terça-feira, 23 de novembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Praia de Atalaia

Tutoia - MA


23 de novembro

MALANDRO OCEÂNICO E ALCIÔNICAS MÚSICAS

Elmar Carvalho

Outro dia, ouvindo a cantora Alcione, lembrei-me de Renato de Paula. Num dia qualquer de 1977 ou 78, meu pai, então gerente da ECT em Parnaíba, foi abordado por esse cidadão, durante o expediente da agência, na parte da manhã. Vinha ele de Tutoia, onde fora cumprir alguma missão da diretoria regional da empresa no Maranhão. Aproveitara para conhecer o litoral piauiense. Alegando que extrapolara as diárias que recebera, pediu a meu pai que lhe emprestasse determinada importância. O velho disse não dispor no momento daquele valor, e veio com o Renato me pedir que lhe arranjasse a importância, asseverando que tão logo ele chegasse a São Luís me reembolsaria. É óbvio que eu não gostei muito da solicitação, uma vez que estava vendo aquela pessoa pela primeira vez. De qualquer sorte, respondi que dispunha da quantia apenas em minha pequena poupança, na agência da Caixa Econômica Federal. O Renato afiançou-me que não me preocupasse, que tão logo chegasse à capital maranhense remeteria o dinheiro. Um tanto contrafeito fui fazer a retirada e lhe entreguei. Era um dia de sexta-feira, pois a Caixa não funcionava no sábado. Não lhe pedi para assinar nenhum cheque, recibo ou promissória. Resolvi aceitar sua palavra.

No domingo seguinte, fomos à praia de Atalaia, em Luís Correia. Tomamos umas cervejas e comemos tira-gosto de camarão. A cantora Alcione, chamada a Marrom, estava na moda, com a sua voz vibrante, metálica, quase de trompete, a cantar os seus sambas gostosos, dengosos, românticos. A música mexeu com o saudosismo de Renato, e ele se lembrou de sua ilha de Upaon-Açu. Ficou indócil, eufórico, e pedia para repetir algumas músicas; ficava a cantarolar, acompanhando-as. Era ele um mulato de seus quarenta anos de idade, já um tanto gordo, com pinta e jeito de malandro carioca, no bom e legítimo sentido da palavra. Algumas cervejas e alciônicas músicas depois, ao entardecer, retornamos a Parnaíba. Confesso, temi pelo reembolso de meu suado dinheirinho. Mas, para meu espanto e agradável surpresa, poucos dias depois meu pai veio me entregar o dinheiro que Renato de Paula mandara. Nunca mais o revi nem ouvi seu nome. Contudo, fiquei com a alegre lembrança de um bom vivant que sabia honrar sua palavra e seus compromissos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O VOYEUR

Elmar Carvalho


O conjunto residencial Monte Castelo acabara de ser construído. Era constituído de casas boas, destinadas à classe média alta, que florescia na capital. Para lá se mudaram médicos, bem sucedidos advogados, altos funcionários públicos, executivos, etc. Alguns estavam iniciando a vida conjugal, jovens maridos e mulheres, porém outros casais já tinham filhos adolescentes ou já rapazes e moças. Era composto de quatro quarteirões, de vinte casas cada um. Em pouco tempo, surgiram comentários de que um ladrão fora visto no quintal de algumas casas. Dizia-se que fora visto um rosto, pelo vidro de janelas dos banheiros. Por tal motivo, alguns acharam que o intruso não seria ladrão, mas um voyeur. Diante disso, foi feita uma reunião com os moradores, com o objetivo de que fosse contratada uma equipe de vigilantes, para patrulhamento das poucas ruas do conjunto. Dias depois, dois vigilantes motorizados percorriam as ruas do conjunto habitacional.

Por alguns meses não mais se ouviu falar em ladrão ou voyeur . Os moradores entenderam que o caso fora resolvido a contento. Porém uma adolescente deu um grito pavoroso, quando viu um rosto masculino a contemplá-la da janela do banheiro. Uma jovem senhora, que gostava de tomar banho na ducha do quintal, à noite, desconfiou que estava sendo observada, e parou com esses banhos ao ar livre. Os boatos voltaram a circular. Alguns puseram cortina na janela dos banheiros. Mas uma moça contou para os seus pais que notara um observador à janela de seu quarto. Daí houve a conclusão de que esse maníaco observava também pelas janelas dos dormitórios, em suas excursões noturnas. Os moradores, sobretudo os homens, voltaram a discutir o caso entre si e com a equipe de vigilância. Os vigilantes garantiram não ter visto nenhum estranho em atitude suspeita, e muito menos menos a pular os muros das casas. Prometeram redobrar os cuidados.

Entre os moradores, havia o Afonso Gonçalves que tinha três filhas adolescentes, no apogeu da beleza, sendo difícil escolher-se qual delas era a mais bonita. Duas eram morenas, de cabelos ondulados, castanhos, e olhos verdes. A mais nova puxara à mãe, que ainda ostentava sua beleza madura; era loura, de olhos azuis. Afonso era fazendeiro, e resolvera morar na cidade, por causa dos estudos das filhas. Passava dias na fazenda e dias na casa da cidade. Sua “cachaça” era uma caçada. Gostava de caçar sozinho, imerso na solidão e no silêncio da noite na floresta, trepado numa árvore, a ruminar seus pensamentos, a esperar os bichos, que nem sempre apareciam. Quando soube que uma das filhas vira o malfazejo, que andara espionando suas janelas, decidiu que, durante alguns meses, no lugar de esperar suas caças em sua fazenda, iria esperar esse sujeito ordinário no quintal de sua casa. Recomendou que sua família guardasse absoluto silêncio de sua empreitada. Noite após noite, pacientemente, nos dias em que não estava na fazenda, passou a esperar o espião de mulher. Ficava à espreita, na pequena área de serviço, que havia no quintal. Por várias semanas, nada apareceu. Mas ele era obstinado, perseverante, e o ato de estar à espreita, à espera, fazia parte do ritual de suas caçadas. Uma noite percebeu um vulto e um leve barulho. O quintal estava na penumbra, até para atrair o curiador de mulheres e filhas alheias. O homem era macio como um felino. Trajava roupa escura. Esgueirou-se furtivamente, pisando de leve, muito lentamente, até a janela do quarto de uma das moças. Afonso era considerado um ótimo atirador. Apontou o rifle e apertou o gatilho. Incontinenti, o homem caiu. Ouviu-se seu grito de dor e seus gemidos. Afonso não lhe quis matar. Atirou contra suas coxas. As filhas de Afonso chamaram os vigilantes e a polícia. Foram adotadas as providências de praxe. Verificou-se que o ferido usava um capuz negro como suas vestes. Logo constatou-se que ele era o ginecologista Irineu Ferraz, considerado um dos melhores de Natal. Foi um escândalo. Os jornais, as rádios e as televisões noticiaram o fato com estardalhaço.

