sábado, 20 de junho de 2020

Na madrugada de um certo inverno

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Na madrugada de um certo inverno 

 

Chico Acoram Araújo

Poeta, cronista e historiador

 

Na madrugada de um certo inverno. A noite por um fio.

Acordei. A essas horas, ainda no turvo?

O galo mudo, pássaros bem quietinhos, sequer um pio!

Os galhos das árvores balouçando lá fora -  obscuro.

 

Escuto um agradável ruído naquela quase manhã.

Será chuva? Será o vento nas folhas das palmeiras?

Ou será a suave brisa vinda do Marataoan?

Fui olhar. Chovia de mansinho. Alvissareiras!

 

Frias gotas d´água caíram no meu rosto, a abolhar.

Na noite anterior, minha mãe falou: vai chover!

Quantas saudades, meu Deus, da janela a chuva contemplar!

 

Um rio de lembranças inunda o meu ser,

Ouvir o cair da chuva no teto da casa de palha,

Nos dias de aguaceiros em um belo amanhecer.

 

Fonte: Portal Entretextos     

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A morte de Zé Henrique

Zé Henrique cercado por seus pais, filha, esposa e outros familiares


DIÁRIO
[A morte de Zé Henrique]

Elmar Carvalho

19/06/2020

           Em complementação ao esboço que fiz do perfil de meu cunhado e amigo Zé Henrique (José Henrique de Andrade Paz), desejo dizer algumas palavras sobre sua morte, no intuito de que sirva de lição ou experiência para alguns de nós.

            Foi vítima de acidente, quando pilotava sua motocicleta, à noite, de Teresina a Campo Maior. Depois da cidade de Altos, um quilômetro após ter ultrapassado a estrada de ferro, colidiu com um animal, que se encontrava sobre o asfalto. Levado para um hospital em Teresina, faleceu no dia seguinte.

            Meu irmão Antônio José lhe prestou toda assistência no nosocômio em que ele se achava internado, e lhe acompanhou os últimos momentos, inclusive lhe presenciou o instante da morte. Segundo o Antônio me narrou, em algum momento, Henrique segurou muito forte em sua mão, e disse estar pronto para seguir ao encontro de sua mãe, que falecera alguns anos antes.

Poderia rechear este registro com alguns outros pormenores, que o Antônio me poderia fornecer. Mas não o farei. Irei direto ao epílogo ou ponto final da vida de meu saudoso amigo.

            Como disse na nota anterior, ele era espírita, e tinha a premonição de que seus dias já estavam perto de seu desenlace. Me falou isso várias vezes. Falava sem medo, de forma natural, como alguém que não temesse a morte.   

            Faleceu na manhã do dia 20/10/2005, aos 46 anos. De repente, meu irmão notou que ele abriu seus grandes olhos azuis, e fixou determinado ponto. Sem sobrosso, disse para alguém que só ele parecia enxergar, que esperasse um pouco. Nunca iremos saber o que se passou em sua mente. Talvez tenha feito breve oração. Ou recitado, em silêncio, algum salmo de força. Nunca iremos saber, repito. Mas o certo é que um minuto depois, um pouco mais, um pouco menos, ele, de forma firme, sem receio ou vacilações, se dirigiu à pessoa (ou pessoas), que só ele via:

– Estou pronto. Podemos ir.

E serenamente, sem medo e apegos, exalou seu último suspiro de sua vida terrena. Acredito esteja numa outra e melhor dimensão, numa das inúmeras casas do Pai. 

quinta-feira, 18 de junho de 2020

CONTRATEMPOS, DESENCONTROS E MUDANÇAS DOS TEMPOS CORONIANOS




CONTRATEMPOS, DESENCONTROS E MUDANÇAS DOS TEMPOS CORONIANOS

Everardo de Oliveira
Parnaíba-PI

Em meados de março de 2020, o poder público decreta calamidade e isolamento social por conta da pandemia mundial no novo coronavírus e pega todo mundo de surpresa, para espanto da humanidade. Os principais meios de proteção contra este vírus (máscaras, luvas, álcool em gel etc), repentinamente, estes produtos começaram a desaparecer das prateleiras das farmácias e supermercados, os preços chegaram a patamares estratosféricos e os órgãos de defesa do consumidor fiscalizaram esses abusos. Fez-me lembrar dos velhos tempos do “boi voador” nos idos de 1986, no plano econômico do Governo Sarney.

Inesperadamente, a consulta médica que estava agendada foi devorada pelo isolamento social; o casamento que foi realizado de maneira intimista; a viagem dos sonhos dos noivos em lua de mel foi adiada por falta de voos comerciais e fechamento dos hotéis; o botox que fora colocado uma semana antes já não mais adiantava por não ter como mostrar, por conta da máscara que encobria e escondia o efeito. A compra do carro novo para ostentar não tinha mais sentido no isolamento social.

Há poucos dias vi um ouvinte de uma rádio de Teresina interagindo com o locutor, afirmando que as lojas se transformaram em “boca de fumo” em que o comerciante deixa a porta entreaberta e o cliente vem sorrateiramente, compra e sai, e o comerciante fecha rapidamente com medo de ser multado ou preso por infringir os decretos do poder público.

Pelo menos, agora também tenho evasivas de estar com sobrepeso porque as academias estão fechadas e de não mais visitar um amigo chato por conta do vírus contagioso.

Por outro lado, estão surgindo muitas mudanças sociais: na semana passada tive uma teleconferência com os moradores do meu condomínio; meu filho teve uma consulta médica pelo WhatsApp; muita higienização por onde andamos: supermercados, clínicas, farmácias etc. Fiz até uma comparação com o término do pós-guerra onde se teve a maior evolução das gerações de computadores.

Por isso, não temos certeza de nada e até aonde vai o efeito dessa pandemia, mas duas coisas não mudam: o sucesso que a máscara faz há muito tempo, desde da época da gripe espanhola (1918) e os larápios que nunca dão trégua...

