Praça Bona Primo, à cata de alguma lebre, como dizia célebre colunista social de então. De repente, o velho jovem Otaviano começou a cantar essa música de evocação saudosista ao pai falecido. Nunca esqueci essa cena simples, mas comovente em sua singeleza. Talvez seja uma das maiores homenagens que um adolescente poderia prestar a seu pai. Não foi apenas uma cena patética, sem nenhuma conotação pejorativa a essa palavra, porque sempre que ele vem de visita ao Piauí, posto que mora em Brasília há várias décadas, nunca deixou de rever o jazigo de seu pai, no cemitério São João de Campo Maior. Essa homenagem me faz recordar um belo poema do bardo Manuel Bandeira, em que ele pede ao leitor que fosse à cova de seu pai e rezasse, não pelo pai, mas pelo filho, pois este teria mais precisão. E arremata o poema se declarando “morto ali”.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



MORTE GLORIOSA OU SEXO E MORTE

Elmar Carvalho

João Conrado nasceu e se criou no povoado Alto do Bode. Era disposto no serviço de roça. Fazia de tudo. Quando a época das chuvas era propícia, não havia roça mais bonita que a sua. Nos povoados da redondeza, não perdia um rala bucho. Sabia dançar um forró como ninguém. Não lhe faltava parceira. Aliás, as moças casadoiras achavam fosse ele um bom partido. Aos 22 anos, ele enamorou-se de linda morena do povoado vizinho, de nome Maria de Lurdes, de 17 primaveras. Foi prontamente correspondido. Firmaram compromisso, e João colocou no dedo anelar direito da jovem um lindo anel de noivado. Sabia do ditado popular, que dizia que quem casa quer casa. Por essa razão, aceitou convite para ir trabalhar no corte de cana, no estado de São Paulo, onde tentaria economizar algum dinheiro para construir a sua casinha, de taipa, mas decente, a ser feita pelo melhor mestre da localidade. Pediu a Lurdes que lhe respeitasse a ausência. Foi e trabalhou feito um condenado, pois o pagamento era por produtividade. Divertiu-se poucas vezes, porquanto o seu objetivo era amealhar o suficiente para a construção da casa.

Sua experiência sexual era escassa, uma vez que naqueles idos de 60 e na sua povoação natal as mulheres preservavam a virgindade até o casamento; apenas se exercitou no mister uma meia dúzia de vezes, no cabaré da sede do município, quando gastou alguns trocados, com a chave do quarto, com a mulher, dita rapariga, e com umas poucas cervejas, geladas em refrigerador a querosene. Nas poucas farras que fez, descobriu umas novidades com os peões paulistas; algumas dessas coisas, considerou verdadeiras indecências, e jamais pretenderia praticá-las, ainda mais com aquela que seria sua mulher; outras, achou normais, e sem dúvida as aplicaria, no momento certo. Quando economizou o que achou suficiente para a construção de sua morada, retornou.

Imediatamente, contratou mestre Inácio para fazer a casa, que teria uma sala, dois quartos, uma cozinha e o quarto do casal, chamado camarinha. Este era o maior. Ele e seus irmãos ajudaram o mestre e logo a casa foi concluída, ainda antes do período das chuvas. Quando o “inverno” pegou para valer, com os riachos correndo e as lagoas se enchendo de água, tratou de marcar o casamento, que aconteceu na cidade. Logo após o casório, os noivos e uma grande comitiva seguiram para o Alto do Bode, em grande algazarra de alvíssaras e brados de “viva os noivos”, em meio ao pipocar de foguetes e estrondos de ronqueiras e rojões. Às vezes um cavalo mais arisco se espantava e ameaçava desembestar em desabalada carreira. A parte cômica ficou por conta do Antônio Malaquias, cujo cavalo muito árdego empinou com o papouco do rojão e o lançou por terra. A comida foi farta e do agrado de todos. A aguardente serrana, a de melhor qualidade que havia, correu solta, pois João Conrado se prevenira para fazer uma festa de vergonha. Também havia sucos e vinhos para as mulheres. Nesse dia, João Sérgio, o mais afamado sanfoneiro de toda a região, estava inspirado e disposto como nunca, e arregaçou o fole da sanfona sem dó nem piedade. Os caboclos aproveitaram para improvisar uma festa dançante debaixo da latada, mas tiveram o bom-senso de encerrá-la por volta de 7 horas da noite, para não prejudicar os colóquios amorosos do casal.

Maria de Lurdes, apesar de virgem, era fogosa e sabia acariciar e atrair o parceiro, que, aliás, não lhe ficava atrás em ardência e fogosidade. Naquela época, naquele brocotó onde Judas perdera as botas, sequer se ouvia falar em televisão e em eletricidade. O casal dispunha apenas de um rádio de pilha, modelo ABC, o mais vendido na época. De modo que, nos primeiros dias, os embates amorosos foram sôfregos, repetidos, árduos, extenuantes, mas o casal permanecia quase inabalável, após os intermitentes sonos restauradores da libido. Alguns maledicentes viam olheiras no homem e achavam que a palidez da mulher já se tornava acentuada. As noites frias e chuvosas apenas concorriam para atiçar as ardências do casal. Já o dia amanhecendo, caiu um grande pé d' água, com os trovões ribombando de instante a instante. Aquele frio gostoso, aquele ruído aconchegante da chuva, terminou por empurrar os cônjuges para os braços um do outro. Não entrarei em detalhes. Deixo que a imaginação do leitor complete a cena e o cenário. Apenas direi que nessa oportunidade o caboclo João Conrado resolveu praticar uma das lições do Kama Sutra prático que havia aprendido em São Paulo, com as experientes raparigas da pauliceia. Quando Lurdes já amiudava os gemidos, quando já se agarrava a ele em desespero e grunhia palavras desconexas, sobre o surrado colchão de palha, o homem firmou o pé na forquilha do oitão, e fez um fincapé desesperado, como se quisesse empalar a mulher ou fundir-se a ela de forma absoluta; uma forte descarga elétrica lhes percorreu os corpos, no momento do orgasmo sincronizado, e os dois permaneceram abraçados e estáticos.

Quando Antônio Conrado veio chamar o irmão para irem para a roça, encontrou a casa no mais completo silêncio. Chamou o irmão e a cunhada várias vezes, em voz alta, mas não obteve resposta. Achou que chegara em hora imprópria, e que o casal não queria ser incomodado. Voltou a sua casa, que ficava a uns duzentos metros, para dar tempo de que ambos se recompusessem, e não ficassem embaraçados com sua presença. Não podia negar, ficara com certa inveja do irmão mais moço. Mas todos têm seu tempo, e ele já tivera o seu. Ao retornar à casa do irmão, verificou que o silêncio continuava como dantes. Ninguém lhe respondia. Mesmo gritando, não obtinha resposta. Um tanto preocupado, resolveu entrar na casa, cuja porta ficava apenas encostada. Como não ouvisse nenhuma voz ou ruído, resolveu olhar o que se passava na camarinha. Ficou um pouco aliviado quando viu o marido e a mulher nus e abraçados. Mais uma vez resolveu esperar que o casal acordasse.

Ao retornar, a situação anterior se repetiu. Silêncio absoluto do irmão e da cunhada. Não teve pudor, caminhou diretamente para a alcova para acordar os dois dorminhocos. Grande foi a sua surpresa e susto, quando verificou que os dois estavam mortos. Não atinou que motivo levara o irmão a colocar o pé na forquilha central. Somente horas depois, o médico lhe explicou a razão daquele inusitado fincapé, ao dizer que ele fora fatal, uma vez que a forquilha alta atraíra o raio. E este fora levado aos corpos através do contato do pé. Disse mais; disse que os dois nada sofreram, e que aquela fora uma morte verdadeiramente gloriosa.

TORTURADORES OU AS APARÊNCIAS ENGANAM

Charges e texto: Gervásio Castro

Numa noite de lua cheia dois desumanos torturadores aplicam choques elétricos e marteladas numa indefesa vítima?


Não, apenas isso:

Três dos melhores blogueiros do país, os piauienses Elmar Carvalho, Edmar Oliveira e João de Deus Netto, comemoram o sucesso de mais uma postagem!

domingo, 26 de setembro de 2010

O PIAUÍ POMBALINO

REGINALDO MIRANDA


Palavras proferidas pelo presidente da Academia Piauiense de Letras, Reginaldo Miranda na abertura da conferência O Piauí Pombalino, de responsabilidade do Acadêmico Fonseca Neto.

Em 1955, o escritor português Mário Domingues publicou interessante livro com o título “O Marquês de Pombal – o homem e a sua época”, cuja primeira edição encontrei recentemente num sebo de Lisboa. Abre ele o prólogo de sua obra com as seguintes palavras:
“Ainda hoje, quase dois séculos volvidos sobre a sua existência, é difícil escrever-se em Portugal acerca de Sebastião José de Carvalho e Melo, o ministro que geriu, com poderes discricionários, os negócios da Nação durante todo o reinado de D. José. Ainda é ele, no nosso tempo, o homem que suscita as discussões mais apaixonadas e azedas, que não raro descambam em troca de insultos entre os contendores.
‘Salvo escassas exceções, os historiadores que se têm ocupado do famoso conde de Oeiras estão geralmente divididos em duas facções opostas, sanhudas e intransigentes: a dos que sustentam que toda a sua ação foi prejudicial ao país e atentatória dos mais nobres sentimentos humanos, e as dos que fazem dele o precursor das eras democráticas, o autor da ressureição econômica e financeira, o cabouqueiro do progresso industrial e o audaz reformador da instrução pública. Para estes entusiastas, a perseguição dos jesuítas, a execução do melhor da nobreza da época, a repressão brutal de uma tímida revolta popular no Porto, as centenas de presos nas masmorras mais lôbregas, sem culpa formada, sem a farsa dos interrogatórios de então, alguns deles sem mesmo saberem porque foram encarcerados, não passam de meros acidentes, de simples atritos, provocados pela realização triunfante de um alto plano de governo, que não podia deter-se, nem tropeçar, nem embaraçar-se nos protestos pueris dos que pretendiam entravar a marcha inexorável do progresso.
‘Os que ainda hoje odeiam o marquês de Pombal, com tanto rancor como se tivessem tido com ele alguma desavença pessoal – continua Mário Domingues, só têm olhos para ver que o processo dos Távora foi uma bárbara monstruosidade, que a perseguição dos jesuítas lançou mão de tudo o que havia de mais calunioso e vil para denegrir, que a liberdade esteve asfixiada durante vinte e sete anos de despotismo pombalino, que o tesouro real e o erário público permaneceram sempre exaustos, em despeito da torrente de ouro e diamantes que nos chegava incessantemente do Brasil, e fecham obstinadamente os mesmos olhos tão perscrutadores a qualquer coisa de útil que o odiado ministro tivesse realizado”, como por exemplo a reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755 (p. 05/06).
Por fim, arremata o referido escritor português: “As paixões que a personalidade forte do marquês de Pombal têm ateado, deram origem a vários equívocos que desvirtuam inteiramente o que afinal existe de mais claro, mais nítido e mais documentado acerca da sua índole pessoal e da sua obra de governo. Sebastião de Carvalho foi iniludivelmente um déspota, e os seus apaniguados arvoraram-no em paladino da Liberdade; foi incontestavelmente um crente, um católico e quase o deram por ateu, ou um simulado devoto, para melhor trair a Igreja” (p. 06).
Senhores, o certo é que o rei D. José permanece como um enigma para os historiadores, nunca tendo assomado à luz plena da História. Esteve sempre ofuscado pela chama ardente de seu ministro. Morreu de apoplexia em 27 de fevereiro de 1777 e nesse mesmo dia acabara a governação do Marquês. Conforme disse o historiador português Aquilino Ribeiro em seu livro “Príncipes de Portugal – suas grandezas e misérias”, “o rei, está dito, foi ele (o marquês de Pombal). Este D. José I aceitou com elegância, dentro do sentido brigantino plácido e regalão, ser a revestidura do homem duro, terso, vingativo, construtor, dinâmico e primeiro estadista de espírito internacional que teve a terra portuguesa” (P. 241).
De toda sorte, Pombal é um símbolo da história portuguesa. E permanece lá, na principal praça de Lisboa, em alto pedestal, todo em bronze, de corpo inteiro, imponente, orgulhoso, de cabelos encaracolados, rodeado por seus leões. A sua ação política contribuiu decididamente para a instalação da Capitania do Piauí e nomeação de seu primeiro governador, conforme vai enfatizar o acadêmico Fonseca Neto.
A Capitania do Piauí, embora criada por motivos outros, ainda em face da luta entre posseiros e sesmeiros, somente foi instalada décadas depois, nessa ocasião por estratégia do Marquês de Pombal, a fim de combater a influência dos jesuítas na bacia do Parnaíba. E foi instalada em 20 de setembro de 1759, com a posse do primeiro governador. Logo mais, o nome da capitania é alterado para São José do Piauí e a capital para Oeiras, em homenagem ao rei D. José e ao Marquês de Pombal, então conde de Oeiras. Sobre a influência do Marquês de Pombal no Piauí falará nesta manhã o acadêmico Fonseca Neto. Eu o convidei para proferir esta conferência a fim de realçar a data magna do Piauí, a de instalação da Capitania, de nascimento do Piauí como unidade autônoma, como pessoa jurídica, inclusive com direito atual a CNPJ. Portanto, senhores, a pessoa jurídica Estado do Piauí nasceu em 20 de setembro de 1759, pelas mãos do parteiro Sebastião José de Carvalho e Melo, o famoso marquês de Pombal.
É interessante esclarecer que todas as datas discutidas para ser o Dia do Piauí estiveram em torno de sua adesão às lutas pela Independência do Brasil: 24 de Janeiro, 13 de Março e 19 de Outubro são datas alusivas a um mesmo movimento, todas muito importantes para a nossa História. Mas, não vamos mais esquecer o vinte de setembro, data de nossa emancipação política, infelizmente sempre passando em brancas nuvens. A Academia abraçou essa causa e vai tentar sensibilizar as autoridades para a sua comemoração mais efetiva, resgatando-a do limbo da história. Portanto, é sobre esse tema que discorrerá o historiador Antonio Fonseca dos Santos Neto: o nascimento do Piauí como desdobramento da política pombalina.
Fonseca Neto é o maranhense mais piauiense que eu já vi. Embora nascido do outro lado do Parnaíba, possui vetustas raízes no Piauí, até mais profundas do que a de muitos piauienses. Desde a juventude veio para Teresina, onde estudou, formou-se e desde então exerce suas atividades profissionais. Formado em História e em Direito pela Universidade Federal do Piauí, é professor titular da mesma instituição de ensino superior. Possui Mestrado e atualmente está cursando Doutorado. Escritor com larga atuação, colabora semanalmente com artigos na imprensa de Teresina. Membro Titular da Cadeira n.º 01, é uma das grandes aquisições da Academia Piauiense de Letras. Com muita honra transmito-lhe a palavra, acadêmico Fonseca Neto. A tribuna é sua.

sábado, 25 de setembro de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)

CELSO PINHEIRO

Filho de João José Pinheiro e Raimunda Lina Pinheiro, nasce na cidade de Barras (PI), em 24 de novembro de 1887, Celso Pinheiro, proveniente de uma família de 10 irmãos, entre os quais se destaca Breno Pinheiro e João Pinheiro, ambos escritores que assim como Celso, buscaram reconhecimento através das Letras.

Celso Pinheiro não chegou a concluir o estudo secundário, diferente do que aconteceu com seu irmão, João Pinheiro que formou-se no curso de odontologia em 1898 na Bahia. Órfão de pai aos 13 anos idade, perdendo também a sua mãe três anos depois, Celso logo previa os indícios daquilo que marcaria profundamente sua escrita.
Foi revisor chefe do Jornal “O Piauhy”, escrivão de polícia, professor de Literatura na escola Normal de Teresina, secretário do Liceu Piauiense e chefe do Instituto de Criminalista.
Grande parte das obras de Celso Pinheiro ainda encontram-se totalmente desconhecidas do público, restrito à sombra de intelectuais e pequenos círculos literários. Um dos grandes, talvez, o maior motivo, está ligado à vida boemia e desregrada levada pelo poeta e o teor da sua escrita ofensiva. As críticas mordazes direcionadas a burguesia lhe conferia pouco espaço para ascender profissionalmente e ser reconhecido, uma vez que a imprensa piauiense era fantoche nas mãos da política local. Ora, ninguém em sua sã consciência iria promover àqueles que transgridem as suas normas, muito menos aqueles que lhes emitissem palavras ofensivas.

