quarta-feira, 19 de agosto de 2020

LEGADOS E/OU LEMBRANÇAS DA PANDEMIA

Fonte: Google

LEGADOS E/OU LEMBRANÇAS DA PANDEMIA

 

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

 

                Escolhi o dia em que estava completando cinco meses de reclusão e total isolamento, plena e vigente quarentena, dezoito de agosto, para arrolar, já, alguns legados desta pandemia, que, logicamente, serão consumidos ou se esfumarão com o passar do tempo, e lembranças que, se ficarem indeléveis, que o seja somente como tristes reminiscências, recordações, não feito cicatrizes, tatuagens, sinais dolorosos no corpo e na alma.

                Nesse período, como, praticamente, não saí do meu canto, nem para ir à casa dos pais; por umas duas horas e não mais que a dois quilômetros, dele me ausentei para vacinar-me com o antigripal atual; por não interagir com outras pessoas, e imunizado, não contraí gripe, não me envolvi em assaltos ou violência no trânsito – apesar de, na própria garagem caseira, por inatividade do nosso automóvel, haver perdido uma bateria -; sem correr atrás da sagrada bolinha, nas igualmente santas peladas, não me contundi, não torci tornozelo nem joelho – em compensação, não vibrei com os “belos gols” marcados, nem participei, com os colegas, de animadas resenhas; não fui vítima de problemas gastrintestinais, mas engordei uns dois quilos - que pretendo perder até o final do cárcere sanitário -, graças às comidinhas encomendadas; a pele deu uma clareada, e até os calos diminuíram ou murcharam, o que parece autoexplicável: não calcei sapato nem chuteiras, ora.

                Durante o recolhimento, mas, mesmo que não estivesse, veria ou tomaria conhecimento, do ror de profissionais, notadamente, da mídia – alguns, despreocupando-se dos riscos e minimizando a própria segurança, levaram boas traulitadas -, criticando governantes que cismaram em não liberar  a população para ir ao trabalho, produzir e/ou se divertir, como eles, os críticos e uma porção de indivíduos ou empresários pouco preocupados com a virose, gostariam de que fosse a decisão dos gestores; que, claro, não foram na conversa dos apressadinhos e continuaram pensando na maioria da população, pois sabiam que, de prontidão, estava, e ainda está, um vírus que não brinca em serviço, nem respeita ninguém; vi e ouvi, nesse interregno, político e seu amigo, tipo figadal, governante, com quem caminhava e cantava, falavam a língua dos homens, dividiam dores e gozos, de repente, romperem uma aliança que parecia sólida; e o cisma os levaria, então, a tomar por inverdade, o que nos tempos de dourada parceria e de práticas subterrâneas, fora verdade. E tome demagogia. Pode até ser, não duvido, que antes de finda a pandemia, eles façam as pazes ou, quem sabe, de tanto acusarem-se, despertem o interesse de autoridades policiais ou judiciais em saber que verdades, inverdades ou lorotas seriam as que, por tanto tempo, escamotearam, negacearam.

                Como não lembrar deste fato hilário que ocorreu nestes tempos pandêmicos? A pública cobrança por mimos feita por um articulista da mídia impressa que, em razão das restrições causadas pela pandemia, não poderia fazer sua tradicional festa de aniversário. Enquanto pôde, até o dia do evento natalício, alertou àqueles amigos que poderiam esquecê-lo, de que, caso necessário, enviar-lhes-ia mensagens contendo as contas que deveriam receber os presentes, lembranças, recordações. Chegaria a fazer “doces ameaças” aos “fãs” com algo do tipo: uma mão lava a outra ou, é dando que se recebe; aos teimosos ou indiferentes nada recomendou. Ou será que pensou em “todo cuidado é pouco? ”. Parabéns para você!

                Não tenho dúvidas, quanto a estes legados, quão difícil será esquecê-los: aumento dos níveis de estresse, nervosismo e de tensão arterial; medo sofrido ante a possibilidade de poder ser infectado por alguém da família que, sem saber nem apresentar qualquer sintoma aparente – exemplos contava-se aos montes -, bem que poderia haver contraído o vírus, por aí, o que, felizmente, não aconteceu; o dissabor, por ter acusado de que iria espalhar o vírus aquele parente, com todos os sintomas de estar infectado, mas que se mantinha cético e despreocupado; e que, de fato, não estava, para o bem de todos.

                Até agora, os piores legados foram, infelizmente, as perdas de parentes, amigos, conhecidos, camaradas, ídolos; mas, também a partida de gente desconhecida, seres humanos queridos dos seus próximos, como todos os nossos, inesperadamente, abatidos por esse demoníaco coronavírus. Esses demorarão a esfumar-se da memória, provavelmente.

                Entre os bons, elencaríamos a recuperação de amigos, parentes, gente do nosso convívio ou fora dele,  salvos das garras da insidiosa e traiçoeira COVID-19; todavia, o maior legado ainda está por vir, e tomara isso ocorra sem muita tardança, melhor que seja antes de finda a pandemia, para o bem geral da humanidade: a disponibilização de uma ou de várias vacinas, comprovadamente, eficazes na imunização, colocando um ponto, senão final ou ad aeternum, por uma longa e pacífica temporada, em tanto sofrimento causado pelo maldito coronavírus.  

Saudade do professor Evandro


Carlos Henriques


Saudade do professor Evandro

Carlos Henriques Araújo (seu irmão)

Escritor, memorialista e cronista 



      A vida é o intervalo de tempo entre o nascer e o morrer. O envelhecimento é a conseqüência natural. Todos nós sabemos que passaremos por essa adversidade, mas não nos preparamos para aceitá-la sem um sentimento de tristeza. 

Envelhecer requer sabedoria para usufruir o tempo que dispomos. É uma questão de escolha. Somos responsáveis pelo nosso envelhecimento.

Existe uma estatística pouco divulgada e desconhecida pela maioria das pessoas: Somente uma em cada dez pessoas terá morte súbita, as outras nove darão trabalho para morrer. Irão adoecer gravemente e perderão sua autonomia e independência.

A autonomia na velhice é poder dizer eu quero ir ao banheiro, e independência é levantar e ir ao banheiro. Quem não tem autonomia, nem independência vai depender dos outros.  

É uma experiência terrível, pois além das “fraldas”, vem a dificuldade de andar, de falar, de enxergar, de ouvir, de comer, de engolir e de beber.

          Portanto, antes de chegarmos nesse estágio, o grande desafio é nos prepararmos para dar menos trabalho para aqueles que iram cuidar de nós (parentes e empregados).

       Mas será que ao partirmos dessa para outra, levamos a ciência do sentido da nossa vida? Por que viemos e para onde vamos agora?  Somos um ser espiritual passando por uma experiência humana aqui na terra?

