segunda-feira, 16 de maio de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


TRISTEZA E MORTE DO PALHAÇO CACARECO


ELMAR CARVALHO


Chichico era um talento inato para o humor, desde ainda criança. Aos 16 anos era um verdadeiro artista do histrionismo. Sempre cercado de outros garotos, que lhe admiravam a graça, a verve, as mímicas, os arremedos, as imitações, as caretas, o riso espalhafatoso, os vários timbres de voz, com que arremedava pessoas conhecidas e seus próprios colegas, já era convidado para apresentações humorísticas em eventos promovidos pelo poder público, em aniversários de crianças e em gincanas escolares. Começou a ganhar fama na pequena cidade de Curralinhos e adjacências.

Quando na cidade foi instalada a companhia mambembe Mundial Circo, que de mundial só tinha o nome faraônico, disseram ao seu proprietário que no lugarejo existia um prodígio, um gênio das gargalhadas, um autêntico palhaço, de que os curralenses tinham orgulho e pelo qual nutriam sincera admiração. O primeiro a dar essa informação foi o prefeito da cidade, quando Bertoldo Mambrine, descendente de italianos, mas já com o sobrenome devidamente aportuguesado, lhe foi solicitar o alvará para o funcionamento dos espetáculos. O empresário circense, que por sinal era o principal artista de sua companhia, travestido de palhaço Cafuringa, prometeu ao prefeito que iria convidar o rapaz para ser um de seus auxiliares, numa das apresentações. Pediu a sua excelência que lhe encaminhasse o promissor humorista, para entrevista e para combinarem os ensaios.

A entrevista foi feita, os ensaios foram realizados e a estreia de Chichico foi anunciada com muito estardalhaço, por toda a cidade de Curralinhos, tanto na rádio comunitária, como em carro de som, e ainda através de caminhada pela cidade, com um palhaço de pernas de pau, que arrastava um séquito de moleques, que respondiam suas perguntas, formuladas em cantilena engraçada:
- O palhaço quem é?
- É ladrão de mulher!
- O que é que a velha tem?
- Carrapato no sedém!
- Hoje tem espetáculo?
- Tem sim, senhor...
Imediatamente, na entrevista, Mambrine sentiu que Chichico tinha imenso potencial, e viu que poderia transformá-lo, com algumas dicas e treinamentos, num grande palhaço, que poderia até superá-lo. Após fazer-lhe algumas advertências, marcar as datas dos ensaios e de sua apresentação, o empresário perguntou-lhe:
- Que nome artístico você pensa em adotar?
O rapaz respondeu de bate-pronto:
- Cacareco. Serei o palhaço Cacareco.
O espetáculo de estreia de Chichico, ou melhor, do palhaço Cacareco foi coroado de êxito absoluto. O circo estava completamente lotado, até mesmo os chamados camarotes, que não passavam de cadeiras mais confortáveis, posicionadas em lugares de melhor visão. Vieram pessoas das cidades vizinhas. O prefeito, o juiz de Direito, o delegado e vereadores estavam presentes, além de comerciantes, altos funcionários e o povo em geral. As gargalhadas estrepitosas que arrancou da plateia, travestido de palhaço Cacareco, foi uma consagração, uma verdadeira apoteose.

Chichico foi contratado como artista da trupe do Mundial Circo. Sua ascenção foi vertiginosa. Logo superou o mestre, isto é, o palhaço Cafuringa, ou, melhor dizendo, o dono do circo, Bertoldo Mambrine. Tornou-se o rei do picadeiro, sem ninguém que lhe fizesse sombra. Era justamente considerado o mestre do riso e da alegria, e já tinha o slogan de “rei da gargalhada”. Tinha o dom de arrancar risos e sorrisos. Ninguém lhe ficava indiferente. Como o palhaço do poema de Heine, era recomendado pelos psicólogos, psicanalistas e psiquiatras como terapia aos tristes e deprimidos. Um circo de luxo quis contratá-lo, mas Mambrine o fez sócio de sua companhia e terminou permitindo o seu casamento com sua única filha, de nome Marina, trapezista e malabaristas, de vastos dotes artísticos e anatômicos.

Chichico não pode recusar tão tentadoras ofertas. Inteligente, mente aberta às novidades, passou a exercer influência na administração do circo, até porque era seu sócio. Logo a companhia cresceu, e se tornou uma das maiores e mais famosas do país. E Cacareco continuava sendo o seu mais importante e mais querido artista. Seu nome tornou-se conhecido nacionalmente. De vez em quando, era convidado a participar de programas de televisão, sempre exibindo novidades, e invariavelmente arrancando gargalhadas do auditório e recebendo delirantes aplausos. Com a morte de Mambrine, tornou-se praticamente o único dirigente do Mundial Circo. Isso o tornou orgulhoso, e não raras vezes tratava os artistas e os outros palhaços com certo menoscabo.


Um dia uma mulher, na cidade de Juazeiro do Norte, o procurou. Contou que seu filho gostaria de vê-lo; que era paralítico e não tinha cadeiras de rodas. Disse que o garoto o vira através da televisão, e passara a tê-lo como ídolo. Comprara até um dvd do palhaço Cacareco. Chichico foi duro. Disse que era um homem ocupado, um empresário, e não tinha tempo para atender pedidos desse tipo, até porque isso abriria precedentes para outras solicitações semelhantes. A mulher chorou, implorou, mas ele foi implacável, e não cedeu a suas súplicas. Ela tinha vestes longas, de chita, e cabelos desalinhados. Trazia um grosso terço ao pescoço, no qual se encontrava dependurado um enorme crucifixo. Beijando a enorme cruz, pediu-lhe que fosse ver seu filhinho entrevado, desse-lhe essa alegria, pelo amor de Jesus Cristo. Novamente, Chichico disse que não, e a expulsou aos gritos, com expressão bastante irritada. A velha, então, invocando passagem da Bíblia, falou, em tom ameaçador:
- Que Deus te retorne segundo tuas obras!

Havia perto uns curiosos, pessoas da cidade. Chichico perguntou se conheciam aquela mulher feia e impertinente. Informaram-lhe que ela era famosa macumbeira, rezadeira e benzedeira da localidade; que vinham pessoas de todas as partes para serem atendidos por ela; que nada cobrava, e as pessoas lhe davam o que queriam. Fazia também garrafadas medicinais com umas ervas, seguindo umas fórmulas que recebera de seus antepassados indígenas. Pelo que disseram, ela misturava macumba, superstições, rezas do catolicismos, pajelanças e medicina homeopática, além de simpatias. Chichico, por influência materna, era extremamente supersticioso, sugestionável, e tinha um medo muito grande de pragas, inveja e mau-olhado.

