quinta-feira, 31 de março de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXVII

As postas de carne se revolviam
em bruscos gestos torturados
espadas por si mesmas decepadas –
e revolviam a terra que
era uma mão mutilada.

quarta-feira, 30 de março de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Charge: Gervásio Castro

30 de março

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO

Elmar Carvalho

O amigo e grande chargista Gervásio Castro, parnaibano/carioca e flamenguista fervoroso, mandou-me um e-mail, em que diz que circulou notícia em Parnaíba pela qual eu teria tido um problema cardíaco, inclusive havendo sido internado no ITA'COR, mas que o Canindé Correia teria esclarecido não ser bem assim; que eu teria tido apenas um aumento da pressão arterial. A verdade é que fiz exames e consulta médica, mas jamais se cogitou de internação. No bilhete internético, no qual se encontra anexada uma excelente charge de sua autoria, o Gervásio me dá as boas vindas ao Clube dos Hipertensos. Na ilustração, digna dos maiores artistas plásticos do Brasil, estamos retratados ele, seu irmão Fernando Castro, arquiteto talentoso e igualmente chargista da melhor qualidade, e este diarista, já como neófito da agremiação.

Em razão disso, liguei para o dr. Itamar Abreu Costa, para saber se, diante do resultado dos exames e do meu histórico, eu já poderia ser considerado um hipertenso, e como tal ser admitido na referida confraria, com direito ao batismo de pelo menos três cálices de vinho tinto. O cardiologista foi peremptório em me desenganar; não será desta feita que poderei ser iniciado na agremiação, pois eu tive um aumento de pressão, provavelmente por causa de circunstâncias alimentícias, porém não poderia ainda ser considerado um hipertenso. Avisarei o amigo Gervásio Castro de que ele terá de me aguardar um pouco mais, porquanto, segundo Itamar Costa, ainda não alcancei a “pontuação” necessária. Contudo, pensando bem, estou com a leve impressão de que o semáforo da malvada e discreta doença já começa a me acenar com sua luz amarela.

terça-feira, 29 de março de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


29 de março

O ÚLTIMO GALO

Elmar Carvalho

Quando, por uma curta temporada, fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que dilaceram como cilícios.

São associados a vigias, por causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos, há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.

Adolescente, creio que ao cursar o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras, como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas “enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.

Foi quando, em certa madrugada, ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço musical. Houve um momento em que os cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se entrecruzarem, se entretendendo como no poema. Então, em minha mente, o poema se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia; teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo, onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que cantavam.

Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo.

segunda-feira, 28 de março de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A MORTE DO FILHO DO CORONEL

Elmar Carvalho

Estêvão Amorim era o maior comerciante da região de Luzilândia. Sua enorme casa comercial era constituída de três departamentos: a imensa mercearia, de venda a varejo; o sortido armazém, que vendia por atacado e tinha por clientela os bodegueiros e merceeiros do município e adjacências, e o de compra e venda dos produtos produzidos na região, como peles de animais, tucum, cera de carnaúba, amêndoas de coco babaçu, farinha de mandioca, algodão, cereais, etc. Com o crescimento do valor desses produtos regionais chegou a se tornar exportador, o que lhe rendeu muito dinheiro e prestígio no estado. Com isso, pode comprar a sua patente de coronel da Guarda Nacional.

Teve condições de mandar os filhos estudar nas capitais de outros estados, sobretudo em Salvador e no Rio de Janeiro. Porém, o filho mais velho ficou para lhe ajudar na administrações dos negócios. O rapaz era incansável e totalmente dedicado ao serviço, sem hora certa para encerrar suas atividades. Trabalhava de segunda-feira a sábado, sem de nada se queixar e sem nada exigir em troca dessa quase escravidão. Tão dedicado era, que pouco se divertia. Raramente ia às festas, com seus poucos amigos. Sua diversão era o próprio trabalho.

O coronel começou a envelhecer. Seus cabelos e bigodes ficaram grisalhos, e seu corpo magro principiou a vergar sob o peso dos anos. Já não tinha a mesma energia e saúde de antes, de modo que teve de delegar mais atribuições ao primogênito. Autoritário e centralizador que era, passou a ter que confiar cada vez mais em Silvestre. Este continuava dedicado como sempre fora, e aceitou de bom grado as novas tarefas que o pai lhe dava. Um acidente vascular cerebral afastou o pai do trabalho por vários meses. O coronel Estêvão Amorim passou vários meses no Rio de Janeiro, em tratamento médico, para tentar minimizar as sequelas que o AVC lhe deixara. Ao retornar, seguiu à risca as recomendações e as prescrições médicas, mantendo o repouso recomendado, tomando os medicamentos conforme a receita e evitando envolver-se nos negócios.

Todavia, após alguns meses, sentindo-se melhor, voltou, aos poucos, a participar da administração da firma, e a verificar os registros contábeis. Notou, e Silvestre já lhe falara a respeito, que o faturamento começara a declinar, sobretudo os provenientes da compra e venda dos produtos regionais, mormente os do extrativismo. O filho lhe explicara que a cotação desses produtos caíra muito, originando mesmo, a partir de certo momento, prejuízos. Com a baixa dos preços, os produtores já não tinham mais tanto interesse na comercialização desse produto. Com isso, o poder aquisitivo da população diminuíra, e consequentemente a venda da mercearia e do armazém também minguara consideravelmente. O coronel fazia perguntas e mais perguntas, questionando tudo, exigindo explicações e justificativas. A pretexto de modernizar os registros contábeis, mandou contratar contador formado, em troca de bom salário, pois o coronel desejava as modernas demonstrações de resultado. O velho parecia não querer aceitar as explicações do filho. Parecia irritado com suas justificativas e não queria entender que a borracha sintética e outros produtos industrializados tivessem feito despencar o preço dos produtos que exportava. Voltou a centralizar a administração da empresa, ficando o filho quase como um empregado subalterno, sem autoridade e desprestigiado.

