OCASOS & ACASOS
Elmar Carvalho
Hoje a televisão noticiou que uma
pedra, de aproximadamente dois quilos, caiu de um viaduto sobre o para-brisa de
um carro que passava, e terminou provocando a morte do passageiro. Se a pedra
foi empurrada por alguém, esse alguém deve ser alguma espécie de louco, para
fazer uma maldade tão gratuita, já que não poderia saber quem iria ser atingido
com o impacto.
Seria uma espécie de franco
atirador de pedra ou um jogador de roleta russa, mas a apostar na sorte alheia,
e não na sua própria, a se comprazer em sua iniquidade gratuita e ociosa, que
nenhum bem lhe renderia. E se ninguém a empurrou, trata-se apenas de uma
fortuita fatalidade. Acaso o carro viesse alguns segundos mais devagar ou
alguns segundos em mais alta velocidade, o desfecho, certamente, não teria sido
trágico.
Esse episódio me fez lembrar o
caso do senhor Martinho, um amigo de meu pai. Muitos anos atrás ele foi
bafejado pela sorte, quando foi contemplado com um bom prêmio lotérico.
Aproveitou, segundo disseram, para empregar o dinheiro na compra de várias caixas
de sabão, para revender esse produto.
Acabou não fazendo um bom
negócio, e o prêmio de nada lhe serviu, com o dinheiro se lhe esvaindo entre os
dedos como num passe de mágica. Em 1975 fomos morar em Parnaíba, e meu pai
ficou vários anos sem ver esse seu amigo. No final da década de 80, Martinho
conseguiu localizar meu pai, e foi visitá-lo, inesperadamente, em sua casa,
onde os dois conversaram longamente sobre assuntos idos e vividos.
Poucos dias depois, meu pai soube
da tragédia. O carro desse representante comercial foi colhido pelo trem, na
passagem de nível entre Teresina e Altos ou entre esta cidade e Campo Maior. A
locomotiva passa, se não estou enganado, apenas uma vez por dia, indo para o
Ceará, ou voltando desse estado. Se Martinho tivesse parado em algum lugar,
seja para tomar um cafezinho, seja para ingerir um refrigerante, o desastre que
lhe ceifou a vida não teria acontecido. Ou teria? Não teria sido alguma
eventual demora, por qualquer motivo, que fez o carro do senhor Martinho cruzar
a BR no exato momento em que o comboio estava a passar? São demais os perigos e
os mistérios da vida.
Por acaso, quando ele procurou
meu pai, após tantos anos de ausência, não estaria com alguma espécie de
premonição, a pressentir o ocaso de sua vida? Não sei, e ninguém jamais saberá.
Ponto de interrogação e ponto final.
2 de março de 2011

Meu amigo Dr. Elmar, seu texto ficou profundamente reflexivo e muito humano. Ele nos faz pensar em como a vida, por vezes, parece caminhar entre o acaso e algo maior que não conseguimos compreender totalmente. Impressiona perceber como segundos, pequenos atrasos ou simples decisões podem mudar completamente um destino.
ResponderExcluirGostei especialmente da passagem sobre o senhor Martinho. Há nela uma melancolia serena e um mistério que toca qualquer leitor atento. A ideia de ele ter procurado seu pai pouco antes da tragédia deixa no ar aquela sensação inquietante de que talvez o ser humano perceba certas despedidas sem conseguir explicá-las.
Ao mesmo tempo, fico pensando: será que existe realmente um destino traçado, ou nós apenas tentamos dar sentido aos acontecimentos que a vida espalha de maneira imprevisível diante de nós?