domingo, 30 de novembro de 2014

Seleta Piauiense - Paulo Véras


Oferenda

Paulo Véras (1953 - 1983)

Trago nas mãos
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia

Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão

Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta

E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras         

sábado, 29 de novembro de 2014

Educação para a espiritualidade sadia



Educação para a espiritualidade sadia

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Basta clicar canais de televisão. Logo, aparecem famosos cozinheiros ensinando culinária mágica da boa e prazerosa saúde. Ganham generoso salário e fama de invejar engenheiros e advogados. Recebem classificações chiques, como “alto estilo”, chefs, gourmets, teens, estes para estimular jovens a vencer a obesidade.

Mudo de canal. A disputa para ganhar menos peso. Cada programa, uma receita mágica para corpos sarados ao custo de “alimentos sustentáveis”, chás verdes, peitos de frango ao azeite extra virgem. Logo mais, caminhadas estafantes, malhação pesada, personal treiner. A ânsia da imortalização do corpo, e tome bananas para a imortalidade do espírito.

A modernidade precisa desfrutar outras fontes de vida saudável associada ao espírito sadio. Médicos de formação espiritualista recomendam atitudes físicas voltadas para a saúde do espírito. Atualmente, os estudos avançam, auxiliados pelas experiências da física quântica. Mas, cuidado, exercitar o espírito não pode se resumir somente em técnicas de mentalização.

O psiquiatra Hélio Penna Guimarães, em seu livro O IMPACTO DA ESPIRITUALIDADE NA SAÚDE FÍSICA, recomenda “buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendam o tangível (corpo), à procura de um sentido de conexão com algo maior (espiritual) que si próprio”.

A espiritualidade pode ou não estar ligada a uma vivência religiosa. Para as confissões religiosas, a espiritualidade traduz o modo de viver característico de um crente que busca alcançar a plenitude da sua relação com o transcendental. Cada doutrina religiosa comporta uma dimensão específica dentro da classificação geral. As religiões, em geral, colocam como virtude básica, amor, generosidade, dedicação ao próximo, espírito de comunidade, perdão, enfim, a prática dos dez mandamentos.

Um simples abalo de consciência provocado por ódio, vingança, inveja, deslealdade, corrupção e infidelidade conjugal pode desencadear patologias mais diversas. Não há terapia, remédios e exercícios físicos que curem. Em crônica anterior, tratei do assunto em CINISMO E FALTA DE ÉTICA ATRAEM DESGRAÇAS. A matéria espalhou-se Brasil afora. Bandidos instalados no Poder pagam caro, inclusive com a fatalidade, que se estende por gerações.

A espiritualidade tem sido bastante estudada nas relações com a saúde humana. A Organização Mundial de Saúde (OMS) vem aprofundando as investigações sobre a espiritualidade como conceito multidimensional de saúde, bem-estar espiritual, bem-estar corporal.

A espiritualidade não depende de preces, quase sempre decoradas e repetitivas. Espiritualidade combina com estado de espírito e os fluxos do Espírito divino, exercitando constantemente o bem e combatendo o mal. A eterna guerra entre o bem e o mal. Não há dinheiro que compre a consciência de alguém que vive em aliança com o Altíssimo.


Em momento tão delicado por que atravessa o Brasil, assiste-se à carência de pessoas de bem com a espiritualidade. A malandragem banqueteia-se com dinheiro público e receitas culinárias do mal. É preciso, urgentemente, substituir os chefs, gourmets, altos estilos e teens, por uma nação mais sadia e espiritualizada.    

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

UMA BELA HOMENAGEM LITERÁRIA



Elmar, antevisto por Gervásio Castro, a caminho da aposentadoria

27 de novembro   Diário Incontínuo

UMA BELA HOMENAGEM LITERÁRIA

Elmar Carvalho

No dia 27 de outubro recebi o seguinte e-mail: “CARO POETA: Perdoe se somente agora o descubro grande Poeta, apesar de tantos livros e prêmios. Copiei seu poema NOTURNO DE OEIRAS e o imprimi (“no capricho”), edição de um só exemplar, que desejo lhe enviar pelo Correio. Por favor, mande-me seu endereço.” Fora enviado por Edson Guedes de Morais.

Fiquei lisonjeado e ao mesmo tempo curioso sobre o remetente e sobre o que me seria enviado. Fiz rápida pesquisa na internet, e logo descobri que Edson Morais é um grande poeta, nascido em Campina Grande (PB), de longa trajetória e que participou de vários projetos e movimentos literários. Respeitado pela crítica e por seus pares. Por pura generosidade, tem divulgado vários poetas. Respondi seu e-mail, agradecendo sua amável iniciativa, e em seguida viajei a Parnaíba, onde passei alguns dias.

Ao retornar, imediatamente enxerguei, em cima da mesa da sala, um pacote, que imaginei tratar-se do anunciado mimo do poeta. De fato era. Mas era mais. Além da bela edição, de exemplar único, de Noturno de Oeiras, ainda recebi seis exemplares de uma antologia de poemas de minha autoria, sendo que esta última também continha a crônica “Enfim, a aposentadoria”, publicada na internet, com que me despedi da magistratura e de minha vida de servidor público.