A mulher do médico, transtornada com o rumoroso fato, terminou revelando coisas que a família mantinha em absoluto sigilo. Ela notara algumas atitudes suspeitas e esquisitices do marido. Havia um armário que ele não permitia que ninguém o abrisse. Dizia que guardava aparelhos e instrumentos que usava em sua profissão. Certa feita, quando fora visitada por sua bela irmã, notou o médico muito perto do banheiro, como se estivesse a bisbilhotar o banho da moça. Mas ele se curvou, como se estivesse a amarrar os cadarços do sapato. Tinha ouvido comentários de conhecidos, no tempo do namoro, de que ele, ainda menino, costumava bolinar as empregadas de sua casa, e que algumas deixaram o emprego por isso. Não dera importância a esses fatos e comentários na época, mas agora estava fazendo as devidas ligações. Comentou, ainda, que às vezes parecia dormir muito profundamente, e agora estava a achar que ele a dopava para fazer as suas aventuras noturnas, mistura explosiva de adrenalina e libido. Revelou que ele tinha o costume de comprar revistas de mulheres nuas. Por fim, em último desabafo, falou que achava que ele fora ser ginecologista não por vocação, por amor ao mister de curar, mas por ser um maníaco, um tarado. Após sair do hospital, dois ou três dias depois, o médico Irineu Ferraz e sua bela mulher foram embora, sem despedida e sem deixar endereço. Alguns fofoqueiros disseram que foram morar na cidade de São Paulo, na esperança de que o episódio rumoroso, de que ele fora protagonista, fosse esquecido. Era uma viagem sem volta.

domingo, 21 de novembro de 2010

ALCENOR CANDEIRA FILHO: O LEGÍTIMO POETA PARNAIBANO

Pádua Santos
Presidente da APAL

Alcenor, em charge de Fernando Castro

Danilo Melo, Zé Hamilton, Assis Brasil e Alcenor Candeira Filho

Frederico Garcia Lorca, o extraordinário poeta espanhol, nos legou o seguinte ensinamento: “Todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm.”
Talvez por ser misteriosa seja a poesia uma das mais antigas e importantes formas literárias. Na mais remota antiguidade já existiam poetas que, por meio dela, contavam extravagantes histórias de deuses e heróis. Todos sabem que a poesia tem tanta importância no meio literário a ponto de fazer com que alguns nomes passem a ter grande e imorredouro respeito, como é o caso de Castro Alves, Olavo Bilac e Carlos Drummond, apenas para citar três exemplos brasileiros de diferentes épocas e escolas.
Não somente a poesia composta de versos metrificados, alinhados ou dispostos nas mais diversas formas presentes nos poemas, mas também aquela que podemos encontrar embutida em importantes textos em prosa, aqueles que exatamente por sua força tornaram-se imortais e conhecidos no Brasil inteiro, como é o caso de alguns escritos do nosso Humberto de Campos.
E por falar em poesia escrita, tenho em minha biblioteca, com um oferecimento datado do dia 23 de maio de 1979, mais de trinta anos, portanto, uma obra poética que a guardo com muito carinho e cuidado ao lado de outras que me foram ofertadas por seus autores. Tem esta obra o título de “Rosas e Pedras” e é da lavra do amigo e poeta Alcenor Candeira Filho. Relendo-a pude observar, logo na primeira página e abaixo do oferecimento, o seguinte quarteto da autoria de Drummond:

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.”

Ocorre que Alcenor, depois da feitura deste livro - arte mimeográfica do ano de 1976 - continuou, como continua até hoje, a lutar com as palavras, com os versos e com as letras, e a luta não tem sido vã. Pelo contrário, tem sido luta gloriosa. Não é luta vã como insinuou o poeta itabirense, no verso citado, nem mesmo “A vida é vã como a sombra que passa...” como disse Manuel Bandeira na sua “Estrela da Vida Inteira”. Lutar com palavras é lutar pela própria vida. É como ensina Mário Qintana, no seu belo soneto “Ah! Os Relógios”:

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira-
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.”

É verdade: a luta de Alcenor Candeira com as palavras tem sido profícua em todos os sentidos.
Há em meu poder, e também com oferecimento de mais de trinta anos, o que vem demonstrar a longevidade de nossa amizade, exemplar da primeira edição de seu livro “Das Formas de Influência na Criação Poética”. Obra que nos ensina, de forma simples e objetiva, a diferenciação existente entre as oito formas de influência na criação poética. Influência que todo poeta é capaz de receber de outro. E não há nenhum demérito nisto, basta dizer que até mesmo a genialidade de Castro Alves fora influenciada pela grandiosidade de Victor Hugo.
Sendo que a luta maior de Alcenor Candeira com as palavras tem como palco principal a encantação da poesia. Até mesmo nos seus momentos mais difíceis - quando se trata do “tom fortemente elegíaco”, no dizer de Manuel Paulo Nunes, em texto inserido na Antologia Poética do autor, página 110 - surge o bem elaborado poema “Passando em Revista”, o que vem comprovar a veracidade do pensamento esposado pelo já citado poeta gaúcho Mário Quintana:

Sofrendo é que se faz coisa boa.”

Coisa boa no sentido de sensibilizar as pessoas através da força do encantamento poético. Força que foi muito bem observada por Affonso Romano de Sant´Anna, ao lecionar com propriedade:

A poesia sensibiliza qualquer ser humano. É a fala da alma, do sentimento. É preciso ser cultivada.”

Todavia, o que há de mais vigoroso no poetar de Alcenor Candeira Filho, a meu ver, não é o elegíaco nem tampouco outros temas por ele invocados. O mais forte, o mais marcante, o que flui sistematicamente do seu culto poetizar é o apego que sempre demonstrou à sua terra natal.