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Zé Henrique, meu amigo e cunhado


Vídeo de 1997, de apenas 16 segundos
Zé Henrique, Maria José e Josélia



DIÁRIO

[Zé Henrique, meu amigo e cunhado]

Elmar Carvalho

17/06/2020

            Ontem à noite a Fátima, por WhatsApp, recebeu um pequeno vídeo, de apenas 16 segundos, enviado pela viúva, minha irmã Maria José, em que o meu saudoso cunhado e amigo José Henrique de Andrade Paz parecia fazer uma esquete ou brevíssima performance. Parecia a imitação ou caracterização gestual de algum conhecido, mas com direito a expressões faciais sofisticadas. O vídeo é de 1997, quando ele tinha 38 anos. Está ladeado pelo seu primo Marcílio Andrade e por Hermes Vasconcelos.

            Posso dizer que ele tinha talento para fazer esse tipo de encenação, pois presenciei, em duas ou três oportunidades, ele fazer essas atuações ao sabor do improviso. Ele fazia as marcações, desenvolvia as mímicas e o gestual adequado. Com efeito, tinha um verdadeiro talento para fazer as expressões faciais apropriadas e convincentes. Como ele era espírita, posso fazer o seguinte trocadilho: ele estava atuando, mas se não estivesse, com certeza estaria “atuado”. Invoco o testemunho de José Francisco Marques, nosso amigo comum, professor e grande violonista, que também presenciou algumas dessas breves e raras performances, com que ele nos entretinha e nos causava grande admiração por esse talento não cultivado.

            Na minha adolescência, nos idos de 71, 72, por aí assim, fomos vizinhos, no início da rua do Estádio Deusdete Melo e perto do campinho ao lado do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco, nos quais joguei muitas vezes, naqueles ditosos tempos, que os anos não trazem mais. Se não estou enganado, ele já estudava em outro estado, de forma que não nos encontrávamos com muita frequência.

Após 1975, quando já morávamos em Parnaíba, ele iniciou namoro com minha irmã, com quem veio a se casar e teve os filhos Antônio Almeida da Paz Neto (o Almeidinha ou Almeida Neto) e Josélia, casada, residente em Brasília, mãe do Henrique Neto, garoto inteligente, vivo e engraçado. A partir dessa época e até o seu falecimento, nos tornamos amigos próximos, e nos encontrávamos com certa frequência, em diferentes ocasiões, tanto em Parnaíba, como em Campo Maior e Teresina, onde passamos a morar.

Posso dizer que passei a conhecê-lo bem, pois estivemos juntos nas mais diferentes ocasiões e situações, como passeios, diversões e eventos familiares. Entabulamos longas conversas, sobre os mais diversificados assuntos, às vezes degustando uma gelada e espumante cerveja, e posso dizer o quanto ele era arguto e inteligente, sendo notável a sua curiosidade e perspicácia em torno de conhecimentos gerais, religiosos e espirituais.

Avesso a hipocrisias e demagogias, tinha uma bondade e uma simpatia inatas, que logo lhe permitiam construir duradouras e sólidas amizades. Sabia extrair nas conversas o que de melhor os interlocutores tivessem a oferecer, assim como as suas intervenções eram sempre pertinentes, instigantes, e revelavam a sua argúcia e inteligência. Era o que se pode considerar uma pessoa antenada com o que acontecia no mundo, sobretudo nas áreas da política e dos conhecimentos e descobertas científicas.

Para completar um pouco mais este breve esboço esfumaçado pelo tempo, que lhe estou a traçar, transcrevo este pequeno trecho de “Retrato de minha mãe”:

“Tinha [minha mãe, e ele também] senso de humor, embora o usasse de forma moderada, e jamais para diminuir ou ridicularizar quem quer que fosse. Certa feita, o meu saudoso cunhado Zé Henrique disse que, quando morresse, gostaria de ser um urubu. Um pouco por influência minha, creio, ele passara a admirar essas negras aves, a sua saúde, a sua missão de limpar o mundo, a sua magnífica coreografia aérea, e até mesmo o seu gingado caminhar de malandro carioca. Minha mãe, sorridente, retrucou-lhe que preferia ser um bem-te-vi, pela sua beleza e alegria. Na tarde de sua morte, ouvi o canto alegre desse passarinho, que já não ouvia há algum tempo, e tive o lampejo de que seu espírito partia para o infinito.”

Estava na minha comarca, quando recebi a notícia do grave acidente que sofrera, um quilômetro depois de Altos, quando se dirigia a Campo Maior, em sua motocicleta, à noite. Colidira com um animal que se encontrava na BR. Dois ou três dias após, recebi a impactante notícia de sua morte, ocorrida em 20/10/2005, quando ele tinha apenas 46 anos de vida, posto que nascera em 10 de agosto de 1959.

Lamentei sua morte, a morte de um bom e verdadeiro amigo. Foi uma das mortes que mais senti até hoje. De lá para cá venho “amealhando” outras perdas de pessoas queridas, como o Otaviano, o Canindé Correia, e meus pais, Rosália e Miguel, de modo que julgo oportuno transcrever estes meus versos elegíacos:  

Já não tenho epitáfios
para tantas lápides
em meu peito.

Quando fui ler, na catedral de Santo Antônio do Surubim, na Missa de Sétimo Dia, a seguinte crônica que escrevi, a pedido de Maria José, fui tomado de forte emoção, e senti dificuldade em iniciar sua leitura, pelo que fiquei com a voz embargada, sobretudo em alguns trechos:   

“Mais do que meu cunhado, era meu amigo.

Dele eu poderia dizer o que refere a velha música do Roberto Carlos: era meu amigo de fé, meu irmão, camarada. Quando foi descoberta a minha neoplasia, de que me considero curado, preocupou-se muito, e, ao contar o fato a um amigo comum, chegou a verter, emocionado, lágrimas puras, lágrimas que não envergonham.

