sábado, 4 de junho de 2016

A vingança de Nabucodonosor


A vingança de Nabucodonosor

José Pedro Araújo

Nabucodonosor não era uma ave igual às outras, seu dono pôde verificar isso desde o início quando ele chegou por ali, adquirido em uma feira da capital. Pequeno ainda – e plumagem tingida de azul para agradar à meninada - já se mostrava cheio daqueles costumes somente vistos nos seres superiores, inigualáveis, naqueles que vieram predeterminados a não se comportar como o grosso dos da sua espécie. E ele procedia sempre assim, empinado, orgulhoso, pescoço em riste, desconfiado com o ser humano que adentrava no seu espaço para trazer-lhe comida ou agrados.

“Esse bicho é diferente dos outros”, pensou o homem logo que o viu assim, com aquele jeito afetado, mantendo-se à distância e comportando-se como um nobre, munido daquela pose altiva. Foi adquirido mesmo assim. Não para fazer às vezes de brinquedo para crianças. Foi adquirido porque era diferente.

Ganhou logo o nome do Rei da Babilônia, Nabucodonosor. Entre os doze de sua espécie que vieram habitar o quintal da casa, era um dos três machos. As outras nove fêmeas, à medida que o tempo ia passando, cercavam-no de cuidados cada vez maiores o que não tardou a despertar ciúmes nos outros dois companheiros de sexo. Esse sentimento foi passando de um simples desconforto inicial, para uma grande aversão, culminando com uma disputa tão acirrada por espaço que chegou ao extremo da violência física. E nesses momentos, ele mostrou que era realmente diferente, batendo, em sequência, seus dois contendores. Surrou-lhes tanto que ganhou da parte deles uma reverência total, inconteste. Passaram estes da qualidade de opositores, para a de fieis escudeiros.

            Mas o destino das aves emplumadas da sua espécie é sempre fazer parte de algum banquete, na qualidade de repasto para os presentes, não na de convidado. E assim acontecia sempre que o dono do galinheiro encontrava alguma razão para mudar um pouco o cardápio. E esse destino negro fez com que, paulatinamente, seus pares fossem sendo eliminados um a um, quando chegaram à fase adulta. Só sobrou ele. 

Nesse período, já era uma ave de porte avantajado, belíssimo na sua vestimenta de penas brancas, e mais compenetrando ainda. Não se deixou abater pela perda de seus vassalos. Contrariamente, mostrava-se cada vez mais arredio, arrogante, avesso a qualquer aproximação com o pessoal da casa. O chefe da família, que o observava desde o início, e o admirava, apesar da esnobação de Nabucodonosor, era o seu grande defensor, e não permitia que ele tivesse o mesmo fim de seus companheiros.

- O quê esse galo tem de tão importante que você não permite que o levemos à panela, homem!? – indagava a mulher cada vez que era impedida de lançar mão no bicho, transformando-o em uma gostosa iguaria.

- Então você não está vendo, mulher! Ele é o nosso grande Nabucodonosor, o rei desses quintais – respondia orgulhoso.

- E para que nós precisamos de um rei no nosso quintal? – irritava-se a mulher.

- Para alegrar as nossas madrugadas com o seu canto eterno. Lembra-me minha infância na roça, quando eu acordava à noite para ouvir o canto desses bichos. Era uma festa. Um cantava perto, outro respondia mais distante, outro mais distante ainda, até não se ouvir mais nada. E ai o primeiro começava tudo novamente! Esse aí traz o sertão para dentro da minha casa aqui na cidade. – Respondia orgulhoso e saudoso o homem.

A conversa terminava sempre assim, e Nabucodonosor ia sempre escapando de ter o seu pescoço decapitado.

Não se sabe se por desconhecimento desse assédio cada vez maior, ou se por conta da sua herança nobiliárquica, o certo é que o bicho mostrava-se cada vez mais compenetrado e refratário à aproximação com o pessoal da casa. Nem mesmo o seu grande defensor era tratado de maneira diferente, e isso só fazia aumentar o número dos que lutavam pela causa da sua extinção pura e simples; queriam vê-lo convenientemente servido em postas no almoço de Domingo.

Mas, estranhamente, seu defensor arguia com ardor sempre maior, lutando pela sua salvação. Uma coisa que não conseguiu, contudo, foi livrá-lo do cativeiro atroz. Passou o seu “rei” a viver aprisionado, amarrado pelos pés para evitar que atacasse as pessoas que por ventura adentrasse ao quintal. Território Nabucodonosor já considerava como seu reino indevassável.

