domingo, 13 de agosto de 2017

Seleta Piauiense - Licurgo José Henrique de Paiva


Meu coração

Licurgo José Henrique de Paiva (1842 – 1887)

Choram as fontes, o bezerro muge,
o sabiá suspira.
A natureza infunde amor nos seios
e faz vibrar a lira.

Há um segredo no bulir das matas
que nos agita n’ alma.
É quando a vida no silêncio augusto
a natureza acalma.

As almas vivem de esperança infinda
a folhear os dias.
Com a crença em Deus, o respirar de um anjo
as santas melodias.

Fonte: Antologia dos Poetas Piauienses, de Wilson Carvalho Gonçalves

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Apresentação do livro "palavra SERtão"

Leandro, entre Josué Costa e Luíza Miranda, demonstrando que é um homem de sete instrumentos: além da medicina, desenha, pinta (até o sete), canta, e escreve ensaios históricos e poemas

 
Gilson Caland, Carvalho Neto, Graça Vilhena, Leandro Fernandes, Hermano Nino, Aurea Santos e Lucili

Wilson Seraine, Marleide Lins, Douglas Machado e Leandro Fernandes

APRESENTAÇÃO do livro "palavra SERtão"

Elmar Carvalho

Leandro Cardoso Fernandes é piauiense de Teresina. Médico pela Universidade de Pernambuco (UPE), cardiologista e ecocardiografista pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).
Poeta, cordelista e pesquisador de cultura popular, com foco na temática “Cangaço”. Tem participação em documentários, capítulos de livro e artigos sobre este tema.
É coautor (em parceria com Antônio Amaury Correa de Araújo) do livro “Lampião: A Medicina e o Cangaço”.
É membro titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC); ocupa a cadeira nº 5 da Academia de Medicina do Piauí, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), da Sociedade Piauiense de História da Medicina e Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES-PI), dentre outras. (Orelha do livro “palavra SERtão”)
Cineas Santos fez a apresentação da obra na solenidade de lançamento, ocorrida na noite do dia 10, no Auditório Prof. Paulo Nunes, na Oficina da Palavra.
   
Leandro Cardoso, que além do mais é um dos maiores e melhores escritores e pesquisadores do tema cangaço, não apenas do Piauí, mas do Brasil, com importantes trabalhos publicados, inclusive em livro, é um poeta de muitos e variados recursos na arte de versejar, pois é versátil e versado.

            Transita do poema de cordel ao poema moderno e erudito com singular facilidade, pelo menos facilidade aparente, pois certa fluidez e espontaneidade que quase sempre lhe percebemos pode ser fruto de estressante luta com as palavras, como no dizer drummondiano.

            Os temas que aborda são os mais diferentes possíveis, e vão das agruras sertanejas, com toda o seu cortejo de misérias e percalços, a temas líricos, amenos e, em alguns momentos, do cotidiano e circunstanciais. E nisto não vai nenhum reparo ou senão, uma vez que sou conhecedor de que o menestrel Manuel Bandeira foi um mestre de belos poemas ditos de circunstância, como muito bem pode ser aferido em Mafuá do Malungo. Nesses versos, Leandro louva o sorriso de uma filha, a saudade da mulher amada e o afeto paterno por toda a prole.

            O nosso bardo não cai nas armadilhas das aparentes facilidades da poesia contemporânea, e por isso, talvez para demonstrar que tem talento e técnica, comete primorosos poemas metrificados e rimados. Para isso, decerto, hauriu as lições dos grandes mestres da poesia, digamos erudita, e dos célebres cordelistas brasileiros, sem preconceitos e sem pruridos elitistas.

            Em alguns de seus poemas, se revela como um consumado artífice de descrições paisagísticas. Torna-se, então, um hábil pintor, e nos seus versos perpassam belas paisagens, mas também asperezas da paisagem nordestina. Por vezes podemos nos deparar com um belo pôr de sol, mas também sermos surpreendidos com uma esquálida e espinhenta caatinga nordestina. Também canta os rios, os mares, as serras e os belos carnaubais verdejantes, como se a natureza estivesse entranhada em sua alma.
            Nem só de cenários trata o seu versejar, mas ainda de cenas, que, se não são épicas nem homéricas, são também relevantes, mesmo quando falam do cotidiano nordestino, porque mostram as mazelas e tragicidade do nosso caboclo, que enfrenta a seca, a miséria e a fome, até culminar na epopeia cinzenta dos retirantes.

Portanto, é um poeta solidário com o sofrimento do bravo sertanejo, que nas palavras de Euclides da Cunha é antes de tudo um forte, a que acrescentarei o adjetivo espartano. Assim, não vive encastelado em etéreas torres ebúrneas, enevoadas, e distanciadas da realidade da terra e do homem que nela vive, sofre e moureja.

            Leandro Cardoso tem um verdadeiro arsenal poético, e, por conseguinte, utiliza os mais variados recursos estilísticos, e figuras e tropos. Não segue o modismo dos poeminhas pequenininhos, geralmente contendo apenas pretensos trocadilhos engraçadinhos. Seus poemas têm “sustância”, com conteúdo vertido em bela forma.

            Contudo, quando os perpetra, nota-se que eles contêm denso conteúdo, senso de humor, e não mero malabarismo rímico, como pode servir de exemplo o sintético poema Namoro, de sabor epigramático:

 – Com licença?
Posso entrar na sua vida?
                        – Desculpe...
Mas detesto despedida!


            É um poeta que veio para ficar e ficou... Ficou e ficará como um de nossos bons poetas.   

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Corujas, tetéus, casacas e outros bichos

Imagens caçadas no Google


Corujas, tetéus, casacas e outros bichos

Elmar Carvalho

No local onde nos últimos meses me hospedo em Parnaíba, tenho ainda uma bela visão, de paisagens próximas e de outras que vejo ao longe. Assim, vejo os grandes cata-ventos das usinas eólicas, que me fazem recordar os belos e quase bucólicos cata-ventos de minha meninice, e as dunas que outrora ornaram a Lagoa do Portinho... Disse “outrora ornaram” porque a lagoa já não existe, ou pelo menos já não existe em todo seu esplendor e glória.

Bem distante, como um debrum do céu, vejo uma nesga azulada do que deve ser uma serra. Pensei fosse a Serra Grande, a Serra da Ibiapaba, o que me faz lembrar os romances indígenas de Alencar, a viçosa e antiga Viçosa imperial, e as graciosas Tianguá e Ubajara, que conheci em minha adolescência, quando desejei morar nelas, para melhor lhes sentir as névoas e o frio, e dessa forma escrever friorentos e nevoentos poemas, cheios de distância e de brumas. Todavia, alguns dizem ser uma outra serra, menos imponente e mais perto, pertencente ao município de Luís Correia.

O local a que me refiro se presta a umas boas pedaladas. Por isso, resolvi adquirir uma bicicleta. Nesses passeios ciclísticos, vejo as ervas e as flores silvestres da terra ainda sem construções. E isso me faz recordar a minha adolescência, em que, algumas vezes, eu empreendia longos passeios pela periferia e arrabaldes de Campo Maior, tendo numa das vezes ido até a pequenina Serra Grande de Campo Maior ou Serra Azul, ou mais propriamente morros isolados de Santo Antônio do Surubim.

Fico contente de ainda saber manejar, com certo vigor e perícia, a “magrela” de várias marchas, tão diferente da minha velha e despojada Bristol ou Gulliver. A indefinição se deve ao fato de que o nome da marca já não era visto na época ou de que já se esvaiu na fragilidade da memória.