Humberto de Campos escreveu um livro titulado Sepultando meus Mortos, no qual estão estampadas várias crônicas, em homenagem aos seus amigos que iam falecendo.  Eu, também, já me vou avolumando em laudas, por causa de muitos amigos que já foram convocados pela “indesejada das gentes”, no dizer do velho bardo Manuel Bandeira, sobre os quais escrevi. Em meu poema Eterno Retorno, afirmei que os amigos mortos me acompanham cada vez mais vivos. Zé Henrique será, agora, um desses amigos cada vez mais vivos.

Sem dúvida tinha sua cota de defeitos, como todos nós, mas eu já os havia expungido de há muito, porque suas qualidades os superavam com larga margem de vantagem.

Até sua aparente zanga, nas discussões e polêmicas que, às vezes, provocava, era apenas um artifício para apimentar a conversa e reavivar suas amizades, com o tempero da paixão e da ênfase. Após o debate, era o mesmo velho amigo de sempre, sem nenhuma mágoa, sempre prestativo, sempre disposto a fazer os favores que estivessem a seu alcance, e muitas vezes nem estavam, mas ainda assim ele os fazia. No entanto, se desconfiasse que havia, mesmo de leve, magoado o interlocutor, pedia, da maneira mais natural e simpática, desculpa ou mesmo perdão, se necessário, com o seu carisma inato e espontâneo. Se fosse convencido de que estava enganado, igualmente dava a mão à palmatória, sem nenhum constrangimento ou suscetibilidade ferida, desprovido que o era de orgulho e vaidade, embora dotado de brio e autoestima.

Muitas dessas discussões giravam em torno dos descaminhos da má política, porque Zé Henrique possuía a capacidade de se indignar contra os demagogos de plantão, contra os hipócritas que vivem de iludir a boa-fé das pessoas humildes, contra os ladrões das finanças públicas. Era um profeta legítimo, a proferir verrinas e catilinárias, em sua ira sagrada, contra os vendilhões do templo dos erários municipais, estaduais e federais.

De bom coração, generoso, algumas vezes comprava fiado no comércio onde se encontrava para dar alimento a um pobrezinho que ali chegava, de forma simples, sem empáfia e sem presunção, como prega o Evangelho.

Meu irmão Antônio José, homem maduro, chorou copiosamente, ao dar a notícia de sua morte a minha mãe. Meu filho João Miguel, um adolescente, escreveu emocionado testemunho, quando soube de seu falecimento, sobre cujo texto derramou profusas lágrimas. Essas lágrimas de um homem traquejado e de um jovem inexperto são mais eloquentes do que o mais eloquente epitáfio, e provam que Zé Henrique foi um ser humano excepcional em sua bondade e humanidade. Quem merece essas lágrimas, merece, como disse o poeta Antero do Quental, repousar na mão de Deus eternamente.

Embora não fosse um erudito, era bem informado, supinamente inteligente, de raciocínio ágil e arguto. Rapidamente apreendia e processava as informações que recebia, de modo que conversar com ele era uma ginástica mental instigante e agradável.

Parece que tinha a premonição de partir cedo deste mundo. Muitas vezes me disse isso. Perto de sua morte, como se esse presságio estivesse ainda mais forte, instruiu seu filho sobre alguns deveres e cuidados. Visitou a casa de uns amigos, onde fez questão de entrar no quarto do patriarca, falecido há pouco tempo, evocando-lhe a lembrança. Disse à viúva que não se preocupasse, porque onde o seu marido estivesse, estaria melhor do que neste planeta.

Certamente, essa afirmativa é válida também para ele; onde quer que esteja, estará melhor do que aqui, pois tinha merecimento de sobra para alcançar um bom lugar. Na tarde que antecedeu o seu desenlace, telefonou-me sobre um assunto de família, e revelou-me ter se reconciliado com uma pessoa querida, de quem estivera distanciado. Também visitou outros amigos, entre os quais o dono de um barzinho, a pretexto de perguntar se estava devendo alguma cerveja, o que me fez lembrar o episódio sublime da morte de Sócrates, que, ao tomar o cálice mortal de cicuta, pediu a um de seus amigos que pagasse um galo, que estava devendo.

Nas várias e inesquecíveis conversas que tivemos, sempre demonstrou uma grande preocupação espiritual em se tornar um homem digno, em continuamente buscar o aperfeiçoamento, em se tornar melhor, despojando-se de seus defeitos. Que eram poucos e sem gravidade, faço questão de dizê-lo. Todos são testemunhas do que afirmo.

O poeta Carlos Drummond de Andrade disse que a sua Itabira era apenas uma fotografia na parede, mas como doía. Direi, citando-me a mim mesmo, que Zé Henrique jamais será uma fotografia na parede, mas me acompanhará, em minha memória e em minha saudade, cada vez mais vivo.

Na hora da saída do féretro, do alpendre da casa paterna, onde tantas vezes estivemos em momentos felizes, seu pai lhe depôs um beijo na testa, e lhe abriu, pela derradeira vez, os grandes olhos azuis, como se dissesse: “Cuidado, rapaz, ainda continuo sendo o teu velho pai, que te ama muito!”

Reviu, pela última vez aqueles olhos azuis, que nos fitavam de forma penetrante, como se quisessem decifrar e perquirir o que ia no mais profundo de nosso ser. Os olhos eram azuis, mas o sangue e a alma eram vermelhos, como as cores guerreiras do glorioso Caiçara Esporte Clube, de que éramos torcedores.

Guerreiro do bem, do bom e do justo, foi convocado pelo Senhor, em seus inescrutáveis desígnios, para combater o bom combate nas hostes dos campos maiores dos pagos celestiais.

Relembrando os antigos filmes de bangue-bangue, exibidos no velho Cine Nazaré, que em minha memória remanesce intocável, diria a esse companheiro inesquecível:

- Hasta la vista, amigo.”
Agora o revejo novamente, falando e gesticulando, não como um fantasma, mas num vídeo, nestes sombrios e preocupantes tempos covidianos, em que ele teria sessenta anos de idade.  

terça-feira, 16 de junho de 2020

O GOLPE DOS GENERAIS




O GOLPE DOS GENERAIS

Antônio Francisco Sousa
Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)     

                 Tinha a nítida sensação de que algo queimava; senão, de onde viria aquele odor de fumaça? Como sempre onde há fumaça, há fogo, fui examinar: na casa do vizinho, nada; na minha, idem. Estranho. Quis acordar a mulher...

                Nem precisou: o despertador, que sempre coloco para uma hora antes de me mandar para o trabalho, acabara de tocar. Como a patroa perdera, no par ou ímpar, o direito de fazer a toalete antes de mim, ficaria se atualizando nas redes sociais, enquanto me aguardava. A campainha do porteiro eletrônico anunciava que nossa secretária doméstica chegara e que, portanto, já se lhe poderia abrir a porta. Do banheiro, quis perguntar quem estava lá fora. Não o fiz porque, invariavelmente, pela manhã, na hora do desjejum, nossa funcionária era assunto da patroa. Mas consultei a esposa se ela havia sentido um cheirinho de fumaça. Não, foi sua resposta; seguida de: que loucura, homem!

                Ao sair do banheiro, toca meu celular: do chefe, e ele que era um poço de tranquilidade, parecia afobado: queria saber se eu já estava a caminho da repartição ou não. Ainda não, respondi-lhe. Pois venha com cuidado – como se falasse protegendo a boca para a voz não ir muito longe -, evite as vias conhecidas e, ah! não esquecesse a carteira de identificação funcional. Estranhos conselhos, complementados por um: melhor pedir um táxi e deixar o carro em casa. Aqui conversaremos. Queremos fazer uma reunião com todos para decidirmos sobre nossas próximas ações. Quis tentar que me adiantasse alguma coisa, mas ele disse, conclusivamente: melhor não, paredes e celulares têm ouvido. Até mais!

                Ir de táxi, não levar nem os documentos do carro? Decidi, então, também não levar minha pasta, apenas o token e a chave do armário. Não falei nada à mulher, que tampouco estranhou o fato de estar pedindo táxi. É que, quando fico sem carro, ela costuma me levar no dela. Mas tudo bem.

                Desci do táxi no local onde sempre fico quando vou em um. Nunca vira tanto militar por ali e nas imediações. Com um ou outro conhecido, ao longo do trajeto, fui impedido de puxar conversas por meganhas, que sinalizavam para seguir em frente. Só faltava aquilo! Já começava a me irritar. Não sei por que razão decidi esconder a identidade funcional.

                Nas entradas da repartição, soldados a balde, pesadamente armados, inspecionam todos que queriam entrar. Documentos, pediram-me. Apresentei-lhe minha identidade civil e o crachá, mas já injuriado com o inusitado da situação. E a identidade funcional, cadê? Um deles questionou. Ficou em casa, esqueci. Algum problema? O sujeito me olhou de esguelha. Não fez nada, talvez em respeito às minhas cãs. Deveria haver trazido.... Eu sempre trago, cidadão... Caso para entrar tenha que ir pegá-la, vou. Demorarei um pouco, porque vim com minha senhora e ela já se foi... Se me permitir que fale com o chefe, que deve estar me esperando para uma reunião, em seguida, volto à minha casa e trago o documento. Suba, se precisar, alguém lá em cima decidirá o que fazer. Pelo crachá, percebeu que poderia usar arma e me perguntou se estava armado. Disse-lhe que não. Mais uma pergunta idiota dele e eu, certamente, seria preso por desacato.

                Na porta de minha sala, um oficial coberto de insígnias, gemas e estrelas, autorizava ou não a entrada. Dois colegas estavam do lado de fora, mas não pude saber o motivo de estarem ali e não dentro dela. Entrei.

                Todos os companheiros em seus locais de trabalho, mas com os PCs desligados. O chefe, sem mais nada acrescentar, falou-me que estavam aguardando a chegada do coronel fulano de tal, que seria quem nos diria o que faríamos. Estranhou o fato de dois colegas ainda não haverem chegado. Não saberia dizer por que, mas baixinho, disse-lhe que eles estavam lá fora. O chefe coçou e baixou a cabeça, pediu-me que sentasse e se calou. 

                Dali a pouco o oficial que cuidava da porta da sala entrou e disse para todos, juntos, subirmos até o auditório do edifício. Na saída, não vi mais os colegas que haviam ficado do lado de fora. Mas... se era para irmos juntos...?

                No auditório, muito bem guardado e vigiado, talvez fosse um general, mandava a todos que chegavam sentarem-se e permanecerem em silêncio. Confesso que já não aguentava tanto nhenhenhém. O sujeito parecia ter lido meus pensamentos, porque, usando a palavra, declarou: senhores e senhoras, fiquem tranquilos que nada lhes acontecerá. Curto e grosso, afirmou: o governo caiu, estamos agora, as forças armadas, no comando. Logo teremos notícias mais atualizadas para lhes dar. O general que responderá pelo poder executivo no estado está, neste momento – olhando o relógio -, conversando com o governante e seu staff, também com o prefeito da capital, para avisá-los das providências subsequentes. Vocês ficarão neste recinto até que ordens superiores cheguem até aqui. Sem perguntas, estamos entendidos? Claro que não, cidadão!

 Foram as quatro palavras de que me lembro haver dito, antes que o despertador me acordasse de fato. Estivera sonhando? Que loucura! Então, relembrei das últimas notícias lidas na noite anterior: a primeira dava conta de que as especulações e diatribes do presidente da república, poderiam esconder intenções escusas e mancomunadas com os generais, visando darem um golpe militar; outra fora que o filósofo guru do governo, horas antes, mandara ele e sua raça para o inferno e, quanto às comendas que lhe concedera, aconselhou-o que as colocasse no orifício que se localiza no final do cóccix. E disse mais o ex-mentor: que poderia derrubá-lo do governo. Estava, pois, explicado o pesadelo. Ainda bem. 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Valério Chaves, um magistrado paradigmático


Blog do Professor Gallas: ELMAR CARVALHO ENTREVISTADO NA TV ASSEMBLEIA

DIÁRIO
[Valério Chaves, um magistrado paradigmático]

Elmar Carvalho

15/06/2020

         Já faz alguns anos estreitei amizade com o desembargador Valério Chaves, mas o conheci pessoalmente desde que ingressei na magistratura, no final de 1997. A nossa admiração e respeito recíprocos independe de visitas, reverências, troca de confetes e rapapés. Foi se consolidando aos poucos, notadamente após sua aposentadoria, quando ele completou setenta anos de idade. Vez que outra ele me envia artigos e crônicas, e até mesmo pequenos ensaios, para publicação em meu blog, o que muito me honra.

Por sinal, em seu último texto publicado em nosso blog, em que ele discorre sobre algumas figuras históricas importantes da antiguidade clássica, entre as quais Marco Túlio Cícero, cravei o seguinte comentário:

“O amigo afirma não perder a esperança de ver um mundo melhor. Isso é um grande remédio em tempos de uma praga sem vacina e sem remédio eficaz. E quase diria sem consolo, exceto Deus.

Se perdermos a esperança, talvez percamos a cabeça, como Cícero, o grande tribuno, orador e político evocado em seu belo texto, que literalmente perdeu a sua, trucidado por soldados sob as ordens de Marco Antônio, que a exibiu como um troféu no Fórum Romano.”

            Ele nasceu em Guadalupe, no povoado Cocal, que hoje integra o município de Porto Alegre (PI), em 28 de abril de 1941. Formou-se em Direito em 1975 (UFPI). Após ter exercido o jornalismo e a advocacia, ingressou na magistratura em 1980, evidentemente através de concurso público de provas e títulos. Foi juiz substituto em várias Comarcas, e titular nas de Alto Longá, Luzilândia, Oeiras e Teresina, até ser alçado a desembargador, cuja posse administrativa ocorreu em 19 de novembro de 2007.

            O livro “Poder Judiciário do Piauí – 116 anos de história”, da autoria do saudoso Dinavan Fernandes, paraibano de Campina Grande, mas que se radicou no Piauí por quase 50 anos, até sua morte em 24/10/2016, jornalista e mago da fotografia, principalmente de eventos e retratos, informa o seguinte: “Além da judicatura, o Desembargador Valério Chaves exerce intensa atividade literária com publicação de artigos, crônicas, poesias e livros sobre temas da atualidade. É membro da União Brasileira de Escritores e da Academia de Letras da Magistratura Piauiense, ocupando a cadeira 26.” A seguir, enumera diversas obras de sua autoria, várias de doutrina e de assuntos jurídicos.

            Apenas como curiosidade, registro a informação contida no livro “Alberto Silva: 100 limites” (pág. 102), da autoria de Cid de Castro Dias, um dos principais responsáveis pela fiscalização das obras de construção do Estádio Governador Alberto Silva (Albertão), sobre cuja importante obra historiográfica já escrevi um pequeno ensaio, publicado em vários sítios internéticos, de que Valério Chaves, além de radialista e jornalista, era o locutor oficial da FAGEP – Fundação de Assistência aos Desportos do Piauí, que administrara a construção da grande praça futebolística.

            Como uma homenagem ao valoroso magistrado e homem de letras Valério Chaves, julgo oportuno transpor para as páginas deste Diário covidiano, o que sobre ele disse na crônica “Memórias e ‘causos’ do Des. Valério Chaves”, no ensejo da leitura de seu livro de memórias titulado “Casos de Justiça e outras histórias que a vida conta”, publicada na internet em 16/03/2016:

“Na semana passada, ao caminhar no calçadão da Raul Lopes, em companhia dos magistrados Raimundo Lima, Carlos Barbosa, Antônio Lopes, des. Boson Paes e o funcionário da Justiça estadual Luís Américo Campelo, encontrei o des. inativo Valério Chaves, que nos convidou a acompanhá-lo até seu carro, estacionado do outro lado da avenida.

            Recebemos então, devidamente autografado, seu mais recente livro, titulado “Casos de Justiça e outras histórias que a vida conta”. Ao que tudo indica, o desembargador, em sua humildade e certa timidez, não fez estardalhaço de sua obra e não a lançou em solenidade festiva. Simplesmente a editou e a está distribuindo a pessoas de sua estima e consideração, além de parentes e amigos.

            Sem óculos no momento, não pude, de imediato, ler a simpática e amável dedicatória que ele me havia feito, o que só fiz ao chegar em casa. O livro, de 173 páginas, bem impresso, contém suas memórias, sobretudo as de sua meninice, adolescência e parte da juventude, e um conjunto alentado de “causos” jocosos, sérios ou interessantes, dos quais ele foi protagonista, coadjuvante ou observador, muitas vezes em decorrência de sua função judicante. 

O des. Valério Chaves é uma das figuras paradigmáticas do Poder Judiciário Piauiense, pela sua notória honradez e probidade, e por sua humildade; humildade de quem nunca procurou ser honrado pelas vestes talares que envergou, mas de quem procurou honrar a toga que vestiu. Exerceu a magistratura, tanto no primeiro como no segundo grau, com inteligência emocional e sabedoria de vida, creio que hauridas e aperfeiçoadas ao longo de sua vida. 

Nasceu no povoado Cocal, então município de Guadalupe, em 28 de abril de 1941, filho de Fernando Pereira Pinto e Dorcas Ferreira Pinto, que lhe ensinou as primeiras letras. Na cidade de Nova Iorque (MA), em 1957, concluiu o primário. Dois anos depois seguiu para Teresina, onde prestou o serviço militar. 

Como podemos perceber da leitura de seu livro, mormente em suas memórias, estampadas na parte introdutória, mas também em várias crônicas de caráter memorialístico, em que narra episódios interessantes e algumas vezes pungentes de sua trajetória, foi um menino e um adolescente pobre, que muito cedo teve de trabalhar, no amanho da terra e no pastoreio das poucas “criações” de seu pai. 

