segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O JORNAL DAS MULTIDÕES

Edmílson Caminha

Foto ilustrativa

Duas emoções, pela grandeza e pela força com que chegam, devem ser das maiores e mais sublimes experiências por que o homem pode passar. Fazer o gol que decide o campeonato aos 45 minutos do segundo tempo, a torcida em peso festejando e gritando o nome do jogador, é uma delas; a outra é reger a Nona Sinfonia de Beethoven à frente de uma grande orquestra, guiar músicos e cantores com o poder de um simples gesto, saber-se responsável pela magia e pela beleza que sobem aos céus como se ao encontro de Deus. Junte-se a essas, para quem possui alguma vocação literária, a alegria de se ver publicado em jornal pela primeira vez. Foi o que senti no dia 10 de outubro de 1964, um sábado, quando a edição do jornal O Povo trouxe o pequeno artigo "Mestre acima de tudo", assinado por Edmílson S. Caminha Júnior, "aluno da 1ª série ginasial do Ginásio 7 de Setembro". Aos doze anos, quis homenagear o meu professor de geografia, José Maria Campos de Oliveira, nomeado pelo Ministério da Educação inspetor seccional em Fortaleza.

Escrevera-o a mão, em folha de caderno, e pedira a meu pai que o entregasse na portaria do jornal. Não sei que alma caridosa datilografou o original para publicação, fazendo-me sentir a figura mais brilhante do colégio, a pessoa de maior destaque na família... – afinal de contas, era um autor, meu nome estava nas bancas! Abertas as portas, vez por outra redigia algumas linhas sobre grandes cearenses, fatos importantes da história do Brasil – textos que, não viessem com assinatura, todos reconheceriam como de um adolescente que se esforçava por escrever bem. Passava pelo jornal e entregava à recepcionista o envelope com o artiguete, ouvindo o barulho ensurdecedor das máquinas a imprimir a edição que logo mais sairia às ruas. Na tarde em que não a encontrei, fui entrando corredor adentro até o gabinete onde se achava, sozinho, o diretor comercial, José Raimundo Costa. Leu rapidamente a matéria, indagou-me a idade, se dispunha de tempo livre, e fez a pergunta que quase me deixa sem voz: "Você gostaria de trabalhar no jornal?" Antes que fechasse a boca, respondi-lhe que sim, lógico! – como se não tivesse pais a quem pedir autorização para assumir o emprego... Estávamos em 1967, e eu, com quinze anos incompletos, me orgulhava de ser o mais jovem redator de O Povo, "o jornal das multidões", como se autoproclamava.

No colégio até às onze e meia da manhã, pegava o ônibus pra casa, almoçava correndo e à uma da tarde era o primeiro a chegar à redação, na Rua Senador Pompeu, 1082, centro de Fortaleza. O ambiente me fascinava – pela desordem dos birôs, em que mal se viam as máquinas de escrever, tamanha a quantidade de papel; pelo barulho da rotativa, que abafava o quarteirão; mas, sobretudo, pelo cheiro da tinta, tão forte que se difundia por todo o prédio. Quase diariamente, descia às oficinas para acompanhar a produção do jornal: as linotipos, tocadas como pianolas de ferro por homens nus da cintura para cima, e que até hoje não sei como funcionam; a mesa comprida, onde se ajustavam textos e manchetes para o fechamento da página; a fundição do chumbo, matéria das placas em forma de telha; e a enorme impressora, barulhenta como uma locomotiva, os cilindros a girar a não sei quantas rotações por minuto, quilômetros de papel correndo nas entranhas do monstro até que por cortes e dobras se transformassem nos cadernos de que se fazia o jornal; depois, a edição deslizava na esteira sob o olhar sereno do Piloto, de quem só guardei o apelido.

Logo no primeiro dia fui entregue, como aspirante a redator, aos cuidados de Marcelo Pontes, pouco mais velho do que eu mas, já naquele tempo, um dos melhores nomes do jornalismo cearense e, mais tarde, da imprensa brasileira. Seria o seu pica-fumo, o foca a quem teria de ensinar, entre outras coisas, que o algarismo 1 é o l minúsculo na máquina de escrever... Com Marcelo Pontes, querido colega e amigo fraterno, aprendi a lição da grande reportagem e a ciência do bom texto, e ao jornal O Povo devo muito do conhecimento satisfatório e da segurança razoável com que escrevo. Se o curso de comunicação me poderia ter iniciado em programação visual e fotojornalismo, não precisei frequentá-lo para saber redigir: nessa cadeira, a melhor escola é a redação do jornal, a ditadura da pauta, a obrigação da notícia, a guerra contra o tempo. Foi o que me provaram Agladir Moura, Odalves Lima, José Maria Andrade, José Mário Pinto, Macário Oliveira, Morais Né, Edmundo Vitoriano e Francisco Lima, entre tantos mais.

O dono de O Povo era Paulo Sarasate, ex-governador do Ceará e, naquela época, senador da república. Conta-se que Castello Branco o teria feito vice-presidente, não fosse o câncer de que já sofria por ocasião do golpe militar e que o mataria quatro anos depois. Quando em Fortaleza, Sarasate fazia tremer o jornal como um terremoto, pois não apenas assumia a direção da empresa mas a transformava em escritório político, para receber deputados e prefeitos, promover reuniões e atender eleitores. Impressionava-me o conhecimento que aparentava ter de todos os setores da casa – da redação às oficinas, do consumo de papel à corretagem de anúncios. Tanto se cria capaz de reescrever a matéria de um repórter quanto de ensinar a um linotipista como compor com perfeição. Sempre aos gritos, autoritariamente, no estilo nervoso que o caracterizava.

Certa vez, sozinho na redação, atendo ao telefone e recebo a ordem do senador para que lhe corresse em casa com as provas do discurso que fizera pela manhã, e no qual não admitiria erros. Nunca fora ao sobrado, no centro de Fortaleza, onde a governanta me recebe e convida para entrar – um momentinho só, o patrão está repousando no pavimento superior. Acomodo-me no sofá e espero dez, quinze, vinte minutos sem que chegue ninguém. Resolvo, então, subir a escada e bater à porta que me pareça a da alcova senatorial. Escolho a primeira à esquerda, e quem surge é Paulo Sarasate em pessoa
– de cueca samba-canção, as pernas muito finas e pálidas, a blusa do pijama entreaberta sobre o peito branco:

— O que você quer, meu rapaz?!

— Eu sou repórter do jornal, vim trazer o discurso que o senhor pediu...

— E você vai entrando assim?!

— Eu falei com a governanta, mas parece que ela se esqueceu de avisá-lo...

— Não se esqueceu não, ela me disse, era só esperar! Você é foca?

— Não, senhor. ("Se fosse, eu ainda estaria lá embaixo, sem saber se o senhor iria descer...", quase que dizia.)

— Vamos, entre!

Devo ter interrompido a sesta do casal na rede em que se encontrava Dona Albaniza, conforme o hábito bem cearense de dispor-se no sentido da largura, um meio termo entre o sentar-se e o deitar-se, para que o chão ao alcance dos pés proporcione o balançar confortável e gostoso. Foi a única vez que estive com Paulo Sarasate, homem que alguns temiam, muitos bajulavam e outros tantos criticavam, mas em cuja atuação todos reconheciam o gosto da política e a marca da inteligência.

Chegou 1968 e, com ele, uma dúvida: continuar no jornalismo – profissionalizando-me como autodidata, até que dispuséssemos de um curso de comunicação – ou me preparar para fazer medicina, realizando por meu pai o sonho que ele próprio não pudera concretizar. Na ilusão de que seria médico, passei no vestibular mas acabei desistindo da faculdade no terceiro ano, por absoluta falta de vocação para ambulatórios ou centros cirúrgicos. Longe da imprensa, não tive forças para abandoná-la de vez: escrevi sobre cinema, pratiquei a crítica literária e entrevistei alguns dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea. Às redações só voltaria vinte anos depois, em 1987, para dirigir o departamento de jornalismo da rádio e da televisão educativas do estado do Piauí.

Passei, portanto, pelos três grandes meios de comunicação do mundo moderno: se a câmera fascina e o microfone seduz, o que me conquistou para sempre foram as teclas da máquina de escrever, o desafio do texto, a perfeição da manchete, o barulho da impressora, a corrida do papel, o cheiro da tinta, que me levam de volta a Fortaleza para um encontro, à uma da tarde, com o menino de quinze anos que me espera sozinho na redação de O Povo, "o jornal das multidões"...

(*) Veja abaixo a seção Decálogo, focalizando o escritor Edmílson Caminha.

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O COURO DO LOBISOMEM

Elmar Carvalho

Na cidadezinha de Brocotó, na década de 1960, começaram a surgir os rumores de que um lobisomem percorria algumas ruas da cidade. Falavam que já fora visto ou escutado no beco do Fogo ou na rua Grande. Quando passava, se ouvia o som de chocalho e um uivo, semelhante ao de um lobo. Asseveravam que seu pelo era escuro e que andava sobre duas patas, mas levemente curvado para frente. Esses boatos diziam que fora visto perto da meia-noite ou alta madrugada. Geralmente, segundo os comentários, a fera só circulava mais na quarta ou na quinta-feira. Entretanto, só duas pessoas diziam ter avistado a assombração, de longe e no escuro, de sorte que não lhe viram nenhum detalhe, exceto que tinha pelo escuro.