Silvestre Amorim, que já era de pouco sorriso, vivia ensimesmado, imerso em sombrios pensamentos. Vivia sem ânimo, sem alegria com o trabalho, que antes representava tudo para ele. Guardava mágoa da desconfiança do pai, que reputava injusta, pois não poderia ter culpa da mudança de ventos na economia mundial, que afetara o comportamento do comércio nacional e local. Quando o pai lhe expunha algum problema ou dúvida, já não ficava orgulho disso, até porque sentia que ele adotava essa atitude apenas como uma espécie de cortesia paterna, já tendo tomado a decisão por conta própria, ou após ter ouvido o contador, que lhe merecia total confiança.

Tão logo deixava a empresa, Silvestre se recolhia a seu quarto. Quando comia, comia muito pouco, pois já não tinha o menor prazer em alimentar-se, e muitas vezes se esquecia dessa necessidade. Definhava a olhos vistos. Somente o coronel parecia não notar a tristeza, o desânimo, o definhamento e a palidez acentuada do filho. Sem que ninguém notasse, silenciosamente, discretamente, Silvestre morreu. Órfão de mãe há vários anos, somente a velha empregada da casa, naquele domingo chuvoso, sombrio, friorento, melancólico, sentiu a falta de Silvestre, na hora do almoço. Bateu à porta de seu quarto e o chamou, mas nenhuma voz respondeu. Abriu a porta, que estava apenas encostada, e viu o rapaz deitado em sua cama. Chamou-o novamente, em vão. Não precisou tocá-lo para ter a certeza de que ele havia morrido. Quando alguém lhe perguntava de que ele morrera, respondia, triste e laconicamente:
De tristeza... Morreu de tristeza... Foi se amofinando, se amofinando até morrer.
A velha serviçal foi a única pessoa que, realmente, sentiu-lhe a morte e a ausência.

domingo, 27 de março de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

CHARGE E TEXTO: JOÃO DE DEUS NETTO

PEDRO COSTA

Pedro Nonato da Costa nasceu em 03/04/1962 em Alto Longá (PI). Filho de Raimundo Nonato da Costa e Maria Alves da Costa. Poeta, repentista e cordelista. Foi um dos idealizadores e principal fundador do Sindicato dos Cantadores e Poetas Cordelistas do Piauí, sendo o seu primeiro presidente. Organizou três coleções “Biblioteca do Cordel”, publicadas pela Fundação Cultural Mons. Chaves, reunindo vários cordelistas. Editor da revista De Repente. É Verbete do “Dicionário Biobibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos” (1998), de Adrião Neto. Em 2003, concorrendo com poetas do Brasil inteiro, logrou o 1° lugar no Concurso de Cordel, promovido pelo Metrô de São Paulo. Bibliografia: “A Morte do Cantador”; “Cavalo Brinco de Ouro”; “Mundo Todo Rimado”; “Brasil Cruzado”; “O Matuto Deputado”; “Muda Brasil”; “A Marca da Violência”; “Alto Longá e sua Gente”; “Reminiscências de Vovó Pangula”; “Dignidade no Trabalho”; “Tetra-Brasil”, Zé Bandeira e Ontõe e vários outros cordéis. Escreveu também um livro de história.

SAIBA MAIS:

sábado, 26 de março de 2011

RUA GRANDE


ROGEL SAMUEL
(para Dilson Lages Monteiro)

rua grande
em Barras do Marataoã 
no Piauí, minha paixão distante
Rua Grande
e deserta
ao fundo a Matriz
os muros, as casas
desertos
rua larga e grande
batida pelo sol pelo
silêncio do sol
seguida pelos 
passos
silenciosos passos
dos nossos antepassados
ilustres 
dos nossos personagens
Fileto, Thaumaturgo
ó memória nativa
ó glória que não se apaga
traços
passos
na rua grande
da história

sexta-feira, 25 de março de 2011

Minha querida Liz Taylor


CUNHA E SILVA FILHO

Lá nos inícios dos anos 40, você já surgia na tela em preto e branco, estonteantemente bela, com aquele sorriso de invejar todas as meninotas de sua idade. O olhar, nem se fala... Eram olhos de alegrias e de ingenuidade, de pura inocência fagueira, de uma menina, que, ao longo da vida, não chegaria à velhice majestosa dos oitenta anos, e haveria de viver tantas emoções, dores, decepções, doenças, vícios, casamentos desfeitos( um refeito), tudo, enfim, que parece ser uma espécie de sina sombria que acompanha alguns grandes artistas mundiais. Há esse grande mistério, insondável mistério que prodigaliza seres esteticamente maravilhosos, de beleza incomparável, e, no fim dos seus dias, lhes cobra alguma coisa em forma de padecimentos e desgraças, morais, físicas, psicológicas, existenciais.
Jamais saberei explicar que mistério é esse de final infeliz ou problemático que, por assim dizer, faz parte de algumas pessoas famosas que poderiam morrer de velhice, sentada tranquilamente num sofá de sua casa cercada de carinhos e da amizade de todos, ou seja, morrendo qual um passarinho, dando o último suspiro de uma vida em parte belamente vivida, intensamente vivida nos seus amores e nos seus sentimentos, pois, como se costuma dizer, tinham tudo pra serem felizes plenamente e não o foram.
A atriz inglesa de lindos olhos cor azul-violeta, de voz aguda e doce, carregando, numa das faces, um lindo sinal, durante bom tempo atraiu a atenção de milhões de homens atraídos e magnetizados pela doçura de seu rosto, de sua pele, e de sua cintura fina, e permaneceram-lhe fieis súditos de sua invejável beleza física. Elisabeth Taylor (1932-2011), essa inglesinha de Londres e filhas de pais americanos conquistou corações não só de adultos mas também de adolescentes que nos deslumbrávamos com a sua carinha linda, sua vozinha feminina, seu nariz perfeito, sua boca escultural, sua meiguice, seus olhos de tom azul-violeta, provavelmente os olhos mais lindos que o cinema mundial já nos deu. Não é apenas a cor dos olhos que torna as pessoas belas: é, antes,o olhar que elas nos dirigem, a expressão que nos transmitem a sensação de quem está diante do belo que é eterno, como afirmou o poeta romântico John Keats( 179601821).
Não deixam de passar pelas nossas retinas filmes com os quais ela nos encantou com a sua presença de protagonista, Cleópatra, Ivanhoé, Um lugar ao sol, A última vez que vi Paris , entre tantos outros filmes.
Liz Taylor, como era mais conhecida, não só se fez pela beleza mas pelo talento dramático. Ganhou dois Oscars de melhor atriz. Ganhou prêmios e honrarias tanto nos EUA quanto na Inglaterra. Liz é mais do que uma atriz do cinema. Como lembrou um colunista nosso, ela foi algo quase virtual em termos de cinema. Foi muito além de um ícone. Era uma estrela que se eternizou.
Teve participação social , mesmo já doente, lutou em campanha contra a AIDS, contra preconceitos. Foi, pois, participativa. Era amiga fiel dos seus amigos (Rock Hudson, Michael Jackson). Adorava jóias.
Sua vida sentimental-amorosa foi intensa, oito casamentos. Amou apaixonadamente, e foi por ele correspondida, o ator irlandês Richard Burton, seu marido por duas vezes.
Minha querida menina-atriz de There’s one Born every minute, no papel de Gloria, de 1942, ou da série Lassie come home, de 1943, interpretando Pricilla. Você viu a fama que conquistou, sentiu que o mundo a amou e encantou-se com você. Então, minha bela Liz, só me resta, ou melhor, só nos resta pranteá-la nesta ausência da beleza e da dor universal.