Quando estou a passear, vejo várias aves e algumas vezes desfruto do prazer de lhes ouvir o canto, quando paro de pedalar para melhor lhes apreciar o gorjeio. Vejo e ouço o bem-te-vi com a sua emblemática admoestação ou advertência: bem te vi!; os pernaltas e ariscos tetéus, que logo se afastam ou alçam voo, enquanto alardeiam o suposto perigo com as suas metálicas trombetas de alarme.

Os casacas também marcam sua presença, como aladas notas musicais vivas, pousadas sobre as paralelas da partitura dos fios elétricos, para retomar uma metáfora de um meu antigo poema. Há os casacas-de-couro, de sóbria plumagem amarronzada e uniforme, como se vestissem um gibão de couro dos nossos indômitos vaqueiros, de que, creio, lhes adveio o nome. E há os casacas-de-peito-vermelho, elegantes e belos, como se trajassem um colete vermelho por baixo do paletó negro das asas. Não há negar, são flamenguistas ostensivos e aguerridos.

Nessas andanças vejo ao longe, em revoada, a magnífica coreografia dos urubus, que circulando se vão afastando, em sincronizado movimento de rotação e translação. E numa das vezes flagrei, de maneira para mim inusitada, dois exemplares dessas aves de rapina a fazerem amor, no cocuruto do telhado de uma das casas. Disse “fazer amor” porque o casal não se bicava e nem se espezinhava, antes se cheiravam e se acolhiam e se agasalhavam. Pensei que os urubus faziam isso entre as gazas das nuvens do poeta, em verdadeiras pulutricas e acrobacias aéreas, como autênticos e literais nefelibatas. 

Mas principalmente encontro, nesses périplos de boas pedaladas, as circunspectas corujas, encarapitadas em postes ou em montes de pedras, ou simplesmente postadas no descampado. Olham-me com desconfiança, com seus olhos argutos, de pupilas arregaladas. Às vezes fogem. Outras vezes permanecem no mesmo lugar, mas ariscas, em estado de vigília e defesa.

Elas me fazem recordar os caburés dos áridos tabuleiros de minha terra, e o caburé com frio do poema dacostiano, piando, piando, contudo sem folhas lívidas cantando... Também recordo as corujas esculpidas da coleção que aos poucos estou formando, de diferentes tamanhos e materiais. Muitos as consideram aves de mau presságio, mormente as rasga-mortalha, de dilacerante canto, que dizem antecipar acontecimentos funestos.

Em minha negra bicicleta, como um esdrúxulo centauro, tento lhes imitar o piado. Mas parece que o meu crocitar é muito canhestro, porque elas, do alto do poste em que se empoleiram, me olham com certo desdém, talvez por me acharem desafinado. Ou por entenderem que eu seja uma grande, desengonçada e feia coruja.


Porém, em certa ocasião, uma pousou tão perto de mim, que fiquei com a impressão de que ela me reconheceu ao menos como um primo pobre e distante, a quem ela não poderia dar muita confiança, a não ser em rápida e fugaz eventualidade.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Gonçalo de Barros Taveira: um familiar do Santo Ofício


Gonçalo de Barros Taveira: um familiar do Santo Ofício

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Na sociedade estratificada do Antigo Regime os privilégios assumem um peso fundamental na vida do indivíduo, separando-os em camadas sociais. Era uma sociedade excludente, com lugares bem demarcados na hierarquia social. Por isso, era muito importante submeter-se às suas instituições, passar pelo calvário das investigações, provar a pureza de sangue e a boa conduta social porque abriam-se as portas para os privilégios. Em face desse modelo é que hoje se torna importante fonte de pesquisa para a história social, o estudo das habilitações para as ordens sacras, para o Santo Ofício e para a Ordem de Cristo, cada qual com suas peculiaridades.

Uma vez admitido nos quadros dessas instituições estava o indivíduo com as portas abertas para a obtenção de privilégios, reconhecido como de boa cepa, sangue limpo, cristandade velha, boa instrução, meios abastados, gênio manso e bom proceder, tudo atestado através das provanças. E tudo isto mais se avultava no mundo colonial, onde campeava a miscigenação racial, chegavam cristãos novos, enfim, gente de origem duvidosa, de forma que o pertencimento a essas instituições criava uma casta privilegiada para a ocupação dos cargos públicos e aquisição de sesmarias.

Infelizmente, por falta de acesso às fontes, o que agora está se resolvendo, no Piauí ainda não exploramos as potencialidades dessa documentação. No entanto, para início de conversa localizamos um processo de habilitação de Gonçalo de Barros Taveira, morador na freguesia de Nossa Senhora da Vitória, como Familiar do Santo Ofício, em cujo campo estamos abrindo trincheira nova.

Nasceu Gonçalo de Barros Taveira em 1669 ou 1670, na Rua do Estaleiro, vila e concelho de Ponta da Barca, plantada à margem esquerda do rio Lima, distrito de Viana do Castelo, Arcebispado de Braga, no Minho Lima, norte de Portugal, a 72km da cidade do Porto, filho legítimo de Manoel de Barros, cirurgião naquela vila, e de sua esposa Maria Taveira, ambos naturais do mesmo lugar; neto paterno de Manoel de Barros e de sua mulher Izabel da Lomba, ambos naturais da freguesia de São João Batista, da mesma vila da Barca; neto materno de Gonçalo Rodrigues, natural da freguesia de Santa Maria da Vila Nova de Muía, do mesmo termo e de sua mulher Domingas Taveira, natural da freguesia de São João Batista da mesma vila da Barca.

Este concelho está rodeado por quatro outros, sendo dois pertencentes ao distrito de Viana do Castelo (Arcos de Valdevez a norte e Ponte de Lima a oeste) e os outros dois ao distrito de Braga (Vila Verde e Terras de Bouro a sul), fazendo ainda fronteira com a Espanha.

Na vila natal passou os despreocupados anos da infância, brincando ao lado do irmão primogênito Manoel de Barros Taveira e de outros colegas da pequena vila, de que resultavam, muitas vezes em banhos nas águas do rio Lima. À noite, nas rodadas de conversas era comum ouvir pela boca dos mais velhos, os relatos verossímeis, alguns fantasiosos, de conterrâneos saídos da pequena vila que haviam feito riqueza na Colônia de além mar. Essas histórias despertavam a imaginação daquele menino sonhador, que passou a alimentar o sonho de repetir esses feitos grandiloquentes.

Embalado por essas histórias, mal completou a maioridade rumou para Lisboa e dali para o Brasil, aportando na Bahia e logo passando ao sertão do Piauí, onde chegou em 1695 ou 1697, poucos dias depois do padre Miguel Carvalho de Almeida ter instalado a freguesia de Nossa Senhora da Vitória e ter concluído a sua importante Descrição. Tivesse chegado pouco antes teria sido relacionado pelo padre entre os moradores do Piauí, mas, certamente, está entre os primeiros que chegaram depois da passagem do padre. É significativo dizer-se que quando ele subia estrada para o sertão encontrou a comitiva do padre que descia caminho inverso para o litoral, a fim de prestar contas da missão. Ao chegar procurou o alferes, depois capitão Silvestre da Costa Gomes, natural da mesma pequena vila, proprietário da fazenda Salinas, na barra do riacho da Tranqueira, afluente do rio Canindé, que a arrendou ao menos desde 1699, em substituição a Ignácio Gomes, porque em 2 de novembro de 1705, diria aquele que o fato se dera a cerca de seis anos.