       A morte é um dia muito importante na nossa vida. É como nosso nascimento ao contrario. A morte é a nossa formatura na escola da vida. Quando nascemos somos só inocência.

 Ao morrer, levamos uma experiência de vida imensa. Adquirimos muitos conhecimentos. Fazemos muitos amigos. Recebemos muitas benções. Estudamos muito, aprendemos muito e ensinamos muito, principalmente os professores.

 O professor Evandro partiu para uma nova vida, muito feliz, com o reconhecimento dos familiares, parentes, amigos e alunos, com seu diploma de aprovado na escola da vida.

 Ele nos deixou muita saudade pela pessoa que foi como irmão, amigo e professor. Ele foi um incentivador de seus alunos para se realizarem na vida. Uma de suas grandes satisfação era quando via um de seus alunos realizado e com um futuro promissor.

            Hoje faz um ano que ele se despediu de nós. E mais uma vez oramos e pedimos para que o nosso Deus o guarde e o proteja com o carinho que todos nós tínhamos por ele.

           Obrigado professor Evandro por ter existido em nossa vida, dirão seus alunos, amigos, familiares e todos que tiveram a oportunidade de ter o conhecido, de ter convivido e estudado com ele.

Prof. Evandro Araújo

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A bengala


A bengala

Carlos Rubem 

Tidos e havidos por muquiranas, em Oeiras, os filhos de Natu Reis, meu avô paterno, transpareciam ser assim mais do que eram. Honestos, tudo o que amealharam foi fruto de esforço pessoal, muita renúncia, trabalho maior ainda.

Amadeuzinho, meu querido tio, como seus demais irmãos/irmãs, era muito apegado aos seus haveres. Tinha ciúmes dos seus pertences, quinquilharia em geral.

Aos 85 anos, muito rueiro, começou a andar em passos miúdos o que não o impedia de levar, vez outra, algum tombo. Neste contexto, ganhou de presente uma bengala, doação do filho Tiel.

Usou tal objeto por uns três dias, não se acostumava com este suporte de mobilidade. Aposentou a bengala num canto qualquer da casa.

Natércia Sá Rocha Reis, viúva do seu irmão Alberto, foi acometida de doença vascular. Usava meias de compressão, caminhava com certa dificuldade. Foi aí que o primo Tiel se lembrou do encostado bastão de madeira do pai e o cedeu, por empréstimo, a nossa estimada tia.

Certo dia, Meringa, como era apelidado, sentiu falta da sua bengala. Vasculhou toda a casa e necas... Dizia que a tinham roubado. Ao tomar conhecimento da aflição do marido, a tia Zelinda, sua esposa, esclareceu o paradeiro daquilo que tanto procurava. Não ficou satisfeito com o que soube!

Tio Amadeu se encasquetou com aquela história. Pedia que fossem resgatar a sua bengala, mandava recados, o que não era atendido. Não se conformava!

Tempos depois, levaram tio Amadeu para fazer um chek-up médico com o Dr. Duarte, em Teresina. Quando disse que era natural de Oeiras, o facultativo lhe indagou se conhecia uma paciente sua chamada Natércia Reis. — Sim, é minha cunhada, pontuou.

Depois da anamnese, aferição da pressão arterial, solicitação de exames laboratoriais e outros procedimentos correlatos, ao se despedir, tio Amadeu se dirigiu ao médico:

— O Senhor pode me fazer um favor?

— Claro!

— Doutor, da próxima vez que Natércia vier se consultar, pede a ela para devolver a minha bengala!

José Luiz de Carvalho festeja os vinte anos da Coletânea de Poeta Buritienses Contemporâneos

 


José Luiz de Carvalho festeja os vinte anos da Coletânea de Poeta Buritienses Contemporâneos

Pádua Marques

Jornalista e escritor

O escritor José Luiz de Carvalho, atual presidente da Academia Parnaibana de Letras, declarou nesta segunda-feira (17) que está organizando para ser montada e com lançamento previsto no próximo ano, a Coletânea de Escritores Buritienses Contemporâneos, entre jovens, antigos e novatos, retomando nos estudantes e no público em geral o gosto pela literatura regional.

Esta obra deve reunir os expoentes da literatura buritiense e se juntar a outro trabalho, a Coletânea de Poetas Buritienses Contemporâneos, lançada há vinte anos reunindo poetas como Nenê Calixto, Geni, Roberto Amorim, Nonato Caraúbas, o maestro João Amaral, a poetisa e professora Chica Belina, Daschagas, e Bernardo Souza, além do próprio José Luiz de Carvalho.

Em 2000 o lançamento se deu no Pirangi Clube, região central de Buriti dos Lopes, com a presença de autoridades, estudantes, convidados, do prefeito Antonio Ribeiro Tavares, que incentivou a obra, e de representantes de academias de letras de Parnaíba e Piracuruca. A capa mostrava um conjunto de formações rochosas e inscrições rupestres encontradas no leito no rio Pirangi.

domingo, 16 de agosto de 2020

PARABÉNS TERESINA!

Fonte: Cidade Verde/Google
 

PARABÉNS TERESINA!

Carlos Henriques Araújo

Memorialista e cronista

        Teresina é uma cidade abraçada por dois rios: o Parnaíba, que nasce na Serra das Mangabeiras, na fronteira com o Estado de Tocantins, é o segundo maior rio do Nordeste, depois do São Francisco, e o Poti, saído da Serra da Joaninha, no Ceará, um pequeno filete d’água que vai tomando corpo, atravessando chapadas e cânions, até se encontrar com o rio Parnaíba no bairro Poti Velho, no fenomenal Encontro das Águas.

Teresina nasceu urbanisticamente moderna. Foi uma das primeiras cidades do Brasil em que o projeto chegou antes da ocupação do espaço urbano. 

Encravada na chapada do corisco, uma referência, não ao capanga de Lampião, mas aos relâmpagos e raios que nas noites de chuva, no final do inverno, riscam os céus com clarões de fogo que derrubam árvores. Assim, no seio desse estado querido, surge a Mesopotâmia do Agreste.

Do sonho de Conselheiro Saraiva, cresceu embalada pelas águas do Poti e do Parnaíba, acariciada pelo vento nordeste que depois das dez vem amenizar seu clima quente, conseqüência do abraço carinhoso do sol do equador.

Teresa Cristina, para os íntimos, Teresina. Seu nome traz a beleza de uma menina que, àquela época, dom Pedro previa um futuro promissor. A menina cresceu e com ela cresceram seus filhos: - Os teresinenses ilustres. São tantos que não dá para colocar o nome de todos sem esquecer algum.

Apesar das administrações que sucederam ao longo desses anos, segue seu caminho buscando, altaneira e despretensiosamente, ser um dos maiores centro populacional do Meio Norte, no tocante a medicina, educação e eventos.

Permanecem vivas, em todos nós, as lembranças da bucólica Verdecap de outrora. Que saudade das caminhadas admirando as árvores e os pássaros na Praça da Bandeira; dos passeios de carro pela na av. Frei Serafim; da feirinha na Praça Saraiva depois da missa aos domingos; da peixada do Pesqueirinho sob a luz do luar; do lanche discreto no Minhocão; do churrasco na animada Beira-Rio; das rodadas de cerveja ouvindo forró no bar Maria Fulô; do papo agradável com os amigos no bar Escândalo; da batida gostosa do Raízes ao som do melhor do rock e da MPB; das serestas na coroa do rio Poti; das festas juninas no Tabajaras; dos ensaios das escolas de samba Ziriguindum e Esquindô; do sorvete gostoso no Elefantinho; do pão de queijo do seu Cornélio; do pão “massa grossa” gostoso da padaria Fortaleza; das noitadas no Nós e Elis; dos embalos nas boates La Muralha e Super Star; e para encerrar a noitada com chave de ouro, uma deliciosa mão de vaca no Cassarolinha, acompanhado pelo violão do Silizinho.

Teresina hoje não é lembrada só pelo seu calor, pela a cajuína, pelo troca-troca ou o cabeça-de-cuia. Ela é cantada em verso por seus poetas e reconhecida no Brasil por ter as melhores escolas do país.

Recortada de avenidas longas e largas, Teresina se iguala a outras capitais do nordeste como uma grande metrópole.

A reurbanização da Av. Frei Serafim, a Ponte Estaiada, o sistema de ônibus integrado que além de embelezar a cidade, diminuiu o congestionamento de carros e deu mais comodidade e conforto aos usuários.

O crescimento vertical de Teresina é um indicador que traz no seu bojo as oportunidades de investimentos, de trabalho e de negócios, principalmente nas áreas de educação, saúde e eventos.

Encontros, seminários, eventos, feiras e exposições, cursos de especialização e mestrados se multiplicam, dando um leque de opções para profissionais e estudantes nas mais diversas áreas.

No setor de entretenimento acontece um fenômeno comum nas cidades que não têm praia, a vida noturna é movimentadíssima. Restaurantes, boates, bares, botecos e casas de espetáculo lotam, estendendo-se até altas horas.

Só faltam as autoridades e governantes responsáveis pela segurança somarem esforços para que os teresinenses, turistas e visitantes possam trabalhar e se divertir com mais tranqüilidade e segurança.

Juntamos nossos votos às homenagens à Teresina pela passagem de mais um aniversário, na esperança de melhores dias para todos os teresinenses que fazem desse calor (humano) seu carinho para com os visitantes, que retribuem com alegria, se tratando em seus hospitais, estudando em suas faculdades e se divertindo em seus bares, restaurantes e casa de espetáculos dessa grande metrópole do Meio Norte.    

Seleta Piauiense - Paulo Véras

Fonte: Google
 

Idade

 

Paulo Véras (1953 – 1983)

 

Meu corpo antigo

é aquele que o limo dos anos

usou em sua corrida

 

Hoje ele é um bicho encardido

à sombra dos metais mais vulgares

 

Hoje ele é um bicho largado

à margem da água

que escoou dos ossos das frutas

depois de saciada a fome

que espremia o peito dos homens

e arrancava do colo das mulheres

o leite bom para decepar

a sede dos velhos

 

Hoje ele descansa

sobre as rugas crespas

de uma terra usada

pelo suor dos corpos

dos amantes

sob uma lua emparedada no céu

 

Hoje ele possui

a escama das marés fartas

e a respiração forte

das montanhas grávidas de verde

à beira das cidades pequenas

cheias de esperança

nas canções que escorrem

da boca do povo

 

Meu corpo antigo

ficou assim

manchado do pelo dos animais

que me emprestaram seu cio

na noite em que me tornei

animal do mundo

 

Meu corpo antigo

bebeu daquele cio feroz

e se tornou mais antigo ainda

 

Fonte: Poemágico – a nova alquimia, 1985    

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

PARABÉNS PARNAÍBA!

Fonte: Globo/Google

PARABÉNS PARNAÍBA!

Carlos Henriques Araujo

Cronista e memorialista

 Foi lá pelos anos de 1822. Um punhado de parnaibanos que sonhavam com a independência do Piauí do julgo português, se organizaram e bravamente lutaram, evitando assim que Portugal criasse um Estado formado pelas Províncias do Piauí, do Maranhão e do Pará. Este feito fez com que D. Pedro I agraciasse a Vila de Parnaíba com o honroso título de “Metrópole da Província do Norte”.

Este foi um importante passo para criação da cidade. Mas tarde, Parnaíba tornou-se o maior pólo de riqueza e opulência do Piauí, através das charqueadas (oficinas de carne seca) e depois até o período áureo da cera de carnaúba, do jaborandi e do algodão.

            O rio Igaraçu (que não é de janeiro, mas de todos os meses), embala esta “cidade maravilhosa”. A ponte que, assim como a outra, nos leva, não a Niterói, mas à Ilha Grande de Santa Isabel, facilitou o acesso à praia da Pedra do Sal, a mais bonita do Piauí.

            Com uma riqueza natural invejável e um povo trabalhador; com um clima agradável e a tranqüilidade de uma cidadezinha de interior; com seus casarões antigos, mansões, igrejas e o Porto das Barcas, formam um acervo arquitetônico em vários estilos, do barroco ao moderno, que encanta os visitantes e turistas.

            Em comemoração ao seu aniversário, mister se faz, para transmitir-lhe nosso carinhoso amplexo, estendê-lo a todos os conterrâneos, relembrando algumas passagens, citando alguns lugares e revivendo aqueles momentos que ficaram guardados na memória de todos nós.

            Falar da Parnaíba do passado é um mergulho num mar de saudades e de recordações agradáveis. É viajar no tempo, de volta ao passado, desde a infância até a adolescência.

            É andar num carrossel de um circo armado na Guarita ou se balançar numa canoinha nas quermesses dos festejos de São Sebastião; é comer cana cortada em rolas, espetadas num palito; é paquerar na praça da Graça vendo as meninas passar depois da missa na matriz, ou namorar na pérgula olhando os peixes e a cangapara do espelho d’água.

            É assistir um filme do Elvis Presley no cine Éden, na cessão das quatro,  ir a uma festa no Igara Clube ou uma tertúlia na AABB e depois comer uma ostra no Cabana.