Não se sabe se pelo fato de ter sido mantido em cativeiro, o certo é que o bicho passou a se mostrar um pouco mais dócil. Não sabiam que isso era fruto do amadurecimento dele, da sua esperteza. O fato é que Nabucodonosor ganhou mais liberdade, recebeu permissão para se deslocar pelo quintal livremente, e seu canto melhorou sensivelmente, voltando ao nível melódico de quando estava ainda com o seu séquito intacto. Nos últimos tempos, sua ode lhe saía triste, tremido, e sem força, quase não ultrapassava os limites do próprio quintal. Agora não, soltava seus solfejos pelos ares qual um menestrel medieval, numa tentativa de agradar a sua amada enclausurada nas alturas da torre de um castelo fictício.

E seu território foi se expandindo, se expandindo, já podia até andar pelo gramado da frente da casa. E nesses momentos, espiava interessadamente para a rua, observando o vai-e-vem das pessoas e dos automóveis que se movimentavam livremente.

Certo dia arriscou uma subida na mureta baixa que protegia a casa da rua propriamente dita. Gostou de ficar ali em cima, em um ponto de observação acima do nível do solo, mas sempre voltava para dentro, para o seu quintal. Até mesmo a dona da casa passou da desconfiança estremada a um estágio de tolerância sob vigilância. O preço de uma bicada que o galo aplicara na sua caçula, estava lhe custando muito caro ainda, precisaria de muito tempo para que fosse esquecida.

Mas Nabucodonosor possuía o sangue quente dos guerreiros conquistadores, e não tolerava quem o confrontasse com brincadeiras fora de hora ou mesmo com gracinhas que considerava carregadas de pejoração. Essa assertiva foi confirmada pelo menino Bruno, um vizinho que morava em uma casa próxima ao território de Nabucodonosor. Garoto brincalhão, o garoto estava ai pelos seis anos de idade, no auge da sua curiosidade, e por isso mesmo explorava as cercanias de sua residência, sempre sob os olhos cuidadosos da mãe. Nesse dia, estava Nabucodonosor empoleirado em seu ponto preferido de observação, sobre o muro, quando Bruno se aproximou acompanhado por Andrey, um garoto um pouco mais novo, mas extremamente curioso também. Vinham subindo a rua, brincando, espantando os besouros e borboletas que pousavam sobre as flores dos imensos jardins que enfeitavam as largas calçadas.

Um pouco mais abaixo, conversavam com o dono do galo à sombra de um frondoso ficus, seu pai, o pai do menino Andrey e o avô deles dois, pois eram primos. Por isso, de onde se encontravam, os homens procuravam não perder as duas crianças de vista.

Quando já estavam próximos do lugar aonde o galo se encontrava no seu ponto de observação, cerca de uns cinqüenta metros de distância da sua casa, Bruno chamou a atenção do primo.

- Olha ali, Andrey. Que galo bonito!

A ave não se mexeu. Continuou lá, altivo, sem demonstrar o mínimo interesse pelos observadores que se aproximavam solícitos dele. Depois de admirá-lo por um bom tempo, Bruno resolveu mexer com o galináceo e começou a jogar-lhe alguns seixos que trazia nas mãos, no que foi acompanhado por Andrey.  Os meninos arremessavam as pedrinhas e riam gostosamente com a reação que o galo tinha agora. Nabucodonosor, para não ser atingido, pulava de um lado para o outro, abrindo as poderosas asas para se equilibrar sobre o muro. E isso serviu de estimulo aos dois garotos que se aproximaram mais para conseguir acertá-lo em cheio.

O que era brincadeira para os meninos, passou a ser encarada pelo galo como um acinte, uma agressão despropositada contra seus direitos à tranqüilidade. E ele, que não admitia nenhum desrespeito à sua condição de nobre na sua espécie, começou a indignar-se e a perder o autocontrole. E foi então que, abrindo as asas até ao limite, lançou-se no espaço em direção aos garotos.

Foi um vôo curto, mas parecia um Condor que se lançava do alto de um penhasco para o espaço infinito. As garras afiadas, e os esporões amoladíssimos estavam prontos para atingir dolorosamente a quem o estava molestando naquele momento.

Quando os meninos viram o salto majestoso de Nabucodonosor em direção a eles, partiram em desabalada carreira rua abaixo. Tentavam chegar até ao local em que estravam seus parentes. E Nabucodonosor, cada vez mais furioso, corria atrás deles com velocidade crescente. As asas agora abertas lhe davam um aspecto de uma aeronave que tentava levantar vôo sem, contudo, conseguir sair do solo. Saltitava, na verdade, na tentativa de voar, pois acabava voltando ao solo. Mas se não conseguia voar, empreendia uma velocidade grande, incerta, é verdade, mas crescentemente perigosa para os dois guris.