Logo mais deixou esta fazenda e passou a arrendar as do capitão Domingos Afonso Sertão, maior sesmeiro do Piauí, natural de Torres Vedras, depois juntando a estas a do conterrâneo Manoel de Araújo Costa, de forma que em pouco tempo iniciou e aumentou seu rebanho bovino, formando sólido patrimônio. Não viera para brincar, era a realização do sonho juvenil.

Enquanto isto, no Reino, seu irmão Manoel de Barros Taveira, que seguira vida eclesiástica, tornara-se Prior da igreja de São Paulo da vila de Covilhã, no Bispado da Guarda e comissário do Santo Ofício, para esta última ocupação prestando juramento em 22 de março de 1703.

Essa ascensão, certamente comunicada por carta, estimulou ao irmão que, no mesmo ano, iniciou processo pedindo habilitação para Familiar do Santo Ofício. Neste caso, já tendo um irmão confirmado, o processo seria mais fácil.

No entanto, se arrastam as investigações por quatro anos, ouvindo-se cinco testemunhas na vila natal e outras tantas para dizer sobre a vida do habilitando na Colônia. As testemunhas ouvidas em Ponta da Barca, dia 11 de janeiro de 1707, disseram de sua infância e juventude, quando era conhecido pela alcunha de “O Caco”, nascido na Rua do Estaleiro, onde ainda moravam os seus pais; uns disseram que ele se ausentou dez ou doze anos para o Estado do Brasil, outros disseram que fazia onze ou doze anos, pouco mais ou menos, o que remonta, no primeiro caso aos anos de 1695 ou 1697 e no segundo aos anos de 1696 ou 1697; sobre os pais e irmão acrescentaram que “uns e outros são de sangue limpo e geração sem raça de nação infecta”.

No entanto, o Comissário do Santo Ofício não veio ao Piauí, onde morava o habilitando, devido distar, conforme afirmou, cerca de duzentas e cinco léguas da cidade da Bahia. Porém, ouviu cinco testemunhas muito importantes, conterrâneas do habilitando que haviam desbravado e colonizado o sertão do Piauí, e naquele momento viviam na cidade da Bahia. Os depoimentos foram tomados antes dos de Ponte da Barca, em 2 de novembro de 1705, sendo ouvidas as seguintes testemunhas, assim qualificadas:

1.     O capitão Domingos Afonso Sertão, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, natural do termo de Torres Vedras e morador na cidade da Bahia, disse ser cristão velho, de 65 para 66 anos de idade;

2.     Manoel de Araújo Costa, natural da vila de Ponta da Barca, Arcebispado de Braga e morador nesta cidade da Bahia, onde vive de seu negócio, disse ser cristão velho, de idade de 40 anos;

3.     Capitão Silvestre da Costa Gomes, também natural de Ponta da Barca, morador na Bahia, disse ser cristão velho, de 48 anos de idade;

4.     Coronel José Garcia Paz, natural de Vilanova de Foz Côa, Bispado de Lamego, casado e morador na freguesia de São Bartolomeu de Pirajá, termo da cidade da Bahia, onde vive de suas fazendas, disse ser cristão velho, de 50 anos de idade;

5.     Capitão Gabriel Lopes, natural da província de Traz os Montes, Arcebispado de Braga, disse que morou no sertão do Piauí, cerca de 5 anos.



Essas testemunhas travaram conhecimento com o habilitando no sertão do Piauí, embora dois fossem naturais da mesma vila de Ponta da Barca, onde o conheceram ainda jovem: Manoel de Araújo Costa e Silvestre da Costa Gomes, talvez parentes entre si. Certamente, o habilitando deles tinha referência e os procurou ao chegar ao Novo Mundo. Disseram todos que o mesmo residia na freguesia de Nossa Senhora da Vitória, era solteiro, vivia de criar gados, tendo-os bastante, era rico e tinha curral seu e possuía cerca de 35 anos de idade; Manoel de Araújo Costa, acrescentou que o habilitando era morador no sertão do Piauí, freguesia de N S da Vitoria, nas fazendas do Cap. Domingos Afonso Sertão; que conheceu seus pais e irmãos, por ser natural da mesma vila; que assistiu com ele no sertão por uns cinco ou seis anos, sendo seu vizinho até o tempo em que ele testemunha veio para a cidade da Bahia; disse que o mesmo é solteiro, nunca foi casado nem tem filho natural; o capitão Silvestre da Costa Gomes, disse que o habilitando vive de criar gado e assistiu em uma sua fazenda, hoje assistindo nas do Cap. Domingos Afonso Sertão; que isto deu-se a cerca de seis anos; disse que o habilitando parece ser de idade de 35 anos, sabe ler e escrever  e tem capacidade para exercer a função; o coronel José Garcia Paz, disse ter sido morador no sertão do Piauí, onde conheceu o habilitando a cerca de oito anos, e ainda o encontra na cidade da Bahia, quando ele vem a seus negócios; o Cap. Gabriel Lopes, disse que morou no sertão do Piauí, cerca de 5 anos e lá o conheceu.

Em face desses depoimentos e da demais prova documental, embora não localizassem o assento de seu batizado, por negligência do abade que o batizou, concluíram que o mesmo era de sangue limpo, por si e seus ascendentes, sem condenação de feito ou de direito.

Em 2 de julho de 1706, foi o mesmo aprovado e habilitado, sendo a carta concedida em 16 de janeiro de 1707. É o primeiro Familiar do Santo Ofício no Piauí, de que temos notícia.

Todavia, agiu com prudência sem exorbitar de suas funções, até agora não se conhecendo qualquer ato de perseguição ou de severidade contra seus contemporâneos.

Já em idade madura, casou-se com uma senhora de boa cepa portuguesa, embora nascida na colônia, na freguesia de Santo Antônio e Almas de Itabaiana, Arcebispado da Bahia, dona Antônia Gomes Travassos, então viúva do capitão de ordenanças Lourenço da Costa Veloso, dos primeiros colonizadores que chegou ao Piauí; era ela filha do capitão-mor de Sergipe Del Rei, Pedro Gomes Ferreira (ou de Abreu), natural da cidade da Bahia, batizado na freguesia de Sergipe do Conde, na Bahia, e de dona Domingas Ferreira Travassos, nascida e batizada na vila de Penedo do rio São Francisco, esta filha do rico colonizador português, capitão Manuel Martins Chaves, Senhor da Capela do Buraco, posteriormente Porto da Folha, e de dona Maria da Cruz Porto Carrero. Dona Antônia Gomes Travassos, às vezes também assinava Antônia Gomes dos Santos, tinha ao menos mais cinco irmãos, a saber: 1. Benta Gomes; 2. Frei Manoel da Madre de Deus, “O Chaves”, guardião do Convento de São Francisco da vila de Penedo e visitador-geral das missões pelo sertão; 3. Capitão José Gomes Ferreira, morador na Paraíba, capitania do Ceará; 4. Capitão Francisco Gomes Ferreira, Familiar do Santo Ofício e grande latifundiário; e, 5. D. Maria da Cruz Porto Carreiro, matriarca dos sertões do São Francisco, casada com o paulista Salvador Cardoso de Oliveira, filho de Manoel Francisco de Oliveira e Catharina do Prado, ambos naturais de São Pulo; essa última irmã, morava no alto rio São Francisco, em Minas Gerais, onde liderou grande revolta contra a cobrança de imposto, em 1736, sendo avó de Antônio Gomes Ferrão Castelo Branco (cf. Botelho, Ângela Viana e Carla Anastasia. D. Maria da Cruz e a sedição de 1736. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012).  Para finalizar, por via de sua mãe era ela descendente do português Antônio Cardoso de Barros, 1º Provedor-mor do Brasil e donatário de capitania, que pereceu em 1556, ao lado de D. Pero Fernandes Sardinha, 1º Bispo do Brasil, ambos abatidos pelos índios Caetés, depois de sofrerem naufrágio nas costas do Nordeste; e por via de sua tia materna, Ana Gomes Vieira que casara com o português João Alves Feitosa vai aparentar-se com os Feitosa, dos Inhamuns, entre tantos outros ramos familiares.

