sábado, 11 de junho de 2022

O Velho Ancião

 

Fonte: Google/Acesse Piauí

O VELHO ANCIÃO


Elmar Carvalho


No sábado passado, estive na Oficina da Palavra, pertencente a Cineas Santos, para tirar fotografia de um belo quadro do Amaral, em que aparece um goleiro em um voo espetacular e talvez um tanto espetaculoso, para ilustrar uma crônica que fiz em homenagem a dois grandes goleiros de nosso estado: Coló e Beroso, que marcaram época, o primeiro a defender o Caiçara, e o segundo, como guarda-meta do Comercial.

Como goleiro, com atuações quase sempre regulares ou boas, ao menos segundo meus amigos, fui admirador dos dois, embora, por ser caiçarino, tivesse certa predileção pelo Coló, goleiro estiloso, cujas enfeitadas “pontes” admirava e aplaudia. Também queria fotografar um quadro do saudoso Fernando Costa, que conheci, cujo talento artístico apreciava. Lamentei sua morte trágica e precoce, décadas atrás, em pleno carnaval.

Quando eu estava nesse mister, chegou o Cineas Santos, que foi meu professor em 1976, no Cursão. Nós, todos os alunos, o admirávamos, mesmo os que não eram tão interessados em literatura. Garoto interiorano, fanático por literatura, gostava imensamente de suas aulas. Acompanhei o lançamento de Ciranda, no Theatro 4 de Setembro, e com muito gosto li suas páginas. Rapaz um tanto tímido, um dia criei coragem e lhe mostrei alguns poemas e um ou dois contos meus.

Cineas os leu, e com a sua proverbial franqueza me disse, com ênfase, que eu tinha “garra”, mas me aconselhou a ler os poetas modernos, dos quais, entre os que ele citou, me lembro bem de João Cabral de Mello Neto. Nessa época, deslumbrei-me com o jornal de cultura Chapada do Corisco, editado pelo Cineas, que estampava os belos versos do poeta Paulo Machado, intelectual do mais alto valor e honesto, como cidadão e como ser cultural.

Entretanto, já no início do ano seguinte (1977) retornei a Parnaíba, para cursar Administração de Empresas, pois fora aprovado no vestibular, bicho papão na época, uma vez que existia apenas, como entidade de ensino superior, a Universidade Federal do Piauí.

Devo acrescentar que Cineas era um verdadeiro mestre; suas aulas eram fascinantes e atraíam o aluno, mormente aqueles que, como eu, amavam literatura. Como pessoas físicas, e não instituições, ele e o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana são os dois maiores editores do Piauí. Apesar de vigoroso, enérgico e dinâmico em seus sessenta e poucos anos de vida, em autoironia ou talvez como catarse, para afastar o fantasma da velhice, que ainda vem longe, deu para chamar-se a si mesmo de o “velho ancião”, com a proposital ênfase da redundância.

Conquanto, pelas circunstâncias da vida, não tenha sido um amigo próximo, acompanhei os seus permanentes e constantes sucessos, como escritor, editor e promotor de eventos culturais. E sempre lhe reconheci e aplaudi os méritos.

 

24 de março de 2010   

sexta-feira, 10 de junho de 2022

OEIRAS NA ALMA E NO CORAÇÃO

Neander Francisco (autor da proposição) e Espedito Martins (presidente da Câmara Municipal) entregam a Elmar Carvalho o diploma do Título de Cidadão Oeirense

Os três homenageados: Elmar Carvalho, Igor Martins e Margarete Coelho
Dona Amália Campos, aos 98 anos, lendo o livro Oeiras na Alma e no Coração, que contém o discurso e outros textos oeirenses de Elmar Carvalho

 

OEIRAS NA ALMA E NO CORAÇÃO


Elmar Carvalho

                                                                                                                          

Oeiras navega na noite

de um tempo que não termina.

De um tempo sem medida, fugitivo

de ampulhetas e relógios.

 

Nos longes de minha meninice, salvo engano no livro didático Nosso Tesouro, li – num de seus “serões” – uma referência a Oeiras, como tendo sido a primeira capital do Piauí. Foi a primeira alusão à Terra Mater, encravada nos confins dos sertões de Cabrobó, de que tomei conhecimento em livro. Data daí, talvez, o meu fascínio pela velha Mocha e o meu desejo de conhecê-la.

Por volta de duas décadas depois, numa viagem a serviço da SUNAB – Delegacia do Piauí, a conheci de relance. É que cheguei à noite e logo, ainda no escuro da madrugada, retornamos a Teresina. Posso dizer que apenas a entrevi, que ela apenas se entremostrou, como uma rosa ainda em botão, entrefechada ou entreaberta, como num poema do Bruxo do Cosme Velho.

Contudo, o meu desejo de conhecê-la ou mesmo devassá-la se tornou mais avassalador. E a conheci em toda sua glória e tradição em outras viagens a serviço e, sobretudo, para participar de vários eventos culturais e literários.

Em minha gestão como presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí (1988/1990), minha principal meta foi desenvolver uma campanha para que a Literatura Piauiense fosse insculpida no texto de nossa Constituição Estadual (1989), como disciplina obrigatória em nossas escolas, o que terminou acontecendo, graças à acolhida que nos deu o deputado Humberto Reis da Silveira, seu relator-geral, descendente de velhas estirpes oeirenses.

Imbuído desse propósito de bem divulgar a nossa literatura, fiz realizar um de nossos Encontros de Escritores em Oeiras, em cujo evento homenageei o grande romancista brasileiro O. G. Rego de Carvalho, nascido nesta terra de rica história e tanta tradição cultural, religiosa, literária e musical. Nesse encontro, além de outras atividades, o romancista, cronista e médico Expedito Rego pronunciou uma minuciosa palestra sobre o jornalismo oeirense, que infelizmente parece haver se perdido entre os papéis de seu espólio literário.

Em sua conferência, foi ele auxiliado pelo seu afilhado Carlos Rubem, defensor intransigente do patrimônio arquitetônico, artístico e cultural de Oeiras, que além de Promotor de Justiça, o é também de Cultura. Por causa dessa sua veemência em defesa das coisas oeirenses, me solicitou algumas crônicas sobre a velhacap, em ocasiões especiais, dentre as quais estão as em que falo do velho calçamento de Oeiras, do grande poeta Nogueira Tapety e do Sobrado dos Ferraz, hoje Paço Municipal. Na minha crônica Uma noite, em Oeiras, falo do nosso sonho de ser construído, no alto do Morro da Sociedade, o Jardim dos Poetas, em que seriam estampados os poemas que louvam as louçanias da bela paisagem sertaneja e os velhos casarões e sobrados de nossa encantadora Oeiras.