Contou esses episódios com sobriedade, sem dramaticidade, sem se atribuir status de herói. Mas de fato ele foi um herói do cotidiano, da luta renhida pela sobrevivência e para obter as suas conquistas. Sua escalada foi lenta e gradual, sem atropelos e açodamentos, porque desprovido de ganância e infenso a querer subir a qualquer preço. Por isso mesmo encerrou sua carreira como um magistrado digno e respeitado. 

“Casos de Justiça e outras histórias que a vida conta” nos dão exemplos de vida, nas diferentes etapas da trajetória de seu autor, desde a infância modesta, em que foi chamado, para honra sua, de menino lenhador, de adolescente aguerrido no trabalho e no estudo, até o final da juventude em que, com muito esforço e obstinação, foi amealhando as suas conquistas, especialmente no jornalismo, no radialismo e na magistratura piauiense.”

Até o advento da pandemia, apresentava na TV Assembleia – canal 16, juntamente com o desembargador Edvaldo Moura, o programa “Justiça às suas ordens”, em que tive a honra de ser entrevistado, cujo vídeo, de 26 minutos, pode ser visto através do You Tube. Nessa entrevista, além de aspectos relacionados à minha carreira de juiz, falei de questões literárias, culturais, artísticas, éticas e, sobretudo, ambientais.

Para ilustrar e melhor demonstrar como é a sua personalidade, tanto como ser humano assim como na condição de julgador, desejo contar um breve episódio, que, de certa forma, provoquei.

Creio que o fato tenha ocorrido em 2008 ou no ano seguinte. Um operário humilde trabalhou em minha casa, fazendo pequenos reparos em serviço de pedreiro. Muito educado e já idoso, contou que seu filho se encontrava preso há quase um ano, sem nunca haver sido julgado. Aduziu que, salvo engano de minha parte, a defensoria pública impetrara algum tipo de recurso para que ele fosse posto em liberdade. Contou que seu filho, sob o efeito de bebida alcoólica, resolvera dar umas voltas numa bicicleta que se encontrava estacionada, mas sem intenção de furtá-la; apenas como uma espécie de brincadeira ou aventura de um jovem embriagado. Informou que o processo se encontrava no gabinete do Des. Valério Chaves.

Indo tratar de assuntos relativos a minha comarca no Tribunal de Justiça, embora um tanto constrangido, ainda mais porque na época eu pouco o conhecia, resolvi me dirigir a seu gabinete. Eu tinha a informação de que ele era um tanto rigoroso, embora muito correto, e sempre no intuito de efetivamente agir com justiça. De qualquer sorte, eu nada iria lhe pedir, muito menos algo indevido ou espúrio.

Assim, com o devido cuidado, pedi para lhe expor um fato de que tomara conhecimento. Ao fim da exposição, lhe esclareci que ficasse totalmente à vontade para fazer o que a sua consciência e o seu senso de justiça mandassem, à luz, claro, de nosso ordenamento jurídico e jurisprudência. Acrescentei que melhor para o jovem preso, talvez, teria sido ser condenado de imediato, sem audiência e sem exames de provas, já que seria beneficiado pela substituição de pena privativa de liberdade por uma outra, em que estaria gozando de sua liberdade.

Valério Chaves me ouviu com atenção e cortesia. Não teve gestos e nem palavras denotativos de emoção ou expansividade, sempre calmo e contido. Apenas prometeu que examinaria o caso à luz dos autos. Dois ou três dias depois, o rapaz foi posto em liberdade.

Finalizando esta nota, que já se vai alongando, devo dizer que, afora seus notórios conhecimentos jurídicos e gerais e seus méritos literários, Valério Chaves, além de tudo um ser humano digno e bom, avesso a empáfias e ostentações, era um verdadeiro julgador, não adstrito apenas ao formalismo dos ritos e das leis, mas que tinha, sobretudo, o espírito de efetivamente fazer justiça e reparar injustiças.     

domingo, 14 de junho de 2020

Seleta Piauiense - Alcenor Candeira Filho




Sossego

Alcenor Candeira Filho (1947)

manhã amena manhã eu em rede
em armador ao ar livre armada
céu de chumbo sem chuva manhã
em meio a jarro planta parede
espirais de fumaça Dunhill
a partir de pulmão e goela
espumas de neve sobre cerveja
em borda de taça de cristal
ao lado Luna york shire linda e eu
coroado de espirais e de espumas
na ebriedade de cerveja e fumo
sozinho sossegado releio
em plúmea manhã de céu plúmbeo
as “Flores do Mal” de Baudelaire.

Fonte: Portal Costa Norte   

sexta-feira, 12 de junho de 2020

A boneca de pano roubada




A boneca de pano roubada

Pádua Marques
Romancista, contista, cronista

Catarina não era de esperar em casa. Veio e ficou rente ao muro da casa de seu Zé Mendonça, olhando pra o portão por onde deveria sair dentro de pouco, Tião Marruás, ajudante de oficina na Estrada de Ferro Central do Piauí em Parnaíba, o homem que havia deixado a família pra viver com ela e o filho que estava esperando. Seu medo não era em vão. A mulher legítima dele, dona Francisca, poderia aparecer a qualquer momento, dobrar a esquina, armada de faca ou tesoura e naquele momento tudo podia acontecer.

Dona Francisca, mãe das duas filhas do mecânico Sebastião, o Tião Marruás, queria era saber, achar um pé pra descontar sua raiva daquela que chamava de camarada, a rapariga do marido! Com ele teve apenas duas meninas, Isaura e Joana, a primeira, de oito e a segunda de sete anos. Vivia assuntando, remexendo nos bolsos das camisas e das calças dele pra ver se encontrava alguma pista de onde a rapariga morava. Perguntava pra os companheiros de serviço dele, mas ninguém dizia nada. Tudo feito boca de siri.

Como Tião Marruás conheceu Catarina? Ele e uns companheiros passavam o dia todo no trabalho de manutenção das linhas de trem na esplanada e as mocinhas ficavam de lá das janelas do Miranda Osório prestando atenção e intimando com eles. Uma dessas foi justo Catarina, que se impressionou com Tião Marruás, sujeito moreno, de boa altura e feição, cabelos sempre alinhados e com brilhantina, pente no bolso, cigarro Continental no bico, andando sempre de camisa aberta pra mostrar os peitos largos.