Depois do casamento, Gonçalo de Barros Taveira mudou-se para a fazenda Jacaré, no sudoeste do Piauí, que recebeu em dote. Em 29 de abril de 1724, foi pelo governador do Maranhão João da Maia da Gama, nomeado para o posto de capitão-mor da freguesia de Santo Antônio do Gurgueia, em substituição a Manoel Pereira Leal, cujo tempo havia acabado. Novamente, em 28 de janeiro de 1727, solicita nova carta de confirmação no mesmo posto “por ser um homem honrado e haver servido os cargos da república, sendo um dos primeiros eleitores da capitania do Piauhy, e haver assistido nas fronteiras contra o gentio bárbaro com armas e escravos, e despesas de suas fazendas para as tropas, e dando muitas vezes armas de fogo suas a pessoas que as não tinham, no que tem servido a Sua Majestade”, argumenta ele(AHU. Cx 15. Doc. 1560).

Sobre a referida fazenda, é importante ressaltar que a mesma foi descoberta e situada no início daquele século pelo colonizador português Baltazar Carvalho da Cunha, um dos pioneiros na fundação de Parnaguá. Depois de seu óbito foi pelo testamenteiro Manoel Alves de Sousa vendida ao capitão Lourenço da Costa Veloso, primeiro marido de dona Antônia Gomes Travassos. No entanto, mais tarde, em 27 de junho de 1727, foi regularizada a sesmaria em nome do segundo consorte, que a recebeu em dote, medindo três léguas de comprido e uma de largo, no lugar chamado Jacaré, no sertão do Gurgueia, pelo governador e capitão general João da Maya da Gama, depois confirmada por El Rei. Alegou o peticionário, que a conservava com gado vacum, cavalar, casas, curras e escravo (AHU. Cx 1 – D. 46).

De seu casamento deixou descendência, não se sabendo ao certo o número de filhos. No entanto, localizamos documentos referentes a dois deles: 1. D. Perpétua Luiza de Barros Taveira, que foi casada com o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco (cf. descendência em nosso livro Memória dos ancestrais – parentes e contraparentes: uma genealogia do sertão. Teresina: APL, 2017); 2. Padre Manoel de Barros Taveira, antigo vigário de Jerumenha (cf. biografia em nosso livro Piauí em foco. 2ª Ed. Teresina: APL, 2012); também, acreditamos que D. Antônia Gomes Travassos teve ao menos um filho de seu primeiro consórcio, o capitão João da Costa Veloso, proprietário da fazenda Graciosa, na confluência do rio Canindé com o Parnaíba, sendo ele tronco da numerosa família Costa Veloso, no Piauí.


Por fim, não sabemos ao certo quando faleceu o Familiar do Santo Ofício, rico fazendeiro e capitão-mor do Gurgueia, Gonçalo de Barros Taveira. No entanto, sabemos que esse cristão velho português foi um importante colonizador de nosso sertão, desbravador do baixo Gurgueia e, assim, precursor da fundação de Jerumenha. A ele nossas homenagens.   

domingo, 6 de agosto de 2017

OS CARVALHO DE ALMEIDA E A COLONIZAÇÃO DO PIAUÍ

Esperantina
Batalha
Piracuruca

OS CARVALHO DE ALMEIDA E A COLONIZAÇÃO DO PIAUÍ

Valdemir Miranda
Historiador, genealogista e escritor

Devemos a primazia da colonização do Piauí e a criação de nossa primeira Freguesia aos padres da família Carvalho de Almeida. No final do segundo século da ocupação portuguesa no Brasil, o território piauiense pertence eclesiasticamente a Capitania de Pernambuco. Foi quando em 1694, o bispo de Pernambuco mandou o vigário da Vara dos Rodelas, padre Miguel de Carvalho e Almeida, reconhecer os mais longínquos territórios que compunham a Freguesia de Nossa Senhora do Cabrobó de Olinda. De sua primeira viagem na companhia do Pe. Felipe Bourel, da Companhia de Jesus, Pe. Miguel de Carvalho sugeriu ao bispo a criação de duas novas freguesias no território. Sugestão esta dirigida a Roque Monteiro Paim, Secretário do Conselho Ultramarino, pelo bispo Dom Francisco de Lima, para a criação da Freguesia de São Francisco da Barra do Rio Grande no sertão hoje da Bahia e a de Nossa Senhora da Vitória, no sertão do Piauí. Autorizada a criação das duas novas freguesias, o Bispo delegou poderes ao Pe. Miguel de Carvalho, para sua instalação. Quando da instalação das freguesias, nomeou o Pe. Miguel seu irmão Inocêncio Carvalho de Almeida para a Freguesia de São Francisco da Barra, e seu primo Pe. Tomé de Carvalho e Silva para a Freguesia de Nossa Senhora da Vitória no Piauí.
Destes fatos, encontramos sua fonte primaria nos documentos referentes ao Piauí, no Projeto Resgate, (PORTUGAL – AHU – Piauí, cx. 1, doc. 2, 3, 4 – AHU_CU_O16, Cx. 1 D 2; anexos 08 documentos).
As descobertas sobre o padre Miguel de Carvalho e Almeida, do processo de advertência pela mesa da Santa Inquisição [digitarq.arquivos.pt/viewer?id=2310174] já há muito tempo disponível ao domínio público foi mencionado por mim em artigo publicado neste blog.
Quanto às novas descobertas feitas sobre o Padre Tomé Carvalho e Silva, estão no processo dos autos de justificação e habilitação do dr. Manuel Carvalho da Silva e Almeida, como herdeiro do Padre Tomé juntamente com seus irmãos. Encontra-se na Torre do Tombo no endereço http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4675988. Devemos a descoberta deste documento ao engenheiro Gustavo Conde Medeiros, que como primeiro consulente, pagou para a digitalização do documento, hoje de domínio público. Graças ao longo processo com 214 páginas, com várias certidões de batismo, casamento e do próprio atestado de óbito e testamento do padre Tomé, podemos esclarecer várias dúvidas na história e genealogia das primeiras figuras que fizeram a história do Piauí.
Em seu testamento, página 24, o Pe. Tomé deixa de herança a seus sobrinhos três fazendas: Caraíbas, Tranqueira e Vitória, situadas nos Alongases de Baixo, Freguesia de Nossa Senhora do Carmo de Piracuruca. Portanto a história da colonização dos municípios de Batalha, Esperantina e Piracuruca, está intimamente ligada à figura do Padre Thomé de Carvalho e Silva.
Pertencia a ele as terras que constituíam as sesmarias: Boa Esperança, Caraíbas, Sítio Novo, Tranqueira e Vitória, fazendas legadas há seus herdeiros e requeridas e doadas em carta de sesmarias em 1749.
As sesmarias Boa Esperança e Tranqueira constituem hoje terras que compõem o município de Esperantina. A sesmaria Boa Esperança foi requerida em sesmaria a 13.07.1739, por MIGUEL DE CARVALHO E SILVA, fazenda povoada a 33 anos antes, pegando nas testadas do Sítio chamado Tranqueira em diante, na parte direita do rio Longá até inteirar com a fazenda chamada Taquari. Tranqueira foi doada em sesmaria a Antônio de Carvalho Castelo Branco, a 20.07.1739, como herança de seu tio padre Tomé de Carvalho e Silva, corria pelo Longá acima da parte direita das testadas da Fazenda Vitória.
As sesmarias Caraíbas e Vitória correspondem hoje ao município de Batalha. Caraíbas foi legada a MARIA EUGÊNIA DE MESQUITA CASTELO BRANCO, mulher do Capitão-Mor Antônio Carvalho de Almeida [primeiro do nome], a 18.07.1739, fundada em 1705, situava-se na margem esquerda do rio Longá, pegando nas testadas de Manoel da Costa Madureira, correndo pelo Longá acima. A fazenda Vitória foi doada a ANTÔNIO CARVALHO DE ALMEIDA como herança do Padre Tomé de Carvalho e Silva, principiava no estreito do Mato Grosso[rio dos Matos] aonde mete no rio Longá correndo pelo rio acima a parte direita, aonde faz extremas com a fazenda Tranqueira.