            Tomar um cafezinho no bar Carnaúba ou uma cuba libre no bar do Pipiu, sentindo a brisa suave da beira do rio, comer um caranguejo no seu Cornélio, uma galinha caipira no Zé grosso, ou uma feijoada no Hotel Parnaíba. Fazer um lanche no bar Fortaleza ou na Merenda do Índio.

            Como falar de Parnaíba sem citar lugares, casas, bares, lojas que foram símbolo de uma época e que permanecem guardados na lembrança: o cajueiro de Humberto de Campos; lagoa do Bebedouro; indústrias Rosápolis; grupo escolar Miranda Osório; Ginásio Parnaibano; Instituto São Luiz Gonzaga.

            Rua Presidente Vargas, mais conhecida como Rua Grande, apelido merecido, pois era a maior de todas. Começando no Porto Salgado, sob o olhar altaneiro da águia sobre um monumento rodeado de palmeiras imperiais, de frente para o Pavilhão, um misto de posto de gasolina, bar e ponto de carro de aluguel.

            Parnaíba foi palco de personagem que se misturam com a história da cidade, verdadeiros cartões de visita e símbolo de uma época, nas mais diversas modalidades, como: Pacamão, mestre da palavra e do improviso; Monsenhor Antônio Sampaio, a cultura em forma de educação. E muitos outros ilustres personagens, poetas, escritores, boêmios e figuras folclóricas que permanecem vivos em nossa memória.

            Ao completar mais um ano de existência, Parnaíba espera que a influência e a força de seus ilustres filhos políticos, façam renascer, com a ajuda de Nossa Senhora das Graças, o esplendor e a fartura econômica e cultural dos tempos memoráveis.

            Parabéns, Parnaíba! Os parnaibanos te abraçam e confiam no teu futuro, com a mesma garra que tiveram, quando ainda era uma vila. Que Parnaíba volte a reviver os tempos áureos que tanto temos saudade.

            Todos nós estamos de parabéns, pois a cidade é nossa, é dos parnaibanos. O povo é a razão de sua existência, independente de partido, raça, condição social e religião.

            Todos somos responsáveis por seu sucesso, quer fazendo nossa parte como servidor, quer pagando nossos impostos como contribuinte e como eleitor escolhendo seus administradores.

Parnaíba está de parabéns e todos que compõem o “staff” administrativo municipal que tão bem estão conduzindo e aglutinando forças para consecução de seus objetivos.

Que Parnaíba continue sendo o orgulho de seus filhos e que as novas gerações guardem na lembrança a história do brado retumbante desse povo heróico e varonil.  

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Dílson Lages Monteiro entrevista Claucio Ciarlini: Piaguí e a literatura de Parnaíba

 

Escritor critica pretensão do governo de taxar em 12% o mercado editorial

 

 

O escritor parnaibano Antonio de Pádua Marques Silva criticou nessa quarta-feira a pretensão do Ministério da Economia de taxar em 12% o mercado editorial. Pretendendo lançar no próximo ano três livros, o romancista autor de A Rua das Flores, Gato Ladrão de Sebo e O Libertador de Cuba, vê com muita apreensão esta medida. “Nós que estamos mais longe dos grandes centros vamos ficar ainda mais isolados e sem condições de projeção”, disse.

Desde 2004 vigora uma lei que desonera a indústria do livro, mas a imunidade de impostos de materiais para leitura é mais antiga, setenta e quatro anos, desde 1946. O setor editorial brasileiro teve uma queda de 20% entre 2004 e 2019, confirmada pela Câmara Brasileira do Livro, Associação Brasileira dos Editores de Livros e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros.

Ainda segundo Pádua Marques, a saída para quem está ingressando no mercado editorial e para aqueles que estão lançando seus trabalhos é a tiragem de poucos exemplares, no máximo cem unidades. Para isso os escritores de todos os gêneros estão recorrendo às gráficas pequenas. “Nesse caso os custos são acessíveis, podemos fazer pequenas tiragens sem o risco de encalhe”, disse.

Membro da Academia Parnaibana de Letras, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba e de outras entidades culturais, Antonio de Pádua Marques Silva, aos 64 anos escreveu dez livros, tendo três publicados e a expectativa em 2021 lançar mais três, Os Três Degraus, Vinte Contos Para Simplício Dias da Silva e Opinião, este último uma reunião de artigos durante sete anos nos portais, blogs e impressos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

SER MÃE, DE COELHO NETO, E PARÓDIA DE FRANCISCO MIGUEL (Ser Pai)


 

SER MÃE, DE COELHO NETO, E PARÓDIA DE FRANCISCO MIGUEL (Ser Pai)

 

 Prezado Confrade Elmar Carvalho,

  

          Somente nesta manhã tive a folga necessária e a lembrança mais ainda de enviar-lhe a paródia "Ser Pai", depois de um belo dia dos pais, junto com os filhos e netos, uns em presença online, outros apenas por telefone, e por último, a que mora comigo, a qual tratamos por Mecinha. Não citei minha mulher, D. Mécia, em primeiro lugar, que sempre me acompanha nos dias felizes quantos nas horas de tristeza ou doença.

 

          Primeiro, vai o soneto “Mãe”, do fecundo poeta Coelho Neto, que ao falecer já havia publicado 100 obras. Maior do que ele, na literatura brasileira, em fecundidade, somente o nosso querido Assis Brasil que já anda perto das 200 obras publicadas em diversos gêneros, exceto em poesia.

 

          A particularidade de Coelho Neto é que ele só publicou, ou deixou publicar, um poemas, que o inolvidável soneto “SER MÃE”. Outra particularidade: É que ele, quando esteve no Piauí, fez uma palestra no Teatro 4 de Setembro, e ao fim da palestra denominou nossa Capital, Teresina, de “Cidade Verde”. 


NOTA DO EDITOR: Solicitei ao poeta Francisco Miguel de Moura os dois poemas, aqui publicados, como parte da comemoração ao Dia dos Pais. O poema de Chico Miguel foi instigado pelo desembargador Manfredi Mendes de Cerqueira, que lançou um desafio para que algum poeta fizesse um texto poético sobre Ser Pai, conforme consta na ata da Academia Piauiense de Letras, do dia 07/05/2011, por mim lavrada: "MANFREDI MENDES DE CERQUEIRA: fez belo pronunciamento sobre a importância e o significado do Dia das Mães e recitou, de cor, o famoso soneto de Coelho Neto sobre Ser Mãe; desafiou poetas, sobretudo poetisas, a fazerem o poema Ser Pai; sobre o soneto de Coelho Neto, disse que ele era um pequeno frasco a conter uma grande essência, que é o seu conteúdo, glorificando a importância de uma mãe. Rendeu Glória a Deus por haver colocado em sua obra de criação a figura da mãe. Homenageou, em suma, todas as mães, e, em particular, a sua esposa e a sua genitora." A ata referida se encontra transcrita no livro "História e vida literária: atas da APL", por mim organizado. Alguns dias depois o poeta Chico Miguel, em sessão acadêmica, apresentava a sua paródia, também constante numa de nossas atas. [EC] 

   

 SER MÃE

 

COELHO NETO(1864 – 1934)*

 

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra

O coração, ser mãe é ter no alheio

Lábio que suga, o pedestal do seio,

Onde a vida, onde o amor, cantando vibra.