quinta-feira, 24 de março de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXVI

O homem é um navio fantasma
algemado por velas e cordames
de promessas vãs
na praia inóspita em
que se acha encalhado.

FÉ E CIÊNCIA


A Aliança Bíblica Universitária (ABU) é um movimento estudantil, presente no Brasil há mais de 50 anos, cristão, liderado por evangélicos e que tem similares em mais de 140 países do mundo. Tem como objetivo favorecer o desenvolvimento do ser humano como ser integral, insistindo que o conhecimento de Deus e das verdades bíblicas são fundamentais no processo de construção do estudante como cidadão crítico e “humano”, que se fortaleça interiormente para enfrentar e confrontar a realidade onde está inserido.

Em Teresina, a ABU já existe há mais de 40 anos. A UESPI (Campus Torquato Neto), UFPI(CCHL, CCN), IFPI, CEUT, FSA, FAP, NOVAFAPI, UEMA(Timon) e desde outubro de 2010 que existe na UESPI(Campus Clóvis Moura), são alguns dos lugares onde a ABU desenvolve seus trabalhos em Teresina. Como já dito, nosso grupo tem como objetivo anunciar as boas novas da salvação através de estudos bíblicos indutivos dentre outras estratégias. 

E com o objetivo de estimular discurções a respeito do assunto fé e ciência a ABU Teresina vai realizar no auditório da UESPI Campus Clóvis Moura no Dirceu uma Mesa-Redonda com o Tema: “Fé e Ciência: um diálogo (im)possível?”, com a participação do Doutor Timothy Edward keliher(Possui graduação em Engenharia Física pela Universidade do Colorado(EUA), Mestrado e Doutorado em Física Nuclear pela Universidade de Washington(EUA) e Assessor especial da ABUB na região Norte)  no dia 31 de março de 2011(Quinta-feira) das 18h30 ás 20h.

quarta-feira, 23 de março de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


23 de março

FIM DE CASAMENTO

Elmar Carvalho


Perguntando eu, hoje, a um homem de mais de sessenta anos de idade se ele era solteiro, contou-me que fora casado, em sua juventude, mas durante menos de vinte e quatro horas. Revelou-me que ao constatar que fora enganado pela mulher, a devolveu a seu pai. Fazendo-me de um tanto ingênuo, disse-lhe estranhar como essa traição poderia ter ocorrido nesse curto espaço de tempo, “em plena lua de mel”, como na bela letra da música de Alceu Valença. Esclareceu-me que a traição fora o fato de ela não lhe ter revelado, anteriormente, não ser mais virgem. O homem a interrogou, e ela acabou por lhe confessar já ter tido outras experiências sexuais.

Acrescentou-me ele que sua mãe, ao saber do fato, ponderou-lhe que tudo poderia ser apenas um erro proveniente da juventude dela, que poderia não mais se repetir. Ele disse à mãe que nessa oportunidade conseguiu se controlar, e por isso não cometera nenhuma violência contra a mulher, mas, em outra ocasião, não saberia dizer se conseguiria conter-se. A mãe, então, falou que ele fizesse o que achasse melhor para si. Embora pedindo desculpas, indaguei-lhe se ele, ao constatar que a jovem não era mais virgem, havia interrompido o coito. Sorriu, e me disse que era homem, e que, portanto, tivera de concluí-lo, talvez, suponho, para acalmar-se e tomar uma atitude de maneira mais ponderada. Tinha ele 25 anos e a mulher, 16.

O certo é que ele não aceitou a mulher, devolvendo-a a seus pais, mal (ou bem) comparando, como se ela fosse uma mercadoria com defeito oculto ou vício redibitório. Na verdade, nessa época, as mulheres se conservavam virgens até o casamento, e poucos homens aceitariam casar-se com uma mulher que não fosse donzela, exceto se fosse o próprio nubente o autor do defloramento. O próprio Código Civil de 1916 permitia a anulação do casamento, conforme o seu art.218 em combinação com o 219, IV, ao estampar que era anulável o casamento quando “o defloramento da mulher” fosse “ignorado pelo marido”. Mas houve casos em que o marido repudiou a mulher, embora fosse ele o responsável pela defloração, sob a alegativa de que ela não deveria ter cedido às suas súplicas e insistências; que se cedera com relação a ele, poderia entregar-se aos caprichos e seduções de outrem, no futuro, ainda mais porque já não existiria a película denunciadora.

