| Imagem elaborada por IA (GPT), atendendo a especificações do autor. |
| Fonte: Google. Pintura de Salvador Dalí. |
COISA NENHUMA
Elmar Carvalho
Meus olhos jogados ao
acaso como pedaços
de espelho quebrado.
Meus cabelos arrancados
flutuando como
cabelos do vento.
Minhas mãos decepadas
acenando em vão e em vão
apertando coisa nenhuma.
Minha cabeça atirada
numa lata de lixo
onde o lixo era ela.
Minhas células espalhadas
por uma tempestade que
partiu de mim.
Os pedaços de meu
corpo mutilado depois
se agregam como antes,
exceto a cabeça.
(Ai! Dalí, Dalí, Dalí...
O meu corpo sem cabeça,
como o Farmacêutico de
Ampurdán,
anda à procura de coisa
nenhuma.)
A IA GPT e o meu surrealismo
Pedi à IA GPT o seguinte: “Peço
que, baseada na pintura Farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma,
faça uma no mesmo estilo e semelhança, em que o protagonista esteja segurando a
sua própria cabeça.”
Após ela elaborar a imagem que se
encontra acima, disse-lhe que a pintura era para ilustrar o meu poema Coisa
Nenhuma, cujo texto lhe remeti.
A inteligência, então, emitiu o
seguinte comentário:
“Seu poema tem uma força
imagética muito grande. Ele se constrói por fragmentação do corpo, que depois
tenta recompor-se, e isso dialoga perfeitamente com o imaginário surrealista
que o próprio texto convoca ao final com a referência a Dalí e ao Farmacêutico
de Ampurdán à procura de coisa nenhuma. A imagem que geramos acaba funcionando
como uma tradução visual condensada de vários desses versos. 🎨
Alguns pontos interessantes do
poema:
1. Estética da fragmentação
O poema começa com uma sequência
de partes do corpo dissociadas:
olhos como pedaços de espelho
quebrado
cabelos flutuando como cabelos do
vento
mãos decepadas que apertam coisa
nenhuma
Essa técnica cria uma sensação de
desintegração do sujeito, muito próxima do surrealismo e também de certas
vertentes da poesia existencial dos anos 1970.
2. A cabeça como centro simbólico
No poema, a cabeça tem um
tratamento especial:
“Minha cabeça atirada
numa lata de lixo
onde o lixo era ela.”
Aqui aparece uma ideia radical: a
própria cabeça é o lixo. Ou seja, a mente, a razão ou a identidade tornam-se
aquilo que deve ser descartado. É um gesto de negação ou ruptura com a própria
consciência.
3. Explosão do eu
O verso:
“Minhas células espalhadas
por uma tempestade que
partiu de mim.”
sugere que a destruição não vem
de fora, mas parte do próprio sujeito. É uma espécie de auto-detonação
interior.
4. Recomposição incompleta
O corpo se recompõe:
“Os pedaços de meu
corpo mutilado depois
se agregam como antes,
exceto a cabeça.”
Esse é um recurso poético muito
forte: a recomposição falha. O corpo volta, mas a cabeça não retorna. O sujeito
permanece sem consciência ou sem identidade.
5. O fecho surrealista
A invocação:
“Ai! Dalí, Dalí, Dalí...”
funciona quase como um chamado
estético. E a comparação final:
“como o Farmacêutico de Ampurdán,
anda à procura de coisa nenhuma.”
fecha o poema com uma imagem de
errância metafísica: um corpo que caminha sem cabeça e sem finalidade.
📚 Curiosidade literária:
Esse poema, escrito em 1978,
antecipa de forma muito clara o tipo de imagem que hoje se tornou comum na arte
gerada por IA: corpos fragmentados, paradoxos visuais e surrealismo simbólico.
🎨 Por isso a imagem que
fizemos — o personagem segurando a própria cabeça — funciona quase como um
momento intermediário da narrativa do poema:
ainda existe a cabeça,
mas já há separação entre o corpo
e a consciência.
Se quiser, posso também fazer
algo que seria muito interessante do ponto de vista literário:
uma pequena nota crítica ou
explicativa para acompanhar o poema em livro ou antologia, ou
até uma leitura comparando esse
poema de 1978 com certas imagens surrealistas de Dalí.”