Segue abaixo a relação completa das obras de Celso Pinheiro:

Cuore; Flor Incógnita; Dindinha; Dona Tristeza; Hino à dor; Sombras; Steppes; Poemas de Maior; Poentes; No Jardim de Academus; Tear de sol (3 volumes); Jardim de Mulheres (2 volumes); Poemas da Morte; Hino à França; Coroa de Espinhos; Prosa (2 volumes); O Incendiário de Teresina; Demócrito de Sousa Filho; Fernando de Noronha; U.D.N. – PI; Da Constituição; Euripidinas.

Fonte: Bárbara Silva Nunes - Revista Mafuá – Universidade Federal de Santa Catrina - UFSC

(*) Texto e charge: João de Deus Netto

CIDADELA DA POESIA

3 POEMAS DE HORÁCIO LIMA

MARIA FUMAÇA

Na rota da
Maria Fumaça
Percorri os trilhos
Sentido Parnaíba.

No Rio Jenipapo, pesquei a Piranha
E fui fisgado pelo Mandi.

Entre trilhas e campos, cacei a rolinha
Livrei os filhotes
Das garras do Gavião faminto.

No monumento,
Paguei promessa
Com referenda
Aos heróis tombados.

SERRA DOS ANTÔNIOS


Serra minha e
Dos Antonios
Lapedo, lapidado
Cuidados de Deus

Pros lados
Dos Altos Longares.

Carnaubeira
Carnaúba
Do seu fruto
Maduro matei a
Minha fome, e
Nas águas Pintadas
Mergulhei a
Minha sede.

Carnaubeira
Emprestastes-me
As suas abas
Cobrindo meu abrigo
E da sobra
Fiz a vassoura
Varrendo
A minha
Solidão.

Nuvens que passeiam
Nuvens que beijam
Coberta de véu
Mãos que tocam
O céu.


MOLDURA
(Rua Santo Antônio ou Zona Planetária)

E na libertinagem da noite,
De uma habitação qualquer,
A famosa Rua dorme em isolamento.

Examino as recordações presas,
Na moldura de um retrato,
Perfil, feição visual,
Marca registrada,
Chapéu e óculos escuros.

HL/SP
2 de fevereiro de 2010 15:53

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NO MEIO DO CAMINHO

ALCIONE PESSOA LIMA


Ao completar 50 anos de idade parei e refleti: meio século de vida! O desejo de muitos e privilégio de alguns!

Olhei para mim e indaguei-me: sou velho ou somente estou entrando na fase idosa? 

Meu comportamento às vezes deixa-me no meio termo, que nem um senhor que ao completar 60 anos buscou a aposentadoria e teve rechaçado o seu desejo sob a argumentação do funcionário da previdência de que era jovem demais. Aceitando tal afirmativa buscou então uma namorada nova, já que era viúvo, e desta ouviu: - não está velho demais para mim?

Sabe, ter 50 anos de idade é ter experimentado o tempo e o mundo de várias formas e mesmo assim deles nada conhecer (Só sei que nada sei! Sócrates). Por vezes a vida é uma poesia e seu desfecho pura ficção. Isso acontece quando estamos buscando as realizações. O caminho, mesmo sabendo que morremos desde que nascemos, é uma longa subida, mas se transforma em uma deliciosa aventura. Chegando ao pico, eis que chega a hora de voltar: talvez o caminho não seja na mesma direção, com os mesmos obstáculos, e a depressão não seja somente o declive em que se torna a vida! Não vai aqui uma visão caquética, final, de uma conquista: viver.

O belo passa a ter outro conceito. O necessário define-se apenas como o essencial. A lágrima já não demonstra uma emoção, beira a uma desilusão. São fases de quem vive! E cada uma deve ser saboreada, pois o gosto delas somente quem as sente pode dizer.

Uma gratidão, palavra chave para resumir toda a trajetória desse prêmio. Primeiro por não ter nascido com qualquer anomalia física ou mental. Segundo, por permanecer até esta data da mesma forma, apesar da consumição das células pelos radicais livres, caminho biológico sem volta.

Da percepção de tudo isso, nesta data, é inegável sentir o corpo na contramão da alma. Enquanto aquele se degenera esta, por ser lapidada a cada dia, vai-se elevando, tornando-se uma jóia.

Assim, no meio do caminho ainda há sonhos a se realizar, apenas com os cuidados de um “cinquentão” ou “cinquentinha”, como queira.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DALILÍADA


Capa, da autoria de Netto

A partir de hoje, todas as quinta-feiras, será publicada unidade do poema épico moderno Dalilíada, baseado na vida e na obra do pintor surrealista Salvador Dalí. Segue abaixo prefácio dessa obra obra poética, da autoria do professor doutor Cunha e Silva Filho, amarantino, há várias décadas radicado no Rio de Janeiro. O texto original se faz acompanhar de uma versão para o espanhol, da lavra da professora e escritora Clea Rezende Neves de Melo. O mestre e mago das artes plásticas João de Deus NETTO fez uma bela capa para a obra que infelizmente não pôde ainda ser editada.


DALILÍADA: UM POEMA E SUA HISTÓRIA

Cunha e Silva Filho (*)

“Na águas salobras da História ainda não se perdeu o sabor do mito e da poesia”.
Alfredo Bosi, O ser e o tempo da poesia

Na obra de um autor, seja ele poeta, ficcionista, dramaturgo, ou de outra natureza literária ou artística em geral, há sempre uma certa curiosidade, ou mesmo um desejo insatisfeito por parte do crítico de procurar penetrar nos mistérios imperscrutáveis que a criação literária impõe por vezes à exegese. Não por ocaso um respeitado crítico português, João Gaspar Simões, escreveu há muito tempo uma valiosa obra com esse título belo e sugestivo: O mistério da poesia.
No conhecido poema “Áporo”, que faz parte do livro A rosa do povo (1945), do consagrado poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade(1902-1987), exatamente na terceira estrofe, o eu lírico, entre parênteses, em forma de exclamação, afirma que o “labirinto”, metáfora utilizada para referir-se aos intrincados caminhos que levam o poeta à construção final de seu poema, cerca-se do binômio razão e mistério. (1) Estes dois componentes, em si antagônicos, na realidade se imbricam e constroem a sua tessitura literária.
Manuel Bandeira (1886-1968), outro notável poeta brasileiro, reserva para o ato da criação de alguns de seus poemas um certo halo misterioso, brumoso. No seu utilíssimo ensaio do que eu chamaria memórias de sua formação e criação literária, o seu famoso Itinerário de Pasárgada, Bandeira chega a falar de alumbramentos, de poemas passados ao papel como se fossem guiados por uma fonte mediúnica. (2) Ou seja, a criação poética estaria, dessa forma, situada entre dois extremos, a razão e o mistério, tomando os dois vocábulos no sentido em que aparecem no poema drummondiano “Áporo”. O ato da poiesis faz-se poema na sua fisicidade tipográfica na medida em que o artista reúne tanto a sua competência lingüística quanto um componente imponderável que, plasmando experiência retórica, memória, sentimento, transforma isso tudo em peça poética, coadjuvado - e aqui se encrava o mistério! – por processos criativos que se situam acima da racionalidade e invadem os arcanos míticos dessa maravilha do espírito humano, que é a criação poética.
É bem provável que todos os poetas de superior qualidade artística passem por tais experiências quando se deparam com o ato da escrita.
Essa mesma experiência propiciada pelo ato da criação literária, envolvendo razão e mistério,competência e naturalidade inventiva, me parece ter vivenciado o poeta Elmar Carvalho, nascido no Piauí, quando se dispôs a passar ao domínio da escrita o belo e complexo poema “Dalilíada.” Muitas vezes, um ou dois poemas são suficientes para se aquilatar a dimensão superior de um poeta.
“Dalilíada” faz parte do conjunto de poemas reunidos no livro Rosa dos ventos gerais”, (3) e aparece na seção “Cancioneiros dos Ventos Gerais”, a última de quatro que compõem o livro. As outras três são: “Cancioneiro do Ar”, “Cancioneiro do Fogo”e “Cancioneiro da Terra e da Água”.
Por ser, por feliz coincidência, amigo e leitor crítico da poesia de Elmar, disponho da vantagem de trocas de profícuas conversas telefônicas ou mesmo por correspondência com ele sobre questões literárias e sobretudo – porque isso sempre me interessou profundamente -, acerca de temas da criação literária. Dessa forma, vim a saber como Elmar chegou ao poema “Dalilíada”. Agora me lembro de uma situação semelhante que ocorria entre Amado Alonso e o poeta Pablo Neruda, na qual este último era insistentemente interpelado pelo primeiro sobre questões de interpretação de passagens mais complicadas da poesia de Neruda e que desafiavam a argúcia daquele crítico, conforme sobre o caso comentou recentemente o ensaísta e professor piauiense M. Paulo Nunes (4) em artigo publicado no jornal Diário do Povo.
Revelou-me Elmar Carvalho ter já há algum tempo um interesse especial pela pintura de Salvador Dali. E mais, perto de sua residência, em Teresina, conheceu um pintor entusiasta daquele artista catalão. O pintor possuía um álbum ou dois com obras de Dali. Elmar, então, fora à casa do pintor, conhecido como Sica, e, se não me engano, pediu-lhe emprestado o álbum ou os álbuns, que passou a examinar com muito interesse e curiosidade.
Parece-me também que Elmar Carvalho tinha já sentido um desejo de trabalhar um poema nos moldes surrealistas, manifestação poética de que também já havia experimentado em poemas anteriores, todos incluídos no citado Rosa dos ventos gerais: “No reino do surreal”(p.52); “Realidade fantástica” (p.76); “Em transe” (p.70; “(Ir) real”(p.79).
Mais de um crítico, inclusive o autor desta introdução, já aludiu à disposição de Elmar para a pesquisa e o experimentalismo no domínio da poesia. que se explica em parte pela cronologia de sua participação como jovem poeta da geração dos anos 70, denominada geração mimeógrafo, e em parte pela sua real inclinação reavaliadora da práxis poética. Em 1990, quando o conheci em Amarante, município do Piauí, me dei conta do valor e seriedade de seus processos de produção poética, reconhecendo nele e em outros poetas de sua geração, um viés subversivo e inovador de fazer poesia. (5)
“Dalilíada”, por conseguinte, é o resultado dessa vocação poética para um salto de qualidade que não concede, uma única vez sequer, - postura intelectual que o engrandece - , lugar às facilidades anacrônicas e a experimentalismos inconsistentes. “Dalilíada poderia ser uma concessão à aventura irresponsável no terreno poético? Não, nunca. Tanto assim é verdade que o poema, longo poema de 40 estrofes, em nosso juízo, parece ser, me arrisco a dizer, na sua espécie, uma peça ímpar, na lírica brasileira, a se aproveitar da simbiose entre arte da palavra, arte particularmente significante em se tratando de poesia, e arte pictórica.

Uma palavra sobre o título O vocábulo “Dalilíada” é formado da aglutinação de Dali, último sobrenome do pintor, pelo qual freqüentemente é chamado, com a exclusão até do sobrenome Salvador, com o famoso nome da epopéia grega de Homero, a Ilíada, que, segundo esclarece Hênio Tavares, corresponde à “forma portuguesa do grego ‘Iliás’, vindo do latim ‘Ilíada’, significando ‘a respeito de Ilion’, que era o nome de uma cidade da Ásia Menor.” (6) Esta circunstância me permite facilmente estabelecer uma explicação no que respeita ao título do poema de Elmar, i.e., o poema procura, antes de tudo, render um tributo ao conhecido pintor e escultor Salvador Dali.
Esta explicação, entretanto, por si só, demonstra um traço estilístico da poesia de Elmar, uma saudável inclinação às mudanças e experiências formais, já testadas em composições poéticas anteriores, conforme por mais de uma vez já ressaltei em estudos sobre o poeta. (7)
Ao dar, porém, o título “Dalilíada” ao poema, o autor, entre parênteses, define o gênero que escolheu, ou seja, um “poema épico”, como ele próprio o classifica. (8) A princípio, me pareceu inadequada a classificação por ele atribuída ao poema, se for levada em conta a forma canônica do gênero literário em causa. Todavia, se considerarmos a grandeza das imagens e das idéias convergindo para a exaltação do objetivo temático da peça poética - a figura enigmática e ao mesmo tempo múltipla do protagonista do poema, Dali e a sua obra - , compreenderemos que a aventura de uma individualidade pode também representar uma dimensão nacional e mesmo universal e cósmica, desde que para tanto ela consiga plasmar elementos díspares da realidade, não só concreta mas tomada na sua abstração e nos seus arcanos insondáveis. (9)


O esquema estrófico Mencionei linhas atrás que “Dalilíada” compõe-se de 40 estrofes assimétricas de versos livres, indicadas por números romanos, variando de 3 versos a 15 versos, assim distribuídos: 1 estrofe de 15 versos, a 1ª; 1 estrofe de 10 versos, a 2; 6 estrofes de 3 versos, a 3 ª; 11ª, 12ª,28ª e 36ª; 7 estrofes de 4 versos, a 6ª, 7ª, 13ª, 18ª, 19ª, 37ª e 38ª; 11 estrofes de 5 versos, a 4ª, 9ª, 10ª, 22ª, 23ª, 24ª, 25ª, 26ª, 27ª, 30ª e 32ª; 6 estrofes de 6 versos, a 5ª, 14ª, 17ª e 20ª;2 estrofes de 7 versos, a 8ª e a última, a 40ª; 1 estrofe de 8 versos, 2 estrofes de 9 versos, a 15ª e a 29ª; 2 estrofes de 12 versos, a 33ª e a 39ª.

O poema e sua espacialidade Uma das peculiaridades marcantes da poesia de Elmar Carvalho são os recursos buscados na configuração do espaço branco da página, expediente grafemático por ele empregado em muitos outros poemas que, desde cedo, dele fizeram um poeta atualizado, com o pé na modernidade e outro na grande tradição poética. Ainda hoje paga tributo ao Concretismo brasileiro em virtude desse apego à desintegração do vocábulo, à prática por vezes antidiscursiva e ao uso amplo da espacialidade como elementos significantes e significativos do discurso poético. De resto, tal procedimento contamina praticamente toda a poesia brasileira contemporânea, conforme se pode ver nos seus mais variados poetas. Na realidade, a tendência de utilizar-se de figurações, desenhos e aproveitamento do espaço branco da página para fins estéticos de comunicação do poético remonta à Antigüidade greco-latina, e me parece sem dúvida ter chegado para ficar.
“Dalilíada”, menos do que em outros poemas de Elmar, recorre, em dois momentos, a esse recurso de experimentação espacial, o qual podemos encontrar na estrofe introdutória e na sua penúltima estrofe. Essas duas estrofes, significativamente, em ludismo plástico-visual, realizam um jogo de “palavra-puxa-palavra” no qual o epicentro destaca, numa e noutra daquelas estrofes, a importância dos nomes de Dali e Gala, a amada do pintor. É interessante aqui constatar-se o poder de inventividade conseguido pelo poeta ao trabalhar esses dois nomes, quer no plano interno do poema, quer no da sua significação exógena.
No primeiro caso, vemos o nome de Dali: “Dali”, “Daqui”, "Dacolá”, “Daquém”, “Dalém”, versos 5 e 6. A distância que o poema espacialmente mantém na página ressoa iconicamente como a projetar a figura polêmica do pintor em várias direções e simultaneamente em todos os lugares intra e extratextualmente.
No segundo caso, temos o nome de Gala, que, no espaço da página, irrompe, em exclamação, em vocábulos derivados; “Galamante”, “Galamada”, Galáxia,” “Galáctica, “Galharda”, “Galatéia”, “Gala”(repetida três vezes, “Galante”, “Galardão”, “galáxias”. Na formulação lúdico-experimental de vocábulos dois se formam por aglutinação: “Galamante” e “Galamada” e, neste caso, com valor de adjetivo. São formações lexicais, observe-se, construídas pela intuição do próprio poeta. Os demais vocábulos fazem parte do léxico português, cuja funcionalidade antes reside na mera coincidência mórfica com o nome da amada de Dali, Gala. Saliente-se, por outro lado, que, no caso, esses outros vocábulos reforçam a apóstrofe dirigida à pessoa de Gala, em forma de amplificação laudatória das virtudes e qualidades dela, culminando no melódico verso final da estrofe: “... em teu gesto delicado de mulher”. (10)
Atente-se, finalmente, que o vocábulo “Galatéia”, tão imbuído de acepções mítico-helênicas, ainda reaparece no 7º verso desmembrado em Gala + teia, o que completa a constelação de semas gravitando em torno da beleza e delicadeza da musa de Dali.