No final da conversa, fazendo uma analogia entre as ponderações de sua mãe, para que desse nova oportunidade a sua mulher e a perdoasse, lembrei-me de uns versos do grande poeta Hermes Vieira, que tem poemas magistrais na vertente popular e na temática sertaneja, que lhe citei de forma livre, parafraseada, já que faz muitos anos que os li pela derradeira vez. O poema conta o caso de um jovem que constatou haver se casado com uma mulher já deflorada. Na manhã do dia seguinte às núpcias, foi aconselhar-se com o pai, sobre o seu desejo de restituir a mulher a seu pai. Após elogiar muito a própria mãe, acrescentou que feliz era ele, seu pai, que se casara com uma mulher direita, séria, honesta, que sempre o respeitara. O pai, nos versos do poeta, que cito livremente, apenas de memória, disse ao filho angustiado: “Meu filho, vê se você se acoita, / Na mulher se bota um frei, / é melhor você ficar na moita, / Do jeitim que eu fiquei”. O homem sorriu, conquanto fosse este o mesmo conselho que lhe dera sua mãe, em sua distante juventude.

terça-feira, 22 de março de 2011

LANÇAMENTO DE LIVROS NO CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA


Acontecerá na noite desta quarta-feira (23), às 19hs, na sede do CEC – Conselho Estadual de Cultura, situado na rua 13 de Maio, 1315, bairro Vermelha, zona sul de Teresina, o lançamento de livros de autores piauienses publicados numa parceria do Governo do Estado, Senado Federal e APL – Academia Piauiense de Letras. (Mais informações – 86 3223 5577 - Falar com Ana Maria).
Serão lançados os livros «Descrição do Sertão do Piauí», do Pe. Miguel de Carvalho; «Chão de Meu Deus», de Fontes Ibiapina; «Etno-história Indígena Piauiense», de João Gabriel Batista; e a «Tragédia Ocular de Machado de Assis», de Hermínio Conde -  publicada numa parceria do Governo do Estado do Piauí, Senado Federal e APL - Academia Piauiense de Letras. Na oportunidade, ocorre ainda o lançamento do livro «As aventuras do Heliotero», do escritor piauiense Jonas Piauí.
A programação faz parte do Calendário de Eventos 2011 do CEC, que visa prestigiar datas comemorativas em cada mês com atividades como palestra, exposições e lançamento de livros em comemoração a cada evento, visando dar ainda maior visibilidade social, bem como, um caráter didático/pedagógico às datas comemorativas, de significativa relevância para o Estado e o país, para a comunidade em geral. 

DIÁRIO INCONTÍNUO



22 de março

A SUPER LUA CHEIA

Elmar Carvalho



O professor Nelson Rios, regenerense de velha e boa cepa, através de comentário postado em meu blog, sugeriu-me escrevesse sobre a super lua cheia, que ocorreria no sábado, dia 19. Respondi-lhe que talvez o fizesse nesta terça-feira. Segundo os jornais e os portais noticiosos, trata-se de um fenômeno natural, que só ocorre a cada 18 anos. Portanto, se Deus me mantiver vivo, só voltarei a revê-lo já setentão, ou, mais precisamente, quando estiver com 73 anos de idade, posto que em poucos dias completarei 5 ponto 5. Uma vez que a órbita de nosso satélite não é circular, mas elíptica, há momentos em que a lua fica mais próxima da Terra, atingindo o perigeu, ou mais distante, quando ocorre o apogeu. No primeiro caso (perigeu), para um observador em nosso planeta, ela aparece 14 % maior e 30 % mais brilhante; consequentemente, no apogeu ela aparentaria ser menor e ficaria menos luminosa.


Portanto, no perigeu, o nosso satélite alcança a sua maior luminosidade, o seu maior tamanho aparente, e fica revestido de sua maior glória e beleza. Na verdade, metaforicamente, ou em linguagem figurada, ou no sentido conotativo para o senso comum, ela teria atingido o seu apogeu, pois teria alcançado o seu ponto máximo de brilho, de beleza, de tamanho, de encantamento. Todavia, em se falando de órbita, ela esteve mesmo no perigeu, e não no apogeu, embora, em termos de plasticidade, devesse ser esta a palavra mais apropriada.

Aprendi a admirar o plenilúnio – palavra que alguns poderão considerar pomposa, solene, ou de forte carga poética, ou ainda motivada por algum pernosticismo – quando fui morar na zona rural, por um curto período, em minha infância. Já então conhecia a música Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, compositor maranhense, à revelia de seu sobrenome. Ficava extasiado, nas escuras noites da caatinga, a contemplar o céu estrelado e a lua cheia, sobretudo ao nascer, ou quando ela se entremostrava por entre os galhos das árvores ou através da cortina esgarçada das nuvens, que por vezes mais mais se assemelhavam a um biombo de gaze.

Quando o astro se escondia detrás das nuvens, minha mãe dizia que ela fora tomar banho. No período chuvoso, a lua formava um círculo em torno de si, uma espécie de nimbo ou halo luminoso; minha mãe, despertando-me em suas poucas letras para as metáforas e comparações e para a poesia da natureza, falava que a lua, qual uma iara, tomava banho em sua lagoa. Recordo que desde muito cedo mamãe me ensinou a admirar a beleza da paisagem, o encantamento das flores, a delicadeza das pétalas das rosas, a majestade de um urubu a planar no céu, a revoada giratória dessas aves, verdadeiro balé aéreo, e as esculturas formadas pelas nuvens ao capricho do cinzel etéreo do vento.

A lua cheia sempre foi associada a mistérios e feitiços, fazendo despertar o imaginário das pessoas simples e a criatividade dos artistas. Dizem que durante essa fase lunar os lobisomens se manifestam, os cachorros hidrófobos se exacerbam; os loucos ficariam ainda mais loucos, loucos furiosos, sob os influxos do plenilúnio. Os antigos almanaques assinalavam a influência da lua sobre a germinação das sementes, sobre o crescimento dos cabelos e das marés. Os poetas simbolistas se quedavam em êxtase, na contemplação da lua cheia e do luar, comparando-os a belas monjas, pálidas e maceradas, enclausuradas em suas celas, em que os cilícios laceravam suas carnes tenras e suas esplêndidas peles brancas. Viam a lua plena como uma hóstia ou como um lírio, e imaginavam o luar como níveas e frígidas neblinas, em que virgens esmaecidas se perdiam em êxtases pecaminosos ou em tormentos inimagináveis, por causa de paixões malogradas ou interditas.

Certa vez, quando eu tinha três anos de idade, mamãe me encontrou na árdua tarefa de emendar umas varas, no terreiro de nossa casa. Intrigada com essa inusitada atividade, perguntou-me o que eu fazia. Respondi-lhe que desejava futucar ou atrair a lua cheia, como se ela fosse algum balão ou apetitosa fruta. Claro, não me recordo desse episódio, mas apenas narro o que minha madre me contou. Contudo, às vezes, ainda me sinto esse mesmo menino, a porfiar em atingir a beleza e a bondade de meus mais profundos sonhos e ideais, e alcançar assim o meu perigeu em relação a Deus, que na verdade seria o meu apogeu de homem que não deseja perder a sua mais intrínseca humanidade, apesar dos percalços e das ciladas; de homem que, mesmo quando momentaneamente parece perder a sua Fé, não deixa de rezar fervorosamente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O LEGENDÁRIO PACAMÃO

Dr. Anchieta com o seu saxofone
Pacamão, o peixe

ANCHIETA MENDES

Figura legendária de Parnaíba, Pacamão deixou nome como personagem do romance de Assis Brasil (Beira Rio, Beira Vida) e com as suas tiradas literárias, dizia ser poeta, jornalista e orador sacro. De sua imaginação, a famosa carta dirigida ao Bispo da Diocese, que publico para a apreciação dos amigos e amigas.
Ei-la:
“Exmo. Sr. Bispo Diocesano de Parnaíba,
Tenho a subida honra de comunicar a V. Exa. Reverendíssima que, em virtude de consequências matrimoniais, a minha extremosa consorte houve por bem trazer à luz, no dia 7 do mês em jogo, a décima edição de nosso lar, em caráter masculino, cujo animalzinho se acha competentemente arquivado e ainda permanecendo em consequências anônimas, a fim de aguardar a respectiva epígrafe nas sagrações da pia batismal e nos aparatos burocráticos do Registro Civil, depois do que poderão surgir os escândalos festivos, com sacrifícios de aves domésticas e galináceos, com prévias e posteriores consequências químicas aquosas e etílicas, para escandalizar o estômagos dos convidados.
Respeitosamente, Francisco Pereira de Sousa – Pacamão”
O legendário Pacamão, na charge de Gervásio Castro

PACAMÂO

Elmar Carvalho

Eu sou um monumento
anatômico e biotônico
onde a lenda se mistura com a realidade;
onde o homem se confunde com o mito.
E neste instante, sinto-me
forte como um elefante!
Cadê a tromba? – perguntou um gaiato.
Está aqui – retrucou Paca/mão na braguilha.
Pacamão: pacamônicos folclores
de ditos repetidos pela boca
do povo – arma de repetição
deflagrando gargalhadas.

domingo, 20 de março de 2011

ACORDA MARIA BONITA !



SIMÃO PEDRO


A lembrança me traz ainda a cantiga alegre ouvida nos tempos de criança: “Acorda Maria Bonita, acorda vem fazer o café, o dia já vem raiando e a policia já ta de pé...” Esse canto vivo e forte estremecia toda a rua como um forte trovão no inicio do inverno. Saía porta a fora em disparada atraído pelo canto pra ver aquela mulher se aproximando. Lá estava ela, uma figura enorme para os nossos padrões de mulher, a pele negra se escondia atrás de uma tanga encarnada, seus peitos enormes e arfantes desafiavam a gravidade com seus bicos enormes. A voz continuava firme: “-Acorda Maria Bonita...” Um lenço colorido emoldurava sua cabeça com pontas que balançavam pelos ombros; argolas enormes pendiam da suas orelhas pequenas e uma chupeta azul desbotada e suja caía pendurada no seu pescoço.

A visão que eu tinha era de uma Deusa Africana, ali materializada. Eu acompanhava aquele quadro em silêncio, assustado; os olhos compridos percorriam aquela imagem, me impressionava tudo aquilo. Aos poucos a alegria do canto ia cedendo, dando lugar a uma tristeza imensa. Perturbada, aquela mulher que sorria agora chorava em minha frente, lágrimas caíam da suas faces, um rosto transtornado agora buscava a multidão que de longe assistia ao espetáculo que se desenhava ali. As pessoas pareciam indiferentes àquela criatura, muitos zombavam e riam daquela pobre alma, ela permanecia ali, sem que ninguém ensaiasse um acolhimento. De repente vi aquela mulher se apequenando diante da multidão e num grito de desespero correu ao seu protetor pedindo socorro: - “Papai Turuka, me ajude!” . De braços abertos aquele homem acolhia a pobre e infeliz criatura. Eu, aos poucos, me aproximava para ver de perto e não perder nenhum detalhe da cena. Via-o envolvendo aquele corpo com um lençol. Ela, agitada e chorando muito, deixava escapar palavrões terríveis. Só se acalmando quando ele colocava em suas narinas um chumaço de algodão embebido em amoníaco.

A multidão ia aos poucos se dispersando. A pobre mulher estava em silêncio agora, dormia um sono profundo. Depois, despertando da letargia, não se dava conta do que tinha lhe acontecido. Nos períodos de calmaria, era uma dona de casa impecável, cozinhava como ninguém e gostava de ver tudo limpo e arrumado. Não tinha casa, vivia a maior parte do tempo na cadeia pública da cidade. Fez de lá por muito tempo o seu lar. Cuidava da cozinha, fazia a limpeza, lavava e passava, atendendo os presos e a própria polícia, sem ganhar um tostão.

Nas horas vagas era ainda abusada sexualmente pelos que ali zelavam pela segurança. Foi mãe de uma grande prole, nascidos da exploração a que era submetida. Suas crises se tornavam mais freqüentes após os partos, quando seus filhos eram dela apartados. Nas crises, gostava de usar uma chupeta e sempre carregava uma boneca nos braços, parecia querer substituir os filhos que dela eram separados. A sua condição não permitia exercer seu papel de Mãe junto a eles, devido a sua debilidade. Seu nome de batismo era Ester, e a ele acrescentaram o sobrenome de: “doida”. Não sei a qual família pertencia, mas dizem que ela era do bairro Cariri. Seu último pouso, foi o Novo Hotel, morou ali alguns anos com a Dona Celestina e o Seu Miguelzinho.

Nos últimos anos, conservava ainda aquele lenço colorido e as argolas redondas, na face estampava ainda um sorriso tímido. Seus seios caíam por cima de uma enorme barriga, seu corpo em quase nada lembrava aquela deusa africana. Morou ali ainda por muito tempo, só saindo por conta de uma briga que teve com a delicada Isabel Puba, que morava ali num quartinho na lateral do Hotel.Depois dessa confusão, uma filha apiedada da sua condição, resolveu finalmente dar a ela o lar que tanto sonhou.

A sua última crise por mim testemunhada, se deu em junho de 1970, com a partida do seu protetor, o “papai Turuka”. Ela ao tomar conhecimento do fato, inconformada com a perda, entra em desequilíbrio. Corre despida até o cemitério e é encontrada escavando o túmulo do seu protetor com as próprias mãos. Por três dias rondou aquele lugar, que ficou guardado por dois homens, pra evitar sua ação. O tempo passou, mas ela sempre que nos avistava , com os olhos cheios dágua, fazia a pergunta de sempre: - “ Cadê o Papai Turuka ?” Nas minhas reflexões fico a perguntar, por onde andas, Ester? Pra onde foi o teu canto? O que a vida fez com teus encantos? Por onde anda nossa Deusa Africana?

FLAGRANTES & INSIGHTS



O POETA E O CORRUPIÃO

Elmar Carvalho

Vi ontem, na solenidade de lançamento de revistas da APL, o poeta Neto Sambaíba a envergar elegante terno preto, tendo por baixo uma camiseta amarela. Não pude deixar de associá-lo a um corrupião, bravo pássaro, de bela plumagem negra e amarela e de mavioso canto. Por isso, disse-lhe:
– Caro Sambaíba, você, embora vestido de corrupião, não veio aqui nem para brigar e nem para cantar!...
O poeta, de boa índole, sorriu. Evidentemente, não nascera para brigar, mas apenas para cantar, através de seus poemas.

sábado, 19 de março de 2011

Estudar e PesquiSite

JOSÉ MARIA VASCONCELOS




Nem quero lembrar dolorosos momentos, rabiscando duas, três vezes três folhas de papel, em busca de um texto enxuto, de leitura fácil. Desconhecia a mais maravilhosa invenção humana, o computador, com mundão de informações e serviços. Penava que só burro tangido por carroceiro. Pagava digitadores, que me aporrinhavam com deslizes gramaticais e alterações de sentido, além das espinhosas idas ao dicionário e velhos livros, em busca de dados. Enviava cartas, em vez de emails. Sobrevivia às expensas da esferográfica, datilografia, vovó IBM, fantasmas de antanho. Nutria-me de saudosismo tecnológico, à guisa dos que tentam seduzir jovens para retorno às bucólicas praças do passado, em vez de desfrutar com eles praças do shopping. Tinha de me conectar à babel eletrônica, apesar da linguagem confusa e malandra de oportunistas internautas.
Minha neta de 7 anos navegava na internet, e eu morria de vergonha, marmanjão analfa. Humilhei-me, ela me ensinou os primeiros toques e truques. Escamas da cegueira iam-se-me desfazendo, à proporção que o mundo se me descortinava. Hoje, vou direto ao teclado, digito o título, mando brasa à inteligência. Preciso de uma informação, paro, entro no Google, consigo resposta, retorno ao texto. Que barato! Sai uma crônica craque.
Professores lamentam a irresponsabilidade e preguiça dos alunos que plagiam e não estudam mais. Tudo copiam ou pagam por uma montagem monográfica. Irresponsáveis e acomodados são os mestres, por não cobrarem apresentação pública das pesquisas, acompanhadas de depoimentos orais, desligados do texto, permitindo apenas uma sinopse na mão. Meus ex-alunos testemunham como lhes cobrava tarefas de casa: selecionava alguns para expor, em público, explicar tintim por tintim conteúdos estudaddos e pesquisados. Inicialmente, eu elaborava uma síntese na lousa, oferecia dicas e estimulantes recursos e só. O desenvolvimento do tema ficava por conta dos estudantes. Suavam, reclamavam à coordenação, exigiam-me que expusesse tudo na lousa, exibisse meu talento, para eles escaparem das buscas aos livros. Torrava-lhes o juízo, exigia-lhes pesquisa e apresentação oral, em público. Tarefa ingrata ao magistério, só reconhecida mais tarde, sob loiros do sucesso profissional: Firmino Filho, Fernando Said, Lucídio Filho, Iracema Portela, Djalma Filho, Gustavo Medeiros, Pedro Alcântara, tantos e tantos que experimentaram vertigens deste algoz. Fazia-os visitar empresas e redutos, a fim de colher uma redação. Hoje, eu os afligiria a substituir divagações tolas da internet por sites e portais de arquivos científicos, se quisessem realizar sonhos mais altos, embalados pelo entusiasmo deste irreverente mestre. Não se avança com cotas, plágios vidinha prazerosa, curtindo besteirol cozido com novelas, forró sacana, noturnas farras. Constroem-se mentes cultas e prósperas com sacrifício, vigílias e pesquisas. Não condenemos a internet, a biblioteca virtual quase de graça. É só desfrutá-la, como eu, apesar de tardio. Olha que crônica me rendeu! Sem aporrinhação de digitadores e surrados livros na estante.

sexta-feira, 18 de março de 2011

UM MUNDO REAL


ALCIONE PESSOA LIMA 

É tão real o mundo em que vivo...!
E, de repente, um tremor do outro lado da terra
Que em segundos todos sabem.

