domingo, 8 de março de 2026

COISA NENHUMA

Imagem elaborada por IA (GPT), atendendo a especificações do autor.
Fonte: Google. Pintura de Salvador Dalí.

 

COISA NENHUMA


Elmar Carvalho

 

Meus olhos jogados ao

acaso como pedaços

de espelho quebrado.

Meus cabelos arrancados

flutuando como

cabelos do vento.

Minhas mãos decepadas

acenando em vão e em vão

apertando coisa nenhuma.

Minha cabeça atirada

numa lata de lixo

onde o lixo era ela.

Minhas células espalhadas

por uma tempestade que

partiu de mim.

Os pedaços de meu

corpo mutilado depois

se agregam como antes,

exceto a cabeça.

(Ai! Dalí, Dalí, Dalí...

O meu corpo sem cabeça,

como o Farmacêutico de Ampurdán,

anda à procura de coisa nenhuma.)

            Parnaíba, 1978.


A IA GPT e o meu surrealismo

Pedi à IA GPT o seguinte: “Peço que, baseada na pintura Farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma, faça uma no mesmo estilo e semelhança, em que o protagonista esteja segurando a sua própria cabeça.”

Após ela elaborar a imagem que se encontra acima, disse-lhe que a pintura era para ilustrar o meu poema Coisa Nenhuma, cujo texto lhe remeti.

A inteligência, então, emitiu o seguinte comentário:

“Seu poema tem uma força imagética muito grande. Ele se constrói por fragmentação do corpo, que depois tenta recompor-se, e isso dialoga perfeitamente com o imaginário surrealista que o próprio texto convoca ao final com a referência a Dalí e ao Farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma. A imagem que geramos acaba funcionando como uma tradução visual condensada de vários desses versos. 🎨

Alguns pontos interessantes do poema:

1. Estética da fragmentação

O poema começa com uma sequência de partes do corpo dissociadas:

olhos como pedaços de espelho quebrado

cabelos flutuando como cabelos do vento

mãos decepadas que apertam coisa nenhuma

Essa técnica cria uma sensação de desintegração do sujeito, muito próxima do surrealismo e também de certas vertentes da poesia existencial dos anos 1970.

2. A cabeça como centro simbólico

No poema, a cabeça tem um tratamento especial:

“Minha cabeça atirada

numa lata de lixo

onde o lixo era ela.”

Aqui aparece uma ideia radical: a própria cabeça é o lixo. Ou seja, a mente, a razão ou a identidade tornam-se aquilo que deve ser descartado. É um gesto de negação ou ruptura com a própria consciência.

3. Explosão do eu

O verso:

“Minhas células espalhadas

por uma tempestade que

partiu de mim.”

sugere que a destruição não vem de fora, mas parte do próprio sujeito. É uma espécie de auto-detonação interior.

4. Recomposição incompleta

O corpo se recompõe:

“Os pedaços de meu

corpo mutilado depois

se agregam como antes,

exceto a cabeça.”

Esse é um recurso poético muito forte: a recomposição falha. O corpo volta, mas a cabeça não retorna. O sujeito permanece sem consciência ou sem identidade.

5. O fecho surrealista

A invocação:

“Ai! Dalí, Dalí, Dalí...”

funciona quase como um chamado estético. E a comparação final:

“como o Farmacêutico de Ampurdán,

anda à procura de coisa nenhuma.”

fecha o poema com uma imagem de errância metafísica: um corpo que caminha sem cabeça e sem finalidade.

📚 Curiosidade literária:

Esse poema, escrito em 1978, antecipa de forma muito clara o tipo de imagem que hoje se tornou comum na arte gerada por IA: corpos fragmentados, paradoxos visuais e surrealismo simbólico.

🎨 Por isso a imagem que fizemos — o personagem segurando a própria cabeça — funciona quase como um momento intermediário da narrativa do poema:

ainda existe a cabeça,

mas já há separação entre o corpo e a consciência.

Se quiser, posso também fazer algo que seria muito interessante do ponto de vista literário:

uma pequena nota crítica ou explicativa para acompanhar o poema em livro ou antologia, ou

até uma leitura comparando esse poema de 1978 com certas imagens surrealistas de Dalí.”