A cidade
é o cimento
que concreta
a vida.”

É isto que se lê no poema “A Vida Civilizada”- página 14 do livro “Rosas e Pedras”, já aqui citado.

A cidade é a Parnaíba muito bem evocada na primeira página do seu livro “Memorial da Cidade Antiga” – COMEPI, 1998:

Parnaíba
berço – casa – mesa,
beira rio beira vida,
Parnaíba
desejo de nunca, jamais, partir!

A mesma Parnaíba lembrada no bronze furtado da parede principal do natimorto Jardim dos Poetas:

Parnaíba não é uma palavra fluvial
a martelar-me a memória.
É uma cidade inteira
dentro de mim,
latejando em mim...”

Sempre a Parnaíba. Daí o esclarecimento na página 07 da Seleta hoje lançada:
... quanto maior a intimidade com o torrão natal mais ampla a visão do universo,...”

Anton Tchecov, mestre do conto russo, já previu esta realidade ao enfatizar:

Escreva sobre a tua aldeia e descreverás o mundo.”

Por tudo isso é acertado dizer que Parnaíba é o mistério previsto por Garcia Lorca na poesia de Alcenor Candeira Filho. O Alcenor que é - sem dúvida e sem qualquer ressaibo de agressão a tantos outros que por aqui passaram ou que estão passando - aquele que se pode denominar de “O legítimo poeta Parnaibano.”
Parnaíba, 20 de abril de 2010.
Data do lançamento da Seleta em Verso e Prosa, do poeta aqui comentado.
Edição comemorativa de 40 anos de sua atividade literária

NOTAS DO AUTOR: (1)-Esta crônica será incluída no livro “Crônicas Ilustradas”,
elaborado com a participação do artista plástico Fernando
Castro, a ser brevemente lançado nesta cidade.

(2)-A charge que acompanha foi encomendada pelo autor
da crônica e entendeu o artista que o poeta retratado,as-
sim como o monumento que serve de fundo, têm intima
ligação com Parnaíba.

sábado, 20 de novembro de 2010

NOTURNO EM DOR MAIOR

ELMAR CARVALHO


na noite ca’lad(r)a
um cão ladra
sem resposta
um galo canta
sem o eco doutro galo
um vaga-
lume vaga
sem lume
vaga-
rosa/mente
demente
na noite vaga
uma ave
noctívaga
navega
na vaga
do m’ar sem movimentos
nos cataventos
sem ventos
e de mirantes
sem mira/gens
a morte espreita
nos olhos vidrados
do enforcado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

DA IMPORTÂNCIA DE SER AVÔ


CUNHA E SILVA FILHO

Na Rodoviária de Curitiba, estávamos aguardando que meu filho, Francisco Neto, me apanhasse de carro. Minha mulher e eu acabávamos de desembarcar do ônibus. Era uma manhã de sol acolhedor. A cidade pra mim sorri e é um sorriso que não sei explicar do ângulo meramente pragmático, materialista. Você sabia, leitor, que as cidades falam a sua própria língua?. É só atentar pra esse lado de sentir a natureza, quer artificial, quer a natural, composta do solo, das árvores, dos lagos, dos rios, dos pássaros, enfim, de tudo com que a Providência nos prodigalizou. A manhã de uma cidade psicologicamente é diferente da tarde ou da noite. Cada qual nos comunica alguma coisa que se vai instilar no recôndito de nossa alma. Em literatura, há um termo para exprimir melhor essa ideia, a “atmosfera,” sentimento de emoção exercida sobre o nosso ser em determinado lugar ou ambiência.
De repente, assomam lá na extremidade da porta de entrada de quem vem do estacionamento, duas criaturas queridas, meu filho e Amanda, a netinha mais nova, de cinco anos apenas. Lá vêm os dois com passos apressados. Amanda, desvencilha-se da mão paterna e vem correndo ao encontro dos avós paternos. Toda sorrisos que se vão refletir no brilho dos seus olhos verdes. Cada vez que a vejo me dá a impressão de que está maior. A mais velha, Isabella, de dez anos, não pôde vir. Está na escola.
Nos abraçamos e ela logo me entrega duas folhas de papel sem pauta, dobradas em forma de envelope. Abro-os e neles vejo, desenhados, com tinta azul, duas figuras humanas. Nos dois “envelopes”, um nome da remetente que dispensou os protocolos dos Correios: Amanda. Logo descubro quem são os representados nos desenhos: a imagem do avô e da avó. São traços simples mas eloquentes de uma criança de cinco anos que desejou homenagear e dar as boas-vindas à avó e avô. Não lhe interessou fazer as duas imagens de corpo inteiro, mas só do rosto. A avó ali está figurada nos cabelos em forma de uma maçã, no olhar de esguelha e numa linha curva simbolizando a boca. O avô de imediato se descobre: tem um rosto másculo, meio alongado (o meu é arredondado), com alguns fios de cabelos encaracolados ( os meus são levemente ondulados) e o desenho do avô, feito com amor e perspicácia infantil, não esquecera um detalhe importante: nos olhos a presença dos óculos com os quais se acostumou a ver a minha figura.
Em casa, já com a irmãzinha de volta da escola, com os cuidados da mãe, do meu filho e dos avós, a rotina da família era quebrada com aquela amistosa troca de informações sobre o dia-a-dia de uma família reunida. Agora, só brincadeiras do avô com a netinha mais nova, perguntas feitas à mais velhas sobre a vida escolar, os livros lidos por ela (levei-lhe um livro de literatura infantil), os passeios que iria fazer ou que já fizera recentemente e tantas outras coisas aprazíveis que constituem as delícias do mundo infantil.
Há dez anos tenho vivido a experiência de ser avô e por isso posso mesmo adiantar algumas conclusões sobre essa nova fase de minha vida. A condição de avô nos pega de surpresa. Nela nos mergulhamos por inteiro. De certa maneira, ser avô é momento apropriado para refletirmos sobre a existência e o sentido tanto da efemeridade da vida quanto da importância da necessidade da perpetuidade dos seres sobre a Terra. Isto é, o ser avô nos leva à consciência plena da vida entendida na sua totalidade, ou melhor, na sua complementaridade, onde o finito se funde ao infinito formando a unidade do ser. Não é um elo perdido, mas um encadeamento de mistura e de permanência de genes cuja compreensão só pode ser lobrigada com mais clareza à medida que avançamos na nossa vida adulta e adentramos na velhice.
Ao nos tornarmos avô, não se pode negar que há uma nova transformação de nossa natureza psíquica e humana. Passamos da condição de seres que orientam para seres que orientam duas vezes, nossos filhos e nossos netos. Porém, não é uma orientação com o rigor de pai ou mãe. Antes, é uma orientação tolerante, conciliadora, sábia, modelo de dignidade passado adiante, própria de quem já pode ter um olhar mais distanciado, sem os deslizes dos jovens pais, sem os arroubos da paternidade mais diretamente comprometida. A experiência dos avós geralmente se faz proveitosa sem o antigamente chamado “conflito das gerações.” Não, nada disso. O conhecimento que os avós transmitem assenta-se no diálogo seguro, aberto e resultante da combinação do amor incondicional e da vontade de ver o bem-estar dos seus descendentes. Por essa razão, frisei atrás que a maior herança dos avós aos netos é o exemplo de dignidade familiar que – isso sim -, pode ser transmitido através das gerações da mesma família que, com outras famílias, pelo mundo afora, constituirão uma cadeia de união, felicidade e duradoura paz.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