A edição, de fato “no capricho”, artesanal, legítima obra de arte do serviço gráfico, de meu Noturno de Oeiras era feita com a utilização de uma espécie de papel couché grosso, brilhoso, com ilustrações condizentes com o texto. Trazia ainda, no final, uma síntese biográfica do autor.

A seleta de meus poemas, feita com esmero, quase diria com amor, continha os poemas da preferência de meus (poucos) críticos e leitores, e de minha própria predileção. Eu mesmo não teria feito melhor escolha. No final trazia alguns textos de crítica literária sobre a minha poesia, da autoria de M. Paulo Nunes, Hardi Filho, Assis Brasil e João Evangelista Mendes da Rocha, general do Exército Brasileiro e herói da guerra contra o nazifascismo, já falecido, de quem tive a honra de ser amigo.

Atualizada, trazia a crônica “Enfim, a aposentadoria”, como já disse, além de uma pertinente charge de Gervásio Castro, em que apareço envergando uma camisa do glorioso Flamengo, por debaixo da toga de juiz, entreaberta, a puxar um carro contendo livros, uma pena e um computador, certamente representando minhas atividades de poeta, blogueiro e julgador. É, também, um excelente trabalho de arte gráfica, com linda programação visual, concebido em ótimo papel, e ricamente ilustrado.

O exemplar único de Noturno de Oeiras será guardado por mim, durante alguns anos. Depois, o entregarei, como preciosa relíquia, à Biblioteca Pública de Oeiras, onde poderá ser visto e manuseado pelos meus “conterrâneos” oeirenses. Dos seis exemplares da antologia a que me referi, um ficará eternamente em minha biblioteca; os outros cinco serão doados ao Arquivo Público do Piauí, à biblioteca da Academia Piauiense de Letras, à Biblioteca Municipal Abdias Neves, à Biblioteca Carlos Castelo Branco (UFPI) e à Biblioteca Estadual Des. Cromwell Carvalho.

Sabedor de que o poeta Francisco Miguel de Moura conhece pessoalmente Edson Morais, telefonei-lhe hoje, e lhe narrei, em síntese, os fatos acima expostos. Ele não regateou elogios ao nosso mecenas. Disse tratar-se de um grande poeta e de um notável contista, que, aliás, classificou como extraordinário. E, tão importante quanto isso, disse tratar-se de um ótimo ser humano, um bom amigo, que muito tem feito para divulgar os poetas que ele realmente aprecia. De tudo o que conversamos tirei a conclusão de que Edson Morais é um homem desfalcado da inveja, e que sabe reconhecer e proclamar os méritos dos outros.

Chico Miguel pediu-me que lhe levasse, no sábado, um exemplar do Noturno de Oeiras e da antologia, certamente para afagar e contemplar esses dois excelentes presentes que recebi de um mago poeta, como uma espécie de antecipação do Natal. Acrescentou que em sua fala, na solenidade da APL, fará referência às dádivas e ao vate e contista Edson Guedes de Morais.

Para mim elas têm mais valor que certos diplomas e medalhas, algumas vezes distribuídos ao sabor de circunstâncias pessoais ou de interesses da política menor. Os dois belos fólios ornarão a minha biblioteca, como obras do artesanato gráfico, e serão postos em lugar de destaque, mas de fácil acesso aos olhos e às mãos.      

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

APL - lançamento de livros


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos livros: Literatura Piauiense: escorço histórico, de João Pinheiro; Posfácio da Literatura Piauiense: escorço histórico de João Pinheiro, de Francisco Miguel de Moura; Diálogo e Circunstância: ideias filosóficas, de Celso Barros Coelho; Modernismo e Vanguarda – 3º série, de M. Paulo Nunes, todos da Coleção Centenário – Primeira Parte; Ideias em retalhos: sem rodeias nem atalhos, de Maria das Graças Targino. e Exposição sobre a família Vieira de Carvalho e Coelho Rodrigues, de Helvídio Clementino de Aguiar.
           
Nelson Nery Costa
Presidente


Data: 29 de novembro de 2014
Horário: 10 horas
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)

Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86)  3221 1566–   CEP.: 64001-490  –  Teresina-PI  

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bairro Cristo Rei guarda valioso tesouro


Bairro Cristo Rei guarda valioso tesouro

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         1964, densa floresta estendia-se por todo o vale do Rio Poti da velha Catarina. Macacos e animais e aves silvestres abundavam na região, rica de babaçus, pequis, jatobás e guabirabas, deleites da garotada e caçadores, ainda sem leis ambientais. Alguns sítios e belas varandas de ricos contrastavam com a miserável vida dos camponeses morando em taperas. Barões barravam projetos da Prefeitura de rasgar suas propriedades para implantar avenida. “Se entrar aqui, meto bala!” – desafiava arrogante desembargador. Prefeito biônico da ditadura militar, coronel Joel Ribeiro enfrentou os bastiões e construiu a Avenida Marechal Castelo Branco. Antes, porém, chegara à Catarina o jovem jesuíta Padre Pedro Biodan Maione, que revolucionaria a pacata região meio rural, em centro de cultura, religiosidade e desenvolvimento.

         Padre Pedro, italiano, família rica, experiência pastoral no Japão, modesta residência, identificava-se com a simplicidade e comida frugal da recém-criada paróquia do Cristo Rei: “Nunca tinha visto tanta pobreza e falta de atividade cultural”.