Assim, interpretou a rogativa da velha bruxa como uma maldição. Achou mesmo que ela ia fazer uma macumba contra sua pessoa. A preocupação do palhaço mais se acentuou quando encontraram um despacho perto do circo. Ficou certo que fora obra da macumbeira. Também achava que os artistas de seu circo lhe invejavam, tanto pelo fato de ele ser o dono, como em virtude de seus dons extraordinários de clown. Coincidência ou não, o fato é que ele foi perdendo o dom de provocar gargalhadas. Chegou mesmo, certa vez, a ser vaiado, por causa de uma frase infeliz que disse ao seu parceiro, em que deixou transparecer um tom de mofa e de desprezo. Enquanto isso, para aumentar a sua infelicidade e mesmo desgraça, o palhaço Piteco foi se transformando num mestre das gargalhadas, e angariando, cada vez mais, a simpatia do público.

Chichico foi se fechando em si mesmo, sempre ensimesmado, sempre taciturno e silencioso. Por fim, já não tinha mais coragem de enfrentar o picadeiro. Dizia que Deus lhe retirara os dons de ser engraçado, os atributos que o transformaram no maior palhaço do Brasil. Vivia enfurnado no trailer. Por insistência de sua mulher, foi se consultar. Os exames detectaram que ele tinha uma isquemia cardíaca e hipertensão, e que estava com altíssima taxa de colesterol. Tudo isso contribuiu para lhe aumentar a depressão.

Em curto espaço de tempo, o palhaço Cacareco foi encontrado morto, vestido e pintado como um palhaço. Anotado num bloco, ele pedia para ser enterrado como palhaço. Nunca se teve certeza se ele se matara com uma dosagem elevada dos medicamentos que usava, ou se simplesmente morrera ao dormir. Contudo, todos acharam estranho ele haver se caracterizado como palhaço, quando já perdera a graça contagiante que Deus lhe dera, e sequer se apresentava, nem mesmo como coadjuvante do palhaço Piteco, por muitos chamado de rei do riso.

domingo, 15 de maio de 2011

LEGADO DE FAMÍLIA



JOSÉ MARIA VASCONCELOS

Minha infância experitou a luta de meus pais pelo-ganha pão, em modesta bodega, no Bairro Piçarra, piçarrenta e favélica. A prosperidade lhes veio com a farmácia, bem depois, graças ao cultivo da espiritualiade, persistência, imensa generosidade para com o próximo e fregueses. D. Dedé e Martinho, (quem não se lembra?), atendiam até caboclos do interior do Maranhão, atrás de uma “consulta”.
Éramos seis filhos, casa rústica, sem água encanada, sem geladeira, comidinha frugal, mas não faltavam as palmadas e lições sobre Deus e de seus mandamentos, completados pelo catecismo e missa na Capela (depois igreja) de São Raimundo Nonato. Ademais, todo dia tínhamos de prestar contas dos estudos. Íamos, a pé, sem dinheiro pro ônibus, ao distante Colégio Domingos Jorge Velho, próximo à Avenida Frei Serafim. E hoje, com prosperidade do país, comida farta, biblioteca virtual, bolsa e tikets pra tudo, eu me dano, só de assistir a tanta preguiça, safadeza e brincadeira com coisa séria, como a dignidade.
Meu pai Deus o recolheu à sua glória. Minha mãe falece aos poucos, alzheimer aguda, 82 anos, saldo da minha eterna gratidão e de meus irmãos. Mais que herança material, eles nos legaram educação. Pobreza nunca nos estimulou a resvalar na malandragem. Somos o resultado da santidade desses exemplares de família abençoada: Médico Vasconcelos, Ivonildes, Paulo, Raquel, Humberto e este esgorregador.
Pif-Paf
O dinheirinho da bodega ainda ajudava a pagar as quase de graça aulas particulares. Mestre Herminho, mulato e deficiente de uma mão, ministrava matemática, debaixo de uma tapera. Armado de palmatória, arregalava os olhos encanecidos pelo tempo. Nós, alunos, mijávamos de medo, tremíamos com os estalos da malvada. Na favela, não se assaltava nem se drogava. Apanhava-se, domava-se o espírito diabólico pelo angelical. Deus ainda existia.
Meus pais internaram-me no seminário capuchinho de Messejana, aos 12 anos. Lá encontrei um segundo Mestre Hermínio, Frei Pio, que nada tinha de pio ou misericórdia. Por nonada, como comer uma fruta do sedutor pomar, sem autorização, lascava uns bolos de incendiada palmatória, sádico e sorridente, repetindo, a cada mão: “Pif ... Paf”. Hoje, tudo vira contrangimento e building, talvez por falta de uns bolos, especialmente nos analistas e defensores dos mimos.
Comentários de leitores:
A coluna do último domingo recebeu diversas manifestações. Até pif-paf por algumas escorregadas:
Adv. Raimundo Nonato, do Rotary Clube Teresina Rio Poti: “Estou gostando muito de seus artigos, especialmente dos “Escorregões”. O último, então, com o balé das vígulas, foi sensacional”. Fernando Meneses de Morais encontrou falha em BENZE-SE, em vez de BENZA-SE. Acertou na palmatória. O administrador de empresa, Oseas, destacou o sucesso da coluna. João Lourival, de Picos: “Sem comentários. O professor disse tudo”. Aryana Nogueira: “...Achei muito interessante sua pauta...” Pedro Bezerra, de Fortaleza também corrigiu BENZE-SE. E duvidou da frase latina que usei: “O certo não é repetita juvant, mas adjuvant”. Nós dois, Pedro, estamos corretos. Minha cunhada, Ângela Vasconcelos, louvou-me. De Brasília, Dr. Gerard Reisender usou pif-paf no BENZE-SE. Bem feito, Zezão Escorregão! Juiz aposentado, Orlando Pinheiro, afirma que um colega gostava de dizer que vírgula é questão de gosto. Valei-me Sta. Vírgula! Escritor e poeta Chico Castro: “Se os professores ensinassem com seu estilo de ensinar...” Já apanhei muito pif-paf por esse estilo engraçado. Orlando Torres Filho, do Rio, sapecou vários bolos, que o espaço é curto para comentá-los. Em Fortaleza, Luiz Dall Olio diz que a coluna está inserida em seu site, semanalmente, com meu crédito. Obriga, Senhor, minha luz!”

sábado, 14 de maio de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO

XXXII

As circunvoluções gelatinosas do cérebro
eram um sorvete artisticamente
trabalhado pela fome que
esculpia as espirais
de vermes, lombrigas e inanição.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O POETA É UM FINGIDOR?"

