sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

DIÁRIO DA NOITE ILUMINADA – 13 de fevereiro de 1979


JOSUÉ MONTELLO

No entender deste velho amigo, o homem nasce para testemunhar a glória de Deus, e por fim volver ao silêncio e ao nada. Somente nós, com a nossa consciência adiantada, podemos reconhecer que tudo quanto nos cerca é obra de Deus. A imensidão. O céu estrelado. Os olhos de uma criança. O amor. A beleza. A bondade. Um por-de-sol no verão. O mundo florido na primavera. A neve caindo. Uma linda mulher nua. A obra de arte. A vagarosa conquista do homem desvendando os segredos da natureza. O canto dos pássaros. A música de Mozart. Os prelúdios de Chopin. As sonatas de Beethoven. A beleza frágil das borboletas. O contraste de uma garça e de um rinoceronte. Tudo obra de Deus. Testemunhado pelo homem. Este existiria para testemunhar.
E o amigo concluía, já apoiado em sua bengala:
- Por isso me ajoelho. E rezo. E dou graças a Deus. Por ter tido a oportunidade de ver tantas maravilhas. Contento-me com o que pude admirar. Gratíssimo. Volto ao nada, que é também obra de Deus. Porque só Deus pode fazer um punhado de terra. E transformar um pouco de terra em ser vivo. Como eu. Como você.
Insisti:
- E se Deus lhe desse outra vida?
Olhou-me. Sorriu. Permaneceu em silêncio. Depois, lembrado certamente de tudo quanto a vida lhe dera, como experiência profunda, baixou a cabeça, conseguindo dizer, humildemente, reconhecidamente:
- Não exijo. Não peço. Sou grato pelo que recebi.

COM O SOL NA CABEÇA [in Flagrantes]

ELMAR CARVALHO


De algumas pessoas, diz-se que a glória lhes subiu à cabeça; são os tolos e vaidosos sem nenhuma razão para tal. Apolo é o deus do sol. Porém, aquela loura, a cavalgar a veloz motocicleta, com os cabelos esvoaçantes e faiscantes ao sol e ao vento, aureolada por raios fúlgidos, como diz o hino, seria uma deusa solar. Ou o sol, e não a glória, lhe teria subido à cabeça? Talvez ela fosse a própria glória em sua gloriosa e loura garridice.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XIV

A vela dilacerada do veleiro esvaído
naquela pintura esvaída
era um sinal já perdido
da esperança perdida.
(Impressionismo é uma mancha diluída
na desbotada tela da memória.)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


29 de dezembro

HISTÓRIA & ESTÓRIA

Elmar Carvalho

Estive conversando com o historiador e empresário Vicente Miranda. É quase um sósia de seu parente, o cantor e compositor Belchior, que andou sumido por um bom tempo, ao que parece embebido em meditações e reflexões místicas e artísticas nas altitudes dos Andes. Vicente empreendeu um rigoroso trabalho de pesquisa sobre a história de sua família, de que resultou um notável livro de várias dezenas de páginas. Foi um empreendimento que lhe custou muito tempo, esforço, dedicação, despesas e uma disciplina verdadeiramente espartana. Isso porque as fontes estavam espalhadas em diferentes municípios do Piauí e do Ceará. Tendo o nosso estado sido vinculado, em diferentes épocas, administrativa, eclesiasticamente e/ou judicialmente ao Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia, alguns documentos e outras fontes de pesquisas somente poderão ser encontrados nessas unidades federadas. No seu entendimento, as fontes são muitas, o que falta é ânimo ou condições outras de o pesquisador realizar o seu trabalho. É sabido que historiadores da estirpe de Odilon Nunes e monsenhor Chaves gastaram muito de seu tempo em paciente trabalho de pesquisa em arquivo público, para que pudessem trazer novidades à História do Piauí, bem como para desfazer equívocos e dirimir dúvidas. Isso exige disciplina, dedicação, esforço, paciência e tempo. Mesmo em casos polêmicos, como o da datação da igreja do povoado Frecheiras, no município de Cocal, Vicente Miranda não faz a sua interpretação de forma apaixonada, baseada apenas no subjetivismo do desejo pessoal, mas analisa o contexto histórico da região e da época, além de fazer o cotejo com documentos correlatos ou afins, para elaborar a sua tese, com o uso da lógica e do bom-senso, e não no afã de descobrir supostos pioneirismos. Busca a verdade, e não o ufanismo “patriótico”, que chega ao ponto de distorcer a verdade ou de fabricar forçadas e esdrúxulas interpretações, sem respaldo em provas consistentes, irrefutáveis.

Para escapar ao cansativo, silencioso e solitário trabalho de pesquisa, muitos pretensos historiadores fazem apenas uma obra de divulgação; escrevem livros que apenas repetem o que os grandes pesquisadores e historiadores já escreveram. Ou seja, apenas chovem no molhado, apenas pisam no já repisado. Não lhes tiro o mérito da divulgação; apenas digo que nada estão criando, que não trazem novidades. Portanto, não espancam dúvidas e nem extirpam os erros e equívocos, acasos existentes. Outros, querendo ser modernos e de ideias avançadas, apenas se comprazem em atacar figuras históricas, em cega iconoclastia, sem fazer a devida contextualização de época, levando na devida conta os costumes, a moral, as leis, a ética, as crenças e as crendices dos tempos idos. Ainda outros, em suas monografias, ensaios e dissertações, reduzem a temática e usam um corte cronológico em que haja mais fontes e mais bibliografia, o que lhes facilita sobremaneira o trabalho de pesquisa, que quase fica restrita a simples leitura de obras já publicadas. Outros vão além, e adotando certas teorias atuais da historiografia, pretendem fazer obra historiográfica através de simples especulações, conjecturas e ilações baseadas em obras de arte, como pinturas, artesanatos e esculturas. Creio que estes farão apenas ensaio especulativo, interpretativo e subjetivo. Acredito que o trabalho de um verdadeiro historiador há de ser objetivo, calcado na verdade trazida por provas, em que haja, pelo menos, um grau razoável de certeza, e não mera suposição interpretativa, fundamentada em frágeis indícios. Finalmente, alguns enveredam pela história imediata ou pela história do cotidiano, mas aí já é outra história.