Quanto ao Sítio Novo, terras hoje do município de Piracuruca, foi esta fazenda depois vendida, pois foi doada a Miguel Rodrigues da Silva, em carta de sesmaria a 20.07.1739, situada a margem do rio Piracuruca acima, principiando nas testadas da fazenda São João.   

sábado, 5 de agosto de 2017

DEPOIMENTO SOBRE PAULO DE TARSO MENDES DE SOUSA

Paulo de Tarso ao receber o título de Cidadão Parnaibano. Fonte: Google

DEPOIMENTO SOBRE PAULO DE TARSO MENDES DE SOUSA

Alcenor Candeira Filho

     Conheço Paulo de Tarso Mendes de Sousa desde o ano de 1959, quando, contando ambos 12 anos de idade, ingressamos no curso ginasial do Ginásio Parnaibano – hoje Colégio Estadual Lima Rebelo -, concluído em 1962.
     Avesso a igrejinhas e a elogios fáceis, Paulo de Tarso é um intelectual que granjeou respeito e notoriedade como administrador, jurista, professor, escritor e jornalista.
     De sua produção no campo jurídico destaca-se o livro APONTAMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL, obra desenvolvida sob as óticas jurídica, social e política e que, segundo o jurista e presidente da Academia Piauiense de Letras Nelson Nery Costa, “vai marcar o Direito no século XXI, pela precisão, acuidade e leveza na leitura”.
     Como jornalista militou durante vários anos na imprensa baiana, cearense e piauiense, resultando dessa atividade o livro NEOLIBERALISMO, DESEMPREGO, EXCLUSÃO... – É ESTE O PAÍS QUE QUEREMOS? -, que enfeixa textos publicados em jornais de Salvador, Fortaleza e Teresina na década de 1990, marcada pela onda neoliberal e pela globalização da economia. Fiz o prefácio desse livro, a respeito do qual assinalei em determinado momento:

      “Seja sob a forma de monarquia constitucional,
      seja sob a forma republicana, o chamado Estado neoliberal
      vem se convertendo no reino da fantasia, com cidadãos
      teoricamente livres (‘todos são iguais perante a lei’) e
      materialmente escravizados. Nesse modelo, conservam-se
      os privilégios das elites, quase sempre indiferentes  aos
      dramáticos problemas da imensa maioria marginalizada,
      permitindo que o forte aniquile o fraco, enquanto a igualdade,
      a liberdade e a fraternidade se transformam em aspirações
      utópicas”.

     Paulo de Tarso já produziu também textos de conotação metafísica, que tratam especialmente da morte, como se vê no formidável livro HISTÓRIAS DE MORTE...
     O escritor lançará brevemente o livro em prosa e verso FLOR DO DESASSOSSEGO, que tive a honra de prefaciar e que se compõe de 69 partes, representadas por 45 textos em prosa poética caracterizada pela cadência das frases e pelos efeitos sonoros e por 24 em versos livres e rimados, que podem ser lidas do começo para o fim, do fim para o início, do meio para o fim ou para o começo... enfim caberá ao leitor eleger a ordem das páginas como lhe convier, como ocorre com o romance VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos, no qual nos deparamos com verdadeira independência entre capítulos. Paulo de Tarso, por sua vez, ordenou caprichosamente os textos de seu livro segundo ordem alfabética dos títulos, excluída apenas a letra “Y”.
     Nessa obra defrontamo-nos como componente básico o próprio “eu”, quer dizer, o seu fundamento é a forma como o espírito em suas manifestações de subjetividade – desejo carnal, devaneios, encontros e desencontros, possibilidades e impossibilidades, vazio existencial, sentimento de dor, de prazer, de morte, de solidão, de religiosidade e de eternidade – toma consciência de si mesmo no âmago deste fundamento.
     O texto lírico nada mais é que uma forma de arte solitária de natureza confessional ou emotiva que fala menos à razão do que à imaginação ou à sensibilidade do leitor.
     Texto  lírico e amor caminham sempre lado a lado. E, sem dúvida,  de todas as manifestações que brotam diretamente do coração presentes nesse livro sobressai o amor.
     A musa inspiradora é uma mulher que o escritor conheceu efetivamente e com quem teve momentos de presença e de ausência, de aceitação e de rejeição, de prazer e de dor, de felicidade e de infelicidade. Faço tal afirmação porque o próprio autor me fez confidências a respeito. Não se trata, pois, de virgem intangível, inacessível, simples produto da imaginação fértil, tão em voga entre alguns românticos, particularmente entre representantes do ultra-romantismo. Daí porque se alternam e se completam nesse livro momentos de lirismo singelo e lirismo passional e elegíaco, lirismo de arrebatador  desejo carnal  e de ânsia de eternidade, com a mistura de amor e morte, alma e sexo, pureza e impureza. Da simbiose desses temas  preferenciais resulta uma obra superior, adulta, madura, sem pieguice juvenil e acachapante mas fortemente impregnada dos elementos mais marcantes da existência – a fantasia e a realidade.
     Na esteira da insatisfação existencial, são múltiplas as perspectivas que podem ser escolhidas para assinalar a evolução dos textos líricos que compõem esse livro, como a insignificância da vida marcada pelo apego à riqueza material, a solidão e a saudade geradoras do vazio não preenchido deixado pela mulher amada  e a possibilidade e a impossibilidade. Em razão disso tudo é que o prosador-poeta desabafa:

     “(...)  por isso, o céu me atrai bem mais
     que a terra. É que procuro o lugar onde se pescam
     pérolas”.

     Mas a vida, com todos os seus percalços, é capaz  de oferecer instantes de êxito e de êxtase, competindo ao artista registrá-los ou relembrá-los:

           “E eu, sob os critérios de um pensamento
           másculo, a te amassar entre a parede e a espada,
           a obstinação e a impavidez em pessoa, posto que
           a origem é o alvo e o alvo és tu, meu alimento do
           amor... apraz-me teu bendito estepe”.

     Possivelmente  a síntese da essência poética desse livro de Paulo de Tarso Mendes de Sousa , na minha opinião a sua obra-prima, se traduza em duas linhas de Fernando Pessoa constantes do LIVRO DO DESASSOSSEGO, com o título de “Litania”:

             “Nós nunca nos realizamos.
             Somos dois abismos – um poço fitando o céu”.