Ao longo dos anos 80 e 90 do século passado e neste século XXI, fui amealhando importantes amizades com ilustres intelectuais e escritores de Oeiras. Além dos já referidos acima, citarei (pedindo desculpas por eventuais omissões): Balduíno Barbosa de Deus, meu professor no curso de Direito na UFPI, Possidônio Queiroz, de valsas sublimes, dito o Bruxo Velho de Oeiras, Dagoberto Carvalho Jr., meu confrade na APL, Antonio Reinaldo Soares Filho, Ferrer Freitas, Paulo Gutemberg, Rogério Newton, Gutemberg Rocha, que me prefaciou o livro Noturno de Oeiras, com belas ilustrações de Francisco Leandro, Rita Campos, Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, Cassy Neiva Gama, Stefano Ferreira, Júnior Vianna, Socorro Barros e Moisés Reis, que fez a apresentação, em lançamentos nesta velha urbe, de meus livros Lira dos Cinqüentanos e Noturno de Oeiras e outras evocações, hoje meu confrade na APL.

Sobre muitos dos escritores citados acima tive a honra de escrever, lhes ressaltando o talento e o brilho da escrita. E muitos deles se pronunciaram sobre a minha prosa e sobre a minha poesia, o que vale mais para mim do que certos galardões.

Uma das maiores honras e satisfações que tenho é a de que o meu poema Noturno de Oeiras caiu no gosto e na graça dos amigos oeirenses. Foi incluído em vários livros e antologias. Em diferentes ocasiões, já ecoou no palco do Cine Teatro Oeiras, no adro da catedral e entre suas vetustas naves. Teve versos citados em vários livros e discursos, o que o mantém vivo e presente na memória de meus novos conterrâneos. Foi publicado na Revista do Instituto Histórico de Oeiras, que também publicou vários outros textos de minha autoria sobre assuntos oeirenses. Foram feitos três vídeos desse poema, que se encontram no You Tube, um dos quais recentemente produzido por Inamorato Reis, em que aparecem suas lindas fotografias, com a interpretação irrepreensível de Cláucio Carvalho, de bela voz ritmada e de dicção perfeita.

Na época em que o escrevi, uma cópia de Noturno de Oeiras foi enviada para o advogado Talver de Carvalho Mendes, que me remeteu uma desvanecedora carta manuscrita, na qual teceu muitas considerações elogiosas, mas em que disse haver sentido falta dos sons de bandolins e do velho cemitério. Instigado por essa missiva, senti a inspiração e o impulso para compor o Noturno do Cemitério Velho de Oeiras, que foi musicado e apresentado no dia do lançamento do livro Noturno de Oeiras e outras evocações por alunos do Instituto Barros de Ensino – IBENS.

A dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira enviou uma cópia desse livro para seu irmão, o ilustre oftalmologista Elisabeto Ribeiro Gonçalves. Para meu gáudio, poucos dias depois, recebi uma linda missiva desse médico, que é na verdade uma excelente crônica, em que ele, a pretexto de comentar o poema, parece viajar ao tempo de outrora, para rever os prédios e outros sítios oeirenses de uma outra dobra ou dimensão do espaço-tempo, toda impregnada de emoção e saudade.

Em julho de 2013, quando me encontrava de férias, após renunciar a promoções para outras Comarcas, por preferir ser promovido a titular do Juizado Especial Cível e Criminal de Oeiras, consegui esse desiderato. Estava presente a essa sessão o ilustre Des. Sebastião Martins, casado com a senhora Solange, filha desta terra, que sempre me incentivou e aplaudiu o labor literário.

Assumi o Juizado no começo de agosto, mas logo após recebi a impactante notícia, dada por minha mulher, por telefone, de que os exames que fizera constataram a existência de um CA, o segundo de minha vida, o que me impediu de exercer por mais tempo a minha atividade judicante nesta vetusta Comarca, embora estivesse contente com minhas funções e com o relacionamento e apreço dos servidores. Todavia, tive a honra de encerrar minha carreira como magistrado pertencente a esta jurisdição de entrância final.

Posso dizer que ao longo de todos esses anos participei de vários eventos culturais em Oeiras, escrevi textos sobre vários assuntos e logradouros oeirenses, bem como várias crônicas e críticas literárias sobre diversos poetas e escritores de nossa etérea e eterna capital.

Assim, julgo que me fui tornando um cidadão oeirense por livre e espontânea vontade de mim mesmo, ou por conta própria como disse um amigo.

Diria que me tornei um oeirense por coração, vocação, predestinação e devoção. Mas, para continuar com essas rimas em ão, acrescento que como coroação a Augusta Câmara Municipal de Oeiras, no tempo certo de Deus, através de proposição do Excelentíssimo Vereador Neander Francisco da Silva Moura, com o beneplácito dos demais parlamentares, houve por bem me conceder o glorioso Título de Cidadão Honorário de Oeiras, que tudo farei para honrar, e que me será um galardão, do qual saberei manter o lustre. Agradeço a todos os eminentes Vereadores, aos do tempo da concessão, ocorrida em 2013, e aos deste momento da solenidade de outorga desta magna honraria, na pessoa do Excelentíssimo Sr. Espedito Martins, Presidente desta Egrégia Casa Parlamentar.

Que mais dizer? Nada mais preciso dizer, exceto repetir que agradeço, comovido, ao povo de Oeiras e aos nobres e distintos Vereadores por este áureo Título, que oficializa e enobrece para sempre a minha cidadania oeirense, que sempre porfiei em cultivar em minha acendrada oeirensidade.

(*) Discurso pronunciado no dia 06/06/2022, em solenidade da Câmara Municipal de Oeiras, no dia em que recebi o Título de Cidadão Oeirense.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

LITERATURA PIAUIENSE do Prof. Luiz Romero



LITERATURA PIAUIENSE do Prof. Luiz Romero


Elmar Carvalho


Fui ontem à noite ao SALAPI para participar do Bate-papo Literário, juntamente com outros confrades da Academia Piauiense de Letras. Antes do evento, no stand da APL, encontrei o professor Luiz Romero Lima, professor de Teoria da Literatura e de Literatura Brasileira, Portuguesa e Piauiense há várias décadas, no ensino médio e universitário, autor do importante livro Por um leitor crítico e criativo.

Tratei logo de adquirir o seu livro Literatura Piauiense, 21 edição, primorosamente editado, no formato 21 cm por 26 cm, com capa dura e muitas ilustrações ao longo de suas 344 páginas. Todos os autores são contemplados com seu retrato, síntese biográfica e alguns textos, de sorte que é também uma antologia. Pela primeira vez vi o retrato de Ovídio Saraiva, o primeiro poeta piauiense.