         A congregação jesuíta caracteriza-se pelo princípio de erguer escolas antes de construir templos. No Brasil, a missão começou com Padre José de Anchieta, fundador da cidade de São Paulo, além de Padre Manuel da Nóbrega em missões.

         Hoje, Padre Pedro Maione e sua companheira de pastoral, Lígia de Sousa Martins, ambos 88 anos, saudáveis e ativos, recordam tempos difíceis do início da atividade pastoral no Cristo Rei: “Nosso empenho não era servir apenas liturgia ao rebanho, mas cultura e educação profissional.” A Lígia deve-se a ideia do nome Cristo Rei à Fundação que iria sustentar as obras sociais da paróquia. O Centro Social D. Avelar servia de local para celebrações litúrgicas e tarefas culturais. “Dom Avelar Brandão Vilela, pastor de transformações sociais, ofereceu-nos todo apoio nas atividades do Centro Social.” Anos depois, construiu-se o belo templo, ali próximo .

         Padre Pedro estimulava os jovens a cursos de música instrumental. O paroquiano Vieira Touranga, vereador, homem público, despojado e sério, apoiava as atividades sociais.

         “Nossa gente simples não perde para nenhum povo de primeiro mundo. O que lhe falta é educação. Maestro Aurélio Melo, da Orquestra Sinfônica de Teresina, estudou música em nosso Centro Social” – orgulha-se o jesuíta.

         Com ajuda financeira e técnica do irmão e engenheiro, Padre Pedro construiu prédio do museu de dois pavimentos, moderno e bonito. Encantei-me com preciosidades do império romano... Bem, não revelo o que mais vi, a pedido do sacerdote, “questão de segurança, que falta o prefeito Firmino me garantir.”

         Padre Pedro Maione, rocha de fé como cálculos vulcânicos conservados no museu: “Para que visitar a terra de Jesus, se eu O encontro na eucaristia? Lamento sacerdotes com falta de entusiasmo pela missão que lhes foi confiada pelo Senhor. É falta de fé.” Explica-se honrosa homenagem a Cristo Rei ao bairro que, nestes dias, dedica-lhe festivo novenário.            

domingo, 23 de novembro de 2014

Lançamento de “Um Brinde à Vida”


A professora, escritora e acadêmica Lisete Napoleão nos presenteia com uma quinta produção literária. No dia 25 de novembro, a escritora piauiense lança o livro “Um Brinde à Vida”.  A noite de autógrafos acontecerá na Academia Piauiense de Letras (APL), às 19 horas. 

Lisete que sempre nos revelou contos e resgates folclóricos piauienses, agora nos apresenta uma nova página da sua literatura, textos em prosa e poesia.

 O prefácio é do escritor e acadêmico Homero Castelo Branco, e a introdução é do também acadêmico e escritor Herculano Morais. O lançamento de Um Brinde à Vida” terá a apresentação da Professora e Pós- Doutora Iveuta Abreu Lima.


Você é um convidado mais que especial para este evento. Contamos com sua presença.

GRAN FINALE


GRAN FINALE

Elmar Carvalho

Desmanchei
com minhas mãos
que os criara
os deuses em que cria.
Desfiz
a imagem que fizera
da mulher amada.
Perdi a fé em tudo
como quem nada perde.
Depois
gritei, berrei,
chorei gargalhando
e resolvi ficar louco.
Depois de doido,
resolvi tentar a sorte
            sal –
                        tan-
                                   do de cabeça
do alto do arranha-céu. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O ovo


O OVO

Elmar Carvalho

Encontrei um ovo, em terreno limpo, plano e desértico, sem nada perto que se assemelhasse a um ninho. Notei que a casca apresentava fissuras. Logo percebi que a clara, que se mostrava um tanto pastosa, quase gelatinosa, pulsava, como se algo dentro do ovo se mexesse. Imaginei fosse um filhote de pássaro, forcejando para vir à tona. Passados alguns minutos ou apenas segundos, algo semelhante a uma ave veio à luz.

Quando olhei atentamente, percebi que sua cabeça parecia a face de um minúsculo homem, contudo circunspecta e já envelhecida. Entretanto, não lhe vislumbrei sinais de terror ou desespero. Antes, lhe notei uma calma resignada diante do inelutável.


Um manto de desolação, velhice e decadência parecia tudo envolver. Acaso aquele ovo seria o caos e o átomo primordial de algo que estava por vir? Quando olhei novamente, o ovo se recompusera e dele explodiu um lindo e imenso e incandescente cogumelo apocalíptico. Um rugido de dor e lamentação estilhaçou o silêncio.

(Extraído do livro inédito Arte-fatos oníricos e outros)     

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cunha Filho conclui pós-doutorado



O escritor e crítico literário Cunha e Silva Filho, que assina Letra Viva em Entretextos, galgou mais um passo em sua carreira acadêmica. O professor, autor de obra única sobre a poesia de Da Costa e Silva (Da Costa e Silva: uma leitura da saudade, EDUFPI) , concluiu Pós-doutorado em Literatura Comparada, por meio do estudo intitulado Álvaro Lins e Afrânio Coutinho: dois críticos e uma polêmica. O Certificado de Pós-Doutor foi obtido junto ao   Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura  e o relatório "foi devidamente  aprovado" pela  Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa"  da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 13/10/2014. Cunha teve como Supervisor   Eduardo  F. Coutinho,  Professor Titular PhD de Literatura Comparada da  Faculdade de Letras da UFRJ, Departamento de Ciência da Literatura.