Bruno olhou para trás, e o que viu o deixou apavorado, razão pela qual soltou um grito de terror que ecoou pela rua inteira. Andrey, um pouco menor que o primo, estava ficando para trás na longa carreira que empreendiam, ficando à mercê do galo. Também já vinha gritando a plenos pulmões, completamente aterrorizado com o que adivinhava está prestes a acontecer.

Mas o galo, cheio de ódio e com gana de atacar dolorosamente a quem ele achava que o tinha destratado, emparelhou com Andrey e, sem nem ao menos olhar para ele, o ultrapassou na corrida. As asas que não conseguiam fazer com que aquela ave pesada alçasse voo, elevavam-no do solo por pequeníssimos instantes, e depois depositavam-no novamente sobre a calçada, mostrando, na verdade, que ele se deslocava aos pulos. Tal fato conferia ao bicho um aspecto aterrorizante, e ele já se encontrava próximo ao menino que considerava o seu verdadeiro inimigo.

De onde estavam os homens ouviram os gritos dos meninos e, ao observarem para saber a razão de tamanho alarido, ficaram preocupados com a cena dantesca que avistaram, e com a iminente agressão que se prenunciava. Nabucodonosor já estava quase alcançando o menino Bruno que, já sem forças, corria desequilibrado, quase flutuando, mantendo-se a muito custo de pé, sem cair ao chão. Os braços abertos do guri, tal qual as asas de Nabucodonosor, era o que o mantinha ainda em posição vertical, de pé.

Mais rápido que os demais, o pai de Andrey correu em socorro dos meninos e ainda teve tempo de amparar Bruno nos braços antes que ele caísse desfalecido e fosse atacado pelo feroz bípede.

Nabucodonosor não se intimidou, contudo. Estava já tomado por um furor animal que o fez atacar o garoto, e também quem o amparava. Os outros homens, vendo que a situação estava passando de crítica, atacaram o galo a pesadas tentando afastá-lo de sua pretensa presa. A muito custo fizeram com que ele refluísse do seu intento e voltasse para o seu território.

Passado o susto, com o garoto Andrey já devidamente sob os cuidados dos parentes, os salvadores caíram em estrepitosa gargalhada. Quanto aos garotos, continuavam em estado de terror absoluto, com os olhos quase a saltar das órbitas.

Os homens riram por um bom período até não conseguirem suportar o incômodo na barriga. Um pouco aliviados, e outro tanto admirados com a valentia daquele animal que não demonstrara, em momento algum, receio pela presença deles, recolheram os dois meninos à segurança do lar.

Todavia, esse incidente quase teve resultados catastróficos para o nobre Nabucodonosor. Preocupados em manter a política da boa vizinhança, e com receio de que o reizinho viesse a atacar outras crianças, decidiram sacrificar o belo galo.

Mais uma vez seu protetor entrou em ação para salvá-lo do banquete do qual ele não tinha o menor interesse de participar. E, em nome da diplomacia e da boa política, decidiu agir. Na noite que antecedeu ao previsto banquete, o galo foi sorrateiramente retirado de lá, e levado, às escondidas, para o sítio de um amigo que possuía um mini zoológico com várias espécies de animais e aves, muitas da mesma espécie de Nabucodonosor. Lá o fugitivo se encontrou com belas companheiras originadas de muitos países, como a inglesa Bianca Leghorn, as americanas  Mimi Rhode Island Red,  Angel New Hampshire e  Desirée Plymouth Rock Barradas, entre outras, todas logo incorporadas ao seu novo séquito real. Para isto, não encontrou muitas dificuldades, pois os espécimes masculinos que antes reinavam no terreiro, foram vencidos um a um e passaram a fazer parte da sua corte, servindo-o e adotando-o como novo e verdadeiro líder. Chegara novo rei ao pedaço.


Até que Nabucodonosor gostava de suas novas pretendentes. Eram belas e educadas, de fina estirpe e o tratavam com carinho e devoção. Mas, apaixonar-se mesmo, só aconteceu com uma: a bela Gail White América, de andar gingado e orgulho nas alturas. Portadora essa índole também real, fazia questão de não acompanhar as outras amigas quando o assunto era bajular o recém-chegado rei do pedaço. E esta talvez tenha sido a razão para ela ter sido escolhida para rainha. A mais bela e inteligente rainha que se conheceu por aquelas terras em uma centena de anos. Quanto a Nabucodonosor, viveu feliz por muitos e longos anos e deixou numerosa prole que hoje se espalha por vários reinados onde ocupam os mais importantes cargos na realeza.

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