quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha

Foto meramente ilustrativa

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha                    

José Pedro Araújo
Cronista, historiador e romancista

                Publiquei aqui neste espaço uma crônica histórica sobre o Massacre do Alto Alegre (Post de 18.03.2015), no qual descrevo a tragédia sofrida pelas crianças internas do Colégio dos Capuchinhos de Alto Alegre, região de Barra do Corda. Tem sido uma das postagens mais acessadas desde então. Volto ao assunto para discorrer sobre uma das vítimas daquela tragédia acontecida em 13 de março de 1901: a estudante Perpétua Moreira.
                Como relatei no post anterior, os frades capuchinhos oriundos da região italiana da Lombardia, chegaram à região no final do século XIX, mais precisamente por volta de 1893, e trouxeram como propósito a realização de um grande trabalho de catequização dos índios, razão porque escolheram a região de Barra do Corda. Ativos, já em 1895 instalaram um colégio para meninos na sede do município, no qual foram matriculados mais de 80 crianças e jovens de até 14 anos. A ausência de escolas de qualidade na região foi a razão do sucesso do novo colégio erguido pelos frades em tempo recorde, além, naturalmente, do nível de formação dos professores responsáveis por ministrarem aula aos jovens oriundos das famílias mais destacadas. O sucesso do empreendimento também estimulou os padres a seguirem com o projeto adiante, razão pela qual adquiriram uma área de cerca de 3.200 hectares de terra na região do Alto Alegre, nas vizinhanças de algumas tribos de índios Guajajaras. Ali instalaram o maior projeto de catequese do interior maranhense, contando, inclusive com a ajuda do governo do Estado que repassou recursos do tesouro estadual para a consecução do ambicioso projeto.
                Com recursos oriundos da Itália, mas também do tesouro estadual, como afirmamos no parágrafo acima, os padres partiram rapidamente para a construção da infraestrutura necessária. Ergueram-se o prédio escolar, a igreja, um internato com dois pavimentos, um convento para os religiosos, além de oficinas, engenho para beneficiamento de cana-de-açúcar e um aviamento para o beneficiamento de mandioca. A escola, diferentemente da outra implantada em Barra do Corda, que só contava com meninos, receberia meninas em regime de internato.
A noticia logo se espalhou pela região, e disseminou a alegria em meio às famílias de Grajaú, Imperatriz, Colinas(Picos), Riachão e Balsas, e da própria Barra do Corda, que passaram a contar com um colégio de bom nível para acolher suas filhas em tempo integral. Lá, as jovens adquiririam conhecimentos de música, costura e bordados, além de se afeiçoarem com o melhor das práticas e costumes europeias, além de estudar em meio a excelentes professores. Em 1896 estava tudo praticamente pronto, e as alunas puderam se matricular. O colégio foi entregue nas mãos das cultas Irmãs Capuchinhas de Gênova, Itália. As novas alunas eram jovens também de até 14 anos e pertenciam às famílias mais abastadas desses municípios acima citados. 
                Seguindo uma prática que costumavam empregar nesse tipo de trabalho, os religiosos mesclaram as alunas com outras meninas indígenas trazidas das aldeias próximas para aprender a cultura do branco. O dinheiro pago pelos pais das meninas branca, manteria os jovenzinhos indígenas. Os métodos empregados na obtenção das novas alunas nativas, muitas vezes beirou ao absurdo, uma vez que muitos curumins foram arrancados literalmente dos braços dos pais com requinte de violência, como já noticiamos no post anterior. E isso, somado a uma serie de outros problemas, suscitou o agravamento das relações entre brancos e índios a tal ponto que, no dia fatídico, 13.03.1901, um domingo que tinha tudo para terminar bem, os indígenas perpetraram o maior morticínio de brancos já registrado na literatura brasileira: cerca de 200 pessoas perderam a vida violentamente naquele dia. Ensandecidos, os Guajajaras trucidaram a todos que encontraram na vila, inclusive os religiosos e as alunas brancas. Com única exceção: uma garota de nome Perpétua Moreira, vulgo Perpetinha. Perpetinha era filha de um abastado fazendeiro da região de Grajaú, e foi tomada como refém, ou algo parecido.
