quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

S O L I D Ã O


S O L I D Ã O

Alcenor Candeira Filho

solitude em pequeno quarto quase vazio
com cama ar-condicionado estante banheiro
desolada solidão entre quatro paredes
silenciosamente caladas o tempo inteiro

solidão com Jesus Cristo em moldura dourada
com mãos e com pés cravados em pesada cruz
a olhar,  para quem O olha,  co' olhar de piedade...
solidão de quem só escuta no abrigo santo

voz de vento lá fora e voz de livro em estante
como numa prece:  Ave, Maria, gratia plena,
Dominus tecum benedicta tu in mulieribus...

quarto pleno de tudo no vazio do nada
- cômodo que mais parece aposento de monge
mas verdadeiramente cômodo de poeta.           

Um comentário:

  1. O tema do poema (soneto) não é novo, porém , ao atentarmos para o conjunto de plalvras de que se forma, anotamos o traço do antigo dentro do moderno.
    Mais uma vez, cumpre ao analista salientar que n~çao´e o soneto do Classicismo tipo camoniano nem o paarnasino ou neo-parnasiano que faz da peça poética uma form a diferente de retomar temas e situação pessoais e universais. Na realidade, só as palavras, só a os recurso expressivos da sintaxe à estilística, seu campo semântico privilegiado, sua inserção na tradição é que dão à forma fixa do soneto com seus quatorze versos um tônica própria e o sentido da comunicabilidade e rigor estético.
    Sem a intenção de pretender aqui analisar a composição , basta mencionar um dado de ponderável qualidade poética: O sujeito lírico consegue transmitir a sua voz solitária através de um selecionado número de vocábulos(substantivos ou adjetivos) conducentes à visão pessoal e universal que o poema se propõe atingir: Eis alguns: "solitude", "pequeno quarto"(em sintagma), "cama", "ar-condicionado" (insnerção do moderno), "estante". "banheiro". Bastam esses para definirmos o pacto que a voz poética insinua atiçar a curiosidade do leitor.
    É com esses poucos elementos vocabulaares que o o sujeito l´kirico vai conduzindo o leitor faazendo este ver e refletir para um dos tópicos m ais angustiantes da humanidade: a solidão, o abandono, e com isso as suas sequelas: uma visão onde se mistura o sagrado e o sem-sentido da existência humana. As suas antíteses, as suas aliterações, o seu sagrado-cristão pela invocação de Cristo e pela transcrição de parte da Ave Maria em latim, compõem um espaço , diria, de feição barroca.
    O poema, com toda a sua antinomia, existencial-religiosa, parece traduzir o papel que, na poesia, cabe ao poeta: o sentimento de estar distante da multidão, e que, contraditoriamente, desfruta do conforto das necessidades básicas da modernidade..
    Contudo, acentue-se que há um verso que nos prende a atenção: o primeiro verso do primeiro terceto - fusão das vozes da natureza e da voz da erudição, do saber natural e do saber livresco.
    E, para concluir, a confluência antagônica-existencial entre o "vazio" do pequeno quarto e (primeiro verso do soneto) e o "vazio do nada". Para a voz lírica, embora o quarto lembre os aposentos de um "monge", ele na realidade não passa de um simples quarto de poeta.
    Cunha e Silva Filho

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