sábado, 15 de setembro de 2018

Síntese da Literatura Piauiense

Fonte: Google/Kenard Kruel


Síntese da Literatura Piauiense

Francisco Miguel de Moura
Da Academia Piauiense de Letras

A literatura do Piauí existe.

E é um fato mais do que provado. Desde quando existe, porém? E que obras e autores devem ser estudados na escola? Que períodos da nossa literatura já podem ser organizados e comparados com a brasileira?

Estas e outras questões estão sendo levantadas pelos professores e pelas autoridades do ensino, depois que a obrigatoriedade foi inserida no texto constitucional. É bom que se questione, por exemplo, porque um autor como Da Costa e Silva nunca obteve mais do que duas ou três citações lá fora, dois ou três sonetos divulgados em antologias nacionais. Saber também e principalmente porque os historiadores do "Simbolismo" não encontraram nada de nosso grande poeta Celso Pinheiro. Essas pesquisas são falhas porque não descem às fontes. São ditadas pelos "donos" da Literatura Brasileira, que acham que não residindo no Rio ou em São Paulo ninguém pode tornar-se literato a nível dos de lá (ou dos que publicam lá).

Ora, tivemos um Mário Faustino, piauiense de nascimento, que continua irrigando o pensamento e o fazer literário do país. Temos outro grande poeta mais recente, frustrado pela morte prematura, o Torquato Neto, que foi um dos mentores da "Tropicália".

Mas eles já estão divulgados no centro cultural do país (onde é que fica mesmo? Rio ou São Paulo? Belo Horizonte ou Brasília?) e ganharam o interesse da mídia.

E os Hermínio Castelo Branco, Teodoro de Carvalho Castelo Branco, José Coriolano de Sousa Lima, entre outros, que praticamente iniciaram o fazer literário no Piauí? Sabe-se que eram muito ligados ao povo e à terra, numa forma singela mas esteticamente bem aceita - literatura a nível de gente que não sabia ler mas sabia ouvir e gostava de ouvir. Eles, os citados, e mais alguns fizeram o nosso primeiro período literário - a geração da literatura popular e da terra, mais de cunho trovadoresco, digamos.

Antes desses, o nosso primeiro historiador literário, João Pinheiro, cita os nomes de Ovídio Saraiva(1787-1852) e Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco(1788-1873). Os textos desses dois autores ainda não considero literatura piauiense por alguns motivos. Os mais fortes são os seguintes: a) Com relação a Ovídio Saraiva, sua estética era portuguesa ainda, demonstrando a forte influência arcádica e com acentos bocagianos; apenas nasceu na Vila de São João da Parnaíba, em 1787; com 6 anos seus pais o arrancaram da terra berço como ele bem diz numa estrofe; mas foi o único poema em que fez referência ao Piauí,sem citar o nome de nossa Província; estando em Lisboa, foi eleito representante do Piauí na Corte e não aceitou a representação, o que prova não ser verdadeiro o sentimento de brasilidade registrado, o seu amor à terra berço. b) Com relação a Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, é o próprio João Pinheiro quem diz: "faltavam-lhe as precípuas qualidades de poeta e prosador". Tentou a invenção do moto-contínuo: era um experimentador, na ciência. Mas seu poema "A Criação Universal" foi publicado fora do Brasil e não teve repercussão em nossa literatura. Seu nome ficou na história política de nossa Estado por causa da viva participação que teve nas lutas da nossa independênica.

Por outro lado, à época em que foram publicados os "Poemas", de Ovídio Saraiva, e "A Criação Universal", de Leonardo Castelo Branco, respectivamente 1808 e 1856, não havia literatura no Piauí nem a menor possibilidade disto, em virtude da quase inexistência de escolas, jornais, bibliotecas e até mesmo de leitores. Literatura em seu sentido histórico é obra coletiva. Por melhor e mais forte que seja, um autor não constitui uma Literatura. Como não havia uma escrita nossa, nem publicações e outros incentivos, exceto jornais de cunho político ou oficial, então por que falar em literatura no seu sentido específico?

Dois fatos importantes da história política do Piauí marcaram a vida dos piauienses, a julgar pela quantidade de livros a respeito: a Batalha do Jenipapo (1823) e a transferência da Capital de Oeiras para Teresina(1852). Com o primeiro, houve o despertar da consciência de que a Província era uma entidade, um lugar e uma instituição que devíamos preservar e amar. Com o segundo, houve o deslocamento do centro político para sítio mais acessível e as informações da Corte chegavam mais rápidas, além de um possível melhoramento comercial. Ambos trabalharam com a consciência desse homem isoladíssimo que era o piauiense.

Considero que a nossa primeira geração, aquela da poesia popular e espontânea de J. Coriolano ("Impressões e Gemidos", 1870), Hermínio Castelo Branco ("Lira Sertaneja", 1887), Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco ("A Harpa do Caçador", 1884) e da prosa regionalista de Francisco Gil Castelo Branco ("Ataliba, o Vaqueiro",1878), firmou-se após a mudança da Capital de Oeiras para Teresina e, consequentemente, o estabelecimento de uma imprensa constante e a comunicação com os centros mais adiantados como Recife, Bahia, além da Capital do Império. Veio, em seguida, a geração acadêmica, a dos fundadores da Academia Piauiense de Letras (1917). A nossa Academia é a mais antiga, permanente, ininterrupta instituição cultural. Essa segunda geração da nossa literatura, ou segundo período, abriga não somente os que fundaram a APL, mas todos aqueles que viveram aquela época, beberam as doutrinas filosóficas da Escola de Recife e trouxeram o novo para a sua terra. Também os que aqui ficaram e passam a comungar com os que iam chegando. São, principalmente, Lucídio Freitas ("Vida Obscura",1917) e Alcides Freitas ("Alexandrinos", 19l2, de parceria com o irmão Lucídio Freitas), João Pinheiro e Celso Pinheiro, Abdias Neves e Félix Pacheco, Da Costa e Siva e o próprio Clodoaldo Freitas, pai do Alcides e Lucídio, entre muitos outros.

Tivemos em seguida o que seria o terceiro período da nossa literatura, que considero um quase VAZIO LITERÁRIO, mas cheio de gramáticos (que não escreveram nenhuma gramática), cujo nome mais representativo é o do Prof. Clemente Fortes - um dos fundadores da Faculdade Católica de Filosofia do Piauí. Nesse período floresceram os filólogos, os latinistas, mas poucos escritores. Como a definição que faço de "geração" não tem nada a ver, ou muito pouco, com aquela de Ortega y Gasset, onde predomina a biologia, indo a distância entre uma e outra a, no máximo, 15 anos, considero que após o envelhecimento e morte dos poetas e prosadores da "geração acadêmica", prolongou-se uma outra - filha da Academia, pelos padrões estéticos - a que chamo de segunda geração acadêmica, que se interpenetra com esse período quase vazio, ou melhor, cheio de gramáticos. É um período confuso, onde a gramática briga com a literatura, vencendo aquela. A segunda geração acadêmica prolonga-se até os nossos dias, sendo produto dela um Oliveira Neto, um Luís Lopes Sobrinho, um Júlio Martins Vieira, uma Isabel Vilhena, as duas Castelo Branco (Lilizinha e Lili), um Almir Fonseca, um William Palha Dias ("Endoema",1965), Alvina Gameiro ("A Vela e o Temporal",1957) e o próprio Professor A. Tito Filho dos primeiros escritos, não o de "Teresina, Meu Amor", 1973, um livro atualizado que o coloca ao lado da geração meridiano. Considero o jornalista e professor Simplício de Sousa Mendes, Presidente da Academia Piauiense de Letras por muitos anos, o mais típico representante dessa geração indecisa. Introdutor do modernismo, tardiamente, no Piauí, foi o jovem José Newton de Freitas ("Deslumbrado", 1940), vindo a falecer no mesmo ano, antes da publicação. Mas deixou a marca em alguns poemas que nos dão a certeza de ter absorvido o verso moderno, as técnicas e a filosofia do modernismo, embora vivendo na província. Martins Napoleão ("Copa de Ébano",1927), fecundamente enriquece aquele período quase vazio a que me referi e entra com sua produção pelos anos 40 e 50. Foi ele, sem dúvida, um grande poeta. Mas não é o principal representante do modernismo, pois a sua estética era mesclada de um sabor de tardio simbolismo e seu espírto, mais sincrético do que moderno. Precisa ser mais estudado no seu estilo pessoal e no que possa ter influído na cultura da nossa terra, posto que vivia muito mais lá (no Sul) do que aqui. Não esquecer que o prosador, o ficcionista desse período - os anos 40 - é Renato Castelo Branco, com o seu bem logrado romance "Teodoro Bicanca"(1948).

Depois dessas três gerações citadas, uma com dois períodos (a acadêmica), já podemos falar na geração "meridiano", cujos nomes representativos praticamente encerraram seu ciclo criativo: O. G, Rego de Carvalho, com seus belos romances pessoais e profundamente sentidos; H. Dobal, com sua poesia lírica em que adota as formas do modernismo de 45, mas não estaciona naquelas metáforas e imagens formalistas e herméticas - inova-as com o cheiro da terra e o gosto do simples e quase sempre bom humor; Fontes Ibiapina recupera o falar do nosso caboclo e, transgredindo-o numa estética popular e consumível pelas populações da roça e da cidade, conquista admirável estilo pessoal e telúrico; Assis Brasil, renovando o romance, introduz um novo regionalismo que marca o sentimento interior através de novas estruturas e novas formas de falar do homem, e faz-se expresão do meio. Há outros que poderíamos citar, de passagem: J. Ribamar Oliveira, Osvaldo Soares dos Nascimento, José Expedito Rego, Carlos Castelo Branco ("Continhos Brasileiros", 1952), Álvaro Pacheco ("Os Instantes e os Gestos", 1958), Clóvis Moura, etc. Enfim, são esses que a escola secundária e a universidade têm obrigação de levar ao aluno, em primeira mão. A maioria deles está em nível dos bons autores considerados "nacionais".

Outros virão a seu tempo. Hardi Filho ("Cinzas e Orvalhos", 1964), Magalhães da Costa ("Casos Contados",1970), Herculano Morais ("Murmúrios ao Vento, 1965"), Castro Aguiar ("Adolescente de Rua", 1962), Geraldo Borges e Pedro Celestino de Barros já têm obra que suporta uma visão crítica. E talvez mais alguns nomes daquela que o crítico José Pereira Bezerra chama de "geração CLIP". Como faço parte dela, me abstenho de alongamento. Deixo que outros o façam. Porque a história só se escreve quando o ciclo de criação se encerra. Os reflexos do "Círculo Literário Piauiense", do jornal "Chapada do Corisco", da revista "Cirandinha" ainda estão por aí, na lembrança e à mão dos que se derem o luxo de ler e pesquisar o passado mais recente, como o citado crítico José Pereira Bezerra, no seu livro "Anos 70: Por que Essa Lâmina nas Palavras?" Quando muito, somos apenas balas na agulha da história literária. E assim como nós, outros cuja enumeração seria fastidiosa e passível de injustiça.

Até aqui, não falamos nos críticos. Nossa literatura é pobre de crítica. Justifica-se, porque também é uma literatura pobre, com alguns poucos autores muito fortes. Mas, em cada período literário, se bem observarmos, temos um crítico, um historiador, ou ambas as figuras. Cada geração que se preza tem o seu historiador e os seus críticos. O historiador da que chamei de primeira geração literária do Piauí foi João Pinheiro, com "Literatura Piauiense"(1937), ainda hoje uma obra válida como fonte de pesquisa literária e cultural. As gerações acadêmicas tiveram o Professor A. Tito Filho que, como disse noutra parte, foi um historiador que se deixou frustrar por muitas outras solicitações, inclusive dando seu tempo integral como dirigente da "Casa de Lucídio Freitas", durante vinte anos. Depois veio o Professor Paulo Nunes, crítico da geração que chama de "perdida" e que eu apelido de "meridiano". Deve-nos ele um inventário mais consistente da geração, embora em seus discursos acadêmicos já tenha apontado o que há de essencial, digamos, tal como nos poucos capítulos referentes aos nossos valores, inseridos no livro "A Geração Perdida" (1979). Herculano Morais é o crítico da geração "clipiana" em "A Nova Literatura Piauiense", 1975, principalmente, e José Pereira Bezerra apresenta-se agora como o historiador e crítico da sua propria geração, já por muitos apelidada de "marginal" ou do "mimeógrafo". Seu trabalho, embora com alguns senões, merece nosso aplauso, e certamente é um ponto de partida para o registro e estudo da continuidade do fenômeno literatura, especialmente a poesia, no que tem sido fértil o Piauí no passado e nos últimos tempos também. Alcenor Candeira Filho, Beth Rego, Chico Castro, Elmar Carvalho, Émerson Araújo, Jorge Carvalho, José Pereira Bezerra, Menezes y Morais, Nelson Nunes, Paulo Machado, Raimundo Alves Lima, Rubervam du Nascimento, William Melo Soares e Wilton Santos, são os antologiados, ficando a ficção com bem poucos interessados e estes sem terem seus textos escolhidos e mostrados, na íntegra, por Pereira Bezerra.

Depois deste relato, colocamos à disposição de todos um quadro de balizamento das gerações no tempo, melhor dizendo nas décadas, gerações que acabamos de delinear esteticamente. Este quadro continuará a ser refeito até quando eu termine de escrever e publicar meu livro "Literatura do Piauí" (*), com antologia e histórico detalhado do fenômeno literário em nossa terra.

Q U A D R O

No século passado (dos anos 70 em diante):

1ª geração - Poesia popular, sertaneja; prosa romântica e também regional.Representantes: J. Coriolano, Hermínio Castelo Branco, Teodoro de Carvalho e S. Castelo Branco, Francisco Gil Castelo Branco, Luísa Amélia de Queiroz Brandão, Raimundo de Areia Leão, José Manoel de Freitas, Antônio Gentil de Sousa Mendes, Licurgo José Henrique de Paiva e João José Pinheiro.

Do início deste século aos anos 20:

2ª geração - Na poesia, mistura de parnasianismo e simbolismo; na prosa, naturalismo. Representantes: os fundadores da Academia e outros que os acompanharam na renovação do pensamento e da estética: Lucídio Freitas, Clodoaldo Freitas, Alcides Freitas, Da Costa e Silva, Celso Pinheiro, João Pinheiro, Abdias Neves, Félix Pacheco, Higino Cunha, Jonas da Silva, Antônio Chaves, Zito Batista, Esmaragdo de Freitas, Baurélio Mangabeira, Fenelon Castelo Branco, Nogueira Tapety e outros mais.

Dos anos 20 aos 30:

3ª geração - Também acadêmica, embora alguns nem participassem da Academia. Representada por estética indecisa, mais voltada para um classicismo via de regra estéril e sem correspondência no sentimento. Representantes: Júlio Martins Vieira, Oliveira Neto, Isabel Vilhena, A. Tito Filho, Luiz Lopes Sobrinho, Almir Fonseca, as duas Castelo Branco (Lili e Lilizinha) etc.

Dos anos 30 aos 40:

4ª geração - Gramática e pouca literatura. Geração que seria totalmente vazia, não houvesse o poeta Martins Napoleão. Dos gramáticos que escreveram livro, vingou o Professor Antônio Veríssimo Castro, vulgo Tonhá, com "Adornos de Palavras" (1949). O Professor Paulo Nunes refere-se a outros grandes mestres da época, entre os quais Anísio Brito, Odilon Nunes e Martins Napoleão, sem esquecer os mais expressivos do período, Profs. Clemente Fortes e Cromwell de Carvalho.

Dos anos 40 aos 50:

5ª geração - Introduz a estética modernista, com bastante atraso, no Piauí. Representantes: Antônio Veras de Holanda, José Newton de Freitas e Martins Napoleão, na poesia; na prosa, Renato Castelo Branco ("Teodoro Bicanca", 1948).

Dos anos 50 aos 60:

6ª geração - Os meridianistas. Introduzem a estética de 45 e outras diferenciadas de 22. Representantes: O. G. Rego de Carvalho ("Ulisses Entre o Amor e a Morte", 1953), Assis Brasil, Fontes Ibiapina, H. Dobal, Álvaro Pacheco, Álvaro Ferreira, Esdras do Nascimento etc.

Dos anos 60 aos 70:

7ª geração - Os clipianos. Trabalham com as estéticas dos movimentos modernistas até então, mas incluem o poema concreto e uma certa assimilação das "vanguardas". Praticamente não houve renovação na prosa, exceto no conto (Magalhães da Costa, com "Casos Contados" (1970), e Gregório de Morais, com "Sol dos Aflitos" (1975), representantes do gênero. Muitos poetas: Hardi Filho, Francisco Miguel de Moura, Herculano Morais, Jamerson Lemos etc.

Dos anos 70 aos 80:

8ª geração - Marginal ou do mimeógrafo. Estética nitidamente tropicalista. Representantes: Alcenor Candeira Filho, Cineas Santos, Rubervam du Nascimento, William Melo Soares, Beth Rego, Chico Castro, Venâncio do Parque, Dílson Lages, Elmar Carvalho, Jorge Carvalho, João Pinto, Ozildo Batista de Barros etc.

Atualidade - anos 90: É difícil saber para onde vamos neste fim de século. Quem souber, responda.

OBRAS CONSULTADAS:

1 - Aires, Félix - Antologia de Sonetos Piauienses, APL/Gov. do Estado, Teresina, 1972.

2 - Bezerra, José Pereira - Anos 70: Por que Essa Lâmina nas Palavras? Fundação Cultural Mons. Chaves,Teresina, 1993.

3 - Moraes, Herculano - Visão Histórica da Literatura Piauiense, Liv. Editora Hércules, Teresina, 1991 - 3ª ed.

4 - Moraes, Herculano - A Nova Literatura Piauiense, Artenova, Rio, 1975.

5 - Matos, J. Miguel - Antologia Poética Piauiense, Artenova, Rio, 1974.

6 - Moura, Francisco Miguel de - Piauí: Terra, História e Literatura, Ed. do Escritor / Cirandinha, S.Paulo, 1980.

7 - Nunes, M. Paulo - A Geração Perdida, Artenova, Rio, 1979.

8 - Pinheiro, João - Literatura Piauiense, Imprensa Oficial Teresina, 1937.

(*) O livro Literatura do Piauí, de Francisco Miguel de Moura, já foi publicado, tendo tido duas edições, uma de 2001 e outra de 2013 (a segunda revista, melhorada e ampliada). (Nota de EC)

Fonte do texto: Blog Kenard Kaverna   

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

REFLEXÃO SOBRE O CHAMADO ENSINO DOMICILIAR

Fonte: Google/Nova Escola


REFLEXÃO SOBRE O CHAMADO ENSINO DOMICILIAR

Cunha e Silva Filho

         Na área da Educação Brasileira, a questão do Ensino Domiciliar, de resto, ainda muita polêmica entre educadores, está, a meu ver, necessitando de ser amadurecida, amplamente discutida   antes de ser transformada em sistema de ensino alternativo a ser implantado no país.

        Minha posição é contrária à disseminação dessa abordagem de ensino, porquanto ela suscita muitas indagações como, por exemplo, estas:  Lares fechados? Filhos antissociais? Pais se transformam em tutores de seus próprios filhos e ficam, assim, afastados da dinâmica social?

       Pais não são sempre professores nem tampouco dominam todas as matérias do ensino oficial e o arcabouço da legislação escolar em vigor.   Os pais de alunos não foram ensinados a ser professores. Não estudaram nem foram treinados em profundidade em disciplinas tais como alfabetização, língua portuguesa, linguística, filologia, didática, filosofia da educação, psicologia educacional, prática de ensino. 

     A tela do computador ou um celular ou qualquer outro gadget de aprendizagem não são absolutamente equiparáveis à aula ministrada na sala por um professor de carne e osso, um professor graduado e licenciado para ministrar   sua disciplina específica.     

A Escola do Futuro, antes de mais nada, não pode dispensar a presença dos professores. A escola é a escola. O lar é o lar. Este é apenas complemento daquela. E o homem gregário não vale mais? Nem tudo que é novo é bom. A tecnologia é bem-vinda, desde que tenha limites também e não tome o espaço do humanismo.

       Essa questão é realmente séria e preocupante. Cheira-me a comportamentos distópicos. Ou seja, a ruptura da interação saudável de alunos com alunos em ambiente de escola do tipo tradicional deve e tem que prevalecer como a via ainda mais adequada em qualquer tempo.    

      O mestre será sempre a ferramenta maior e melhor do ensino-aprendizagem e seu convívio nas salas de aula é algo insubstituível sob pena de perdermos o elo com os aspectos humanísticos, da formação integral do educando, os quais devem ser preservados a todo custo nas culturas civilizadas.

    A era da altíssima tecnologia já está dando seus frutos nefandos. Na Educação, a coisa fica assim mais complexa e perigosa. Por conseguinte, que se tenha muita calma, muito descortino e muita cautela antes de tentarmos substituir professores formados e aptos a lecionarem com conhecimento de causa o alunado brasileiro.  Pensemos, portanto, reitero, com maior profundidade essa questão.   

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Didi

Didi em fevereiro de 2010
Na Várzea do Simão, na proa do Tremembé, em 2016, vendo-se ainda Chico Ribeiro, Elmar e Natim Freitas (piloto)



DIDI

Elmar Carvalho

Quando eu voltava ao meio dia e meia para casa, vi o Didi a trabalhar na casa de um dos meus vizinhos. Estava literalmente com as mãos na massa, razão pela qual elas estavam sujas de argamassa. Enquanto o Didi trabalhava, meu vizinho enxugava uma cerveja estupidamente gelada, a olhar o trabalho.

Parei o carro, para cumprimentá-los. Fiz menção de pegar na mão do Didi, mas ele negaceou, dizendo que suas mãos estavam sujas. Respondi que elas estavam sujas para ele próprio, mas para mim estavam mais limpas do que as de certos engravatados, mais limpas do que os colarinhos de certos políticos, sobretudo do Distrito Federal.

Conheço-o faz vinte e cinco anos, desde que vim morar no conjunto Memorare, onde resido até hoje, onde eu e minha mulher criamos nossos dois filhos. Ele ganha a vida prestando pequenos serviços aos moradores, sempre respeitador e bem-humorado, sem nunca se queixar, sem nunca se maldizer.

Conquistou a estima e a amizade de todos. Às vezes, amanhecia sem um centavo no bolso, mas nunca demonstrava preocupação, e tudo acabava dando certo para ele. Didi sempre me faz lembrar as palavras de Cristo, quando falava que as aves não têm celeiro, mas nunca lhes falta o que comer; que os lírios do campo não fiam e não tecem, mas que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestia como um deles.

Didi é mais milionário do que muitos arquimilionários porque pouco possui, mas o que tem lhe é o bastante, e nasceu desprovido da ganância e da ambição. Portanto, tem o reino do céu, aqui mesmo na terra. Sem dúvida, é um bem-aventurado.

21 de fevereiro de 2010   

domingo, 9 de setembro de 2018

Seleta Piauiense - Alcenor Candeira Filho

Alcenor em charge de Fernando di Castro


Carga

Alcenor Candeira Filho (1947)

Carrego uma carteira de identidade
e mais outra de motorista
um titulo de eleitor
um certificado de reservista
um cartão de C.P.F.
uma certidão de nascimento
e outra de casamento
um diploma de bacharel
um seguro de vida
(em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
carrego uma calça
(uns trocados no bolso)
uma camisa
uma cueca
um sapato
muitas chaves
um automóvel
e um relógio
— e mais o peso abstrato da existência.

Fonte: site Jornal de Poesia   

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Vida de Agrônomo (3) – O portentoso Araguaia

Fonte: Google


Vida de Agrônomo (3) – O portentoso Araguaia

José Pedro Araújo
Romancista, cronista, contista e historiador

Depois um pequeno período trabalhando na EMATER-MA, fui prestar meus serviços no INCRA, no Projeto Fundiário Araguatins, situado naquela cidade do norte goiano ( hoje Tocantins). Foi uma experiência incrível, dado às diferenças que encontrei por lá. Cidade pequena e isolada, assentada sobre os barrancos altos do rio Araguaia, a região ainda vivia sobre os efeitos da Guerrilha do Araguaia, movimento que acabou por causar muitos transtornos e dissabores à população da região em que os membros do PCdoB escolheram para lançar suas bases. Povo desconfiado, inquisidor, dizia-se que noventa por cento deles era originário de algum estado nordestino. E entre esses, alguns tinham ido parar ali para fugir de alguma pendência com a justiça do seu estado natal. Vem daí, talvez, o fato de não gostarem de estranhos transitando pela sua cidade.

Para desgosto de alguns, e felicidades de tantos outros, o INCRA se estabeleceu na região trazendo um contingente com mais de cem pessoas, a maioria jovens que ocupavam o seu primeiro emprego. Imaginem a algazarra que fizeram na cidade. Muitas repúblicas foram formadas pelos funcionários solteiros (a maioria deles), e logo os barzinhos que viviam às moscas, passaram a contar com um número grande de fregueses habituais. Acabou a calma da pequena comuna que viveu isolada do restante do mundo por mais de um século. Diante disto, era comum ouvir a frase “tu é doido ou trabalha no INCRA?”.

Quando cheguei à região, o projeto já havia sido instalado há mais de um ano. Ocupava um velho e imponente casarão situado bem na beira do rio. Gostei da energia que emergia daquele lugar logo de cara. As pessoas pareciam está no seu momento mais feliz da vida, e a alegria se irradiava pelo longo corredor que ia de uma ponta a outra do prédio. Essa alegria era multiplicada quando a sexta-feira chega e, após o expediente, a maioria dos funcionários se apropriava das mesas do Pigale, um barzinho com a proposta de ser uma boate, situado no outro lado da praça. Estava apenas começando o final de semana de muita bebida e brincadeiras. Alguns extrapolavam mesmo. Era moda soltar foguetes durante todo o dia, como se comemorassem a vida. O delegado da cidade teve que chamar os mais afoitos à razão para acertar um pacto de silêncio.

Enquanto não encontrava espaço em uma das várias repúblicas formadas, fiquei residindo em um hotel próximo ao trabalho: Mogno Hotel. Tratava-se de um edifício todo de madeira de lei (mogno, como evidencia o seu próprio nome), dois pisos, construído também sobre o alto barranco do rio, defronte a algumas mangueiras seculares que embelezavam uma calçada que beirava o Araguaia. Era um local muito bonito e aconchegante, e o seu proprietário um polonês que dizia ser primo legítimo do papa João Paulo II. Rigoroso com as normas que estabeleceu, o proprietário transformou o seu estabelecimento em local tranquilo e respeitável.

Em uma manhã de sábado, estava eu sentado na frente do hotel e tentava espantar uma exagerada calma que havia me trazido uma melancolia profunda. Para tanto, fiquei observando alguns garotos subirem nos altos galhos das mangueiras e se atirarem nas águas, de uma altura de mais de cinco metros. O Araguaia, para quem não conhece, é um dos mais belos rios deste país abençoado pela fartura das suas águas. Largo, corrente aparentemente calma, possui naquele ponto uma profundidade muito grande. Ao observar a atividade daqueles garotos, comecei a me preocupar com a segurança deles. Meninos muito pequenos seguiam o exemplo dos maiores e também se atiravam lá das alturas naquelas águas, despreocupadamente.

Estava assim, quando se aproximou de mim o polonês, homem alto e enérgico, que ao me ver assim tão interessado com o acontecia do outro lado da estreita rua, falou que aqueles meninos pareciam não ter pai nem mãe. Concluiu dizendo que quase todos os meses morria alguém afogado naquele rio, mais os genitores daqueles garotos pareciam não se importar com isso e largavam os filhos sozinhos naquela beira de rio.

Curioso, perguntei se o rio era perigoso mesmo. Ele me respondeu que aquela calma aparente do Araguaia já havia enganado muita gente. Que uma vez dentro dele era que se via que a sua corrente era vigorosa e traiçoeira. Aí então me contou uma história surpreendente, quase inacreditável. Havia criado seus filhos, quando pequenos, quase o tempo todo dentro de uma gaiola. E que, por esse motivo, passou por alguns problemas com a promotoria local. A população ficara horrorizada com o que ele fazia para proteger a família, e o denunciou à promotoria de justiça. E discorreu mais sobre o assunto:

Preocupado com a segurança dos filhos, uma vez que vivia o dia inteiro fora, enquanto a mulher tinha que cuidar da casa, construiu uma enorme gaiola de madeira, medindo três metros de largura e outro tanto de comprimento, que era içada através de uma roldana, depois de colocadas as crianças dentro. Pareciam pássaros presos em uma gaiola a um metro e meio do chão. Dentro da gaiola, deixava alguns brinquedos para eles se divertirem enquanto o tempo passava. E logo o povo da cidade passou a dizer que ele criava os filhos como se fossem pássaros. E depois de algum tempo a história chegou aos ouvidos do promotor de justiça que o convocou para dar explicações sobre o fato.

O polonês contava isso com paixão ainda, passados já muitos anos do ocorrido. Não me contive e perguntei a ele como se defendeu frente à autoridade judiciária. “Disse para ele que o método que eu empregava na criação dos meus filhos podia até parecer esquisito, mas estava mantendo todos vivos. E enquanto isso, todos os dias quase, algum menino se afogava no rio”.

Disse-me, por fim, que o promotor não aceitara as suas justificativas e ordenara que ele não prendesse mais os meninos na gaiola. E foi então que ele pensou em construir o hotel e mudou o tipo de atividade que ele desempenhava, de modo a ficar mais próximo dos filhos. Foi assim que surgiu o hotel Mogno.

Fiquei imaginando a inacreditável cena descrita por ele: três crianças presas em uma grande gaiola suspensa para impedir que se afogassem no rio. Efetivamente, dava para escandalizar. Mas, realmente, não dava para dizer que a saída encontrada por ele – a de proteger as suas crianças do rio - não possuía uma eficiência inquestionável.

Como afirmei lá atrás, o lado de Goiás possuía um barranco alto, enquanto que o outro lado, o paraense, era mais baixo. E quando o rio começava a encher, levava meses para atingir a cota máxima, uma vez que as águas se espraiavam no lado do Pará e deixavam o rio com uma largura de muitos quilômetros. E para fugir da enchente, muitos animais ferozes atravessava o rio à procura do lado mais alto. Em um ano de grande cheia, presenciei quando uma gigantesca onça pintada tentava alcançar o lado goiano do rio e foi caçada por algumas pessoas em um barco e abatida a tiros. Imaginei o problema que aquela onça criaria para os habitantes da cidade se tivesse conseguido chegar até a margem. Do mesmo modo, vi quando abateram um jacaré tão grande como eu nunca havia visto antes. Pareceu-me tão velho, que as costas do lagartão continha um limo esverdeado. E só conseguiram abatê-lo quando atiraram no olho do bicho, pois as balas não conseguiam perfurar o seu couro.

Quando as águas, enfim, superaram a barreira do lado goiano e entraram nas casas mais próximas ao rio, tivemos que evacuar o prédio da instituição, aonde a água chegou a mais de metro de altura.  E quando baixaram, depois de muitos dias, encontramos dentro do velho casarão uma grande quantidade de cobras, aranhas e outros bichos peçonhentos. Ficamos ilhados na cidade também. Por muitos e muitos dias não pudemos sair para qualquer outra cidade vizinha. E o desabastecimento fez encarecer muito os poucos produtos que por lá chegavam.      

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Mergulhando nas lembranças de Cavour


Mergulhando nas lembranças de Cavour  

Elmar Carvalho

Passei boa parte da manhã deste domingo a folhear, mui lentamente, o livro-álbum da autoria de Raimundo Nonato Caldas (Nonato Cavour), referente às décadas de 1940/1960. Li e reli, salteadamente, vários trechos e legendas. Me concentrei nas fotos de carros, pessoas, prédios, praças e paisagens. Em decorrência, tomei a deliberação de lhe fazer este comentário, em formato de crônica, algo memorialística, para lhe dar mais leveza e melhor condimento, assim espero, e em que desejo fazer intertextualizações contrapontísticas com versos de minha própria autoria.

Tendo chegado a Parnaíba, para morar com meus pais e irmãos, em junho de 1975, posso dizer que tive o privilégio de conhecer a Praça da Graça em seu belo desenho antigo, sem a reforma que a descaracterizou, e que despojou o parnaibano de boa parte de sua memória visual e afetiva, talvez a lembrança da primeira namorada, as recordações da infância e da adolescência no velho e lindo logradouro, no qual residi por muitos anos. Vi a pérgula, o tanque com os peixes e a tartaruga, o antigo coreto, e o elegante traçado dos passeios e jardins, ornados pelos postes de ferro, quase esculpidos, encimados por luminárias em forma de globo. Nela vicejavam orgulhosas e imperiais palmeiras. Já ali pontificava o Louro e a sua Banca de Revista.

Acompanhei a destruição da praça e a colocação dos tapumes, designados pelo povo como sendo o “muro da vergonha”, porque lhe escondia os escombros. Acompanhei sua demorada e problemática reconstrução. O jornal Inovação se insurgiu contra essa reforma e em seus números mensais destilava suas ferinas catilinárias contra os seus promotores e mentores. Em memorável noite a população, sobretudo estudantes, derrubaram e empilharam os tapumes e lhes atearam fogo. Como eu morava na praça, peguei uma motocicleta ou bicicleta, já não me lembro, e fui chamar o Reginaldo Costa e o B. Silva, “inovadores” que moravam na rua Vera Cruz. No dia seguinte houve um verdadeiro carnaval extemporâneo, com passeata de carros e muito buzinaço e foguetório. O Inovação lançou uma edição especial, comemorativa, na qual foi publicado meu poema Balada da Praça da (Des)Graça.

Numa fúria ao mesmo tempo
diabólica e divina,
o povo cheio de uma
dor bem sentida e tristonha
destrói o “Muro da Vergonha”.

Ao folhear o livro do Cavour, fiz uma grande viagem no tempo e no espaço, sem necessidade de parafernálias tecnológicas, com a vantagem adicional de sentir as mesmas emoções saudosistas da época em que vi esses prédios, esses carros antigos pela primeira vez. Vendo a fotografia do depósito imponente da firma Pedro Machado, na beira do Igaraçu, recordei as vezes em que por ali passava em minha motocicleta, simplesmente a passeio, para contemplar os barcos, grandes gaiolas ou chalanas, o rio e as altas chaminés, ou em demanda do Bar do Augusto, o Recanto da Saudade, para tomar uns bons goles de cerveja, enquanto ouvia as lindas músicas extraídas de um bom e velho vinil, cujo discreto chiado ainda ouço em minha memória e numa vitrola retrô que adquiri, para essa finalidade. As grandes chalanas ali já não aportam e o Augusto ficou encantado, numa outra e melhor dimensão do espaço-tempo.

Onde, agora, o Augusto?
Onde, agora, a vitrola, a música e o bar?
Como nos versos sublimes de Bandeira,

ficaram de pé, suspensos no ar. . .
Encantados no destempo de um tempo
sem passado, sem futuro, sem presente.

A velha maria fumaça, negra, enfumaçada, fuliginosa, que ainda alcancei em plena atividade, é uma espécie de símbolo de um tempo épico, de muito esforço e trabalho, quando a Parnaíba empresarial e industrial era a mais pujante e imponente cidade do estado, com seus grandes e suntuosos solares, palacetes e sobrados. A construção da estrada de ferro e do canal São José, que engrossou as águas do Igaraçu, para melhorar a sua navegabilidade (que ainda presenciei, no início de sua decadência, quando o extrativismo econômico iniciou a sua derrocada final), foram dois marcos do notável empreendedorismo parnaibano.

E a água do Igaraçu
é uma lágrima de saudade
                                                 (ou sal’dade?)
do fastígio de outrora.
Os parcos barcos são
poemas de chegadas e partidas
e símbolos da decadência.

Nessa época eu ouvia o apito da Moraes S. A., que ainda fabricava os seus produtos, como o óleo de babaçu, hoje considerado vilão alimentício, e o sabonete de glicerina. Um penacho de fumaça ainda ornava sua enorme chaminé, símbolo de seu fastígio. Muitos anos depois, em meados de 80, esse apito melodioso enchia as tardes ensolaradas, e eu me comovia, e voltava para o tempo do final de meu adolescer, em que as emoções se atropelavam em meu peito. O meu romance Histórias de Évora, publicado em 2017, tem como pano de fundo o final dessa época áurea, tempo de orgulho, riqueza e trabalho.

Uma da tarde. O apito da Moraes
estridula no ar. Emocionado
sinto como se o tempo houvesse parado
e eu me encontrasse ainda
preso às âncoras do passado.

Folheando e fruindo essas páginas de “Mergulho nas lembranças da minha ‘Parnaibinha’ – anos 40/60”, revi muitos amigos e conhecidos. Alguns já ocupam lugar de destaque no panteão de meu peito, e deles sinto saudade; uma espécie de saudade alegre, pela satisfação de tê-los conhecido, de lhes ter desfrutado a companhia e uma boa conversa. Claro está que não conheci todos; mas conheci boa parte deles. Muitos desses personagens, assim como outros não referidos, foram objeto de alguma crônica minha, enquanto outros foram estampados em meus PoeMitos da Parnaíba, entre os quais Pacamão (sr. Pereira), Maria das Cabras, Luse e o velho Marechal de mar e guerra, enquanto outros aparecem disfarçados ou dissimulados nas minhas Histórias de Évora.

Maluco, se dizia alta
autoridade do planalto.
(...)
Davam-lhe plaquetas e selos
e pequenas chapas de metal:
eram as condecorações e os
distintivos com os quais desfilava
entre continências de
risos e zombarias.

Muitos foram meus professores no curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso. Muitos são de minha maior estima e admiração, como o Canindé Correia, Alcenor Candeira Filho e Dr. Lauro Correia, que foi meu diretor e professor no CMRV – UFPI. No primeiro ano, quando eu ainda não tinha motocicleta, esperava o ônibus escolar na escadaria do pátio da igreja de São Sebastião, que ainda não era gradeado. Os monsenhores Antônio Sampaio e Roberto Lopes ainda estão vivos em minha saudade. O primeiro foi meu professor na faculdade e meu antecessor nas Academias Piauiense e Parnaibana de Letras; o segundo, é o patrono de minha cadeira na APAL. Ó bons tempos em que ainda se podia conversar na calçada, sem risco de assaltos e sobressaltos.

memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.

No capítulo Minhas Contemporâneas faz referência às belas garotas, que ornaram a Parnaíba de sua adolescência e juventude. Muitas não conheci, porque foram morar em outras paragens. Contudo, lhes conheci a beleza e a simpatia, através das fotos e das descrições que Nonato Cavour lhes faz no seu notável livro. Posso dizer que, na segunda metade da década de 70, na Praça da Graça e na Praça Santo Antônio, desfilavam as mais lindas moças em flor do Piauí, para dar uma conotação proustiana a esta crônica evocativa.

Parnaíba sempre foi referta de belas mulheres, de verdadeiras rainhas da beleza, de sinuosas curvas, miragens e viagens, tendo legado ao Piauí muitas misses. À tarde, uma bela da tarde, ou uma belle de jour, numa tarde azul, de um domingo azul qualquer, como na música de Alceu Valença, passeava sua beleza soberba por entre os   soberbos oitis da Santo Antônio. Após, a bela da tarde ia degustar, sem pressa, um sorvete de murici ou bacuri, na sorveteria do amigo Araújo, que então já imperava nesse ramo de atividade.

Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes –
pálidas  cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.

Como observou o dramaturgo, poeta e escritor Benjamim Santos, que figura em negrito, itálico e neon no livro, com todo o destaque que lhe compete, uma segunda edição, talvez aumentada, com uma melhor revisão e diagramação, daria à obra uma maior beleza plástica, que ela bem merece. Ela há de permanecer em minha biblioteca, em lugar de realce e relevo, de onde eu posso retirá-la para novos e mais profundos mergulhos.

Para coroar esse belo e agradável passeio proporcionado por esse livro, também percorri os poemas e as fotografias de “Parnárias – poemas sobre Parnaíba”, livro-álbum editado pelo SESC-PI e organizado pelo grande poeta Alcenor Candeira Filho e por mim, e ilustrado pelas excelentes fotografias de Inácio, o velho Marinheiro, não de primeira, mas de inúmeras viagens, que também lhe fez, com Terceiro Matos, a programação visual. E me senti o velho garoto de outrora a percorrer as ruas de Parnaíba em minha moto uivante, com os meus cabelos, então vastos, bastos e encaracolados, farfalhando ao vento.

Ao ler e reler o livro de Nonato Caldas, posso dizer, como disse o poeta Luís Guimarães Júnior no soneto Visita à casa paterna, sobretudo agora que perdi minha mãe e meu pai: “... O pranto / Jorrou-me em ondas...  Resistir quem há-de? / Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade.” Apenas com a ressalva de substituir pranto por emoção.

ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.   

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

COVARDIA CONTRA A MULHER BRASILEIRA

Fonte: Google


COVARDIA CONTRA A MULHER BRASILEIRA

Cunha e Silva Filho

         Grande parte dos meus textos sobre assuntos não literários me vem da observação direta do dia-a-dia da vida no país e de vários setores da nossa realidade social complexa e difusa. São textos, por conseguinte, que não resultam de grandes pesquisas custeadas por bolsas estrangeiras do mundo acadêmico e com demonstrações e gráficos estatísticos tão ao gosto de países como os EUA, por exemplo.

       No entanto, são textos que, a meu ver, procuram expressar pontos de vista provenientes da minha experiência cultural em ângulos diferentes do saber humano. São inpirados em leituras de jornais, no cotidiano brasileiro, em alguns programs de televisão desprezados, de resto, por uma certa elite que os vê com o nariz torcido  e os desprezam como matéria que, segundo essa visão preconeituosa, não merece a atenção da alta pesquisa, cujos resultados são ensaios inegavalemente densos mas que não são lidos por um contigente de leitores de nível médio para baixo. Não os destinei aos acadêmicos, mas ao homem comum que tem certa má vontade de ler textos complicados, por vezes herméticos e de dificil compreensão para as massas.

      Sendo assim, cito o tema da violência consubstanciada no feminicídio que se está alastrando assustadoramente pelo país afora e com uma taxa de crimes hediondos nunca vistos em anos anteriores a clamarem por punições à altura da sua aberração e monstruosidade, quer dizer, a prisão perpétua ou mesmo a pena de morte.

     Na questão do feminicídio    há que considerar dois problemas que desafiam o meu entendimento e ainda mais a possível redução de vítimas fatais. Primeiro, a impunidade que se torna o fator determinante no crescimento indesejável de assassínios de mulheres, geralmente novas. Segundo, a questão da escolha do parceiro. O primeiro depende da legislação penal vigente, que, em nosso país, ainda é muito branda e sujeita às chamadas brechas da lei. O segundo problema subordina-se a uma aspecto fundamental, que é a educação familiar, a orientação que todo jovem deveria ter ou receber da família ou dos responsáveis pela sua criação e formação social.

     A própria escola poderia auxiliar também esses jovens que dão início a um relacionamento amoroso. Uma outra possiblidade de melhorar a vida dos jovens que pretendem se casar ou se relacionar com um parceiro seria um orientação espiritual competente e efetiva no sentido de que possa interiorizar comportamtos e perceções éticas que deles façam pessoas mais harmônicas, equilibradas e preparadas para enfrentarem as diferenças e os limites possíveis de convívio a dois.
     Os jovens, lançados à vida social e sem nenhuma orientação, não terão nunca parâmetros pelos quais poderão pautar seus atos numa convivência que pretenda ser conduzida pela compreensão e compartilhamento. Do contrário, tenderão a viver como se fossem seres indiferentes às razões dos outros ou às carências e diferenças dos parceiros. Seria um conduta de vida aleatória, sem rumo determinado nem escrúpulos definidos.

   Ora, toda essa ausência ou falta de rumo põe as pessoas num mundo sem limites ponderáveis e que por isso as levará aos desastres amorosos e à falência da vida a dois. Instilar nos mais novos uma orientação de condutas morais e humanas em relação a connvívio de enamorados é uma das prioridades a serem alcançadas no convivência humana pacífica e e harmoniosa.

    Via de regra, o que se constata na convivência de casais, assim que desavenças começam a surgir é um componente de ordem passional perigoso no relacionamento humano: o ciúme doentio, que se torna cego aos limites do comportamento harmonioso entre casais.A maior parte dos relacionamentos amorosos acaba  tragicamente na situação em que o homem não admite, por seu sentimento de posse e atitude machista, que a mulher o deixe e o troque por um outro parceiro.

    O machismo não perdoa em geral o desperezo e não entende que um comprtamento feminimo ou uma decisão da mulher contrária à continudade do relacionamento possam ser uma decisão final e impostergável. Ao não aceitar, perdendo o doentio sentido de posse da mulher e de superoridade de decisões na órbita do convívio,  essa atitude leva-o à tragédia tão agora mais do que nunca difndida pelos meios de comunicação: mais um vítima fatal de uma mulher que não mais desejava continuar um relcionamento com um homem e que por esse moiivo teve que o deixar.

   A lei do machismo brutal e primitivo  passa a dominar a vida psicológica do homem rejeitado e daí para a prática de um crime abominável contra mulher é um passo rápido e certeiro. Quando não efetiva o crime de feminicídio, deixa a parceira em lamentavel estado de brutalidade e selvageria contra a sua integridade física. Nesse ponto é que cumpre acionar a lei que protege a mulher em nosso país.

    Nos mecanismos de prevenção devem constar estratégias bem definidas que possam prevenir as mulheres de serem vítimas covardes da violência de bárbaros, sendo, ademais, que a punição deveria ser compatível com os os níveis de selvageria e desumanidade de homens pusilânimes e mentalmente despreparados para o relacionamento conjugal ou outro tipo de parceria amorosa ou sentimental.

    Evitar-se-iam, assim, que mais crimes aumentassem as lamentáveis estatísticas de perversidade contra a mulher brasileira. As mudanças das leis são imperativas e não podem esperar por postergações da parte dos órgãos de segurança pública, notadamente daqueles que têm obrigação de defenderem as mulheres contra a atual, inominável  e crescente violência de bárbaros.   

domingo, 2 de setembro de 2018

Seleta Piauiense - Jamerson Lemos

Fonte: Google


ultimatum (*)

Jamerson Lemos (1945 – 2008)

não fiquem a dizer que é lírico
o voo dos pombos.
olhem os pombos,
o voo dos pombos
às duas horas da tarde.

olhem os peixes,
os olhos tristes dos peixes,
as suas escamas de prata.

olhem as cabras,
ruminantes cabras,
pensativas cabras.

vejam as árvores, as frutas,
pobres, dependuradas,
silenciosas, resignadamente silenciosas.

olhem os homens
que vão e vêm sobre a ponte.

(*) No dia 8 de agosto deste ano, na solenidade em que se comemoravam os 256 anos de instalação do Poder Legislativo em Campo Maior, fui abordado pelo professor e jornalista Jorge Câmara, irmão do saudoso bardo, que me falou sobre a sua ideia de publicar um livro, reunindo seus belos poemas. Disse-lhe que, ao me consultar com seu filho Jamerson Lemos Jr., um dos melhores ortopedistas do Piauí, sugeri-lhe isso. Não existe ano mais apropriado do que este, em que faz dez anos de sua partida para uma melhor dimensão do espaço-tempo, ele que foi um homem bom e excelente poeta, para a publicação de sua poesia completa ou, ao menos, de uma grande antologia.  

sábado, 1 de setembro de 2018

QUANDO NOS LIVRAREMOS DESSE COMPLEXO DE VIRA-LATAS?

Fonte: Google


QUANDO NOS LIVRAREMOS DESSE COMPLEXO DE VIRA-LATAS?

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                Foi Nelson Rodrigues, dramaturgo recifense, tricolor de coração, profundo conhecedor da alma e das coisas brasileiras, quem disse que tínhamos o estranho complexo de vira-latas; o cão, para quem não conhece, é um cachorro sem pedigree, que costuma se imiscuir com o lixo à procura de restos, sobras, sobejos, enfim, migalhas, porcarias. Quanto ao homem, talvez quisesse tachar assim o indivíduo que se satisfaz com pouco, de baixa autoestima, sem orgulho próprio; que, facilmente, se deixa influenciar ou conduzir; é um tipo de maria vai com as outras.