VII

Um velho crepuscular
se apóia em decrépitas ruínas
que no velho buscam amparo
e anteparo contra as borrascas do tempo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


17 de novembro

DANÇA E NAMORO EM TERREIRO DE MACUMBA

Elmar Carvalho

Contou-me o amigo e colega Edison Rogério, faz alguns dias, que rapazola, ainda adolescente, vinha de uma festa, alta madrugada, quando ouviu o bater longínquo de tambores. Tomara umas boas talagadas de pinga, em companhia de uns colegas, e se dirigia para sua residência, em Pedreiras – MA. Levemente tocado pelo álcool, o baticum dos tambores lhe caíram fundo na alma, quase como um chamado irresistível, que lhe despertou o imaginário e a curiosidade, talvez por força de alguma memória atávica longínqua, ou seja lá o que tenha sido. O fato é que o colega, com a audição e os demais sentidos aguçados, se dirigiu para o lugar distante de onde vinha o batuque. Descobriu que as batidas vinham de dentro de um terreiro ou salão de umbanda ou macumba. O nosso bravo Rogério adentrou o salão da dança ritualística; envolvido pelo som dos tambores, inebriado pela magia da dança e do incenso, e talvez pelos requebros de alguma cabocla que dançava, oxalá já cavalgada por algum espírito lascivo, entrou na dança. Tomou mais algumas doses da branquinha, e enfeitiçado pelo ritmo dos tambores, pelos giros e rodopios da dança e – quem sabe? – por algum espírito brincalhão e festeiro, Edison Rogério dançou como um mestre consumado, como um verdadeiro virtuose das danças ritualísticas, a ponto de impressionar o macumbeiro dono do salão. No dia seguinte, ao acordar, por volta das onze horas, foi abordado por seu pai, que lhe indagou sobre o que andara fazendo. Ele não se lembrava de tudo em detalhes, e tinha vagas lembranças de sua performance extraordinária no salão de dança umbandística. Seu pai, então, lhe contou que fora procurado bem cedo pelo macumbeiro, que lhe dissera nunca ter visto ninguém dançar tão bem como seu filho, e por isso tinha vindo lhe pedir para que o rapaz fizesse parte de seus seguidores. Edison Rogério nunca mais pôs os pés naquele terreiro de tambores e dança tão encantados; tudo fora apenas aventura e brincadeira de um adolescente, a desbravar a magia da vida e do mundo. Certamente o terecô perdeu um virtuose da dança ritualística, enfeitiçada, mas a magistratura piauiense ganhou um bom juiz.

Essa história do Edison Rogério me fez recordar os meus tempos de adolescente. Estava passando uns dias de férias em Barras, terra natal de meu pai, em companhia do Zé Moura, que foi um dos grandes atletas do futebol piauiense. Todas as noites atacávamos em diferentes pontos da cidade, em busca de alguma garota, para um namoro rápido e descompromissado. E quase toda noite conseguíamos uma menina diferente, para uns amassos, como na época se dizia. Certa vez, atraídos pelo bater de tambores, fomos sair em um salão de macumba ou umbanda, que ficava próximo à curva da estrada que seguia para a barragem. Vimos o interior do salão e o caboclo que tocava os tambores, em ritmo frenético, com tanta garra e energia, mas logo saímos para o terreiro, para conversarmos com umas moças, que logo soubemos ser filhas da dona do templo. Quando a conversa já estava bem adiantada, prometendo render bons frutos, a macumbeira, ou antes, a bruxa daquele terreiro apareceu com um cabo de vassoura, e furiosa nos botou para correr. Ainda bem que aquela velha bruxa não sabia voar em vassoura, e ficou apenas empunhando o cabo, a vociferar e a desferir imprecações contra uns jovens, que queriam apenas um ameno e inocente aconchego com suas belas filhas.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Antônio Conrado, proprietário do museu e do sítio Boa Esperança


