segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Eça de Queirós, o Contador de Urubus e o meu solar de Torges

 

Fonte: Internet

Eça de Queirós, o Contador de Urubus e o meu solar de Torges


Fabrício Carvalho Amorim Leite (*)


A saudade, ou a necessidade de um refúgio bucólico, trouxe-me, nestes dias, a ler o agradável conto Civilização, de Eça de Queirós, para, igualmente, viajar através de seus personagens.

Por vez, em resumo, a história narra, dentre outras passagens, a vida de um fidalgo português e culto chamado Jacinto.

Este, estressado com a vida urbana e suas parafernálias tecnológicas para época, como a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone e outros, decide realizar viagem a sua propriedade rural.

Eça chamou-a de solar de Torges, situada num povoado do mesmo nome na zona serrana de Portugal.

Acontece que, por um infortúnio, a maior parte da grande bagagem da comitiva não pôde chegar na propriedade e o fidalgo português e sua suntuosa comitiva tiveram que realizar uma rústica estadia sem os luxuosos mimos encomendados.

Entretanto, de tudo não foi perdido, porque o personagem Jacinto, passado o choque por sair da “civilização”, até que gostou da simplicidade do local, sem os luxos e frivolidades da cidade.

E, trazendo um pouco para mim, inspirado no conto acima, não que eu seja um fidalgo ou alguém parecido, como o personagem de Eça. Por isso, é que recentemente fiz uma viagem ao pequeno povoado de Mundo Novo dos Amorims, em Esperantina/PI, fundado a duro trabalho, entre os anos 1900 e 1920, por membros da minha família.

Chegando no “meu solar de Torges”, logo notei que o estimado e lúcido anfitrião José, de quase 90 anos, sabiamente, não possuía um celular, ou esta geringonça, como fala.

Por bisbilhotice, perguntei-lhe que horas jantava:

— Religiosamente, 4 horas da tarde. Disse-me, de forma taciturna.

Admito que achei estranho, como homem “ supercivilizado” que sou, alguém jantar às 4 h da tarde, mas imagino que seja um antigo hábito local.

E a sua ocupação principal? Indaguei.

— Assistir novela e jogos de futebol.

Aí vi um certo costume da “civilização”, por ser adepto da televisão. Menos ruim.

Em seguida, silenciosamente, aplicando uma tática metódica, hábil e paciente, pus-me a investigar a fundo os hábitos de seu José.

Depois de muita observação, notei que este, como o famoso Jacinto, de Eça, tinha ao entardecer, ao contemplar o horizonte, um inusitado momento de “doce paz crepuscular”.

E, não sei se é comum na região, - o que será objeto de futura investigação -, ou só do meu anfitrião, mas soube que era um hábito antigo dele contar o número de urubus.

Sim, urubus! Podiam ser bem-te-vis, xexeús, corrupiões .... Porém, ele gosta mesmo é de contar os afamados abutres.

Diante deste estranho hábito, para um “supercivilizado”, fiquei mais curioso ainda, pois, para a maioria das pessoas da “civilização”, os urubus são aves feias, nojentas, avarentas e comem carniça. Ou seja, possuem, há séculos, uma enorme má fama.

Por isso, com extrema cautela nas palavras, e para buscar mais detalhes do digno ofício, fui falando-lhe, de forma geral, sobre aves, como são bonitas... vistosas...livres...úteis para o mundo...

Tive o cuidado de não discorrer a respeito de futebol, porque o símbolo do Flamengo é um urubu, para não lhe causar certos melindres...desconfianças na séria investigação em andamento...

Já ao entardecer, notei que meu anfitrião, em sua privativa cadeira reforçada de fitilho azul-celeste, ficara calado, imóvel e olhava de forma fixa - praticamente, sem piscar - para uma grande árvore sem folhas no horizonte.

Tinha ali uma verdadeira feição austera de paz contemplativa, como, também, senti. E compartilhei o momento, por empatia e prazer.

Achei por bem não intervir e nem puxar conversa, porque poderia, de vez, estragar o sagrado ritual vespertino em curso. Ou, até mesmo, ser convidado a sair de seu observatório privado.

Por volta das sete horas da noite, ao que percebi, como amador e curioso na nobre profissão, a urubuzada estava toda empoleirada. E, pensei: agora é a vez da minha pergunta final:

Seu José, quantos urubus o senhor contou hoje?

Alguns minutos se passaram, como fosse uma eternidade, abstraindo profundamente, ele olhou para mim e disse:

— Ah, meu caro! — Exclamou ele. — Esta cerimônia de contagem faço mentalmente, por satisfação mesmo.

— E tenho medo que se eu revelar o segredo da contagem do número de urubus da árvore fique azarado...amaldiçoado...doente... — Completou.

Então, compreendendo a arraigada superstição, encerrei a conversa, desejando-lhe uma boa-noite.

Azar ou mau agouro? Pensei. O hábito pitoresco de contar urubus, por certo, não lhe causou males, porque o anfitrião tinha quase 90 anos com a saúde ótima e invejável.

Com certeza, é um método antigo, eficaz e secreto de meditação ou de “doce paz crepuscular” encontrado, ponderei.

Porém, depois de muito refletir a respeito, conclui, no meu inquérito particular, que o seu José deve ser um dos únicos contadores de urubus da região ou do mundo, o que o torna valiosíssimo para a natureza e humanidade.

Bem que um perito em observação de urubus (ou em contagem do número deles) é imprescindível, pois são aves muito importantes para a limpeza do ecossistema. De fato.

Só sei que, mesmo não me revelando os segredos do ofício, caso, subitamente, a urubuzada surja doente, meu proativo anfitrião, com certeza, irá repassar a grave notícia às autoridades da “civilização”.

De qualquer forma, passada a minha estadia no campo, percebi que o seu José pode buscar refúgio — e enxergar beleza — na simples contemplação da natureza.

Nem que seja num momento de paz para contar docemente o número de urubus ao empoleirarem-se numa árvore desfolhada...

Diga-se, paz esta como Eça narra:

“Àquela hora, decerto, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boieiros. ”

Por isso, no próximo mês regressarei para o “meu solar de Torges”...

(*) Advogado e escritor.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Seleta Piauiense - Elmar Carvalho

Fonte: Google

 

NOTURNO EM DOR MAIOR


Elmar Carvalho (1956)

 

na noite ca’lad(r)a

        um cão ladra

        sem resposta

um galo canta

sem o eco doutro galo

um vaga-

lume vaga

sem lume

vaga-

            rosa/mente

            demente

na noite vaga

uma ave

noctívaga

navega

na vaga

do m’ar sem movimentos

nos cataventos

      sem ventos

e de mirantes

        sem mira/gens

a morte espreita

nos olhos vidrados

do enforcado.  

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Discurso do Dr. Moisés Reis em recepção aos confrades da APL

No entorno do busto do Visconde da Parnaíba, vê-se os acadêmicos: Francisco Miguel de Moura, Magno Pires, Reginaldo Miranda, Pe. Tony Batista, Moisés Reis, Plínio Macedo, Fonseca Neto, Des. Oton Lustosa e Elmar Carvalho




DISCURSO DE RECEPÇÃO, EM OEIRAS, AOS CONFRADES E CONFREIRAS DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS- APL- POR OCASIÃO DAS COMEMORAÇÕES DE DUZENTOS ANOS DA ADESÃO DA CAPITAL PIAUIENSE/OEIRAS À INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

[Moisés Reis]

Senhoras e Senhores

Com muita satisfação e grande lisonja aceitei o prazeroso encargo, deferido pelo nosso Instituto Histórico, para dar as boas-vindas aos ilustres confrades da Academia Piauiense de Letras que, estrategicamente, planejaram visitar a terra oeirense, neste momento em que se comemora a data em que os heróis desta invicta cidade, ombrearam-se, forjados sob o sentimento de grande civismo, para dar e garantir o contributo da terra mafrensina e do Piauí em prol da independência do Brasil.

De fato, prezados Confrades e Confreiras, a “cidadela do espírito”, no dizer dagobertiano, esse oeirense de escol, nosso confrade e um dos grandes mentores do nosso Instituto Histórico, que por motivos de saúde, aqui não pode comparecer, honrando-me com mandato de representação; esta cidadela do espírito, que “fundada sob os auspícios do Bispado de Olinda, desmembrada da mais ocidental das paróquias pernambucanas, de então de Nossa Senhora do Cabrobró, é o marco institucional e primeiro e definitivo da

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criação do hoje Estado do Piaui” ́, como bem anotou o nosso confrade Fonseca neto;1 esta querida Oeiras,2 “nascida nos sertões de dentro, Capital do mando de outrora, capital perene das tradições do Piauí”, em candente qualificação por um dos maiores baluartes da Academia Piauiense de Letras - Arimatea Tito Filho, se sente profundamente honrada ao acolher os ilustres Membros da Academia à frente o nosso Presidente- Zózimo Tavares.

A honra de recebê-los em nossa cidade, caríssimos Confrades e Confreiras, se avulta sobranceira, ainda mais, pelo fato de que se trata de momento de grande relevância, eis que na história centenária da Academia, pela primeira vez, ocorre o deslocamento de sua sede, privilegiando Oeiras, já vinda de S R Nonato, em visita ao Parque Nacional da Serra da Capivara, onde realizou sessão solene para entrega do diploma de Membro efetivo e Perpétuo, da academia, à professora Niede Guidon, ocupante da cadeira 24.

Oeiras, portanto, recebe a ilustre comitiva, exultante, também, porque a APL vem até nós com o propósito, de extrema singularidade e de respeitoso apreço, para irmanar-se ao brioso povo da cidade e ao Instituto Histórico de Oeiras, e sob o pálio de profundo respeito, render homenagens a valentes e corajosos oierenses, na oportunidade em que se comemora a magna data de duzentos anos dos atos de

1 Vitória de Oeiras, a Fundação do Piauí, Fonseca Neto, Antonio, in Revista do Inst. Hist. De Oeiras, pag.

36. 2

  Oeiras tem origem numa capela fundada em 1697 e dedicada a Nossa Senhora da Vitória. O povoado foi elevado a vila e sede de

  Conselho em 1712. Tornou-se capital do Piauí em 1759, sendo elevada o município em 1761. Foi capital até 1851.

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heroísmo dos citadinos, em prol da independência do Brasil do jugo português.

Sem dúvida, o momento me é honroso, sensibiliza e comove o espírito. Minha palavra, talvez, não alcance a altura do significado deste evento. De fato, seria necessário talento ao orador e capacidade para garantir a cintilação das ideias, predicados de poucos, entre os quais não me incluo. Mas, espero que cada palavra dita, ela que é considerada “simples e delicada flor do sentimento”3, seja o desenho legítimo do pensamento, que aqui será expressado com fidelidade e singeleza.

De tal modo, considerando o alto significado das ilustres presenças de tantos membros da Academia, urge que o acolhimento, neste momento importante e solene, seja cinzelado nos anais do Instituto Histórico, com apuro e esmero, razão pela qual se deu preferência à palavra escrita.

Aqui está, pois, a palavra escrita, porque só ela, a palavra escrita, é imortal, só ela “nas artes a que é matéria- prima, fala ao mesmo tempo à fantasia e à razão, ao sentimento e às paixões”4

Senhoras e Senhores,

3 Escritor José de Alencar.

4 Latino Coelho; Dicionário da Sabedoria, Ed Fitipaldi; S Paulo 1985; p. 191

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Peço permissão aos concidadãos oeirenses e aos membros do Instituto Histórico, para, inicialmente, dizer um pouco sobre a Academia Piauiense de Letras, entidade de rico passado, constituindo “uma longa e bela história, que se traduz no mais perene e edificante testemunho de amor à cultura no Piauí”, como diz o nosso laborioso e produtivo Presidente Zózimo, e que, cá nos rincões desta cidade que “domina soberana quase dois séculos de história do Piauí, confundindo indissociavelmente sua trajetória”, na abalizada afirmação da confrade Teresinha Queiroz, o Instituto Histórico, no cumprimento do seu objetivo, também realiza, ao zelar pelas tradições, defendendo o patrimônio histórico-cultural do solo oeirense.

Senhores membros do Instituto histórico; prezados concidadãos desta amorável terra.

O que em princípio era só um sonho, uma ideia, entre outros de Lucidio Freitas, Fenelon Castelo Branco João Pinheiro, Jonatas Batista e dos oeirenses, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, terminou virando realidade em 30 de dezembro de 1917, cuja instalação ocorreu em 24 de janeiro de 1918, há mais de cem anos, assegurando o que é, hoje, a Academia Piauiense de Letras: indiscutível verdade histórica, como o é, também, o Instituto Histórico de Oeiras, criado em 01.1972 e instalado na emblemática data de 24 de janeiro de 1972, há meio século.

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E quanto não é a admiração ao mergulhar no rico passado da Academia, inteirando-se da vida de ilustres piauienses, portadores de opulenta cultura, que mourejaram, incansável e despojadamente, no afã e no exercício sublime de dar vida e continuidade aos valores de nossas letras, mantendo-as identificadas com suas raízes nacionais

Grande e nobilíssimo tem sido o papel exercido pela Casa de Lucidio Freitas, ao longo da primeira centúria de seu nascimento. Casa de sonhadores impenitentes, a Academia, que teve como presidente o oeirense Clodoaldo Freitas, vem cuidando dos interesses culturais do nosso povo e zelando, por através dos tempos, pela cultura da língua e pelo desenvolvimento da literatura piauiense, revelando, como dito pelo mestre e acadêmico Celso Barros, “que o ideal que a inspirou traz, em verdade, o signo da vida longa e da imortalidade”.

Não sem razão, Arimatea Tito Filho, um grande realizador, que dirigiu a Casa por mais de vinte anos, traçando o perfil histórico da Academia, lançava inquestionável assertiva segundo a qual:

“A sua maior virtude consiste na sua resistência. Sofre, por vezes, e resiste. Curte amarguras e vitaliza-se. A poesia dos seus poetas, a prosa dos prosadores, as letras, enfim, em todas as suas nuanças, de todos os seus legionários, conjugam-se e constroem a

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defensiva e gigantesca muralha, que é ao mesmo tempo resistência e resignação”.

Outro notável Confrade, de passamento recente, professor Paulo Nunes, também pilastra mestra da Casa de Lucidio Freitas, ao evocar sua história, pugnou pela tese de que nem tudo que é humano tem destino sombrio de desaparecer através dos tempos, no lago do esquecimento, dizendo bem que:

“As academias, como em geral se pensa, não são câmaras mortuárias do passado, usando as palavras de Graça Aranha, mas instituições culturais comprometidas com a tradição, possuindo da cultura um sentido orgânico, na concepção de Gramsci; elas também se notabilizam como instrumento de transformação e de mudanças, vivendo aquela síntese dialética entre tradição e invenção de que nos fala Miguel Torga”.

A academia Piauiense de Letras, do alto de sua centúria, assim como o Instituto Histórico de Oeiras no seu cinquentenário, resiste ao tempo, mantendo-se de pé, sob o prisma do idealismo e da beleza moral. Ao longo do tempo, chama viva que é, tem mostrado que não são os técnicos, os cientistas, os homens práticos, que constroem a obra duradoura. Os poetas, os literatos, os escritores, os

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intelectuais, iluminados pelo ideal, são capazes de milagres como o de manter viva, pulsante e colaborativa essa vetusta entidade cultural.

Essa é a Academia Piauiense de Letras, senhoras e senhores, que “ antes de isolar-se em seus membros, ruminando sua produção e a elaboração literária, abre-se aos intelectuais de todos os matizes e formações; relaciona-se com todos os órgãos e entidades públicas, abriga estudiosos e estudantes de todos os níveis, para com eles interagir nos diversos ramos do conhecimento”, como o disse a nossa Confrade Fides Angélica, em conferência realizada a 24 de janeiro de 1998, por ocasião da comemoração dos 80 anos da Entidade.

Oeiras orgulha-se, meu caro Presidente Zózimo Tavares, caríssimos confrades e confreiras, de vir contribuindo, através da participação de vários dos seus filhos em prol das causas maiores do sodalício, defendendo a inteligência e os valores que a dignificam.

São muitos os oeirenses que atravessaram o umbral da Casa de Lucidio Freitas. Apenas Teresina supera a terra mafrensina em quantidade de membros.

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Tal acontecimento, sem dúvida, constitui galardão e laurel, produto de continuadas homenagens que a Academia vem deferindo à nossa cidade, ao revigorar, com o passar dos anos, a prática de manter em seus quadros filhos da ex-capital que, no passado, marcaram pujante presença nesse verdadeiro “Templo de Comunhão Cultural”. E são muitos os que emprestaram suas fúlgidas inteligências a serviço do Sodalício. Respeitoso, nominemo-los, reverentemente: Clodoaldo Freitas, o primeiro Presidente da Entidade, Coelho Rodrigues, Álvaro Mendes; Nogueira Tapety, Licurgo de Paiva; Leopoldo Damasceno; Pedro Brito, Vidal de Freitas, Petrarca Sá, Bugyja Brito, Luis Lopes Sobrinho, O. G Rego de Carvalho, Alvina Gameiro, José Expedito Rego, agora contando com as presenças de Dagoberto Carvalho, Welington Dias e deste orador.

Senhoras e Senhores Acadêmicos:

Tenho ouvido, ao longo dos anos, de amigos outros, em tom curioso a indagação sobre o que fascina tanto os oeirenses quando se referem à velha urbe. Que telurismo é esse, dizem, que é capaz de transfigurar o semblante de cada um de lá, quando a conversa gira em torno do passado da velha cidade? O que há de especial que arrebata os nativos, vinculando-os ao torrão de tal maneira que, estejam onde estiverem, trazem-no sempre na lembrança e no coração?

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São questionamentos para os quais procuro responder, com toda oeirensidade, que se trata de um bem- querer transcendental. São impulsos do coração, que nunca fenecem porque alimentados com o humus da sua história, rica em passado, mentora de heróis verdadeiros. Num lampejo filosófico acanhadíssimo, arrisco insinuar que esse amor por Oeiras é alimentado pelo espírito que só ela tem, secular e modelador da alma de cada um de seus filhos.

E foi assim que o amigo e confrade, Elmar Carvalho, filho de Oeiras pelos laços formais de merecido título de cidadania, que já havia se tornado oeirense por coração, vocação, predestinação e devoção, como afirma em seu opúsculo “Oeiras na Alma e no Coração”5 foi assim, repito, que o prezado confrade, alimentado pelo espirito secular e modelador da alma, interpretou muito bem a característica peculiar, idiossincrásica, do cidadão oeirense, através de seus poemas, crônicas, textos literários e discursos. Quem, desta cidade, não já recitou o seu célebre Poema Noturno de Oeiras, “navegando na noite de um tempo que não termina?

Pois é! O oeirense é assim: constitui particularidade dos seus filhos, como disse, motivado pelo rico passado, lembrar, com emoção, a terra amada, o lugar onde nasceu, como o fez, há mais de cem anos, o grande poeta Nogueira Tapety, membro ilustre de nossa Academia de Letras, que ao falar do aconchego da volta, da cidade iluminada, dos lugares

 5 Oeiras na alma e no coração; Elmar Carvalho, pag. 05

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queridos, disse, em lírica manifestação de bem-querer telúrico, em uma das estrofes do decantado poema “A volta”:

“Aqui chego a julgar a vida uma delícia... Foi-se de mim o tédio

Ao sentir desse sol a paterna carícia,

Que do alto, manhã cedo, em luminoso assédio,

Envolve, alegra e doura tudo

Num glorioso esplendor ardente e mudo.”

Senhoras e Senhores,

Foi sob essa áurea espiritual, de amor a terra mafrensina que, tendo como patrono (in memorian) o Brigadeiro Manoel de Sousa Martins, nasceu, em 1972 o Instituto Histórico de Oeiras, sob o afã de aguçado patriotismo de intelectuais oeirenses, entre os quais os nossos confrades Dagoberto Carvalho e José Expedito Rego, com o propósito primordial de zelar pelas tradições e preservar o patrimônio histórico da terra mafrensina.

Em sua jornada de meio século, o Instituto tem se mantido firme na defesa do patrimônio histórico e cultural desta ex-capital, patrocinando eventos, em defesa da memória, da identidade e do patrimônio artístico e imaterial de nossa cidade.

A comemoração, hoje, de mais uma passagem do 24 de janeiro, ora completando duzentos anos da luta pela

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independência do Piauí, é mais um ato da zelosa atuação do Instituto Histórico em prol de manter viva as tradições culturais da vetusta cidade.

Cuida-se, a presente iniciativa, de extrema relevância, eis que se destina a resguardar em favor dos nossos pósteros, acontecimento de ato heroico praticado por ilustres oeirenses do passado que, movidos pelo ideal de liberdade, corajosamente, a 24 de janeiro de 1823, comandados pelo Brigadeiro Manoel de Sousa Martins, subleva a guarnição da capital e, juntos com outros ilustres filhos da terra, aderem à independência do Brasil e proclamam o príncipe Dom Pedro Imperador.

Sobre esse fato histórico, não direi mais, posto que temos aqui um dos grandes historiadores da nossa Academia e ex-presidente, o confrade Reginaldo Miranda, que nos brindará com palestra, relatando os feitos dos oeirenses em favor da independência do Brasil.