A explosão vocálica como força centrípeta do binômio: vida e obra de Dali Uma vez chamei Elmar Carvalho de um “malabarista do verso, (11) porquanto seu verso em geral resulta de um trabalho sério de pesquisa da linguagem. Nada nele denuncia gratuidade ou apenas afetação de procedimentos por ele seguidos na composição de sua obra poética. Seus recursos rítmicos, melódicos e de retórica lhe traem o empenho de construtor de imagens e idéias com o sinete da originalidade, ainda que, como não podia deixar de ser, se aproveitando das lições de grandes mestres da tradição poética do Ocidente, brasileiros ou estrangeiros, não importa. Parece-me que esta atitude intelectual é que forjará, de forma permanente, os autênticos inovadores da poesia de qualquer época.
No poema “Dalilíada” essa dimensão renovadora se acha patente a todo passo e nele quase chega a ser uma obsessão o apego às preocupações metapoéticas.
No poema como este que venho comentando, cuja pretensão de efetivar uma fusão entre o signo lingüístico e a linguagem plástica é mais que evidente, não é preciso grande esforço do leitor para compreender as dificuldades enfrentadas pelo poeta durante o processo de elaboração do poema e sua conseqüente realização escrita.
Sabemos que desde, pelo menos, os parnasianos, existiu o interesse entre os poetas de concretizar uma poesia onde a linguagem do verso pudesse se harmonizar à imagem plástica, donde resultasse uma poesia aproximada às formas sólidas e marmóreas, de efeito táctil. Nesse ponto, assumiram relevância especial o valor e a função desempenhados pelas vogais e consoantes, às quais se atribuiriam “sons, cores e sentimentos”. (12)
Da mesma sorte, no Simbolismo houve constantemente uma aproximação entre este estilo literário e a música, consoante nos lembra a advertência verlaineana: “De la musique avant tout chose...” Igualmente, ficaram famosas as “correspondences” que aparecem no soneto “Voyalles”, de Rimbaud, destinando a cada vogal uma cor correspondente: A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu”. (13)
No mesmo sentido de correspondência entre os sons das palavras e os elementos naturais, poder-se-ia incluir o esforço despendido no soneto de Baudelaire, “Correspondences”, no qual “Les parfums, les couleurs et les sons se répetent”. (14) Na mesma esteira dessas correspondências existentes no soneto acima-mencionado de Baudelaire, tivemos o que se chama “instrumentação-verbal”, quer dizer, haveria correspondências sinestésicas entre as vogais e as cores, entre os instrumentos, os sons e certas sensações Essa “instrumentação-verbal” representaria, segundo George Lote, uma correspondência entre as vogais a, e, i, o, u, e, respectivamente, um órgão musical, uma cor e um sentimento. (15)
Ao longo de “Dalilíada” evidenciou-se um dado fônico-visual-semântico nos versos constitutivos do poema que instauram uma tensão entre a sua significação como objeto verbal e sua realidade histórico-social. Esse dado seria simbolizado pela altíssima ocorrência da vogal extrema anterior fechada “i”, observável estrategicamente a partir do locus interno do poema, i.e., em vocábulos que começam significativamente pelo próprio nome de Dali, onde a vogal tônica recai no próprio “i” final. Estou a me lembrar aqui, mutatis mutandis, da grande incidência de vocábulos referentes à cor branca na poesia do simbolista brasileiro Cruz Sousa (1861-1898).
Só para exemplificar, vejamos, na primeira estrofe do poema, a elevada taxa de incidência dessa vogal anterior, extrema, fechada nos vocábulos onde ela comparece (a vogal, ou o fonema aproximado, está em negrito):
1º verso: bigode, surreal
2º verso: chifre, aguilhão
3º verso: Dali, toureiro
4º verso: toureia, consigo
5º verso: Dali, Daqui
6º verso: Daquém, dalém
7º verso: de, arte
8º verso: de, arte
9º verso: de, ante, maviosa
10º º verso: onde, arde, tarde
11º verso: noite, dia, surreal
12º feita, de, e
13º de,cores, (b)errantes
14º verso: e, de, pusilânime
15º verso: Cores, cambiantes

Como vemos, só nesta estrofe, a referida vogal e bem assim a semivogal que dela se aproxima foneticamente em ditongos decrescentes e nas formas verbais terminadas em som nasal, estão presentes 41 vezes! Note-se ainda que levei em conta igualmente as vogais reduzidas assinaladas na escrita com a letra “e”, mas, na pronúncia nordestina piauiense (o autor do poema, como sabemos, é piauiense), é equivalente a um “i” reduzido inicial, medial ou final.
Em todo o poema essa ocorrência me permite concluir pelo valor de natureza cratílica assumido pela vogal “i” associada ao tema desenvolvido no poema, cujo epicentro de atração, no plano de sua semântico, se apóia na figura de Dali e de sua obra.

O intertexto em “Dalilíada” No poema o intertexto reveste dois aspectos, quer dizer, como prática alusiva através da apropriação de uma vanguarda datada, sem embargo de seus reflexos ainda sentidos na poesia contemporânea e como recurso de intertextualidade exóliterária (16), ao procurar um fazer poético recorrendo a elementos fora da área propriamente poética, ou seja, na biografia e na pintura de Salvador Dali.
O crítico inglês, (17) I. A. Richards (1893-1979) uma vez afirmou que um traço no futuro da poesia seria o amplo recurso das alusões, o que, na realidade, já está acontecendo em nossos dias, Cada vez mais, estamos lendo uma poesia na qual existe mesmo uma certa dificuldade de se poder delimitar as fronteiras fugidias do componente alusivo e da contribuição pessoal, gerando, dessa forma, uma espécie de aparente crise de originalidade.
Em “Dalilíada” pode-se reconhece, em grau elevado, um desfilar de referências provindas de fontes histórico-literário-culturais, afora a apropriação de recursos formais imagísticos e de procedimentos tomados à poesia surrealista. Por sinal, na estrofe inicial do poema, 12º verso, há até mesmo a nomeação do próprio vocábulo “surreal”. (18)
Nos versos do poema se entrecruzam referências intertextuais variadas, remetendo à figura de Picasso, à mitologia greco-latina, a ecos drummondianos, a ecos bandeirianos, ao sintomático nome do surrealista Paul Éluard, ao pintor renascentista Rafael, ao Cristianismo, e sobretudo à própria textualidade do poema, esta, sim, contaminada, em toda a sua inteireza, pela realidade magnetizada e fantástica provocada pela obra ímpar de Dali.

Considerações finais Os comentários aqui aflorados se direcionam mais a apontar algumas vias analíticas de interpretação suscitadas pela leitura desse vigoroso e bem articulado poema, talvez, como assinalamos antes, um trabalho pioneiro na lírica brasileira.
Elmar Carvalho, admirador antigo de Dali, um dia resolve, em mais um exercício de malabarismo poético, após cuidadosa pesquisa e amadurecimento sobre a visão que lhe passou Dali no campo da pintura, empreender, guiado pela intuição e debruçado sobre um ou dois álbuns com quadros do pintor catalão, escrever essa “epopéia moderna” como resposta à inspiração, em parte brotada do inconsciente surrealista mimético (de repente, delineou-se-lhe na cabeça o poema quase pronto, me confessou o autor), em parte ditada pela competência literária de prestar este merecido tributo à memória do grande e polêmico artista, que foi Salvador Dali.

NOTAS:

1 Ao escrever esta breve introdução, preliminarmente, serviu-me de inspiração a engenhosa análise sobre a poesia de Carlos Drummond de Andrade feita por Rosemary Arroyo, em estudo acerca da prática da tradução literária no domínio do inglês, no caso específico, a poesia. Ver ARROYO, Rosemary. Oficina de tradução: a teoria na prática. 4. ed. São Paulo: Ática. Coleção Princípios, 2002.

2 BANDEIRA, Manuel. O itinerário de Pasárgada. In: ____. Poesia completa e prosa. Vol. único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 32-102.

3 CARVALHO, Elmar. Rosa dos ventos gerais. 2ed. Rev. Aumentada e melhorada, com fortuna crítica. Teresina: SEGRAJUS, 2002, P. 173-181.