 

Ser mãe é ser um anjo que se libra

Sobre um berço dormindo, é ser anseio,

É ser temeridade, é ser receio,

É ser força que os lares equilibra.

 

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,

Espelho em que se mira afortunada,

Luz que lhe põe nos olhos novo brilho.

 

Ser mãe é andar chorando num sorriso,

Ser mãe é ter um mundo e não ter nada,

Ser mãe é padecer num paraíso!

_________________

 

*Coelho Neto, nome literário de  Henrique Maximiano Coelho Neto, nascido em Caxias-MA e faleceu no Rio de Janeiro. Filho de índia e português, escritor prolífico (cronista, contista, romancista, folclorista, crítico de teatro). Orador e político, ocupou vários cargos de importância na República, pois era abolicionista. Agitador nos meios universitários (São Paulo, Recife, Rio). Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Num discurso inflamado no Teatro 4 de Setembro, em Teresina, chamou nossa Capital de “Cidade Verde”. Poeta de um só soneto, mas admirável e popularíssimo. 

 

SER PAI  (Paródia)

 

Francisco Miguel de Moura

 

         (Paródia ao soneto “Ser mãe”, de Coelho Neto)

 

 Ser pai é ganhar mais, libra por libra,

 Para que o filho não se torne alheio,

 Nem precise ir embora do seu meio,

 Da família, onde a infância se equilibra.

 

 Ser pai é sofrer só... Filho nem liga

 De pai ficar em casa a noite inteira,

 Se tem mãe que lhe vele à cabeceira,

 Por isso o pai, coitado já nem briga.

 

 E assim desce ao boteco e perde o brilho,

 Embora lhe acompanhe um amor capaz

 De voltar logo e aconchegar o filho.

 

 Ser pai é se zangar quando está liso,

 Ser pai é sofrer muito e ser capaz

 De sorrir, padecendo o prejuízo.

  

                           Francisco Miguel de Moura

 

                                Teresina, 25/02/2012

 

 OBSERVAÇÕES:

            Sem o belo soneto de Coelho Neto, o meu SER PAI” não existiria, por que é uma paródia. Significa que sem a mãe, não haveria o pai. Ambos são constantes da “Antologia: Poemas e Poetas Mais Amados”, de minha organização, já editada pela Academia Piauiense de Letras, e ainda não publicada, onde o conterrâneo está presente com dois poemas, que, embora curtos, são bem expressivos de sua boa poesia em todos os seus livros. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

FÉRIAS QUE NINGUÉM MERECE

Fonte: Veja/Google


FÉRIAS QUE NINGUÉM MERECE


Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)


                Apesar de estar, juntamente com a família, gozando de boa saúde, sem grande risco de infecção, contágio pelo malsinado coronavírus, tal o nível de isolamento ou degredo que cumpríamos havia meses, antevia que parte de minhas férias, a que, anualmente, desde sempre, busco gozar ao final e início de julho/agosto, em dois mil e vinte, seria das piores, por conta de preocupação coletiva com a saúde pública, em decorrência da patologia causada pelo vírus que grassa quase imparável, o que fez com que a maioria das praias, montanhas e demais opções de lazer e entretenimento, às quais me programara aproveitar, estivessem indisponíveis, atendendo sugestões de instituições transnacionais de saúde e normas legislativas, que tinham como objetivo proibir aglomerações  populares em espaços públicos e/ou privados.

                Em vista disso, para complementar a punição pelas férias, decidi dar um tempo nos livros, sabidamente, bons e me arriscar na leitura, integral - coisa que jamais consegui com quaisquer do nosso principal escritor best-seller, aos quais sempre largava, mal iniciados, socorrendo-me de outros, nem tão vendidos, brasileiros ou estrangeiros, mas que haviam resistido à pátina do tempo e se tornado clássicos, portanto, eternos –, de um desses livros híbridos, que mesclam programação neurolinguística, mentoria, consultoria, coach, escambau. Nem pedi opinião de quem quer que fosse: escolhi um, aleatoriamente, e, mãos à obra ao voluntário sacrifício.

                O autor, antes de se apresentar, de fato, já na introdução, dizia que, certamente, muitos dos que se propunham a ler seu livro, talvez o fizessem porque haviam perdido todos os sonhos; ou os olhos não tinham mais o brilho natural; ou que, possivelmente, suas vidas estivessem sem sentido. Ora, bolas: minhas férias, vá lá, minha vida, não! Por pouco, não o mandei às favas; resisti, afinal, tratava-se do cumprimento de uma pena autoimposta. Apresentando-se, declarou que tivera um princípio de existência difícil, com um filho ainda quando adolescente; depressivo, tornara-se obeso, até que descobrira quais gatilhos emocionais o levavam para baixo; feito isso, passou a buscar a cura moral, emocional, enfim, existencial. Com muito esforço e determinação, fez-se atleta, mestre nos assuntos e temas discutidos em sua obra; meteu-se a meditar e percebeu que colocando seus conhecimentos a serviço dos outros, poderia levá-los a também se curarem emocionalmente e passarem a gozar uma vida nova mais saudável.

                Exageros há à vontade no pequeno compêndio, generalizações, idem. Como aqueles exemplos envolvendo pessoas fictícias que, participando de uma ou outra edição de seus treinamentos ou palestras, conseguiram sair do atoleiro existencial, da areia movediça em que estavam metidos; ou quanto a absurdas estimativas e conclusões que atribuem o nível de estresse crônico a mais de noventa por cento das pessoas, e o descontentamento com a vida que levam, à maioria dos indivíduos; também, ao afirmar que todo mundo pensa e age, negativamente, em suas relações. Se queria referir-se aos que não tiveram o privilégio de participar de algum de seus cursos de coaching, mentoria ou de programação neurolinguística, não ficou claro.