                Não se sabe por que razão, se apenas porque se tratava de uma bela jovem que logo conquistou o coração do jovem cacique Jauarauhu, o certo que foi a única jovem levada como refém pelos índios, e escapou da morte. O desdobramento dessa chacina encetou novos assassinatos, e cerca de 400 indígenas terminaram sendo mortos nos confrontos seguintes, quando os brancos que se organizaram e se armaram fortemente para se aliar ao contingente de militares que chegou de Grajaú, comandado pelo capitão Goiabeira, e de Colinas, sob o comando do tenente coronel Pedro José Pinto. Junta ao contingente de militares havia um bom número de índios Canela, histórico inimigo dos Guajajaras. Goiabeira foi o mentor de um bárbaro genocídio, sendo que muitos dos indígenas mortos, sequer estavam naquele dia na região, ou mesmo faziam parte da nação dos Guajajaras. Ter a pele vermelha já era motivo mais do que suficiente para que o militar despejasse sobre ele o seu ódio.
Perpetinha foi levada pelo cacique Jauarauhu para o interior da selva desconhecida, distanciando-se rapidamente da região do conflito. E no que pese o grupo formado para dar caça ao raptor ter permanecido no seu encalço por vários e vários dias, foi debalde a sua procura. O índio conhecia profundamente o interior daquela extensa e fechada floresta, diferentemente dos seus perseguidores, e recebia o apoio das tribos que ia encontrando pelo caminho. 
                Depois de muitos dias, os fugitivos chegaram à desconhecida região do rio Gurupi, na confluência dos estados do Maranhão e Pará. A região ficava muito distante da civilização, era completamente desabitada por bancos, e ali foram acolhidos pelos índios que se achavam aldeados por lá. A memória histórica se encarregou de criar muitas histórias sobre aquele caso que manchou de sangue a terra conquistada, e que abalou a confiança das famílias da região. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Uma dessas histórias, que foi repassada de pai para filho, diz respeito à pobre moça sequestrada. Nela se afirma que Perpetinha, quando em fuga, e em momentos em que se achava longe do seu captor, escrevia no tronco das árvores uma frase que ficou registrada na memória do povo daquela região: “por aqui passou a infeliz Perpetinha”.  Talvez quisesse deixar uma pista a ser seguida por seus parentes na vã esperança de ser alcançada e salva. Procedeu como Teseu ao penetrar na desconhecida caverna do Minotauro, como registra a lenda grega. Nela, o rei Minos era obrigado a enviar anualmente quatorze jovens ao monstro Minotauro. Sete homens e sete mulheres, para serem devorados dentro do desconhecido labirinto. Teseu levou consigo um novelo de linha que amarrou na entrada do labirinto e foi desenrolando até encontrar o monstro. A linha balizaria o seu retorno. Teseu, segundo a lenda grega, conseguiu o seu intento. Perpetinha, não.
                Em 1982, o jornalista e escritor barra-cordense Olímpio Cruz lançou um livro denominado Cauiré Imana, o Cacique Rebelde, no qual narra com riqueza de detalhas o grave conflito do Alto Alegre. Ele discorre também sobre o caso da Perpetinha e junta novas informações a ele. Cruz diz que ela teria sido tomada como esposa pelo cacique autor do seu rapto e tido alguns filhos com ele. Disse ainda que, muitos anos depois, ela teve a sua identidade descoberta por alguns brancos que a encontraram na tribo em que habitava. E perguntada por que não aproveitava a deixa e se reintegrava ao seu povo, disse que a sua gente agora era aquela, depois de haver constituído família e tido alguns filhos. Não tinha mais razão para retornar à sua família anterior. Olímpio Cruz publicou até mesmo uma foto de alguns indígenas, e entre eles, uma mulher índia com alguns curumins em volta, afirmando ser ela uma das filhas de Perpetinha.
                Terminou dessa foram, com pouco glamour - ou sem nenhum glamour -, a triste história de uma jovem estudante em quem a família depositou todas as suas esperanças de dias melhores, ao matriculá-la em um colégio de alto nível, dirigido por estrangeiros.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário