segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Saúde pública brasileira


Cunha e Silva Filho

Existem dois tipos de serviços  de saúde no  país: a dos que podem  ter  planos de saúde privada e dos pobres, dos que não podem pagar  um  plano e, portanto,  têm, caso adoeçam,  o atendimento em geral  precário  do  serviço  público.

Há algumas décadas,  a saúde  pública  brasileira  tinha  alto  padrão de atendimento, com médicos  competentes  e de larga experiência, formados  por  universidades   estaduais e federais, com professores   bem-formados, com  ingresso através de  rigorosos exames  de vestibular aos cursos  médicos. Ainda não havia  a proliferação de faculdades de medicina  de baixo nível de formação, como em geral acontece com  grande parte de   faculdades de medicina  particulares  espelhadas  pelos grandes centros  urbanos

  Criei  meus filhos  sendo  tratados  por médicos do setor  público, o antigo INPS. Ainda nem se falava em planos  privados. Com o tempo,  o atendimento  da medicina  pública foi caindo de nível  até chegar  a esta  estagnação deplorável  em que se encontra  hoje,  com   hospitais  mal equipados,  mal administrados,  onde falta tudo, até  os bons médicos de outrora.

Para ser um bom   médico,  o candidato tem, primeiro, que ter vocação,  habilidade  para lidar cm   pessoas doentes,  estar bem  informado   do desenvolvimento da medicina  dos países adiantados,  ser estudioso  da bibliografia   atualizada  no campo da medicina, realizar  cursos   de aperfeiçoamento  na sua área,  frequentar congressos  nacionais  e internacionais e ter  um espírito  devotado  à nobre profissão  de médico, de médico que  nem de longe  possa ser   imbuído do sentido  de lucro, de mercantilismo  ao lidar  com a sua  profissão.

Pessoalmente,  já conheci  bons médicos,  pacientes, cuidadosos,  empáticos que na verdade se interessam  pelos pacientes e desejam  curá-los, que é o objetivo  mais caro ao  médico, sem o qual  ele não estará eticamente  cumprindo à risca o juramento de Hipócrates (460-370 a. C.), o pai da Medicina.

Se alguém pretende  cursar medicina para fazer  da profissão  somente  riqueza não se  tornará  nunca um médico à altura do juramento que faz no ato de cerimônia de formatura.A vaidade, a presunção, a falta de afabilidade junto aos pacientes jamais levarão  ao aperfeiçoamento   do médico. Além disso, deve ter   profunda conduta ética,  rigor  em dar o diagnóstico, responsabilidade,  integridade e comprometimento com  a vida  dos que estão  aos seus cuidados.

O país precisa com urgência, - atenção ministério da Educação! - de repensar  a formação  dos médicos  brasileiros,  só permitindo o ingresso aos cursos  de medicina  àqueles  que estão  intelectualmente  preparados em  todos os aspectos que envolvem a sua formação  científica,  exigindo  a obrigatoriedade de  cada acadêmico  passar pela   residência médica nos melhores   hospitais e  institutos  de medicina, além  de um  criterioso  exame de provas  orais e prática  junto ao CRM.  Não pode haver  leniência  com  uma profissão  que  lida com a vida humana.

Ontem, leitor,  uma criança de quatro anos  faleceu em São Paulo. Ela estava com apendicite já em ponto de ser operada, o que lhe foi  negado por  culpa da negligência e irresponsabilidade médica, que não lhe deu  diagnóstico  correto, numa   peregrinação  em quatro  hospitais. Em cada um,  a criança  não  conseguiu  fazer  exames  adequados  para  conclusão  do que sofria. Eis aí mais um  caso flagrante do descaso  de médicos  e de gerenciamento  hospitalar  provocando  óbito  desnecessário, numa ação  criminosa  contra os direitos  de uma criança que não são  respeitados no país.

Configura o incidente um crime  contra  um inocente por parte  de profissionais  e, por extensão,  das autoridades  responsáveis  pela saúde  pública  brasileira. A amargurada   confissão  do pai de Anderson,  este é o nome  da criança, é das mais pungentes que ouvi nos últimos  anos. Chorando,  o jovem  pai de Anderson, compartilhando  sua  dor imensa com a jovem  mãe da criança, é o retrato  de um  protesto   justo  por uma situação  de impunidade e de solidão  vivenciadas  pelo casal. O choro  e as palavras  de indignação  contra   o abandono  a que foi relegada a criança  nos recintos dos hospitais sem que em nenhum deles  fosse dado  o diagnóstico   correto para o mal-estar  do pequeno Anderson,  é mais um lastimável  número de uma elevada e sempre crescente  estatística  de  mortes de crianças e adultos por falta de  atendimento  na rede pública  do país.

Enquanto  os pensamentos  atuais do governo federal, à frente a Presidente Dilma Rousseff, se voltam prioritariamente para os gastos   astronômicos  com  Copa Mundial, com as  Olimpíadas,  com  viagens  a países  a preço de ouro, com  hospedagens nos melhores  hotéis do mundo e com  outras nababescas  despesas com alimentação  em  luxuosos   restaurantes para atender  regiamente  a enorme comitiva  presidencial,  a população  modesta do país  morre à míngua  por falta  de bons médicos,  de bons hospitais e de respeito pelo  brasileiro. Não há como  fugir ao truísmo: -Este não é um país sério.    

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Seleta Piauiense - Oliveira Neto


Fiapos do Coração

Oliveira Neto (1907 – 1983)

Meu coração de velho transformou-se
Numa jangada leve, sem pujança,
Cuja vela no tempo esfacelou-se
No caprichoso vento da esperança...

A energia do amor desventurou-se,
Perdeu aquela chama de bonança
De que tanto nas lutas orgulhou-se
Com sucesso vigor e segurança...

E agora remendando com fiapos
Dos versos que se foram mundo em fora,
Contenta-se em forjar estes farrapos

De poesia sem flama e sem beleza
Por lhe faltar o brilho da sonora
Sugestão divina! Da Natureza!

(Extraído de Antologia dos Poetas Piauienses, de Wilson Carvalho Gonçalves)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Ambições políticas sem vocações sociais?



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Neste início de ano eleitoral, a imprensa vem destacando o quiproquó dos bastidores dos partidos políticos. Um sai não sai. Isto por aquilo. Candidata-se ou não. Ela ou eu. Cômica confusão de interesses e ambições de tira e estende tapete, verborreia, ética demagógica, acomodação de parentes. Se duvidar, companheira de programa terá vez. Os que ridicularizavam, no passado, as oligarquias e coronelismo hoje se nutrem das mesmas panelinhas e mazelas.

          No dia 31 de janeiro, a convite do comando da Polícia Militar do Piauí, ministrei palestra para cerca de 150 fardados, entre oficiais, coronéis, soldados e comandantes. O tema despertou-os para a dignidade de exercer a missão de servir a sociedade: “Idealismo e Vocação”. E dignidade é coisa séria.

          Dignidade é um patrimônio moral que não tem preço, mas valor. Não vende, não se corrompe, não se troca. Portanto ideais e conquistas merecem reconhecimento e louvor.

          Ideal vem de ideia, metas e objetivos. Ideal da carreira médica, jurídica, militar, empresarial. Da conquista da casa própria, carro novo, mandato político, casamento, família constituída. Refiro-me a ideais nobres, não os das gestões corruptas, governos desastrados, políticos e profissionais oportunistas.

          Nobres ideais exigem a prática de virtudes e não convivem com ambições viciadas e imorais, dinheiro público roubado, heranças e dádivas ilícitas. Sem virtudes do espírito, pode-se ganhar o mundo, mas se perde a alma. O mundo utilitarista desdenha do exercício da espiritualidade, por isso paga caro com vicissitudes da vida. Provam-se os sobreditos com exemplos de pessoas, aparentemente felizes, entretanto viciadas e doentes. Parlamentar confessava-me: “Zé, sobrevivo com dezena de comprimidos!” Arre!

          Idealismo exige paixão, não se deixa levar pelos encantos dos pais, salário ou status social. Falta algo mais: a vocação. Idealistas são maioria. Poucos os vocacionados. A vocação é uma espécie de chamado superior, divino, a convocação para nobre missão. Espiritualistas se guiam pela sabedoria do alto. Gente simples, generosa, espírito público, às vezes, subestimada pelo pouco talento, termina arrebentando na missão para a qual foi convocada. Profeta Moisés, culto, mas gago e pusilânime, custou aceitar a tarefa para libertar seu povo da escravidão de Faraó. Rei Davi, último dos irmãos, pastor de ovelhas, ungido rei, constituiu o estado de Israel, vencendo batalhas. 12 apóstolos, vindos da barbárie social, batizados no espírito de Deus, continuaram a missão de Cristo. Papa João XXIII, origem camponesa, cultura mediana, sacudiu a Igreja instituindo o Concílio Vaticano II. Francisco de Assis, rico e boêmio, despiu-se do aparato e abalou o mundo com o franciscanismo. Papa Francisco, que apaixona todos os vértices religiosos com fácil retórica e simplicidade de vida.

          O Brasil clama por líderes do bem, vocacionados pelas causas sociais. Há idealistas pensando mais em si do que além de si. Neste momento de interesses por candidatura da esposa ou membros da família, uma mãozinha na consciência até que faz bem. Porque, “do jeito que está, pior não fica”. O ingênuo humorista tinha razão.       

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O SIM E O NÃO


O SIM E O NÃO

Jacob Fortes

Esses velhos opositores, advérbios de afirmação e negação, embora se destaquem por seus aspectos semânticos dissonantes, há neles nuances infinitesimais, quase imperceptíveis.

O sim é colorido; o não, pardacento. O sim tem o semblante alegre de quem bebe o vinho; o não, do médico que, contrafeito, o proíbe. O sim é leve, gracioso; o não, pesado, desgracioso. O sim tonifica o ânimo; o não, acabrunha. O sim surge infrene; o não, refreado. O sim é luminoso; o não, opaco. O sim é expansivo; o não, recatado. O sim denota preferência; o não, antipatia. O sim faz cantar; o não, emudecer. O sim remete para o regozijo; o não, para condolências. O sim exprime o passaporte, a carta de alforria, o livramento; o não, a detenção, porteira fechada.

Apesar das suas oposições vigorosas nem o sim, nem o não se proclamam vencedores; apenas cada qual acredita dispor de fármaco capaz de potenciar o escoramento de medidas deliberativas. Cada qual se esmera em defender as suas cores, o seu milagre. Aos que não se alinharem nem ao sim nem ao não resta o atalho do irresoluto advérbio de dúvida, alheado, desfibrado, sem tomar propósito, também conhecido por Múcio ou Laissez-faire: deixa como estar para ver como fica.

A esses pequenos gigantes monossilábicos, aliás, consagrados ao ofício relevante de comunicar por meio da expressão oral ou escrita em países lusófonos — deixo aqui o sorriso de saudação de um fã. Ainda que esses garnisés magistrais sejam dignos de todos os louvores, essencial é dizer que, por vezes, maior benefício faz o não, que não lisonjeia, do que o sim lisonjeador. E nessa asserção inclua-se também o brocardo pelo qual é preferível o não da lealdade que o sim da hipocrisia.

Até o próximo encontro ocasião em que o advérbio de dúvida, ofendido com as tachas atiradas à sua honra, em tom de mofa, irá defender-se. Alegará em seu libelo que, de conformidade com a ciência, a dúvida é o ponto de partida para chegar-se à verdade. No concernente às pechas de apassivado e vacilante, aliás, calúnias radicadas na inveja, serão demolidas mediante o emprego de expressiva via judicial. Para esse efeito invocará um recurso regimental protelatório de grande valimento, os embargos infringentes.     

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

PAULO ALMEIDA E AS PALMAS DOS COLEGAS

Elmar e Paulo Almeida

6 de fevereiro   Diário Incontínuo

PAULO ALMEIDA E AS PALMAS DOS COLEGAS

Elmar Carvalho

Na época em que fui fiscal da extinta Superintendência Nacional do Abastecimento – SUNAB, Delegacia do Estado do Piauí, integrei algumas blitzes com a participação de outros órgãos, inclusive a Polícia Federal – SDR-PI, mormente na época dos famigerados congelamentos, que não deram certo nem na poderosa Roma antiga, no tempo do imperador Deocleciano.

Por essa razão, conheci alguns agentes policiais, servidores burocráticos e delegados, entre os quais recordo os nomes dos delegados Jonas Duarte, Antônio Vanderley Portela e Vasconcelos, que ao aposentar-se foi morar em sua terra natal, a bela e aprazível Tianguá, da qual se tornou vice-prefeito, e Airton Franco, que fixou residência em Fortaleza, onde passou a escrever crônicas e artigos, após ter exercido o cargo de secretário de Segurança Pública do Piauí.

No curso de Direito, na Universidade Federal do Piauí, fui colega de alguns agentes e servidores da nossa briosa PF. Recordo o nome de alguns, entre os quais cito: Benjamim de Oliveira, Audenir Rufino Mota, conhecido como Federal, de alegria contagiante, sempre afável e simpático, Francisco Cláudio Bruno Sales, escrivão, cearense, boa praça, José Carlos Fontenele, Nelson Estevan de Andrade, que depois ascendeu a delegado de Polícia Federal, mediante concurso, Lucídio Leódido, natural de Buriti dos Lopes, portanto conterrâneo de minha mulher, Lúcio Machado Vale, hoje juiz de Direito na comarca de São Luís – MA, e Paulo Nunes de Almeida.

Alguns, como o outro Paulo Almeida, o Davi, o Luís Alberto e o Luiz Carlos Martins Alves, são irmãos maçônicos, entusiastas e dedicados à sublime Ordem. Outros foram meus vizinhos, como o Daílo Barreto Marinho, o Martins, o Ribamar, casado com a Bernadete, que foi minha colega na Sunab, o Odom Baltazar Nobre Filho e o Sica (Siqueira), pintor e pirógrafo de enorme talento e apurada técnica. 

Merece referência especial o saudoso irmão Odeon Batista, de grande estatura moral e física, sempre vibrante e cordato, que foi grão mestre do GOB-PI – Grande Oriente do Brasil – Piauí, sobre o qual escrevi uma crônica, publicada na internet.

Vários desses servidores já se aposentaram. Muitos não mais tive a satisfação de rever. Voltei a reencontrar, com certa frequência, o Paulo Nunes de Almeida. De vez em quando nos encontramos na praça de alimentação do shopping Riverside, na qual seu filho Ravanelli tem um bar e lanchonete. No domingo passado, enquanto sorvíamos uma cerveja, ele me contou um fato de sua vida profissional, que acho interessante trazer à luz da publicidade.

Paulo sempre foi uma pessoa afável, prestativa e de boa formação moral. No seu último dia de expediente, antes de aposentar-se, cumpriu seus deveres com o zelo de sempre, com observância do horário regulamentar. Ao final de sua jornada de trabalho, fechou as gavetas e o armário cuidadosamente, e entregou as chaves a quem de direito. Não deixou pendências funcionais e nem objetos particulares nas gavetas, escaninhos e prateleiras.

A administração regional do Piauí não lhe prestou nenhuma homenagem, nem mesmo um simples agradecimento ou obrigado. Não lhe foi outorgada nenhuma singela medalha de honra ao mérito; sequer um diploma de papel. Nenhuma nota no Boletim registrou o fato. Devo advertir que Paulo não precisa dessas honrarias, e não tem queixas por não tê-las recebido. Ao contrário, acha que apenas procurou cumprir o seu dever, e isso deveria ser a rotina de qualquer servidor público.

Todavia, quando se encontrava no hall de saída, um grupo de aproximadamente oito servidores perguntou se poderia acompanhá-lo até o portão, tendo ele respondido afirmativamente. Esses funcionários o seguiram até a saída da repartição, batendo calorosas palmas em sua homenagem. Através desse gesto simples, mas significativo e comovente, esses colegas estavam dizendo para o Paulo Nunes de Almeida que ele havia cumprido a sua missão funcional de forma honrada e digna, e que era um bom colega e um homem de bem.

Acho que essa saraivada de palmas, sinceras e vibrantes, valeram mais do que insígnias de latão e ouropéis que lhe fossem outorgados pela administração a título de honraria. A honra, ele a agasalhava em seu coração e o demonstrou ao longo de sua vida profissional. Que esse despretensioso registro possa servir de exemplo e estímulo a outros servidores públicos.   

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

ECOS DE AMARANTE

Tela do pintor Di Kuka (Abinabel Kunha), inspirada na capa de meu livro Amar Amarante, que me foi presenteada por Homero Castelo Branco

                              ECOS DE AMARANTE

                                                           Elmar Carvalho

Como está posto em sua própria “orelha”, Ecos de Amarante, de Homero Castelo Branco, é um livro sui generis. Embora não se coloque como um produto de vanguarda, ou mesmo como um paradigma da originalidade absoluta, que não existe, nem seu autor reivindica tal pretensão, o compêndio é um misto de romance, historiografia, sociologia, antropologia e repositório da cultura e do folclore amarantino. Termina, portanto, sendo um livro diferente e original, sem, no entanto, perder de vista as lições da tradição literária.

Sua leitura é bastante agradável, tanto pelo estilo escorreito, claro e conciso do autor, sem nenhuma mácula de pedantismo e empáfia, como, sobretudo, pela miscelânea dos vários assuntos tratados.

Pode-se dizer que é uma grande história, recheada de várias histórias menores, um verdadeiro mosaico, contudo, sempre permeado por um fio condutor, que tudo arremata, liga e alinhava, formando uma saborosa unidade.

Na tessitura ficcional, percebe-se uma habilidade do autor na narrativa e nas descrições, bem como na correta caracterização das personagens, que são bem delineadas, e mesmo dotadas de uma correta e lógica postura psicológica, com os atos e fatos bem encadeados e verossímeis. Não obstante siga um fio condutor, contém, como já dito, várias histórias, interligadas, mas que podem ser lidas, sem prejuízo, de forma independente.

Há passagens antológicas, seja pelo psicologismo com que as personagens são esboçadas, seja pela beleza do texto, às vezes repassado de uma verdadeira poesia em prosa, outras vezes pela narrativa tão-somente, a agarrar o leitor, e arrastá-lo até o deslinde final da trama. São vários os trechos que poderiam figurar em qualquer antologia piauiense, como as passagens em que o escritor se reporta às esquisitices de Maria Antônia e do médico Euler Pereira, destacando-se aquela em que esse esculápio, em sua excentricidade, discorre sobre os urubus, que até me fez evocar, apesar de sua originalidade, o célebre episódio da borboleta preta, de Machado de Assis.

De muito encanto e musicalidade, pelo modo de construção do período, são certos termos regionais que utiliza, com parcimônia e pertinência, o que afasta qualquer parentesco com o regionalismo menor, eivado de cacoetes e exageros, a dissimular a falta de talento e a inabilidade na urdidura da romancística.

Ao livro comparecem vários personagens da história amarantina e/ou piauiense, em situações bem colocadas e verossímeis, em que o pano de fundo histórico é fruto de pesquisa e correta interpretação. Assim, aparece o imortal vate Da Costa e Silva, em narrativas e cenas que bem poderiam ter acontecido, pois distantes de episódios grandiosos e mirabolantes, de que muitas vezes lançam mão os romancistas canhestros, para encobrir a falta de talento e traquejo. Outras figuras importantes aparecem, entre elas o professor Cunha e Silva, ao qual são dedicadas várias páginas, merecidamente, pois foi um fundador de colégios, notável jornalista e escritor, além de homem dotado de invulgar erudição. Por vezes, como uma espécie de contraponto, fundamentação e mesmo simples transmissão de conhecimento, o autor traz a colação pequenos textos extraídos da história.

Faz um interessante resgate do folclore e da cultura amarantina, e quando surge o momento oportuno, e não forçado, transcreve versos de cantigas populares, folclóricas e de roda, com cujo artifício dá vida e colorido pitoresco a sua narrativa, além de contribuir para a preservação dessas peças, que correm sério risco de desaparecer para sempre, em face da mídia avassaladora e pasteurizante.
Dílson Lages, Homero, Elmar, Reinaldo Torres e Antenor Rego
A obra traz, por assim dizer, histórias da História, verdadeiros “causos” que a história oficial não conta, por motivos diversos, inclusive pelo pudor e receio de ofender a honra de famílias ditas importantes. Numa visão moderna e avançada, soube colocar fatos que bem se coadunam com a chamada história do cotidiano, em que costumes, hábitos e peculiaridades de uma certa época e comunidade são evidenciados. Para isso o autor desenvolveu, com argúcia e faro investigativo, novas pesquisas e novas interpretações, ao compulsar periódicos da época e “reclamos” comercias, entre outros documentos.

Desse modo, pôde fazer uma espécie de releitura e análise da vida atribulada e romanesca de dona Auta Rosa, figura emblemática dos preconceitos e discriminações de épocas passadas, alguns dos quais ainda renitentes em sua permanência; da importância e beleza cultural do Clube dos Tetéus; da criação, atividade e emulações das “furiosas”, as célebres bandas musicais ou filarmônicas, que animavam a vida social de uma cidade interiorana. Pintou a tela viva da ressurreição ficcional da economia e do comércio de Amarante, principalmente a época da navegabilidade do Parnaíba, com as balsas e “vapores” que percorriam o poético “Velho Monge”, os empórios e entrepostos comerciais, e o fastígio da borracha e do extrativismo, mormente dos carnaubais. Também fatos importantes da história recente são trazidos à baila, numa acentuada aproximação ao que os doutos chamam de história imediata. Todavia sem perder o caráter de que executava obra de criação artística.

Homero Castelo Branco, fazendo jus a seu prenome, constrói uma verdadeira epopéia - a saga histórica, cultural e humana da encantada e bela Amarante, constituindo-se o seu livro um misto de ilíada e odisséia dos páramos dacostianos.

É um livro profundo, e que faz um vertiginoso mergulho nas águas profundas da cultura, folclore e história da “Cidade Azul” do poeta. De grande beleza, canta com graça e harmonia a beleza amarantina, beleza adamantina que também canto em meu poema Amarante, com cujos versos finais encerro esta conversa que já se vai alongando além do esperado e desejável:

            amarante
            perante ti
            imperante
o vento verdeja agreste nos ciprestes
rumoreja aguado nos aguapés
sacoleja sem leste oeste
a copa fagueira das faveiras
            tuas tardes tardas dolentes amaras
                        abres das janelas
                                    debruçadas em melancolias
e alicias e (re)velas
as moças nas modorras mormacentas macilentas

em que delicias cilicias e acalentas...     

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

DISCO RÍGIDO


Edmar Oliveira

Esses cientistas maravilhosos e suas teorias voadoras! Leio nas folhas, aquela notícia fria que é publicada quando falta assunto, que cientistas revisaram a teoria sobre o esquecimento nos idosos. A gente foi convencido que a cada dia perdíamos neurônios e com isso a nossa capacidade de lembrar e associar fica mais lenta na proporção direta do envelhecimento.

Pois bem, agora cai essa tese. Novos testes dizem que a dificuldade de lembrar e associar é proporcional à quantidade de informação adquirida e, portanto, não são os neurônios que morrem os responsáveis, mas é a quantidade de informação que faz o pensamento ficar lento. E explicam a nova teoria com um modelo computadorizado: é como se o disco rígido dos mais vividos (não mais dos mais velhos, reparem na sutileza) ocupasse a memória disponível fazendo o computador de cada um rodar mais lento.

Invalidaram até os testes do século passado, como se eles não correspondessem à complexidade da informação atual. Na nova bateria de testes inventada, são os menos vividos que têm a dificuldade de associar e lembrar de fatos não vividos, mas só conhecidos pela leitura e estudo. A resposta dos mais vividos e que detêm mais informação são lentas, mas muito mais complexas e explicativas, nos novos testes, do que a resposta dos jovens que têm uma memória rápida, estupenda, mas vazia. Como um computador novo, que rapidamente abre os programas, mas não tem conteúdo para ser trabalhado.

Portanto, meus senhores e colegas de vivência, nós teríamos uma grande vantagem em relação aos nossos filhos e netos.

Mas ainda assim fiquei meio encucado: e essa quantidade de informação não tem perigo de travar, como acontece aos computadores? E a gente pode formatar algumas histórias mal contadas? Posso limpar a lixeira de lembranças que já deletei, para ter mais espaço? Assim como os arquivos temporários que ficaram aqui e que não quero mais? E quando vão inventar um antivírus para a demência ou o Alzheimer?

Por outro lado, agora quando esqueço onde coloquei uma chave, não lembro de um compromisso, passo batido numa data importante, posso explicar pela quantidade de informação que obtive na minha vida e não fico mais com medo de que o alemão estava me perseguindo. Até quando não lembro mais o nome dele. 

Fonte: Blog Piauinauta
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Para conhecer o assunto:
http://oglobo.globo.com/saude/cerebro-de-idosos-mais-lento-porque-eles-sabem-mais-11358165


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Seleta Piauiense - Luiz Lopes Sobrinho


Ciúmes

Luiz Lopes Sobrinho (1905 - 1984)

Não é que o amor que nos meus olhos viste,
Tão cheio de ternura, ardendo em chamas,
Que inda implora, aos céus, num pranto triste,
O teu amor, ao ver que me não amas,

Já se tenha acabado! Ainda existe!
Desgraçado de mim... Tu mais me inflamas,
Com tua indiferença, pois partiste,
Deixando o meu amor, envolto em tramas!

E se hoje, acabrunhado, ando fugindo
De tua doce presença — agora amarga,
Pela tristeza que me vai ferindo,

É só porque, já não suporto ver-te
Passar, da vida, pela estrada larga
Unida àquele que me fez perder-te!     

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Oeiras, cidade de arte


Fonseca Neto

Os franceses, e a Unesco, de modo ampliado, conceituam de “cidade de arte” os antigos assentamentos que constituem acervos notáveis, legados da experiência humana em aconchegar-se para inventar o viver comunal. 

Cidade de arte” porque seus vestígios exprimem um sentido maior da engenharia historicamente marcada, culturas caldeadas entre a solidez do material e as levezas do espiritual. Cidade, porque concreção, tangibilidade. Arte, porque impulsão estética, leitura na fluidez da subjetividade. 

Arte”? É pensar com a sugestão do poeta Fernando, de que ela “existe porque a vida não basta”. Oeiras é assim e é uma joia rara no inventário do Patrimônio Histórico brasileiro. É exemplar da cidadela erguida sobre e com os lajedos fraturados do chão local. Fraturados em artísticas cantarias angulares para edificar arranjos de morada, de governo e de produção material. E templos. De perto, adentrando-na, contemplei o rubor de alegria no rosto de Ariano Suassuna frente a majestade armorial-sertoa da catedral da Vitória, erguida por mestres pedreiros, enquanto vaqueiros, antes das barrocas capelas de Ouro Preto. 

Esse conjunto de elementos, no qual a um só tempo repontam o labor cultural de gente de longe e os modos de viver da localidade, compõe um lugar singular e foi há dois anos tombado pelo Iphan, como parte relevante do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Trata-se de medida com potencial de grande impacto positivo, parece que ainda não completamente assimilada como tal, principalmente pela parcela maior de seus moradores. Nada incomum, todavia, pois outras cidades igual e anteriormente tombadas conheceram, no começo, idêntica inassimilação. Depois, as percepções mudam, desde que tombar não signifique a mortificação do bem objetado e também desde que junto com a proteção haja medidas concernentes à educação patrimonial. 

Falando em Educação... Nestes dias, Oeiras está no centro de um debate, que precisa ser melhor qualificado, sobre a criação de um núcleo local da Universidade Federal do Piauí. O episódio mais focado no momento alude a um ofício tratando do assunto, emanado do ministro da Educação e dirigido ao governador do Piauí. É que a solicitação encorpa um esforço de vontades conjugadas para vê-la de pé no menor espaço de tempo possível. 

A Ufpi, autora da proposta e a quem cabe a implementação, encaminha em ritmo próprio as articulações cabíveis, e segundo o reitor, na conformidade do tempo adequado à sua devida consecução. No âmbito interno, sobretudo da colegialidade superior, articula projetos de cursos; articula, em nível municipal e estadual, notadamente com políticos mandatários, a aprovação em nível ministerial da alocação dos recursos financeiros para prover as novas e expandidas funções. Tem-se por favorável a atual conjuntura em que o governo vem favorecendo a expansão do ensino público federal para todos os horizontes e modalidades, tendente à interiorização. A própria Oeiras é disso um exemplo com um novíssimo Ifpi – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. 

Expressam opinião minoritária, mas, conexas entre si, há duas perguntas: deve a Ufpi se expandir? Expandir-se para Oeiras? Sim, duplo. A expansão da Ufpi é uma contingência de sua legitimidade social, assim como também o é a manutenção, em estado vigoroso, das atividades que já agregou em sua experiência de mais de quatro décadas; e Oeiras deve ter outro campus federal, porque é uma urbs-arte centrípeta, referência de mais de uma dezena de municipalidades historicamente conjugadas, com populações que precisam engendrar a vida sem incorrer na perversão das diásporas que atormentam sobretudo os jovens.

Não se deve, porém, tomar nada disso como, a priori, inexorável. Promova a Ufpi sua expansão, qualificando-a com bons estudos e projetos, por exemplo, sobre que novos cursos essas microrregiões e o próprio Piauí precisam para um futuro de grandeza. No caso de Oeiras, que cursos universitários devem ser ali ofertados? Num mundo tão antigo e numa cidade secular, é fundamental trazer para ela significativas novidades em termos de formação superior. E qualquer estudo sobre potenciais campos de trabalho logo mostrará que não se deve, por exemplo, intentar cursos que a Uespi possidônia já ofereça, ali, ou em Floriano, Picos e Valença. 
  
Membro dos conselhos universitários da Ufpi e da Uespi, assim vemos e assim apoiamos a novidade.   

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A INFÂNCIA E O CHAMBRE


Jacob Fortes

Dentre as reminiscências da infância adesivadas ao meu cangote, subsiste aquela relativa ao chambre.

Mal o sol desfalecia as galinhas, com o desassossego de quem pede repouso, alçavam-se ao poleiro. Sequentemente, a meninada, de corpos fatigados por um longo dia de excitação de ânimo, também se empoleirava nas suas redes. Antes de entregar-se à rede, era preciso vestir o chambre, providencia inescusável na forma do disciplinamento severo de dona Luiza (Lulu). Esses chambres, mais das vezes encardidos, permaneciam encafuados nas respectivas maqueiras, suspensas, até que os seus ocupantes chegassem. Ocupantes que preferiam permanecer entre os adultos, tentavam resistir ao sono, mas este, indômito, tomava-os de assalto, maiormente os miúdos. Era a rotina do dia após dia.

Ainda que nem todos apreciem a unanimidade, parece inequívoco dizer-se que há três conjuntos de seres unânimes no concernente ao horário de dormir: galinhas, meninos e idosos. A propósito, lembro que, naquele tempo, num lugar recôndito chamado “Serra do Veludo”, habitava um casal de idosos, seu João Pele e dona Zezé Pote, adotivos de uma menina de nome Cincinata, que atendia pelo apelido de bombom, tamanho sua devoção por balinhas, desde o seio. Diariamente, no turvar do vespertino, seu João, vista estiolada, perguntava: “Bombom, espie se as galinhas estão subindo”.

Finda aquela noite — feita tanto para o sono quanto para arrebatar a paz e o sossego —, recomeçava a inquietação da meninada ao estilo de folha seca ao vento. O primeiro alvoroço, em júbilo, irrompia lá fora, na fronde do arvoredo, sob a batuta dos chicos-pretos. Preferiam as partes altas, os paus-d’arco, porém, existiam figueiras ramalhudas, jurema-branca, um cardeiro vetusto, imponente, além de outros vegetais infantes.

Se, de um lado, a meninada travessa vivia sob o desfavor do banco do atraso, de outro, era agraciada com uma universidade de favores: brincadeiras intérminas; despensa assinalada por abastos copiosos: sacas de arroz, de feijão, de milho, varal de carne seca, gamelas repletas de toucinho, tina de barro abarrotada de coalhada e aprovisionamentos outros, típicos de quem, respirando a cultura do couro, vive imerso na lida do gado, ovelha e bode.

Os chambres, que ultrapassavam os joelhos, indo até o meio da canela, eram confeccionados de maneira rudimentar: em morim branco, para os meninos; em chita ramada, para as meninas. Nem diga ao leitor, por ser motivo de constrangimento, o quanto os chambres, sobretudo dos miúdos, exalavam um cheiro forte, fazendo lembrar aquele líquido próprio de quem, sob a letargia do sono profundo, perde a capacidade de exercer o controle das necessidades expulsórias do corpo.

Mas as mutações, imposição do progresso tecnológico e social, abreviaram a existência dos chambres: vigeram apenas enquanto durou o calendário da infância.

Insepultos na memória, os chambres exprimem a mostra das usanças de outros tempos, hoje ignoradas. Na necrópole da desusança vê-se o jazigo do chambre, do carro de boio, do cavalo, das ferramentas rudimentares e tantos outros. Vê-se, também, logo adiante, uma campa cujo epitáfio, indistinto, não permite afirmação categórica, mas faz crer tratar-se da virtude. Aquela aludida por Rui em tom pesaroso: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Água e sabão limpam as vestes apossadas de sujeira, inclusive o chambre, mas não a sujidade e a má fama dos desapossados de honra.      

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

AS DÁDIVAS DO POETA


Poeta Cleyson Gomes
Escultura feita por Braga Tepi


30 de janeiro

AS DÁDIVAS DO POETA

Elmar Carvalho

Por esses dias, recebi a visita dos jovens poetas Walter Lima e Cleyson Gomes. O primeiro, de férias, veio de São Paulo visitar seus parentes e amigos; o segundo, além de lhe fazer companhia, colheu a oportunidade para que nos conhecêssemos pessoalmente. Walter é um leitor apurado, percuciente, e que não perde tempo com autores que reputa de pequeno valor artístico. Garimpador de sebos, tem encontrado obras importantes e muitas vezes desconhecidas pelo chamado grande público. Poeta talentoso, sobre ele já me reportei neste diário.

Sempre que vem ao Piauí, gosta de visitar os literatos pelos quais nutre amizade e consideração. Além da visita e de suas alvíssaras, Walter Lima ainda me trazia dádivas. E as dádivas de um poeta outras não poderiam ser senão livros. Declino-lhes os títulos e autores: A forma do silêncio, Fios de luz, aromas vivos: leitura de “Retrato de Mãe, de Jorge Tufic” e Os maribondos de fogo, respectivamente da autoria de Wilson Rocha, Rogel Samuel e José Sarney. Fico feliz em fazer parte do seu seleto e restrito rol de amigos.

Conhecia Cleyson Gomes apenas de nome, de alguns poucos textos de sua lavra e através de referências do Walter. Conversamos sobre cultura, livros e poetas, no alpendre de nossa casa. Mostrei-lhes alguns poucos quadros e objetos que a guarnecem. Fiz questão de ofertar aos dois vates livros de minha autoria, de que ainda posso dispor, sem comprometer minha reserva técnica, digamos assim.

Para minha grande surpresa, quase diria perplexidade, Cleyson Gomes disse já ter em sua biblioteca todos os meus livros, com que iria lhe presentear. Intrigado, perguntei-lhe como os adquirira. Respondeu-me que os comprara em livrarias ou sebos locais. Devo dizer que isso, conquanto não fosse propriamente um elogio, foi, para mim, uma das maiores referências elogiosas que já recebi.

Somente um significativo apreço poderia fazer uma pessoa, que sequer me conhecia pessoalmente, se dar ao trabalho de ir procurar livros e opúsculos deste humilde escriba. De certa forma, observadas as proporções, considerei o fato algo semelhante ao sucedido ao nosso poeta maior Da Costa e Silva, que consignava como um dos maiores elogios que já obtivera a circunstância de que um larápio, ao roubar uma livraria do Recife, ter subtraído unicamente uma obra de sua lavra.

Talvez a título de explicação, confessou-me ele que, quando mais novo, na qualidade de campomaiorense e estudante do curso superior de Letras, procurava saber quais seriam os principais literatos de sua terra natal. Procurou informar-se sobre isso com a sua professora universitária, que lhe indicou alguns nomes, entre os quais o deste diarista. Com essa informação, o poeta Cleyson procurou adquirir livros de minha autoria, como já dito acima. Para honra minha, descobriu em meus textos qualidades que lhe mereceram leitura cuidadosa e algumas releituras.


Pela conversa que tive com os poetas que me visitaram, logo percebi que o meu conterrâneo Cleyson Gomes é um intelectual antenado com a produção poética contemporânea, mas sem perder de vista a contribuição dos grandes mestres do passado. Mormente se considerarmos a sua juventude, sem dúvida é um erudito e amante da literatura. Merecer a sua leitura atenta me vale mais do que certas honrarias, porque demonstra o seu interesse e apreço pela minha (pálida) poesia. Que mais dizer? Nada mais a dizer, tudo a agradecer.     

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Posse da nova Diretoria da Academia Piauiense de Letras


Será hoje a posse da nova diretoria da Academia Piauiense de Letras.

A solenidade acontecerá na Assembleia Legislativa do Estado Piauí, no Cine-Teatro, às 19 horas.

A diretoria está assim constituída:

Presidente: Nelson Nery Costa
Vice-presidente: Oton Mário José Lustosa Torres
Secretário geral: Herculano Moraes da Silva Filho
1º Secretário: José Elmar de Mélo Carvalho
2º Secretário: Humberto Soares Guimarães
Tesoureiro: Wilson Nunes Brandão      

O assassínio de um professor de inglês

Foto meramente ilustrativa

Cunha  e Silva Filho


                 Não anotei  o nome dele. Sei que tinha  45 anos, um jovem ainda na flor da mocidade  produtiva, morto a tiros  por uma bandido  “cruel.” Estou  usando uma palavra de um delegado  onde  o fato  deplorável  foi registrado. Este marginal, com antecedentes criminais, ou seja,  era um delinquente, um  menor há um ano.
Segundo  declarações do delegado,  este energúmeno, que  tem atitudes  frias e uma  fisionomia  na qual  os  olhos indicam  o que lhe ia  no íntimo de sua alma perdida, aproveitou-se do fato  surpresa e tirou a vida  de quem   estava  no exercício de sua  profissão,  certamente  um professor  eu complementava  seu salário  com aulas  particulares, pois era isso mesmo que  o  mestre de inglês ia  fazer.
Estacionou numa das ruas de São Paulo e,  quando se  preparava  para   deixar seu carro  perto  da casa onde  daria uma aula,   de repente  vê na sua  frente  um espírito das trevas mefistofélicas que lhe exige  o carro e talvez  alguma coisa mais. O professor,  tendo  saído do carro,  num  átimo  de reação  mecânica,    não  se intimidou  e entrou  em luta corporal com  o meliante, predador  noturno  da vida  paulistana,  mais uma dessas  feras  (des)umanas espalhadas atualmente  pelas  ruas  da  trepidante  e sempre  perigosa   capital   paulista, a maior  cidade  da América  Latina.
 Lutou  por pouco  tempo com  o facínora que, talvez mais  habilidoso  e sendo mais  novo,  levou a melhor,  acertando, creio que à queima-roupa,  o peito e outras duas   regiões do corpo  do  jovem  professor. Foram, se não me  engano,  cinco tiros. Morte  imediata. 
Uma vida  encurtada  pela  impunidade  brasileira, pelo  código  penal superado,  pelas brechas    imorais de  nossa  legislação,  pela  desídia  de  nossa estrutura  jurídica de todas  os níveis da Federação e pela ausência  de medidas  governamentais  decisivas  a favor de mudanças    concretas   e duradouras. São   
Paulo agoniza não só nas  águas tempestuosas das inundações anuais e  mortais, atingindo, sem piedade,  sobretudo  as camadas  desfavorecidas da população,    mas também  no crime  impune  e  contínuo.
São Paulo, por suas qualidades,  que são  muitas,   e por seus defeitos  que  igualmente são inúmeros,  abriga   cotidianamente  todo  tipo de crimes e selvagerias  praticadas contra  seus  habitantes que,  além disso,  ainda têm  que enfrentar  uma  vida  árdua nos transportes  precários.
 Com demagógicas promessas de seus  governos  estadual e municipal de melhorarem    a qualidade   da educação pública sempre adiada, com    seus hospitais  sem condições de atender  à demanda gigantesca   de  milhões  de seus habitantes, com seus   moradores  pobres  sem  teto  ou  vivendo   em  favelas  da periferia, fruto dos  desníveis   sociais,  São Paulo  atingiu  seus limites  de resistência e, assim , clama  por mudanças  inadiáveis sob pena  de  ter que  enfrentar  a indignação   da sociedade.
São Paulo  e seus  quatrocentos e sessenta anos  de fundação em  25  de janeiro de 1554, tendo à frente a colaboração decisiva de dois eminentes  padres jesuítas, Nóbrega e Anchieta, o  Apóstolo  do Brasil. A São Paulo de hoje, ameaçadora  e a do passado, dos primeiros anos  do século anterior.  Triste   contraste!  Esta  última, mais  cordial,  mais  acolhedora,  praticamente  em seu  estado  puro de  província com  problemas, sim,  mas  de  diferente magnitude  e, sobretudo, sem  as agruras   causadas  pela   super-densidade  populacional sem freios, sem  o trânsito   caótico, os  seus ciclópicos engarrafamentos,  os grandes males  sociais que  deslustram  as suas origens histórico-religiosa-culturais, o seu   progresso mais  ordenado, a potência de sua  indústria e comércio, sua vida  universitária, seus centros de estudos, seus museus, enfim,   a sua condição de carro-chefe da economia  brasileira.
             Todo esse imbróglio de   condições  positivas e negativas  perdeu seu controle original,  sua  estrutura   de  grande urbe,  mas  bem  administrada, com   políticos mais   conscientes  de suas funções  públicas  e não  frutos  dos conchavos, compadrios na seleção dos candidatos aos  governos  estadual e municipal  e  truques baixos da  política nacional.
          Além disso,   todos  esses  erros imperdoáveis  das instituições  públicas são  causas  que propiciaram  a invasão do crime galopante, de  marginalidade    certa de que  não será  punida, seja  por  ser composta de menores  meliantes, seja  por  ser  formada  de adultos    irrecuperáveis,  portadores de cérebros  degenerados que não  podem   estar  em  convívio com  a  sociedade.
      São   autores  de  crimes  hediondos,  abomináveis,  de  extrema crueldade  e  frieza de sentimentos. São  do tipo   que  acabou  com a vida  do jovem  professor de inglês,  deixando  uma  viúva  para sempre psicologicamente  destroçada a cuidar  de um bebezinho e de um  filho  pequeno. Mais um número na estatística  da cidade do crime e da  ausência  de punição  de uma espécie que recomendaria sem restrições: a  prisão  perpétua.      

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Valdemir Miranda: Enlace de famílias


Enlace de famílias. Esse é o titulo do novo livro do historiador, advogado e professor Valdemir Miranda de Castro. O livro trata dos imbricamentos familiares de Antônio Carvalho de Almeida e os Castello Branco. Ele traz novidades com registro de sesmarias e muitas novidades colhidas em fontes primárias. O autor consultou livros eclesiásticos, cartoriais e cemitérios de todo o Norte do Piauí, além de ter realizado pesquisas na Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Já é possível adquirir cotas do livro, por antecedência pelo e-mail - valdemirmirandacastro@bolcom.br  ou pelo telefone 99059340.

Fonte: Portal Entre-Textos         

domingo, 26 de janeiro de 2014

Seleta Piauiense - Martins Vieira


Promessa Vã

Martins Vieira (1905 - 1984)


O Céu finge que ri; depois, fecha a carranca:

irado, amarfanhando o punho — a renda branca,

disfarça num muxoxo um fuzilar de raio.

O Sol se inclina mais, olhando de soslaio,

e, ouvindo o rataplã dos bombos do infinito,

oculta-se, a fugir, qual um Astro proscrito.





Na cúpula central da Sé da Eternidade

bimbalham carrilhões. Desaba a tempestade.

Mil raios a silvar, cor de aço, coruscantes,

soprando um pleno espaço os cebês trovejantes,

parecem pentear as crinas encrespadas

dos negros esquadrões das nuvens rebeladas.





Vêm elas a rugir. Um furacão sacode-as;

matracam mil trovões, fantásticas rapsódias

por entre o fuzilar de estranhos azorragues:

são raios cor de prata ardendo em ziguezagues,

avisos de Tupã, mostrando Tudo ou Nada

a força sem matéria, à frente da lufada! ...





Começa o crepitar de roucos alaridos,

metálicos, febris, soluços mal sustidos

uivando em derredor. Um arrastar de pesos

no sótão da amplidão vem sacudir retesos

os nervos a fremir, que esperam pela chuva.

Debalde! O Céu se opõe, arremessando a luva...        