Naqueles idos a luz em Brocotó era fornecida por velha usina termoelétrica, comprada de segunda mão, de outro município, cujo combustível era lenha. Funcionava de sete às dez horas da noite. Quando faltavam quinze minutos para o encerramento da luz, a usina soltava um longo apito, com o vapor da caldeira, e a energia era interrompida brevemente, por três vezes consecutivas. As pessoas diziam que a onça iria ser solta e tratavam de voltar para casa. Os boatos ficaram mais acentuados, e vários moradores do beco do Fogo juravam ouvir o som de chocalho e o uivo, por volta de zero hora ou de três para quatro horas da madrugada, como se fossem os horários em que o lobisomem saía para caçar e o de seu retorno, antes do nascer do sol, quando iria para o espojeiro, e ficaria a rolar no chão até voltar a ter a sua forma humana. As pessoas estavam assombradas, e já ninguém saía de sua casa depois de a luz elétrica apagar. Chico Paulo, ao ouvir uma dessas versões, que dava a hora, o itinerário e o dia da semana em que o bicho fazia as suas incursões diabólicas, disse que iria tirar essa boataria a limpo, e iria esperá-lo. Todos acreditaram porque ele era um homem de palavra e considerado corajoso, ao ponto da quase temeridade.

Escondeu-se na esquina de uma das ruas perpendiculares ao beco do Fogo, no vão de uma porta. Quando ouvisse o chocalhar da fera, iria se posicionar, e o laçaria. Quando o tivesse dominado, desfecharia uma forte pancada no cabelouro. Assim planejou e assim fez. Não teve nenhuma dificuldade para laçar a besta, porquanto andava ereta, quase como se fosse um ser humano. Admirou-se de seu tamanho, pois sua compleição era a de um homem pequeno e franzino. Também ficou pasmado com sua fragilidade e submissão. Quando se preparava para lhe aplicar o golpe mortal, ouviu uma voz feminina pedir clemência. Logo descobriu que se tratava da mulher de um comerciante da cidade. Ela terminou por lhe confessar que o couro que usava e o chocalho eram um artifício para não ser reconhecida, quando ia encontrar-se com seu amante, um jovem e fogoso estudante, que morava sozinho num quarto de aluguel. O motivo do dia do encontro ser na quarta ou na quinta-feira, é que esses são os dias em que seu marido ia fazer compras na capital, pois são dias de pouco movimento comercial em Brocotó. Pediu pelo amor de Deus que Chico não lhe revelasse o segredo; que, em troca de seu silêncio, se entregaria a ele.

Chico Paulo, embora fosse um caboclo forte e destemido, não era luxurioso, e ao prazer do sexo preferia contar sua proeza, com as fanfarronices de praxe, e inclusive a prova inquestionável, que seria a exibição do couro do lobisomem. Dizem que nunca alguém viu rastro de alma e nem couro de lobisomem. Mas o Chico mostraria não só o pau, mas também a cobra; ou seja, o chocalho e o couro do bicho. Poucos dias depois, o marido traído mudou-se para a cidade grande. Ali, seus chifres não seriam vistos e ele não seria alvo de deboche e zombaria, na qualidade de marido de lobisomem. A mulher foi com ele, pois sua filosofia pragmática era de que, puta por puta, preferia ficar com aquela a que já estava acostumado. E dizem as más línguas que foram felizes para sempre. Apenas nunca mais apareceu outro lobisomem na pacata e acanhada Brocotó.

domingo, 15 de agosto de 2010

FUGA AO PASSADO

ELMAR CARVALHO


Uma da tarde. O apito da Moraes
estridula no ar. Emocionado
sinto como se o tempo houvesse parado
e eu me encontrasse ainda
preso às âncoras do passado.

O apito me deixa comovido
e eu não sou mais eu
mas alguém que já fui e que
no esquecimento se deixa escondido.

E aquele tempo perdido
inverte a rota da ampulheta
e retorna intacto como se jamais
deixasse de ter existido.

E o tempo se embaralha
sem passado, sem futuro e sem presente
e as recordações comovem tanto
que a própria alma de tanto
sentir não se sente
e evola para um tempo
sepulto pela areia da ampulheta.

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


CLODOALDO FREITAS

Clodoaldo Freitas (7.9.1855, Oeiras – 1924, Teresina), cujo nome completo era Clodoaldo Severo Conrado Freitas, bacharelou-se na Faculdade de Direito de Recife, em 1880. Sua atuação sócio-cultural não se cingiu apenas ao Piauí e Pernambuco: estendeu-se por outros Estados (Amazonas, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro), tendo residido em alguns desses estados e ajudado a fundar a Academia Maranhense de Letras, da qual era membro. Foi muito atuante como jornalista, político e magistrado. Mas sua ação avulta também na literatura, deixando publicados cerca de 14 obras e muitas outras inéditas. Começou com “Os Fatores do Coelhado”, 1892, obra política, e entrou pela história com “História do Piauí” (sinopse), 1902; “Vultos Piauienses” (apontamentos crítico-biográficos), 1903; “Memórias de um Velho”, romance publicado em rodapés do jornal “Pátria”, em 1905; “O Bequimão”, 1908; “Em Roda dos Fatos”, 1911; e “Contos a Teresa”, 1915. Mas praticamente, o que se conhece hoje de Clodoaldo Freitas se resume a “História de Teresina ”(1988), “Em Roda dos Fatos”(1996) e “Vultos Piauienses” (1998), todos reeditados pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, a partir de 1988. Últimamente a Academia Maranhense de Letras anunciou a reedição do romance histórico “O Bequimão”, por editora do Sul, sob os auspícios do Governo do Maranhão. Literariamente foi romancista, contista, cronista e a poeta já reconhecido, embora no último gênero tenha produzido bem pouco.
(*) Texto e charge: João de Deus Netto

SELETA NACIONAL


LOUCO

Junqueira Freire

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele.

Foi uma repulsão de dois contrários;
Foi um duelo, na verdade insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe do nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim - o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Ou sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas,
E zombando o chamais, portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
aproxima-se mais à essência etérea.

sábado, 14 de agosto de 2010

DECÁLOGO


EDMÍLSON CAMINHA

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Na infância ainda, com a História do Mundo para as Crianças, de Monteiro Lobato, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

Por volta dos 12 anos, com a publicação dos primeiros textos no jornal O POVO, de Fortaleza (CE).

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Creio que todos que escrevemos somos influenciados pelos grandes nomes da literatura. Todo escritor é, antes de tudo, um leitor apaixonado.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

À maneira de Eça de Queiroz, diria que "sou um pobre escritor de Fortaleza". Minha obra é modesta e pequena, sem grandes marcos que a enalteçam. A assinalar alguma coisa, destaco os elogios de quem sinceramente gosta do que escrevo.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

À minha custa, sempre, em edições reduzidas de 500 exemplares.
6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

Entre os livros, aponto o Lutar com Palavras, diário literário que publiquei em 2001. Das crônicas, ressalto "O jornal das multidões", em que lembro os primeiros passos que dei no jornalismo.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Penso que sim, a exemplo da Fundação Monsenhor Chaves e do Conselho Estadual de Cultura, embora sempre se possa fazer mais...

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

É da maior importância, não obstante pouquíssimos leitores a conheçam nos outros estados do País. Uma literatura em que se inscrevem os nomes de Da Costa e Silva, O. G. Rego de Carvalho, Assis Brasil e Cineas Santos, entre tantos outros, engrandece o Piauí e honra o Brasil.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

Vejo-a como tão revolucionária quanto os tipos móveis inventados por Gutemberg, se pensarmos no mundo novo que vai do twitter aos e-books.

10 – Como e por que se fez literato?

Repito o que escrevi na apresentação do Lutar com Palavras: "No fundo, escrevemos para não morrer, para não desaparecer de todo, para vencer a efemeridade da vida e o silêncio do futuro. É como se disséssemos: 'Eu sou assim! Esses, os meus valores e as minhas crenças, daí as ações que pratico e as atitudes que tomo'. Os livros são, pois, bilhetes engarrafados que lançamos ao mar, cartas que endereçamos à posteridade — como compreendia Villa-Lobos a sua obra —, na vã ilusão de que nos faremos lembrados e queridos pelos séculos afora." É isso.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



13 de agosto

A CADELA, A ELEFANTA E O BURRO

Elmar Carvalho

Nesta sexta-feira, 13, deste corrente mês, cujo dia seria dupla ou triplamente aziago, por ser sexta-feira, por ser dia 13, e por ser agosto, que os supersticiosos consideram mês agourento, enquanto esperava ser atendido pelo barbeiro e irmão maçônico Chagas Vieira, fiquei folheando um jornal de uma denominação religiosa. Nele, li uma matéria sobre prótese em animais. Um dos casos se referia a uma cadela que, por causa de uma hérnia de disco, acabou perdendo o movimento das patas traseiras. Sua dona não a abandonou e não aceitou sacrificá-la. Envidou esforços, com considerável gasto de dinheiro e tempo, em tratamentos, que não surtiram o desejado efeito. Mas a guardiã da cadela conseguiu fosse feito um engenhoso aparato que lhe dava sustentação, e permitia que ela, com as patas dianteiras, se locomovesse, e até mesmo corresse, nos momentos em que se encontrava mais alegre e eufórica.

O outro caso abordado era o de uma elefanta, que tivera uma das patas dianteiras mutilada, por causa da explosão de uma mina terrestre, espalhadas por causa dessas guerras fratricidas e completamente insanas, como são todas ou quase todas as guerras. Cientistas conseguiram desenvolver uma prótese, semelhante às usadas pelos seres humanos, que lhe permitiram voltar a andar. O caso aconteceu quando a elefanta tinha apenas sete meses. O fato é que os animais vêm sofrendo muito por causa das ações humanas, como desmatamentos, queimadas, caçadas, acidentes provocados pelo trânsito nas estradas, etc. Felizmente, além dos insensíveis, egoístas e perversos, que cometem verdadeiras atrocidades contra os nossos irmãos menores, existem os que são legítimos anjos da guarda dos animais, e lhes dispensam todo cuidado, carinho e amor, às vezes até com sacrifício pessoal.