Vicente Miranda para escrever a longa história de sua família esteve em diferentes paragens e estados; visitou cemitérios campestres, arquivos públicos, acervos documentais de cartórios, igrejas e delegacias de polícia. Em Piracuruca, para poder consultar antigos processos judiciais, teve que ficar entre o forro e o teto da serventia, pois era ali que dormiam os velhos autos. Em Barras, os velhos feitos estavam quase se desmaterializando, o que requeria cuidado e atenção especiais; tanto que um soldado de polícia, que lhe presenciou o manuseio desses documentos, exclamou que os carcomidos papéis não aguentariam “outro reboliço” daqueles. Por tal razão, esse historiador entende que esses processos deveriam ser transferidos para o arquivo público estadual, que poderia executar um melhor serviço de guarda e conservação, sobretudo agora em que o Poder Judiciário marcha de forma firme e irreversível para a virtualização do processo, em que haverá, certamente, economia de tempo, espaço e de meios físicos, como papéis, grampos, plásticos, depósitos e outros materiais; em que as petições e as comunicações poderão ser enviadas através da internet. Além do mais, isso facilitaria a vida dos pesquisadores, historiadores e simples consulentes, pois os documentos ficariam concentrados na capital, sob a responsabilidade de um único orgão especializado no serviço. Disse-lhe que, quando tivesse oportunidade, abordaria esse assunto junto ao desembargador Edvaldo Moura, presidente do Tribunal de Justiça do Piauí, que é um intelectual e escritor, tendo presidido a Academia de Picos por vários anos, quando lá serviu como juiz de Direito.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Zé Francisco, Neto, Elmar, dona Socorro e o casal Celso e Nevinha


Sítio Carajás, vendo-se ao fundo Zé Lira, envergando a camisa 10 da Seleção Brasileira

28 de dezembro

NO SÍTIO CARAJÁS

Elmar Carvalho

Resolvemos fazer uma parada estratégica no bar do Lira, para não chegarmos cedo ao sítio Carajás, onde haveria uma comemoração festiva do professor Neto Chuíba e seus familiares, e também para que ficássemos a contemplar a pequenina serra grande de Santo Antônio do Surubim. Ficamos a conversar eu, meu irmão César e o Zé Francisco Marques, quando este recebeu uma ligação telefônica, que lhe chateou no início, uma vez que o telefonema apresentava defeitos técnicos, e, além do mais, era em inglês, não obstante ser ele um mestre nesse idioma. No início o Zé Francisco achou que poderia ser uma espécie de trote, mas quando a ligação melhorou e ele pôde ouvir bem as palavras, passou a também responder em inglês, até porque leciona essa disciplina. Na verdade, era o professor Neto avisando que já estava na hora de a gente comparecer ao seu evento. Ao seguirmos pela estrada de piçarra, que liga Campo Maior a Alto Longá, o Zé Lira nos ultrapassou em sua motocicleta, em alta velocidade; mais parecia um foguete ou um Flash Gordon motorizado. Levava uma caixa de cerveja na garupa do veículo. Logo, constatamos que o destinatário era o sítio Carajás. Na casa ampla estavam hospedados vários parentes do Neto, inclusive irmãos, tios e sobrinhos. Estavam presentes o sr. Celso da Costa Araújo e a esposa Nevinha. Ele é funcionário aposentado da usina da barragem de Sobradinho. Contudo, por sua dedicação e eficiência, foi recontratado pela empresa. Na saída, o simpático casal nos convidou para passarmos uns dias em Sobradinho, em seu sítio. Prometemos ir. Várias e coloridas redes estavam armadas ao longo da varanda, em franco convite à preguiça, que ninguém é de ferro.

Quando o professor Neto pôde nos fazer companhia, o assunto do telefonema em inglês veio à tona. Para atiçar os brios do Zé Francisco, eu disse que o Neto lhe dera uma surra de língua ao telefone, e que ele mal conseguira rastejar no idioma de Shakespeare. Porém o Zé Francisco insistiu na “tese” de que sua dificuldade fora mesmo por causa da ligação que não estava boa. Foi uma boa justificativa e demos o caso por encerrado. Do sítio, temos uma bela visão da serra e dos tabuleiros campomaiorenses, que nessa época estão verdes e repletos de babugens; mais pareciam um jardim. Ao lado da cerca, havia vários mandacarus e chiquechiques. Por isso, quando dediquei o meu livro Noturno de Oeiras e Outras Evocações ao dono da casa, escrevi que com tantos chiquechiques o sítio Carajás não poderia deixar de ser mesmo chique.

O nosso anfitrião na verdade se chama Antônio José Araújo Silva. O nome Neto Chuíba, pelo qual é conhecido, é uma homenagem ao seu avô, legendário vaqueiro, patriarca do clã, que tinha essa alcunha, praticamente incorporada como nome de família. Com a morte de seu pai, o Neto, ainda bem jovem, transformou-se num esteio da família, e foi quase uma espécie de pai para os seus irmãos Osmar, João e Vinícius, contribuindo decisivamente para a criação deles, ao lado de sua mãe, dona Socorro, que, embora viúva, não perdeu o ânimo e guardou a Fé. Os três irmãos foram para Carajás, e hoje desfrutam de boa situação econômica, como empregados da Companhia Vale (do Rio Doce). Anualmente, durante as férias, visitam a terra natal. Como uma gratidão ao local que lhes acolheu e lhes deu condição de sobrevivência digna, batizaram o sítio de Carajás. O Neto é hoje um dos mais respeitados professores de Inglês, e certamente poderia ser aplicado a ele o que se atribuiu a Rui Barbosa: capacidade de ensinar inglês aos ingleses. Coroando esta crônica, afirmo que a libação foi na medida certa e as iguarias, fartas e variadas. Sem dúvida, foi um inesquecível dia de domingo.





NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES


Já se encontra à venda, nas lojas da livraria Universitária, por apenas R$ 20,00, o livro NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES, da autoria de Elmar Carvalho. A obra contém poemas, crônicas, crítica literária, discursos e outros textos referentes à velha capital. Já foi lançado em Oeiras, no dia 3 de dezembro, através do Instituto Barros de Ensino – IBENS, e no dia 23 deste mês, através do Sarau Ágora. Os lançamentos tiveram como apresentadores, respectivamente, os escritores Moisés Reis e João Carvalho. Personalidades como Possidônio Queiroz, Nogueira Tapety, Expedito Rêgo, Gutenberg Rocha, Carlos Rubem, Dagoberto Carvalho Jr., Antônio Reinaldo Soares Filho, Ferrer Freitas, Balduíno Barbosa de Deus e outros luminares oeirenses são citados e evocados no livro.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


MARIDO TRAÍDO

Elmar Carvalho

Primeiro, fora um telefonema anônimo. Não quis acreditar. Agora, era aquele bilhete odioso, humilhante. Seu sangue fervera. Sentira uma tontura, uma náusea forte. Chegou ao ponto de vomitar. A mensagem fora escrita a máquina. Manoel Freire era de poucas letras, mas lia bem o que aquelas linhas diziam, em português não muito correto: “Tua mulher tá te traindo. Toda veiz que tu sai pra trabaiar de vigia, ela recebe um agente da puliça civil, um cabra metido a conquistador, forte e bonitão. Só tô te contando porquê tu é um homem trabaiador, dereito, e não merece o que a sirigaita tá fazendo cuntigo. Se tu quiser comprovar o que digo vai pra tua casa, depois das nove da noite. Quase toda noite o pé de pano chega entre as oito e meia e nove horas, e só sai depois das doze.”