Finalmente, mais uma vez, dirijo-me, profundamente penhorado, à ilustre Presidente do Instituto Histórico de Oeiras, a professora Inácia Ferreira, bem como a toda a diretoria, e de modo especial ao nosso Carlos Rubem, ex-presidente do Instituto que, a seu modo, com olhos de Argos, vigia e protege, incansavelmente, os interesses culturais e históricos da nossa terra, para agradecer a honrosa missão de dar as boas-vindas aos prezadíssimos confrades da

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Academia Piauiense de Letras, o que faço, finalmente, dizendo- lhes, do recôndito da alma, do fundo do coração: sintam-se à vontade! Oeiras e o Instituto Histórico os acolhem sensibilizados, agradecendo a histórica e emblemática visita a nossa terra, neste momento em que, sobranceiro, avulta envolvente clima de grande civismo, pelas comemorações do 24 de janeiro, data magna em que a então capital do Piauí, levantou-se, altaneira, em prol da independência do Brasil.

Oeiras, 23 de janeiro de 2023.

Moises Reis


Membro da Instituto Histórico de Oeiras e membro efetivo da Academia Piauiense de Letras.

Discurso pronunciado no dia 23 de janeiro de 2023, no Cine Teatro de Oeiras, por ocasião da comemoração, pelo Instituto Histórico de Oeiras, e pela Academia Piauiense de Letras, da passagem dos duzentos anos da adesão da Capital Piauiense/Oeiras à Independência do Brasil.

Autoridades Presentes: Presidente da Academia Piauiense de Letras Zózimo Tavares; Presidente do Instituto Histórico de Oeiras – Inácia Ferreira; Governador do Estado, Dr Rafael Fonteles; Prefeito Municipal de Oeiras, José Raimundo; Presidente da Câmara de Vereadores, Vereador Expedito Martins; Presidente da Assembleia Legislativa do Piauí, Dep. Franzé Silva; Bispo Diocesano, Dom Edilson Soares Nobre; Acadêmicos da Academia Piauiense de Letras: Zózimo Tavares; Magno Pires; Fonseca Neto; Reginaldo Miranda; Elmar Carvalho; Padre Toni Batista; Francisco Miguel de Moura; Oton Lustosa e Plínio Macedo;


Nota: Oeiras tem origem numa capela fundada em 1697 e dedicada a Nossa Senhora da Vitória. O povoado foi elevado a vila e sede de Conselho em 1712. Tornou-se capital do Piauí em 1759, sendo elevada o município em 1761. Foi capital até 1851.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Seleta Piauiense - Paulo Machado

 

Fonte: Google

O Rio

 

Paulo Machado (1956)

 

preciso urgentemente escrever um poema!

 

que os versos sejam vorazes,

lembrando do rio de minha cidade,

comendo as pedras do cais.

 

mas como escrevê-lo?

 

como domar o rio de minha cidade

à condição de poema?

 

o rio de minha cidade não pede adjetivos,

principalmente recusa os que o tornam abstrato.

 

o rio de minha cidade é um rio migrante,

Por que aprisioná-lo no corpo de um poema?

 

o rio de minha cidade guarda em suas entranhas

o orgulho do homem sozinho.

 

o rio de minha cidade é água viva na carne,

água pesada na memória.

 

o rio de minha cidade é torto

como uma cicatriz

fazê-lo reto seria contradizê-lo

 

vivê-lo, petrificá-lo nas retinas

esquecê-lo, jamais

 

preciso urgentemente escrever um poema! 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

LUÍZA AMÁLIA, UMA CAÇADORA DE IMAGENS

Elmar e Socorro Meireles, em fotografia feita por Luíza Amália

                          

LUÍZA AMÁLIA, UMA CAÇADORA DE IMAGENS    


Elmar Carvalho

             

Por e-mail, recebi da Luíza Amália Meireles, amiga dos tempos parnaibanos, várias fotos do lançamento do livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram – o domínio oligárquico no Vale do Parnaíba”, de Manuel Domingos Neto, a que já me referi, na nota anterior. Ela, mercê de seu esforço e através de concurso público, é auditora-fiscal da Receita Federal.

Cultiva o hobby da fotografia, assim como seu irmão Meireles, chamado pelo Reginaldo Costa de “santo”, exatamente pela sua quase beatitude e mansidão de pessoa boa. Na fila dos autógrafos, fiquei imediatamente atrás de sua irmã Socorro, que ocupa uma das diretorias da Secretaria Estadual da Educação. Tanto o Meireles como a Socorro ajudaram o jornal Inovação em sua luta quixotesca por um mundo mais justo e mais fraterno.

Numa das vezes em que a Luíza me fotografava, um amigo ficou na frente da mira para me cumprimentar. Este fato me fez lembrar das lendas dos caçadores, muitos deles versados em mistificações hiperbólicas, que muitas vezes, quando estão concentrados na pontaria, são atrapalhados por alguma circunstância fortuita ou por alguma assombração protetora dos animais.

Encontrei na solenidade o teatrólogo e intelectual Tarciso Prado, quase totalmente recuperado de um grande susto que levou, quando um infarto lhe pregou uma peça – sem trocadilho dramatúrgico nenhum – da qual saiu ileso. Quando cheguei, conversava ele com o arquiteto Olavo Pereira, cujo livro sobre arquitetura piauiense o Tarciso considera como um dos melhores no gênero.

Olavo é parente de vários amigos meus e do saudoso Francisco Pereira da Silva, natural de Campo Maior, um dos maiores  teatrólogos do Brasil, cuja obra completa foi recentemente editada, pela FUNARTE, órgão do Ministério da Cultura. Há cinco anos existe uma lei estadual prevendo a criação de um memorial em homenagem ao Chico, mas, por mistérios insondáveis, que nem uma sibila seria capaz de explicar, não construído até hoje.

Mas por que mudei tanto de assunto e de modo um tanto abrupto, em texto tão curto, é um mistério que nem eu mesmo sei explicar, a não ser fazendo uma analogia com o título deste registro: Luíza Amália é uma caçadora de imagens, e eu sou um caçador de assunto e de conversa.

4 de maio de 2010

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

SAUDADES DE MINHA INFÂNCIA

 

Rio Parnaíba, visto da Toca do Velho Monge, na Várzea do Simão


SAUDADES DE MINHA INFÂNCIA

 

Ana Paula Rodrigues de Souza

Especialista e mestranda

 

Morei toda minha infância e adolescência no interior chamado Gameleiras 7 km até a Comunidade Várzea do Simão, Município de Buriti dos Lopes - PI.

Estudar naquela época sempre foi meu foco, e meu pai sempre fala: “O futuro de quem mora no interior é o estudo”.

Com os livros colocado em uma sacola de pano ou de sacos plásticos ia ao encontro de minhas primas e pé na estrada de barro e poeira, passando por carnaubais e matas de campestres destino a escola, Unidade Escolar João Simão, escola na qual cursei até 4ª série do Ensino Fundamental. E para cursar o Ensino Fundamental maior e Ensino Médio e Faculdade cursei na cidade de Parnaíba. Então, naquela época minha mãe (Maria do Amparo) minha maior incentivadora, naquela época era professora, além de outras como Maria dos Remédios a (tia Remédios, minha professora na época) e Srª Gorete, (falecida). Eu acordava cedinho corria para Lagoa Boa Fé tomava banho, meu café com leite mugido, Cuscuz e ovos mexido, pegava meu material na sacolinha e pé na estrada poeirenta.