Ao sair da barbearia, fui fazer minha caminhada. Quando retornava, vi um homem fazendo o burro que puxava sua carroça correr, ao girar o chicote. Suponho que o animal temia ser açoitado, e por isso seguia a galopar. Ora, depois de um dia inteiro de trabalho, em prol do sustento do carroceiro e de sua família, evidentemente já cansado das cargas que deve ter conduzido, ainda tinha que fazer um esforço enorme com a corrida, para que o seu dono se desse ao luxo de voltar mais rapidamente para casa.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

FLAGRANTE DO GERVÁSIO CASTRO


POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Vulgo Mário Bola, tinha
a graça de um tatu bola.
Orfeu de novos carnavais
carregava o encantamento
dos sopros (marítimos) que
transformava em música em
sua gaita – caixa de mágico som.
Entre a música e a fofoca
uma piada de recheio.

A MESOPOTÂMIA PIAUIENSE E SUAS PONTES

JOÃO BORGES CAMINHA (*)


Por sua estratégica localização entre os rios Parnaíba e Poty; pelo volume d’água destes rios que corre em seus leitos, engrossados por inúmeros afluentes; pelo grande número de lugares, povoações e cidades que banham ou cortam, ou ainda por sua importância econômica e social no contexto piauiense e nordestino, Teresina pode ser cognominada a Mesopotâmia Piauiense. O Parnaíba nasce na Chapada das Mangabeiras, próximo às divisas dos estados da Bahia e Tocantins no extremo sul do Piauí e percorre todo o estado de sul a norte. O Poty tem sua fonte na serra da Joaninha, próximo ao município cearense de Crateús, corta o Piauí em na largura e corre ora manso, ora impetuoso, de leste a oeste até sua confluência com o Velho Monge no bairro Poti Velho. Tem um curso de 450 quilômetros de extensão dos quais 300 quilômetros ficam no Piauí.

Sobre o Parnaíba, um rio genuinamente piauiense com cerca de 1500 a 1700 quilômetros de extensão, sem o qual não haveria um Piauí autônomo, foram construídas poucas pontes, se comparadas com as que se ergueram sobre o Poty, das quais se cogita neste artigo.

Até meado de 2010 eram oito as pontes construídas sobre o rio Poty, na zona urbana da Capital, visando descongestionar seu trânsito de veículos, trens, bicicletas e pedestres, adiante designadas, de montante (nascente do rio) para jusante (para onde corre o rio).

Tancredo Neves, ligando o conjunto Dirceu Arcoverde e lugares vizinhos à Estação Rodoviária de Passageiros;

Metálica, construída em 1960 pelo 2º Batalhão de Engenharia de construção (2º B.E.Const) e Wall Ferraz, nas proximidades do Terminal de Petróleo (zona sudeste) ligando à zona sul da cidade (Quartel da Polícia Militar, maternidade Evangelina Rosa, Avenida Miguel Rosa, Estádio Albertão, Justiça Federal de Primeira Instância, etc.);

Dupla denominada Presidente Juscelino Kubitscheke ligando as zonas centro e leste através das avenidas Frei Serafim e João XXIII, com duas pistas de ida e volta.

Estaiada Mestre João Isidoro França. O jornal Diário do Povo, de 2 de abril de 2010, informou que já existe uma via pública (alameda) com o nome desse mestre-de-obra, no bairro Poty Velho. Para fundador de Teresina desse jaez, toda homenagem é pouca. Com seu elevado e imponente mirante, a Ponte Estaiada Mestre Isidoro França liga as zonas leste e norte da Capital, entre si, pela avenida Dom Severino (leste) e alameda Parnaíba (norte), nas imediações do bairro Porenquanto e não muito longe do Tribunal de Justiça, Centro de Convenções, Assembléia Legislativa, OAB-PI, praça do Marquês, parte norte da Avenida Miguel Rosa, 25º BC e adjacências. A cognominada ponte Estaiada, Mestre João Isidoro França (é nome que realmente pegou bem), construída sobre o rio Poti, a meio caminho eqüidistante um quilômetro entre a ponte dupla da Frei Serafim ou Jucelino Kubtscheke e Primavera, foi efusivamente inaugurada, a partir das 18:30 horas da noite de 30.03.2010. Inauguração festejada no local onde fora edificada, com a presença de piauienses de todas as classes, ministro, governador, governados, prefeito, parlamentares, engenheiros e construtores (mestres-de-obras, pedreiros, serventes e outros trabalhadores), todos efusivamente animados pelo show (som, movimentos corporais e voz) de Elba Soares, que emprestaram ao ambiente intenso brilho e valorização sócio-econômico e cultural. Disseram que pela ponte passarão cerca de 40.000 mil veículos e o problema do congestionamento do tráfico será solucionado na capital. Ótima a iniciativa do ex-Prefeito Municipal, Sílvio Mendes, ao homenagear numa placa metálica memorável os nomes de todos aqueles que participaram com sua direção e trabalho. Informes registrados em jornais de ampla circulação local dão conta de um razoável descongestionamento do trânsito pela ponte dupla da Avenida Frei Serafim e João XIII, de que reduziu por metade o tempo gasto no trajeto entre a região leste, centro e vice-verso.

Petrônio Portela ou do bairro Primavera, unindo este à zona leste, nas proximidades da Universidade Federal do Piauí, por intermédio das avenidas Universitária e Petrônio Portela à região norte, bairros Aeroporto, Buenos Aires e Mocambinho, a qual está sendo alargada com a implantação da terceira faixa de trânsito reversível.

Heráclito Fortes ou do Poty Velho. Depois de gerar muitas curvas em sua rota final, preparar-se e endireitar-se para a emocionante confluência, barra, embocadura ou comunhão indissolúvel com o Velho Monge, pouco antes desse emocionante encontro, foi construída a ponte adequadamente batizada com o topônimo de Poty Velho, que é o mais ancião, legendário e tradicional bairro da Capital Piauiense. Liga-o ao bairro de Santa Maria da Codipe e ao do Aeroporto, todo o norte e parte do centro da Capital. Traz, também, o nome de Heráclito Fortes, por ter sido construída durante sua gestão de prefeito e, em apenas, 100 dias.

Opa. Ia me esquecendo que se encontra em construção, para ser concluída até o fim deste ano (2010), mais uma ponte sobre o rio Poty. Desta feita, ligando entre si os bairros Mocambinho e Pedra Mole com as zonas Norte e Leste da capital, através da avenida Freitas Neto. Segundo o jornal O DIa, de 02.07.2010, a nova ponte custará dezesseis milhões de reais, terá 190 metros de extensão e 3,20 metros de largura. Assim, já não são mais somente oito pontes, mas nove, no final do ano.

Comenta-se que, não obstante a grande contribuição das pontes para o melhoramento do trânsito em Teresina, seu máximo aprimoramento só acontecerá com a seleção, direcionamento e preparo de muitos outros logradouros por onde possam transitar normalmente os veículos, vindos e fluindo naturalmente de um lado e do outros das margens do rio. Demais disso, à semelhança do que existe na Escandinávia, urge desafogar o trânsito, também, por meio da construção de diversificadas passagens para pedestres e bicicletas, túneis e viadutos em quaisquer vias públicas que se fizerem necessárias. Foi o que se notou, por exemplo, na Suécia, Noruega e Dinamarca, ao saber do empenho desses governos e percorrer por terra algumas de suas cidades e capitais.

Por escassez de pontes de união sobre o Poty, em matéria de tráfico, o teresinense não tem mais o direito de reclamar, a não ser de aqui a uns 20 anos. Não se tem certeza, se na velha Babilônia, localizada entre os rios Tigres e Eufrates e na atual Istambul, esta dividida numa parte européia e outra asiática pelo estreito do Bósforo (ou seja, unindo o Ocidente e Oriente através dos continentes europeu e asiático), o sistema de trânsito de veículos flui sem congestionamento. Contudo lá, proporcionalmente, não existem tantas pontes como em Teresina (PI). A atual Istambul, com mais de nove milhões de habitantes, afora os numerosos barcos que sulcam diuturnamente aquele belo e inebriante estreito (continuação do mar de Mármara, vindo do Mar Egeu, ligando este ao Mar Negro) não tem mais do que uma ponte de mais ou menos mil metros de largura, sobre o Bósforo. Mas nem por isso o trânsito era tão caótico em 1996. Aqui as ligações, uniões ou separações através das pontes sobre o rio Poty fazem-se apenas em logradouros da mesma cidade. Lá esse laço de união abrange, cidade e continentes.
(*) Professor de Direito da UFPI. Especialista em Direito Constitucional. Mestre em Filosofia e Teoria do Direito. Advogado militante.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



11 de agosto

DOIDO POR CARROS

Elmar Carvalho

Sempre o vejo, perto do semáforo do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Duque de Caxias. Vem de longe ou vai para longe, a descer ou a subir a ladeira do Parque da Cidade. Caminha puxando o seu minúsculo carro de brinquedo. Mas não é nenhuma criança. Deve ter mais de trinta anos. É o que o vulgo convencionou chamar de doidinho. Todos os dias fica, pontualmente, no semáforo, como se estivesse a cumprir uma jornada de trabalho, a passar sua esfarrapada flanela nos carros, que esperam a abertura do sinal verde. É como se fosse um ritual; contorna o veículo a lhe esfregar o velho trapo vermelho. Parece estar cumprindo uma obrigação. Não espera receber moedas, pois nunca as solicita. Se algum motorista lhe oferta alguma, não lhe dá a mínima importância, e a guarda displicentemente no bolso, quase como se estivesse a fazer um favor a quem a deu.