16 de novembro

O MUSEU DO SÍTIO BOA ESPERANÇA

Elmar Carvalho

Através do mais recente número da revista Nossa Gente, editada pelo jornalista Raimundo Belchior Neto, tomei conhecimento da existência de um museu, instalado no sítio Boa Esperança, de propriedade do senhor Antônio Conrado. Decidi que em minha primeira viagem a Campo Maior iria conhecê-lo, fato que aconteceu no domingo. A reportagem informava que o sítio ficava no quilômetro 29 da estrada que vai para Barras. Como meu pai não tivesse conhecimento a esse respeito, consultei o Dedé, vizinho de sua casa na rua Capitão Félix, perto do estádio. O Dedé simplesmente sabia tudo e foi preciso nas informações. Disse que o sítio ficava perto da estrada, e era de bom e fácil acesso. Com esse esclarecimento, em companhia do Antônio José, meu irmão, e do amigo Zé Francisco Marques, dirigi-me para lá. Fui recebido cortesmente pelo proprietário. A antiga sede da fazenda é como se fizesse parte do museu, com o seu babaçual, suas grandes árvores e plantas ornamentais, e a gruta onde está entronizado o santo da devoção dos donos da casa. O museu propriamente dito fica num prédio próximo, independente. Ali estavam antigos móveis e objetos, que eu já não via há muitos anos; objetos que foram úteis e preciosos, mas que se tornaram obsoletos ou fora de moda, com as novas invenções e a mudança de gostos e costumes. Numa prateleira estavam enfileirados rádios de vários modelos, alguns a válvula, além dos famosos Semp e ABC. Este último ostentava o seu slogan “a voz de ouro”, que marcou gerações. Sobre uma rústica bancada estavam enfileirados vários ferros de engomar, a carvão, que ainda alcancei em pleno uso. Entre outros objetos, vi baús, bilheiras e um grande e pançudo pote. Recordei os velhos petromax, que iluminavam as noites sertanejas. Entre os objetos artesanais e mais rústicos, havia um imenso pilão horizontal, de vários furos; um corró, que é uma armadilha de varas para pegar peixes; uma tora de madeira oca, em cujo interior havia uma armadilha para prender pebas e tatus. O senhor Antônio Conrado, em conversa, contou que havia vendido alguns dos objetos, mas depois os comprou de volta, para o acervo do museu. Revelou que um dos novos proprietários se recusou a fazer a retrovenda de um móvel; disse preferir doá-lo, para que seu nome constasse na ficha de identificação da peça. O engraçado é que esse proprietário tem o sobrenome Grosso, mas pelo visto trata-se de pessoa fina e educada, para ter essa sensibilidade e percepção. Contemplei uma grande e velha cadeira de outrora. Era numa delas, sem dúvida, que os coronéis da carnaúba, do tucum, do babaçu e demais produtos do extrativismo e do gado ditavam suas ordens e suas leis, num tempo mais simples, em que não havia tanta pressa e tanto estresse. É certo que alguns desses objetos existiam na casa de meus pais, mas foi um prazer reencontrá-los, para poder viajar ao país de minha infância.


Na ida e na volta, vimos algumas secas cabeças d' água do Surubim, como disse Dobal, num de seus poemas. São riachos temporários, que, nas grandes invernadas, extravasam suas águas, após dois ou três dias de boas chuvas, mas que, tão logo estas cessem, param de correr, quase instantaneamente, deixando um leito de pedras e areias, sem nenhuma poça d' água. Vimos as Extremas, de nome tão sugestivo e poético. Numa época em que todos têm o seu carro ou sua motocicleta, em que as distâncias encurtaram demasiadamente, já não entendemos a razão desse nome tão extremado. Passamos pelas Areias, do falecido fazendeiro Zé Pedro. Ele era um dos coronéis da pecuária e do extrativismo. Numa época em que poucos podiam comprar um automóvel, ele sempre teve o seu, com motorista particular. Gostava de tomar, de leve, a sua cerveja, num dos barzinhos da cidade, sozinho, a ruminar seus pensamentos. Para que se tenha uma ideia de suas posses e cabedais, basta que eu diga que ele, em companhia de sua mulher, ia ao exterior, para assistir à Copa do Mundo de Futebol, numa época em que viajar de avião era um misto de aventura, luxo e glamour. Antes do bairro Flores, de nome poético, florido e cheiroso, no sentido de quem vai de Cabeceiras para Campo Maior, nos deslumbramos com a alcatifa das suaves colinas e com os tabuleiros de capim mimoso, onde as ovelhas pastam placidamente. Nessa paisagem ainda podemos ver os galopes dos potros e ouvir o relincho das éguas e o canto alegre dos bem-te-vis. Ao longe, podemos vislumbrar o debrum do perfil azulado da serra a se recortar contra o azul do céu e o branco das nuvens. E o pensamento vaga e divaga por essas quebradas encantadas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


TRAIÇÃO FRATERNA

ELMAR CARVALHO

Eram praticamente iguais. Diria iguais, pois, se existiam diferenças físicas, a olho nu não se notava. Um imitava a assinatura do outro com perfeição. Às vezes, por brincadeira ou por conveniência, um se apresentava para fazer negócio em lugar do outro, inclusive em casos de contrato de empréstimo bancário. Chegaram a tal arte de dissimulação, que, em algumas ocasiões, se apresentavam simultaneamente com os nomes trocados, um se fazendo passar pelo outro. Muitos só os chamavam de Gomes, pois não sabiam se estavam em presença do Cosme ou do Damião. Casaram no mesmo dia. Foram morar na grande casa que herdaram. A residência tinha duas suítes e vários quartos, de modo que seria mais econômico para os dois. A mulher do Cosme se chamava Isaura. Era uma morena curvilínea, possuidora de muito dengo e requebro, de voz melosa, derretida, pura volúpia e feitiço. Damião se casou com Josefina, mulher esbelta, alva, alourada, de pouco sorriso, quase austera, sempre a trabalhar. Decidiram não ter filhos nos primeiros três anos de casamento. Os gêmeos quase não tinham amigos, porquanto eram unidos e como que se completavam e se bastavam entre si. Por brincadeira e talvez por desenfastio da mesmice e do tédio, um dia Cosme propôs um se passar pelo outro, quando chegassem em casa. Iriam para o quarto, mas após uns vinte minutos desmanchariam a brincadeira. Ficou combinado que não haveria beijo, e nem sexo, claro. Na casa de um amigo, trocaram a roupa, e ninguém notou nenhuma alteração, de forma que um se passou pelo outro, sem nenhuma dificuldade. Eram dez e pouco da noite, quando os dois chegaram em casa.

O Cosme foi para o quarto de Damião e vice-versa. A Isaura já estava em seu quarto, enquanto Josefina fazia um bordado, porquanto detestava ficar sem fazer alguma coisa. Mas, com a chegada do marido, resolveu encerrar o trabalho e foi para a alcova, onde deitou-se ao lado do suposto marido, com o qual conversou um pouco, sem desconfiar de nada. No outro quarto, Isaura aconchegou-se a Damião, pensando ser o seu marido. O homem a abraçou. Ela foi se aconchegando mais e mais, e já o acariciava no pescoço e no tórax. Damião já há algum tempo reparava nas curvas da Isaura e na sua faceirice, tão diferentes da secura de corpo e de espírito de Josefina. Não conseguiu seguir o Evangelho ao pé da letra, e chegou a desejar a cunhada, mas reprimiu a sua volúpia com determinação e com orações, tanto que a farsa que ele e seu irmão estavam fazendo não fora proposta sua. Mas agora, sentindo o calor daquele corpo desejado, sentindo aquela mão suave e carinhosa a lhe afagar a pele, visualizando as curvas, os seios empinados e as nádegas firmes e fartas, ficou transtornado e perdeu a noção do que fazia, e encostou-se fortemente em Isaura. Esta, notando a sua tesão, desceu a mão sábia pelo seu corpo, para lhe apalpar as partes mais íntimas. Nesse momento, o Cosme resolveu desfazer a brincadeira e gritou pelo seu nome, mandando que ele deixasse o seu quarto, uma vez que desejava repousar. Damião e Isaura demoraram um pouco a se recompor, sobretudo o homem, que teve certo trabalho em desengatilhar e ensarilhar a arma, que já estava em ponto de bala. A partir desse dia, os dois passaram a se olhar languidamente, com concupiscência mesmo, quando se encontravam a sós, nos breves momentos em que os cônjuges se ausentavam para fazer alguma coisa.