Manoel guardou o papel no bolso da calça, com cuidado pra ninguém ver, mas logo o retirou para reler, como se não quisesse acreditar no que lia. O anônimo teve o cuidado de lhe enviar a correspondência através dos Correios, para o endereço do trabalho. Era vigia do SENAI fazia muitos anos. Cumpridor de suas obrigações, não faltava ao serviço e se mantinha acordado em seu posto. Por isso, procurava dormir bem durante o dia. Quando relia o bilheta, fazia suas conjecturas. Achava que sua mulher Maria do Carmo vinha se comportando de forma diferente nos últimos meses. Ao lhe procurar para fazer sexo, de manhã cedo, quando retornava do trabalho, notava que ela ou o aceitava sem o entusiasmo de antes, apenas como se fosse por obrigação, ou inventava uma desculpa qualquer, como dor de cabeça, enxaqueca, indisposição. Estranhou quando, em certo mês, ela deu duas desculpas de que estava menstruada.

Gostava da morena. Achava lindo o seu corpo cheio, carnudo, de muitas curvas, com muitos côncavos e convexos, como dizia a letra da música. Fora seu primeiro e único namorado. Tão logo arranjou emprego, aos 23 anos, tratou de casar. Não gostava de mulher dama. Era melhor ter uma mulher somente sua. Ainda por cima nova e bonita, limpa e trabalhadora. Infelizmente, não tiveram filhos. Não sabia se a culpa era sua ou dela. Quando lhe perguntavam pelos filhos, um tanto envergonhado, dizia que Maria do Carmo não podia ter filhos. O que mais lhe doía, ao ler e reler o bilhete, é que nunca tivera outra mulher após o casamento. Não tinha necessidade. Sua mulher ainda se mantinha muito bonita, aos 32 anos, após 10 de casamento. E com a vantagem de ser quase virgem, pois não tivera filhos, que lhe estragasse a beleza e o ajuste das entranhas.

No dia em que recebeu o bilhete, logo ao chegar à portaria do SENAI, telefonou para o seu compadre Felipe. Pediu para que ele viesse substituí-lo, pois tinha um serviço muito importante a fazer. Ficou satisfeito porque o compadre, discreto e educado, não lhe perguntou sobre que serviço iria fazer. Andou no centro da cidade de um lado para outro, sem destino certo, em sua bicicleta. Estava atormentado, zonzo ainda com a notícia da traição. Por volta de 8 horas e 5 minutos seguiu no rumo de sua casa. Não foi pelo caminho de costume, para que ninguém o visse. Fez uma volta, até se postar detrás de uma moita que havia, num terreno baldio, de modo que dava para ver a porta de entrada de sua casinha. Lembrou-se das esperas das caçadas, que às vezes fazia, em seus dias de folga. Só que desta feita a caça era um homem, e a arma seria de outro tipo. Perto de 21 horas, um homem empurrou a porta e entrou, sem vacilar. Os amantes haviam combinado que se houvesse algum problema, como o marido ter voltado ou não ter ido trabalhar, por algum motivo, a mulher daria um jeito de colocar um pequeno pedaço de papel vermelho na porta, perto da fechadura; e a porta ficaria fechada a chave, e não apenas encostada.

Manuel Freire deixou passar uns 15 minutos. Deixou a bicicleta encostada na moita e, a passos apressados, dirigiu-se para a porta da frente, que estava devidamente fechada a chave. Bateu com força, usando uma pedra. Gritou forte o nome da mulher, como se quisesse chamar a atenção do casal. Os amantes faziam sexo, quando ouviram as batidas na porta e ouviram de maneira nítida o marido chamar o nome da mulher. O homem interrompeu o ato, e vestiu a roupa de forma apressada, enquanto a mulher pediu ao marido tivesse paciência, que já ia abrir-lhe a porta. Sussurrou no ouvido do amante para que ele saísse pela porta da cozinha, e a deixasse apenas encostada, que depois ela fecharia. Ambos estavam apavorados, com o coração a bater apressado, porém não existia outra solução.

O homem se dirigiu para a porta da cozinha e a abriu, planejando depois saltar o muro, que era baixo. Sentiu uma dor forte e aguda no pescoço. Um profundo golpe de faca cortou-lhe a jugular. Instintivamente levou as mãos ao pescoço, no esforço vão de estancar o sangue. O jato vermelho e quente esguichou-lhe por entre os dedos. Tentou correr para saltar o muro, mas caiu-lhe aos pés, para não mais se erguer. Aparentemente calmo, o homicida saiu pela porta da frente. Sequer procurou saber onde se encontrava a traidora. Foi ao lugar onde deixara a bicicleta, e seguiu rápido até a Delegacia, onde confessou o crime. Entregou a grande faca ao delegado, ainda suja de sangue. Contou que batera na porta da frente, mas fora esperar o finado na porta de trás, porquanto imaginou que ele sairia por ela. E assim aconteceu. Estava ali para pagar o que tivesse de pagar. E assinou o termo do depoimento sem ao menos se dar ao trabalho de ler.

NATAL DE OEIRAS


DAGOBERTO CARVALHO JR.


Chamavam-se “berços”
– de alecrim, andré-miúdo
e ingênua criatividade –
os presépios da minha infância,
cuja visitação era o Natal de Oeiras.
Antes das “árvores” que vieram de fora
e tomaram as salas,
colorindo-as de alegria alheia.
Lembro-me do que foi de Burane,
na Praça da Bandeira;
o de Dona Lourdes, na Rua do Norte;
o do Colégio das Irmãs,
em seu sobrado-convento,
antigo palácio dos presidentes da província.
O da casa de minha avó,
no Beco do Quartel,
tinha cama de madeira
porque o menino já era grande
e dormia de vestido de gesso.
Uma vez faltou luz elétrica.
Demora-me a noite na memória,
como a lanterna vermelha que me levou
aos santos endereços da saudade.
Que nunca mais deixou de iluminar os meus Natais.