                Para não ser de todo leviano – já que consegui meu objetivo punitivo, que foi ler, inteiramente, o livro -, sou obrigado a dizer que, a despeito do velado deboche para com as vacinas, há algo de aproveitável na obra: como quando escreve sobre depressão, suicídio, servindo-se de estudos de psicólogos ou neuropsicólogos; quando sugere – quase ninguém mais fala nelas - que escrevamos cartinhas falando ou descrevendo, ainda que seja, os gatilhos emocionais que nos tornam estressados ou deprimidos e o que deveríamos fazer para melhorar ou sermos curados de nossas mazelas; sou, todavia, instado a afirmar que não o levei a sério – tomei aquilo por uma recaída em sua peculiar imodéstia –, quando afirmou que o maior de todos os seus sofrimentos adveio-lhe da luta interna que travou ao ter que se desfazer da empresa que criara com  amigos, ante a intenção de adquiri-la uma multinacional do ramo, e que, negociada, tornar-lhe-ia, financeiramente, independente. Em uma espécie de mea culpa – antes tarde do que nunca - admitiu não ser nenhum super-homem, apenas um cidadão comum, com seus medos, falhas, defeitos e, que, portanto, precisava ainda de muito estudo e dedicação para melhorar.

                Voltando às férias - que se encerrariam às vésperas de um meditabundo e sorumbático dia dos pais -: fosse nos tempos de escola, quando o professor, quase sempre na volta às aulas, nos cobrava uma redação falando sobre as nossas, nas quais, prazerosamente, descrevíamos o que mais nos agradara ou chamara a atenção, certamente, nada teria a dissertar. À exceção do bom estado de saúde da família, até então, e do fato de o livro utilizado como castigo ter sido pequeno e de breve leitura, o que me permitiu, uma vez concluído, voltar à boa literatura, férias como aquelas ninguém merece.               

domingo, 9 de agosto de 2020

Dia dos Pais





DIÁRIO

[Dia dos Pais]

Elmar Carvalho 

09/08/2020

Apesar da quarentena por causa da covid-19, peguei uma tosse e uma espécie de gripe ou resfriado, de modo que ainda estou um pouco convalescente, mas posso dizer que com saúde. Fiz exame para detecção do novo coronavírus, mas o resultado foi negativo. Logo cedo fui parabenizado pela Fátima pelo Dia dos Pais.

Meu maior presente foi estar com saúde, ao lado de minha mulher e meus filhos, Elmara e João Miguel, que veio do Amazonas passar uns dias de folga conosco. Meu outro presente foi um café da manhã reforçado, saboroso e variado, que foi pedido pelo sistema delivery. Acompanhava os quitutes um bonito cartão, enviado pela empresa, mas cuja ilustração era uma fotomontagem elaborada pela Elmara.

Estive propenso a nada escrever, e simplesmente postar em meu blog minha crônica memorialística Retrato de meu pai, mas em virtude de que ela ainda me causa alguma tristeza, por causa da morte posterior de papai, resolvi fazer a sua republicação virtual no próximo ano, na data de seu aniversário ou no Dia dos Pais. De qualquer sorte esse texto já se encontra disponível na internet.

Não posso deixar de recordar que, quando infante, fui assistir a filmes, espetáculos circenses e partidas de futebol, levado por meu pai. Fui também a umas poucas pescarias conduzido por ele, ocasião em que aproveitava para tomar um gostoso banho de água doce. E uma vez fui de trem, de Campo Maior a Piripiri, passar um final de semana nesta cidade, onde residiam alguns parentes maternos e paternos. Já não recordo se a locomotiva era uma velha e fuliginosa maria-fumaça, que vi algumas vezes em minha infância, ornada por sua cabeleira, feita de vento e fumaça.

Neste ponto evoco o grande poeta Manuel Bandeira, que em Itinerário de Pasárgada faz inúmeras referências a seu pai, numa das quais diz: “Quando meu pai era vivo, a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me preocupava, porque eu sabia que pondo a minha mão na sua, nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar. Sem ele eu me sentia definitivamente só. E era só que teria de enfrentar a pobreza e a morte.”

Sem dúvida, ele pensava em sua condição de tísico e de solitário,  solitário sobretudo no sentido de que nunca constituiu família. Ele tinha muito apego ao pai, pela cumplicidade afetiva que sempre existiu entre ambos, e pelos cuidados e quase devoção que o pai lhe dispensava. Por isso mesmo, no “Poema de Finados”, ele escreveu estes versos pungentes, refinados e elegíacos:

“Amanhã que é dia dos mortos

Vai ao cemitério. Vai.

E procura entre as sepulturas

A sepultura de meu pai.

 

Leva três rosas bem bonitas.

Ajoelha e reza uma oração.

Não pelo pai, mas pelo filho:

O filho tem mais precisão.”

Mas deixemos de tristeza, que já não estou triste. Estou alegre em estar vivo, saudável, esperançoso, confiante, apesar da pandemia, e ao lado de minha mulher e de meus filhos, em paz e em harmonia. E creio ser isto o de que mais necessitamos. O mais virá por acréscimo.  

sábado, 8 de agosto de 2020

Notável legado

Solenidade do Centenário de Bugija Brito


Carlos Rubem recepciona familiares de Bugija em Oeiras
Alguns dos livros de Bugija Brito

Notável legado 

Carlos Rubem 

Antônio  Bugija de Sousa Brito, escritor oeirense, nasceu no dia 21 de maio de 1907. Era o primogênito do casal Raimundo de Sousa Brito, farmacêutico, e de Anna Cavalcanti Monteiro Bugyja de Sousa Britto, apelidada de Yayazinha, pianista de escol. A valsa “Yaiá Bugija”, costumeiramente executada em Oeiras, foi composta pelo maestro João Hermes  Bugyja, seu avô materno.


Em 1915, o menino Catônio, como era conhecido, foi morar em Teresina com seus pais e irmãos, onde concluiu o curso primário e ginasial. Foi comerciário. Mediante concurso, tornou-se carteiro. Aprovado no vestibular de Direito, migrou para São Luís do Maranhão. Em 1930, ingressou no Ministério da Fazenda, por certame público, tendo sido lotado no Recife. Dois anos depois, foi transferido para trabalhar na Alfândega do Rio de Janeiro, onde concluiu o seu curso superior.


Casou-se com a Dona Olivia Vasques de Queiroz em 1934. Dessa união houve duas filhas: Miridan (historiadora) e Teresina (pintora).


Como dirigente do Centro Piauiense, representação do nosso estado na então capital do Brasil, Rio de Janeiro, criada pelo governador Leônidas Melo, nos anos quarentena, fez benéficas gestões administrativas em nível federal. Em particular, muito se esforçou para superar os entraves burocráticos junto ao Ministério da Educação visando a criação do Ginásio Municipal Oeirense.