     O título do livro foi sugerido por mim e por Elmar Carvalho. Sob a influência do  LIVRO DO DESASSOSSEGO, de Fernando Pessoa, sugeri o título AMOR E DESASSOSSEGO. Por telefone Elmar Carvalho completou: - em deferência a FLORES DO MAL, de Baudelaire, acho que devemos (re)unir os dois grandes poetas, batizando a obra de Paulo de Tarso com o nome de FLOR DO DESASSOSSEGO.
     Filho do coronel e ex-deputado estadual constituinte Antônio José de Sousa e de dona Altair Mendes de Andrade Rocha, Paulo de Tarso nasceu em Teresina-PI em 1947 e é formado em administração de empresas e em direito. Além de advogado militante, agropecuarista e professor de direito da UESPI e da FACID, exerceu cargos de direção em órgãos do governo, como CEPED, IAPSEB, Escola de Administração Pública de Parnaíba e Instituto de Previdência do Município de Parnaíba.         

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Pe. Miguel de Carvalho e Almeida, fundador de paróquias e missionário do sertão

Antiga igreja de Santo Antônio do Surubim

Pe. Miguel de Carvalho e Almeida, fundador de paróquias e missionário do sertão

Reginaldo Miranda
Historiador e membro da APL

Durante cinco anos ininterruptos, foi um dos principais nomes do clero no Bispado de Pernambuco, tendo paroquiado o sertão do Rio São Francisco e instalado duas freguesias, sendo uma no médio curso daquele rio e outra na bacia do Parnaíba. Sobre esta última apresentou importante descrição, informando todos os vales ribeirinhos, suas fazendas, moradores e costumes, além das tribos indígenas existentes. Por equívoco do historiador Ernesto Ennes, que primeiro publicou esse importante estudo, a Descrição do Sertão do Piauí, seu nome foi erroneamente grafado e repetido por incontáveis vezes como Miguel do Couto, somente mais tarde sendo restabelecido para Miguel de Carvalho, agora finalmente recomposto para Miguel Carvalho de Almeida ou Miguel de Carvalho e Almeida. Sobre ele já escrevemos artigo na imprensa de Teresina, depois incluído em volume.

Nascido em 1664, no lugar de Bragadas, pequena povoação da freguesia de Santo Aleixo, concelho de Ribeira de Pena, Arcebispado de Braga, teve por genitores Miguel de Carvalho e Almeida(1630 – 6.4.1695), capitão de infantaria dos Auxiliares de Ribeira de Pena, sucessor na quinta das Bragadas de Além Tâmega, e sua esposa Helena Gonçalves de Matos (f. 15.9.1684, em Santo Aleixo); neto paterno de Domingos Carvalho, moço da câmara da Casa Real, juiz dos órfãos de Ribeiro de Pena, senhor da quinta das Bragadas de Além Tâmega, em Santo Aleixo, de onde era natural e onde veio a falecer em 7.7.1668, e de Catarina de Almeida(1ª), nascida cerca de 1608, no lugar da Ribeira de Baixo, freguesia do Salvador da Ribeira de Pena; neto materno de Domingos Dias e Senhorinha Gonçalves, ambos naturais da referida freguesia de Santo Aleixo.

Iniciou os estudos em sua terra natal, mais tarde passando para o Seminário da cidade de Braga, onde prossegue em sua formação com os religiosos inacianos, cursando Filosofia e três anos de Teologia Espiritualista e Moral, além de outras matérias necessárias à complementação da grade curricular, ordenando-se sacerdote e tirando informações de genere, para provar a pureza de sangue, em 22 de julho de 1689.

Depois da ordenação retorna à sua terra natal, onde inicia atividade sacerdotal. Porém, em 1690 muda-se para o Bispado de Pernambuco, prestando exame para a vigararia da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, em cujo posto não foi provido. Entretanto, com o dito exame ficou habilitado para ocupar o Curato de Rodelas e para servir de vigário da Vara de que o Bispo D. Mathias de Figueiredo(1687 – 1694) lhe mandou ocupar em princípio de 1693.

Então, na distante freguesia de N. Sra. da Conceição de Cabrobó, ou Quebrobó, como primitivamente se chamava a paróquia do Rodelas de Cabrobó ou de Cabrobó e Rodelas, permanece por cinco anos(1693 – 1698), com poderes de missionário apostólico. E com a liderança que lhe era nata, inicia importante trabalho apostolar fundando “à custa de seu sangue e fazenda, duas freguesias e oito missões entre inumeráveis multidões de bárbaros que antes nunca tinham ouvido os sagrados preceitos da nossa Igreja”, diria ele mais tarde perante os inquisidores do Santo Ofício.

Nesse tempo recebe a importante missão de fundar duas novas freguesias no sertão íngreme, do gentio bravo, em território que estava sendo descoberto e incorporado ao Reino de Portugal, as freguesias de São Francisco da Barra do Rio Grande, no médio curso do rio São Francisco, e Nossa Senhora da Vitória, na bacia do Parnaíba. Para esse desiderato mandou buscar na corte dois sacerdotes seus familiares, sendo o irmão Inocêncio de Carvalho e Almeida, que empossou na primeira e o primo Tomé de Carvalho e Silva, que empossou na segunda freguesia.

Sobre esse assunto é importante ressaltar que o padre Miguel de Carvalho, durante o seu paroquiato em Rodelas, não ficou circunscrito à sede da freguesia, mas percorreu incansavelmente o sertão em sua missão evangelizadora. No verão de 1694, adentrou em desobriga o território piauiense em companhia do padre jesuíta alemão Philipe Bourel (1659 – 1709) e mais 42 pessoas de sua comitiva evangelizadora. Descrevendo a fertilidade dos vales do Gurgueia e do Curimatá, anotou o religioso português que quando retornava do sertão por aquele primeiro vale ribeirinho em demanda de Parnaguá, com sua imensa comitiva, mesmo “sem provimento de matalotagens, achamos tanta abundância de mel, peixe, caças e frutas que não experimentamos falta alguma, 16 dias que caminhamos pela beira do rio; apartados, porém, dele padecemos 5 de grande fome e, sem dúvida, morreríamos se a Providência Divina nos não socorrera por um modo que, sendo natural, pareceu prodigioso, e foi que, caminhando por entre umas serras junto do rio Corimataim(hoje Curimatá), achamos um riacho que em distância de uma légua tinha pelas beiras grande quantidade de ananases criados pela natureza, tão deliciosos no cheiro e no gosto, como os que se acham nas praças; só tinham diferença em serem todos brancos e mais pequenos. Até chegarmos à povoada, nos serviram de regalo e matalotagem” (Descrição...).

Como fruto dessa viagem pede ao Bispado para criar nova freguesia na região, mesmo em prejuízo de sua própria arrecadação em Rodelas. Contemplado em seu pleito pelo novo Bispo D. Francisco de Lima, novamente retorna ao Piauí em princípio do ano de 1697, desta feita para instalar a nova freguesia e dar posse ao vigário. Para isto, em 11 de fevereiro de 1697, na fazenda Tranqueira, em casa de Antonio Soares Touquia, reuniu os fazendeiros colonizadores nomeados na pastoral que trazia, e que antes haviam se comprometido a ajudá-lo, e juntos elegeram o local para fundação da nova igreja matriz de Nossa Senhora da Vitória, cuja eleição recaiu no brejo chamado Mocha, por ser a parte mais conveniente aos moradores, ficando no centro geográfico do novo território, com iguais distâncias e caminhos para todas as partes e riachos povoados; e nesta parte se elegeu democraticamente para edificação da igreja matriz e casa do Reverendo Cura, o tabuleiro que se acha pegado à passagem do Jatobá para o Canindé, ficando todo o indicado brejo do riacho do Mocha reservado para roças e passal do Reverendo cura e Igreja. Esse fato, mais tarde, iria ser objeto de demanda com Domingos Jorge Afonso, sucessor do tio Julião Afonso Serra.