Certo dia em que Josefina foi lavar roupa no córrego e Cosme teve que ir atrás de uma rês que desejava vender, ficaram somente Damião e Isaura. Os dois ardiam na febre do desejo. A mulher foi para a cozinha. O homem aguardou um pouco. Quando chegou até onde a morena estava, viu-a debruçada sobre a pia, a mostrar as belas coxas roliças e a carnação dura e rotunda da bunda. Damião a abarcou por trás, e com as mãos foi imediatamente lhe apertando e acariciando os seios. Ali mesmo, na cozinha, o homem deitou a mulher sobre a mesa e a possuiu com força e sofreguidão, com desespero, como se o mundo fosse acabar, em meio à tortura do remorso. Isaura se retorcia e se contorcia; por vezes estremecia, como se estivesse com febre terçã. Esses entreveros foram acontecendo com mais perigosa assiduidade, e o peso de consciência dos culpados foi se tornando quase insuportável, porquanto conviviam com os cônjuges traídos. Certa manhã, os dois não foram encontrados. Cosme procurava Isaura, e Josefina procurava Damião. Logo, esta descobriu no meio de suas agulhas e meadas uma carta assinada pelos fujões. Pediam perdão, mas diziam que o amor que os unia fora irresistível. A missiva dizia que Damião levava os documentos de Cosme, para que este não passasse pela vergonha dos comentários maldosos e das piadas debochativas que tanto atormentam os maridos enganados; deixara os seus, para que Cosme se fizesse passar por ele. Com o tempo, e não demorou tanto tempo assim, Cosme começou a reparar que Josefina também tinha seus atrativos, tinha sua suave e delicada beleza, sem a ostensividade das curvas arrogantes de Isaura. E era uma mulher meiga, econômica e incansável no trabalho. Esta o achava bonito, até porque era ele a cópia exata de seu marido, sendo porém mais sério e mais dedicado ao trabalho. Não demorou muito, passaram a ser efetivamente marido e mulher, na cama e em qualquer outro lugar.

Desse modo, sem tiros, sem punhaladas e sem tragédia, a história ficou bem resolvida, e nunca se soube de nenhuma traição. E os dois casais ainda economizaram o que gastariam com divórcio e novo casamento. Apenas as pessoas nunca entenderam porque Cosme fora embora com Isaura, e ficavam especulando sobre que desentendimento teria havido entre os gêmeos, que eram tão parecidos e tão amigos.

ENRIQUEÇA SEU VOCABULÁRIO


Não, não, caro intenauta, absolutamente não se trata de nenhuma escola de alfabetização, nem tampouco de sala de exibição de vídeo ou de programas de televisão. Segundo a pessoa que me enviou a fotografia, trata-se de uma das últimas cidadelas de resistência dos cabarés de antigamente. A placa adverte que a pessoa somente poderá adentrar o quarto se for para fazer programa (sexual). Logo, programa adquiriu também o significado de coito ou relação sexual. Por conseguinte, ficou um vocábulo mais rico, com mais sentidos, em duplo ou triplo sentidos.

domingo, 14 de novembro de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO


ALVINA GAMEIRO

Alvina Gameiro nasceu em Oeiras em 1917 e faleceu em Brasília, em 1999. Poetisa, escritora, ficcionista, professora, romancista, contista, pintora, piauiense… Basta! Alguém com todas essas características merece ser lembrada. Estudou inicialmente em Teresina, em seguida no Rio de Janeiro, onde se formou em Artes Plásticas pela Escola Nacional de Belas Artes, e obteve graduação na Universidade de Colúmbia, NY – USA.
“Alvina é uma mulher multifacetada e que precisa ser mais conhecida pelos piauienses. Ela traz o traço do olhar feminino, que foi buscar no vaqueiro o nosso processo de identificação entre romances, poesia e contos”, afirma o professor Luis Romero, um dos organizadores do Salão do Livro do Piauí - Salipi.
Livros: 15 contos que o destino escreveu (Conto 1970); A Vela e o temporal (Romance e Novela 1957), Chico Vaqueiro no meu Piauí (Poesia cordel 1971); Contos do sertão do Piauí (Conto 1988), Curral de serras (Romance e Novela 1980); O Vale das Açucenas (Romance e Novela 1963); Orfeão de sonhos (Poesia 1967).

sábado, 13 de novembro de 2010

PADRE MATA BISPO E MORRE A PAULADAS

Foto ilustrativa

José Maria Vasconcelos (*)