A obra é dividida em 8 capítulos, abordando os seguintes assuntos: Neoclassicismo (1808 – 1866), Romantismo (1866 – 1917), Fase Acadêmica (1917 – 1949), Modernismo no Piauí (A partir de 1949 até os dias atuais), Modernismo/Geração Meridiano, Modernismo/Vanguardistas, Modernismo/Grupo do Clip, Modernismo/Autores Contemporâneos.

São estudados 40 escritores, entre poetas e prosadores, nessas diferentes fases de nossa literatura, mas outros são citados ou referidos, de forma avulsa ao longo das partes dissertativas.  

O livro traz ainda exercícios, exercícios complementares, a seção Aprendendo Mais, duas listas, “por indicação de professores, alunos e bons leitores”; uma, indicando os “quinze romances piauienses de todos os tempos”, e a segunda, “as trinta outras obras piauienses”.

Portanto, é um farto manancial de informações e comentários enfeixados num belo e monumental projeto gráfico e editorial.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

PARNAÍBA – 311 ANOS DE EXISTÊNCIA


 

PARNAÍBA – 311 ANOS DE EXISTÊNCIA


Vicente de Paula Araújo Silva

Historiador e escritor


            Hoje, domingo, 05 de junho deste ano de 2022, a nossa cidade inicia a semana que registrará algumas celebrações alusivas à memória de 311 anos de sua historia, que teve início oficialmente em 11 de junho de 1711, quando foi autorizada pelo Bispado de São Luiz do Maranhão, a construção de uma igreja que abrigaria um altar com a imagem de Nossa Senhora de Mont Serrat. A partir dessa data, segundo o trâmite legal da época, a Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnaíba passou a existir, e dentro de um novo ordenamento político, em 1762, passou a ser Villa de São João da Parnahiba e posteriormente, em 1844, foi elevada a condição de cidade com o nome de Parnahiba, grafia atualizada no nosso tempo como Parnaíba.

           A trajetória histórica e comprobatória da criação da Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnaíba, está explicitada a seguir :

 

CAPELA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATHE DA PARNAÍBA

311 ANOS DE EXISTÊNCIA EM 11 DE JUNHO DE 2022

  

MARCO HISTÓRICO DA EXISTÊNCIA DA VILLA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATHE DA PARNAÍBA DESDE 11 DE JUNHO DE 1711

 

Imagem original de N. S do Mont Serrat em porcelana que,

vinda de Portugal,  encontra-se no altar da Igreja de Nossa

Senhora do Monte do Carmo, localizada na Praça

Irmão Dantas, em Piracuruca – Piauí.(Foto: Moraes Brito para o Jornal da Parnaíba)

 

Altar da Capela de N. S. do Mont Serrat, em Parnaíba, primeira padroeira de

Parnaíba, permanece com uma réplica da imagem esculpida pelo parnaibano Charles Santeiro

(Foto: Moraes Brito para o Jornal da Parnaíba)

 

      Após as ações de Leonardo de Sá, em 1699, nos vales dos rios Pirangí e Igaraçu, os gentios de corso entraram em luta com posseiros luso-brasileiros, na serra da Ibiapaba e vale do rio Aribê, que no Piauí recebe o nome de Piracuruca. Para resolver a situação, foi destacado o cabo de guerra João Pires de Brito, que, em 1701, participava como Sargento-Mor da tropa de Manuel Álvares de Morais Navarro, na guerra dos bárbaros na Paraíba e Rio Grande do Norte.

     Daí, o loco-tenente Fernão Carrilho, foi autorizado pelo governador do Maranhão D. Manoel Rolim de Moura a povoar e construir uma casa forte próxima ao Ceará, fato noticiado em 24/08/1702,  que provocou manifestação do Conselho Ultramarino, através de uma consulta a respeito desse evento, com data de 30 de janeiro de 1703, a favor da administração através da Capitania do Ceará[subalterna à Pernambuco], dando início ao avanço desta no litoral[Barra do Coreaú-Barra do Igaraçu] que pertencia ao Maranhão, portanto era área litorânea do atual Estado do Piauí.  Ver Doc. Maranhão: AHU_ACL_CU_009, Cx. 10, D.1055.

    Após a submissão dos nativos na já chamada Região da Parnahiba, os jesuítas da Ibiapaba, passaram a atuar com mais continuidade no norte do atual estado do Piaui. Foi quando, o Padre Domingos Ferreira Chaves, Prefeito das Missões do Ceará, solicitou em 11/03/1703, ao então Capitão-Mor do Ceará – Jorge Barros Leite - 40 índios para vir em missão à Parnahiba, conforme atesta o documento a seguir:

 


     

      Após 1703, com a chegada à região da Parnahiba, de João Gomes do Rego, preposto do Coronel Pedro Barbosa Leal, titular de terras nas margens dos rios Parnahiba, Igarassu e Pirangy, e a instalação de currais nas margens desses rios, incluindo o Longá, potencializaram a criação de gado pronto para abate e ou apto para venda nas praças de Pernambuco, Bahia e Pará. Os rebanhos eram tangidos para os seus pontos de vendas, pelas rotas de gado em caminhos longínquos e, durante os percursos em tempo duradouro, havia perdas de reses por extravios e mortes, ocasionando consideráveis prejuízos financeiros.

  Devido a essas dificuldades, João Gomes do Rego, preposto do empreendedor baiano Pedro Barbosa Leal, na administração de suas fazendas, iniciou timidamente a feitoria de salga da carne dos bois abatidos com o aproveitamento da courama, na beira do rio Igaraçu, no lugar que passou a ser conhecido como Arraial Novo.

 Dai, em 1608, foi iniciado o processo para a regularização de uma Villa, onde existia a feitoria, que, de acordo com as normas da época, teria na sua composição: o donatário Cel. Pedro Barbosa Leal, o Capitão-Mor João Gomes do Rego e um altar com a imagem de Nossa Senhora de Monte Serrathe, santa de devoção do proprietário do lugar.

 Seguindo os trâmites vigentes, a povoação teve três momentos distintos na sua criação, após a posse de Pedro Barbosa Leal:

1: Villa Nova – quando foi solicitada a patente de Capitão-Mor a João Gomes do Rego em 19/05/1708;

2: Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnahiba – data da solicitação e autorização para a construção da igreja em 11/06/1711;

3: Consolidação da Criação da Villa - confirmação de João Gomes do Rego, como Capitão-Mor em 16/11/1711.