Natal de 2010


domingo, 26 de dezembro de 2010

TRAVESSURA E CASTIGO [in Flagrantes]

ELMAR CARVALHO


O vento fustigava a plantação de eucalipto com muita violência. As árvores, ainda tenras, como se fossem meninos sendo castigados, se curvavam sob as chicotadas. As folhas se agitavam freneticamente, aparentando sentir fortes dores. Era um espetáculo belo e selvagem, que apenas a natureza produz e exibe, em lugares e momentos (in)esperados. É preciso saber esperar; ou estar no lugar certo, na hora certa, por acaso ou não. Mas há quem diga que não existe acaso.

sábado, 25 de dezembro de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO



LUÍS ROCHA

Era intelectual talentoso e de fértil produção literária. Dentre suas obras, destacam-se Saga da Terra. Poesia. 1985; Coisas Piauienses na Visão Cabocla. Pesquisa Sobre Folclore. 1995; A Angústia em Sobressalto. Romance. Inédito; Pé de Conversa na Boca da Noite. Conto.
Vencedor de vários prêmios literários. Quatro promovidos pela Universidade Federal do Piauí (poesias), um pela Secretaria de Cultura do Piauí (monografia) e dois pela Fundação Estadual de Cultura do Piauí ( contos). Foi vencedor também do Prêmio Nacional Cidade de Manaus, promovido pela Prefeitura da capital amazonense, na categoria folclore, com o ensaio Folclore Piauiense.
Ele lutava contra um câncer há 7 anos e deixou 2 filhos: Márcio George e Andreza Carcará da Rocha. Seu corpo foi sepultado no Cemitério São Judas Tadeu, em Teresina. Luis Francisco era auditor fiscal do trabalho, tinha várias obras literárias publicadas e exercia ainda a profissão de professor da rede estadual de ensino. O prêmio, de dez mil reais, seria entregue ao folclorista piauiense, juntamente com a publicação da obra vencedora, na cidade de Manaus, em agosto de 2009.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL... NA PROVÍNCIA NEVA


FERNANDO PESSOA
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO

XIII

A deusa
da janela via o mar
mas eu só via as partes glúteas da deusa
que da janela via o mar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


Elmar, Zé Wilson e Zé Francisco, no adro da igreja de D. Lobão




Igreja de Lagoa do Piauí

22 de dezembro

VIAGEM AOS SEIOS DA ADOLESCÊNCIA

Elmar Carvalho

Neste domingo, fui a Lagoa do Piauí. Lá estive em 1972/1973, quando eu tinha de 16 para 17 anos. Fomos eu, o Zé Moura e o Zé Wilson, cujos parentes de sua falecida mãe eram dessa localidade. Nos hospedamos na pousado do saudoso Chico Oliveira, que faleceu solteiro, ainda relativamente novo. Além da pousada, ele tinha um posto de combustível e um clube dançante em Demerval Lobão, cidade que fica a aproximadamente cinco quilômetros. Tomamos umas calibrinas e ouvimos muito carimbó, que então estava na moda, sobretudo na voz de Pinduca, com a sua roupa estilizada e chapéu rodeado de penduricalhos. Salvo engano, algumas músicas se chamavam “Mataram meu peru”, “Hoje é dia de bibi”, “Sinhá Pureza”, e uma cheia de trocadilhos engraçados e difíceis, em que a letra falava que eram muitos “socós para um só socó coçar”, um verdadeiro “trava língua”. Namorei uma moça, que depois perdi completamente de vista. Nos meus ardores adolescentes, tentava abraçá-la com veemência, mas ela prudentemente negaceava o corpo, em sua timidez de cabocla interiorana.

Hoje, o povoado é uma cidade, mas ainda conserva o bucolismo das árvores, dos quintais floridos e dos terrenos baldios, verdejantes de capim, de matapasto e de outras plantas silvestres. Lá encontrei a maior tamarineira que já pude ver e um pequizeiro vergado de frutos, redondos como uma bola de tênis. Por entre os verdes quintais uma torre telefônica, que não existia, aparentava anunciar um suposto progresso. O primeiro prefeito da cidadela foi o Nonato Carvalho, primo do Zé Wilson. Felizmente, a ermida da localidade, na qual imaginei um dia me casar, parecia não ter sofrido muitas modificações, exceto por uma bela praça gradeada, referta de plantas ornamentais, que a circundava. Quando estive na povoação, na época a que me referi, havia uma prostituta que fazia ponto perto da ponte (observe-se o trocadilho cheio de aliterações, em que estardalhaça a sua presença a bilabial explosiva p). Os garotos da Lagoa desciam com ela até o leito seco do riacho e lá desaguavam a concupiscência adolescente. Não sei se alguns saíam montados em cavalos alados ou de crista, oriundos de gonocócicos bacilos e vacilos. Certamente saíam apaziguados e mais felizes. Na viagem de agora, que me fez recordar a de outrora, fui com Antônio José, meu irmão, e Zé Francisco Marques, marquês de Bitorocara, de campomaiozeiras plagas. Tirei muitas fotografias dos logradouros e paisagens a que me referi.

No retorno a Teresina, fiz uma parada estratégica em Demerval Lobão. Lá encontrei Zé Wilson, meu anfitrião da primeira viagem. Casado pela segunda vez, caduca agora com um filho de poucos meses. Caduca no bom sentido, pois ele é um cinquentão bem conservado e saudável. Fomos olhar a igrejinha da antiga Morrinhos, que conservei em minha memória. Na década de 70, Francisco da Izinha era o locutor das amplificadoras do templo, que funcionavam como uma espécie de rádio; hoje, a urbe tem rádio de verdade. Nosso ponto de apoio era a casa do sr. Ernesto Ribeiro, que depois se tornou prefeito da cidade. A mulher dele, dona Iracema, era irmã de Abdoral Paz, pai do Zé Wilson. Os dois filhos do casal, Antônio Ernesto e Arildo Ribeiro Paz, tinham forte pendores para a arte plástica. Para comemorarmos, praticamos breve libação, em que celebramos esse reencontro, ocorrido algumas décadas depois da viagem juvenil.

O Arildo se casou com sua prima Bernadete, irmã do Zé Wilson. Como eu tivesse admirado um azulejo, por ele pintado, deu-me esse mimo. Foi pintado com os dedos, e não com palheta ou pincel. Contudo, num único ponto se percebe a marca de sua impressão digital, como se ele quisesse impor a sua assinatura, a sua individualidade ou marca pessoal. Trata-se de uma paisagem em que a lua se destaca no princípio do anoitecer, quando as cores se tornam cambiantes e o céu avermelhado. Nota-se o seu talento e habilidade nos detalhes do capim, em que quase se lhe sente a textura, bem como na árvore desnuda, que se esgalha em direção à lua cheia. Também uma cerca discreta, quase a se confundir com a linha do horizonte, revela o talento do Arildo, através dos detalhes minimalistas. É um desenho simples, limpo, mas em que se pode perceber, mormente pela pintura do capim, do céu e das nuvens, que o pintor soube usar recursos do figurativismo e da arte abstrata. Zé Wilson nos convidou para retornarmos, noutra ocasião, em que ele abateria uns galináceos para regalo de nosso estômago. Prometemos retornar. Retornaremos, decerto.