Dessa forma, decorridos vinte e dois dias dessa eleição, em 2 de março do mesmo ano, já benzia ele a nova capela construída de pindoba e dava posse ao Reverendo Cura, seu primo e conterrâneo Tomé de Carvalho e Silva. Estava, assim, fundada uma nova freguesia na colônia portuguesa; também, uma nova povoação, futura vila da Mocha, depois cidade de Oeiras, primeira cidade e capital do Piauí.

No entanto, na mesma fazenda Tranqueira morava Domingos Afonso Serra, sobrinho de Julião Afonso Serra, um dos quatro conquistadores e grande sesmeiro em cujas terras estava sendo construída a nova matriz. Ele não esteve presente na indicada reunião. Então, insatisfeito com esse surto de progresso que fomentava a Igreja em sua vizinhança, incita fazendeiros indisciplinados que expulsam o vigário Tomé de Carvalho e Silva, fazendo arder em chamas sua casa, a capela e as choupanas que erguia para acomodar os romeiros em visitação. Desolado, este procura o Pe. Miguel de Carvalho em Rodelas, que sempre inquebrantável, o anima e aos moradores cristãos a reerguerem as edificações com redobrado zelo e maior grandeza.

Nesse contexto, o Pe. Miguel de Carvalho buscou o apoio do valoroso Bispo de Pernambuco, D. Francisco de Lima, a quem estava vinculada a nova freguesia, e juntos fizeram diversos pleitos à Corte, em defesa dos posseiros piauienses contra os absentistas sesmeiros do litoral, de que resultou na desanexação do Piauí, do Estado do Brasil(Bahia) para o Maranhão, em 1700.

Ainda como resultado dessas andanças e trabalho apostolar no Piauí, escreveu e remeteu ao Bispo, interessante relatório a que denominou Descrição do Sertão do Piauí, onde descreve a nova freguesia composta de 129 fazendas, 605 moradores cristãos batizados, dos quais 441 residentes nas fazendas e 164 do Arraial de Paulistas, hoje cidade de Valença do Piauí e em algumas lagoas e olhos d’água. É este o primeiro recenseamento e a primeira descrição do novo território. É por essa razão que o Pe. Miguel de Carvalho, faz parte de nossa história e figura entre os vultos de nossa terra.

Todavia, naquele mesmo ano de 1693, quando assumia o curato do Rodelas, o padre Miguel de Carvalho pleiteou ser comissário do Santo Ofício, assinando petição em que declarava ser clérigo do hábito de São Pedro, vigário da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Rodelas, no Bispado de Pernambuco e pregador aprovado, justificando que desejava servir no indicado cargo porque não havia outro naquele Bispado, prestando, assim, importantes informações sobre sua ascendência genealógica, todas incorporadas no presente estudo.

Então, diante deste pleito e dessas importantes informações genealógicas inicia-se o criterioso processo de investigação, por parte do Tribunal do Santo Ofício, para aferir se a genealogia era verdadeira, se todos eram naturais de onde se dizia ser, se tinham pureza de sangue, isto é, sem cruzamento com nação considerada de sangue infecto, se possuía meios abastados, enfim, se ele ou seus ancestrais haviam sido punidos por crime de feito ou de direito.

Logo mais, depois de várias diligências, e para averiguar o afirmado, em 12 de dezembro de 1693, na igreja de Santo Aleixo, concelho de Ribeira de Pena, terra natal do pretendente, são ouvidas seis testemunhas, e mais seis em 14 do mesmo mês, na igreja do Salvador, do mesmo concelho, que confirmaram todas as informações prestadas quanto à origem do candidato, de que seus ancestrais eram de sangue limpo e sempre ocuparam os cargos nobres, acrescentando que o mesmo se mudara a três anos para o Brasil, Bispado de Pernambuco.

Foi também solicitada informação ao Bispado de Pernambuco. Então, em 6 de agosto de 1696, no Colégio da Companhia de Jesus, no Recife, pelo padre Filipe Coelho, foram inquiridas mais sete testemunhas moradoras em sua freguesia, que confirmam o bom proceder do vigário no novo domicílio e a sua maneira abastada de viver.

A longa investigação já estava sendo concluída e tudo ia bem para o Padre Miguel de Carvalho, sendo questão de tempo a sua nomeação para comissário do Santo Ofício no Bispado de Pernambuco. No entanto, um fato iria mudar o desfecho dos trabalhos e o destino do vigário. É que por aqueles dias adentra o sertão de Pernambuco, distrito da freguesia do Rodelas, um religioso do Reino de Castelo, Frei Izidro de Casso, que passa a ministrar sacramentos e missionar pelas aldeias e povoações, sem licença do Bispado. O Padre Miguel entendeu que aquela atividade prejudicava a arrecadação de sua freguesia e tentou expulsá-lo, sem êxito. Então, usando de seu prestígio com o Bispo, prende-o, porém, com o gravame de usar o nome do Santo Ofício, para o qual ainda não se encontrava habilitado. Em face desse episódio, o padre Filipe Coelho concluiu a sua investigação dizendo:



 “Quando inquiri estas testemunhas, pareceu-me que falavam a verdade pelo conceito que tinham desse sacerdote, mas depois que tive notícia certa que ele dizia vinha com missão do Santo Ofício para prender o Pe. Frei Izidro de Casso e remetê-lo preso até a Inquisição, não me pareceu sujeito de segredo nem de capacidade para negócio deste Santo Ofício. Colégio de Olinda, 8 de maio de 1697. Filipe Coelho”.



Vê-se, pois, que esse desatino complicou uma situação que lhe era favorável, vez que as investigações já haviam sido concluídas com êxito. Ainda assim, em 20 de dezembro de 1697, concluem os julgadores em Lisboa, que ele é por si e seus pais e avós, cristão velho, sem raça de nação considerada infecta, sendo julgado habilitado para ocupar o cargo de comissário do Santo Ofício. Dessa forma, não deram importância ao parecer do padre Filipe Coelho, da Companhia de Jesus e Reitor do Colégio de Olinda, na informação que mandou à Mesa.

No entanto, como houve investigação paralela daqueles fatos com autorização do Tribunal do Santo Ofício, logo mais reformam esta decisão e o julgam inabilitado para o exercício da ocupação que pleiteava.

É quando, em 1698, depois de cinco anos missionando no sertão, o padre Miguel de Carvalho e Almeida, deixa seu cargo de vigário em Rodelas e retorna para Lisboa, no navio de José Pinheiro, onde fixa residência a fim de fazer sua defesa perante o Tribunal do Santo Ofício. Foram dias turbulentos em sua trajetória, passando noites insones no preparo da argumentação. Agora já não era mais o pleito de comissário, que estava definitivamente perdido. Tratava-se de fugir à acusação que lhe era feita.

Dessa forma, em matéria de defesa alega junto ao referido Tribunal, onde a verdade deveria imperar, fatos que vão reconstituindo a sua biografia e a história de sua família. Porém, ao fim do julgamento foi apenado com advertência de que se voltasse a praticar o mesmo delito seria rigorosamente punido, pena que foi aplicada em 12 de fevereiro de 1699.