Naquela época, íamos para a escola caminhando e não recamávamos, na escola tirava notas azuis e morria de medo de notas vermelhas no meu boletim. Tinha que ser acima de 7. Tempo em que não tínhamos Bolsa Família nem auxílio emergencial, o meu fardamento e material escolar, todos quem comprava era meu pai com muito suor do trabalho forçado.

O calçado era conga, ou havaianas de cabresto grosso e se quebrasse colocávamos um prego no cabresto e assim íamos para escola feliz. Mas o meu sonho de consumo era o sapatos All Star (tive um! ); não tínhamos celular e nem internet. Na minha casa naquela época tínhamos apenas a luz de lamparina e lampião, eu estudava a luz de lamparina e era assim que respondia todas as tarefas vindo da escola.

Na escola adorava quando a professora usava mimeógrafo e aquele cheiro do álcool tomava conta da sala, e quando íamos estudar a tabuada e fazer a lição, (leitura de texto). As pesquisas eram feitas em livros velhos guardado na escola, não tínhamos dinheiro para ter enciclopédias em casa. O trabalho era escrito à mão e na folha de papel almaço, a capa era feita com papel sulfite. Tinha dever de casa para fazer, a Educação Física era de verdade, brincávamos na areia na hora do intervalo de queima, pega bandeira e pula elástico, torcia para o intervalo não termina. Na hora da chamada tínhamos que responder à chamada da professora dizendo presente, não podia chegar atrasado e ainda cantávamos o Hino Nacional no pátio antes de ir para a sala de aula. Mas, as vezes chegamos atrasados porque quando era inverno tudo alagava e íamos para escola de canoa e lá seguíamos eu e minhas primas para a escola, então demorava mais até que chegávamos.

Na escola tinha o Gordo; a Magrela; Quatro Olhos; a Baixinha; Olívia Palito; o Palitão; o Cabelo Bombril, a branca azeda, a espeto de assar manjuba, o cavalo de zé da Graça, a Burra pampa, a Dente de burro e por aí vai... Todo mundo era zoado, às vezes até brigávamos, mas logo estava tudo resolvido e seguia a amizade... Era brincadeira e ninguém se queixava de bullying. Existia o valentão, a zangadona e até aquela que chorava de mais. Mas também existia quem defendesse.

O lanche servido na escola era o melhor de todos, a sopinha de letras ou de número, aquela carne de jabá e até o mingau de aveia, hummm uma délicia!!!, não tinha quem reclamassem. Na hora do descanso, era o momento mais lindo todos deitados no chão da sala de aula e lá mesmo cochilávamos sem se preocupar com nada.

Época em que ser gordinho(a) era sinal de saúde e se fosse magro, tínhamos que tomar o Biotônico Fontoura e comer bastante para engordar.

Ao entardecer a palavra já para casa! suava alto e eu: "peraí mãe " era para ficar mais tempo na frente de casa brincando de roda ou de pega-pega e não no computador ou no celular!!!...

Colecionávamos pedrinhas, elásticos, figurinhas, papéis de carta, etc. Eu tinha vários elásticos e uma caixinha de dominó que meu pai comprou na época. As brincadeiras eram saudáveis, brincávamos de bater em figurinhas e não nos colegas e professores, de jogar pedrinhas, de jogar dominó, etc. Na bolsa de material eu carregava a cartilha, a tabuada, lápis e borracha, mas não podia faltar as pedrinhas e o elástico para minhas brincadeiras preferida.

No interior, as brincadeiras era jogar bola, queimado, pular corda, subir em árvores, pique bandeira, pular elástico; pique-esconde, polícia e ladrão; andar de bicicleta, tomar banho na lagoa da Boa Fé ou brincar na casa de forno do vô Domingos Mendes, pai de meu pai. Muitas vezes com a minha mãe ou a minha tia Claúdia olhando a gente brincar, elas nunca deixavam nós sozinhos, era uma chatice, mas era o jeito.!!!. Comia as vezes na casa da vó Raimunda Mendes mãe de meu pai, mas só quando meu pai sai para cuidar do gado e minha mãe ia trabalhar. Na escola não importava se meu amigo era negro; branco; pardo; rico; pobre; menino; menina, todo mundo brincava junto e como era bom. Bom não, era maravilhoso!...

Que saudades desse tempo em que a chuva tinha cheiro de terra molhada! Em que pisar na poça de lama e depois ir para escola era divertido. Época em que nossa única dor era quando passava Merthiolate ou violeta nos machucados. Felizes em comparação com esse mundo de hoje onde tudo se torna bullying. Nossos pais eram presentes, mesmo trabalhando fora o dia todo, educação era em casa, até porque, aí da gente se a mãe tivesse que ir à escola por aprontarmos. Nada de chegar em casa com algo que não era nosso, desrespeitar alguém mais velho tínhamos que pedir desculpas. Era um puxão de orelha, ou castigo logo ou só aquele olhar de “vc vai ficar sem brincar la fora hoje”.

Tínhamos que levantar para os mais velhos sentarem. Fico me perguntando, quando foi que tudo mudou e os valores se perderam e se inverteram dessa forma? Meu Deus! Hoje, os filhos não respeitam mais os pais, filho grita alto com os pais, os pais não tem mais domínio sobre os filhos. Que geração é essa de hoje? Quanta saudade, quantos valores, que para esta geração não vale nada! por tudo que vivi e aprendi. Que saudades da minha infância.   

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Três décadas de união

Fonte: Google

 

Três décadas de união


Sousa Filho

  

       Há exatos trinta anos, contrai matrimônio com a então senhorita Vanusa, doravante,  minha esposa. Mulher de fibra, verdadeira e que sempre esteve (e ainda está) ao meu lado em todos os momentos bons e difíceis da minha vida. Citarei alguns, haja vista  que são tantos momentos e não caberiam nesse texto.

       Como eu poderia esquecer as madrugadas que ela abdicava do sono dela para fazer café,  para que eu ficasse acordado e conseguisse estudar para o vestibular e tentar uma vaga na Uespi? Objetivo alcançado. Muito obrigado, meu amor.

        Outro momento inesquecível foi quando  ela me deu a notícia que eu seria pai. Confesso que chorei muito de felicidades. Nove meses depois nasceu uma menina linda, a qual demos o nome de Vanessa.

         É muito importante dizer que após três anos do nascimento da Vanessa,  veio ao mundo o nosso filho amado Lucas Mateus, mais uma dádiva de Deus. Vanusa, como sempre, uma mãe dedicada. Inesquecíveis também são as idas idas e vindas para levar e buscar  nossos filhos para a escola,  uma vez, que eu estava no trabalho e não poderia levá-los.

        Devo dizer também que hoje já temos a nossa neta Valentina e o nosso neto José Luiz Lino, filhos do primeiro fruto da nossa união, a nossa filha amada Vanessa.

