quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

UM OLHAR SOBRE ESPERANTINA



10 de dezembro   Diário Incontínuo

UM OLHAR SOBRE ESPERANTINA

Elmar Carvalho

No sábado passado, dia 6, recebi das mãos de seu autor, o professor, pesquisador e escritor Assis Fortes, o livro Um olhar sobre Esperantina, sua terra natal. A capa ostenta uma bela fotografia panorâmica da urbe, feita por Isael Lustosa de Castro, através da qual se denota o seu progresso. Vê-se, ao longe, uma nesga do rio Longá, aparentemente com suas matas ciliares ainda preservadas, ao menos na região retratada.

O livro traz depoimentos e comentários de vários intelectuais, todos reconhecendo os méritos de Assis Fortes, como historiador e preservador mor da memória histórica e arquitetônica da cidade. A orelha, de denso conteúdo, foi escrita pelo jornalista e agitador cultural Elias Júnior, filho de Elias Medeiros, que me revelou, tempos atrás, haver conhecido meu pai, quando ambos ainda eram jovens. Pinço-lhe este trecho: “Assis Fortes nos faz sentir saudade do que a gente não viveu. E nos apresenta uma cidade perdida na lembrança, desenhada em cada relato com peculiaridades, desde o toque do sino da matriz até as raspas de cera de carnaúba a encerar o assoalho do Cassino...”

Algumas vezes estive em Esperantina, tanto em viagem a serviço, na época da extinta Sunab, como em atividade cultural. Mais de trinta anos atrás, no apogeu de minha juventude, saí de Parnaíba numa motocicleta, com o Reginaldo Costa, para fazermos uma entrevista com o padre Ladislau João da Silva, que havia sofrido uma agressão física, por causa de suas pregações e atividades libertárias e de conscientização social. A entrevista foi publicada no jornal Inovação, em cujo número foi publicado um poema de minha autoria, dedicado a esse sacerdote.

Há oito anos, quando completei meio século de vida, lancei o meu livro Lira dos Cinqüentanos nessa simpática cidade. Hospedei-me na casa dos pais da professora e historiadora Teresinha Queiroz, que lhe fez a apresentação, em solenidade memorável, ocorrida no auditório do fórum da Justiça Estadual.

Entre várias outras pessoas, estavam presentes advogados, o magistrado Almir Dib Tajra, parentes e irmãs da Teresinha Queiroz, o procurador de Justiça Alípio Santana, o escritor A. Sampaio, creio que o historiador e genealogista Valdemir Miranda, o médico esperantinense Almir Alves Rebelo e sua esposa, a professora da UFPI Emília Gonçalves Rebelo, e o professor, compositor e instrumentista campomaiorense José Francisco Marques.

A pretexto de contar peripécias e proezas de Francisco Fortes, seu pai, o autor discorre também sobre fatos da história de Esperantina, alguns mais antigos e outros bem mais recentes, mas que interessam aos pesquisadores, porquanto revelam episódios da história imediata, um pouco da história do cotidiano, em que certos costumes e peculiaridades são mostrados. Embora Assis Fortes seja um entusiasta de sua terra, não é um cego ufanista, e mostra também as suas mazelas, evidentemente apontando sugestões e soluções aos problemas que denuncia.

Conta homericamente as façanhas de Francisco Fortes, quase todas jocosas, muitas das quais ficaram imortalizadas no anedotário oral da cidade. Além de esse personagem ser um tipo brincalhão, dado a fazer “pegadinhas” com os seus amigos, tinha uma força descomunal. Numa dessas proezas, em que utilizou seu vigor físico, segurou uma pesada estaca, que se inclinara perigosamente, para que os fogos de artifícios, nela dependurados, não atingissem as pessoas, que se encontravam no logradouro, onde o evento festivo ocorria. Francisco Fortes era, literalmente, um forte.

Em outro episódio, depois de haver tentado por várias vezes conter um bêbado, que incomodava os clientes do comércio em que trabalhava, retirou do recinto o gordo batoré, suspendendo-o, com um só braço, pelos cabelos. Era, não resta dúvida, uma espécie de Maciste da velha Retiro da Boa Esperança, digno de uma destacada participação nesses velhos épicos da cinematografia italiana. Era, com efeito, um legítimo Hércules de uma nova e verídica mitologia.

Parte do livro é composta de um misto de artigos/crônicas, geralmente concisos e de pequeno tamanho, sobre variados assuntos, mas todos referentes a Esperantina, e quase todos de caráter memorialístico, em que fatos históricos e costumes são abordados, ainda que com leveza e sem minudências bibliográficas.

Chamou-me especialmente a atenção a entrevista com o ectoplasma do “capitão” cigano Benjamim Medrado, no ensejo da memoração do centenário da tragédia cigana, ocorrida no velho povoado de Retiro da Boa Esperança, de que se originou a cidade de Esperantina. Essa tristemente célebre chacina, praticada em 1913 por militares da Polícia piauiense, é revista e, de certa forma, passada a limpo nesse texto.

Fiquei desconfiado sobre a veracidade da ocorrência dessa conversa de Assis Fortes com o suposto espírito do capitão Medrado, pois sei que o nosso autor é católico praticante e fervoroso. Também estranhei porque tanto as perguntas do autor como as respostas do ectoplasma eram repletas de dados históricos, presumivelmente precisos, inclusive com citação de fonte e data, como se houvera sido feita previamente uma pesquisa.

Preferi ignorar esses detalhes e procurei lê-la como se fosse realmente uma conversa com alguém que já fora “para o outro lado do mistério”. Contudo, as aspas e a nota de rodapé vistas na página 96 me levaram à conclusão de que a materialização do capitão cigano Benjamim Medrado era mesmo um recurso fictício do autor para atrair mais ainda a atenção do leitor.

Caso a aparição do fantasma do cigano Medrado tivesse sido real, gostaria que Assis Fortes lhe tivesse perguntado alguma coisa sobre como é a existência além desta vida terrena. Brás Cubas, que, pela arte e feitiço do Bruxo do Cosme Velho, escreveu as suas memórias póstumas, nada esclareceu sobre a vida no além-túmulo, preferindo falar de sua vida neste velho mundo terráqueo, fazendo mesmo questão de consignar: “... evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra.”

O certo é que ficamos sem saber como Brás Cubas teria escrito e publicado sua obra póstuma, fato que não aconteceu com o texto de nosso bravo Assis Fortes, que teria se comportado como um legítimo médium vidente. Contudo, como no final esclarece o autor da entrevista fictícia, trata-se de um texto repleto de informações verídicas, baseado em boas fontes históricas e em depoimentos orais de pessoas sérias e testemunhas presenciais do trágico fato histórico.


Um olhar sobre Esperantina é um olhar instigante de filho e de amante, que zela, mas desvela e revela, que aprecia e admira os encantos desse torrão, mas desnuda as suas mazelas e defeitos, em busca das correções e do aperfeiçoamento; que lhe exalta as louçanias e belezas, mas também investiga o que precisa ser investigado e trazido à luz da publicidade.     

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