Fernando Pessoa

Homero

DANIEL C. B. CIARLINI

A resposta é simples: Não! Desde a sua mais remota origem, embebida na Grécia Antiga, nunca o foi, e se hoje o é, não se deve a uma tradição grandiosa, que é tão arcaica e bela quanto a origem da música, mas de uma corruptela ou má interpretação que contraria os famosos versos de Pessoa, em “autopsicografia”: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente [...]”. A leitura atenta desses versos, e a interpretação sintáxica da estrofe, são capazes de constatar que a sentença inicial faz uso do recurso de alta repercussão estrófica, para, em seguida, ser anulada pelas sextilhas que se lhe seguem em voz contrária, antítese versal. O resultado, pois, é de um trecho caracterizado por uma antinomia lógica que propõe, no campo do raciocínio, a dialética em seu sentido puro, investida de um jogo de opostos que desvencilha a proposição de verdadeira para falsa e de falsa para verdadeira, num movimento contínuo que, ao final, compreende a resolução impressa pelo português: O poeta, como fingidor, desdiz-se ao “fingir que é dor a dor que deveras sente”.


Sabedor dos estudos concernentes à filosofia, o autor de “Mensagem” empreendeu contribuição incitativa aos estudos de Petrus, Hispanus e Paulus Venetus, que se debruçaram, na Idade Média, em volta da estrutura lógica da conhecida, e observada desde a Antiguidade, Antinomia Cretense: “Um cretense diz: ‘Todos os cretenses são mentirosos’”.      

Vejamos o que nos traz até aqui: O fingimento poético, hoje tão falado e denunciado por uma série de escritores, críticos e entusiastas das letras é, na realidade, uma grande ilusão, tanto no aspecto criativo quanto sentimental. Na esfera dos sentimentos, que é a mais comum no ambiente da poesia, fica impossível produzir algo sem o conhecimento de causa – o poeta só exprime o que a vida lhe consentiu, eis uma regra fundamental, óbvia... E diferente do que muitos julgam, o poeta não nasce poeta, ele se faz, a vida o faz, os experimentos, os tormentos, as desilusões; dizer que o poeta nasce feito é, não quiçá, uma idealização romântica do século XIX, hoje obsoleta e desprestigiada... Sendo esta arte um ofício antigo, não bastavam os fatos da vida para que o poeta fosse poeta, nem tampouco que elencasse ideias concretas e palavras aleatoriamente, como bem o faz uma certa corrente de seguidores da vanguarda, antes disso era necessário obedecer e atuar dentro de uma regra, sempre, em sequência, aperfeiçoando-a, como fora durante toda antiguidade clássica, problemática esta contrária ao que muitos pensam, e nunca vencida pelo tempo: “[...] os problemas da literatura hoje discutidos por todos possuem uma relação de continuidade objetiva com as questões estéticas colocadas em sua época pelos gregos e pelos renascentistas [...]”, afirmou, corroborando com o nosso pensamento, uma das mais celebradas personalidades da teoria e crítica literárias do século XX, o húngaro György Lukács. O motivo da obediência à regra traz no mais remoto âmago da questão, a sensibilização da forma que, como tal, “determina o que a coisa é e como ela vai desenvolver-se”, afirmou o filósofo Carlos Roberto Cirne-Lima, portanto, “As formas existem desde sempre, pois são elas as forças ordenadoras da ordem do cosmos. Antes do cosmos existir, portanto, elas já existem”, concluiu.

Se o poeta não finge, o leitor muito menos, afinal, não se sente o que se expressa em arte, mas o que já está impresso no próprio interior, na elementar carga emotiva que cada ser possui; esta, sim, é a verdadeira poesia, “A poesia está em nós”, já dizia Massaud Moisés, e por “está em nós” é que “a imagem poética não está sujeita a um impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundezas esses ecos vão repercutir e morrer”, na concepção de Gaston Bachelard. O leitor, ou observador, não sente os sentimentos do artista, o que ocorre é que através da arte ele os contempla para, então, sentir os seus – o grau de sensibilidade é ditado pela intensidade das experiências: “[...] la poesía no comunica lo que se siente, sino la contemplación de lo que se siente”, nos reforça o crítico espanhol Carlos Bousoño.

No berço da poesia a concepção de arte tinha um sentido bastante diferente do que entendemos hoje. A começar, todo artista era, de fato, e verdadeiramente, um artífice, no sentido profissional da palavra, em favor de uma realidade em um dado momento – tecelão das letras. E esta importância não era vã: A poesia exercia um papel fundamental na sociedade grega de tal maneira que através dela os cidadãos colhiam os prazeres, as crenças e os conhecimentos do mundo, papel este bem desempenhado quando se avalia que sua manifestação antecede, e serve de alicerce, tanto à filosofia quanto ao círculo, hoje frondoso, das ciências.

A poesia era mais que um repositório de razão e ensino, através de seu néctar os gregos sintetizavam a seriedade, a honestidade e as ponderações de vida. Expressar, portanto, o que exatamente se sentia era mais que uma descrição, era um subsídio para o estudo do próprio comportamento humano e sua respectiva moral. Dito isto, percebemos que para alcançar seus ideais, a poesia revestia-se de objetivos, e estes se preocupavam, naturalmente, com a verdade, um dos aspectos sociais, além da própria cultura, que unificou, neste sentido, tantas cidades-estado politicamente distintas.

O poeta, assim sendo, se forma e o é quando transcende as barreiras da parca visão e se faz, por sua própria natureza, crítico da sociedade que o assiste, quando não atemporal. Ele sente as dores do mundo e vislumbra os acontecimentos do amanhã, sempre carregado de um espírito denunciador, nostálgico, e, não quiçá, absurdo, como diria Camus, pois é nele, e só nele, que o poeta, o prosador, o artista..., enfim, consegue contemplar o novo, desfazendo-se da mesmice; a receita é clara e denunciadora: Para entender o mundo e a arte (ler “poesia” como sinônima), que é uma fagulha transgredida do pensamento, se é necessário ter “Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até hoje permaneceram mudas”, já dizia Nietzsche; que o diga Rimbaud: “[...] é preciso ser vidente, se fazer vidente [...] O Poeta se faz vidente por meio de um longo e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências”, estas são umas das poucas características que traduzem o “ser poeta” vidente na acepção rimbaudiana do vocábulo, de cujo limite está descrever ao invés de desvendar soluções aos fatos do futuro, “o poeta não é obrigado a colocar nas mãos do leitor a solução histórica futura dos conflitos que ele descreve”, sabiamente pontuou, encerrando esta sentença, o filósofo e crítico literário marxista Frederich Engels.