Soube que uma pessoa bondosa lhe deu um carrinho novo de presente. Parece não ter dado importância ao mimo, uma vez que continuou a puxar o seu diminuto e velho brinquedo. Talvez tenha ficado com pena de deixá-lo esquecido, no canto, como se costumava dizer antigamente, por causa de um novo amor. Poucos dias atrás, o vi a puxar por um cordão um de seus velhos carrinhos. Era um caminhão, com duas desproporcionalmente grandes rodas dianteiras, sem nenhuma na parte de trás, que lhe faziam empinar a frente, como um avião sem asas e sem voo. Vi quando ele fez o brinquedo dar o chamado “cavalo de pau”, a rodopiar sobre si mesmo. Admirei-me disso, pois ele é muito circunspecto, e até mesmo a usar um brinquedo não gosta de brincadeira, e não sorri. Aparenta viver hermeticamente fechado em seu mundo de silêncio e demência, porquanto não liga a mínima para os passageiros, mas apenas cumpre religiosamente a sua auto-imposta tarefa de “abanar” os carros com a sua escassa tira de flanela. Tudo indica que vive num mundo só dele.

Em sua mansa loucura, nunca o vi furioso ou revoltado, mas apenas a cumprir, como um autômato, o mister que impôs a si mesmo. Mas me contaram que outro dia ele se revoltou contra uma ambulância. Ficou bastante agitado, e em lugar de seus afagos flanelísticos, quis espancar o carro. Embora sem nenhuma vocação detetivesca a la Sherlock Holmes, e sem o adjutório do bom e elementar caro Watson, deduzi que, numa de suas crises, pois até os chamados sãos têm as suas, alguma ambulância deve tê-lo levado para longe de seu rebanho de carros, para confiná-lo em algum hospício, onde lhe devem ter aplicado alguma dolorosa injeção medicamentosa, ou onde lhe podem ter ministrado alguma dosagem/voltagem de choque elétrico, que, segundo ouvi um psiquiatra dizer, ainda tem a sua eficácia, não se tornando, ainda, de todo obsoleto e banido do mundo da medicina. Oxalá, tenha sido excluído das práticas de tortura, que não mais deveriam existir; que, aliás, nunca deveriam ter existido.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



10 de agosto

UMA NOITE GURGUEANA

Elmar Carvalho

Na sexta-feira ocorreu a solenidade de posse de Jesualdo Cavalcanti Barros, que passou a ocupar uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras. Foi uma verdadeira noite gurgueana. Estavam presentes vários de seus parentes e amigos, além de muitos de seus conterrâneos. O presidente do sodalício, Reginaldo Miranda, é também das ribas gurgueanas, mais precisamente de Bertolínea. Durante quase quatro anos, semanalmente, eu passava por essa cidade, quando era alta madrugada, a bordo de um velho e empoeirado ônibus da Princesa do Sul, quando ia para a longínqua Comarca de Ribeiro Gonçalves. Reginaldo em sua breve, porém entusiasmada palavra, exaltou a cultura dessa região e enalteceu os seus principais representantes. O novel acadêmico, que escreveu o notável livro Memória dos Confins, falou sobre os primórdios históricos dessa plaga dos cerrados piauienses. No seu entendimento, a colonização do Piauí começou por lá, usando como fundamento o fato de que as primeiras sesmarias estavam ali encravadas, bem como a circunstância de que parte dessa região se limita com a Bahia, e consequentemente era o local mais próximo da famosa Casa da Torre, de onde teriam saído os primeiros desbravadores de nosso território. Falou dos homens ilustres do Gurgueia, sobretudo aqueles que pontificaram na cultura e ocuparam cadeira de nossa academia. Elogiou, com muita ênfase o seu antecessor, João Gabriel Baptista, em suas várias atividades, mormente como administrador público competente e probo, como professor talhado para o mister e como historiador e geógrafo de nosso estado, que muito contribuiu com seus livros para a elucidação de fatos e aspectos dessas duas matérias, trazendo novidades, e não repisando fatos já sabidos e já escritos. O escritor Oton Lustosa, que lhe fez a saudação, fez o seu justo elogio, louvando-lhe as qualidades de homem público e de historiador. Também enalteceu a história dos confins gurgueanos, exaltando seus filhos ilustres, mormente os que palmilharam os caminhos da arte e da literatura. Foram dois excelentes discursos, que bem merecem ser recolhidos em livro. Não posso deixar de dizer, sob pena de esta nota ficar incompleta, que o coquetel foi farto, variado e delicioso.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



A MORTE DE CHICO

Elmar Carvalho

Era um pequeno macaco, da raça prego. Logo, tornou-se o mimo da casa, especialmente das crianças. Olhos pequenos, vivos, ligeiros. Prestava atenção em tudo o que as pessoas faziam. Tinha o hábito de lhes imitar os gestos, o que o tornava ainda mais querido, simpático e engraçado. Os pequenos gostavam de vê-lo descascar e comer uma banana.

O dono da casa o comprou numa feira livre. A seu favor, diga-se que cuidava muito bem do macaquinho, limpando-lhe diariamente a casinha. Banhava-o, escova-lhe o pelo, e o alimentava convenientemente. Deu-lhe o nome de Chico, que é um nome quase comum em se tratando de símio. O macaquinho retribuía-lhe o amor e dedicação, afagando-o e procurando a sua proximidade. Gostava de imitar o dono, quase como se fosse um número circense de mímica. Parecia saber que o homem gostava de suas imitações gestuais.

Um dia, não sei por que motivo, o dono da casa resolveu tirar a barba no quintal, perto de onde ficava o Chico. Parece que faltou energia elétrica, e o banheiro ficava muito escuro, de modo a dificultar o manuseio da navalha. O homem não tinha barbeador elétrico e não gostava de aparelho de barbear moderno, de lâminas descartáveis. Na verdade, gostava de uma navalha antiga, importada da Inglaterra, e herdada de seu pai. Era um verdadeiro ritual quando ia amolá-la numa madeira apropriada a essa finalidade. Igualmente, era quase uma cerimônia ritualística o seu barbear, em que utilizava um recipiente esmaltado, também antigo, para produzir a espuma; depois, usava um pincel de cerdas naturais para espalhá-la no rosto. Então, abria a navalha, com seu cabo de madrepérola e sua lâmina da aço, brilhante e bem limpa. Chico, com seu jeito esperto, com seus olhinhos vivazes, não tirava a vista do dono, parecendo achar muito graça naquela novidade do barbear. Viu quando o homem meticulosamente esticava a pele, para depois ceifar os pelos com a lâmina inoxidável, que reverberava ao sol da manhã. Após fazer a barba, quando mal terminava de lavar o rosto com água e sabão, foi chamado às pressas para atender um telefonema.

Chico não perdeu tempo. Saltou para a pequena mesa, onde o homem deixara a vasilha com a espuma, o pincel e a navalha. Pegou o pincel; mergulhou-o na espuma e passou-a no rosto. Ficou muito engraçado, parecendo um pequenino palhaço simiesco, o que despertou o riso das crianças, que estavam perto. Em seguida, pegou a navalha, que ficara com a lâmina aberta, e a levou em direção á face, em local próximo ao pescoço, como vira o dono fazer. Em sua inocência animal, sem noção de como a lâmina deveria ser posicionada, movimentou-a de cima para baixo, e nesse gesto, que os meninos acharam tão engraçado, cortou a jugular. Soltou um grito fino, estridente, lancinante, com os olhos esbugalhados, como se quisesse entender o que havia acontecido.

Logo caiu, esvaindo-se em sangue. O sangue de um vermelho vivo misturou-se com o branco da espuma. Mas agora já não era um palhaço buscando uma outra cor. Era a morte pintando de rubro a mesa e o Chico. Foi o dia mais triste daquelas crianças. Fizeram um pequeno caixão e sepultaram o maquinho no quintal, à sombra de um pau-d'arco, que então desabrochava suas flores, como se fossem lustres de ouro.

sábado, 7 de agosto de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)

LUCÍDIO FREITAS


Lucídio Freitas nasceu em 05-04-1894, e faleceu em 14-05-1921, em Teresina (PI). Filho de Clodoaldo Freitas e Carolina Freitas. Poeta, jornalista, professor, magistrado e conferencista. Formado em Direito. Foi Delegado-Geral da Capital, servindo junto ao gabinete do governador Miguel Rosa. Foi professor da Academia de Direito do Pará e Juiz Substituto, em Belém. Foi o idealizador e o principal fundador da Academia Piauiense de Letras, sendo, posteriormente, escolhido para ser patrono da Cadeira 23. E como justa homenagem, a sede da Academia passou a denominar-se “Casa de Lucídio Freitas”. Bibliografia: “Alexandrinos” (1912), em parceria com Alcides Freitas; “Vida Obscura” (1917), versos; “Questões Processuais”; “Minha Terra” (1921), poesia; “História da Poesia” e “Literatura Piauiense”. Foi incluído na “Antologia de Sonetos Piauienses” (1972) e na coletânea “Os Mais Lindos Sonetos Piauienses” (1940), ambas organizadas por Félix Aires e no livro “A Poesia Piauiense no Século XX” (1995), de Assis Brasil.

