terça-feira, 30 de outubro de 2012

Cambacica, uma história de amor por Teresina



Regis de Moraes Marinho
Poeta e promotor de justiça


Cambacica, pequeno grande livro do escritor piauiense Halan Silva, publicado em 2011 pela Livraria e Editora Nova Aliança, é uma novela que retrata um amor não concretizado entre Otávio, um ornitólogo pobre, e Firmina, “uma moça de família” de Teresina, capital do Piauí, que, por força das convenções sociais, terminou casando, mal, com um outro rapaz que vivia do passado do sobrenome da família.

Sob essa estreita visão, a novela sob comento, a meu sentir, nada acrescentaria às demais que versam sobre amores frustrados e inalcançáveis e, pois, não teria estofo para se estabelecer na estante da história literária piauiense.

Longe, porém, de figurar como um clichê literário, ou um lugar-comum novelístico, a novela Cambacica, para usar palavras de Carlos Nejar, em sua História da Literatura Brasileira (Leya, 2011, p. 25), vale pelo que, nela, “está invisível, intocado, ainda que o que se diga cruze como a linha de um trem com o que não se diz, nem se diria, mas se está pensando. Ou começou a ser pensado, depois que se disse”.

Em verdade, o amor fracassado de Otávio, o indefeso fura-flor ou cambacica, pequeno pássaro da fauna teresinense, e a moça rica Firmina, não passa de um “leitmotiv”, ou pretexto literário, para falar do desastre ecológico que se prenuncia em Teresina, com o desenfreado crescimento imobiliário e a destruição da mata ciliar dos rios Poti e Parnaíba. Em outras palavras, a avefauna teresinense corre perigo e é enxotada do seu habitat natural, pois, como na canção de Chico Buarque, “o homem vem aí”...

Nesse sentido, o amor irrealizado de Otávio e Firmina surge como uma metáfora do desamor do progresso de Teresina pela sua – agora prestes a extinguir-se – fauna aviária. Donde concluir-se que a novela Cambacica é um grito de socorro ecoando de nossa fauna, que quer e merece ser preservada, para a manutenção, ainda que na Teresina desenvolvimentista do Século XXI, de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, em prol das presentes e futuras gerações.
Anoto que páginas como as do capítulo “Bichos” têm um acentuado caráter antológico e nos colocam lado a lado, por que não dizer mesmo dentro dos nossos quintais e jardins aromáticos, para aviventar em nossas almas o amor telúrico-bucólico, sem pieguismo, mas com profundo senso de proteção ecológica e ambiental, como no trecho abaixo:

“Entre os passarinhos que não se incomodam com a presença do homem, vê-se, por entre os interstícios dos telhados ou escalando muros, a simpática Cambaxirra, que a maioria das pessoas conhece pelo nome Garrincha, mas há quem a chame de Rouxinol. Costuma andar aos casais e o macho emite um som melodioso e diminuto. Nas casas, praças e ruas da cidade, pode-se avistar com frequência a generosa rolinha Fogo-pagou, que, noutras regiões, em razão do som que emite ao alçar voo, é conhecida como rola-cascavel. Em menor número, nos mesmos locais da anterior, encontra-se outra rolinha, a Sangue-de-boi ou rola Caldo-de-feijão. Os Ben-ti-vis são estridentes e vadios, estão em toda parte. Entre a folhagem das árvores ou em voos breves, surgem bandos de Anuns pretos. Nas áreas próximas das margens do rio Parnaíba, é possível encontrar Anuns brancos. Vez ou outra, um olhar atento pode descortinar semioculta na copa das árvores, a gozadora Alma-de-Gato. Nos jardins, apanhando néctar das flores, assomam alguns membros das mais de 320 espécies da família dos Beija-flores. Nos bairros arborizados, como o São Cristóvão e o Horto Florestal, durante a safra do caju, observa-se o Rei-Congo ou Japu. O canto desse pássaro, associado ao estremecer das asas, dá a impressão de sacudir folhagem. Nas margens do Poty, antes da construção das avenidas e dos prédios residenciais, costumava aparecer, na copa das mangueiras, um dos mais afamados ventríloquos da avefauna brasileira – o Xexéu ou Japim”.

Enfim, Cambacica, de Halan Silva, é, sob minha ótica, uma reflexiva história de amor por Teresina enquanto cidade arborizada e ainda apinhada de pássaros que não pode, nem deve acabar, e que, portanto, vale como um grito de alerta a todos que aqui residem e participam do seu progresso, para que esse amor não venha a se frustrar e fracassar como o de Otávio e Firmina.

Nenhum comentário:

Postar um comentário