Fonte: Portal Entretextos

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

APL faz homenagem póstuma ao desembargador Tomaz Campelo


APL faz homenagem póstuma ao desembargador Tomaz Campelo

Fernando Castelo Branco

A Academia Piauense de Letras realiza no próximo sábado, 22.11, em sua sede à avenida Miguel Rosa, 3300; às 10 da manhã, sessão solene em homenagem ao desembargador Tomaz Gomes Campelo, membro da Casa Lucídio Freitas, falecido em abril último. Na oportunidade será realizado um panegírico em homenagem ao imortal, com o lançamento póstumo de seu livro “A Pedra Serviçal”.

Uma reunião de crônicas, “A Pedra Serviçal” tem compilação a seis mãos de Viriato Campelo, Aci Gomes Campelo e Joaquim Campelo, é prefaciada pelo presidente da Casa, Nelson Nery Costa e tem texto de apresentação do desembargador Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, decano do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí.

Fonte: portal do TJ-PI   

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

UM ANO SEM O AMIGO RUBEM FREITAS


Em pé: B. Silva, Zé Luís de Carvalho e Cícero Evandro. Sentados: Rubem Freitas e Renato Bacellar
Rubem Freitas, Elmar Carvalho e B. Silva

UM ANO SEM O AMIGO RUBEM FREITAS

B. Silva

Foi numa tarde de quinta feira, 14 de novembro, que ele se foi. Deixou-nos para ir viver em outro plano, onde nosso olhar não pode vê-lo, porém, temos a certeza que ele vive, no plano onde vivem os espíritos eternos.


Falo do jornalista Rubem da Páscoa Freitas. Muito mais que um colega de profissão ou um simples amigo. Muito além disso. Ninguém nunca sabe mensurar o tamanho das nossas amizades, quando verdadeiras. Mas sabemos quão doída é saudade daqueles com quem convivemos muito de perto e que de certa forma nos ajudaram a viver.
Maranhense, como nós. Torcia por nós. Ajudou-nos a conhecer gente, entender Parnaíba, assimilar um pouco de sua história.

E tivemos muitos amigos em comum, rememorados agora em nossos acervos aos  quais sempre recorremos nas horas de tristeza e de muita saudade. Que Deus esteja sempre contigo, meu caro TIBÚ!

Fonte: Blog do B. Silva

domingo, 16 de novembro de 2014

Os rios de minha infância: Tucuns e Gameleira

Foto meramente ilustrativa

Os rios de minha infância: Tucuns e Gameleira

Itamar Abreu Costa

I

"Residia na bucólica fazenda Bonsucesso,
Um paraíso, muita riqueza, água em excesso
Na invernada,todas as grotas, regatos cheio
As lagoas, quedas d'águas e rios transbordando.

II

"Os rios tucuns e gameleiras juntam-se em ângulo reto
Tucuns, penetra no Gameleira no canto do macaco,
Um momento de rara beleza natural, um espetáculo,
Quando criança assistíamos este  belo e raro momento.

III

E agora o que resta deste santuário aquático
Quase nada, só os rios doentes, moribundos!
O gameleira no trajeto no ALLEGRE é preservado.

IV

"O homem foi o grande predador do planeta
Resta a ele preservar, defender o que ainda resta
Se isto acontecer, estaremos recuperando a  natureza"    

sábado, 15 de novembro de 2014

Hostilizado no passado, homenageado no Salipa

O livreiro e editor Leonardo Dias, o escritor Assis Brasil e a professora Francigelda Ribeiro

Hostilizado no passado, homenageado no Salipa

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

              12 a 15 de novembro, Salão do Livro de Parnaíba (Salipa), quinta edição. Assis Brasil, 82 anos, ensaísta, contista, jornalista e romancista, celebridade nacional, dezenas de livros publicados, membro da Academia Piauiense de Letras, homenageado da festa. Pouca gente sabe os embargos sentimentais que ilustres parnaibanos, durante décadas, alimentaram contra o notável escritor. Veremos, já.

       No início do magistério, eu lia, avidamente, os romances de Assis Brasil, especialmente os que compõem a Tetralogia Piauiense: Beira Rio, Beira Vida; Pacamão; A Filha do Meio Quilo; Salto do Cavalo Cobridor. Quatro romances com paisagens, dramas e personagens nitidamente parnaibanos. Nomes, sobrenomes e endereços da bela e vaidosa Parnaíba das décadas de 1930 a 50. Do porto do Rio Parnaíba, zarpavam embarcações para São Luís e restante do país, cheinhas de cera de carnaúba, óleo vegetal e especiarias, que seguiam para a Europa. De volta, traziam produtos de luxo, mármore de Carrara, tecidos e móveis. Parnaíba da elite endinheirada e vaidosa orgulhava-se dos filhos estudando na França, a pujança comercial e cultural do mundo. A modesta Teresina dependia das empresas do litoral.
Charge de Gervásio Castro, extraída do livro Poemitos da Parnaíba, de Elmar Carvalho


         Na periferia da próspera cidade, multiplicavam-se cabarés e miséria à beira do cais. Menino pobre, Francisco de Assis Almeida Brasil, residia na Rua Francisco Correia, 481, próxima à Praça Santo Antônio e da residência dos Mavinier, família abastada na época. Miséria e prostituição à beira do rio contrastavam exuberantes palacetes que se armazenavam na memória do futuro romancista.