(*) Texto e charge de João de Deus Netto.

DECÁLOGO



ALCENOR CANDEIRA FILHO

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.


1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

R - Comecei a me interessar por literatura quando criança. Lembro-me de que a Editora Melhoramentos publicava coleções com narrativas de expoentes da literatura universal adaptadas para o público infantil. Os livros eram bem condensados mesmo, com belas ilustrações. "Viagens de Gulliver", "Alice no País das Maravilhas", “Dom Quixote de la Mancha" são alguns títulos que conheci na infância.
Quando fazia o curso primário, na Escola Santa Maria Goretti, declamei dois poemas de Juvenal Galeno, poeta romântico cearense: "A Jangada" e "Cajueiro Pequenino"

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

R - A partir de 1967, aos vinte anos de idade, escrevi as primeiras composições literárias. Mostrava esses poemas a familiares e a alguns amigos. No jornaleco mimeografado "O Linguinha" (início dos anos de 1970) publiquei alguns desses poemas.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

R - Todo escritor sofre e exerce influências. Já publiquei um livro sobre o assunto: "Das Fornas de Influência na Criação Poética". Acho que os poetas que mais me influenciaram foram Carlos Drummond de Andrade e Augusto dos Anjos.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

R - Ter escrito alguns textos literários que foram elogiados por leitores, alguns dos quais expoentes da literatura piauiense.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

R- Os dois primeiros livrinhos - "Sombras entre Ruínas" e "Rosas e Pedras" - foram mimeografados no Colégio Cobrão, em Parnaíba. Várias instituições públicas e privadas já publicaram livros de minha autoria: Universidade Federal do Piauí, Fundação Estadual de Cultura e do Desporto do Piauí, Instituto Euvaldo Lodi, Academia Piauiense de Letras. Os livros mais recentes ("Antologia Poética", "Teoria do Texto", "O Crime da Praça da Graça" e "Seleta em Verso e Prosa") foram financiados por mim e impressos na Sieart Gráfica e Editora".

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

R - Meu principal livro é "Seleta em Verso e Prosa", publicado neste ano. É o livro mais importante porque reúne os melhores textos que escrevi ao longo da vida. Cabe registrar que a minha obra mais procurada tem sido "O Crime da Praça da Graça", publicada em 2008.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

R - De minha parte não tenho queixas. Como já assinalei, diversas instituições públicas e privadas já publicaram livros de minha autoria e obras coletivas de que participei.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

R - A Literatura Piauiense, como a de qualquer região do planeta terra, é constituída de livros ótimos, bons, razoáveis. Os medíocres ou ruins, é claro, não contam. Em termos de literatura feita no Brasil, não se pode pretender que a piauiense seja tão rica quanto à de entes federativos em que a atividade literária se desenvolveu a partir dos séculos XVI e XVII, como ocorreu em São Paulo, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais... A Literatura Piauiense só surgiu no início do século XIX, com "Poemas" (1808), de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

R - Até agora pouco tenho utilizado a internet para divulgar trabalhos literários. Por enquanto apenas no quotidiano da burocracia pública venho usando o computador. Mesmo assim com limitações. Mas tenho consciência de que a internet é importante meio de veiculação de trabalhos literários. Necessito urgentemente de me familiarizar melhor com esse meio de comunicação.

10 – Como e por que se fez literato?

R - O gosto pela literatura começou pela leitura de grandes escritores. Escrevo poesia (gênero com que mais me identifico) por necessidade interior. Através de poemas é que consigo verdadeiramente exteriorizar minha visão do mundo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O SEGREDO DE “LUNGUINHA”

ALCIONE PESSOA LIMA

Igreja e convento do Memorare

Igreja e convento do Memorare

Pelos anos setenta, aproximadamente, iniciou-se a pavimentação da Av. Centenário, na zona norte, desta Capital...E antes de ser asfaltada foi calçada com “pedra jacaré”, quebrada não por máquinas, mas por um cidadão afro descendente, conhecido por todos como o “Seu Lunguinha”. Era um tipo corpulento, braços marombados pela marreta, grande estatura...Um tanto quanto sinistro, taciturno...

Por ficar tanto tempo naquela labuta, a construir a pavimentação tão desejada pelos moradores daquela via e, em especial, pelos do bairro Poty Velho, tornou-se conhecido, a ponto de se saber coisas a seu respeito que até Deus duvida.

Parecia um anjo, calmo, silente, atento ao seu trabalho...E como produzia! Pena que, posteriormente, o asfalto tenha escondido toda a sua obra. E quanto suor derramou! No rosto, por vezes, não se sabia se não eram lágrimas. E por que lágrimas? Ah! O senhor pacato, de características escravas, lembrando Kunta Kintê, da série Raízes, exibido há tempos pela televisão, tinha um segredo. E que segredo! Deixou de sê-lo não se sabe pela boca de quem. Imagina-se que nunca o tenha contado e sim, que alguém que o conhecia, dos tempos do ocorrido, tenha feito essa revelação. Deduzo que, por pura maldade. Por um desejo inerente aos invejosos, aos malfeitores, aos mesquinhos.

E o que aconteceu mesmo com o ser em comento que tanto nos deixou estupefato? Pois bem. Ele simplesmente, após ter descoberto a traição de sua mulher a matou com pauladas...Um gesto de um homem ferido em seu brio, mas que a sua ignorância não o conteve a ponto de agir em semelhança à estória de um certo “joão-de- barro” contada em uma conhecida canção sertaneja.

Depois de saber de tudo, mesmo ainda criança, eu ficava por horas, não somente observando aquele moço realizar o seu trabalho, mas a pensar na atitude maléfica que teria realizado. A minha idade pouco compreendia. Logo eu que estudava em colégio de freiras (Memorare), e que ouvia de meus pais e professoras (na maioria religiosas) constantes lições de humanismo. Mas era isso que me fazia ver aquele cidadão ainda como uma criatura de Deus e entender que aquele trabalho duro era uma forma não só de dar o sustento àquele homem/máquina, mas de descontar tremendo pecado que carregava no coração. Eu o via como um anjo. E, em momento algum, percebi o contrário.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

LVIII – PELA GRANDEZA E BELEZA DE AMARANTE

Lauro Correia
Professor Emérito UFPI





1ª PARTE

Com dois versos de “Os Lusíadas”, maior poema épico de nosso idioma, inicio este escrito homenageando e defendendo a bela e encantadora cidade de Amarante:
“Cesse tudo quanto a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”
A grandeza de Amarante está fundamentalmente vinculada a sua gente, seu povo, seus filhos ilustres, seus amigos e defensores.
A grandeza da poética e histórica Amarante é descrita desde os tempos da Vila de São Gonçalo, e foi consolidada pela migração de famílias ilustres de nosso Piauí, que lá se fixaram, entre elas: Ribeiro Gonçalves, Mendes, Pinto de Moura, Sobral, Vilarinho, Nunes, Carvalho, Noronha, Campelo, Lira, Almeida, Guimarães.
Na década de 1930, o notável industrial piauiense, nascido no litoral, José de Moraes Correia, conhecido entre os amigos e familiares como Zeca Correia, instalou uma Usina de descaroçamento das plumas de algodão, “ouro branco” daquela época, iluminou a cidade com energia elétrica, pela primeira vez, e gerou mais desenvolvimento para toda a região.
Entre seus filhos ilustres, nacionalmente conhecidos, correndo o risco de involuntária omissão, mencionarei os nomes de Da Costa e Silva, o príncipe dos poetas piauienses e autor da letra do nosso Hino; Odilon Nunes, sem contestação, o melhor e maior pesquisador e historiador nascido no Piauí; Clovis Moura, antropólogo e poeta; Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras.
Entre seus amigos e admiradores, com involuntárias omissões, citarei os mais recentes, com artigos publicados em jornais, revistas e pela internet:
01 – Elmar Carvalho – 24/09/2008 - “Recuerdos de Amarante”
02 e 03 – Olavo Pereira da Silva e Claudiana Cruz dos Anjos, Maio/2009. - “Cultura,
Memória e Identidade da Cidade de Amarante” - Revista Presença.
04 – Natacha Maranhão – Maio/2009 - “Amarante” - Revista Presença.
05 – Dagoberto Carvalho Junior – 11/10/2009 - “SOS AMARANTE”
06 – Fonseca Neto – 26/10/2009 - “Amarante, SOS”
07 – Alberto da Costa e Silva – 25/03/2010 - “Em defesa de Amarante”
08 – Cunha e Silva Filho – 27/04/2010 - “Crime de lesa – pátria”
09 – Enéas Athanazio – 29/05/2010 - “SOS AMARANTE”
10 – M. Paulo Nunes – 25/06/2010 - “Salvemos Amarante”
11 – Lauro Correia – 10/07/2010 - “ Pela Grandeza e Beleza de Amarante”
A grandeza de Amarante depende também obviamente de sua economia representada pela agricultura, pecuária, comércio e indústria.
A beleza de Amarante está amplamente descrita, elogiada, cantada e divulgada nos escritos e fotografias que compõem as manifestações de uma dezena de intelectuais piauienses citados.
A beleza de Amarante se evidencia em vários aspectos: natural, paisagístico, urbanístico, arquitetônico e histórico.
Admirar o belo é ser artista; cantá-lo pertence aos poetas, escrevi quando jovem; e hoje, longevo de 86 anos, com apenas um único e singelo soneto, de minha autoria, dedicado à amada esposa Rosette, não obstante mais de vinte livros e folhetos impressos ou inéditos, solicitarei ao poeta Israel Correia, meu filho, que preste homenagem em versos à bela, bucólica e querida Amarante.