sábado, 25 de janeiro de 2014

Disciplina, vitória nos estudos e concursos


José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Eu me dei conta da cartinha na gaveta, deixada pela minha filha, Marta Vasconcelos: “Pai, hoje, eu reconheço quanto o senhor tinha razão na sua rígida disciplina. Eu não entendia você, só lhe obedecia por temor: o senhor nos acordava cedo, tomávamos café e tínhamos de ouvir a leitura bíblica e seus chatos conselhos, depois é que íamos à escola; aos domingos, à missa. A gente só tinha direito de ir ao shopping ou a algum show, depois de ler três artigos da revista Veja e elaborar uma redação, sem olhar o texto da revista. Que sufoco!...” Marta, primeiro lugar em concurso no Maranhão, educadora, casamento e família abençoados, marido exemplar e empresário.
          Neste início de ano letivo, solicitei ao secretário de Educação, Átila Lira, que reproduzisse o artigo, “Bagunça Tóxica”, escrita pelo economista Cláudio Moura Castro, da revista Veja, 8 de janeiro, para ser debatido em assembleia de professores, alunos e  pais. Turbulência, licenciosidades, decantados constrangimentos por nonada, direitos e mais direitos vêm encurralando e atemorizando educadores, impossibilitando-os de exercer a autoridade, às vezes, vítimas de linchamento e ações judiciais, perda do emprego, desmoralização na mídia.
          Depois de publicados os resultados do ENEM, um grupo educacional encomendou pesquisa com os alunos classificados dos dez melhores colégios do Brasil. Todos, sem exceção, estudantes, além dos pais, louvaram as regras rígidas do colégio. Escolas religiosas, militares, umas públicas.  
          Na Escandinávia, Alemanha, Inglaterra e gigantes orientais impõem regras severas e punições. Resultado: uma safra de artistas, filósofos, escritores, cientistas, empresários, estadistas e políticos sérios. A palavra punição é proibida, nos projetos pedagógicos, pelo Conselho Estadual de Educação. Ex-seminaristas e estudantes, provenientes de centros católicos e evangélicos, também se destacam em todas as áreas do conhecimento. Segredo? Disciplina, punição, família presente. Minha experiência de sete anos, como professor no Colégio Diocesano, marcou-me enorme satisfação de ver, hoje, expressivos ex-alunos no alto da pirâmide social.
          Em 1968, estudantes universitários, em Paris, realizaram quebra-quebra, ergueram bandeiras, “É Proibido Proibir”, indignados com a severa disciplina escolar. Mais tarde, os baderneiros viraram professores, arrependeram-se do mau exemplo passado às novas gerações de indisciplinados. O movimento, de caráter marxista e ateu, contaminou a América Latina. Difundiu-se uma falsa psicanálise de bulling, constrangimentos, direitos individuais, não-me-toques, beligerância com as autoridades e pais. É o Brasil dos sem horários, sem entrada proibida, dos meus direitos, do “que é que tem?”.   
          Uma juíza processou a escola, porque expôs notas de seu filho no mural do colégio. E se fosse o primeiro classificado? É o ano de1968 rolando nas cabeças de uma esquerda que se impôs no país. Trouxe bons resultados sociais, porém exagerou no conceito de liberdade, ainda engasgado com o regime militar vivido.
          Cartinha, como de Marta, precisa ser escrita. Que tal os rolezinhos, enturmados e exibicionistas, produzirem a sua, distribuírem a cópias em shoppings e na escola? Difícil saber se já passaram da alfabetização.     

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

S. Sebastião, o dono da cidade


Fonseca Neto

Exprime certo tipo de “mito”, sem correspondência na realidade, a impressão de que a Igreja Católica é a grande latifundiária do Brasil. Nunca foi. No entanto, é decisivo o papel dessa antiga instituição na formação territorial urbana brasileira. Veja-se um exemplo, bom de tratar, hoje, dia de São Sebastião.

Lá em Passagem Franca, Maranhão, esta é data de grande festa católica, que até se tornou, também na esfera civil, o mais importante feriado municipal – os mais velhos chamam-no de “dia de preceito”. Tudo para honrar o santo-mártir, que é o padroeiro do lugar, e também, formal e legalmente, o dono da terra urbana e parte de seus arredores, chamadas “terras do santo”. Repita-se, dono (dominus), no sentido jurídico pleno.

Desavisados supunham que tal situação não mais existiria no Brasil desde a proclamação da República, quando se deu a separação do Estado em relação à Igreja. Houve, sim, a separação, mas foi negociada a intocabilidade das propriedades fundiárias da igreja romana. E Rui Barbosa foi o redator do decreto (07.01.1890) que assegurou os direitos eclesiásticos:

Art. 4º Fica extincto o padroado... Art. 5º A todas as igrejas e confissões religiosas se reconhece a personalidade juridica, para adquirirem bens e os administrarem, sob os limites postos pelas leis concernentes á propriedade de mão-morta, mantendo-se a cada uma o dominio de seus haveres actuaes, bem como dos seus edificios de culto”.

A cidade de Passagem Franca foi fundada por gente católica e a formação territorial-urbana e municipal ocorreu em torno da igreja: em 1820 iniciou-se a construção da capela e para sua constituição, depois cabeça de freguesia/paróquia, sesmeiros-devotos doaram a São Sebastião parte de suas datas de terra, para verem aceita a postulação de viabilização de sua igreja particular. Assim, o padroeiro passou a ter cerca de meia légua de terras ao redor da capela (depois Matriz), nas ali chamadas “datas” Piaçava, Lagoa do Taboleiro e Saco do Paulo.

De posse de seu patrimônio em terras – excelentes, por sinal – o núcleo original (do que seria, anos mais tarde a cidade) foi crescendo, tornando-se freguesia em 1835 e sede municipal em 1838. E todos os seus moradores sendo habitantes da “terra do padroeiro” – espécie de servos da gleba de São Sebastião, pagando-lhe rendas das produções, esmolas, outros contributos. Transcorreu o século XIX, adentrou-se o século XX e somente em 1980 é que a zona urbana estendeu-se para além do perímetro do senhorio do Santo.

Portanto, desde sua criação, o município e sua vila-cidade, nunca possuíram patrimônio próprio: os milhares de moradores locais são uma espécie de “posseiros do santo”, nenhum tendo titulação definitiva do pedaço que ocupa, consoante os padrões e as solenidades escriturais regulares. Até há bem pouco tempo, a convivência foi totalmente pacífica sob a égide dessa propriedade de “mão morta”, tendo havido apenas (anos 1940) a judicialização de uma disputa com um confrontante e nos últimos dez anos, a prefeitura e particulares invadindo, e arbitrariamente se apropriando, das terras sobrantes do patrimônio da igreja.

Esse exemplo ora caracterizado é comum em muitas cidades brasileiras criadas antes de 1930, quando era obrigado o município ter seu próprio patrimônio para as cessões “de aforamento”. Nos casos em que a sede municipal – caso de Passagem Franca – foi erguida sobre o chão do santo, essa “terra sacra” substituiu, de fato, mas não de direito, a referida função no respectivo assentamento citadino-urbano. Até hoje, nas glebas do santo, quem dá “carta” de uso é o pároco e não o prefeito.

De tudo isso decorreu, historicamente, que muitos municípios simplesmente não seriam criados na época colonial e imperial por não terem patrimônio – por muito tempo dito “patrimônio da câmara”. Por quê? Porque os proprietários das terras dificilmente faziam doação para esse fim, preferindo doá-las, como se viu, para capelas, matrizes e ermidas.

Ao contrário do que um equivocado “iluminismo” prega, “terras de santo” constituem um chão de uso coletivo e espaço de forja da organização urbana e da cidadania no Brasil.