Dias passados e eles foram se dando, se encontrando na hora do almoço dos trabalhadores, pelas esquinas, nas ruas próximas pra dentro da Coroa, passeando por cima da linha de trem, ali perto da casa de doutor Mirócles ou indo até próximo da casa dela nos Campos, quase nos fundos da igreja de São Sebastião. E até que um dia Tião Marruás trouxe pra Catarina uma boneca de pano, vestida com saia e blusa de papel crepom e comprada no Mercado Central da praça Coronel Jonas. Ela gostou do presente.

A coisa foi tomando rumo e Tião Marruás acabou um dia roubando Catarina da casa dos tios. Roubou a moça e colocou numa casa boa no Macacal, com tudo do bom e do melhor dentro. Louceira, penteadeira, banco de pote, cama, mesa de janta com cadeira de vime, cadeira de balanço e até tinha promessa de um rádio e de luz elétrica. Tinha até uma menina pra fazer companhia pra Catarina.

Dona Francisca agora era de andar com uma tesoura dentro dos seios, pronta pra matar a rival. E essa rival era uma menina nova, linda, de seus dezoito anos, de nome Catarina, nascida e criada no Bom Princípio, na beira da linha de trem, assim como muitas outras mocinhas do Macacal em Parnaíba. Depois de já estar necessitando de escola veio morar na casa de uma tia, dona Suzana, nos Campos, pra estudar no Miranda Osório, ali perto da Estrada de Ferro e foi onde conheceu Tião Marruás.

Catarina agora sabendo do perigo que corria era de andar sempre armada com uma tesoura. Deixou de lado escola e as amigas de classe do Miranda Osório, as missas nas tardes de sábado na igreja de Nossa Senhora da Graça ou perto de casa, na igreja de São Sebastião. Agora era outra. O ferroviário agora visitava a casa da rapariga cheia de luxo, nova e bonita duas vezes na semana, quartas e sábados. Inventava qualquer coisa pra mulher ou pra seu encarregado no serviço.

Quando os pais ficaram sabendo que Catarina tinha fugido com um homem casado na Parnaíba, deixaram de mão. Era pra eles a ovelha desgarrada, a carapuça do dedo cortado, a vergonha da família e que estava de agora em diante esquecida. Uma menina que podia ser mais lá na frente uma professora! Mas agora o mal estava feito! Mas a moça quase ainda uma menina, que veio de Bom Princípio pra estudar e no futuro ser alguma coisa, agora estava sendo a rapariga de um homem casado e pai de duas meninas na Parnaíba! 

Na vizinhança de dona Francisca a conversa era de que Tião Marruás largou a mulher pra se amigar com uma menina que tinha quase idade de ser filha dele. Que a mulher era muito ciumenta, mandona, feia, sem modos. Ela vivia agora tomando remédios, indo na macumba lá pra os lados do Catanduvas levando roupa dele pra fazer serviço. E as conversas chegando ao pé do ouvido dela a toda hora. Chegou a pensar ir até o serviço de Tião, na Estrada de Ferro pedir que cortassem o dinheiro dele ou mandassem ele embora. Se não desse em nada ia dar parte na delegacia!

Passados uns meses daquele sábado de setembro de 1948, Catarina falou pra Sebastião que havia estado na Santa Casa e doutor João Silva disse que ela estava prenha. Foi o mesmo que aparecer uma assombração pra ele. Tião Marruás passou a mão na testa, coçou a cabeça ficou ofegante e correu a mão nos bolsos da camisa procurando pelo cigarro Continental. Aquilo era precipício demais!

Vivia sendo perseguido dia e noite pela mulher e agora aquela de Catarina vir dizer que estava esperando menino?! Foi o mesmo que dizer de que a canoa atracada do porto Salgado estava entrando água ou o trem carregado de coco babaçu tinha descarrilado! Catarina não se fez de rogada, não chorou nem nada.

Fazia tempo que andava se cansando daquela vida de andar fugindo, se escondendo, passando humilhação com medo de morrer ou até matar dona Francisca. Tinha perdido as amigas e sido esquecida pela mãe e o pai em Bom Princípio e os tios em Parnaíba. Agora ia tomar tento na vida. Deixou que Tião Marruás fosse embora naquele dia e sem perder tempo foi até o quarto, arrumou as malas, fechou a casa e foi embora. Nunca mais ninguém soube dela. A boneca de pano que um dia ganhou dele de presente, essa deixou na entrada da porta.   

quinta-feira, 11 de junho de 2020

DIVAGAÇÃO EM “QUARENTENA”




DIVAGAÇÃO EM “QUARENTENA”

Valério Chaves

Des. Inativo do TJPI
 

O isolamento social que me impôs - diria  quase que compulsoriamente - essa quarentena coroniana que assola o mundo,  subtraiu parte do meu direito constitucional de ir onde eu quiser, inclusive caminhar no final da tarde na Raul Lopes, mas por outro lado, tem me dado tempo para assistir filmes pela TV e ler livros de alguns autores importantes – historicamente falando – não tanto pelos próprios méritos, mas pelo volume de informações que  transmitem sobre a era em que viveram algumas figuras históricas realmente importantes.

 A propósito de corona, de saída, gostaria de dizer que até hoje não entendi porque essa “quarentena” que estamos vivendo, em razão da Covid-19, não acabou ao completar seus quarenta dias de tolerância, pois até onde sei, quarentena significa 40 dias. Pelo menos é essa a definição na língua portuguesa que o Dicionário Aurélio registra, verbis: quarentena – período de 40 dias, espaço de tempo durante o qual os passageiros procedentes de países onde há doenças contagiosas graves são obrigados à incomunicabilidade... (pág. 1425, 2ª edição). Além disso, a Bíblica  diz que Jesus ficou em quarentena durante 40 dias no deserto, sendo tentado pelo diabo (Lucas, 4.2). Ainda existe a Quaresma – 40 dias entre quarta-feira de cinzas até domingo de Páscoa – período destinado pelos católicos e ortodoxos à penitência.