        São tantos momentos maravilhosos, que eu me orgulho de ter passado ao seu

 

lado nessas três décadas,  que seria impossível retratá-los nesse texto, Vanusa. Tentei em versos exprimir todo o meu amor e reconhecimento em um poema que fiz pra você e está imortalizado nas paginas da coletânea Versania e no Recanto das letras conforme está retratado abaixo;

 

 Meu cais (Sousa Filho)

 

Você é meu alicerce

Meu rochedo

Meu porto

Meu cais

Minha companheira

Meu norte

Nos momentos turbulentos,

Minha válvula de escape

Meu abrigo

 

Meu afago

Meu acalanto

Meu suporfe

Meu porto seguro

Minha fortaleza

Com certeza

Minha musa:

Vanusa


        Dessa forma, agradeço a Deus por ter colocado Vanusa na minha vida. Sem ela, eu não seria nem sombra do que sou. Muito obrigado,  senhor. Feliz aniversário de trinta anos de casamento,  Vanusa.  Eu amo você. Que Deus continue abençoando a nossa família.     

domingo, 15 de janeiro de 2023

Seleta Piauiense - Paulo Couto

 

Fonte: Google

Na metrópole

 

Paulo Couto (1956)

 

Altos prédios arranham o céu

Em concreto armado

Corações de cimento

 

Homens mecanizados

Computadores e robôs

Insensíveis e automáticos

 

Perdem-se na multidão

Seres mutilados

Invade no peito a solidão

 

Apressados em passos precisos

Correm os homens para o trabalho

Precisam de dinheiro e poder

 

Homens sem sentimentos

Que não podem errar

Não sabem amar.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

MANUEL DOMINGOS E OS CORONÉIS DO PIAUÍ


                             

MANUEL DOMINGOS E OS CORONÉIS DO PIAUÍ


Elmar Carvalho


Fui ao lançamento do livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram – o domínio oligárquico no Vale do Parnaíba”, de Manuel Domingos Neto, ocorrido na sexta-feira, no pátio interno do Arquivo Público do Piauí.

Conheço-o faz alguns anos, sobretudo quando, na qualidade de editor adjunto, o ajudei a organizar a 60ª edição (1985) do anuário Almanaque da Parnaíba, fundado por Benedito dos Santos Lima, o Bembém, em 1924, que passou a ser editado por seu avô, o comerciante Ranulfo Torres Raposo, de 1942 a 1982; este empresário também presidiu o sistema FECOMÉRCIO no Piauí.

Devido a essa aproximação, expus-lhe, na época, a importância de os direitos autorais do periódico passarem para a Academia Parnaibana de Letras – APAL, que seria a sua editora, tendo ele concordado. Transmiti sua anuência ao Dr. Lauro Correia, então presidente da entidade. De lá para cá, o Almanaque da Parnaíba passou a ser editado como revista da APAL, embora sem a conservação rigorosa da anualidade.

Posteriormente, Manuel Domingos foi deputado federal constituinte, tendo, portanto, assinado a Carta Magna de 1988. Voltou a Fortaleza, onde passou a lecionar na Universidade Federal do Ceará. O autor foi decisivo para a implantação, na Fundação CEPRO, do Núcleo de História Oral, com modernas técnicas de historiografia, que terminou produzindo importantes entrevistas com figuras notáveis em diferentes campos da atividade humana.

Eu mesmo sugeri fosse entrevistado o senhor Antônio Sales, na época com mais de noventa anos, que fora líder laboral, desportista, funcionário público federal e amigo de figuras ilustres da política piauiense, cujo entrevistador foi o professor Alcides Nascimento.  

O livro de Manuel Domingos enfeixa três belas entrevistas com Pedro de Almendra Freitas, comerciante e ex-governador do Piauí, José da Rocha Furtado, médico e ex-governador, e Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, engenheiro, escritor e responsável pela construção de várias obras importantes do governo estadual.

Pelas entrevistas, ficamos sabendo de muitos fatos notáveis da administração pública, de fatos curiosos  e interessantes da biografia dos entrevistados, de peculiaridades da vida cotidiana e econômica do Piauí, bem como tomamos conhecimento de como era a vida nas pequenas cidades interioranas, sobretudo nos aspectos dos costumes, genealogia, cultura e economia. Passamos a conhecer como se desenvolviam o comércio, a agricultura e a pecuária.

No entendimento do autor, o chamado coronelismo no nosso estado não teve as mesmas caraterísticas e peculiaridades do coronelismo de outras plagas, principalmente sulistas. O livro deixa entrever que os nossos “coronéis” não merecem, ao menos de forma intensa, os estigmas que lhes foram impingidos por muitos estudiosos do Brasil.

Vejamos o que comenta, na “orelha”, a professora Linda M. P. Gondim: “Desde Nunes Leal, estudiosos viram no 'coronel' um arcaísmo que seria liquidado com a urbanização e modernização. Mas os políticos estudados neste livro destoam desse estereótipo: aceitaram a Revolução de 1930 e as transformações promovidas desde então, inclusive pela ditadura militar, como a institucionalização do planejamento e a criação de empresas e órgão estatais 'modernos'”.

Ao ler esse livro, o leitor fará um mergulho profundo na história social e política mais recente do Piauí, e conhecerá de forma mais íntima, mais humana, figuras de destaque do proscênio político estadual.  

2 de maio de 2010  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

AVISOS NÃO FALTARAM

 

Fonte: Google

AVISOS NÃO FALTARAM


Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

 

A primeira semana de dois mil e vinte e três começou e se concluiu de forma, surpreendentemente, turbulenta.

Intramuros, o gestor governamental, antes, talvez mesmo, das cerimônias de posse dos respectivos auxiliares e assessores, já havia publicado que pretendia recambiar boa parte do contingente de policiais militares cedidos à assembleia legislativa estadual, de modo a integrá-los ao policiamento ostensivo da cidade, que anda atravessando uma onda de violência que coloca o estado, estatisticamente, entre os mais violentos do país. O gestor legislativo, para não perder a oportunidade, e, claro, valorizar-se diante da situação que se prenunciava, demagogicamente, afirmaria que, com isso – a pretensa coercitiva requisição de pessoal por parte do poder executivo -, estaria colaborando com a segurança do estado. E disse mais: quem sabe, caso lhe permita o orçamento dos próximos exercícios, venha a fazer concurso para contratação de um novo e exclusivo quadro de policiais que comporiam a polícia do poder legislativo.

Considerando que domingo, dia oito, já seria o de início da segunda semana de janeiro, um fato que representou uma imitação barata do evento ocorrido após a eleição do atual presidente americano, provocada por baderneiros ianques, simpatizantes do candidato derrotado, denominado de Invasão do Capitólio  - prédio onde se instala, por lá, o congresso nacional -, teve lugar por aqui, quando arruaceiros contratados, aprendizes de terrorista, também, até onde se sabe, por discordarem, semelhantemente ao que aconteceu nos Estados Unidos, do resultado das eleições que destronaram o último presidente tupiniquim, covardemente, invadiram e depredaram vários recintos dos prédios que abrigam os três poderes da república (executivo, legislativo e judiciário), impondo prejuízos ao estado brasileiro.

                Bom relembrar-se que um aviso de uma grande baderna que estaria por acontecer, a fim de tentar impedir a posse do presidente eleito, dera-se ao final de dois mil e vinte e dois, patrocinada por um tresloucado cidadão, dito empresário, aprendiz de terrorista, atirador e colecionador de armas, vulgo, George Washington, que teria confeccionado e armado bombas em veículo que seria explodido, deixado nas proximidades do aeroporto brasiliense, com a finalidade de provocar um cenário capaz de obrigar as forças armadas a intervir, o que impediria, pelo menos, temporariamente, a posse do presidente recém-eleito. Para o bem de todos, menos do maluco, que, espera-se, seja, exemplarmente, condenado e muito bem preso, felizmente, malogrou a tentativa terrorista do idiota criminoso.