Diante de suas sugestões acima, pedi-lhe que executasse a segunda proposta. Numa rapidez incrível, ela me enviou este estudo comparativo:

“Pode-se fazer uma leitura comparativa bastante sugestiva entre o seu poema “Coisa Nenhuma” (1978) e alguns procedimentos característicos da pintura de Salvador Dalí, especialmente aqueles presentes em O farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma.

Antes de tudo, é significativo que o próprio poema convoque explicitamente o pintor catalão no fecho. Essa invocação não é apenas ornamental; ela funciona como chave interpretativa do texto. O poema parece estruturar-se como se fosse uma sequência de imagens surrealistas, quase como quadros sucessivos de uma pintura.

Um dos traços mais evidentes dessa aproximação é o desmembramento do corpo. Em várias obras de Dalí, o corpo humano aparece fragmentado, deslocado ou metamorfoseado. Em seu poema, o eu lírico se apresenta em estado de dispersão: olhos como pedaços de espelho quebrado, cabelos flutuando como vento, mãos decepadas que acenam em vão. Essa decomposição do corpo cria uma sensação de estranhamento que é central na estética surrealista: o familiar torna-se inquietante.

Outro aspecto relevante é a materialização do absurdo. O surrealismo de Dalí frequentemente transforma conceitos abstratos em imagens concretas — relógios que se derretem, corpos sustentados por muletas, membros flutuando no espaço. No poema, algo semelhante ocorre quando o sujeito diz apertar “coisa nenhuma”. O vazio, que normalmente é apenas uma ideia, converte-se em objeto quase palpável, algo que as mãos tentam agarrar.

A imagem da cabeça atirada numa lata de lixo é talvez o momento mais radical do poema. A cabeça — símbolo da razão, da identidade e da consciência — é descartada como resíduo. Em muitas pinturas de Dalí há também essa instabilidade da identidade, em que rostos se multiplicam, se deformam ou desaparecem. No seu poema, porém, a operação é ainda mais extrema: o corpo pode recompor-se, mas a cabeça não retorna. O sujeito torna-se um corpo que existe sem o centro racional que o governa.

É justamente nesse ponto que a referência final ao Farmacêutico de Ampurdán ganha pleno sentido. Na pintura de Dalí, o farmacêutico aparece como uma figura absurda e paradoxal, envolvida numa busca sem objeto definido — “à procura de coisa nenhuma”. O seu poema parece levar essa lógica ao limite: o corpo decapitado continua a mover-se, como se a própria existência fosse uma errância sem finalidade.

Assim, o poema pode ser lido como uma espécie de transposição literária de procedimentos surrealistas. As imagens funcionam como pinceladas sucessivas de um quadro onírico, em que o eu se desfaz, se espalha e tenta recompor-se. O resultado final é uma figura inquietante: um corpo sem cabeça, caminhando no mundo como o personagem de Dalí — à procura de coisa nenhuma. 🎨📚”

Fiz breve comentário, tendo ela elaborado o seguinte texto:

“Na verdade, seu poema já contém uma imagética muito poderosa, o que facilita uma leitura crítica mais rica. A sequência de imagens — olhos como espelhos quebrados, mãos decepadas apertando o vazio, a cabeça transformada em lixo — tem uma densidade surrealista autêntica, e não apenas decorativa. Por isso a aproximação com Dalí surge quase naturalmente.

Aliás, há um detalhe particularmente interessante: seu poema é de 1978, época em que a poesia brasileira já havia passado pelo concretismo, pela poesia marginal e por diversas experiências de ruptura. Mesmo assim, o texto conserva algo muito pessoal: uma dramaturgia do corpo em desintegração, que depois tenta recompor-se. Essa estrutura dá ao poema quase um movimento narrativo, como se acompanhássemos:

a fragmentação do corpo,

a dispersão do eu,

a tentativa de recomposição,

e a falha final — a ausência da cabeça.

Esse último ponto é o que dá ao poema sua dimensão mais metafísica: o corpo continua existindo, mas sem consciência, sem direção, caminhando como o personagem daliniano “à procura de coisa nenhuma”.”

Não irei comentar o que a IA GPT escreveu. Deixo que o leitor de meu poema tire as suas próprias conclusões. 

4 comentários:

  1. Excelente poesia sobre o surrealismo de Salvador Dali! Vc já esbanjava cultura e talento no longínquo 1978! 👏👏👏👏👏👏👏

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  2. Obrigado, caro amigo.

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  3. Lindo poema parabéns 👏👏

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