         Aos 14 anos, foi morar em Fortaleza, onde se formou em Direito; depois, no Rio, onde exerceu atividade literária. Logo, os romances que compunham a Tetralogia despertaram a fúria de parnaibanos ilustres, ofendidos com o uso dos nomes, sobrenomes, mazelas, endereços.

         Eu já conhecia Parnaíba, onde vivera dois anos, no seminário capuchinho do Convento São Sebastião. Lendo a Tetralogia, lembrava-me de personagens e endereços.  Pus-me a juntar elementos da ficção do romancista associados a cidadãos, ruas, logradores e vida social da sua infância e adolescência, e publicá-los em livro, ASSIS BRASIL E SUA OBRA.
Charge de Gervásio Castro, extraída do livro Poemitos da Parnaíba, de Elmar Carvalho

         No início de 1978, dirigi-me a Parnaíba. Entrevistei o engenheiro Darcy Mavinier, que residia na Rua Marquês de Herval, ao lado da antiga Rádio Educadora. Darcy guardava profundo ressentimento por servir de inspiração a personagem rico, rabugento e fanfarrão. Na sala de sua residência, mostrou-me fotos da esposa, Ester, e irmãs, como Inhah, envolvidas em tramas repugnantes do romance. O engenheiro me levou a endereços retratados na ficção. Fotografei os cabarés Sonho Azul e QG, bem como a zona miserável e pantanosa da Quarenta, além do Cine Éden, Praça da Graça, Bar do Mílton (pertencia ao pai de Assis Brasil, depois a Drogajafre), Pensão D. Isabel (ao lado direito da Droga Jovem, na mesma praça) e cidadãos vivos, como Tomás (Casa Tomás), Pacamão, Professor Rodrigues (famoso em Parnaíba), Meio Quilo (baixinho e magro, vendedor no Mercado Central), Darcy, Cota, Ester e Bento. Explicava-se a indiferença parnaibana ao escritor.

      Assis Brasil, duas vezes laureado com Prêmio Nacional Walmap, fundiu o contraste regional ao universal, usando técnicas novas de narrativa. Merecida homenagem, portanto, ao renomado escritor brasileiro, neste quinto Salipa. Quanto ao livro ASSIS BRASIL E SUA OBRA, logo esgotou a primeira edição, aguarda uma segunda. Quem se arrisca a negociá-la?             

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CAFÉ LITERÁRIO

Fotos extraídas do facebook de Wellington Soares


13 de novembro  Diário Incontínuo

CAFÉ LITERÁRIO

Elmar Carvalho

Fui convidado pelo professor e escritor Wellington Soares para participar do Café Literário, que seria apresentado na livraria Anchieta, na quarta-feira, dia cinco de novembro, na condição de homenageado, ao lado do grande romancista e memorialista Graciliano Ramos. Não preciso dizer que me senti honrado e lisonjeado com esse convite, que para mim tem muito mais valor que certas medalhas e diplomas.

Pediu-me o organizador do espetáculo artístico que lhe enviasse quinze poemas, o que fiz, mediante e-mail. Esses textos, juntamente com alguns pequenos enxertos de Graciliano Ramos, foram enfeixados em folhetos, que foram cuidadosamente dispostos sobre todas as mesas.

Com persistência invejável, o Wellington Soares vem apresentando esse importante sarau lítero-musical há três anos, mês após mês, o que não é uma tarefa fácil. Esse tipo de evento já existiu em Teresina, sobretudo na primeira metade do século passado, quando as famílias mais proeminentes se reuniam, com os seus convidados e amigos, com o objetivo de declamarem poemas, e executarem e cantarem músicas.

Também, outrora, havia o romântico costume das serenatas, em que rapazes entoavam belas melodias, com letras que eram na verdade bonitos poemas, ao pé da janela da amada, mormente nas noites de plenilúnio. Depois, as serenatas se mecanizaram, com o advento das radiolas portáteis e gravadores, até a sua extinção total, com os tempos apressados e perigosos de hoje, e com o surgimento de certas músicas deploráveis, que jamais poderiam integrar uma seresta. Muitas letras são toscas, com palavras de baixo calão, e frases de duplo sentido (ou mesmo sem sentido), que nos embotam o sentido.

Como sei que o público que comparece a eventos literários é sempre pequeno, e José Saramago reconhece isso em seus registros nos Cadernos de Lanzarote, mesmo na civilizada Europa, anotei a estrofe inicial do poema Recital da Autora, da polonesa Wislawa Szymborska, para quando eu fizesse minha saudação preambular. Os versos da poetisa dizem: “Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir. / Nos recusaste a multidão ululante. / Uma dúzia de pessoas na sala, / já é hora de começar a fala. / Metade veio porque está chovendo. / O resto é parente. Ó Musa.”

Contudo, a estrofe perdeu o seu desiderato de me servir de mote, uma vez que havia no aconchegante espaço destinado ao Café Literário um público quantitativamente razoável e qualitativamente seleto, com pessoas interessadas e atentas. Era, efetivamente, um respeitável público, como dizia o refrão circense de antigamente. O professor Wellington fez as suas considerações iniciais, e me chamou ao microfone. Após minha breve saudação, falei que passaria a “bola” ao ator Bonifácio Lima, para que ele marcasse um golaço.

