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A SUPER LUA CHEIA
Elmar Carvalho
O professor Nelson Rios,
regenerense de velha e boa cepa, através de comentário postado em meu blog,
sugeriu-me escrevesse sobre a super lua cheia, que ocorreria no sábado, dia 19.
Respondi-lhe que talvez o fizesse nesta terça-feira. Segundo os jornais e os
portais noticiosos, trata-se de um fenômeno natural, que só ocorre a cada 18
anos. Portanto, se Deus me mantiver vivo, só voltarei a revê-lo já setentão,
ou, mais precisamente, quando estiver com 73 anos de idade, posto que em poucos
dias completarei 5 ponto 5. Uma vez que a órbita de nosso satélite não é
circular, mas elíptica, há momentos em que a lua fica mais próxima da Terra,
atingindo o perigeu, ou mais distante, quando ocorre o apogeu. No primeiro caso
(perigeu), para um observador em nosso planeta, ela aparece 14 % maior e 30 %
mais brilhante; consequentemente, no apogeu ela aparentaria ser menor e ficaria
menos luminosa.
Portanto, no perigeu, o nosso
satélite alcança a sua maior luminosidade, o seu maior tamanho aparente, e fica
revestido de sua maior glória e beleza. Na verdade, metaforicamente, ou em
linguagem figurada, ou no sentido conotativo para o senso comum, ela teria
atingido o seu apogeu, pois teria alcançado o seu ponto máximo de brilho, de
beleza, de tamanho, de encantamento. Todavia, em se falando de órbita, ela
esteve mesmo no perigeu, e não no apogeu, embora, em termos de plasticidade,
devesse ser esta a palavra mais apropriada.
Aprendi a admirar o plenilúnio –
palavra que alguns poderão considerar pomposa, solene, ou de forte carga
poética, ou ainda motivada por algum pernosticismo – quando fui morar na zona
rural, por um curto período, em minha infância. Já então conhecia a música Luar
do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, compositor maranhense, à revelia de
seu sobrenome. Ficava extasiado, nas escuras noites da caatinga, a contemplar o
céu estrelado e a lua cheia, sobretudo ao nascer, ou quando ela se
entremostrava por entre os galhos das árvores ou através da cortina esgarçada
das nuvens, que por vezes mais se assemelhavam a um biombo de gaze.
Quando o astro se escondia detrás
das nuvens, minha mãe dizia que ela fora tomar banho. No período chuvoso, a lua
formava um círculo em torno de si, uma espécie de nimbo ou halo luminoso; minha
mãe, despertando-me em suas poucas letras para as metáforas e comparações e
para a poesia da natureza, falava que a lua, qual uma iara, tomava banho em sua
lagoa. Recordo que desde muito cedo mamãe me ensinou a admirar a beleza da
paisagem, o encantamento das flores, a delicadeza das pétalas das rosas, a
majestade de um urubu a planar no céu, a revoada giratória dessas aves,
verdadeiro balé aéreo, e as esculturas formadas pelas nuvens ao capricho do
cinzel etéreo do vento.
A lua cheia sempre foi associada
a mistérios e feitiços, fazendo despertar o imaginário das pessoas simples e a
criatividade dos artistas. Dizem que durante essa fase lunar os lobisomens se
manifestam, os cachorros hidrófobos se exacerbam; os loucos ficariam ainda mais
loucos, loucos furiosos, sob os influxos do plenilúnio. Os antigos almanaques
assinalavam a influência da lua sobre a germinação das sementes, sobre o
crescimento dos cabelos e das marés.
Os poetas simbolistas se quedavam
em êxtase, na contemplação da lua cheia e do luar, comparando-os a belas
monjas, pálidas e maceradas, enclausuradas em suas celas, em que os cilícios
laceravam suas carnes tenras e suas esplêndidas peles brancas. Viam a lua plena
como uma hóstia ou como um lírio, e imaginavam o luar como níveas e frígidas
neblinas, em que virgens esmaecidas se perdiam em êxtases pecaminosos ou em
tormentos inimagináveis, por causa de paixões malogradas ou interditas.
Certa vez, quando eu tinha três
anos de idade, mamãe me encontrou na árdua tarefa de emendar umas varas, no
terreiro de nossa casa. Intrigada com essa inusitada atividade, perguntou-me o
que eu fazia. Respondi-lhe que desejava futucar ou atrair a lua cheia, como se
ela fosse algum balão ou apetitosa fruta. Claro, não me recordo desse episódio,
mas apenas narro o que minha madre me contou.
Contudo, às vezes, ainda me sinto
esse mesmo menino, a porfiar em atingir a beleza e a bondade de meus mais
profundos sonhos e ideais, e alcançar assim o meu perigeu em relação a Deus,
que na verdade seria o meu apogeu de homem que não deseja perder a sua mais
intrínseca humanidade, apesar dos percalços e das ciladas; de homem que, mesmo
quando momentaneamente parece perder a sua Fé, não deixa de rezar
fervorosamente.
22 de março de 2011

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