Não sabe da última? Padre dirige-se à residência do bispo, aplica-lhe três balaços. Brutal episódio repercutiu nacional e internacionalmente. A fatalidade, porém, voltou-se contra o próprio sacerdote: tempos depois, foi encontrado morto a pauladas. Qual motivo para dupla tragédia? Duas mulheres, Maria José Martins e Quitéria Marques, amantes do sacerdote, segundo os fofoqueiros. Amarrei você no interesse desta história de sangue e sexo, vamos aos detalhes, e, olhe, já se vão 53 anos, 1957, 1 de julho, tão arrepiante que você me acompanhará até o final. Juro.
Dom Expedito Lopes, filho de Sobral, formou-se padre, defendeu tese em Roma, regressou à terra natal. Sagrado bispo, estabeleceu-se em Oeiras, 1948. Em 1955, o Vaticano designou-o para assistir na diocese de Garanhuns, Pernambuco. Dom Expedito já sabia dos conflitos naquela diocese, onde quatro sacerdotes se envolviam com questões políticas e amorosas, sob comentários e censuras da comunidade.
Beatas comentavam o envolvimento de Padre Hosana (ou Ozanã para alguns), vigário de Quipapá, juridição de Garanhuns, com uma “prima”, Maria José Martins, com quem residia na casa paroquial. Dizia-se, até, que o vigário provocara dois abortos em sua companheira de serviço. Falava-se, ainda, da esperteza do padre na cobrança exagerada das taxas litúrgicas. Convocado por Dom Expedito, o sacerdote negou as histórias, lamentando a maledicência dos paroquianos. Quando D. Expedito decidiu visitar Quipapá, Pe. Osanã já havia despedido Maria José; admitira outra, Quitéria Marques, nos seus afazeres. O padre jurava inocência, cuidando de suas crias em seu sítio. O bispo exige-lhe que despeça Quitéria; o vigário desobedece, insistindo na inocência, e acusa outro sacerdote, Padre Acácio, futuro bispo de Palmares, um dos mentores dos boatos.
A pedido de Dom Inocêncio, o Vaticano demite Padre Hosana das funções sacerdotais. O bispo autoriza Padre Acácio a divulgar o documento. Padre Hosana exige direito de resposta e lhe é negado pelo colega, padre. Irritado, dirige-se à modesta residência de Dom Expedito. Bate-boca. O sacerdote saca arma e atinge o prelado com três tiros, foge e se recolhe ao Mosteiro S. Bento, Garanhuns, confessando ao prior sua desgraça, o qual o denuncia às autoridades.
Dom Expedito agonizou 8 horas no hospital. Últimas palavras, o perdão. Preso em Recife, Hosana foi a julgamento, três vezes, condenado, no último, a 19 anos de cadeia, em 1963. Solto em 1968, por boa coduta, voltou a celebrar, mesmo excomungado, e se dedicou à agricultura, residindo em Correntes, Pernambuco. Em 1997, foi encontrado morto com sinais de cacetadas, motivo, talvez, das encrencas por terras e dinheiro que emprestava. Dom Expedito virou nome de cidade piauiense, nome de ruas e praças no Ceará, tese de mestrado, campanha de canonização.
Criança, meu pai ouvia noticiário da rádio, eu o imitava. Aprendi a gostar das notícias planetárias. O repórter Esso informa a tragédia do bispo. Ouço com atenção. Não fosse meu querido pai, Martinho, não redigiria esta crônica. A educação começa em casa.

(*) Cronista. E-mail:
josemaria001@hotmail.com

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A FEIA


ALCIONE PESSOA LIMA
 
Em uma cidadezinha deste Estado conheci uma mulher tão feia que, embora sua família fosse a mais rica do lugar e ela uma competente professora, além de prendada, tinha muitas dificuldades em conseguir namorado.
E já fazia parte do anedotário daquele povo quando o tema das prosas era ausência de beleza. Uns diziam que era feia, outros horrível, e outros exageravam no adjetivo: era terrível!
Mas, um certo dia chega naquele longínquo lugar um sujeito advindo das banda do Ceará tentando sobreviver longe de sua terrinha e buscando meios para isso,  resolveu enfrentar a atividade comercial, lógico, uma pequena “bodega”, facilitando, assim, o seu entrosamento com a população. Em especial com aqueles que não dispensam comprar à prazo, deles até perder de vista. 
Pois bem. Um dia o indigitado bodegueiro bateu os olhos na “menina feia”, mas não a vendo da forma comum aos conterrâneos da mesma, e sim com um coração cheio de desejos, a ponto de apaixonar-se por ela e, em pouco tempo após, pedi-la em casamento.
Tal atitude causou espanto a todos, mas com o tempo tudo foi sendo considerado normal, mesmo aqui e acolá se ouvindo comentários sobre o exótico casal. É, mas em cidades do interior têm dessas coisas: a população adora fuxicos. E não é só coisa de mulher, não.
Viviam admirados com a disposição sexual do casal, pois tivera, em poucos anos,  três filhos. 
Um certo dia, após alguns anos do citado matrimônio, agora já um comerciante respeitado na cidade, o forasteiro e “herói” foi à agência bancária da cidade para realizar alguns depósitos e ao postar-se na fila para ser atendido ficou atrás de um senhor bem idoso, conhecido por todos como “grosso”, ou seja, de muita “sinceridade” em suas argumentações ao ponto de tornar-se mesmo inconveniente.
E o referido ancião, ao observar que o forasteiro estava na fila, atrás dele, o solicitou que passasse à frente, mas foi retrucado por aquele, bem gentilmente:
- não, o senhor chegou primeiro, sem falar que é mais idoso...
Mas, o “grosso” insistiu dizendo-lhe: passe para frente “siô”. Então, ele perguntou: por que? O velho respostou sem piedade:
 - ora como vou confiar em você aí atrás de mim? Um homem que tem tesão para uma mulher feia como a sua tem também para um velho como eu!  Passe para frente e não discuta! 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

Elmar Carvalho


VIII

A sala onde uma velha
cose o tempo com suas meadas
é uma janela que se abre
em outra janela onde
veleiros navegam. . .
A velha navega no tempo
pelos fios nevados da meada.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Colaboradores do jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos. 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Francisco Fontenele de Carvalho (Neco), Diderot Mavignier, Francisco José Ribeiro (Franzé), Sólima Genuína, B. Silva e Reginaldo Costa; 3º plano: Danilo Melo, Jonas Fontenele de Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho, Flamarion Mesquita e Paulo Martins


Colaboradores do Inovação, quase todos residentes em Brasília: Porfírio Carvalho, Cícero, Ana Alice, Cândida, Jonas Carvalho, Madeira Basto, Reginaldo Costa, Ivana, Rinaldo e Ernesto Magalhães