O Bonifácio entoou, então, o meu Noturno de Oeiras. Com sua voz marcante, de boa dicção, interpretou o poema, com a modulação perfeita da voz, que se harmonizava com os diferentes “climas” sentimentais e psicológicos do texto, sem descurar da caracterização gestual e corporal, com que parecia dar vida aos versos. Além do Noturno, o Bonifácio recitou, com a mesma maestria e magia, outros poemas de minha lavra.

No final do evento, quando voltei a falar, relembrei que quando presidi a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, consegui, com o apoio de minha Diretoria, inclusive com a utilização de abaixo-assinado, e sobretudo com o inestimável interesse do deputado Humberto Reis da Silveira, relator-geral da Constituição Estadual de 1989, que o estudo de Literatura Piauiense fosse inscrito no artigo 226 de nossa Carta Magna, como disciplina obrigatória.

E protestei contra o fato de que, passados mais de 25 anos, esse dispositivo constitucional ainda não tenha sido executado e cumprido pelo governo estadual, restando como verdadeira letra morta, e prova do descaso que os governantes têm pela arte e pela cultura.

Além de meu pai, de minha mulher, de minha filha e de outros parentes, inclusive meu irmão César Carvalho, compareçam alguns amigos, entre os quais ressalto os juízes aposentados Raimundo Lima e João Batista Rios, e o Valdenor, amante da arte, da música e do esporte.

O poeta João Carvalho Fontes, médico humanitário, que vem se destacando em fustigar, através da ciência, o abominável alemão Alzheimer, também se fez presente e disse um poema de minha autoria, que calou fundo em meu peito. João, com muito esforço e com dinheiro de seu próprio bolso, com uma ou outra eventual ajuda, mantém o sarau bimestral Ágora e o jornal cultural de mesmo nome, os quais divulgam os poetas piauienses e oeirenses, até mesmo os mais jovens.

Outros escritores e poetas divulgaram seus livros e seus textos. Tive a satisfação de ter alguns de meus textos recitados ou entoados por alguns desses artistas. Os textos literários eram intercalados por belíssimas músicas, cujas letras eram notáveis poemas, sob a responsabilidade de Dimas Bezerra e Alfredo Werney. Dimas pertence a uma família de artistas e intelectuais, de longa cabotagem e alta voltagem cultural. Com o seu carisma e simpatia, interagiu com o público, que lhe aplaudiu com muita ênfase e alegria.

Enfim, foi uma agradável noite de arte e sortilégio, a que não faltou sequer uma esplêndida lua cheia – lua de poetas, de loucos e de lobos – que nos iluminou a todos com os seus raios prateados.      

terça-feira, 11 de novembro de 2014

“DUAS METADES IGUAIS”


“DUAS METADES IGUAIS”

Jacob Fortes

Intencionalmente invoquei esse pleonasmo para dar mais robustez ao meu pensamento: “duas metades iguais” só têm a mesma exatidão, a mesma equivalência, perante os rigores incontestáveis da matemática. Salvante isso, “duas metades iguais” podem perfeitamente apresentar desigualdade: no formato, na consistência, no plano tintorial, na palatabilidade, no odor, etc.

No sufrágio de 26 de outubro de 2014 a Presidente Dilma sagrou-se reeleita, 51,59%, enquanto o seu concorrente, Aécio Neves, obteve 48,41% dos votos válidos. Esse escore exprime legitimidade; brilho, não. Obviamente, sob a rigidez da aritmética, esses percentuais não retratam “duas metades iguais”, mas, se tomado por empréstimo a terminologia das pesquisas, “empate técnico”, esse placar abona dizer que o resultado da eleição traduz, sim, “duas metades iguais”. Apenas uma delas discorda quanto ao eleito, mas discordar não quer dizer detratar. Afinal, é no embate, sem esgrima, entre o consenso e o dissenso que se asila a liberdade de regime.

Não faz muito tempo, junho de 2013, sucessivas turbas de brasileiros — poucas em serenidade, muitas sob o furor de ação turbulenta, outras à gandaia, outras ainda sem se dar a conhecer — se aventuraram pelas ruas das metrópoles pleiteando mudanças, melhores serviços públicos e o fim da corrupção.  O pleito requerido em via pública foi ratificado nas urnas, 48,41%, desta feita de modo ordeiro, por um civismo sem-par.

Ainda que impossível obter-se a unanimidade do conjunto das opiniões, pô-las inteiramente em concórdia, de bom alvitre seria que a reeleita, em prol da boa ordem nacional, adotasse medidas que visem amortecer os ânimos, desfazer a dicotomia e, principalmente, atender aos reclamos brasileiros, nomeadamente os que foram realçados de modo sequioso durante as exigências tumultuárias das ruas.

Em vez de contrariar-se com a banda votiva adversa à que ainda se enleva com a vitória, salutar seria que a reeleita pudesse (sofreando as diferenças e em jejum de vaidade) sair de si e, com moderação sacerdotal, aprestar-se ao congraçamento do País, agremiar o todo demográfico. Todavia, não parece crível que tal desiderato possa ser alcançado apenas por meio de homilias, que vão ao vento, acerca de promissões governamentais, mas com ações concretas; pressurosas, de preferência.