Retomando o quesito anterior, que põe em discussão a confiabilidade historicista da poesia, podemos citar um clássico exemplo: Troia, descrita há três milênios na épica “Ilíada” de Homero, até o final do século XIX era tida como cidade mitológica, crença essa vencida quando escavações dirigidas pelo alemão Heinrich Schiliemann comprovaram a sua existência e a de diversos outros sítios arqueológicos micênicos no litoral da antiga Ásia Menor, hoje Turquia, confirmando, em defesa do antigo poeta, a veracidade das narrativas. Este fato, por si, demonstra, mais uma vez, na poesia, seu registro e caráter autênticos...

Como se pode ver, a poesia, além de preocupada com os fatos, crenças, sentimentos e sociedade, não excluía, de igual maneira, as abstrações: O artista era livre para sonhar e tecer fios de uma para-realidade compreendida através dos mitos que foram, durante muitos séculos, os elementos antecessores da ciência. E é neste ponto que, para conhecimento de sociedades antigas, ela difere da própria história, tendo o filósofo Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), assim, se expressado: “[...] uma descreve o que aconteceu, outra o que poderia ter acontecido. Por conseguinte, a poesia é algo de mais filosófico e sério que a história; pois a poesia fala-nos daquilo que é universal e a história daquilo que é particular”. A poesia, neste caso, não só está adiante de uma narrativa neutra e amorfa, mas traduz, através dos elementos de vivência, princípios, tendências e conhecimento universal, a verdade a partir de um prisma lógico e, ao mesmo tempo, artístico, por isso mais humano, mais real, em verdade ao sentido filosófico, como o apontado pela ideia aristotélica, e diferente a uma verdade contemporânea, ligada, apenas, a particularidades e nada mais. A história já sabedora disto, hoje, revela-se com uma nova tendência, não excluindo, pois, em seus estudos, a literatura como peça fundamental para a montagem da maquete do entendimento historiográfico.

Se o poeta agora, depois de tantos anos, décadas, séculos, milênios..., se tornou um fingidor, não foi por falta de opção, mas de apuramento...
Parnaíba, 13 de janeiro de 2011.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Alphonsus de Guimaraens e sua mulher Zenaide

Raimundo Correia


11 de maio

DOIS GRANDES POETAS E JUÍZES

Elmar Carvalho

Neste final de semana recebi, por e-mail, do médico e literato Gisleno Feitosa, nascido no Ceará, porém mais piauiense que muitos de nós, simpática quadra em que ele me enquadrava como poeta e juiz. Os versos me fizeram lembrar que dois dos maiores poetas brasileiros eram também juízes. Foram eles Raimundo Correia e Alphonsus de Guimaraens. O primeiro era, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, integrante da chamada trindade do parnasianismo brasileiro. Compôs magistrais versos e sonetos, que são indefectivelmente incluídos em todas as antologias de nossa literatura. Conta Josué Montello, na nota final de seu Diário do Entardecer, com que encerra a sua bela e monumental obra diarística, após afirmar que seu conterrâneo foi “homem de bem, juiz exemplar, companheiro perfeito”, que Raimundo Correia encontrou “a chave de ouro para seus poemas e para a própria vida: saiu deste mundo cantando, com a cabeça apoiada no regaço da companheira”. Portanto, teve o grande poeta parnasiano uma bela morte, uma verdadeira morte poética e musical. Li, salvo engano, em alguma parte, que ele ao comprar um presente para sua filha teve inúmeras dúvidas e hesitações quanto à escolha da cor, e que, mesmo após haver tomado a decisão, ainda seguiu para casa a remoer-se de dúvida. Talvez isso seja indicativo de que tenha sido um magistrado íntegro, reflexivo e excessivamente escrupuloso em suas decisões judiciais.

Alphonsus de Guimaraens, como sabemos, foi juiz municipal na episcopal Mariana. Foi cognominado o solitário de Mariana. Dinheiro pouco e prole numerosa. Entre seus filhos, se destacou Alphonsus de Guimaraens Filho, alto poeta de nossa modernidade, já falecido. Amargou a morte precoce de sua prima Constança, por quem nutriu intenso amor juvenil, que repercutiu, como o sino de um de seus mais conhecidos poemas, para o resto de sua vida. Ainda ecoam nas montanhas de Minas os versos elegíacos: “Hão de chorar por ela os cinamomos, / Murchando as flores ao tombar do dia”. Dele se disse que seus versos eram música em surdina. Sinto minha alma inebriada por muitos de seus poemas, que me encantaram na adolescência e na juventude, e que ainda hoje me enternecem com a sua sutil e melancólica melodia, que se infiltra em meu espírito, quase como um agradável veneno que me entorpece e deleita ao mesmo tempo. Ele e o sofrido cisne negro – Cruz e Sousa – são considerados pelos críticos e pelos doutos como os dois maiores simbolistas da poesia nacional. Há quem ache que o segundo poderia estar entre os maiores do mundo nessa escola literária.

No meu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, em virtude de ocupar a cadeira nº 10, que foi também foi ocupada por Celso Pinheiro, tive o ensejo de dizer: “A exemplo do Parnasianismo Brasileiro, a Escola Simbolista deveria também ter a sua trindade, em que a estrela de primeira grandeza e de fulgor extraordinário – Celso Pinheiro – brilharia ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. O poeta, ironicamente, em sua pobreza de metais, era chamado de milionário do verso, pela facilidade com que urdia os mais belos poemas e sonetos, nos quais eram vazados o seu delicado pessimismo e o seu suave lirismo, através de melodiosas palavras e de inusitadas e por vezes extravagantes imagens e metáforas”. Agora, acrescentaria: e se não fosse Celso, que fosse o nosso vate supremo, Da Costa e Silva, que, além dos poemas de matrizes parnasianas e também modernistas, em alguns poucos textos, compôs notáveis poemas de feição nitidamente simbolista, como reconhecem abalizados críticos. Por coincidência ou não, já que este mundo é composto de mistérios e enigmas perturbadores, os dois poetas piauienses faleceram no mesmo dia: 29 de junho de 1950. Finalizando, acrescento que o Piauí teve um juiz que foi também um grande poeta: Júlio Antônio Martins Vieira, autor de Canto da Terra Mártire.