                Infelizmente, estamos agindo assim, aceitando que nos tratem como vira-latas, mais agora que antes, não só no futebol, paixão lúdica nacional, ou no que tange à nossa condição sociocultural ou humano-existencial, também e, principalmente, como indivíduo ou ser político: governantes e parlamentares, que elegemos, fazem conosco, enquanto cidadão-contribuinte, o que bem entendem; tomam-nos por idiotas, e não sem razão: reclamamos tanto dessa corriola,  mas quando temos oportunidade de fazê-los arrependerem-se do que dizem, prometem e não cumprem, o que costumamos fazer? Continuamos votando neles ou em indicados por eles, tão ou mais demagogos e hipócritas do que os próprios. Sabem eles, melhor que nós, que temos memória curta e, por isso nos desrespeitam, humilham, espezinham, até que se lancem, novamente, candidatos a um cargo eletivo, quando, então, transformam-se em pessoas da melhor qualidade, que nos ouvem e prometem, em sendo reconduzidos ao governo ou parlamento, atender-nos, prontamente. Acreditamos, e, como prova, damos-lhes, outra vez, nossos votos de confiança; não raro, justificando que é melhor votar em quem se conhece, do que em estranhos – nunca ouviram essa cretina desculpa, dada por alguns a quem quer saber porque continuam elegendo aqueles que, ao longo de suas gestões, apenas criticam? –, e o círculo vicioso se perpetua, realimentado.

                No futebol, notadamente, sul-americano, os outros países são coitadinhos, e nós, os vira-latas: punem equipes e jogadores brasileiros, com extremo rigor e muita facilidade, e fica por isso mesmo. Se nosso poder judiciário tivesse a força que tem uma tal de CONMEBOL – Confederação Sul-Americana de Futebol, não precisaríamos de tantas instâncias judiciais. Seus julgadores, com uma tacada só, penalizam, incluem, excluem atletas ou clubes, e a decisão passa a valer imediatamente. O Santos Futebol Clube foi a última vítima de uma esdrúxula sentença da entidade: amanheceu o dia vinte e  oito de agosto precisando de um placar mínimo para prosseguir na disputa; almoçou já tendo que ganhar a partida da noite por três ou mais gols de diferença, pois a confederação o punira com a perda de pontos e naquele escore, relativamente à partida anteriormente disputada com o mesmo adversário, por inclusão de jogador, pretensamente, irregular, sendo que, conforme se aventou na oportunidade, ela mesma, antes, autorizara o atleta a jogar; e terminou a noite defenestrado da Taça Libertadores, uma vez que, quando ainda estava zero a zero, a arbitragem, alegando falta de segurança no estádio Pacaembu, onde se realizava a disputa –  violência que muitos afirmaram não seria motivo suficiente para tão drástica decisão, caso a peleja se realizasse no campo do adversário, La Bombonera –, encerrou o jogo bem antes de decorrido o tempo regulamentar. Tudo indica que o Santos acatou a sentença, ou então desistiu de recorrer contra a decisão da CONMEBOL, pelo menos, até dia trinta e um de agosto, quando encerramos este texto, continuava alijado do torneio intercontinental.

                Outro exemplo de complexo de vira-latas veio à tona na forma de crítica que certo jornalista teria feito a um “poste”, candidato à presidência da república, por, segundo aquele, ter dito o candidato que o Brasil não deveria se meter no conflito venezuelano. Por que teria? Outras ditaduras, além de nações havidas como pobres, e a Venezuela, principalmente, somente nos têm feito perder patrimônio ou gastar recursos dos cidadãos-contribuintes, seja na elisão de dívidas monumentais contraídas conosco e não honradas por eles; seja para cobrir calotes financeiros, como os decorrentes de investimentos em refinarias multinacionais de que participariam, mas deram para trás; assunção pela União de empréstimos não pagos por governos daqueles países ao nosso banco nacional de desenvolvimento nacional. Ou seja, sempre nos metemos com essa corja de ditadores, nos damos mal; até sucursais de empresas brasileiras sediadas em seus domínios já nos surrupiaram.

                Às vezes, impacientamo-nos diante da absurda propensão que nossos legisladores têm por proibições. Seria isso a explicitação de uma doentia fixação ditatorial; reflexo da extrema deficiência cultural que nos atribuem esses falsos luminares, ou apenas recorrentes tentativas de nos tomarem por idiotas cidadãos subservientes, vira-latas? Chega-se, por aqui, ao auge de proibirem a comercialização a terceiros, empresa ou cidadão comum, de material de expediente ou uso generalizado – clips, canetas, papel, caixas, cola, etc. – por indústrias ou fornecedores que os forneçam como objeto de licitação pública.

                Chega de sermos vira-latas. E mais, como dizia vovó: quem tem dó do “falso” coitadinho, termina no lugar dele.  

Garoa

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Garoa

*Ivaldo Freitas Cardoso

Molhou o chão do descaminho
Trouxe vida ao cinza da rotina
Do transcorrer de angústias.

De tanta sujeira prosseguindo
Tantos acasos ocorrendo
Tantos dias normais continuando.

E ela passa, afinal
Ninguém a vê, pois a tiveram
Tão ligeira e passageira
Foi um acaso ocorrido.

Depois perguntam aonde foi
Por que não veio nunca mais…

Já eu parei e apreciei
Nunca o acaso a mim se fez
                                                       Pois sempre a esperei

Fez parte da vida a ser sentida
Na chegada e na partida
                                                  Em que se espera por mais este momento
                                                           Garoar um só coração

Quando veio sobre nós
                                             Sem motivo, sem razão
                           Ora, assim é a vida
                                                                                  Nunca mais me alagou

Hoje a tenho em memória
                                                Em meio a tanto ar seco
            Ausência de invernos
Temo nunca mais ver.                                                                                                                                                 
*Ivaldo Freitas Cardozo (na foto o primeiro, de óculos, da direita para a esquerda) tem 16 anos, estudante do Ensino Médio no Instituto Federal do Piauí, campus Parnaíba.

3108.01

Fonte: Google


3108.01 

Walter Lima

Como se fizesse parte de um drama
Um belo-drama onde  bela frase ecoa:
Lá vai lá vem
“Le Bateau Ivre” – no mar atroz
Lá vem firme o homem
Livre –                   El Mar feroz.

“homem livre, hás de ser sempre amigo do mar. ”  (*)
O barco um homem
Trazem na Sina desde nascimento – o Mar.

Homem a Sina na data
Natalícia : homônimo do Baudelairianismo
Contendo tanto Mar e Air.

A herdade na ponta da pena
De quem navega datas e assina
Marcas nas ondas do dia a dia.

“homem livre, hás de ser sempre amigo do mar. “


RP, SP, 31.08.2018.

*trecho do poema O Homem e o Mar, de Charles Baudelaire – 09.04.1821 a 31.08.1867.