 

A data de 11 de junho de 1711, quando foi autorizada a construção da Igreja de Nossa Senhora do Monserrathe, é uma das Datas Magnas da Memória da Existência da Parnaíba, através da Lei Municipal nº 2581, de 13 de agosto de 2010, sancionada pelo prefeito José Hamilton Castelo Branco, descendente de José Lopes da Cruz I e Florência do Monte Serrathe Castello Branco, esta um das filhas de João Gomes do Rego e Maria do Monte Serrate Castello Branco.

Já neste século, em 11 de junho de 2011, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba – IHGGP, apoiado pela administração municipal da época, promoveu ampla programação alusiva aos 300 anos da memória da criação da Villa, que hoje é a cidade de Parnaíba.

    O documento (PT/TT/RGM/C/0007/48211. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 7, f.541 v), publicados em primeira mão pelo pesquisador Reginaldo Miranda e os apresentados a seguir, mostram a parte legal dos fatos narrados:

LIVRO DE PROVISÕES DA SÉ EM SÃO LUÍS (MA)

                    


SOLICITAÇÃO DE JOÃO GOMES DO REGO PARA ERIGIR A IGREJA EM 1711

  


         Documento solicitando licença para erigir a Capela de Nossa Senhora de Monte Serrathe da Parnahiba, conservado no Bispado de São Luiz, Maranhão:

     O Coronel Pedro Barbosa Leal [...] senhor da Vila Nova da Parnahiba [...] bastante [...] geral administrador [...] Rego, que ele suplicante quer fundar na sua vila e bem assim [...] que ficava dentro dos termos [...] portanto [...] pede a V. Mercê [...] seu Governador do Bispado do Maranhão lhe faça [...] conceder [...] para poder erigir a dita igreja Paroquial para [...] nomear Pároco dela, como também dos Curados [...] receberem [...] concedemos licença ao suplicante para poder [...] Paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrathe [...] e dita Paróquia com todo o necessário de fábricas e o [...] para a dita igreja, na forma do Sagrado Concílio Tridentino. 

São Luiz,11 de junho de 1711. Barreiros

[Documento transcrito pelo Padre Cláudio Melo].

 

 

 

 

 AUTORIZAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA IGREJA

 




        Diante o exposto, nesta semana, a comunidade parnaibana contando com o apoio de alguns órgãos ligados à cultura, estará participando de eventos, que culminarão no dia 11 [sábado], celebrando 311 anos de Memória da Existência da Parnaíba, a nossa invicta cidade, como gosta de dizer o nosso quase centenário Dr. Lauro Andrade Correia.

PHB, 05/06/2022 – Vic.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Elmar Carvalho, Cidadão de Oeiras

Neander Francisco (autor da proposição) e Espedito Martins (presidente da Câmara Municipal) entregam a Elmar Carvalho o diploma do Título de Cidadão Oeirense

Elmar Carvalho entrega a Sthefano Ferreira o exemplar único da edição artesanal feita pelo poeta e editor Edson Guedes de Moraes, para ser custodiado pela Biblioteca Municipal de Oeiras
Flagrante da solenidade de entrega de Título de Cidadania Oeirense a Margarete Coelho, Igor Martins e Elmar Carvalho 
Capa do livro Oeiras na Alma e no Coração, de Elmar Carvalho, que foi entregue a todos os presentes na solenidade
Os três novos oeirenses: Elmar Carvalho, Igor Martins e Margarete Coelho

 

Elmar Carvalho, Cidadão de Oeiras

   

Benjamim Santos

Dramaturgo, escritor e poeta


Hoje, 6 de junho de 2022, o poeta Elmar Carvalho recebe o título de Cidadão Oeirense, a ser concedido pela Câmara Municipal de Oeiras, a mais carregada de História das cidades do Piauí.

Ah, que título bem doado! Que título a ser bem recebido!

Que eu saiba, nenhum outro escritor e poeta, não nascido em Oeiras, demonstrou oralmente e por escrito tanta afeição por esta cidade que foi a Primeira Vila/Cidade da Província do Piauí e também a Primeira Capital do Estado. 

Esse afeto do Elmar foi uma afeição derivada do forte impacto emocional que a cidade provocou no poeta, uma afeição que também me atingiu durante os (curtos) três dias em que estive em Oeiras, quando participei do Festival Cultural, coordenado pelo secretário municipal de cultura, Stefano Ferreira, muito bem assessorado pelo historiador Pedro Junior, que logo se tornou meu amigo; três dias em que Carlos Rubem, meu afetuoso Biu, me concedeu todas as singelezas oeirenses.

Percebo agora que o que causa essa intensa emoção ao visitante de primeira viagem a Oeiras é inicialmente a impressão-sensação de estar-se inserindo numa paisagem de clima ancestral, de intenso ardor histórico, pois tudo o que há de preservado da antiga Vila e Capital é tão assinalado por sua historicidade que nos faz, como em Ouro Preto, sentir-nos penetrando num certo passado do Brasil. 

Elmar, de início, fez-se brilhante ao escrever e publicar o Noturno de Oeiras, que considero um dos mais belos poemas da Literatura Brasileira referentes a uma cidade secular e que assinala um certo parentesco com o Romanceiro da Inconfidência de Cecília, mesmo sem métrica e sem rimas.

A mim, que também afundei na noite de Oeiras, os mistérios históricos que avassalaram Elmar também me atingiram. 

Hospedado em hotel diante da Praça das Vitórias, na Praça das Vitórias mergulhei no meu noturno de Oeiras: as mesmas paragens diante dos meus olhos, os mesmos fantasmas vistos por Elmar (ou talvez fossem outros mas com os mesmos mistérios), tudo me afetou por duas noites, minhas duas únicas noites de Oeiras, guardadas em mim por estes vinte anos de século vintium.

Por isso, saúdo hoje meu amigo Elmar Carvalho por seu titulo de filho de Oeiras e, sobretudo, saúdo Oeiras por seus tantos séculos de brasilidade,  essa Oeiras do meu parnaibano bem querer, Oeiras que há vinte anos habita meu coração!   

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Elmar Carvalho recebe hoje o Título de Cidadão Oeirense

 



Elmar Carvalho recebe hoje, na Câmara Municipal de Oeiras, o Título de Cidadão Oeirense, em solenidade híbrida (presencial e virtual), às 19 horas. A honraria foi uma proposição do Vereador Neander Francisco da Silva Moura. 

O homenageado encerrou sua carreira de Juiz de Direito como titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Oeiras, ao aposentar-se em 19 de dezembro de 2014, com mais de 39 anos de serviço público. Seu poema Noturno de Oeiras se encontra afixado em placa metálica no prédio do Fórum local.