                O que não se entende é o que teria levado as instituições de segurança públicas, notadamente, as das áreas de inteligência do distrito federal, a, facilmente, se desligarem de uma situação que continuava sendo de grande ameaça ao estado democrático de direito brasileiro. Dormiram no ponto e agora terão que correr, literalmente, atrás dos prejuízos. Tomara, consigam identificar os criminosos que depredaram parte dos bens moveis, imóveis e obras de arte, constantes dos inventários dos três poderes da república, e a Justiça, em nome da sociedade, os faça pagar pelos danos causados.

                Em uma manifestação de grande apreço pela manutenção da lei e da ordem, nosso neófito gestor público, antenado que só, antecipando-se ao desenrolar dos próximos fatos, publicamente, comprometeu-se a, se for o caso, enviar agentes de segurança mafrensinos para ajudarem nos trabalhos de apuração dos crimes perpetrados na capital federal.

                Como, para o bem da democracia e da constitucional garantia plena, ampla e irrestrita, à liberdade de expressão de ideias e  pensamento, há aqueles que preferem perder um amigo a uma boa piada, já se ouve por ai que gente especializada não faltará ao gestor para enviar à Brasília auxiliar na apuração e elucidação dos fatos que culminaram com a invasão do “capitólio tupiniquim”, a praça dos três poderes: ele acaba de arrebanhar um bom plantel de profissionais de segurança egressos do poder legislativo local; além do fato de, agora, poderem servir ao governo federal, logo, ao país, a missão servirá, também, como de duro e efetivo treinamento, haja vista estarem retornando de um longo período de atividades, no mínimo, moderadas. Aos que forem, ou, se forem, boa sorte homens, bom trabalho, não economizem adrenalina. Como diz nossa história regional: o nordestino é, acima de tudo, um forte; e o hino do nosso estado alardeia: o primeiro que luta é o Piauí.

                Ah! Também por esses dias, desavisados desenterraram a demagógica lorota de divisão do Piauí. São Paulo e Rio Grande do Sul, quase do nosso tamanho; Minas Gerais e Bahia, bem maiores; Paraná, um pouco menor, todos muito mais ricos, não falam em divisão; os governantes conseguem administrá-los; nós precisamos de dois governadores, duas assembleias legislativas, dezenas de novas secretarias, diversos deputados e senadores, um novo poder judiciário, etc., etc., para cuidarem da mesma pobreza; ou esses iluminados acham que basta dividir para ficarmos ricos? Vamos trabalhar, gente!       

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Rio

 

Fonte: Google

Rio

 

Sousa Filho

 

Se você nunca banhou num rio

Ou, se você só conhece um rio

Infelizmente,  rio de você

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY

Saudoso Chagas Vieira, no seu Salão do Povo

                          

A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY 


Elmar Carvalho


Fui cortar as minhas cada vez mais ralas e raras madeixas com o irmão maçônico Chagas Vieira. Desde 1971, ele exerce sua atividade em Teresina. Conheço-o desde a segunda metade da década de 1980, quando eu trabalhava na extinta SUNAB. Ele trabalhava no Salão Piauí, pertencente ao senhor Felinto Lima, já falecido. Em 1998, fundou seu próprio estabelecimento, o Salão do Povo, situado na rua Rui Barbosa, 441, perto do antigo supermercado São Gonçalo, onde hoje funciona um templo da Igreja Universal.

Durante alguns anos, ausentei meus cabelos de sua tesoura e navalha, por mudanças de hábito e circunstâncias. Há alguns anos, voltei a integrar sua clientela. Antes de adotar posição estática, para ele melhor exercitar as suas habilidades de escultor capilar, pedi-lhe que me repetisse a história de sua cadelinha. Chamava-se Kety e era uma pequinês, pequenina, peluda e de brancura imaculada.

Quando Chagas saía para o trabalho, ela o acompanhava até a porta da rua. Ficava triste, aguardando o seu retorno, quando ia esperá-lo à porta, e ficava se achegando a ele, até ser colocada no colo. Tinha muito amor a seu dono, e a recíproca era verdadeira, na mesma intensidade. A cadelinha chegava ao ponto de comer no mesmo prato dele, com a sua cúmplice permissão complacente.

Teve longa vida, para os padrões caninos. Aos dezessete anos cegou, primeiro de um olho e logo em seguida do outro. Com a cegueira, a cachorrinha, por alguma espécie intuitiva de pudor, ou por receio de incomodar seus donos ou por simples higiene, passou a se esgueirar pelas paredes, como tateando, em busca de alguma saída para fazer suas necessidades fora da casa.

Numa dessas buscas, saiu para a rua, quando foi tragicamente colhida pelas rodas de um carro, que lhe esmagou a pequenina cabeça. O irmão Chagas providenciou-lhe o enterro, no quintal da residência. Mas pela casa ainda vaga a lembrança e a saudade de Kety, que se mantém viva na retentiva amorosa de seus donos.

30 de abril de 2010

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Que alegria!





Que alegria!


Carlos Rubem 


Estudante de Direito, vez outra, ia filar a boia na casa do Dr. Petrarca Sá, Engenheiro Civil, membro da Academia Piauiense de Letras - APL, aos domingos, em Fortaleza. Conversas agradáveis, enriquecedoras.


Por esta época (1979), estava editando “Sonetos & Retalhos”, obra póstuma de autoria do tio Gerson Campos. O anfitrião escreveu saboroso texto de cunho memorialístico, exclusivamente, para a dita publicação.


Logo após a morte do conterrâneo amigo, em 1982, através de sua cunhada Maria Oliveira, recebi duas caixas repletas de livros, parte da biblioteca dele. 


Destaco toda a produção literária da oeirense Alvina Gameiro, imortal da APL, que era prima de Dona Conceição Oliveira, casada com o Dr. Petrarca Sá.


Livros de contos, romance, poesia de cordel e novela, a saber: 15 contos que o destino escreveu (1970); A Vela e o temporal (1957), Chico Vaqueiro no meu Piauí (1971); Contos do sertão do Piauí (1988), Curral de serras (1980); O Vale das Açucenas (1963).


Maldita hora em que emprestei referidas obras a uma professora/aluna que estava escrevendo uma monografia sobre a aludida escritora. Tal criatura — não me lembro mais quem seja —, nunca me devolveu os livros acima nominados.


O sumiço das referidas edições sempre me deixou encabulado. Revoltado até! Aliás, está muito desfalcada a minha pobre biblioteca. Emprestar livro é sempre um risco. Mas o faço com indizível prazer.


Há mais de 10 anos, o Instituto Barros de Ensino - IBENS desenvolve o Projeto “De poeta, músico e louco, em Oeiras, têm um pouco”, envolvendo alunos de todas as turmas. 


Já foram objeto de estudos, entre outras, as seguintes personalidades: Possidônio Queiroz, Dagoberto Carvalho, Nogueira Tapety, Joaquim Copeiro, José Expedito Rêgo, Rogério Newton e O. G. Rêgo de Carvalho.