Na minha obscura piauiensidade (como diria o Prof. Camilo Filho), acredito que quem inventou o termo quarentena não tenha tido talento bastante para perceber a grandeza e a poesia dos autores anônimos dos relatos bíblicos como nos livros de Reis, Crônicas e Juízes.

Mas deixemos de lado as interpretações linguísticas e voltemos aos feitos, livros e figuras históricas importantes do mundo antigo a respeito dos quais tem me sobrado tempo para ver nos tele-jornais, nos programas de tv e nas mídias em geral.

Começo citando apenas alguns nomes que se destacaram no mundo ocidental no campo da poesia, na literatura, na mitologia, na retórica, na arte, na política e na história da humanidade, antes e depois da era cristã.

Tito Petrônio Árbitro - o homem de um só livro – com o seu  Satiricon, no qual escolheu como tema as frivolidades do seu tempo transformado em degenerescência moral aliada a uma filosofia oriunda de Platão.

Públio Ovídio Naso (43ª.C-18 d.C) - conhecido como Ovídio nos países de língua portuguesa como autor de Heroides, Amores, Metamorfoses, Fastos e Tristia, escrito no exilio, no  mar Negro. Escreveu sobre amor, sedução e mitologia clássica. Era admirado por toda a Roma antiga apesar de ter vivido uma vida boêmia resultando no seu envolvimento num escândalo com Júlia, neta do imperador Caio Plinio Segundo. É colocado ao lado de Virgílio e Horácio como um dos três poetas canônicos da literatura latina.

Públio Virgilio Maro (70 aC-19aC) – considerado um dos maiores poetas de Roma. Eneida é sua obra mais conhecida, baseada na história de Eneias refugiado da lendária Guerra Troia, período turbulento de cerca de dez anos durante os quais gregos e troianos pelejaram por Helena, mulher de Menelau. Teve grande influência na literatura ocidental, mais notadamente na Divina Comédia de Dante Alighieri.

Caio Júlio César (100 a.C-44 a.C) - A par de ter sido um dos grandes líderes da humanidade, foi audaz na conquista do Império Romano, ambicioso na guerra civil, inquieto intelectualmente – autor de um razoável trabalho sobre a analogia (diluição parafraseada de alguns itens da lógica aristotélica). Diante de  situações dramáticas era capaz de arrancar célebres frases que até hoje são repetidas no mundo ocidental: “Vim, vi e venci”, “A sorte está lançada”, “Até tú, meu filho”. Dando a medida de sua importância, não só como herói carlileano, mas capaz de exercer fascinação em outro gênio como Shakespeare quando este escreveu a peça tragédia grega, Júlio César.

Dentro de um contexto literário, a frase “Até tú, Brutu” dita por César quando viu Brutu entre os senadores assassinos, resta um enigma para alguns historiadores da antiguidade.

 Até os dias atuais, entre historiadores e acadêmicos, não se sabe ao certo quais foram as últimas palavras de César. O historiador Suetônio acredita que César não disse nada antes de morrer, apenas “envolveu a cabeça com a toga quando viu Bruto entre os conspiradores, e com a mão esquerda, puxou a extremidade dela até os pés para tombar decorosamente (sem mostrar os genitais)”. A célebre frase em latim “Et tu, Brute, na verdade, vem da peça Júlio César, do dramaturgo inglês William Shakespeare.

 Certo, porém, é que os assassinos de César não duraram três anos após o atentado, exceto Bruto que foi perdoado e assumiu o governo da Gália (atual norte da Itália). Alguns morreram em guerra civil, outros foram caçados e executados, outros cometeram o suicídio.

Edward Gibbon (1737-1794) – autor de uma obra clássica sobre a história e o declínio romanos depois da morte do último Cesar, situa entre a morte do imperador Domiciano  e a ascensão de Cômodo, o período mais feliz da humanidade, quando afirma: “Se o homem tivesse de fixar o período da história do mundo durante a qual as condições da raça humana tenham sido mais felizes e prósperas, indicaria sem a menor hesitação esse período que decorreu entre a morte de Domiciano e a ascensão do filho de Marco Aurélio onde a vasta extensão do Império Romano era governada pelo poder absoluto, sob a orientação da virtude  e da sabedoria”.

Nesse período os exércitos foram coibidos pela mão firme de quatro imperadores sucessivos: Nerva, Trajano, Adriano e Antonino, que, segundo o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (1926-2018) “se deleitavam na imagem da liberdade e se consideravam como ministros responsáveis pelas leis. Esses príncipes teriam a merecida honra de restaurarem a República se os romanos de seus tempos tivessem sido capazes de adotar uma liberdade racional” (in, A Vida dos Doze Césares).

Marco Túlio Cícero (106 aC-43 aC) - tradutor da filosofia grega, tribuno, orador, político, advogado de Metelo e Milão, além de ter erguido as bases jurídicas e morais de um mundo em transição espraiado num imenso território conquistado por Júlio César. Segundo Michael Grant “a influência de Cícero sobre a história da literatura e das ideias europeias em muito excede a de qualquer outro escritor em prosa de qualquer língua” (Discursos, enciclopédia livre).

Tirante das histórias contadas por escritores e historiadores  antigos sobre figuras históricas como estas que acabei de mencionar aleatoriamente, continuo por aqui na modernidade dessa tal de quarentena alimentando-me  24 horas de notícias ruins sobre mortes e contaminação, mas sem perder a esperança de ver um mundo melhor, apesar de políticos desonestos, pessoas desempregadas na fila de bancos buscando auxílio emergencial, marginais soltos pelas ruas e cidadãos honestos dentro de casa impedido (por decreto) de sair para trabalhar.

Este é o mundo em que estamos vivendo, ou melhor, tentando viver, com medo até de beijar familiares e apertar as mãos dos amigos.