A solenidade será transmitida (ao vivo) pelas plataformas:

You Tube: @camaramunicipaloeiraspi

Facebook: @camaramunicipaloeiraspi   

domingo, 5 de junho de 2022

Rompimento

Fonte: Google/Pinterest

 

ROMPIMENTO


Elmar Carvalho

 

Dedo em riste,

muito feroz e muito triste,

o homem, grosso e imundo, falou:

– Lembra-te, tu já lambeste meu cu!

A mulher, com gestos abstratos

feitos do mais singelo recato,

elegante e delicada, retrucou:

– Lambi, mas não lambo mais ...

O homem quedou-se transformado

em pesada estátua de pedra e dor.

A mulher se foi

            leve e evanescente –

anjo que se libertou.

sábado, 4 de junho de 2022

Visitante ilustre

Felipe Mendes no hall do Hotel Moisés Reis (SESC/Oeiras), ao lado de uma placa com o poema Noturno de Oeiras, de Elmar Carvalho


Visitante ilustre 


Carlos Rubem 



Hoje pela manhã (04.06.2022), tive o prazer de recepcionar o economista Felipe Mendes, que dispensa apresentação, mas não me furto de dizer que se trata de um velho amigo de Oeiras.


Juntamente com o seu sobrinho Marcos Mendes, Juiz de Direito da nossa Comarca, o encontramos no Posto Santa Isabel, cujo proprietário, Batista Barroso, deu-lhe boas vindas.


Em seguida, adrede agendado, fomos conhecer a SAMEL, destacada, nacionalmente, empresa de exportação de mel. Pena que o conterrâneo Samuel Araújo, dono desse grande empreendimento, não pode nos receber, uma vez que está em Luís Eduardo Magalhães, Bahia, participando de uma feira do ramo agronegócio.


Levei-o, também, a conhecer Maurício Araújo, 82 anos, que, apesar de sua cegueira, continua na labuta de sua serraria. Pai do Samuel. Aprazível figura humana!


O ilustre visitante veio à nossa cidade para assistir a inauguração do Memorial Major Doca Nunes, na noite de hoje, e, amanhã, fazer a cobertura fotográfica da nossa tradicional Festa do Divino.


Na segunda-feira vindoura (06.06), proferirá uma palestra, às 10h, no IFPI - Campus de Oeiras, subordinada ao tema “Desenvolvimento do Piauí: realidade e perspectiva”. Na oportunidade lançará dois livros: “Políticas Públicas para o Desenvolvimento do Piauí (1976 - 1986)” e “ Economia e Desenvolvimento do Piauí”. Este evento ocorrerá sob a chancela da Fundação Nogueira Tapety - FNT.


À noite da mesma segunda-feira, prestigiará a solenidade de entrega do Título de Cidadania Oeirense ao poeta Elmar Carvalho, seu colega da Academia Piauiense de Letras.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O boi de paneiro


 

O boi de paneiro


Pádua Marques

Romancista, contista e cronista

 

Chegando junho lá íamos nós os meninos, agora se avizinhando as férias do meio do ano nas escolas, à procura de paneiros ou caixas de papelão ainda em bom estado pra se fazer o boi e sair dançando embaixo como faziam os homens grandes. Porque naquele tempo ainda se achavam paneiros e caixas velhas nas portas das quitandas e dos armazéns lá de dentro da rua.

Agora já não havia mais perigo de chuvas, que naquela altura do ano ficaram pra trás em maio e já se sabia onde haveria de ter aluá. E a gente saía procurando caixa de papelão das grandes, paneiros, pedaços de varas pra montagem do esqueleto de nosso boi. Depois vinha a cobertura, um pano qualquer de chita, limpo, de bom uso e sem buracos ou até uma rede de dormir. Depois eram colocados os chifres, que podia ser um pedaço de vara, um mulambo pra o rabo, feita a pintura, essa última quando se podia,

Mas voltando pra armação, o paneiro era o melhor esqueleto pra um boi de meninos porque era feito de palha de palmeira, daqueles que as embarcações traziam com farinha de puba ou farinha branca, vindas da Água Doce e da Tutoia, das brenhas do Maranhão.

Tinha uma ciência a escolha do paneiro de palha, uma engenharia de meninos. É que o paneiro tinha naquele tempo, pouco mais de um metro. A boca com a sua abertura larga e flexível, se ajustava direitinho, tinha molejo e até facilitava a capa de cobertura e a entrada do dançarino pra dentro do boi. E qualquer um de nós, geralmente o mais afoito e resistente, era o escolhido, o que iria brincar o tempo todo embaixo quando a gente saísse pela rua e aos gritos e cantorias e toques de tambores e maracás de lata.

E aquela brincadeira e cantoria dos meninos chamava gente nas portas das casas e nas quitandas. E às vezes até que de dentro de alguma delas saía alguma pessoa de bom coração pra abrir a burra e nos dar uma cédula de dinheiro, que mais lá na frente iria servir pra compra de bombom ou um pedaço de rapadura, uns traques pra se soltar perto das fogueiras grandes de Santo Antonio, São João e São Pedro.

E os maracás feitos de latas de goiabada, de lata de Leite Ninho, lata de sardinha, cheias de pedrinhas de piçarras, tudo aquilo iria se juntar aos tambores feitos de caixas de papelão mais resistentes e que pudessem aguentar pancada por um bom tempo. E a gente saía no início das noites pelas ruas cantando e o boi dançando e as mulheres e as crianças vinham ver aquele boi de meninos, com seus caboclos reais, o Pai Francisco, o Amo, o Folharal e a Catirina.

A Catirina no boi de meninos era a personagem mais difícil de se conseguir. Tinha que ser um menino sem vergonha de se vestir de mulher e de pintar a cara, colocar um pano na cabeça. Mas acabava dando certo naquele que também mostrava alegria e improvisação. Aí vinha o Folharal, seu companheiro de estripulias, fingindo e forçando grossura na voz, armado com uma bola de meia pra assustar e afastar as pessoas, a figura mais temida pelos meninos pequenos e as moças.

Era se ouvir longe uma batida de tambores e caixas no início da noite e todo mundo já sabia reconhecer que era um boi de meninos. E os apitos, as vozes finas e gritantes com algumas mães ou pais até acompanhando aquele cortejo, lá se danavam pelas ruas dos bairros mais próximos, procurando contrato pra dançar uma meia hora nalguma porta de casa ou quitanda, enquanto o boi dos homens feitos, mais solene e rico, mais bem acabado vinha em outro dia ou mais tarde, principalmente nos dias consagrados aos três santos de junho.