Azulejo pintado por Arildo Ribeiro


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

NOTÍCIA CULTURAL


LANÇAMENTO DE NOTURNO DE OEIRAS NO SARAU ÁGORA

No próximo dia 23, à noite, na área externa do Café Oeiras, será lançado o livro Noturno de Oeiras e Outras Evocações, de Elmar Carvalho, dentro da programação do Sarau Ágora, que o médico e poeta João Carvalho realiza (em Teresina), na última quinta-feira de cada mês. A última apresentação do sarau do corrente ano, portanto, acontecerá na velhacap, terra natal do seu idealizador. No evento, os poetas presentes recitam seus poemas, com intervalos de números musicais. Também será exibido o videoclipe do poema Noturno de Oeiras. A obra contém poemas, crônicas, críticas literárias, discursos e outros textos, todos se reportando a Oeiras. Personalidades como Possidônio Queiroz, Nogueira Tapety, Expedito Rêgo, Gutenberg Rocha, Dagoberto Carvalho Jr., Antônio Reinaldo Soares Filho, Ferrer Freitas, Balduíno Barbosa de Deus e outros luminares oeirenses são citados e evocados no livro. O poema Noturno do Cemitério Velho de Oeiras foi musicado por Francisco Barroso, que deverá participar do sarau. A apresentação do livro será feita pelo poeta João Carvalho.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Os juízes Carlos Brandão, Elmar Carvalho, Luís Moura e Paulo Roberto Barros

Esculturas do Juca Lima


20 de dezembro

 MUSEU E BIBLIOTECA NO CENAJUS

Elmar Carvalho

Estava no centro histórico e comercial de Teresina, caminhando em direção à agência central do INSS, onde ia buscar uma certidão sobre o meu tempo de contribuição previdenciária, quando o celular tocou. Era o doutor Paulo Roberto que me ligava, a me avisar que conseguira que o seu dentista me atendesse na próxima quarta-feira, à tarde. A seguir, passou o telefone ao amigo Carlos Brandão, que me convidou a me encontrar com eles, no CENAJUS – Centro Nacional de Cultura da Justiça, entidade que dirige, ligada à Justiça Federal, mas sem personalidade jurídica. Ambos são magistrados dignos, humanitários, estudiosos, desprovidos de empáfia e arrogância, e maçons da melhor cepa.

A entidade funciona no antigo prédio da Justiça Federal do Piauí. Até meados da década de noventa, a Seção Judiciária do Piauí, contava com apenas um juiz federal; um dos quais foi meu professor na UFPI, no caso o doutor Hércules Quasímodo da Mota Dias. Gravei o seu nome porque o primeiro prenome é uma homenagem ao heroico semideus da mitologia Grega, grande trabalhador, pois se celebrizou por ter realizado doze dificultosos e penosos trabalhos, e o outro, foi retirado, certamente, do livro do romancista e poeta Vítor Hugo, intitulado O Corcunda de Notre Dame. Era um magistrado digno e honrado e um professor de muito mérito, entretanto não fazia jus aos dois prenomes, porquanto não tinha a musculatura avantajada do semideus e nem a feiúra do bom e sofrido Quasímodo, conquanto não fosse também nenhum Apolo nem Adônis. Tive a oportunidade de conhecer a Biblioteca Abdias Neves, da prefeitura de Teresina, e um museu de peças do artesanato piauiense, que lá se encontram bem abrigados, em ponto central da cidade e perto das linhas de ônibus. Abdias Neves, patrono da biblioteca, foi senador da República, magistrado. romancista, poeta e historiador. Polemista, sobretudo em questões anticlericais, literariamente era um um talentoso polígrafo. Membro e patrono de uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras. Entre suas principais obras, destacam-se o romance Um Manicaca e A Guerra de Fidié.

Pedi para a atendente verificar se na biblioteca havia livros de minha autoria. Felizmente, no cadastro constava as minhas principais obras, entre as quais lá estavam, enfileiradas nas estantes: Noturno de Oeiras, Cromos de Campo Maior, Rosa dos Ventos Gerais e Lira dos Cinqüentanos. No museu, estavam expostas notáveis obras dos grandes mestres do artesanato piauiense, inclusive do parnaibano Juca Lima, que conheci, assim como conheci seu pai, o velho jornalista e tradutor comercial Souza Lima, autor do livro Vareiros do Parnaíba e Outras Histórias, que conta a saga dos antigos porcos d' água, quando a Princesa do Igaraçu despontava como a mais importante cidade comercial do Piauí, com grandes firmas sediadas em seu território, entre as quais podem ser referidas a Marc Jacob, a Casa Inglesa, a Pedro Machado, a indústria Moraes, a do sr. Ranulfo Torres Raposo, e quando os navios de grandes empresas de navegação de cabotagem percorriam o Igaraçu e o Parnaíba, indo em demanda do porto de Tutoia ou de lá voltando, transportando passageiros ou mercadorias, sobretudo na época do auge do extrativismo vegetal, quando os coroneis da carnaúba imperavam, orgulhosos de seu dinheiro e cabedais. Terminei “viajando” na redação, assim como viajei vendo as obras do Juca e dos outros artistas.

Quando cheguei, flagrei dois estudantes aos beijos e abraços, num dos corredores. Não ficaram constrangidos com a minha presença, e continuaram com os seus colóquios. Contei aos dois colegas, que um dos governadores de Minas Gerais ficou embevecido ao contemplar um casal de namorados, da janela do palácio. Ao ser indagado por um secretário e amigo se estava com inveja, respondeu que não; que estava com saudade. De minha parte também não senti inveja, mas somente uma pontinha de saudade de meus tempos juvenis, dos quais tento me afastar com sobranceria e sobriedade. Um pouco depois, chegou outro colega, o juiz de Direito Luís Moura. Nesses tempos de modernismo tecnológico, celebramos o encontro dos quatro magistrados da Justiça federal e estadual com uma fotografia tirada através de meu celular. Hoje, o telefone celular é muita coisa, porquanto é multifuncional; é até telefone!...

domingo, 19 de dezembro de 2010

TRIBUTO AO CRAQUE VICENTINHO

ELMAR CARVALHO

Vicentinho, envergando a camisa do Caiçara, e Elmar Carvalho

Vicentinho, com a camisa do Comercial, ao lado de seu filho Henrique

Outro dia, fiz um périplo, em companhia de meu irmão Antônio José e do professor José Francisco Marques, pelos arredores de Campo Maior. Pelos arrabaldes, como se dizia outrora. Fui em busca das recordações de minha adolescência tão emotiva e tão sentimental. Mergulhei onde fora o balneário da Primavera. Recordei as belas moças em flor de então, que ressurgiram em minha frente, no apogeu de sua beleza adolescente, como ninfas encantadas, que tanto me deslumbraram nos meus tempos juvenis. Talvez não mais as deseje rever, para que permaneça indelével, em minha saudade e em minha memória, toda a beleza da graça feminina, que o tempo inexoravelmente deve ter transformado. Certamente, essa beleza continua em suas filhas e netas, transmitida pelo bastão de revezamento da sucessividade das gerações. Esquecido balneário da Primavera, onde tantas belezas floriram, onde tantas graças do adolescer desabrocharam para o encantamento de minha já distante juventude. Como diria o poeta, a saudade jorrou-me em ondas... Resistir, quem há-de?

