quarta-feira, 27 de maio de 2026

OCASOS & ACASOS

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OCASOS & ACASOS


Elmar Carvalho

 

Hoje a televisão noticiou que uma pedra, de aproximadamente dois quilos, caiu de um viaduto sobre o para-brisa de um carro que passava, e terminou provocando a morte do passageiro. Se a pedra foi empurrada por alguém, esse alguém deve ser alguma espécie de louco, para fazer uma maldade tão gratuita, já que não poderia saber quem iria ser atingido com o impacto.

 

Seria uma espécie de franco atirador de pedra ou um jogador de roleta russa, mas a apostar na sorte alheia, e não na sua própria, a se comprazer em sua iniquidade gratuita e ociosa, que nenhum bem lhe renderia. E se ninguém a empurrou, trata-se apenas de uma fortuita fatalidade. Acaso o carro viesse alguns segundos mais devagar ou alguns segundos em mais alta velocidade, o desfecho, certamente, não teria sido trágico.

 

Esse episódio me fez lembrar o caso do senhor Martinho, um amigo de meu pai. Muitos anos atrás ele foi bafejado pela sorte, quando foi contemplado com um bom prêmio lotérico. Aproveitou, segundo disseram, para empregar o dinheiro na compra de várias caixas de sabão, para revender esse produto.

 

Acabou não fazendo um bom negócio, e o prêmio de nada lhe serviu, com o dinheiro se lhe esvaindo entre os dedos como num passe de mágica. Em 1975 fomos morar em Parnaíba, e meu pai ficou vários anos sem ver esse seu amigo. No final da década de 80, Martinho conseguiu localizar meu pai, e foi visitá-lo, inesperadamente, em sua casa, onde os dois conversaram longamente sobre assuntos idos e vividos.

 

Poucos dias depois, meu pai soube da tragédia. O carro desse representante comercial foi colhido pelo trem, na passagem de nível entre Teresina e Altos ou entre esta cidade e Campo Maior. A locomotiva passa, se não estou enganado, apenas uma vez por dia, indo para o Ceará, ou voltando desse estado. Se Martinho tivesse parado em algum lugar, seja para tomar um cafezinho, seja para ingerir um refrigerante, o desastre que lhe ceifou a vida não teria acontecido. Ou teria? Não teria sido alguma eventual demora, por qualquer motivo, que fez o carro do senhor Martinho cruzar a BR no exato momento em que o comboio estava a passar? São demais os perigos e os mistérios da vida.

 

Por acaso, quando ele procurou meu pai, após tantos anos de ausência, não estaria com alguma espécie de premonição, a pressentir o ocaso de sua vida? Não sei, e ninguém jamais saberá. Ponto de interrogação e ponto final.

2 de março de 2011

3 comentários:

  1. Meu amigo Dr. Elmar, seu texto ficou profundamente reflexivo e muito humano. Ele nos faz pensar em como a vida, por vezes, parece caminhar entre o acaso e algo maior que não conseguimos compreender totalmente. Impressiona perceber como segundos, pequenos atrasos ou simples decisões podem mudar completamente um destino.

    Gostei especialmente da passagem sobre o senhor Martinho. Há nela uma melancolia serena e um mistério que toca qualquer leitor atento. A ideia de ele ter procurado seu pai pouco antes da tragédia deixa no ar aquela sensação inquietante de que talvez o ser humano perceba certas despedidas sem conseguir explicá-las.

    Ao mesmo tempo, fico pensando: será que existe realmente um destino traçado, ou nós apenas tentamos dar sentido aos acontecimentos que a vida espalha de maneira imprevisível diante de nós?

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  2. Seu comentário é arguto, perspicaz e de uma rara beleza literária. Embora você não tenha se identificado, não escondeu o escritor talentoso que é. Muito obrigado.

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  3. São muitos e quase inescrutáveis os mistérios do universo.

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