E os donos da casa, as mulheres, os vizinhos, as moças, os velhos de barbas por fazer, naquelas noites de junho eram de ficar ali, de queixo caído, vendo aquela destreza e alegria dos meninos, a cantiga de Pai Francisco, a dança, os rodopios do boi de paneiro. E as crianças pequenas querendo correr com medo do Folharal ou até por maiores cuidados das mães, vinham tocar nos chifres daquele objeto esquisito.

Passada a dança e pago pela apresentação, sempre uma cédula de pequeno valor, o boi saía, ganhava a rua com seus caboclos reais, seu Pai Francisco, o Amo, Folharal e a Catirina. Iam à procura de um novo terreiro de casa, um lugar pra sua nova exibição. Antes das dez da noite, era pra estar todo mundo em casa e dento da rede. E o boi de paneiro iria dormir lá nos fundos da casa ou encostado na parede da cozinha pra o quintal. Iria noutra noite escura sair pelas ruas levando barulho e alegria enquanto durasse o mês de junho.   

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA BELA ESCULTURA

Foto: Elmar Carvalho

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA BELA ESCULTURA


Elmar Carvalho


Vítima de brutal “engarrafamento”, na sexta-feira passada, fiquei preso no trânsito, exatamente no balão do cruzamento das avenidas Universitária e Raul Lopes. Em lugar de me debater e espancar o volante, ou proferir imprecações contra tudo e contra todos, como muitos fazem, optei por ficar observando, detidamente, a escultura instalada na rótula. Não tenho certeza, mas acho que ela foi produzida pelo grande artista Carlos Martins, falecido em 2013, autor de outras magníficas obras.

É feita de arame, peças de ferro e vergalhões metálicos. É bela e imponente em sua singeleza. É como se fora uma catilinária ou verrina metálica contra os conquistadores e os preadores e matadores de índios. O vencedor montado em grande e robusto corcel, em pose típica das estátuas equestres, puxa com uma corda um prisioneiro, naturalmente derrotado na refrega, e que será escravizado. O enorme corcel passa sobre corpos tombados. Seu chapéu produz grande efeito plástico, pois parece o próprio Sol com os seus raios incandescentes.

No simbolismo do monumento, o cavaleiro, na concepção dos nativos, poderia ser a própria encarnação do deus-sol, pois possuía o estrondo e o raio de armas de fogo. Conduz na destra enorme lança, que faz lembrar os heróis das pelejas medievais e os cavaleiros andantes da idade média. Mas apenas aparentemente, porque na verdade ele simboliza os chamados heróis da conquista, como os bandeirantes paulistas e os homens da Casa da Torre da Bahia.

Entretanto, hoje se sabe que muito do morticínio das chamadas conquistas se deve a doenças transmitidas aos nativos americanos pelos europeus, inclusive e talvez principalmente pelos espanhóis. Contudo, essa pecha de violência não é um “privilégio” e exclusividade de portugueses e espanhóis, mas também de ingleses, franceses, holandeses e outros povos, pois onde quer que tenha havido invasões, conquistas, houve entrechoque de civilizações, com a consequente reação dos invadidos, dos conquistados.

Hoje, como todo mundo sabe, o Brasil é essa fecunda miscigenação, com essa diversidade e riqueza cultural, e esse caldeamento de raças, que possibilitou o surgimento da beleza morena, que nos encanta e encanta o mundo. Não houvera acontecido o que aconteceu, hoje o Brasil seria, talvez, ainda um paraíso selvagem, intocado, com os indígenas caçando, pescando e colhendo suas frutas nativas. Foi pior? Foi melhor assim?

Deixo a resposta aos latifundiários da verdade, aos doutos, aos exegetas, aos proprietários das certezas absolutas. Aos que não aceitam o que somos ou o que nos tornamos, resta-lhes o consolo de que podem se despir, envergar uma tanga, armar-se de arco e flecha e tentar ser admitidos em alguma tribo do Xingu ou do Amazonas. No entanto, devo lhes recordar que o maior cantor indianista do Brasil, o grande bardo Gonçalves Dias, tinha orgulho de carregar em suas veias a mistura do sangue de três raças: a negra, a indígena e a branca.

Mas a bela e significativa estátua pode ser um libelo de fogo contra todos as formas de dominação, como o patrão que espolia o empregado, o marido que tiraniza a mulher, o pai que sevicia o filho, o governante que tripudia sobre o povo que o elegeu... Tenho a esperança de que algum dia todos seremos irmãos, sem dominadores e dominados, sem conquistadores e conquistados.

Ainda é possível sonhar e nutrir esperanças. No momento em que eu contemplava a escultura, um forte vendaval a fez oscilar, e tive a nítida impressão de que o cavalo, o cavaleiro e o prisioneiro ganhavam a vibração da vida. A vida que deve perpassar toda verdadeira obra de arte.

22 de março de 2010

quarta-feira, 1 de junho de 2022

O COMPLEXO DE ÉDIPO NA OBRA DE O.G. RÊGO DE CARVALHO *



O COMPLEXO DE ÉDIPO NA OBRA DE O.G. RÊGO DE CARVALHO *

 

José Expedito Rêgo


Matéria publicado por Carlos Rubem em grupo de WhatsApp, que lhe pôs a seguinte nota:

Estaria, hoje (01.06.2022), completando 94 anos, o médico e escritor José Expedito Rêgo, oeirense de quanto costados. 

Em homenagem à sua memória, transcrevo, a seguir, o artigo:

 

 

Dizem que a Psicanálise está decadente. Pode ser. Mas os ensinamentos de Freud continuam influindo na Psicologia e na Psiquiatria modernas. Talvez tenha havido exageros em sua Teoria Sexual, mas ela, no fundo, permanece válida e atuante.

 

Patrick Mullahy, em seu livro “Édipo – Mito e Complexo”, edição de 1975, afirma: “Ao fundar e desenvolver a Psicanálise, Sigmund Freud iniciou um movimento que penetrou e enriqueceu tantos campos do pensamento e do comportamento que seria sobremodo difícil enumerá-los todos aqui. Alguns desse campos são, além da Psicologia e da Psiquiatria, a Sociologia, a Antropologia, a Mitologia, as Belas Artes, a Religião, a Filosofia, a Educação. Sua influência já se aproxima da de Darwin e Marx. E essa influência continua aumentando.

 

Todos os pós-freudianos subiram nos ombros dele. Se podem ver mais longe do que Freud – pelo menos alguns deles – foi porque ele lhes apontou o caminho, primeiro que ninguém.

