quinta-feira, 6 de agosto de 2015

E O CHEYENNE VIROU TREMEMBÉ



4 de agosto   Diário Incontínuo

E O CHEYENNE VIROU TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Sempre tenho reconhecido, com humildade e gratidão, que as coisas que realmente desejei Deus me concedeu, não na velocidade e na intensidade que imaginei, mas no tempo Dele, que é o tempo certo. Talvez porque não tenha desejado demais, talvez porque não tenha sonhado alto demais. Hoje agradeço ao Senhor até pelas circunstâncias e fatos que achei me terem ferido, mas que hoje aceito como me tendo sido benéficos, porque me serviram de lição, de aperfeiçoamento e de advertência.



Nunca tive inveja, mas decerto admirei muitas coisas, e admirei e aplaudi as virtudes e os dons artísticos de várias pessoas. No final de minha infância e em minha adolescência contemplei, enlevado, os barcos que vi navegarem o pequenino e lindo Açude Grande de Campo Maior, e os que vi singrarem as águas plúmbeas do Igaraçu e da então magnífica Lagoa do Portinho, que louvei nos versos em que lhe enalteci a beleza. Nunca os pude comprar; em certa época porque não tinha o dinheiro, em outra fase porque não tinha tempo e nem o entusiasmo de minha juventude.

Quando fui a Brasília, no começo deste século, para lançar o meu livro Rosa dos Ventos Gerais, fiquei hospedado na casa de meu velho amigo Jonas Filho Fontenele de Carvalho, competente professor de Direito Penal e bem sucedido advogado. No domingo, após o lançamento do livro, o Jonas me proporcionou excelente passeio a bordo de sua lancha voadora. Em determinado ponto do Paranoá, ele a desligou e saltamos para a água, como dois legítimos remanescentes do legendário e jurássico Tarzan, hoje quase ultrapassado em face dos homens-só-músculos.



Década e meia depois, em minha ascendente escalada de marinheiro de água doce, os capitães de mar-e-terra Roberto Carlos e Valério Mendes me conduziram rio Parnaíba arriba, na expressão dacostiana, até além de Taprobana, para invocar outro grande poeta, desta feita o caolho Camões. Ou seja, ultrapassamos a área urbana, e ancoramos em paradisíaca ilha de areia fina, fria e macia. Noutra vez preferimos a refrescante sombra de sobranceira e frondosa árvore ribeirinha.

Não sei qual desses dois bons amigos era o verdadeiro capitão, e qual era o imediato. Nas três ou quatro expedições, nos acompanhavam o Zé Francisco Marques e o meu irmão Antônio José. No mais recente passeio integrou a excursão náutica o poeta William Melo Soares, amigo de várias décadas, que bem poderia ser o escrivão da venturosa aventura. Caso não seja o nosso Pero Vaz de Caminha, certamente será o Homero de nossa odisseia fluvial, cheia de peripécias anedóticas, e jamais trágicas.



Depois dessa vasta experiência náutica, e após ter construído pequeno sítio na gleba herdada por minha mulher, à beira do Velho Monge, na localidade Várzea do Simão, resolvi começar minha carreira de capitão de forma bem incipiente, ou seja, começando pelo ABC, por assim dizer. Comprei um barco inflável, de nome Cheyenne, que de forma coerente rebatizei, dando-lhe o nome também indígena de Tremembé, que era a tribo que perlongava o baixo Parnaíba e a sua encantadora foz, o famoso e deslumbrante Delta do Parnaíba.

Com muito esforço, com os bofes quase saindo pela boca, utilizando o seu inflador manual, o enchemos. Revezamo-nos nessa inglória tarefa o Maninho, sobrinho de minha mulher, o Reginaldo, o Zé Francisco Marques e este capitão e escrivão do Tremembé. Colocamos o barco na picape e o levamos até a ponte do Jandira, onde, após algumas peripécias e estripulias acrobáticas, o lançamos n’água. Descemos o rio até a Toca do Velho Monge, espaço etílico-lírico-cultural, situado no sítio Filomena.