2ª PARTE

Em Fevereiro de 2007 há mais de 3 anos, quando do lançamento do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, em Teresina, capital de nosso Estado, os Ministros dos Transportes – Paulo Passos e da Integração Nacional – Pedro Brito, em companhia do Presidente José Machado da Agencia Nacional de Águas – ANA, anunciaram, como as duas principais obras do PAC no Piauí, a construção da FERROVIA TRANSNORDESTINA e a implantação de cinco USINAS HIDROELÉTRICAS no curso do Rio Parnaíba.
Escrevi à época o artigo XXI – 05 EQUÍVOCOS DOS MINISTROS, em 03/03/2007, com cinco folhas, e outros se seguiram até hoje, publicados no jornal “Norte do Piauí”, de Parnaíba, e em Teresina, combatendo as indesejadas, desnecessárias e assassinas Usinas Hidroelétricas.
Evidenciei a importância de outra ferrovia por mim denominada FERROVIA TRANSPIAUÍ, de sul a norte, partindo de Elizeu Martins ou Coronel Gervásio, seguindo para Floriano – Teresina – Campo Maior – Piripiri – Piracuruca – Cocal, com bifurcação para Luiz Correia e Timonha, futuro segundo Porto Marítimo de nosso Estado, na fronteira do Ceará.

A TRANSNORDESTINA está sendo implantada, e a TRANSPIAUÍ, deveria também estar sendo implantada!
Os artigos e documentos anexos estão reunidos em duas publicações: “Análise e Comentários”, com 120 folhas, e “Rio Parnaíba e Usinas Hidroelétricas” com 55 folhas.
O artigo LVII, sob o título “Usinas Hidroelétrica”, datado de 20/10/2010, com 6 folhas, apresenta OITO ARGUMENTOS – claros, seguros, técnicos e irrefutáveis, contrários à implantação no Rio Parnaíba de 5 hidroelétricas, entre elas a de Castelhano, a qual inundaria a bela e histórica Amarante, inclusive as preciosas casas residenciais de Da Costa e Silva e Odilon Nunes.
Os 8 ARGUMENTOS têm os seguintes títulos:
01 – Cada Rio, um Rio
02 – Exemplo dos Estados Unidos
03 – Lição do Rio Tietê
04 – Usina Eólica versus Usina Hidroelétrica
05 – Hidrovia versus Usina Hidroelétrica
06 – Razão Histórica
07 – Navegabilidade do Rio Parnaíba
08 – Relatório da JICA
O presente artigo se constitui no 9º Argumento contrário às Usinas Hidroelétricas.
Alguém perguntaria porque somente agora, em Junho de 2010, lembrei-me de escrever sobre Amarante, e a resposta é fácil, pois os técnicos do Ministério das Minas e Energia, da CHESF e da ELETROBRAS escondiam que Amarante seria inundada pelas águas do Rio Parnaíba, o qual atualmente a envolve, beija e acaricia. Um telefonema do mestre M. Paulo Nunes, meu amigo há meio século, trouxe-me a triste notícia, fazendo-me intranqüilo até que esse pesadelo seja eliminado por Deus ou pelos homens.
Voltemos ao poema “Os Lusíadas” e façamos a adaptação dos dois versos citados aos dias atuais, e afirmarei que o valor mais alto que se alevantou é o da POESIA, da CULTURA, da HISTÓRIA, do BELO, da INTELIGENCIA, do RESPEITO, da ÉTICA, da MORAL, da DIGNIDADE, do TRABALHO, da LEI, da JUSTIÇA.
O valor mais alto é o ESPÍRITO, sustentáculo do ser humano, dos povos e de suas civilizações.
Se a República Brasileira é Federativa e Democrática, constituída por 3 poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário, independentes e harmônicos, não é possível que nós piauienses, filhos da Terra do Sol, mas brasileiros como os demais irmãos federados, assistamos de braços cruzados que o Poder Executivo, através do Ministério das Minas e Energia, da CHESF, Eletrobrás e ANEEL prejudique o nosso Rio Parnaíba, o Velho Monge de Da Costa e Silva, inunde com um dilúvio a nossa querida Amarante, implantando cinco usinas hidroelétricas, distantes apenas 50 quilômetros entre si, denominadas indesejadas, desnecessárias e assassinas, pois gerariam cada qual em média o inexpressivo valor de 60 megawatts, os quais serão supridos pela energia eólica dos ventos do nosso litoral e da área da cidade de Paulistana.
O Rio Parnaíba é o único do Nordeste navegável, até o oceano, numa extensão de 1.100 km, de Santa Filomena a Luiz Correia, e deverá voltar a ser navegado, para o transporte da SOJA produzida nos Cerrados piauienses e maranhenses, até o Porto Marítimo de Luiz Correia, atualmente em obras para sua conclusão, com calado a ser elevado, mediante dragagem, de 6 para 10 metros.
É preciso que a Associação dos Magistrados Piauienses, o Ministério Público Federal e Estadual do Piauí, OAB – Seção do Piauí participem dessa CAMPANHA CÍVICA EM DEFESA do RIO PARNAÍBA e da CIDADE de AMARANTE.
E, certamente, esta CAMPANHA CÍVICA continuará com a efetiva e permanente atuação da FURPA – Fundação do Rio Parnaíba, capitaneada pelo Professor Francisco Soares, e continuará a merecer o apoio do Lions Clube, Rotary Clube, Maçonaria, Jornais, Rádios, Televisão, Universidades, Academias de Letras, Organizações não Governamentais ligadas ao Meio Ambiente, e outras instituições piauienses.
A proteção das nascentes do Rio Parnaíba, na Chapada da Mangabeira, onde nasce o Riacho Água Quente, origem do longo rio, está sendo efetivado por intermédio de um Parque Nacional, cuja criação e implantação são resultados da ação e persistência de duas importantes instituições piauienses: Associação dos Magistrados e Ordem dos Advogados.
Urge concluir, e antes desejo solidarizar-me com os dignos amarantinos, intranqüilos e magoados com o perigo do dilúvio.
Com manifestações de estima, respeito e admiração, dedico este artigo à amarantina Senhora Clara Nunes, esposa do Mestre M. Paulo Nunes, escritor e acadêmico, uma das maiores e melhores expressões da intelectualidade piauiense, e também amarantino pelos laços do coração.
Estarei, permanentemente, na luta pela defesa de nossa querida Amarante, e certamente Deus não haverá de permitir que as Usinas Hidroelétricas indesejadas, desnecessárias e assassinas sejam incluídas e retiradas de um quarto leilão da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, como aconteceu recentemente no dia 30 de Junho.

Parnaíba, 10 de Julho de 2010.
166º da Cidade e 248º da Vila

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Sua saia rodada
sua saia rodando
era uma festa de
cores e folhas e flores
nas festas de que gostava.
Das pontas estelares de seus dedos
saltavam saltitantes valsas
pelos tec-tec teclados do piano.
Hoje ela estendeu um arame
nas pontas da lua nova,
colocou uma estrela e toc-toc
toca berimbau.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


4 de agosto

BENJAMIM SANTOS, O RETORNO

ELMAR CARVALHO


Em minha recente estada em Parnaíba, visitei o teatrólogo e escritor Benjamim Santos. Mantivemos uma longa conversa em sua residência, na avenida Presidente Vargas. Falei-lhe de meus projetos na área literária, inclusive de que estou escrevendo dois livros em meu blog, este Diário Incontínuo e o Arte-Fatos Oníricos e Outros. Benjamim é filho de Benedito dos Santos Lima, que criou o Almanaque da Parnaíba e o editou por vários anos; este anuário, ainda em atividade, foi depois publicado sob a responsabilidade do empresário Ranulpho Torres Raposo, do seu neto Manuel Domingos Neto (uma edição) e é atualmente a revista da Academia Parnaibana de Letras, que já lhe publicou várias edições, com alguma alteração na linha editorial. O dramaturgo esteve muitos anos afastado do Piauí. Arrebatou prêmios, teve peças montadas por importantes companhias, escreveu livros e peças teatrais. Produziu textos que foram encenados em grandes apresentações ao ar livre, sob o patrocínio da Prefeitura Municipal e da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Destacam-se, entre esses espetáculos, Paixão de Cristo, Auto de São Sebastião e Auto de Corpus Christi, que foram montados, durante vários anos, no encerramento das procissões. Pode-se, portanto, dizer que foi, viu, venceu e... voltou. Voltou para o bem do Piauí e de sua Parnaíba. Tenho observado em várias pessoas e em mim mesmo, que a partir da maturidade começamos a sentir a vontade de regressar aos pagos de nossa infância e adolescência; um verdadeiro chamado de sereia a que muitos não conseguem resistir. É como se fosse a nostalgia de nosso entardecer, misto de saudade e encantamento.