 

Depois de mencionarmos semelhante fato, afirmar que Freud era um gênio parece quase trivial”.

 

Ainda Mullahy: “De modo geral, a teoria psicanalítica fez magníficos progressos nos cinqüenta ou sessenta anos de sua existência. Freud, evidentemente, permanece como a mais imponente figura individual, embora, como é sina de todos os grandes inovadores e pioneiros, muito de sua obra tenha sido ultrapassado por formulações mais refinadas”.

 

Recordemos a Lenda de Édipo, para os que não estejam de todo lembrados: Herói tebano, filho de Laio, rei de Tebas e de Jocasta, Édipo nasceu depois que um oráculo profetizou a Jocasta que o filho a desposaria, após assassinar o pai. Laio mandou abandonar  menino no monte Céteron, com os pés feridos, esperando que ninguém quisesse receber uma criança inválida; todavia, salvo por pastores, foi educado por Políbio, rei de Corinto, que ele julgava ser seu pai. Chegando à idade adulta, conheceu, pelo oráculo de Delfos, o destino a que estava prescrito; para evitá-lo, quis fugir de Corinto: no caminho para Fócida assassinou, após discussão, um viajor desconhecido, sem saber que estava matando Laio. Em Tebas, encontrou o país devastado pela Esfinge, que propunha enigmas aos que passavam e devorava aqueles que não conseguiam resolvê-los; o monstro propôs-lhe um enigma, que Édipo resolveu e, como prêmio, casou-se com Jocasta. Revelada a verdade sobre a relação incestuosa, Jocasta enforcou-se e Édipo, desesperado, vazou os próprios olhos.

 

Para Freud, o mito e o complexo de Édipo são universais. Westermarch não aceita esta universalidade, entre outros. De acordo com o mestre de Viena, esse complexo, pelo qual todo indivíduo passa na mais tenra infância, é superado na grande maioria das pessoas. A não superação resulta na neurose. Os psicanalistas freudianos pensam que o artista é um frustrado e a obra de arte, como a poesia, é uma sublimação. Não sabemos se o poeta cria porque é frustrado ou se é frustrado porque cria. Melhor dizendo, o poeta sublima seus desejos frustrados ou seus desejos são frustrados porque sublimes?

 

O complexo de Édipo é visível em autores de renome como Érico Veríssimo. Em Solo de Clarineta vemos o filho falar do pai irresponsável, pelo qual tem aversão e indiferentismo.

 

Orlando Geraldo Rêgo de Carvalho nasceu em Oeiras, “cidade colonial famosa por seus poetas, músicos e loucos” no dizer do próprio escritor. Em formoso poema, cheio de inspiração e sensibilidade, ele fala das “verdes quintas do Mocha’ que nãodeseja rever, para guardar melhor a imagem da infância. É o romancista piauiense de maior repercussão no Brasil e sua obra já é conhecida fora do país, ao menos em Portugal e nos Estados Unidos. Suas personagens são todas marcadas pela neurose e, em muitos trechos de sua notável obra literária transparece claramente a marca do que os psicanalistas chamam complexo de Édipo. Relendo seus três livros, Ulisses entre o Amor e a Morte, Rio Subterrâneo e Somos Todos Inocentes, anotamos algumas dessas passagens, em que o ódio ou o medo ao pai e o amor sexual à mãe aparecem nas relações entre ao personagens. Comecemos pelo primeiro.

 

ULISSES ENTRE O AMOR E A MORTE

 

Página 3 – “Pouco me importava o regresso. Queria estar logo diante de minha mãe para receber sua benção e, em seguida, me deitar”.

 

Página 4 – “A senda era íngreme, ora rompendo mato, ora pulando grotas e a percorri sem desfalecimentos, ansioso por abraçar mamãe. Esta se achava na porta esperando por mim.

 

...fui deslizando até a copa onde defrontei meu pai. Seus olhos fitaram-me sem brilho, e deles me tornaria presa, as mãos frias de medo, se mamãe não me empurrasse, chamando-me:

 

–Não quer cear, filhinho?

 

 

Notando-me indisposto ela me deu um copo de leite, ainda morno, ao mesmo tempo em que me beijou na testa.

 

 

Insone ainda, meu filho? – ecutei papai dizer, num de seus instantes de tranqüilidade.”

 

Página 9: Diálogo com o pai:

 

“– É verdade que nos deixa hoje? – inquiri – Mãezinha acaba de dizer.

 

Meu pai ergueu o corpo suado e me encarou, firme:

 

– Se disse é porque vamos mesmo.

 

A ver-me retirar em silêncio, chamou-me:

– Espere – falou mais brando – você não irá embora por isso, não é? Logo estarei de regresso, deixando de ser ruim”

 

Página 10: “Como nada restasse, ela me abraçou aconselhando que fosse bonzinho, no que foi imitada pela mana. Papai se despediu por último e, ao fazê-lo, se limitou a apertar-me a mão, fitando-me demoradamente.”

 

Ainda na Página 10:

 

“Passando apenas um segundo, eu sorria para abraçar os velhos. Apertei-os carinhosamente e esperando que houvesse júbilo de sua parte. Mas me enganei: nada disseram e se limitaram a beijar-me a testa.

 

– Sentem-se direito – falou a seguir minha mãe, contrariada ante nossa inquietude.

Que agradável ouvir sua voz novamente, pensei comigo.”

 

Página 18: Descrição da morte do pai:

“Quente era a manhã, em julho, quando meu pai se deitou, as pálpebras baixando. E puro, e distante e feliz, encarou o céu e o tempo.”

 

Às páginas 21 e 23 o menino passa a ter “aparições do pai, depois de morto”. Complexo de culpa?

 

RIO SUBTERRÂNEO

 

Segundo Homero Silveira, “este é o mais desesperado livro que se escreveu no Brasil”, Vejamos.

 

Página 3: “José, pai de Lucínio, não suporta ver o filho nas crises de loucura periódicas.”

 

Página 8: “Assustadora, a certeza de que aquela porta [do quarto do pai] nunca se abriria [para ele, Lucínio], enquanto seu  pai estivesse doente.”

 

Página 29:

“... Nada se movimenta no sítio, exceto a ramagem nova ou tenra, a cancela que range em surdina como se alguém a abrisse. Rápido, o cachorro desperta, levanta as orelhas e corre ao portão. Não late, nem estranha a figura silenciosa que vem na penumbra da aléia. Lucínio emociona-se, o medo imobiliza-o. Não pode ver o homem que se aproxima.

Sente: é seu pai.”