10 de novembro

A SAGA DO INOVAÇÃO

Elmar Carvalho

Há vários dias o romancista Assis Brasil me pediu que lhe conseguisse uma cópia da entrevista que concedera ao saudoso jornal Inovação, muitos anos atrás. Nas vezes em que fui a Parnaíba, tentei consegui-la através do Francisco José Ribeiro (Franzé), companheiro do Reginaldo Costa na feliz iniciativa de fundarem o periódico. Soube que um filho dele estava escaneando todos os números do Inovação, o que seria muito importante para os pesquisadores e interessados, pois apenas o Franzé e o Reginaldo tinham a coleção completa dos números publicados. Em “Jornal Inovação – um Depoimento”, que publiquei em vários livros e na internet, contei a saga do jornal, suas lutas, suas dificuldades, suas atividades culturais, como biblioteca, suplementos (encartes), pesquisas sociais e promoções de eventos e palestras. Nesse trabalho, eu dizia que a história do órgão bem se prestaria a uma tese de doutorado ou a uma dissertação de mestrado. Tenho conhecimento de que alguns estudantes escreveram ou estão escrevendo a esse respeito. O Reginaldo Costa, seu principal baluarte, escreveu um livro sobre o Inovação, infelizmente ainda não publicado, que será de grande valia para o conhecimento da efervescência cultural que Parnaíba então viveu. Através do Vicente de Paula, o nosso bravo Potência, ou do Canindé Correia, ambos colaboradores assíduos do jornal, recebi, meses atrás, um cd com a digitalização de todos os seus exemplares, graças ao esforço de um dos filhos do Franzé. Acabo de imprimir o número que traz a entrevista de Assis Brasil, concedida ao Francisco Fontenele de Carvalho (Neco), no Rio de Janeiro. Entrevista bem feita, longa, de rico conteúdo, recheada de reminiscências, quando o escritor ainda não retornara ao Piauí, nem mesmo a passeio. A capa assinalava: Ano VII – Nº 50 – Parnaíba, 31 de outubro de 1984. Sei que vai causar muita emoção ao Assis Brasil, quando eu lhe entregar o exemplar que fiz imprimir.

Membros do jornal Inovação, no bar Recanto da Saudade, de propriedade do saudoso dom Augusto da Munguba

Capa do jornal Inovação, ano VII, nº 50, edição de 31.10.1984, na qual foi publicada a entrevista concedida pelo escritor Assis Brasil

Aproveitei para ver, virtualmente, vários números, que tive em minhas mãos, em papel, ainda quase com a tinta fresca, ainda quente, como um pão que tivesse acabado de sair do forno. Emocionei-me. Voltei a me sentir aquele garoto vibrante, entusiasmado, cheio de sonhos e ideais, a exalar poesia e literatura por todos os poros. Recordei as lutas e o idealismo do Reginaldo Costa para publicar o “monstrinho”, como eu e ele, brincando, chamávamos o periódico. Achávamos que estávamos contribuindo para destruir a ditadura militar, que no início do jornal (dezembro de 1977) ainda era muito forte. Folheando digitalmente esses velhos números, recordei os amigos, que foram colaboradores assíduos do jornal. Em homéricas degustações de crustáceos, que os imbecis chamam de caranguejos, em tirada pacamônica, regadas a cerveja, o Reginaldo Costa, o Canindé Correia, Bernardo Silva, De Paula e este diarista, traçávamos a pauta e planejávamos as estratégias de sobrevivência do jornal, que estava sempre enleado em dificuldades financeiras, sobretudo quando não mais pode ser editado em Parnaíba, em consequência de represálias a sua linha independente e ousada. Escritores, poetas, intelectuais e artistas plásticos da estirpe de Canindé Correia, Alcenor Candeira Filho, De Paula, Ednólia Fontenele, João Maria Madeira Basto, Wilton de Magalhães Porto, Danilo Melo, Israel Coreia, Jonas Carvalho, Airton Menezes, Ana Alice, Sólima Genuína, Olavo Rebelo, Flamarion Mesquita, Bartolomeu Martins, Paulo Martins, etc. foram seus colaboradores. Várias outras pessoas, que não escreviam, o ajudaram, de uma forma ou de outra. Quase todos éramos amigos fraternos, e estávamos sempre em contato, seja para discutir o jornal, seja para conversar em nossos momentos de lazer. Vendo as fotografias do rio Igaraçu e das ruas inundadas, comprovei, mais uma vez, que naqueles idos já denunciávamos a lenta agonia do Parnaíba, a devastação dos mangues, a exploração predatória dos caranguejos e os descasos da administração pública. Folheando, através da tela do monitor, essas velhas páginas do Inovação, senti emoção e saudade, do jovem emotivo e sentimental que fui e dos amigos que citei; das longas viagens de motocicleta que fiz, na companhia do Reginaldo Costa, a serviço do jornal ou para acampar, por simples espírito de aventura, em plagas distantes, como Sete Cidades e Camocim. No topo das barracas, o Reginaldo fixava a bandeira improvisada do jornal Inovação. Poderia dizer que essa bandeira continua a tremular, para sempre fincada em minha memória e em meu coração.



Caro poeta,

No feriado de finados também pude ver vários números do jornal
Inovação através do PC. Uma estudante da Uespi escreveu sua
monografia a respeito do "monstrinho" e me entrevistou sobre minha
participação no dito cujo. E depois, presenteou-me com com um CD com
todos os números. Ela teria sido presenteado com tal preciosidade pelo
Franzé Ribeiro.
Revendo seus escritos, sempre me vem a saudade e a vontade
de fazer tudo de novo.Ou pelo menos promovermos um encontro com os
amigos mais "íntimos", que colaboraram com o jornal, para matarmos
saudades comendo caranguejo no Cornélio (ainda existe), tomando uma
cerveja, enquanto podemos. Amanhã poderá ser tarde.
Obrigado pelas citações ao meu modesto nome. Minha autoestima
vai ao infinito.
Saudações inovadoras.

B Silva




Caro poeta Elmar, 
Q satisfação ler o seu texto. O Inovação sempre estará na nossa memória e do parnaibano como um todo. Bem do sofrimento de todos aqueles q realmente se integraram ao grupo. Eu mesmo tentei várias vezes vender o jornal, conseguir propaganda. Era muito difícil. As muitas críticas dificultavam assinaturas por parte dos comerciantes. Foi qdo surgiu a ideia de se lançar o Litoral News.
Os comerciantes não sabiam q esse jornal de linguajar praiano e mostrando lindas moças e belas praias era editado pelo Movimento. Assim se conseguiu algumas verbas.  "Um encontro" com os antigos participantes seria muito interessante. Grato por lembrar de mim. (...) Vou encaminhar sua matéria p/Daniel Ciarlini. Abraços, 
Wilton Porto