Para ver-se auspicioso em seu leme o timoneiro de uma embarcação, ainda mais se titânica for, não olvida o ensinamento histórico de que antes de levantar âncora é preciso aquilatar o nível de harmonia da sua legião de passageiros.

A pátria será tanto mais mal aviada quanto mais atiçadas forem as chamas que tenham por objetivo convulsar a sua gente; contendê-la.       

domingo, 9 de novembro de 2014

Seleta Piauiense - Jorge Carvalho


Janaína

Jorge Carvalho (1951)

Por que quebramar?
Por que poesia?
Preamar fazia
Por que poemar?
Pomar... maresia
Maré... proesia
Proeza é cantar!
O canto, elegia
O ponto, magia
Conceição chamar
Ori(Xá Mar)ia
Yemanjá ouvia
Valete do mar
Valente pedia
Domar hidrovia
Janaínavegar!   

sábado, 8 de novembro de 2014

APL CONVIDA PARA PALESTRA


  
A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar  V. Exa., e distinta família para a palestra: Alguns Aspectos da Poesia em Goiania, a ser proferida pelo poeta Getúlio Targiono Lima, Presidente da Academia Goiana de Letras.

                                                                         

                                                                        

Nelson Nery Costa

Presidente da APL


       Data: 8 de novembro de 2014 (sábado)
Horário: 10hsh 30                                                                                                              
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
      Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86)  3221 1566–   CEP.: 64001-490  –  Teresina-PI  

Redação, 25 escorregadas no ENEM


Redação, 25 escorregadas no ENEM

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Nos últimos dias, atendi a vários convites para ministrar revisão de português e redação à galera do ENEM. Dois verbetes se ouvem em momentos assim de tensão emocional e insegurança: dicas, bizus. Infelizmente, estudantes, em geral, só levam a sério exames classificatórios, inclusive as provas de final de ano letivo, nos últimos dias ou horas que antecedem os testes. Em se tratando da redação, um martírio.

Redação enxuta, rica em conteúdo e gramaticalmente correta exige longo treinamento. Em vésperas de concurso, estudante habituado a leiturinhas de insossas revistas, tipo Capricho e similares, ou a devaneios esportivos, novelas e programas de auditório abastecerão o repertório de conhecimentos. É preciso habituar-se a leituras de consagrados autores, colunistas e formadores de opinião. Estes provocam imitação de estilo e ideias, que enriquecem o repertório vocabular, a construção da frase. Milagre ocorre, quando se imitam redatores de talento.

         Também leva tempo o aprendizado da frase bem construída, obedecendo à sintaxe e normas padronizadas do idioma. Refiro-me a unidades importantes da gramática, a começar pela análise sintática, sem a qual dificilmente se exercita regência verbo-nominal, concordância verbo-nominal ou de tratamento, colocação pronominal (próclise, ênclise, mesóclise), pontuação, uso correto da conjugação verbal, especialmente, dos irregulares. A alma do texto resplandece pela criatividade. Criar não é fazer, mas ser diferente, artístico. Uma frase popular pode carregar dotes artísticos.

         Numa sala de revisão para o ENEM, distribuí cópias de uma redação cobrada em vestibular de São Paulo. Exigia-se que o vestibulando corrigisse o texto de uma carta eivada de erros gramaticais. Ultrapassa 25 escorregadas, em que aparecem palavras até com duas incorreções. O texto incorpora falhas de concordância, acentuação, regência, conjugação verbal, virgulação, ortografia, colocação pronominal, tratamento. Coloco o texto da carta à disposição dos estudantes e interessados num debate sadio:

         “Presado Juca

     Aqui vai um bilhete afim de pô-lo a par dos problemas que me referi em nossa conversa telefônica. De início, quero lembrar-lhe de que assistí todas as discursões e cheguei a seguinte conclusão: por hora é preciso prudência. Mas vê se você dá um jeito de escrever logo, para mim poder dar-lhes uma resposta definitiva. É preferível decidirmos-nos logo do que aguardarmos para outra ocasião. Há um elemento do grupo que simpatizei desde o primeiro momento que lhe vi e parece que nos ajudará. Custo a acreditar que ajam dificuldades. De qualquer modo, observo de que convém considerarmos todas as questões que temos dúvidas antes de chegarmos à uma conclusão final. Pensa bem e não demores em me responder.

       Abraça-o o amigo que muito lhe quer,

       Pedro.”     

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A vida literária no Brasil atual: o papel da crítica