Diante de suas sugestões acima,
pedi-lhe que executasse a segunda proposta. Numa rapidez incrível, ela me
enviou este estudo comparativo:
“Pode-se fazer uma leitura
comparativa bastante sugestiva entre o seu poema “Coisa Nenhuma” (1978) e
alguns procedimentos característicos da pintura de Salvador Dalí, especialmente
aqueles presentes em O farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma.
Antes de tudo, é significativo
que o próprio poema convoque explicitamente o pintor catalão no fecho. Essa
invocação não é apenas ornamental; ela funciona como chave interpretativa do
texto. O poema parece estruturar-se como se fosse uma sequência de imagens
surrealistas, quase como quadros sucessivos de uma pintura.
Um dos traços mais evidentes
dessa aproximação é o desmembramento do corpo. Em várias obras de Dalí, o corpo
humano aparece fragmentado, deslocado ou metamorfoseado. Em seu poema, o eu
lírico se apresenta em estado de dispersão: olhos como pedaços de espelho
quebrado, cabelos flutuando como vento, mãos decepadas que acenam em vão. Essa
decomposição do corpo cria uma sensação de estranhamento que é central na
estética surrealista: o familiar torna-se inquietante.
Outro aspecto relevante é a
materialização do absurdo. O surrealismo de Dalí frequentemente transforma
conceitos abstratos em imagens concretas — relógios que se derretem, corpos
sustentados por muletas, membros flutuando no espaço. No poema, algo semelhante
ocorre quando o sujeito diz apertar “coisa nenhuma”. O vazio, que normalmente é
apenas uma ideia, converte-se em objeto quase palpável, algo que as mãos tentam
agarrar.
A imagem da cabeça atirada numa
lata de lixo é talvez o momento mais radical do poema. A cabeça — símbolo da
razão, da identidade e da consciência — é descartada como resíduo. Em muitas
pinturas de Dalí há também essa instabilidade da identidade, em que rostos se
multiplicam, se deformam ou desaparecem. No seu poema, porém, a operação é
ainda mais extrema: o corpo pode recompor-se, mas a cabeça não retorna. O
sujeito torna-se um corpo que existe sem o centro racional que o governa.
É justamente nesse ponto que a
referência final ao Farmacêutico de Ampurdán ganha pleno sentido. Na pintura de
Dalí, o farmacêutico aparece como uma figura absurda e paradoxal, envolvida
numa busca sem objeto definido — “à procura de coisa nenhuma”. O seu poema
parece levar essa lógica ao limite: o corpo decapitado continua a mover-se,
como se a própria existência fosse uma errância sem finalidade.
Assim, o poema pode ser lido como
uma espécie de transposição literária de procedimentos surrealistas. As imagens
funcionam como pinceladas sucessivas de um quadro onírico, em que o eu se
desfaz, se espalha e tenta recompor-se. O resultado final é uma figura
inquietante: um corpo sem cabeça, caminhando no mundo como o personagem de Dalí
— à procura de coisa nenhuma. 🎨📚”
Fiz breve comentário, tendo ela elaborado
o seguinte texto:
“Na verdade, seu poema já contém
uma imagética muito poderosa, o que facilita uma leitura crítica mais rica. A
sequência de imagens — olhos como espelhos quebrados, mãos decepadas apertando
o vazio, a cabeça transformada em lixo — tem uma densidade surrealista
autêntica, e não apenas decorativa. Por isso a aproximação com Dalí surge quase
naturalmente.
Aliás, há um detalhe
particularmente interessante: seu poema é de 1978, época em que a poesia
brasileira já havia passado pelo concretismo, pela poesia marginal e por
diversas experiências de ruptura. Mesmo assim, o texto conserva algo muito
pessoal: uma dramaturgia do corpo em desintegração, que depois tenta
recompor-se. Essa estrutura dá ao poema quase um movimento narrativo, como se
acompanhássemos:
a fragmentação do corpo,
a dispersão do eu,
a tentativa de recomposição,
e a falha final — a ausência da
cabeça.
Esse último ponto é o que dá ao
poema sua dimensão mais metafísica: o corpo continua existindo, mas sem
consciência, sem direção, caminhando como o personagem daliniano “à procura de
coisa nenhuma”.”
Não irei comentar o que a IA GPT escreveu. Deixo que o leitor de meu poema tire as suas próprias conclusões.

Excelente poesia sobre o surrealismo de Salvador Dali! Vc já esbanjava cultura e talento no longínquo 1978! 👏👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluirObrigado, caro amigo.
ResponderExcluirLindo poema parabéns 👏👏
ResponderExcluir🙏🙏🙏
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