Meritíssimo Juiz,
Caro poeta Elmar.
A voz do povo é que diz:
Juiz também sabe amar”!

Gisleno Feitosa

terça-feira, 10 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

10 de março

AS HISTÓRIAS DO CACHEADO

Elmar Carvalho

Estive no bar do Cacheado. Ao lhe perguntar o nome, disse chamar-se Francisco Barbosa. Aduziu que ninguém o conhecia por esse nome, mas apenas pelo apelido, que já declinei. Vendo-lhe os escassos e lisos cabelos, perguntei-lhe a razão da alcunha. Respondeu-me que quando mais moço ostentara vasta e ondulada cabeleira. Estava ele a eviscerar pacientemente uns pequenos mandis, carros-de-boi, bicos-de-pato e outros peixes miúdos, que depois enfiava numa embira de carnaúba. Em seguida, juntava as pontas da fibra vegetal e as atava, formando uma espécie de grande e belo colar, que me lembrou adereços indígenas.

Seu estabelecimento é simples e rústico. Trata-se de uma latada ou galpão, com um compartimento fechado, ao fundo, onde são guardados os produtos e equipamentos. Contudo, vê-se uma bela vegetação ao seu redor, porquanto não existem muros, nem cercas e nem paredes. Disse não admitir os “malas” em seu comércio. Revelou-me não vender bebida para jovens tatuados e com pírcingues, que para ele são tipos suspeitos e sem bom comportamento. Contou-me que, certa feita, ao se recusar a vender cerveja para alguns desses rapazes, em torno de sete ou nove, foi cercado por eles. Pôs a mão no cós da calça, simulando estar acariciando o cabo de uma peixeira, e se manteve firme na negativa. Os moços desistiram de insistir na compra da bebida, e foram embora. Perguntei-lhe se não temia alguma vingança. Retrucou que formiga conhece a folha que rói.

Falou que nasceu em outras plagas, mas que há muitas décadas viera morar em Campo Maior, quando seu pai ali fixou residência. Seu pai era um tipo boêmio, um tanto aventureiro, e que, além de sua mãe, tinha uma outra mulher. Não era alto, contudo era forte, um tanto entroncado. Não caçava conversa, mas não fugia de uma justa peleia, como dizem os gaúchos. Em certa ocasião, lutou contra nove homens, todos armados de facas. Bom no jogo de pernas, verdadeiro capoeirista naqueles idos, conseguiu vencer a luta desigual. Com destreza no uso das pernas, jogava o adversário contra a arma que ele próprio empunhava. Acabou, desse modo, fazendo com que quatro contendores estripassem a si mesmos. No final da peleja, tendo que segurar com as mãos as próprias vísceras, foi levado a um hospital ou posto de saúde da cidadezinha maranhense onde então morava, e o certo é que escapou. Não contente com esse feito extraordinário, ainda veio a matar um prefeito maranhense, além de mais alguns desafetos.

Creio que por causa dessas brigas e para se livrar de possível vingança, foi morar na terra dos carnaubais. Tinha, na época, aproximadamente 40 e poucos anos de idade. Percebeu que pessoas estranhas, talvez a mando da família do prefeito, passaram a rondá-lo. Teve certeza de que seria morto traiçoeiramente por esses pistoleiros de aluguel. Orgulhoso, destemido e não querendo ser morto à traição, em alguma tocaia, preferiu seguir para a pequena cidade do Maranhão onde matara o alcaide. E lá, com as próprias mãos, matou-se. Só para não dar o gosto de ser abatido covardemente pelos capangas, a soldo da família em busca de vindita.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

POR UM MUNDO MELHOR


CUNHA E SILVA FILHO

Às vezes, sinto cansaço deste mundo que nos cerca agora em sua dimensão globalizada, oscilando entre a alta tecnologia cada vez mais sofisticada e o individualismo atingindo níveis estratosféricos sob a bandeira perversa do egocentrismo.
Tenho a impressão de que ninguém mais quer saber um do outro, do outro mesmo, sem a conotação antropológica ou sociológica do “outro” no sentido de minorias ou de diferente em vários níveis discriminatórios: nacionalidades, condição social, cor da pele, nível econômico, nível social, ideologia, religião, inteligência etc.
A sociedade global, sobretudo a que teve acesso à riqueza e tecnologia avançada, atravessa uma delicada fase de desencontros entre os indivíduos, todos procurando distanciar-se uns dos outros, todos se recolhendo em seus nichos de subjetividades, indiferentes aos reais interesses do bem-estar material e espiritual dos amigos à moda antiga ou que ainda talvez perdurem nos rincões mais ínvios do país. Não só amigos, mas conhecidos que se cruzam e dão seus “bons dias” no sentido humano da palavra mas não os “bons dias” que correm e que não passam de significantes, ou seja, não alcançam o signo verbal tão necessário à interatividade social. Este segundo tipo de cumprimento dispenso, já que não passa de formalidade vazia semanticamente.
Quero os “bons dias” nascidos da sinceridade, da vontade de querer bem, de desejar a nossa felicidade, um “bom dia” pontuado de instantes de alegrias, um dia produtivo do ponto de vista de transmissão de energia, votos de bem-aventurança para quem é cumprimentado e para quem cumprimenta. Só vale o “bom dia” se o sentimento de reciprocidade prevalece como a vontade transitiva entre dois seres. Abaixo os “bons dias” formais, automáticos, mecânicos, reificados que mal abrem a boca, e mais parecem um sussurro de mau humor.
Não, não é isso que almejo para os mortais, para esses “esqueletos ambulantes” de que nos fala Borges. Não, quero sim os “bons dias” de quem me trata bem, de quem me saúda com o coração, de quem me vê como um ser que tem carne e alma, sentimento e razão, fraqueza e carência, coragem e franqueza e principalmente de quem “ama o teu próximo com a ti mesmo” - este belo e tão raramente seguido mandamento cristão – uma das chaves sem dúvida para um mundo melhor. Não me queiram julgar como ingênuo. Então, a paz seria ingenuidade, a alegria, uma utopia, a amizade, um despropósito, a união,, um sonho absurdo?
Estou ciente de que a complexidade dos problemas de hoje em escala planetária pode até nos deixar mais distantes uns dos outros, as relações sociais menos afetivas, o convívio no trabalho menos pessoal e feito na base da competição ou de outros objetivos inconfessáveis. Também não estou alheio de que com tudo isso endurecemos ou perdemos na corrida contra os oportunistas cuja mais alta meta é a sua própria construção pessoal, o conforto e a prática do hedonismo mais rasteiro, mais ególatra, mais superficial.