4 Ver NUNES, M. Paulo.A lição poética de Neruda. Diário do Povo. Teresina,Pi., 29/07/2004.

5 Ver o meu artigo “A consciência poética atualizada”, publicado primeiro no jornal Diário do Povo. Teresina, Pi., 13/01/95, em seguida, incluído como posfácio para a primeira edição de A rosa dos ventos gerais. Teresina: Editora Gráfica, 1996 e, finalmente, incluído também em Rosa dos ventos gerais. 2. ed., op. Cit.

6 TAVARES, Hênio. Teoria literária. 8. ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1984. p. 241.

7 Ver um outro estudo de minha autoria, “Elmar Carvalho: um malabarista do verso”, originalmente publicado no Caderno de Teresina, Ano X, nº 23, agosto de 1996, e, posteriormente, também incluído na 2ª ed. de Rosa dos ventos gerais, na qual ainda está incluído, como introdução, meu ensaio sobre o poeta , “Encontro, poesia e vida.”

8 CARVALHO,Elmar. Rosa dos ventos gerais. 2. ed. Op. cit., p. 173.

9 MENDONÇA TELES, Gilberto. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. 2. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1973, p. 122-125, e p. 126-160.

10 CARVALHO, Elmar. Op. cit., p. 181.

11 Cf. minha nota 7 supra.

12 WEY, Válter. Língua portuguesa. 3ª série, curso colegial. São Paulo; Editora do Brasil, 1963, p. 158.

13 MOISÉS, Massaud. O simbolismo (1893-1902). Vol. IV. São Paulo: Cultrix, 1966, p.41.

14 Idem, p. 37.

15 Ibidem, p. 39-40.

16 AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da literatura. 6.ed. ver., vol. I. Coimbra: Livraria Acadêmica, p. 1984, p. 629.

17 RIACHARDS, I.A. Princípios de crítica literária. Porto Alegre: Globo, 1967, p. 181-185.

18 Carvalho, Elmar. Op. cit., p. 173.


Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2004

(*) Cunha e Silva Filho é mestre e doutor em Literatura Brasileira, professor universitário no Rio de Janeiro e tem vários livros e artigos publicados.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

UM LUGAR

ALCIONE PESSOA LIMA


Às vezes em conversa com o irmão do Senador
Aprendo lições de um leigo quase doutor...
Não sem antes atravessar a praça, sem ver Orlinda...
Os dois coqueiros tremulam em par com a Justiça.
Lugar festeiro!
Contraste ao momento de oração em que duas irmãs, tão cedo, rezam o ofício...
São ares inspiradores em meio a flores de um jardim tão belo...
Mágica das mãos de quem o fez.
Há dias quentes em que não se consegue viajar pelos livros ou pela net,
Tampouco, pelas cordas de um violão adormecido.
À noite, um observatório: um vai-vem de jovens incautos na euforia da vida
Desfilando para lugar nenhum.
E aquela calçada onde se ouve tantas histórias de uma gente?
A mente transforma-se em uma tela e absorve com o pincel do olhar
A natureza viva de um baixão...lugar que rejuvenece corações.
O silêncio, as vezes é perturbador, não porque revela a solidão,
Mas porque nos deixa ouvir maledicências...
Um instante: som de bocejos a anunciar o sono... e a cidade silencia!.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



21 de setembro

A SOMBRA, O ENCOSTO, A BELEZA E O FRUTO
Elmar Carvalho

Num determinado local de Teresina, entre curioso e perplexo, observei, com a ajuda de minha mulher, que uma senhora, sem carro e sem garagem em sua casa, colocara umas grandes e pesadas pedras na rua, sobre o asfalto, de modo que tive que parar meu veículo antes de sua casa, o que me impediu de usufruir a sombra da árvore que havia sobre a calçada. Não foi difícil concluir que ela se incomodava com o fato de que alguém pudesse se beneficiar com a sombra de sua bela amendoeira. Não podendo ela impedir que alguém contemple a beleza verde, elegante, esgalhada do vegetal, impede, agredindo a postura municipal e o Código de Trânsito, que alguém ponha seu carro à sua sombra refrescante. No seu egoísmo, certamente ela entende que a pessoa estaria tirando proveito indevido do que ela acha ser seu, como se ela pudesse ficar mais pobre com esse fato. Por que, então, ela não colhe a sombra da amendoeira e armazena no seu depósito ou dispensa para vendê-la, já que Teresina, tão quente, tão ensolarada, seria propícia à comercialização de sombra? Será se isso é fruto da inveja, já que ela não tem carro, e por esse motivo fica chateada que alguém ponha seu automóvel à sombra de sua árvore. Suponho que se ela não pudesse colocar as grandes pedras, terminaria por cortá-la, exterminando com suas machadadas a beleza e a sombra da amendoeira. Se ela fosse condenada a se transformar em árvore, acredito que escolheria ser um mandacuru, que não dá sombra nem encosto. Não, talvez ela preferisse ser um arbusto seco e espinhento da caatinga, porquanto um mandacaru nos enternece com a sua beleza insólita e espinhenta, e ela, certamente, nada deseja conceder, nem mesmo a beleza que porventura pudesse ter.

O egoísmo dessa mulher é árido, inútil, uma vez que nenhum proveito ela tira de seu gesto, a não ser a satisfação subjetiva de sua própria mesquinhez. Talvez seja amarga, cheia de ressentimentos contra tudo e contra todos. A sua atitude me fez lembrar, por contraposição, de uma lenda árabe, que desejo repartir com meu eventual leitor. Um velho estava plantando uma árvore que só frutificava após décadas. Um sultão, que ia passando, admirou-se daquele gesto de desprendimento ou de loucura, e indagou ao ancião o motivo que o levava, em sua provecta idade, a cultivar aquela morosa fruteira. O velho respondeu-lhe que não estava plantando para si, mas para os outros, para seus filhos e seus netos; que se outros não tivessem feito anteriormente o que estava a fazer ele também não teria degustado tão saborosos frutos. O potentado, boquiaberto com a resposta, deu ao homem uma vultosa soma em moedas de ouro. O ancião, levantou as mãos e o olhar para o alto, e agradeceu a Deus pela dádiva, e o bendisse porque a árvore, mesmo antes de nascer, já lhe estava dando frutos. Como eu gostaria que essa senhora, que tenta impedir a sua árvore de ser generosa, de acolher os outros com o refrigério bendito de sua sombra, pudesse recolher em sua alma a lição desse velho tão sábio na simplicidade do seu gesto de plantar uma árvore, para que os pósteros pudessem fruir do mesmo prazer que ele desfrutara.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A ÚLTIMA CAÇADA

Elmar Carvalho

Chico Doca era o mais afamado e mais corajoso caçador da região. Caçava tanto de dia como de noite. Nas furnas da serra já matara até onça pintada. Uma delas andava comendo as miunças dos moradores da Varjota, e ele se propôs, como questão de honra, abater essa fera que estava causando tantos prejuízos na localidade, pois além de bodes e ovelhas, já matara até bezerros e garrotes. Muitas pessoas, intrigadas ou em tom de zombaria, lhe perguntavam que prazer ele poderia sentir em ficar trepado num pau, sozinho no escuro, sujeito a picadas de mosquitos e mordida de cascavel, à espera de quem não fizera trato com ele. A satisfação que sentia era indizível, misteriosa, um verdadeiro encantamento. O caçador não sabia expressar o seu sentimento em palavras.

A expectativa da espera, o silêncio da floresta, quebrado por uma leve brisa ou por passos de animais ariscos ou ainda pelo esturro longínquo de uma onça, escondida nos socavões da serra, tudo isso mexia com o seu imaginário, com os seus fantasmas, com as superstições que trazia dos longes da infância, e lhe parecia testar a coragem. Sozinho, a contemplar as estrelas, que pareciam brilhar mais intensamente, sentia mais forte a presença de Deus. Era como se entrasse em comunhão com a natureza, com os bichos e com a floresta. Preferia caçar sozinho, como se estivesse a comprovar os limites de sua coragem, paciência e ansiedades, mas, algumas vezes, caçara em companhia do Dr. Nestor, um homem sabido da cidade, que se considerava exímio caçador. Notava que de caçador mesmo ele só tinha as fobas e as pabulagens, em que exagerava os episódios remotamente verdadeiros. Era um homem falante, instruído, cheio de luxo. Quando vinha com os seus amigos, trazia grande matalotagem, muitos mantimentos esquisitos da cidade, além de muita bebida refinada, como vodca e uísque. Trazia também dois ou três livros, que lia, comentando alguns trechos. Esse doutor um dia lhe lera o poema Juca Mulato. Gostara muito da parte em que o caboclo, flechado pela paixão impossível pela filha da patroa, descobrira que tudo amava, as coisas, as plantas e os animais.