De lá, de volta para a casa de meus pais, vi o velho Estádio Deusdete Melo, onde atuei como goleiro, em escassas ocasiões, e de cujas arquibancadas vi os voos magníficos dos inexcedíveis goleiros (e meus mestres) Coló e Beroso, que pareciam desafiar a lei da gravidade, em sua elasticidade felina, em suas “pontes” ornamentais, que classificaria hoje como pontes estaiadas, belas, monumentais e precisas em sua eficácia. Naquela velha praça esportiva, os grandes craques do passado executaram suas bem urdidas jogadas, e perpetraram gols que arrancaram aplausos e urros da torcida em delírio.

Resolvi tomar umas talagadas de calibrina em um barzinho das imediações, que era circunstancialmente frequentado pelo meu saudoso cunhado e amigo Zé Henrique, como uma homenagem saudosista a ele, em cuja companhia, várias vezes, fiz esses périplos suburbanos, evocativos de um tempo que jamais voltará, mas que insiste em se manter vivo, como um imortal vampiro do bem.

Do boteco, eu via o entorno da barragem. As grandes, belas e sempre verdes árvores do horto florestal. Vi a brancura distante da vetusta igreja do Rosário, a contrastar em suas linhas retas, severas, com as curvas arredondadas, circulares da caixa d' água, também de um branco imaculado, ao menos da distância em que eu a via.

De repente, provindo de umas pessoas que haviam chegado a uma grande sombra defronte, proporcionada por uma frondosa e avantajada árvore, vieram lindas melodias, de minha predileção. Logo soube que quem as escutava, da sombra esverdeada, era o imortal craque Vicentinho, autor de refinados dribles, executados em desconcertantes malabarismos de um atleta que era um virtuose em sua arte futebolística. Sabia de sua doença. Sabia que, hoje, ele mal consegue caminhar, com ajuda de acompanhante, ele que fora tão ágil e tão veloz. Ele que fora, em sua destreza certeira e implacável, um dos mais exímios cobradores de falta, sobretudo pênalti, um verdadeiro algoz e fuzilador de goleiros. Fui cumprimentá-lo e lhe render minhas homenagens, eu que no meu livro O Pé e a Bola cometi uma imperdoável, conquanto involuntária, injustiça para com esse magnífico craque, ao omitir o seu nome. Certamente, que a injustiça já se encontra sanada, para o caso de uma segunda edição, pois inseri o seu nome no texto, em letras capitulares e de ouro, através do destaque que lhe dei e que ele bem merece.

Quando precisou levantar-se da cadeira, vi, da distância em que me encontrava, uma bela e jovem mulher, não sei se filha ou neta, pegar-lhe a mão, e delicadamente ajudá-lo a erguer-se. O velho craque levantou-se com dificuldade, girou lentamente o corpo, moveu os pés que não mais lhe querem obedecer, e ensaiou um passo com muito esforço. Mas, em meu pensamento, nada disso acontecia. Para mim, o velho craque Vicentinho dançava, lépido, fagueiro e elegante, uma saltitante e linda valsa, ou executava o paso doble de rocambolesca e dificultosa dança espanhola, com uma linda moça que lhe conduzia e era por ele conduzido, em perfeita integração, como tabela de grandes craques, ou então perpetrava uma inigualável, perfeita, destra e desconcertante jogada, verdadeiro balé, que arrancava delirantes e ensurdecedores aplausos da torcida.

Inevitavelmente, pareceu-me ouvir, vindo da vitrola de um outro tempo, das ranhuras de um antigo disco de vinil, arrancado das areias de esquecidas ampulhetas, a música Balada nº 7, de Moacyr Franco, que fala de um velho craque, num estádio vazio, na ilusão inglória de uma torcida imaginária, a recordar as suas belas jogadas do passado, aplaudidas em frenesi por fanáticos torcedores, como um tributo a um deus da bola e das arquibancadas.

Em silêncio, sem um gesto sequer, aplaudi, em meu coração e em minha lembrança, o exímio craque Vicentinho, cujas jogadas ainda são repetidas no vídeo tape da memória e da saudade dos torcedores, e pelos craques que aprenderam as magistrais lições do velho Mestre.

sábado, 18 de dezembro de 2010

NATAL E ANO NOVO


Com o cartão que o grande chargista Gervásio Castro produziu e me enviou, desejo a meus amigos e a todos os leitores do blog um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de Paz, Ventura e Prosperidade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

SEPARAÇÃO (UM MOMENTO PARA REFLETIR)


ALCIONE PESSOA LIMA

Se um sonho é sempre algo mais
E uma vida se desfaz em sua busca,
Quem será capaz de destruí-lo se recomeçar for preciso?
Um novo horizonte com quem vai caminhar...
Coisas que o amor só o amor responderá.

O novo é sempre o novo...
O começo sempre é o início, mesmo disfarçado de reinício.
Pode ser um sol diferente, um luar mais brilhante.
Pode ter frente aos olhos o melhor diamante...
Mas, sempre o tempo dirá que é necessário lapidá-lo.

Somos seres humanos e o erro nos acompanha,
E sonhamos e queremos e desejamos aquilo que não nos foi dado
Ou que nos foi tirado...
Seria a perfeição imaginada? Seria sim a dúvida...sempre a dúvida...
Ou o medo...ou um desesperado gesto a extravasar as frustrações!

Seria um sentimento reprimido? O que seria, então?
Mas, quem responderá? O coração?Coitado!
Está sufocado pela dor da despedida e radiante esperando a hora da partida...
Já estende a mão. Já sente a pulsação de um outro ser que o chama...
E lhe abre os braços...e o imagina....e não dorme...É a completude da vida!
E sente um sorriso em contraste com um choro...
Um rosto que surge e outro que se apaga...
E se confundem na imaginação...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XII

Na paisagem de pedra dura
a carne tenra de Vênus
atiça as setas agudas de Cupido.

DIÁRIO INCONTÍNUO


14 de dezembro

RALI E AVENTURA NA CHAPADA GRANDE

Elmar Carvalho

Em virtude de estar respondendo pela Comarca de Arraial, durante as férias da titular, juíza Nazildes Santos Lobo, fui ontem a essa cidade. Preferi ir por dentro da Chapada Grande e retornar por Francisco Ayres e Amarante. Logo ao sair desta cidade de Regeneração, começou uma chuva, que, ora mais forte, ora simples chuvisco, durou toda a viagem. Em certos trechos, quando apenas serenava, aproveitei para tirar umas fotografias, que ficaram um tanto prejudicadas por causa da baixa luminosidade. As folhagens estavam bem verdes, lustrosas, e os córregos já começavam a correr. Em certo ponto, pude escutar a estridência alegre de uma cigarra cantadeira, em dueto com um passarinho, que parecia louvar a chuva mansa que caía. Algumas “passagens molhadas” estavam realmente molhadas, com os riachos a passar sobre o concreto da construção. Os morros, colinas e chapadões verdejavam à distância. Redobrei o cuidado, temendo a picape escorregar sobre as ladeiras úmidas. Felizmente, não houve nenhum perigo e nenhuma derrapagem.