Membros de diversas instituições culturais a exemplo do Instituto Histórico de Oeiras (IHO) e da Academia Piauiense de Letras (APL). Publicou vários livros a saber: MURALHAS (poesia); MIRIDAN (lendas indígenas), 1960; ZABELÊ, 1962; ITAINS ,1967; O PIAUÍ E A UNIDADE NACIONAL , 1976; NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS, 1977, QUATRO ESCORÇOS BIOGRÁFICOS, 1978; A ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS NA CADEIRA N.12 , 1981; DESAJUSTES E DESAJUSTADOS, vol I 1985; DESAJUSTES E DESAJUSTADOS, vol II  1986; TRAÇOS EM 5 BIOGRAFIAS,1987; A HISTORIA DA INGLATERRA DO PEQUENO ARTHUR (tradução), 1989; TRES ARTÍFICES DO VERSO, 1991; AS HISTORIETAS DO MENINO CATÔNIO, 1992.


Conheci-o em 1964, talvez. Veio do Rio de Janeiro dirigindo a sua Rural pelo sul do estado, pois pretendia conhecer a Lagoa de Parnaguá. Hospedou-se na Casa-de-Fazenda do Canela, com seu primo Joel Campos (1897 - 1991), meu avô materno. 


Ao se aposentar em 1978, comprou a propriedade Riacho Fundo, em São Pedro do Piauí, onde, isolado do mundo, escreveu muitas de suas obras e outras produções literárias.


Apaixonado pela terra natal, vez outra, passava temporada em Oeiras, recepcionado pelo aludido primo. Homem de fino trato, prestativo, “causeur” brilhante.


Em 1987, por cá aportou com toda sua família para comemorar os seus 80 anos de idade. Foi uma festa bonita que contou com missa gratulatória, sessão solene do IHO tendo sido saudado pelo Professor Possidônio Queiroz. Em seguida, as suas filhas editaram o livreto Ecos da comemoração de um aniversário.


Por mim convidado, ao ensejo do centenário de nascimento do poeta Nogueira Tapety, em 1990, pronunciou substanciosa palestra sobre a vida e obra do homenageado. 


Naquela oportunidade, lembro-me muito bem, no terraço da casa do vovô Joel, contando estórias do folclore local para a minha filha Laís e meus sobrinhos. Parecia uma criança!


Demonstrou em carta para mim o seu propósito de vir a Oeiras, julho de 1992. Como me disse, seria uma viagem de despedida!... Fui pegá-lo no aeroporto de Teresina. Chegou acompanhado da filha Miridan. 


Quis visitar a antiga Fábrica de Laticínios dos Campos, em Campinas do Piauí, antiga possessão oeirense. Admirou-se das linhas arquitetônicas daquele centenário prédio que ainda hoje clama pela sua restauração. Previamente articulado, fomos almoçar em Simplício Mendes na casa do Dr. Oton Lustosa, Juiz de Direito à época, hoje desembargador do TJ/PI e membro da APL.


Na véspera do seu retorno, levei-o aos Correios. Mantinha intensa atividade epistolar. Antes de descer do carro, tirou dos bolsos do paletó um tufo de dinheiro, cujo padrão monetário nem sei qual era, e me repassou. Atribuo, hoje, que seria mais de R$ 5.000,00. Pediu-me que distribuísse tal valor aos conterrâneos que tivessem dificuldades de manter seus estudos. Pactuamos que eu não iria revelar este fato, o que ora faço em louvor de sua grandeza moral. 


Interessante, há pouco meses, em meio a uma velha papelada, localizei telegramas subscritos pelo Bugija Brito ao vovô Joel notificando-o, em período natalino, da remessa de vales postais em favor de desconhecidas pessoas carentes. Muito solidário, bondoso, caritativo.


Faleceu no Rio de Janeiro no dia 04 de dezembro de 1992 vítima de complicações respiratórias. Desejava que seus despojos mortais fossem sepultados em Oeiras, o que não ocorreu.


A Academia Piauiense de Letras, em 2007, promoveu sessão solene pelo transcurso do seu centenário de nascimento. O município de Oeiras, o Instituto Histórico de Oeiras e a Fundação Nogueira Tapety se consorciaram e cumpriram vasta programação alusiva a esta efeméride, inclusive com a fixação de uma placa comemorativa na casa onde nasceu o ilustre escriba, situada na Praça das Vitórias, n° 106, coração da cidade. A viúva e familiares marcaram presença em ambos eventos.


Deixou notável legado humanístico!

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A galinha pedrês

A galinha pedrês


Pádua Marques

Romancista, cronista e contista

 

Agora dava pra ficar o dia inteiro atrás de pedaços de pano e de agulhas, escondendo a tesoura da mãe e dizendo que queria ser costureira. Imagine uma coisa dessas numa menina boa de estar na cozinha ajudando dona Ana nos que fazer? Mas era assim agora o dia todo de todo dia. Esquecia até de almoçar e tomar banho pra ir pra escola. Mundica brincando debaixo da mesa da sala e se arredando dos dois irmãos. A menina caçula estava tomando gosto por alguma coisa, só podia ser.

Mundica não gostava dos irmãos por perto quando estava brincando. Jorge e Toinho, o mais velho dos três. Às vezes nem era de prestar atenção quando Demerval chegava da loja na praça do coronel Jonas, perto do Mercado Central, frente com o armazém de seu Antonio Tomás da Costa. E que vendia pregos, fechaduras, correntes, panelas de ferro, machados, pedra de amolar, gaiolas, armador de rede, azeite de mamona, betume, foices. De um tudo pra trabalho de homem.

Perto do Natal seu Demerval levou os três filhos pra dar um passeio no centro da cidade. Não queria menino dentro de casa naquela época e com dona Ana ocupada fazendo roupas pra eles irem à missa do Galo. Menino dentro de casa era coisa de muita perguntação, aperreio sem fim. E além do que, já era hora de mostrar pra os meninos como era que ele ganhava a vida! O dono da Casa dos Pregos, de Demerval Carvalho Batista & Irmão, na praça Coronel Jonas, era cheia de fregueses o dia e a tarde inteira.

Levou os três filhos no domingo, dia de movimento na praça do mercado, com muita gente vinda do Macacal, da Guarita, dos Morros da Mariana trazendo frutas, verduras, camarão, peixes pequenos, mariscos, flores, e até bonecas de pano e barquinhos feitos de pindoba. Os três nem dormiram direito e se acordaram foi cedo.  Fazia tempo que Demerval não saía com os filhos sem dona Ana junto. E no mercado chegando foi aquela coisa de alegria pra não acabar nunca mais!

Na esquina havia um homem gordo, junto da mulher franzina vendendo garrafadas, purgantes pra vermes, pra matar piolho, pra curar coceira. Tinha mel de abelha, sementes, cascas de pau. Chamava as pessoas que iam passando, mostrava guardadas dentro de umas garrafas as lombrigas e puxava de debaixo de uns caixotes uns comprimidos e ia dando preço. Mais lá na frente uma vendedora de temperos mostrava uns pimentões muito bonitos. Outra oferecia camarão seco numa urupema em cima de um tamborete.