Não se pode desconhecer que o mundo não anda nada bem no que respeita ao contato social pautado mais nos interesses de natureza financeira, na valorização do indivíduo pelos ganhos do capital no sentido mais neoliberal que possa ter.
Se o marxismo está um tanto sumido, o capitalismo se desqualifica ante os grandes desacertos da economia global. Seja exemplo o que, desde 1998, tem ocorrido no sistema bancário mundial por conta de um recessão que tem abalado as economias de países ricos, criando uma tensão dilacerante entre o que seria mais conveniente aos países capitalistas, uma economia mais controlada pelo Estado ou uma Estado desregulador. Nem os ganhadores do Nobel têm conseguido equacionar novos e melhores caminhos para reequilibrar as economias de países europeus e da antes todo-poderosa economia norte-americana, agora em situação deficitária.
Já sabemos que culpados existem e quem são eles. Nada menos do que financistas irresponsáveis que só pensam naquilo que se chama “privatizar os lucros e socializar os prejuízos”, i.e. a corda só quebra no lado mais fraco – os pobres, o povo. Quem faz o mal fica impune e o prejuízo financeiro fica por conta do Estado perdulário. Os bancos, por sua vez, para honrarem seus compromissos com os credores, ainda por cima são socorridos pelo FMI. Há muito tempo ninguém imaginaria que os EUA seriam palco de manifestações ou passeatas de gente desconte com a situação econômica e social do seu povo, do cidadão americano comum?
Não é difícil compreender por que as estruturas econômicas de tantos países aliadas a conquistas realizadas nos campos da ciência e da tecnologia podem provocar tantos descaminhos, seja na relação entre as nações e seus modos de governo – o caso das atuais justas revoltas de cidadãos árabes lutando pela liberdade e por melhoria de suas condições de vidas, e governos ditatoriais que os repelem pelos massacres covardes de compatriotas -, seja no relacionamento interpessoal de povos, como no Brasil de agora, que se afastam cada vez mais de um tão ansiado encontro de uma pessoa com outra, encontro de paz, de amizade sincera e de bem-estar tão aguardado por um mundo melhor.

sábado, 7 de maio de 2011

PARNAÍBA E SUA EXISTÊNCIA


VICENTE DE PAULA ARAÚJO SILVA

Aos quatorze dias de agosto deste ano 2009, as comemorações dos 165 anos de elevação da Villa de São João da Parnahiba, à condição política de cidade da Parnaíba,  iniciaram-se com uma missa na igreja matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça. Entre os presentes que a assistiam e participavam,  estavam as importantes figuras do Exmo. Sr. Governador do Estado, o Exmo. Sr. Prefeito Municipal  e o Revdo. Sr. Bispo Diocesano .

      Coincidentemente, naquele ato religioso, esses três expoentes da sociedade atual, estavam caracterizando os elementos humanos responsáveis pela existência da Parnaíba, por ocasião do início da sua povoação. Assim, José Wellington Barroso Dias, representava o  vaqueiro mestiço, curraleiro de gado;  José Hamilton Furtado Castelo Branco, identificava o colonizador, empreendedor econômico; enquanto, o Rev. Exmo. Dom Alfredo Sháffer, pontificava como o padre que aqui construiu o primeiro templo católico, ainda hoje existente, ali na atual Rua Duque de Caxias, nas proximidades da Rua Grande, hoje denominada Av. Presidente Vargas.
            
         Entretanto, neste mês, deveríamos festejar também, 247 anos da criação da Vila de São    João da Parnaíba  e  30 anos da memorável noite, quando foram queimados os tapumes da Praça da Graça,  que escondiam  a grande vergonha de sua destruição equivocada  pelo gestor municipal na época.

           Os homens e a terra  se entrelaçam há milhões de anos,  e ao longo desse tempo têm deixado as suas memórias registradas, marcando a sua história. Assim, os parnaibanos,  estão a cada dia pesquisando e encontrando as trilhas que percorreram os homens que fizeram  esta terra a Princesa do Igaraçu.
           
        Hoje, sabe-se, que a partir de 1699, a coroa portuguesa passou a buscar meios de ocupação ordenada na região próxima a foz do rio Parnaíba, quando Leonardo de Sá e outros desbravadores solicitaram terras às margens do Parnaíba. Naquela época, o vale do rio Longá, na bacia do Baixo Parnaíba, já estava ocupado por vaqueiros vindos da Bahia e Pernambuco. Dentre esses desbravadores, salientaram-se  Bernardo Carvalho de Aguiar, fundador  de São Miguel dos Tapuios, Campo Maior e a Vila Velha da Parnahiba,  hoje município de São Bernardo (Ma);  Francisco Lopes, fundador de Buriti dos Lopes;  e Pedro Barbosa Leal, fundador da Vila Nova da Parnahiba, surgida  dos  primeiros fogos (moradias) existentes às margens do Igará, braço do rio Parnaíba.
            
        A organização e comando econômico  da vila, em 1711,  no Porto Salgado, que a partir de 14/08/1844, passou  a ser a  cidade da Parnaíba, coube ao pernambucano João Gomes do Rego Barros,  preposto do proprietário, o rico sertanista baiano  Pedro Barbosa Leal,  residente na Bahia, que fez prosperar a feitoria  da salga de carne e curtição prévia da courama bovina, até 1725, quando recebeu a doação de terras no Delta do Parnaíba, passando a residir na localidade Testa Branca, atualmente a comunidade Chafariz.
           
         Os fatos mais antigos e importantes na história da existência da Parnaíba, estão às vistas dos olhos, através dos documentos existentes no livro Registro de Provisões nº 81,de 1688 a 1732, encontrados no Arquivo Público do Estado do Maranhão, como também, no  marco histórico da  fundação da Vila Nova da Parnahba, a igrejinha de Nossa Senhora  do Monserrathe, solicitada a sua construção por João Gomes do Rego Barros, Capitão Mor e procurador do senhor donatário da vila, Pedro Barbosa Leal.
         