Constatamos mais uma vez o estado lamentável em que se encontra o rio, que se apresenta muito largo e raso, com muitas ilhas ou coroas de areia. Numa delas existia uma roça, em que se viam vários espantalhos, para afastar as capivaras e as aves, que comem os grãos do roçado. Essas ilhas são de uma beleza triste, melancólica, porque expõem os sintomas da degradação do grande rio dos Tapuias.

Mesmo assim ainda nos deslumbramos com a beleza das árvores, com os volteios e caracóis dos cipós, com a louçania colorida de alguns pássaros, com o canto mavioso de muitas aves, com o assobio aflautado de acrobáticos macacos. Ao ouvir o encantatório canto de um miúdo passarinho, sem beleza na plumagem, perguntei qual era o seu nome, e qual a razão de ele não ter valor comercial e nem ser vítima das arapucas e alçapões dos passarinheiros.

Foi-me dito que era uma garrincha ou sibita, que não canta em cativeiro. Portanto, jamais teria o destino trágico de um assum preto, o nosso conhecido chico preto, cujos olhos são covardemente vazados para ele melhor e mais fortemente cantar. Desejei que todos os pássaros, feitos para voar e cantar na amplidão dos grandes espaços abertos, não cantassem na prisão. Assim, viveriam livres e felizes.     


9 comentários:

  1. José Francisco Marques6 de agosto de 2015 11:10

    Mestre Elmar,

    Pra variar, belo e emocionante texto. Você se supera a cada verso e prosa a que se propõe de maneira divina a propalar. Aqui ansioso fico a aguardar suas próximas edições.
    Obrigado por ter me ensinado a voar.

    Abraço.

    P.S.: Anjo torto e sem asas que sou, jamais o faria sem a sua ajuda na difícil arte de ministrar voos.

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  2. Mestre,
    Já o considero um capitão de longo curso nas aventuras aquáticas pelos mares internéticos, e já tem asas próprias em seus voos literários, quando tem feito belas crônicas.
    De qualquer sorte, obrigado por suas palavras de encorajamento.
    Abraço,
    Elmar Carvalho

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  3. Amigo Poeta, e agora capitão da sua própria embarcação,
    Gostaria de me candidatar para a função de grumete para, entre outras razões, matar dois coelhos de uma remada só: aprender a pastorear nuvens( no dizer de Drumond, quando instado a tomar conta da fazenda da família) e navegar gratuitamente as eternas águas do velho rio dos Tapuias. Estou ciente que o Tremembé ganhará em breve, moderno aparelho de propulsão, mas sempre se precisa de alguém para lavar o convés. Parabéns, mais uma vez.

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  4. Caro JP Araújo,
    Se o amigo adentrar o pequenino Tremembé e tremendão, incontinenti passarei o comando ao nobre amigo, velho corsário dos sete mares verdes e bravios, bravo capitão de mar-e-terra-e-ar.
    Abraço,
    ELmmmmmmmmmmmar

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  5. Não, meu amigo. Não gostaria de ver o elegante Tremembé fazer água sob o comando de alguém que nunca entrou em uma canoa de casca de jatobá, pois no meu riacho Firmino, a quem já dediquei singela crônica (que irá a público logo mais), nunca entrou uma embarcação com a envergadura do bravo "Tremendão". Alegro-me com o posto invocado de grumete.

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  6. Recebo a sua negaça como uma simpática ordem vinda do Alto Comando do Almirantado dos Sete Mares.
    Serei, pois, um simples timoneiro de um barco sem timão e sem rumo.

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  7. Que seja assim. Com as mãos livres, terás tempo para imprimir no papel as percepções de poeta navegante de longo curso.

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  8. Não chego a ser um Tarzan ou mesmo um Cielo, mas sei dar umas boas braçadas, com as quais me mantenho flutuando.Lamentavelmente o velho Paraguassu (outro antigo nome do Parnaíba) está muito raso.

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