Benjamim retornou, e como se quisesse recuperar o tempo, não digo perdido, muito pelo contrário, mas não vivido em sua cidade, começou a desenvolver um trabalho árduo e louvável em prol da cultura parnaibana. Sem dúvida, foi dinâmico secretário municipal da Cultura, promovendo eventos populares, incentivando o folclore, apoiando os folguedos, sobretudo os juninos, especialmente a dança do boi, uma verdadeira ópera popular, com todos os seus adereços, música, encenação, enredo e personagens; entre as obras físicas criadas em sua gestão, merecem menção especial o Museu do Trem e o Jardim dos Poetas. Como pessoa física continua estimulando a literatura, os brinquedos populares e o teatro. E graças a seu esforço pessoal e perseverança, criou o jornal O Bembém, cujo título é uma homenagem a seu pai, um dos mais importantes periódicos culturais do Piauí, já com mais de trinta edições, o que é uma tarefa de invulgar merecimento, mormente pelas dificuldades que certamente encontra para manter a sua regularidade mensal. Nesse jornal vem escrevendo excelentes matérias literárias e em defesa da cultura e de todas as manifestações artísticas. De maneira especial, registro a bela série de textos que elaborou sobre notáveis mulheres parnaibanas, que bem poderia ser publicada como um pequeno grande livro. Em seus trabalhos, mesmo os de caráter apenas jornalístico, tenho notado que é um perfeccionista, com o seu estilo límpido, fluente, escorreito, e sempre primando pelo bom conteúdo. Encerrando, repito: Benjamim foi, viu, venceu e... Voltou para ficar e empreender o inestimável trabalho cultural que vem desenvolvendo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Danilo Melo

Professor Danilo de Melo Souza vai proferir palestra e lançar livro no II Salipa

O secretário de educação do município de Palmas(TO), professor Danilo de Melo Souza, vai ser um dos palestrantes do II Salão do Livro de Parnaíba(Salipa). Além de discorrer sobre “Educação Estética e a Construção do Pensamento Criativo - o currículo da educação básica" ele vai lançar o livro “(In)Certos Versos e Alguma (P)Rosa. Segundo explicou, este é o seu primeiro livro solo e contem 100 poemas escritos de 1988 e 2008, dos quais 83 são inéditos. A obra retrata parte da experiência estética do autor e divide-se em quatro partes: "(In)Certos Versos"; "Para Terra Prometida e outras Terras"; "Poesia Engajada"; e "Alguma (P)rosa".

Danilo de Melo Souza, parnaibano, é Secretário Municipal da Educação de Palmas-TO, professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT, membro da Academia Parnaibana de Letras e da Diretoria Executiva da Undime-TO. É graduado em Pedagogia pela Universidade Federal do Piauí; pós-graduado em Administração da Educação; e mestre em “Educação, Estado, Políticas Públicas e Gestão da Educação”, pela Universidade de Brasília (UNB).

Foi Secretário Municipal da Cultura de Parnaíba-PI; professor da Universidade do Tocantins (Unitins) e do Ceulp/Ulbra, entre outras instituições de ensino superior; Presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação do Tocantins (Undime-TO) e da Região Norte; e Secretário Municipal da Educação e Cultura de Palmas-TO, gestão 2005/2008, ocasião em que implantou programas como o Salas Integradas, as Revistas Tempo Integral e Patrimônio Cultural, a Escola de Tempo e Formação Integral, as Olimpíadas Escolares de Palmas, e Padrões Mínimos Educacionais. Atualmente, exerce a função de Secretário da Educação, Presidente da Undime-TO e professor da Universidade Federal, em Palmas-TO.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Francisco Carvalho, Rita Alves, Alcenor Candeira Filho, Wellington Soares, José Hamilton Furtado Castelo Branco e Fátima Carmino

3 de agosto

LANÇAMENTO DO II SALIPA

ELMAR CARVALHO

No sábado, estive, a convite do poeta e amigo Alcenor Candeira Filho, na solenidade de lançamento do II Salão do Livro de Parnaíba – II SALIPA, ocorrido no auditório da Prefeitura. Tive a satisfação de participar da edição anterior, em que proferi palestra sobre a importância que as escolas podem ter na educação integral do ser humano, nos aspectos de convivência, civilidade, cidadania e ética. No lançamento a que me referi, o secretário municipal da Comunicação, jornalista Francisco Carvalho, falou sobre a programação, apresentando eslaides e informações pertinentes. Falaram também a secretária da Cultura, artista plástica Fátima Carmino e o presidente da Fundação Quixote, realizadora do evento em parceria com o Município, professor e escritor Wellington Soares. O prefeito de Parnaíba, José Hamilton Furtado Castelo Branco, falou da importância do Salão, e disse que lhe dará o apoio necessário, assim como fez em relação ao SALIPA anterior.

Em minha fala, além de discorrer sobre a importância das palestras como incentivo aos que fazem literatura, enalteci a homenagem ao escritor Humberto de Campos, que, embora nascido no Maranhão, no povoado de Miritiba, hoje cidade que ostenta seu nome, morou alguns anos em Parnaíba, para onde se mudou sua mãe, dona Ana, após a morte do marido, quando ele tinha apenas seis anos de idade; exaltei a importância do seu livro Memórias, bem escrito, e prenhe de lições e experiências de vida, no qual são narrados episódios pungentes e emocionantes de sua rica vida, repleta de vicissitudes e percalços. Observando que nos folders e cartazes apareciam, de forma estilizada, os cataventos da usina eólica de Parnaíba, aproveitei o ensejo para dizer que os sucessivos governos nada fizeram pelo rio Parnaíba, que sofre os efeitos danosos de desmatamentos, queimadas e poluição, que o ferem de morte; e que agora esse rio tão importante, navegável, mas quase não navegado, sofre a terrível ameaça da construção de cinco usinas hidroelétricas, cujas barragens mais ainda o degradariam, impedindo a sua navegabilidade e diminuindo o seu escoamento d' água, quando a construção de novas usinas eólicas supririam com vantagem essa produção das cinco hidroelétricas, e sem danos ambientais. Aproveitei para esclarecer que essa redução do fluxo do rio poderá provocar a salinização do Delta do Parnaíba, inclusive com prejuízo para o atual sistema de abastecimento de água potável da cidade parnaibana. Falei outras coisas mais, que deixo de consignar porque já tratei delas em notas anteriores deste Diário. Por fim, registro que fui convidado pelo Wellington Soares para fazer a apresentação do livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, do Manuel Domingos Neto. Aceitei o convite e lhe disse que até já o havia lido, tendo escrito três notas desta obra diarística sob sua inspiração.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


SALTO SEM TRAPÉZIO

ELMAR CARVALHO

Sua história é quase igual à de vários outros jovens, exceto pela tragédia que depois desabou sobre ele. E pode ser contada em poucas palavras. Entrando na adolescência, foi advertido pelos pais sobre as ciladas das drogas. Concordava com tudo que eles lhe diziam. Foi induzido a assistir palestras sobre esse tema. Compraram-lhe livros sobre o assunto. Prometeu lê-los. Na verdade não o fez. Apenas os folheou displicentemente. Emotivo, sensível, um tanto tímido e taciturno, tinha apesar disso seus dois ou três amigos mais ousados e mais extrovertidos. Talvez extrovertidos e ousados demais, o que lhe atraía como uma forma de compensação, sem nenhum psicologismo e estereótipos de manuais. Logo, para tomar o primeiro trago de cachaça ou rum foi um pulo excessivamente rápido. No início, negaceou um pouco, mas lhe convenceram de que era uma coisa extraordinária e que, além do mais, todos bebiam, nem que fosse uma vez ou outra. Depois, o primeiro cigarro de maconha, as duas ou três primeiras baforadas, sem tragar, mas, em seguida, as outras, para valer. Também lhe convenceram a fazer a cabeça com loló. Maria-vai-com-as outras foi indo, foi ficando, até que o vício começou a ficar incontrolável. Como muitos outros garotos de sua idade, começou a furtar pequenas quantias e alguns objetos em casa, para sustentar o vício, já que sempre extrapolava a sua mesada. Vieram as pressões para fazer tratamento de desintoxicação. Argumentava não precisar, já que dizia não ser viciado. Por muita insistência dos pais e das duas irmãs, foi para uma clínica, mas acabou por não seguir as regras que lhe foram prescritas. Começou tudo de novo e com mais intensidade. Expulso de casa, começou a cometer furtos e assaltos na rua, desta feita já sob o efeito do crack. Preso provisoriamente, foi solto em virtude do excesso de prazo, uma vez que ainda não havia sido condenado.

Naquele dia, o dia da tragédia, foi se drogar no apartamento de uns colegas. No dia seguinte, não se lembrando de como tudo acontecera, deu por si no leito de um hospital. Disseram-lhe que estava paralítico, da cintura para baixo. Por fim, soube como os fatos aconteceram. Tudo lhe foi contado com base nas informações de seus colegas, e devidamente apurado pela polícia. Estava muito doido, consumindo as bolinhas em ritmo acelerado. Em dado momento foi ao banheiro. Quando voltou, ao ver o seu reflexo estampado no vidro que dava para a sacada do apartamento, sob o surto de violente delírio, partiu contra esse vulto, dizendo que iria esganá-lo. Tudo aconteceu de modo demasiadamente rápido e inesperado. Seus colegas disseram que ele, ao correr contra o vidro, na tentativa de trucidar seu próprio reflexo, tropeçou, saiu despontando, catando mamonas, como se dizia antigamente. Ao bater no peitoril da sacada, caiu, em verdadeiro salto mortal, porém sem rede e sem trapézio. Como dito, não morreu; ficou paralítico. Forçado pelas circunstâncias, libertou-se da dependência química. Voltou ao convívio familiar. Arranjou novo vício, o vício da leitura. Em consequência deste, adquiriu o hábito de escrever. E a tragédia terminou não sendo tão grega assim.