      Essas relíquias,  documental e  arquitetônica, comprovam a  autorização  e a  construção  da igreja, pelo Vigário Geral, Governador do Bispado em São Luís,   Pe. Ignácio Martins Barreiros, em 11 de  junho de 1711,  sendo nomeado como pároco e construtor,  o Padre  João da Conceição.
         
         Diante o exposto, todos os parnaibanos natos e adotados, em respeito às memórias  marcantes  dos homens que ao longo dos tempos fizeram a nossa  história, devem estar  aliados na tomada  de medidas que possam dignificar as comemorações dos 300 ANOS DE PARNAÍBA, em  2011, promovendo assim, a legitimidade do início glorioso de nossa cidade. 

Phb, 15/08/2009 -  Da série : ESTÓRIAS A RESPEITO DA HISTÓRIA DA PARNAÍBA

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ODEON BATISTA E AS CACIMBAS DO CEARÁ

Odeon Babista - GM-GOB/PI

ELMAR CARVALHO

Desde muito tempo admirava o entusiasmo contagiante como o saudoso mestre Odeon Batista se referia à maçonaria, a sublime instituição, como ele gostava de proclamar. Nos seus discursos maçônicos, notava-se a força e a vibração de sua alma, quando ele se referia ao Grande Arquiteto do Universo, sobretudo exaltando a suma bondade divina. Odeon transmitia paz e generosidade. Diria que ele era um maçom nato, pois tinha de forma espontânea e natural as qualidades de um verdadeiro mestre maçom. Fiz algumas viagens em sua companhia, integrando sua comitiva, quando ele foi o Grão Mestre do GOEPI.


Certa feita participei de um evento em Piripiri, em que se fizeram presentes algumas lojas das cidades vizinhas, entre as quais a do Oriente de Piracuruca. Nessa sessão, foi lido um trabalho escrito pelo irmão Israel Correia, da Fraternidade Parnaibana, em que era analisado, com muita proficiência e profundidade, o meu poema Mística I, calcado na simbologia maçônica, porém escrito antes de eu ingressar na excelsa ordem. Na oportunidade foi entregue à loja piripiriense um quadro com um banner ilustrado, contendo esse texto.

O Grão Mestre Odeon, com o entusiasmo e vibração de sempre, teceu elucidativos comentários sobre o texto do Israel e sobre o poema. Acrescentou, com a sua costumeira lhaneza, que lhe era sempre agradável absorver o que ele chamou de minha sabedoria. No auge do seu entusiasmo, em flagrante exagero, terminou dizendo que eu era semelhante a uma cacimba, sempre a minar sabedoria.

Logo depois, usou da palavra o irmão Gilberto Escórcio, douto advogado, venerável da loja de Piracuruca. Esse irmão disse que me conhecia, e que já tivera oportunidade de exercer sua profissão na Comarca de Capitão de Campos, da qual eu era titular na época. Contudo, em brilhante e brincalhona ironia, disse que estava admirado de o eminente Odeon haver me comparado a uma cacimba, pois ele considerava que eu seria pelo menos um oceano.

Quando me foi permitida a palavra, esclareci que o Grão Mestre estava certo, pois eu, na minha simplicidade, na minha humildade, não passava mesmo de uma cacimba rasa e seca das terras esturricadas do Ceará, enquanto ele, Gilberto, em seu brilhantismo e erudição, era um poço jorrante das quebradas do Gurguéia. As gargalhados e os sorrisos transformaram as verrinas e catilinárias, um verdadeiro “fogo amigo”, em agradável episódio anedótico e deram o toque de bom humor à solenidade.

Com a palavra novamente, o mestre Odeon explicou a razão de sua metáfora, aparentemente despropositada, em se tratando de “elogio”, e disse que fizera a analogia porque em sua terra natal, o Ceará, as cacimbas eram muito importantes, porquanto ficavam minando um fio d'água perene. Em sua simbologia, eu estaria sempre a “minar sabedoria”, o que bem sei não ser verdade, uma vez que a verdade verdadeira está com o velho Sócrates, quando disse que uma coisa sabia, e isto é que nada sabia. Quando nos encontrávamos, de forma sempre bem humorada, recordávamos essa passagem anedótica e engraçada.

Tempos depois fiquei chocado com a notícia de sua morte, tão precoce quanto surpreendente, no seu pago natal. Morrera ao cair de ponta cabeça num cacimbão, o que me fez recordar a cacimba de sua metáfora, decerto evocativa da nostalgia da paisagem de sua infância e juventude, em que certamente perpassava o fantasma da inclemência das secas, mitigadas apenas por essas fontes, escavadas muitas vezes nos leitos exauridos dos rios e riachos.

As cacimbas do Ceará ainda continuam a ressoar e a escoar em minha saudade, e me trazem a lembrança vívida de um homem bom, de um bom amigo, de um maçom de fato e de direito, que trazia a centelha divina incrustada em seu coração e em sua palavra de fé, esperança, entusiasmo e bondade.

De um homem alto e forte, que tinha a alma suave e sem jaça de um menino.

MÍSTICA


Elmar Carvalho

I

Arrebatado por um carro de fogo
eu próprio em fogo transformado
os céus galguei
as fúrias todas como louco aplaquei
e a escada cintilante de Jacó
passo a passo subi.
Devassei as vísceras mecânicas
da baleia do profeta
e a gênese do primeiro
átomo desvendei.
Penetrei o caos primacial
e o primeiro vagido
da vida escutei.
E Deus estava lá
por trás de tudo:
logo após em regressão
a explosão do átomo primordial.

II

Meu anjo da guarda
em sete anjos transmudado
minha guarda de honra revistava
e com sua espada de fogo
ou raio laser
franqueava-me a entrada
da gruta dos leões
enquanto Daniel dormia
à minha sombra.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

ELMAR CARVALHO


XXXI

No fundo negro
o pão na cesta era um convite
irresistível à fome que rondava.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Foto meramente ilustrativa


Foto meramente ilustrativa

4 de maio

AS NORMALISTAS E O MALANDRO

Elmar Carvalho


Do meu posto de observação, eu via o bando de estudantes passar, não sei se a caminho da escola, ou se desta retornando, pela indefinição do horário. Mas as moças não estavam vestidas de azul e branco, como as normalistas da bela música de Benedito Lacerda e David Nasser, magistralmente imortalizada pelo inesquecível Nelson Gonçalves, com sua vibrante e melodiosa voz grave, que, saída das cônicas e metálicas bocas das amplificadoras de outrora, encantou gerações de românticos, seresteiros, saudosistas e outras faunas similares. Não sei se eram normalistas. Creio que não. Sei que a farda não era alviceleste, mas branca e verde, talvez em virtude do modismo ambientalista. Certamente, em decorrência da idade, carregavam ilusão e esperança, esta simbolizada pela cor do uniforme.