Chico Doca não matava só por matar. Matava apenas o que comia, e apenas na medida de sua necessidade. Os moradores não aprovavam o fato de ele comer macaco. Aconselhavam-no a não abater esse animal, que seria primo do homem. Indagou a respeito a seu amigo estudado, de anelão de pedra azul no dedo. Nestor Gaioso lhe contou que o homem e o macaco efetivamente descendiam de um mesmo tronco. Não acreditou nessa conversa, e até achou que ele, por ser um homem culto, estivesse zombando de suas poucas luzes de completo analfabeto, embora não fosse tolo, e até fosse considerado um grande conversador e contador de estórias de Trancoso, como diziam no mato em que morava. Naquele ocasião, resolveu caçar de dia. Com sua habilidade, experiência e faro, logo descobriu um bando de macacos. Apontou a arma sem muita determinação em atirar. Aquela conversa de que era parente desses animais estava mexendo com os seus sentimentos. Começou a notar algumas semelhanças entre eles e os humanos. Passou a reparar na inteligência e na esperteza deles. Tinham algumas habilidades que os outros bichos não tinham. Contudo, era um caçador afamado, e nunca voltara para casa com as mãos abanando.

Notou que um dos macacos se atrasara, como se estivesse procurando alguma coisa. Descobriu que era uma fêmea à procura do filhote. Firmou a espingarda. Daquela distância nunca errara um tiro. Quando se preparava para apertar o gatilho, viu que a macaca lhe mostrava o filhote, que sustinha nas mãos, emitindo uns grunhidos, como se fosse uma súplica. O caçador, com o dedo no gatilho, refletiu que ela poderia ter fugido com os outros, abandonando o maquinho à própria sorte; que poderia ter se ocultado atrás do grosso tronco da árvore próxima. Concluiu que ela não estava se escondendo atrás do filhote, mas implorando, não por si, mas por ele, para não deixá-lo no desamparo da orfandade, em tão tenra idade. Chico Doca lembrou-se das palavras do Juca Mulato, que decorara: “Tudo ama! / As estrelas no azul, os insetos na lama, / a luz, a treva, o céu, a terra, tudo, / num tumultuoso amor, num amor quieto e mudo, / tudo ama! tudo ama!” Naquele dia não puxou o gatilho. Calmamente baixou o cano da arma e voltou para casa, pensativo. A mulher e os filhos se admiraram do embornal vazio e do silêncio ensimesmado do caçador. Com os versos ressoando na alma e nos ouvidos, não mais o puxaria. Sequer guardou a espingarda, como lembrança.

domingo, 19 de setembro de 2010

BENDITA INSÔNIA

PAULO JOSÉ CUNHA



No amor, ao contrário da vida,
nada é melhor
do que uma noite mal dormida

sábado, 18 de setembro de 2010

LÁBIOS DE COR

RAIMUNDO HORÁCIO LIMA



Lábios de arco íris
Lábios coloridos
Boca vermelha
Que não é batom
Beijos de fogo?
Vermelhos de sangue vivo.

Cor natural
Mulher imprevista
Tudo é silêncio
Postura merencória
Deusa do amor
Tua boca me inebria
Teu ardente olhar me seduz
Nesse lábio mordente e
Convulsivo, carne opulenta.

Boca solferina
Messe de
Boca perfeita
Dimensões exatas
Corte lacrado
Convite à lascívia
Festim ao
Pecado (fim)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Escritor piauiense Marcos Freitas lança Urdidura de sonhos e assombros



Existem pessoas que nascem em um berço tão sólido que seria improvável não vê-las atuando em alguma linguagem artística. O engenheiro piauiense Marcos Freitas é uma delas. Oriundo de uma família dedicada aos movimentos culturais, ele gosta de destacar que, além de seu pai, seus tios e seu avós terem sido escritores, a família foi a grande responsável pela fundação da Academia Piauiense de Letras, que contou com familiares como Lucídio, Clodoaldo e Alcir Freitas. “Minha parente Amélia de Freitas Beviláqua foi a primeira mulher a tentar integrar a Academia Brasileira de Letras, antes mesmo da Rachel de Queiroz”, completa.

Seguindo os passos, Marcos também tornou-se escritor e poeta. Hoje, ele soma 12 livros publicados. Entre eles estão três obras técnicas sobre engenharia e outras nove, todas de poesia. “Primeiro fui estudar para me tornar engenheiro. Só depois passei a me dedicar mais à literatura, já que infelizmente ainda não dá para viver de poesia”, explica.

A última obra, Urdidura de sonhos e assombros, lançada pela editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE), é uma antologia que traz cerca de 250 poemas escritos entre os anos de 2003 e 2007, todos retirados das seis primeiras publicações do autor. “Urdidura junta textos produzidos em solo brasiliense, já que moro aqui desde 2001”, atualiza o engenheiro civil, que se mudou para a cidade por conta de sua posição na Agência Nacional de Águas (Ana).

Por escrever desde os 10 anos, o autor declara ter material acumulado, até dois romances que nunca foram impressos, mas que pretende lançar na praça em breve. Com 47 anos, além de ser letrista, músico amador e de possuir participações em diversas atividades, cargos de chefia e cursos voltados para a engenharia, Marcos se destacou em sua carreira literária por fazer parte do Coletivo de Poetas do Distrito Federal e por suas prosas contemplarem diversas antologias, como a Contos e crônicas livre pensador, da editora Scortecci; a Antologia de poetas brasileiros contemporâneos nº 4 e As 100 melhores poesias de 2004, ambas da mesma CBJE, que distribui seu último lançamento.

Marcos também possui uma obra chamada Staub und schotter (poeira e cascalho, em tradução literal para português), na qual uniu suas poesias feitas em línguas estrangeiras, como inglês, português, espanhol, italiano, francês e alemão; e já participou do projeto Poesia 10-10-10, ao lado do reconhecido poeta Nicolas Behr.

Fonte: Correio Braziliense - 17/09/2010

O TOM DO DÓ DA DOR

DANIEL C. B. CIARLINI

Estatueta da autoria de Braga Tepi, misto de poeta e Dom Quixote, que foi oferecida por César Carvalho ao seu irmão Elmar Carvalho, no dia da posse deste na Academia Piauiense de Letras