domingo, 1 de agosto de 2010

DECÁLOGO

Escritores Herculano Moraes, Virgílio Queiroz e Francisco da Cunha e Silva Filho

CUNHA E SILVA FILHO

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Tentarei alcançar o fio da memória que me leve com certa precisão aos onze anos de idade, tempo em que era aluno do “Domício,” nome carinhoso pelo qual chamávamos, em Teresina, o Ginásio “Des. Antônio Costa”. Isso era nos idos de 1954 para 55 do século passado. Não se pense que eu seja tão velho, sou de dezembro de 1945. Mas, é que o século 20 (à maneira de Antonio Candido) só terminou há dez anos, o que nos faz ainda muito ligados a ele, não é? Presumo que o meu contato inicial com o exercício da escrita se deu justamente com o Prof. Domício Melo Magalhães, pessoa encantadora, bonachão, contador de piadas. Era ele quem cuidava da parte de português no curso de Exame de Admissão ao ginásio. Me recordo que costumava pendurar, no quadro-negro (era negro mesmo naquele tempo, hoje é verde, tudo muda!) uma gravura de papel grosso e liso, que desenrolava de um canudo onde havia várias situações contextualizando temas para descrições. Não me lembro que incluísse o gênero narrativo. Isso, contudo, foi o primeiro ponto de referência que me chamava a atenção para a visualidade dos objetos, pessoas, plantas, animais, cores, dimensões, formas e movimentos “congelados” como nas fotografias e na pintura clássica, afora pormenores, perspectivas e, sobretudo, o aspecto pictórico das paisagens e das situações humanas que se mostravam ao olhar do aluno.
Quanto ao meu início como leitor, acredito que vou localizá-lo já como aluno da primeira série ginasial, período em que tomo contato com os livros didáticos de José Cretella Júnior, de Enéas Martins de Barros. Devo imensamente aos livros didáticos, com seus textos antológicos que me ensinaram sobre a vida e os homens, sobre o que entendo por sensibilidade poética. Os livros didáticos foram o meu grande passo em direção às obras literárias. Infelizmente, como outras crianças, não fui iniciado na chamada literatura infantil de Monteiro Lobato, pois no acervo só havia uma obra dele, Urupês. Sinto inveja de quem leu Lobato ainda criança Na biblioteca de meu pai só havia o Lobato para adultos, . Não tenho dúvida de que neles me despertei para o luminoso e mágico universo literário, tanto na poesia quanto na ficção. Um professor de português que tive no Domício nos pedia que memorizássemos poemas. A mim coube um soneto de Bilac, “A pátria,” que não mais sei de memória.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

É preciso fazer aqui uma distinção. Confesso, sem falsa modéstia, que primeiro me senti pronto a escrever pra mim mesmo. Quando morava na casa da Rua Arlindo Nogueira, zona sul, esquina com a Rua São Pedro, bem pertinho onde morava o meu coetâneo Herculano Moraes, iniciei os meus primeiros passos na arte da escrita. Comprei um caderno de algumas páginas, não muitas, e fiz um planejamento de temas para desenvolver como exercício de redação: a pátria, o estudante, o amor, a paz, a vida, os livros, os estudos, a felicidade e assim por diante . Não é que me desincumbi deles todos. Só tinha um leitor: eu mesmo. Nem mostrei a ninguém. Tampouco sei do destino do caderno.
No entanto, a minha atividade literária impressa, pública, se deu em jornais, conduzido que fui pela mão de me pai, jornalista político de muito talento e homem profundamente amante da literatura. Assim, minha “estréia” se deu com a publicação em jornal com um artigo sobre o Dia do Estudante. Foi grande a minha alegria em vê-lo estampado em jornal. Meu pai gostou do artigo e me corrigiu apenas dois erros de gramática, erros, aliás, não muito sérios. Daí em diante – eu estava com apenas uns quinze ou dezesseis anos – escrevi mais alguns artigos, uns contos(?) depois, umas duas ou três traduções do inglês e francês. Só me lembro de que posteriormente, já no científico, a maior parte dos meus artigos versavam sobre literatura brasileira. Naturalmente eram “exercícios ” ou tentativas de fazer “apreciações” sobre movimentos literários, sobre autores e livros. Outras tentativas de fazer ficção. Porém, gostava mesmo era desses artigos sobre livros e temas literários. Acho que aí nasceu o meu interesse sério pela atividade crítica. Papai , de vez em quão, me informava que colegas dele, intelectuais de peso, gostavam de meus artigos, com A. Tito Filho, Darcy Fontenele, Simplício Mendes, mais tarde, Wilson Brandão. Isso só me reforçou o desejo de continuar escrevendo.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Li autores diversos, brasileiros, portugueses e estrangeiros em traduções. Aliás, li tudo que me chamava atenção. Até gibis, fotonovelas, a revista O Cruzeiro. Não lia muito jornal na íntegra. Lia só o que me interessava. Ao mesmo tempo, me preparava , praticamente sozinho, a golpes de dicionários (como diria José de Alencar) e manuais da biblioteca de papai em línguas, francês, inglês e espanhol, um pouco de latim. Queria me preparar pra a atividade de crítica literária. Sentia que o meu caminho e onde m e achava mais confortável intelectualmente. Papai me incentiva. Sempre ate a morte, em 1990.
Acredito que tudo que li, principalmente de autores brasileiros, desde Rui Barbosa, José de Alencar, Humberto de Campos, Coelho Neto, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Machado de Assis e tantos e tantos outros autores, mais em ficção do que em poesia, pois me aproximei da leitura , de forma cerrada, só mais tarde, na universidade.
Só sei que sempre me preparei para a atividade crítica e ensaística. E nunca parei. E, por falar em crítica, acredito que a leitura dos grandes críticos brasileiros, do passado e do presente, Ronald de Carvalho, José Veríssimo, Sílvio Romero, Afrânio Peixoto, Agripino Grieco, Álvaro Lins, Afrânio Coutinho, José Maria Bello, Brito Broca, Tristão de Athayde, e, depois, Antonio Candido, Fábio Lucas, Robert Schwarz, Eduardo Portella, Olívio Montenegro, Temístocles Linhares, Davi Arrigucci, sem falar nos estrangeiros, como os formalistas russos, nos críticos do “New criticism”, e de outras correntes contemporâneas . Um parêntese: esta lista de críticos sai assim de improviso. . .

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

Foi quando, em 1966, lancei meu primeiro livro, Da Costa e Silva: uma leitura da saudade, na Academia Piauiense de Letras..

5 – Como conseguiu editar seus livros?

Não temo como negar: foi graças ao apoio que recebi do Embaixador Alberto da Costa e Silva que, com a colaboração de alguns membros da APL, conseguiram editar meu ensaio num convênio de APL com a UFPI.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

É uma pergunta inteligente mas difícil de ser respondida por um autor. Eu tenho um carinho geral por tudo que escrevo, já que o faço pensando em contribuir de alguma forma para este fluir da história literária. Penso ainda que escrevo em defesa do Homem e da Natureza. Por isso, me exponho, não me importando com repercussão que tenha, positiva ou negativamente. Não tenho medo das minhas limitações no campo das letras. De uma coisa esteja certo, escrever já faz parte da minha vida, da minha índole, da minhas constituição psicológica e principalmente do meu intelecto. O resto é silêncio, conforme diz belamente aquele livro de Érico Veríssimo.


7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí tem cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Em parte, sim. Devo, entretanto, dizer que há muitas falhas no que respeita a eleições de obras que são publicadas, aí mesmo no Piauí. Persistem certas igrejinhas camufladas, e isso me desagrada profundamente.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

Em meus artigos e ensaios, tenho provado que literatura que se faz atualmente no Piauí merece aplausos. Há um florescimento de muitos autores, nos diversos gêneros jovens e brilhantes, que não voou citar porque não quero cometer o erro crasso das omissões dos etcs. de Raquel de Queiroz.. Também me cabe declarar que ainda não se fez um amplo estudo crítico ou historiográfico que faça justiça não só aos bons autores do passado quanto aos da contemporaneidade. A historiografia piauiense é escassa em número de cultores. Faço votos que essa realidade mude em médio prazo, de vez que o tempo urge e a vida é breve e os autores, conquanto jovens, também são mortais.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

A Internet veio pra ficar. Tem defeitos, é claro. Sabendo usá-la pro bem, é um instrumento valiosíssimo dos tempos atuais Foi , depois, da Imprensa, a maior revelação dos meios de comunicação. Graças à Internet, todos ficaram mais conhecidos e divulgados. É um auxiliar ímpar do escritor e do pesquisador. Louvemos esse prodígio da pós-modernidade.

10 – Como e por que se fez literato?

Me perdoe, mas não gosto muito do termo” literato” Me parece algo antigo. Prefiro, à falta de melhor termo, simplesmente a designação de “escritor”.
Suponho que me tornei escritor, ou melhor, crítico, ensaísta ou cronista, por gosto, por prazer, por inclinação, componentes que muito foram estimulados pelo ambiente lá na casa de meus pais, junto de meus irmãos, alguns do quais também muito chegados à área das letras, do amor aos livros, à cultura, ao conhecimento das áreas humanas, da vida artística. Respirava-se livro por toda a parte e com constância. Tenho um irmão que é um escultor de muito talento, o Winston. A minha irmã Sônia foi muito ligada, tempos atrás, ao cinema. O meu irmão Evandro , à poesia e ficção, o meu irmão Emílio, já falecido, à pintura e poesia. Meu pai ele próprio, fez poesia e, bissextamente, ficção e apreciação crítica.. Pena é que meus irmãos não quiseram dar continuidade a essa tendência familiar para as letras, que vem do lado de meu pai. Da minha mãe, que tinha talento para o desenho, veio a herança plástica, o vigor pictórico, as mãos hábeis, inclusive para os bordados.