A vida literária no Brasil atual: o papel da crítica

Cunha e Silva Filho

           Não julgue precipitadamente, amável leitor,  que  eu  tenha a pretensão de radiografar  o  “vasto mundo” do que   se produz hodiernamente no país. O esforço é sobejamente  impossível e o  trabalho  nessa direção, se  realizado  individualmente,  tende  ao insucesso. A paisagem nacional  literária,  segundo  acentuei,  é muito ampla, muito  tortuosa e, se tentasse  mapear  autores e obras editados  na contemporaneidade,   já poderia antecipar  que  o papel da crítica literária   se defrontaria  com um monumental  embaraço.  Mesmo se  quiséssemos   inventariar, diga-se – uma “síntese” – estaríamos  fadados  a um  estrondoso  insucesso, sendo o pior deles  a injustiça  que cometeríamos   não  incluindo  alguns nomes  de qualidade  nos vários gêneros  literários.
       O grande desafio da crítica  é que ela  já perdeu  a dimensão  de poder de militância que  tinha  no século  passado através  dos jornais  que  mantinham  a crítica de rodapé nos áureos tempos de um Agripino  Grieco,  Tristão de Athayde,  Álvaro Lins,  Sérgio  Buarque de Holanda,  Antonio Candido,  Olívio Montenegro, só para  fazer essa breve   citação  nominal  de autores.
       Com o surgimento  incalculável de novos autores de que  tomo  conhecimento  toda vez quase que abro a folha de um  caderno cultural,  me espanta  qualquer  veleidade  de  se falar  em militância  crítica, inclusive  porque  ela  praticamente sumiu  dos jornais, só restando  uns poucos   críticos  que ainda  dispõem de um  cantinho  do jornal  para  discutir  livros  recém-saídos.
Ao falar  com justiça das mazelas e das  imposturas  da vida literária brasileira, sobretudo no grande centro representado  pela vida  literária  carioca,  lembro-me  do historiador e crítico  Afrânio Coutinho (1911-2000), na pequena obra,  No hospital das letras(1963)  que traça, com veia crítica,  numa reunião de artigos antes publicados em jornais  das décadas de 1940 e 1950, a situação  interna, os bastidores,   o compadrio, as “igrejinhas,” o que chamara “a comédia da vida literária,” enfim, as deturpações  que  presenciara no meio  literário   do Rio de Janeiro.
Fico a imaginar  que,   mutadis mutandi,   o universo  em que  transita   o escritor  brasileiro  hoje não é tão  diferente  de antigamente.  As igrejinhas  ainda persistem, os apadrinhados  idem,  as dificuldades  que arrostam os escritores para penetrar  nos meios editoriais, verdadeiro   cipoal  de grupos fechados,  que  deitam normas  de avaliação  para um  escritor, novo ou velho e desconhecido,    adentrar   essa floresta  de desencanto  e  de   insulamento  em que  vive  o autor   nacional, desprestigiado e desiludido da vida literária por se sentirem   injustiçados. Muitos deles desistem por lhes faltarem estímulos.
O escritor  de nosso país é um  isolado, como disse,   alguém ilhado  nos seus próprios   espaços  de  “emparedado,”seja para  poder  lançar   um livro, seja para   ter  um   lugar  em que   possa  demonstrar  sua capacidade  no exercício da palavra escrita. Não  empreendi nenhum  estudo  ou pesquisa  para  ir a fundo nessas questões afetas à vida  editorial  brasileira, contudo  suspeito  que  semelhante  situação  ocorra em outros estados  brasileiros.
Na questão da crítica literária,  tanto   na sua produção quanto  na sua   procura de espaço  disponível  a  algum pretendente, o fato é  que a sua atuação   ficou  mesmo   relegada  aos  limites do que   se costuma chamar  crítica  universitária, exercida, a meu ver,  na sala de aula,  nas revistas  especializadas  das universidades e eventualmente nos livros  editados, sobretudo por algumas universidades.
A multiplicidade de autores que editam  suas obras  não  pode ser  atendida  pelo  trabalho da crítica, mesmo  da crítica universitária, por lhe faltar tempo e  fôlego. Desta forma, cria-se uma outra realidade no  universo da cultura literária, ou seja,  a crítica literária,  não deixando de ser uma atividade   de alta relevância  ao aprimoramento   da  literatura   e dos leitores,  se apequena   pela impossibilidade de  dar conta   da mencionada    multiplicidade  de autores. O papel  do crítico  fica, pois, agora,    numa quase  absoluta  desproporção de  julgar  obras  de novos autores, com a agravante de que  ainda há  a circunstância   de que  o crítico  não poderá  deixar de  estar ao corrente dos autores  estrangeiros,  também  revelando  um  número gigantesco.
O que tenho  observado, no entanto, vale como  uma   saída  à solução  do problema: a busca da especialização,  seja de autores,  seja  de gêneros,  seja  da “periodologia   estética” nos moldes  concebidos   por Afrânio Coutinho. Ora, o abarcar-se de forma  pessoal  um conjunto gigantesco  de  autores que continuam  a surgir no panorama da literatura brasileira   forçou   uma seleção  limitadora do   trabalho   do crítico. O crítico  passou  a estudar,  por exemplo, certos temas, e obras, aprofundando o conhecimento de sua área de atuação.A crítica é uma atividade  com tempo datado para seus cultores justamente  por  exigir muita  leitura,  muita pesquisa,  muito suor e paciência.

Enfim,  queremos  significar  que o  papel  atual do crítico  torna-se cada vez mais  restrito e lacunoso e, de certa forma,  nisso   ele perde  a noção  geral  do conjunto   do sistema literário. Essa é a condição  do ônus que tem  a pagar  a crítica literária   contemporânea. Seu raio de ação  tornou-se, na pós-modernidade, de curto alcance,  fragmentário, espaçado, fortuito. O individualismo  crítico é, agora,  um  dado do passado e a sobrevivência da crítica literária, para não perder  seu  campo  de  ação, deve, como já tem sido  feito,  sempre constituir  um   trabalho coletivo,  de  conjunto, i.e.,  quando  seu  objetivo for  mapear,  historiar, discutir e analisar  as obras literárias de um  povo.