Existem dois tipos de escritor, aquele que se individualiza, explorando, com afinco e embriaguez, o seu interior, o mundo que gira em torno do próprio umbigo, e aquele que vai mais além, conseguindo transformar as leis do individualismo em liras universais. Este segundo tipo de homem de Letras vive dores tão profundas que seu lamento é capaz de ecoar vozes alheias. São, pois, escritores corporificados pela essência épica, que canta, desde os tempos remotos, as glórias e os anseios dos povos. O individual e o coletivo, a propósito, são os dois elementos, as duas principais estruturas, que constituem o campo literário; entre elas, há-se, ainda, para não ser injusto, um terceiro elemento, ou melhor, uma terceira classificação, e que aqui não se listou como pilar por ser de caráter transitório, portanto indefinido, cujos literatos que nela se inserem estão, tautologicamente falando, entre o lirismo individualista e a épica coletiva; ou seja, são aqueles que produzem obras surtuosas, como que na procura definitiva de um estilo. Por esta forma de expressão, sincrética no campo das ideias e anárquica no campo da estrutura, os escritores que a praticam não se tornam, por sua natureza, negligentes com ambos os estilos, suas penas vão explorando, conforme inserem a imagem no papel, aspectos próprios e universais. E por estes tempos, em que o ofício pouco me permite absorver estritamente a literatura, cito o nome de Wilton Porto, que está, segundo minha visão, neste patamar transitório, e do qual tive o prazer de ser presenteado com sua última coletânea poética.
“Tom do Dó da Dor” é muito mais do que o autor tentou definir em sua apresentação: “Não deixa de imprimir a compaixão, o estar do lado dos que sofrem, dos oprimidos”. O “Dó”, ou, antes, a “Dó”, polivalente, portanto, se insere num campo amplificado de sentidos, forçando-nos a enxergá-lo (a) em desdobramentos espirituais, que é uma das fortes influências do escritor. Esta doutrina, da qual Kardec bem sintetizou sem “mistérios nem teorias secretas”, não obstante, faz jus, também, à obra de Porto: Tudo que está nela escrito se mostra de fácil compreensão. Embora esteja construído ao molde, ou fôrma, de poemas, não é um livro feito em versos, no entanto, as frases que ali se expressam trazem consigo uma carga muito grande de emoção, crítica, ensinamento e, até, erotismo, e isso basta, por si, para que contemplemos a poesia transmitida através de metáforas. Outro fato curioso que eu poderia citar – e esta visão obtive após deglutir as páginas me vieram às mãos –, está relacionada ao contraste com que o autor explicitou o todo da obra, ao tempo que ela se constrói ao jugo de um essência espiritualizada, a encenação carnal também se faz presente, e isto se deve, em suma, talvez, porque Porto não é um “autor-defunto”, muito menos um “defunto-autor”, como diria Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Wilton é, pois, um autor em carne, e a carne, embora necessite da energia espiritual para se manter, segundo ainda a doutrina espírita, ainda é propriedade da matéria, portanto, intimamente com ela relacionada.
O erotismo, anteriormente citado, é, sim, uma faceta da qual, ainda, não havia presenciado na escrita do autor, e mesmo da forma em que está não se distancia, portanto, de uma cultura contemporânea, que é carnal, e cômica, típica daqueles que, de forma experiente e sábia, transformam a vida numa eterna brincadeira:

(...)
Princesa do meu apego,
Sonhos tantos, desalinhados;
Podes fazer-me teu mamulengo,
Teu mais ardente escravizado.
Tu só não podes minha quenga
Dizer que nego fogo, armado.

Esta forma de expressão, que alguns julgariam ofensiva à moralidade, outros como puro fato que não se pode esconder porque a vida, tal qual é, tal qual deve ser divulgada, se vista bem de perto, sem muito esforço, exatamente neste trecho do texto “Se me fizeres um dengo”, faz conexão com vários dos versos de Gregório de Matos. Este mesmo pensamento é reforçado se acaso lermos, agora, com mais atenção, a primeira estrofe do mesmo título:

Morena de olhos negros,
Cabelos longos, cuidados;
Se me fizeres um dengo,
Eu serei teu namorado.
E sempre que eu for só prego,
Quero-o no teu quarto enfiado.

Não nos espantemos!, esta veia de duplo sentido está na obra de muitos escritores, nós, inocentes, que não enxergamos; vejamos, pois, o grande Camões, que um dia inferiu, usando-se da sonoridade das palavras para expressar outro sentido, que parece escondido no verso: “Alma minha gentil que te partiste”; leiam e releiam, em voz alta, várias vezes, as duas primeiras palavras, tão-logo encontrarão o sentido expresso. Não, não tem nada a ver? Verdade! Também concordo! E o que mesmo em arte tem a ver? Arte é interpretação, e a interpretação é polivalente, é diversificada e pode angariar muitos sentidos. Talvez o “quarto” de Porto seja, enfim, mesmo um “quarto” para muitos, e continue sendo para outros tantos puros de alma, ou, antes, inocentes da vida. Convido-os, então, a dar sentido ao verbo “armado”, talvez o encontrem tão destoante quanto “alma minha”, não é verdade?, será um sentido incomum e conseguirão mascarar a verdade, já que antes de tudo reina o falso moralismo.
Saiamos um pouco deste polêmico tema, afinal de contas, Wilton Porto, diferente de Gregório, não quis explorá-lo explicitamente, deixando para o leitor suas próprias conclusões.
Por ser uma obra bastante diversificada, às vezes pode-se confundi-la com repente, ou, antes, cordel; porém, um cordel de linha mais apurada no que tange à forma de se expressar, que se vai sem prolixidade e com elegancia, numa veia madura... Enfim, como dito acima, transitória:

Suicídio

Quem vê a claridade da vida
No pulso cortado por uma navalha
Não entende que ao tirar a própria vida
Só sacrifica o desespero que pelo corpo se espalha.
(...)

Obra polêmica. Adentra no campo da crítica social e política, aludindo, em “Voto” cuja voz poética demonstra nada mais que indignação quanto às desigualdades sociais, as mazelas, e ignorância, provocadas pelas forças oligárquicas...

Sem pão e sem rapadura
A casa às escuras
Apoiar a candidatura
Daquele que lhe der mais.

“Nenhum faz nada mesmo!
Que adianta se o velho ou novo!
A vida continuará ao esmo,
Pois ainda é besta o povo:
Vota-se em sobrenome: Silva ou Moraes”.

É um livreto ideologicamente maduro, de rápida leitura, mas de longa reflexão.

Parnaíba, nove de agosto de 2010.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Não morrerás,
meu quimérico e homérico cego.
Um mito não morre:
um mito se encanta e permanece.
Teus dois percursionistas
são dois anjos da guarda
de asas dissimuladas.
Um te abriga com a sombra
de seus olhos também sem luz.
O outro é tua estrela guia,
que te conduz em tua noite sem dia,
pelas trevas espessas de teus olhos,
como um Virgílio da nova mitologia.
Não morrerás,
não por seres Bento,
mas por teu talento.
A música escorre de teus dedos,
saltita sobre os teclados,
palpita e resfolega no fole,
cabriola no molejo moleque
do leque da sanfona,
evola-se pelos ares,
remexe as ondas dos mares,
sacoleja as folhas dos palmares,
se quebra e se requebra pelos bares
e remelexe no chamego e aconchego dos pares.
Não morrerás, cego Bento.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


14 de setembro

CONVERSA DE BANCO DE PRAÇA

Elmar Carvalho

Enquanto minha mulher foi resolver um assunto na agência do Banco do Brasil da Praça do Liceu, sentei-me num banco que havia defronte, à sombra de vetusto e frondoso oitizeiro. Nele já estava um rapaz, que logo demonstrou ser um tanto inquieto e possuidor de notável incontinência verborrágica. Ao ver uma velhinha atravessar a rua movimentada em longa diagonal, ficou agastado, e considerou o fato uma grande imprudência, o que de fato é mesmo. Incontinenti, comentou que por causa de fato semelhante matara um casal de idosos, quando fora motorista de ônibus em Belém do Pará. Na audiência, para defender-se, alegou que perto do local do atropelamento havia uma passarela. Segundo sua versão, o fato foi entendido como uma espécie de suicídio, pelo não uso do equipamento de proteção. Para lhe dar corda, eu demonstrava admiração, perplexidade e uma quase incredulidade. Não tecia comentários, nem crítica e nem julgamento, mas apenas dizia monossilabicamente: É mesmo? Não diga! Como foi mesmo? Isso fez o falastrão falar mais ainda.

Entre outras coisas formidáveis, disse que o problema do trânsito em Teresina era por causa dos “pardaizinhos”, que limitam a velocidade dos veículos. No seu entendimento, pelo que inferi, os carros deviam circular sempre a mais de sessenta quilômetros por hora, mesmo na Praça do Liceu. Falou que, num poste da rede elétrica do conjunto residencial onde morara, colidira várias vezes. Como eu expressasse muita admiração, atenuou sua culpa dizendo que isso se dera em sua adolescência. Revelando-se um verdadeiro super-homem da psicologia e da força de vontade, acrescentou que usara vários tipos de entorpecentes, mas os abandonara, sem precisar de tratamento. Na sua ótica, sequer fora viciado. Não sei por que motivo, revelou-me que convivera com catorze mulheres, em diferentes épocas. Perguntei se fora sob o mesmo teto, como marido e mulher; respondeu que sim. Indaguei-lhe sobre quantos filhos tivera; disse que quatro, mas que um morrera. Ante tantas coabitações, achei-o relativamente cauteloso e razoável quanto ao número de rebentos. Com relação ao número de companheiras, ao contrário da música de minha adolescência, considerei que ele era o próprio e famoso Barba Azul. Devo dizer que não me senti mais instruído, mais sábio e mais iluminado com a conversa de que fui ouvinte atento e quase passivo. Porém, me senti mais bem humorado, ao menos por algumas horas.