O Pe. Miguel de Carvalho, como era geralmente conhecido, não mais retornou ao Brasil passando a desenvolver sua atividade sacerdotal no concelho de Ribeira de Pena, norte de Portugal. Em 1721, aos 57 anos de idade, era abade de Santa Marinha, no referido concelho. Segundo seu conterrâneo, o historiador, advogado e genealogista Manuel Abranches de Soveral, ele ainda exerceu o cargo de capelão fidalgo da Casa Real e instituiu do vínculo e capela de Nossa Senhora da Assunção, junto à casa de Senra de Cima, no mesmo concelho. Deixou, porém, seu nome inserido no contexto de nossa história.  

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Padre Tomé de Carvalho e Silva, primeiro vigário do Piauí

Fonte: Google

Padre Tomé de Carvalho e Silva, primeiro vigário do Piauí

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

O padre Tomé de Carvalho e Silva foi o primeiro vigário do Piauí, fundador da freguesia de Nossa Senhora da Vitória do Brejo do Mocha do Sertão Piauí, onde tomou posse em 2 de março de 1697, com o beneplácito de seu primo, o também vigário Miguel de Carvalho e Almeida, da freguesia do Rodelas, de onde foi aquela desmembrada e que lhe deu posse.
Nasceu esse pioneiro vigário em Bragadas, minúscula povoação da freguesia de Santo Aleixo de Além Tâmega, do concelho de Ribeira de Pena, comarca de Guimarães, Arcebispado de Braga, no norte de Portugal. Era filho legítimo de José da Silva e de sua mulher Catarina de Almeida(2ª), do lugar de Bragadas, freguesia de Santo Aleixo, do concelho de Ribeira de Pena, comarca de Guimarães, Arcebispado de Braga, esta irmão do capitão Miguel Carvalho de Almeida (pai do Pe. Miguel de Carvalho), ambos filhos de Domingos Carvalho e Catarina de Almeida, primeira do nome, todos naturais e moradores em Ribeira de Pena.
Foi batizado o nosso biografado em 23 de janeiro de 1673, na freguesia de Santo Aleixo, pelo padre Antonio Pacheco, sendo padrinho seu parente homônimo Thomé Carvalho e madrinha sua irmã Domingas Carvalho.
Pouco sabemos de sua vida escolar, sendo plausível que tenha seguido os passos do primo Miguel de Carvalho, que cursou os estudos iniciais na terra natal e os superiores com os jesuítas no Seminário de Braga, onde se ordenaria.
Logo depois da ordenação, com 24 anos de idade, o jovem padre Tomé de Carvalho, por via de seu indicado primo, foi chamado a assumir uma missão de alta importância, instalar uma paróquia no sertão íngreme e desenvolver atividade missionária desde a margem ocidental do médio curso do rio São Francisco até os desconhecidos limites das terras de Espanha. Era a freguesia de Nossa Senhora da Vitória do Brejo do Mocha do Sertão do Piauí. Com ele também viera do reino outro primo, o padre Inocêncio Carvalho de Almeida, irmão daquele, sendo, assim, os três parentes, todos da mesma localidade, a pequena aldeia de Bragadas, dois irmãos e um primo, fundadores de paróquias e missionários no Sertão de Dentro.
Digno de nota é o dignificante trabalho apostolar do padre Tomé de Carvalho e Silva, cujos sermões, onde pregava a palavra de Cristo e difundia o Evangelho, ecoaram em nossos sertões por trinta e oito anos, no  tempo de fundação e consolidação da freguesia da Mocha, hoje cidade de Oeiras, por ele fundada. Fez de seu púlpito, nas margens do riacho do Mocha, uma trincheira civilizatória e um farol de irradiação da cristandade. Foi marcante a sua ação evangelizadora, sendo merecedor de todos os encômios de nossa sociedade e da Igreja Católica, porque era vocacionado para a fé e realizou obra notável.
Foi co-fundador da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, enfrentou a prepotência de sesmeiros a exemplo de Domingos Afonso Serra, que o desacatou em princípio de 1698, expulsando-o da localidade e queimando sua casa, capela e demais instalações preparadas para receber os romeiros. Porém, as reconstruiu com determinação e coragem, primeiro todas de taipa e palha, depois de pedras e saibros, cuja conclusão da igreja matriz deu-se em 1733, quando pediu a El-Rei um sino, uma lâmpada, paramentos, alvas e vestimentas para celebrar com maior grandeza.
O Pe. Tomé de Carvalho, foi também responsável pela criação de diversos curatos pelas ribeiras mais populosas, conforme testemunhou o governador João da Maia da Gama, em 1728.
Paralelamente a essa ação missionária, nesses trinta e oito anos em que mourejara no Piauí, que elegera como sua nova pátria, também fez-se rico fazendeiro, construindo sólido patrimônio em terra e gado. Nas vizinhanças da morte, quando sentiu que os anos lhe pesavam e era chegada a hora da despedida, chamou o Tabelião da Mocha e ditou seu testamento, onde declara possuir os seguintes bens: três fazendas de gado chamadas Victória, Tranqueira e Caraíba, assim com o Sítio Novo, nos Alongases de Baixo, freguesia de N. Sra. do Carmo da Piracuruca, com os gados delas de seu ferro e sinal, escravos, cavalos de suas fábricas, selas e ferramentas, e o mais que nelas se achasse e por seu fosse conhecido; declarou possuir também uma partida de éguas com seu ferro na fazenda Ilha, de José de Abreu Bacelar, além de alguns outros escravos nominados no indicado testamento e bens móveis existentes em sua casa. Era, assim, um abastado fazendeiro.
E para auxiliá-lo na atividade sacerdotal trouxe inúmeros parentes que fixaram residência no Piauí, entre esses o irmão mais moço padre Miguel de Carvalho e Silva e o sobrinho pela parte paterna padre André da Silva, este último sendo coadjutor em Oeiras.
Também, assumindo o encargo de arrimo de família, ajudou a muitos parentes, trazendo para sua companhia os sobrinhos Manoel de Carvalho da Silva e Almeida e Antônio Carvalho de Almeida, ambos filhos do casamento de sua irmã Izabel de Almeida com Domingos Dias, da freguesia de São João de Cabés; ao primeiro mandou, às suas expensas, estudar em Salvador e depois em Coimbra, onde se formou em Leis; ao segundo, entregou a administração de suas fazendas, onde se fez rico fazendeiro, capitão-mor do Piauí e genearca de numerosa e ilustrada descendência; no testamento também consta que trouxera o sobrinho Antonio Sanches, nascido em 5 de outubro de 1709, na freguesia de São João de Cabés, filho do casamento de sua irmã Ângela de Almeida com Manoel Sanches. Esses três sobrinhos foram instituídos como herdeiros universais, dividindo o patrimônio depois de pagas as dívidas e os legados.

Depois de desenvolver esse notável trabalho apostolar falece o padre Tomé de Carvalho e Silva, aos 62 anos de idade, em 18 de setembro de 1735, na fazenda Corrente, com todos os sacramentos e deixando testamento, sendo o corpo sepultado na capela mor da igreja matriz de Nossa Senhora da Vitória, por ele construída e onde, de seu púlpito, por tantos anos dissera a missa e exortara os fiéis aos bons exemplos do cristianismo. É um dos construtores de nosso Estado, cuja história de vida deve ser preservada para a perpétua memória dos tempos.