Eu, apenas com um pincel na mão, busco traçar, no meu imaginário, o ideal.
Subtraio, do quadro à minha frente, a parte que existe e imagino outra
A completar a natureza.

Imponho a todos um sorriso escancarado...
Não quero ver tudo pelo avesso...

Desejo ornar com flores os destroços de uma cena surrealista,
Sem representá-los verdadeiramente.

Ofereço aos espíritos outra imagem de beleza.
Não a que retrata a natureza em fúria.
As almas não podem ficar mergulhadas em um pesadelo...
Tampouco no repouso que lhes pesam.

Há uma vontade de reagir e confiar na natureza reconstrutora.
Apagando da mente as vidas ceifadas.

Não quero pintar a dor que na retina insiste em fixar-se.
Sei que sou pequeno e frio, igual a todos.
Reconheço formas corporais a Deus e ao Demônio.
É visível a descida de suas moradas com um único objetivo: disputar a terra.

A liberdade no meu pensar me faz crer
Que todos os acontecimentos do mundo têm a mão do seu soberano.

Acho que é uma guerra sem trégua e sem regras
Que revela ao homem novos caminhos,
A penetrar na superfície que os sentidos lhes descobrem.

Quero pintar antes paixões e idéias,
Pois a minha arte está de costas para pessoas e atos.
Os fatos deixam pesada a minha alma.

Peço calma ao ego que se recusa a imaginar o ideal,
Deixando, assim, o tom poético do meu espírito.

Perco-me em um abismo.
Imagino-me quase por inteiro, mas certo de que saí do nada
E atravessarei o tempo e desaparecerei, talvez, nos braços do meu Criador.

quinta-feira, 17 de março de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXV

Ao som de sua música dorida
o instrumento masoquista
se torturava e em gestos
retorcidos se dilacerava nas mãos
atormentadas de quem tocava.

quarta-feira, 16 de março de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO







16 de março

O GUERRILHEIRO, O POETA E O MÉDICO

Elmar Carvalho

Por precaução e em virtude de achar que já estava havendo sinalização de que eu poderia estar com tendência para um início de hipertensão, fui consultar-me com o dr. Itamar Abreu Costa, meu conhecido há um bom tempo. Trata-se de um médico humanitário, de um bom ser humano, cordato e educado. Logo a gente percebe que ele gosta do que faz, porquanto ele exerce sua profissão com alegria, com presteza e dedicação, satisfeito por estar prestando um benefício a seu semelhante. E todo aquele que se realiza em sua profissão, que a exerce com entusiamo é um felizardo, porque o trabalho torna-se uma bênção, ao passo que, para o que a exerce apenas por obrigação, apenas por causa do dinheiro, o trabalho é um fardo pesado, enfadonho, convertendo-se numa espécie de penitência e maldição.

Vi, nas estantes de seu consultório, várias imagens de santos, quase como se ali fosse uma espécie de oratório, o que talvez seja também. Indaguei-lhe a respeito. Respondeu-me que sua mulher Edilane, diretora do ITA'COR, é uma católica praticante e fervorosa, descendente de uma senhora piedosa, que contribuiu para o soerguimento da igreja matriz de N. Sra. dos Humildes, padroeira de Alto Longá, onde ambos nasceram. Mas vi também, destacando-se entre os livros e as imagens, duas placas metálicas com os retratos de Che Guevara e Pablo Neruda, o que revela o lado “guerrilheiro” de Itamar, na busca talvez utópica de uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais fraterna, pois, como se sabe, os dois ícones eram homens de esquerda.

O primeiro, herói da revolução cubana, tendo lutado em Sierra Maestra, até a vitória final, com a instauração do governo de Fidel Castro, era médico, como o nosso bravo Itamar Costa. O segundo, além do altíssimo poeta andino que foi (e digo andino em sentido literal e metafórico), com versos que ainda hoje me encantam e enternecem, foi também político no Chile, sua terra natal, tendo apoiado o governo de esquerda de Salvador Allende. Portanto, os dois retratos são significativos e bem apropriados, porquanto Itamar, além de médico, como Guevara, é também um ser cultural e telúrico, como Neruda, tanto que é o dinâmico presidente da Academia Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia – ALLCHE.

Quando, alguns anos atrás, levei meu filho João Miguel para ser consultado por Itamar, ele me disse a sorrir, com seu jeito bonachão:
- Quer dizer que você confia em me entregar o coração de seu filho?
Disse-lhe que sim. Desta feita fui logo lhe advertindo que, à revelia de minha preocupação, o meu histórico era bom, porquanto minha pressão sempre fora normal e meus pais sempre tiveram bom coração, tanto no sentido fisiológico, como no simbólico, posto que são pessoas saudáveis e de boa índole. Ele sorriu e me passou uma bateria de exames; falta-me fazer o derradeiro. Coloquei o coração de meu filho em suas mãos. Agora, nelas coloquei o meu próprio. Aguardemos o resultado dos exames e o vaticínio do oráculo, que, no caso, é o próprio Itamar Abreu Costa, com suas vestes brancas de esculápio e sua farta barba de profeta.

terça-feira, 15 de março de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

15 de março

MEUS TEMPOS EM CURIMATÁ

Elmar Carvalho

Vez ou outra, ao entardecer ou no silêncio da madrugada, escuto o relincho ritmado, vibrante, metálico, quase musical, de um jumento, certamente com pendores artísticos. Disse relincho, mas quase dizia canto, porque a voz desse asno é algo semelhante ao som de um instrumento de sopro. Por vezes o jegue se dá ao requinte e virtuosidade de emitir um sustenido ou mesmo um melodioso falsete. Isso me fez recordar, por motivo que adiante será esclarecido, da madrugada solitária e fria, no início de minha carreira, quando, na qualidade de juiz substituto, assumi a Comarca de Curimatá, por quatro meses e alguns dias. Depois da longa viagem de mais de setecentos quilômetros, em desconfortável ônibus, com grande parte da estrada devastada por imensas crateras, cheguei a meu destino. Se bem me recordo, desceram duas ou três pessoas, que logo se dirigiram para suas casas. O ônibus seguiu para Avelino Lopes, de modo que fiquei sozinho no banco da praça central, à espera da pessoa que iria me abrigar até eu conseguir pousada.