 

Página 37: (atração pela mãe da namorada):

“Ele olha para a Dona Judite, para o seu rosto moreno claro, a sua boca sumarenta, que sorri, o decote da blusa amarela, que realça os seios aparentemente duros, para os braços roliços, a pele sedosa como a de uma adolescente: e estremece, sentindo-se observado.”

 

Página 42:

“A mãe de Afonsina [Dona Judite] pegando na costura aconselha-o a ter prudência, a refletir: “Mulher se escolhe pela raça”. Ao que respondeu, com os olhos nos braço dela. “Quanto a mim, não me importaria se minha sogra viesse poupar-me a contingência durante a gravidez da filha”

 

Página 81:

“A missa está findando quando, bruscamente, aparece o pai de Landinho. Todos o vêem; um murmúrio corre a nave. O ébrio cambaleia entre a multidão e sobe as escadas. Uma vez tropeça e quase despenca. Ao acercar-se dos músicos, o coro emudece. Somente o menino continua cantando, alheio à presença do pai. Mas ao vê-lo ameaçador, olhos exorbitantes, riso escarninho, recua e empalidece, a voz esmagada no peito.”

 

´Página 119: (ainda Hermes e D. Judite):

“A voz e o perfume eram de Judite. A sua aparição inesperada encheu-o de júbilo; na presença dela mal se continha. Fitou-a enternecido. Um véu negro contornava-lhe o rosto suavemente, realçando-lhe a formosura. Não Judite com os joelhos à mostra, a despertar fantasias, senão uma Afonsina mais velha mais excitante, mais envolvente, olhos rasos de ternura.

– Afonsina já acordou? Eu ia agora pra lá.

Ela deu a mão, sorrindo afetuosamente.

– Matutava ali, sem vê-lo: por que Hermezinho nunca namorou? Alguma paixão secreta? Os estudos? Não compreendo, meu filho, que um jovem tão... Deixa-me chamá-lo de filho?

– Sim, mas numa condição.

– Proíbo-o de roer as unhas, não é?  Estão no sabugo.

– Não, Judite. Quero apenas que ao me tratar assim se esqueça de é mãe. Faça-o por carinho ou despreze – E brincando com as palavras: sinto que eu gosto de você.

Judite suspirou, empalidecendo. Arfava.

– Você está se declarando, Hermes! Que não diria Afonsina?

Ela se afastou, na emoção do momento.

– A culpa não é minha, Judite. Nem sua. Aconteceu. Não posso recusar o que me pede o coração. Há meses que me domino.

– Doido! Não vê que não é possível? Uma loucura.

– Que importa? – Prendeu-lhe as mãos úmidas. Se não me quer, ao menos me permita amá-la. E me perdoe.

Ela repetiu, sem um jeito de reprovação:

– Oh menino, que loucura...que loucura...”

 

Página 129:

“... Vira o colo [da mãe], reparara nele intensamente, comparando-o ao de Afonsina: um, peito murcho, o outro, em pleno viço. Com que propósito o fizera? Aparentemente nenhum. Todavia, porque só hoje desvendara o sexo da mãe? Cabeceou, para afastar o pensamento. Uma sensação de incesto, de desejo oculto no imo, angustiava-o, enchia de repugnância e medo.”

 

Página 164: (Complexo de Electra invertido: mãe que odeia a filha):

“Por isso nunca me afeiçoei a Helena, jamais a quis verdadeiramente”

 

SOMOS TODOS INOCENTES

 

Nesse livro as personagens femininas são todas dóceis, bondosas, carinhosas; há apenas uma velha rabugenta e de caráter dominante, mãe do herói da novela (caráter dominante das mães, é sabido, dificulta o rompimento do cordão umbilical psíquico e conseqüente superação do complexo de Édipo, trazendo a maturidade afetiva)

O herói do romance, um jovem médico chamado Raul é egoísta e sensual. Fica indeciso entre o amor de duas jovens da primeira sociedade. Engravida uma moça de família humilde e nega-se a casar com ela, por não ser da mesma laia. Sugere uma solução para o caso: o aborto criminoso.

 

As personagens masculinas do livro, principalmente as mais idosas, são todas homens rancorosos, mesquinhos ou caducos. Logo no segundo capítulo vemos José, pai de Dulce, inimigo figadal da família de Raul, namorado da filha, matar de cansaço uma égua, numa cavalgada desesperada da fazenda para a cidade, por sentir-se pobre e arruinado e morre de desgosto porque a filha vai a um baile na casa da família inimiga.

Vejamos agora algumas passagens:

 

Página 58: (variação do Complexo de Édipo):

 

Dr. João Mendes, Juiz de Direito, sente ciúmes da filha, Maria do Amparo, porque ela vai ficar noiva.

 

Página 119: (Cena entre Raul, o jovem médico e o avô doente. Caduco e guloso, querendo comer alimento proibido):

– Quer morrer? Pois então morra. (Ergue-se dramaticamente). Vou sair, mamãe, para providenciar o enterro.”

 

Página 157: (Cena de Sadismo): Seu Ernesto, velho farmacêutico, ao atender a moça que Raul infortunara, por ocasião de um aborto [espontâneo], deixa de dar anestesia, aplicando-a somente depois que a paciente sofre um bocado, alegando que ela precisava redimir-se dos pecados cometidos.

 

Página 166: O avô de Raul elogia o pai deste, dizendo que tinha uma têmpera de homem. Raul leva na troça o elogio ao pai e o avô parte com ele;

“– Cachorro o que você é! E ainda desfaz da família.

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 E ri, que desfaçatez1 Vive enganando as moças e nem respeita a memória do pai.”

 

Página 183: (Cena com Dona Nini – caráter dominador):

 Dona Nini, em frente ao sobrado, de vestido escuro, com um punhal no cinto. Seu semblante exprime ódio, decisão de lutar: a boca comprida, com o suor a escorrer no buço, os olhos semifechados, fixos em um ponto longínquo:

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“ – Nem pense. O senhor devia é ter vergonha de ser covarde. Um homem desse!”

 

São essas as anotações que fizemos da obra de O. G. Rêgo de Carvalho tentando mostrar a ocorrência do Complexo de Édipo nas personagens por ele criadas. Este não é um trabalho de crítica. Temos enorme admiração por este romancista oeirense, menino do nosso tempo na velha terra mafrensina  e, se algum mérito tiver este despretencioso alinhavado de estudo, que seja apenas o de divulgar o mais possível o nome desse piauiense ilustre, que não recebeu, ainda, de seus conterrâneos, a devida consagração.

 

Floriano, 11 de abril de 1980

* Inserto da Revista da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional do Piauí. Ano 1986 – nº 02.

TÍTULO DE CIDADÃO OEIRENSE

 



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