Essa viagem me fez lembar uma anterior, feita três anos atrás, em que fiz o mesmo périplo. Fui em companhia do soldado Pereira, hoje reformado, que na época estava à disposição da Justiça. Quando assumi a Comarca de Regeneração, ele era chamado apenas de Raimundinho; brincando, disse que ia promovê-lo a Pereira, seu apelido de família, porque esse nome impunha mais respeito, mormente em se tratando de um militar. Após despachar os processos mais urgentes da Justiça estadual, fui até a serventia eleitoral. Lá, ao saber que eu iria voltar por Francisco Ayres e Amarante, o chefe do cartório, por duas ou três vezes, me recomendou que não passasse por cima de uma ponte de madeira, que estava danificada; que eu seguisse por um atalho que havia, e passasse pelo vau do rio. Fiquei um tanto preocupado, pois o “inverno” estava rigoroso na época. Em seguida, fui com o Pereira almoçar num dos restaurantes de Arraial. Comemos um peixe delicioso. Pedi a conta à dona do estabelecimento. Ela deu o preço. Quando eu ia puxar a carteira de cédulas, ela refez o cálculo, dizendo que havia esquecido de incluir uma Coca-Cola; quando, novamente, eu me preparava para sacar o dinheiro, ela voltou a alterar a conta, alegando que não incluíra uma cerveja; na terceira vez, não vacilei, e lhe coloquei o dinheiro na mão, antes que ela alterasse o preço, como sempre para um valor mais elevado. Quando ela processava os dados mentalmente, levantava os olhos para cima, revirava-os, como se em busca de inspiração. Mas foi um preço justo, porquanto a comida estava realmente saborosa. No restaurante, voltei a encontrar o chefe do Cartório Eleitoral, que nele fazia as refeições. Novamente, ele me advertiu que, em hipótese nenhuma, passasse sobre a ponte.

Imediatamente, seguimos em direção a Francisco Ayres. Imprimi uma velocidade razoável, mas tendo em vista que a estrada era cheia de curvas e ladeiras, e recoberto o seu leito com a traiçoeira piçarra, propícia a derrapagens. Quando menos esperei, vi a famigerada ponte à minha frente. Não tive dúvida, pisei no freio. A picape quase fazia um “cavalo de pau”. Manobrei em direção ao atalho. Para minha decepção, a correnteza do rio estava violenta, e não havia a menor condição de atravessá-la. Quando eu já me preparava para retornar, e fazer o percurso pela Chapada Grande, o que me causaria um considerável prejuízo de tempo e combustível, enxerguei um rapaz numa motocicleta, que vinha em sentido contrário. Esperei que ele chegasse até nós. Com firmeza, ele me garantiu que eu poderia passar por cima da ponte, pois na manhã daquele dia um caminhão do tipo ¾ passara sobre ela. Agradeci ao motociclista, e me preparei para enfrentar o desafio. As vigas trepidaram, estalaram, gemeram e rangeram como a moenda do poema de Da Costa e Silva, balançaram, mas não caíram. Exultante, ultrapassei aquela geringonça desengonçada e capenga, em que a ponte, verdadeira arapuca, havia se convertido.

Quando atravessei a cidade de Francisco Ayres, novo desafio me esperava. O rio Canindé, naquela forte estação chuvosa de três anos atrás, estava cheio, com as águas correndo fortemente sobre o paredão da barragem, como se este fosse o sangradouro. Era por ali que eu deveria passar. Não vou mentir, fiquei com medo. Perto da barragem existia o esqueleto de uma ponte inacabada. Do local se viam as vigas e pilastras de concreto do que deveria ser uma ponte. Lamentei tanto descaso, tanto desperdício de dinheiro público, já que aquele monstrengo de cimento para nada servia. Ante o inelutável, perguntei a um pescador se dava para passar sobre o paredão da barragem. Respondeu-me que sim. Indaguei-lhe, em tom de brincadeira, se ele garantia; retrucou-me que não, mas que há poucos minutos um automóvel passara sobre a barragem. Aduziu que eu deveria me nortear pelo “caculo” da água, na borda esquerda do paredão. Manobrei o carro em direção à barragem, sem enxergar o piso por onde passaria, e sem ter noção da profundidade da lâmina d' água que o recobria. Quando estava no meio do percurso, olhei, de esguelha, o bravo Pereira, com a água a turbilhonar na borda esquerda da barragem e a despencar no abismo do lado oposto. Sua pele da cor do ébano tomara uma cor que se aproximava da tonalidade das garças. É claro que estou brincando. Afinal, o soldado Pereira faz jus ao nome que ostenta. Como dizia o senhor Augusto Pereira, pereira é pau amargoso, é madeira de lei, é cacete de dar em doido. Que os doidos e os politicamente corretos, mais reais do que os reis, não me leiam. Graças a Deus, escapei são e salvo desse verdadeiro rali improvisado pelas ladeiras, montes, chapadões, abismos, veredas e pinguelas dessa Chapada Grande de tanta beleza e encantamento.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO


WILTON SANTOS

José Wilton Santos nasceu em Jenipapeiro (10/081955), Picos, atual Francisco Santos (PI) e faleceu em Teresina, no Piauí, em 2003. Poeta, compositor e professor. Licenciado em Geografia. Professor da rede estadual de ensino. Foi classificado em vários concursos literários, entre os quais: primeiro lugar no Concurso Torquato Neto de Poesia, promovido pelo C. A. e Departamento de Letras da UFPI (1980); primeiro lugar no Concurso de Poesia Falada na Praça e 1º Lugar no Concurso Prêmio da Costa e Silva de Poesia, ambos promovidos pela Secretaria de Cultura do Estado (1981 e 1982). Membro da União Brasileira de Escritores do Piauí. Foi um dos fundadores da União Piauiense de Escritores. Publicou: "Cerca de Arame" (1979); "Diadema" (1982); "Mosaico" (1991); "Ciclo Vital" (1993), “Lente de Contato” (1995) e “Academia” (1997), poemas. Participou dos livros "Postais da Cidade Verde" (1988) e de "Poesia Teresinense Hoje" (1988), organizado por Adrião Neto.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



FAZENDEIRO DE URUBUS

Elmar Carvalho

Quando o sargento Gregório Silva chegou a sua casa, a mulher foi logo lhe dando a má notícia: o fornecimento de energia elétrica fora cortado. Portanto, ela teria que pedir à vizinha para guardar um resto de carne bovina e mais outras coisas perecíveis. Gregório era o delegado de Polícia de Chapadinha. Ficou possesso, e tratou de saber quem fora o empregado que efetuara o corte de energia. Remexeu em uns papéis, e imediatamente retornou à Delegacia. Mandou que um soldado lhe trouxesse o Zé Alicate, cujo nome verdadeiro era José Rosa Damasceno. O apelido lhe viera de seu execrável ofício de cortar fio de energia elétrica, para interromper o seu fornecimento. Na verdade, era empregado de um pequena empresa, que prestava esse serviço à Companhia de Energia Elétrica. A autoridade policial tinha fama de ter maus bofes e ser atrabiliário, mormente numa cidade como Chapadinha, que não era cabeça de Comarca, e portanto não era sede de juizado de Direito e nem de promotoria de Justiça. Viera transferido de outro município, e se comentava que já cometera alguns abusos de autoridade, por conta própria ou a pedido de outras pretensas autoridades.