Ao final de cada ano letivo, edita-se o “Almanaque Biográfico” com as impressões do alunato acerca da vida e obra de tais literatos.


No ano passado (2022), as pesquisas se voltaram à conterrânea Alvina Gameiro. Era poetisa, escritora, pintora, contista, romancista. Formada em Artes Plásticas pela Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, depois graduou-se pela Universidade de Colúmbia, NY – USA. Ministrou aulas de inglês e português no Piauí, Maranhão e Ceará. 


Durante a IX FLOR - Feira do Livro de Oeiras, em novembro, assisti a apresentação dos trabalhos estudantis acerca desta extraordinária escritora. 


Na ocasião, vi sobre uma mesa os meus livros “herdados” do Dr. Petrarca. Foi um alívio. Porém, fiquei satisfeito em saber que tais obras foram lidas, compartilhadas para muita gente.


Não sei, e não quero saber, como a Coordenação daquele projeto teve acesso aos livros em apreço.


Feliz do filho que volta à casa paterna. Ontem (04.12.2023), no meu escritório particular, Wanderleia Sousa e Tátilla Inez, professoras do IBENS, foram me devolver os exemplares em tela. Que alegria!

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Assim vi meu pai de Socorro Mello Tajra


 

Assim vi meu pai de Socorro Mello Tajra

 

Dilson Lages Monteiro

Professor e diretor de Entretextos

 

Em circulação, uma obra de grande interesse aos leitores de memórias sobre o Piauí: “Assim Vi Meu Pai, de Socorro Mello Tajra”. Trata-se de um livro autorreferencial, que dialoga com um dos clássicos do memorialismo regional na literatura piauiense, Trechos do meu caminho, de Leônidas de Castro Mello, cuja primeira edição é da década de 1980. Obra reeditada em 2017, pela Academia Piauiense de Letras, aos cuidados de Nelson Nery Costa.

 

Socorro Mello Tajra, pondo em interlocução a voz narrativa do pai e a de seus contemporâneos, além de resumir ou recontar didaticamente os lances de superação da trajetória de Dr. Leônidas de Castro Mello, enseja novas condições para a leitura de uma dimensão desconhecida publicamente sobre o biografado. Em sua narrativa, faz-se ver “o grande desafio do trabalho biográfico, o desafio que torna o perfil biográfico mais próximo dos leitores: ao falar do seu personagem, o biógrafo, de certa forma, fala de si mesmo, projeta algo de suas emoções, de seus próprios valores e necessidades”.

 

A autora concentra-se em conciliar a relação entre as ações praticadas pelo pai no contexto social e as no seio familiar, assinalando a coerência e constância das ações, e sobretudo, o amor às origens, o desapego à ânsia de uma perspectiva de vida centrada na especulação financeira.

 

Assim Vi Meu Pai é livro – cumpre enfatizar – autorreferencial. Lê-lo é recapitular o projeto discursivo de Trechos do Meu Caminho. Nessa obra, projetando-se do lugar social de ex-governador que o foi, não haveria, supõe-se, como Leônidas Mello desconsiderar o descortinamento das relações de poder, das circunstâncias e detalhes de fatos controversos de seu tempo. De como foi ocupando ou criando as oportunidades que fizeram a vida e a carreira vitoriosa em todos os campos da atividade humana a que se propôs: o magistério, a medicina, a política-partidária. Entretanto, o que conquista os leitores no texto que funciona como matriz de Assim Vi Meu Pai é, sobretudo, o derramamento lírico da escritura, o tom de conversa do texto com abundantes discursos diretos e as descrições de costumes e espaços da primeira metade do século XX. A descrição do cotidiano de um homem simples e, conforme a versão da escrita de si, afeito às virtudes e à inclinação para a vontade de servir, reproduzida em variados documentos constantes na autobiografia.

 

Ainda que o conjunto de textos de Assim Vi Meu Pai, de Socorro Mello Tajra,  remonte os instantes de grandes emoções ou conquistas da vida de Leônidas Mello; os traços da personalidade do biografado e de suas ações, um dos propósitos comunicativos evidentes da narradora, vertem-se em segunda natureza, quando Barras do Marataoã volta à cena nas memórias sobre a fase de maturidade do pai, principalmente, representado agora pelo olhar afetuoso e vivencial da filha amável.

 

A fazenda Santa Rita e a temporada no lugarejo exemplificam. Mais uma vez, os costumes são humanizados e conquistam ressonância nas recordações de um sem número de leitores que guardam alguma lembrança campestre. A gastronomia, os hábitos rotineiros, além da descrição sinestésica de aspectos arquitetônicos e da paisagem, põem o leitor em contato com sons, cheiros, sabores e visões de um tempo eterno, arquivado no fundo mais profundo de nossas subjetividades. Sons, cheiros, sabores e visões que suplantam o tempo, para o aqui e o agora da universalidade.

 

A universalidade de Trechos de Meu Caminho de Leônidas de Castro Mello  revive nas páginas de Assim Vi Meu Pai, de Socorro Mello Tajra. Revive a luz que foi chama para grandes realizações que permanecem até hoje como marca intransponível da certeza de que, para muito além das relações de poder, o fim maior da vida é servir.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Seleta Piauiense - Israel Correia

Fonte: Google

 

Das lendas e encantos por verdes mares da
Pedra do Sal


Israel Correia (1955) 

 

Vou te contar o que ouvi
De um bravo pescador
Da praia de muitas pedras
Onde o sal faz mais puro o amor

 

Vou te contar o que ouvi
De um bravo pescador
Da praia de muitas pedras
onde o sal faz mais puro o amor

 

Caia o sol com seu manto avermelhado
Todo corpo fatigado na canoa a relaxar
Por sobre as águas, veio estrela, veio lua
Choveu prata numa rua de esmeralda e anis

 

De madrugada, ao repique de um sino
O vento soprou um hino, invadiu a embarcação
Abriu-se o mar, dele veio a serpente
"Pavorou-se toda gente, bateu louco o coração

 

Vou te contar o que ouvi
De um bravo pescador
Da praia de muitas pedras
onde o sal faz mais puro o amor

 

Vou te contar o que ouvi
De um bravo pescador

Da praia de muitas pedras

Onde o sal faz mais puro o amor

 

Belo e sereno destacou-se meu menino
Entoando o mesmo hino para a proa se mandou
E, ao seu toque, na cabeça esverdeada
Após breve trovoada, a coisa se transformou

 

Fez-se então das sereias a mais bela

Mão do garoto na dela, p'ras profundas o levou

Choro e silêncio foi a nossa companhia Até o romper do dia quando a terra apontou

 

Vou te contar o que ouvi De um bravo pescador Da praia de muitas pedras Onde o sal faz mais puro o amor

 

Vou te contar o que ouvi De um bravo pescador Da praia de muitas pedras Onde o sal faz mais puro o amor.

 

Raiou o sol, rei da nossa aquarela

Nele eu vi a vida bela

que meu menino ia ter

Dançava ele, nos seus raios, uma ciranda

Será sereia de banda

a sorrir e agradecer

Dançava ele, nos seus raios, uma ciranda Será sereia de banda a sorrir e agradecer.