Contudo, me fizeram retornar ao país de minha adolescência, quando, da esquina em que me postava, eu via as normalistas passarem, a caminho do Patronato, no qual funcionava a escola, no alto de suave colina, onde eram realizados festejos e quermesses. A colina já não existe. Foi sufocada por um monstrengo de tijolo e argamassa. De algumas admirei a beleza e a graça de menina e moça, à distância, um tanto recolhido em minha mal dissimulada timidez. De outras, colhi a graça e a beleza, nos contidos e não tão contidos namoros de então, quando não existia, no sentido deturpado de hoje, a palavra fico. Fico era mesmo do verbo ficar, ou, no máximo, o episódio em que Pedro I se recusou a voltar para Portugal.

Perto de onde eu me encontrava, notei a presença de um velho fauno boêmio, que arrastava as asas para uma vendedora ambulante, sentada à sua banca. O seu sotaque, com um chiado excessivo nos esses, mormente nos plurais, era o de um carioca, pelo menos de um falsificado carioca “paraguaio”, querendo impressionar a moça, já não tão moça assim, com a sua gíria, gingado e chilreio. Escutei quando o velho fauno disse que trabalhava porque precisava, mas que voltava porque a amava, em manjado repertório de cantadas, que seriam românticas, acaso não fossem cômicas pelo desgaste do uso exaustivo, repetitivo. Quando um seu conhecido ia passando, o quase decrépito boêmio perguntou, carregando no chiado e no carioquês:
- E aí, elas te deram os corpos?
O outro não perdeu o rebolado e, igualmente malandro e bem humorado, retrucou:
- Não, os corpos eram delas!
E forçou o chiado, arremedando o (talvez) falso carioca.
Já as estudantes haviam deixado de passar, carregando com elas o simulacro de um outro tempo, que ainda remanesce na memória de uns poucos.

terça-feira, 3 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



3 de maio

DETRAN – ESPAÇO DA CIDADANIA?

Elmar Carvalho


Esclareço, inicialmente, que não irei tecer comentários e nem emitir juízo de valores, na parte relativa ao relato dos fatos. Também procurarei ser objetivo, e evitarei quaisquer enfeites retóricos e de adjetivações. Deixarei que o leitor faça a sua própria avaliação. Limitar-me-ei a narrar os fatos tais como aconteceram. Em virtude do estresse da vida atribulada e corrida de hoje, terminei esquecendo de renovar o emplacamento de meu carro no mês de abril, já que a sua placa tem terminação 4. Por essa razão, precisando viajar para a cidade onde trabalho, fui logo de manhã, nesta segunda-feira, dia 2 de maio, renovar o seu licenciamento.


Precisamente às 10:39 horas, no Espaço Cidadania, situado no antigo hortomercado Domingos Monteiro, e não mais no shopping Teresina, para onde me dirigira, recebi a senha DET169, categoria de atendimento normal, sendo que havia outras categorias. Mais tarde fui pagar as taxas constantes do boleto que recebi. Para não ter nova preocupação burocrática, resolvi pagar o valor total, sem parcelamento. Com as taxas pagas e as fotocópias dos documentos exigidos, voltei ao local de atendimento, e fiquei a observar a placa eletrônica indicativa das chamadas. Note o leitor que, só na parte relativa à prioridade normal, existiam 168 pessoas à minha frente. Não se nota o tamanho da fila porque a pessoa fica sentada em cadeiras dispostas em várias fileiras. Portanto, o “cidadão” fica na ilusão de que não está numa fila, cuja lentidão só se percebe pelo escoar dos minutos e das horas.

Finalmente, por volta das 13:20 minutos chegou a vez de minha senha. Não era sem tempo. Afinal, eu já estava na fila fazia 2 horas e 41 minutos. Exultante, fui ao guichê indicado. Qual não foi a minha surpresa quando a servidora disse, denotando certo mau-humor, que não poderia atender-me, uma vez que teria que comprovar no sistema que eu havia pago as taxas, embora eu estivesse a lhe exibir o comprovante fornecido pelo Banco do Brasil, agência do shopping Teresina, e lhe dissesse que ela poderia ficar com o comprovante original; eu ficaria com a fotocópia. Ela, então, com a sua letra, escreveu na minha senha a palavra retorno, e recomentou-me voltar 30 ou 40 minutos após. Tomei a deliberação de voltar duas horas depois, para não correr o risco de receber a mesma desculpa anterior. Consequentemente, retornei às 15:30 horas, aproximadamente.

Para minha surpresa, recebi a informação, nada auspiciosa, diga-se de passagem, de que o sistema continuava “fora do ar”. Ora, bolas, quem, então, ficou fora do ar fui eu. Pedi que o responsável pelo posto do DETRAN do Espaço Cidadania me desse uma declaração sobre a circunstância de que eu tentara renovar o emplacamento de meu carro, e que o “sistema” (nada sistemático) da repartição falhara. A servidora, para minha perplexidade, disse que eu deveria me dirigir à direção geral do DETRAN para receber tal declaração. Sentindo-me um perfeito cidadão, para não dizer pária ou idiota, virei as costas e fui embora. Se eu fosse um “fela”, teria ido à direção geral, do outro lado da cidade, onde sequer sei se seria atendido. Mas como não sou, não fui.

Fiz este relato da maneira mais objetiva e precisa possível. Deixo que o leitor tire suas próprias conclusões. Não irei dizer que sofri verdadeira tortura, física e psicológica. Não irei dizer que no local de espera fazia muito calor e que suei à beça ou a cântaros. Se existiam aparelhos de ar condicionado funcionando, eles não davam conta da missão de refrigerar o Espaço Cidadania. Também não irei dizer que achei o serviço péssimo e o atendimento pior ainda. Não, não irei. Muito menos irei dizer que o tal espaço mandou a cidadania para o espaço sideral, e deveria chamar-se, antes, da anticidadania, ou inimigo do cidadão, como disse um rapaz em alto e bom som, evidentemente morto de satisfeito com o serviço que lhe estava sendo prestado. Quero apenas dizer que não me senti um cidadão no Espaço Cidadania.