E seu Demerval ia puxando os meninos e caminhando no meio das filas de gente no rumo de dentro do mercado de carnes e peixes. Antes passou perto de uma barraca onde se vendia rede. Perguntou preço e nem esperou resposta. Perguntou ao dono por perguntar, pra se sentir em casa. Os meninos iam acompanhando o pai e a menina ali mais perto segurando sua mão grossa e suada. Mais lá no meio da praça se ouvia um barulho de gente tocando sanfona.

O homem era um sujeito magro, os dentes da frente quase saindo da boca, vestido de camisa de riscado abotoada até o nó do pescoço e de calça de brim encardida. Estava muito suado, falava e gesticulava desesperado mostrando uma caixa de madeira vermelha coberta de um pano de laquê também vermelho. Era um mágico anunciando as maravilhas do seu circo que estava na Guarita pra logo mais de noite. Mundica ficou parada olhando pra aquilo e com vontade de ficar mais pra ver o que aquele homem tinha na caixa.

A maravilha da cor das frutas era coisa de encher os olhos dos meninos. E olhando pra eles Demerval se lembrou de comprar uns pirulitos de açúcar queimado. Ao seu chamado o menino do tabuleiro veio e retirou um pirulito pra cada um dos seus filhos, recebeu a moeda e se afastou calado, sumindo no meio de toda aquela gente. Mais adiante uma mulher vendia bonecas de pano. Eram bonecas de boca pintada, vestidas de papel crepom vermelho, azul, cor de rosa, amarelo. Tinham os olhos pintados muito grandes como se quisessem dizer que estavam com medo e que queriam ir embora dali.

Mais ali depois, um rapazinho mostrava seu serviço de amolador de facas e tesouras. Tinha nas mãos um boneco de talas de madeira, coisa de uns oito centímetros, pintado de várias cores que, se apertando embaixo numa espécie de escada e puxado por cordões, aquilo saltava virando bunda canaça. Pra frente e pra trás. Pra trás e pra frente. E ali mesmo ia juntando gente e depois saindo pra mais irem chegando. Depois vinha o cheiro das tapiocas e dos beijus de coco, as talhadas de cuscuz de arroz e de milho, feito de madrugada e agora ali ainda mornas.

Demerval queria mostrar novidade daquela Parnaíba que ele conhecia como a palma da mão. Conhecia todo mundo. Sabia quem tinha dinheiro guardado e quem comprava pagando à vista. E foi avistar e mostrar pra os filhos naquele domingo o tirador de retratos. Um senhor já de muitos anos, bem parecido, tinha perto umas caixas de madeira e outra em cima de um cavalete, coberta com um pano preto.

Na frente, a coisa de uns quatro passos em reta, estava um tamborete na frente de uma armação com um lençol, feito parede onde as pessoas ficavam sentadas esperando ele terminar o serviço, mexendo numa manivela e nuns botões, ajustando o olho numas lentes e pedindo que prestassem atenção. Mas os meninos não se interessaram por aquilo e foram se afastando.

Vendo a admiração dos meninos pelo brinquedo do rapaz amolador de tesouras, Demerval Batista voltou um pouco, meteu a mão no bolso da calça e comprou um boneco saltador pra Toinho e um pião de madeira pra Jorge. Eram os presentes de Natal pra eles naquele ano. Agora era escolher no meio daquele chafurdo, daquele mercado já cheio de gente e de tudo em quanto, alguma coisa do agrado de Mundica. Talvez fosse até o caso de deixar pra depois, mais pra próximo e sendo coisa pra mãe dela, dona Ana escolher.

De repente veio de lá de dentro do mercado de carnes e peixes uma multidão se afastando, dando passagem, abrindo caminho e no meio daquela algazarra de uns e de outros saiu um homem muito bem vestido, limpo, perfumado, cara de rico e lustrado. Era seu Roland Jacob, homem viajado. Se sabia na Parnaíba ser até francês pelo que diziam. Passou pelo vendedor de pregos, fez um aceno de cabeça e foi indo embora seguido por um negrinho que ia carregando uma cesta carregada de tudo que era caro.

Mundica achou de se afastar um pouco e quando voltou disse pra Demerval que queria uma galinha pedrês que havia visto mais lá na frente. Causou espanto no pai. Como é que ele trazia eles três pra um passeio no Mercado Central de Parnaíba, dias antes do Natal de 1946 e ela Mundica, sua caçula, ia logo escolher de presente uma galinha pedrês? Que arrumação mais besta era aquela? Os irmãos caíram na gaitada, mas até que concordaram já dando opinião nisso e naquilo pra quando a galinha chegasse em casa.

 

Demerval Batista Carvalho abriu a bolsa pela terceira vez e acabou comprando a galinha. Mandou o vendedor pear a bicha com uma embira, cortar as asas e pra adiantar as coisas disse que já estavam indo embora pra casa. Foi muita alegria pra Mundica quando chegaram e a mãe dona Ana se admirou daquele presente. Mas foi lembrando logo que a galinha era pra ser criada no quintal! Foi só coisa de descuido de dona Ana pra Mundica andar com a galinha debaixo do braço pra cima e pra baixo.

Dona Ana passou a não gostar daquele bicho dentro de casa e incomodando, saltando pela cozinha, cagando no corredor e perto do fogão, procurando lugar pra servir de poleiro. Os dois meninos acharam de ir no mato atrás de varas e fizeram uma casinha no quintal. Coisa até que bem feita. Foram na cozinha e arranjaram milho, uma vasilha pra água de beber. Colocaram até um pedaço de camisa, um molambo pra ela se deitar como se fosse gente quando está com frio. Não largaram mais a galinha de mão.

Mundica achava a galinha a coisa mais linda deste mundo. Aquelas penas coloridas de um cinza e preto amiudado, a crista, os pés, o pescoço. Dona Ana já estava ficando sem saber o que fazer com aquilo tudo. Os meninos haviam voltado pra rua a jogar pião e brincar com o boneco de madeira. Outros meninos vieram de outras ruas e de outras casas. O Natal estava perto, a guerra na Europa havia acabado há mais de um ano.

Até que um dia, já encostando no dia de Natal, quando Mundiica foi ver no quintal de casa, a galinha tinha ido embora. Fugiu. Criou asas e saltou por cima da cerca no rumo dos Campos. A menina agora sem brinquedo passou o dia chorando com saudades da pedrês. Foi um alívio pra dona Ana. De noite quando Demerval Batista chegou da loja na praça Coronel Jonas, Mundica veio se fazendo de triste e de dona de coisa perdida, contou tudo. Naquele jeito de pedir sem abrir a boca, queria outro brinquedo que não desse trabalho.