Depois de esculhambar o Zé Alicate, perguntou porque ele lhe cortara a energia. O rapaz lhe respondeu que recebera uma lista das casas em que deveria ter sido suspenso o serviço, por falta de pagamento. O sargento Gregório, com voz estentórica, quase apoplético, bradou: “Pois fique sabendo, para tua desgraça, moleque atrevido, que ontem mesmo eu paguei o débito!” O empregado lhe disse que se a mulher do delegado lhe tivesse mostrado a fatura quitada não teria executado o serviço na casa da autoridade. Mas o sargento não aceitou a justificativa, ao lhe perguntar sobre por que motivo não viera primeiro falar com a sua pessoa. Disse que o empregado desejava lhe expor ao ridículo, para mostrar que tinha os “quibes” roxos, quando na verdade era um mequetrefe de merda. Sob escolta policial mandou que ele fosse efetuar a religação, e determinou que os policiais o trouxessem de volta. Assim foi feito. Disse que tinha umas diligências e averiguações a fazer, e mandou que os soldados trancafiassem o moleque atrevido numa das celas, na qual não havia cama nem rede. No dia seguinte, simulou um interrogatório, e por volta de onze horas mandou soltar José Rosa. É claro que o sargento não registrou nenhum procedimento, pois não era tolo para incriminar-se a si mesmo. Caso o episódio chegasse a seus superiores, teria como se defender, pois nada constaria oficialmente; diria que apenas o interrogara informalmente, mas que nada constatara do que lhe informaram anonimamente, ao telefone. Muitos, em Chapadinha, gostaram do abuso cometido pelo delegado, uma vez que achavam que o rapaz merecia uma lição. Zé Alicate era mal visto na cidade, porque parecia ter certa satisfação em cumprir a sua tarefa de cortar os fios das casas com exação extremada, se assim se pode expressar a prontidão com que seu alicate cumpria as ordens de corte que recebia. Nunca procurava saber se a dívida já havia sido paga. João Evilásio, considerado o intelectual da cidade, em sua psicologia de algibeira rasa, dizia que Damasceno era traumatizado por causa de uma grande surra que levou de seu pai, na infância. E contou o caso.

Quando José Rosa Damasceno tinha oito anos de idade era um menino levado. Inticava com os outros garotos. Gostava de brigar e perambular pelas ruas da cidade. Era dado a dizer nomes feios. Já sofrera suspensão na escola, e certa feita fora ameaçado de expulsão. O pai não lhe alisava a pele, e o castigava a valer, com um relho de couro cru ou com uma palmatória de pau rijo. Mas o garoto não se corrigia. Gostava de matar passarinho, com atiradeira, e de pescar. Numa dessas pescarias aprendeu a usar tingui e outras ervas que entorpeciam e matavam peixes. Numa de suas andanças, descobriu uma poça d' água onde os urubus bebiam. Lembrou-se das galinhas e dos capotes de sua mãe, que percorriam o quintal de sua casa. Às vezes, ele jogava milho para esses bichos, e gostava de ver a correria das galinhas e dos capotes em busca de um grão, e das disputas e alaridos que eles faziam. O menino pensou em ter o seu próprio rebanho. Achou que seria elogiado pelos pais. Envenenou o bebedouro na dosagem que julgou apropriada, e ficou numa moita de mufumbo a esperar. Aproveitou para admirar, como costumava fazer, não sem certa ponta de inveja, a revoada circular dos urubus, uma verdadeira e graciosa dança. Gostaria de ter asas, para voar e dançar no céu e nas nuvens. Mas isso era só para os anjos e certas aves, e não para um menino, filho de pais humanos.

Quando os urubus começaram a se desequilibrar, trôpegos, sem conseguirem alçar voo, Zé Rosa, com um rolo de cordão que levara numa bolsa, fez uma espécie de cabresto, e preou exatamente doze urubus. Gostava de ouvir seu pai dizer que tinha uma dúzia disso, uma dúzia daquilo. Achava um bom número, uma boa quantidade, nem muita, nem pouca. Foi pela estradinha, puxando as suas “reses”, de penas negras. Iria ter a sua fazenda de urubus, como os pais tinhas as suas galinhas, os seus capotes. Estava orgulhoso de si mesmo. Seus pais iriam sentir orgulho dele, o único fazendeiro de urubus. Era um bom e grande começo. Empreendeu uma longa e lenta caminhada. Os urubus, que já são gingosos naturalmente, bêbados, trôpegos, pareciam equilibrar-se em invisível corda bamba. Um ou outro caía, de quando em vez. Custava imenso esforço levantar-se. O garoto pensou no Antônio Bêbado, que sempre era visto a cambalear pelas ruas da cidade, ou caído nas sarjetas ou deitado nos bancos da praça. O sol já começava a procurar o seu poleiro, assim como as galinhas e os capotes de sua mãe. O céu já estava ficando vermelho, quando o menino avistou as primeiras casas da cidade.

O pai, furioso, a pedido da mulher, procurava Zé Rosa por todos os pontos de Chapadinha, que ele costumava frequentar, mas não tinha nenhuma informação. Já pensava em desistir, quando um ciclista lhe deu a notícia de que o garoto vinha puxando um rebanho de urubus, na estrada que ia para o Periquito. Manuel Rosa nem sequer agradeceu. Feito louco, montou na bicicleta, pedalou com força, e foi ao encontro do filho. O relho estava devidamente amarrado na garupa da bicicleta. De longe avistou o filho, a puxar o seu rebanho de urubus, as suas reses negras. Encostou a bicicleta numa árvore. O chicote desceu várias vezes sobre o lombo do menino, que estrebuchou e se esgoelou, sem que ninguém o ouvisse. Ninguém viu a surra, mas todos viram o seu corpo lanhado pelas chicotadas, que lhe feriram a alma mais do que o corpo. A mágoa calou fundo na criança. Esperara aplausos e recebera vaias, sonhara com elogios e lhe deram forte reprimenda e duras vergastadas. E o algoz fora o próprio pai. Talvez João Evilásio, poeta mor de Chapadinha, discípulo de Freud e outros que tais, tivesse razão em seu diagnóstico de leigo.