Como disse, a solidão era absoluta, de modo que me senti desamparado, na terra estranha e distante. Para me distrair, fiquei a olhar as casas e os logradouros. No centro da praça havia o fórum e o prédio da prefeitura. Mais adiante, numa esquina, erguia-se o edifício do Banco do Brasil. Bem perto do local em que me sentei, um jumento pastava o tenro e verde capim que ornava a praça, sem ser incomodado por ninguém, nem mesmo por eventual e zeloso vigia do jardim público. Se bem que o jegue mais se assemelhava a um servidor público, a executar gratuitamente o serviço de capina. Logo chegou dona Miraísa, que era a chefe do cartório eleitoral e escrivã da Justiça comum. Era ela viúva de um ex-prefeito do município. Posteriormente, seu filho, então estudante do curso de Direito, veio a se tornar alcaide de Curimatá. Já não me senti mais abandonado, e fui esperar o dia amanhecer em sua residência, onde tomei banho e café.

Felizmente, o doutor Carlos Washington Machado, promotor de Justiça, com a sua lhaneza e elegância habitual, convidou-me para ocupar um quarto do apartamento funcional do Banco do Brasil de que ele era locatário, depois de ter providenciado uma singela solenidade de posse. Nessa curta temporada curimataense, convidado pela prefeita Estelita Guerra de Macedo, participei de evento cultural no campus da UESPI, em que discursei e recitei poema de minha autoria. Nessa cidade, da qual guardo boas recordações, fiz amizade com o sr. Mundinho Mascarenhas e com o rábula Vogado, que eu chamava, brincando, de Ad-Vogado. Ambos tinham interesses culturais, e entretivemos boas conversas. Na companhia dos dois, fui conhecer a pequenina e vetusta Parnaguá, ornada por um grande lago, referto de encantos, lendas e mistérios, terra do romancista e contista Oton Lustosa, magistrado e meu confrade da Academia Piauiense. Às vezes, ao contemplar as carnaubeiras e a serra de Parnaguá, azulando na direção de Avelino Lopes, uma melancolia se infiltrava na minha alma ao me recordar de minha longínqua terra natal.

segunda-feira, 14 de março de 2011

NEGAÇÃO

JOÃO CARVALHO


em verdes paisagens ando
e tento conter o pranto
meditando, vou buscando
sufocar-te no meu canto

você é água, mas não pra minha sede
- minha sede ainda insaciada
você é luz, mas não tece a rede
dos meus sonhos com a amada

e nesta existência, todo
à beira do caos, à beira
a pisar em lodo

fico cheio de mágoa
a um passo da ribanceira
prestes a afundar-me na água

domingo, 13 de março de 2011

MANUEL BANDEIRA REVISITADO


M. PAULO NUNES

Neste meu carnaval sem nenhuma alegria, como diria Bandeira, passado em casa, longe do bulício das praias e ouvindo apenas o som, não de cuícas e tamborins dos velhos carnavais que não mais existem, mas de tambores, bumbos e cantorias sensaboronas (onde estão as velhas marchas e canções de antigamente?) e aproveitei, como há muito não o fazia, para fruir um pouco a companhia de velhos amigos, os livros, sobra de um acervo que nunca diminui; como fazer parar a compulsão pelas velhas leituras? Reli assim o velho João Ribeiro, de cuja medalha sou injustificadamente detentor, através de generosa homenagem de amigos da Academia Brasileira, haurindo mais uma vez a sabedoria de suas Páginas de Estéticas (Livraria São José, 1963); de Josué Montello, em sua prosa diarística (Diário do Entardecer – 1967-1977 – Editora Nova Fronteira, 1991); ou relendo salteadamente o Bandeira de Estrela da Vida Inteira, contendo suas poesias reunidas (Livraria José Olympio Editora, 1970).
Neste último, desejaria deter-me um pouco e acentuar que mais uma vez deixei-me impregnar por um sentimento lírico e elegíaco feito de mágoa, solidão e desencanto que me traz sempre uma profunda melancolia, que não é tristeza, mas a desolação do sentimento de perda pelas coisas findas, que já nele está presente, desde sua estréia com A Cinza das Horas. Além do mais, o velho bardo é um dos mais genuínos poetas brasileiros que conheço, não apenas por aproximar-se da linguagem popular, embora seja ele ele um poeta erudito, como expressa em um de seus poemas mais libertários dos velhos cânones da língua, que é “Poética”, de seu livro Libertinagem.
“Abaixo os puristas / Todas as palavras sobretudo os barbarismo universais / Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis.”
A explicação para o fenômeno me ocorre encontrar em um passo, do autor de Os Tambores de São Luís, na obra já referida, quando se reporta à reforma estilística realizada por Guimarães Rosa para libertar-se dos cânones estéticos da língua tradicional, aos quais opõe a linguagem oral de seu livro de estréia – Sagarana “para surpreender, à luz de pequenas modificações estilísticas, o fiat genésico da explosão verbal que ocorrerá dez anos depois, com a publicação de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile”, segundo sua próprias palavras. Mais tarde, desenvolveremos melhor este assunto.
Para finalizar, vejamos, a seguir, dois momentos da arte poética de Bandeira, o primeiro deles, na forma tradicional, ou clássica em que era exímio, no caso, o famoso soneto “Peregrinação”, de transbordamento lírico, de seu livro Estrela da Tarde; e o outro, “Consoada” sobre a presença da morte, uma constante em sua alta poesia, de um de seus últimos livros, Opus 10, já na nova estética pós-moderna.

PEREGRINAÇÃO

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... E tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...
(Ob. Cit., p. 244)

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
(Ob. Cit., p. 221)