domingo, 19 de julho de 2015

Seleta Piauiense - J. Coriolano


CRATEÚS¹ 

J. Coriolano (José Coriolano de Souza Lima – 1829 - 1869)

Lindo sertão meus amores,
Crateús, onde nasci, (2)
Que saudade, que rigores,
Sofre meu peito por ti!
São amargos dissabores
Que em funda taça bebi!
Que saudade, ó meus amores,
Crateús, onde nasci!

Esta incessante saudade
Me espedaça o coração!
Eu gemo na soledade (3)
Esses tempos que lá vão...
Crateús, minha beldade,
Meu lindo, ameno sertão,
Que dura, fera saudade
Me atormenta o coração

Que vezes, em pé, na praia,
Me lembro dos mimos teus!
Dessas c’roas (4), onde ensaia
A rola (5) os gemidos seus!
Onde a lua se desmaia
Alvacenta – lá dos céus!
Ó quantas vezes na praia
Em cismo nos mimos teus

As ondas que vêm chorosas
Na lisa praia morrer,
Lembram-me as auras queixosas
Nos teus vales a gemer!
Lembram-me as moitas verdosas,
Ondeando-se a volver!
Ondas, não vinde chorosas
Na lisa praia morrer!

Que dias esses d’outr’ora
Que o tempo ingrato levou!
Do meu lar eu via a aurora
Que sorrindo despontou!
O galo co’a voz canora,
Cantava : có-córô-cô!
Ai ! esses dias d’outr’ora
O tempo ingrato levou!

Hoje meu peito não goza
A dita que já gozou!
Hoje minh’alma saudosa
Chora o tempo que passou!
Ó sorte desventurosa
Que meus prazeres turvou!
Infeliz de quem não goza
Venturas que já gozou!

Crateús, que dor tão viva!
Ai tempos que já lá vão!
Ao teu nome a dor se aviva
Que sente meu coração!
Assim sofre a sensitiva (6)
Ao toque de incauta mão!
Crateús, que dor tão viva
Ai eras (7) que já lá vão !

Se os sinos tocam meu pranto
Corre, banha o rosto meu!
Seus dobres lembram-me tanto
Os dobres do sino teu!
Eis do sol, o roxo manto,
No ocaso além – se escondeu!
Trocam trindades... (8) meu pranto
Corre, banha o rosto meu!

Não posso ver uma bela,
Não posso, lindo sertão;
Logo me lembro daquela...
Que vive em meu coração.
Crateús, onde está ela,
Dá-lhe lembranças, que eu não...
Não posso ver uma bela,
Não posso lindo sertão!

Dá-lhe lembranças... e escuta
Se a bela por mim gemeu...
Se gemer... a brisa arguta
Me traga o gemido seu.
Ah ! se minh’alma o desfruta ...
Crateús se o gozo eu...
Quem dera ! – Sertão, escuta ...
Escuta se ela gemeu ! ...

E adeus, terra, onde a alvorada
Primeira p’ra mim raiou!
Onde a primeira morada
Meu pai querido assentou!
Onde o galo, à madrugada,
Cantando, me despertou!
Onde, à primeira alvorada,
Ouvi-lhe o có-rócô-cô!

Comentários de A. Tito Filho

1) Crateús. Hoje município e cidade do Ceará. Pertenceu ao Piauí e constituía os municípios piauienses de Independência e Príncipe Imperial.
2) José Coriolano de Sousa Lima nasceu na fazenda Boavista, do termo da antiga vila de Príncipe imperial, que pertencia ao Piauí (veja nota 1).
3) Soledade. Estado de quem se acha só. Lugar ermo, onde alguém vive curtindo saudades.
4) C’roas. Coroas. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação. Monte de areia, no leito dos rios. No Norte também se diz croa.
5) Noutro local deste livro há comentário sobre rola (pássaro).
6) Sensitiva. Planta, cujas folhas e folíolos têm a propriedade de se fechar, quando se lhes toca (Aurélio).
7) Eras. O mesmo que tempos, épocas.

8) Trindades. Toque das ave-marias. Tardinha (neste sentido só usado no plural).    

sábado, 18 de julho de 2015

O milagre, não o suave de Eça de Queiroz


O milagre, não o suave de Eça de Queiroz

                                                        
             “Obed é rico e tem servos.”
                                 
Cunha  e Silva Filho

  
       Chegando ao meu apartamento,  me dei conta  de que  não se encontrava na minha  carteira de dinheiro a minha  identidade. Eu havia  ido à farmácia com a minha mulher  comprar  um remédio.Senti um calafrio como se  tivesse  visto um fantasma.  
         Um fantasma diferente, um   fantasma que  nos provoca  medo e apreensões. Era a quase certeza de que, perdendo um  documento  tão  vital como a identidade, equivaleria a  vislumbrar um série de  problemas  que  iria enfrentar: não poder  fazer uma retirada  de maio  valor no banco,  não poder  abrir um  crediário,  não  poder  irar um  passaporte, não poder  fazer compras com cartão de crédito que exija a comprovação  da identidade  do comprador, enfim,  a perspectiva  de não poder fazer isso tudo  me  deixava arrasado,  apavorado,  perdido  como  uma criança  na multidão. Como iria  provar quem  eu era diante  de um situação que  me obrigasse a exibir a minha  carteira de identidade.
       Neste país chamado  Brasil,   o domínio da burocracia  tem força  de lei. Se você vai a uma repartição  pública e lhe faltar um item  de uma documentação   exigida,  você  fica  travado, de mãos atadas. Um vez, um ministro brasileiro desejou  desburocratizar a máquina  administrativa  do país,  mas tudo foi  debalde. Alguma coisa ele fez, mas o grosso  da mania  da exigência do papelório teima  em ser uma lei consuetudinária. Se não  se tem  tudo  o que se nos pede em matéria  de  documentos,  nada se consegue.
      O atendente  da burocracia fica  até  irado quando alguém  lhe entrega  tudo que lhe foi  pedido a fim de   conseguir alguma coisa de natureza burocrática. Somos uma sociedade cartorial,   tabelionária,   documentária.Até para morrer,  se o de cujus  não estiver  direitinho  com  as exigências  da burocracia para esta difícil  e traumática  passagem  da vida para o  andar  de cima,  ele ficará  em estado de putrefação ou senão  volta  para  a geladeira  dos necrotério.
    A burocracia  ainda tem  fortes elos  com  os tempos  do  Brasil  colonial, das capitanias  hereditárias, dos tempos dos  meirinhos do Rio de Janeiro  joanino. O que neste país  vale é o documento. A palavra  empenhada de nada mais vale. Tudo deve estar  escrito e  chancelado no cartório. Meu reino  pela  burocracia!  - a única  força-motriz que leva este  país  para a frente de não sei de quê...
     Diante de toda  esse calvário, me encontrava  completamente desolado e sem  chão. Onde foi  cair a bendita   identidade? Foi na farmácia? Perdeu-se em casa em alguma pilha de  papéis? Minha mulher me  sugeriu  a possibilidade de voltar à farmácia  a  fim de ver se eu  deixara  caída no chão  a minha  identidade. Então,  a minha pobre  mulher decidiu  ir  novamente à farmácia. Ao chegar lá,  perguntou  a  vendedor com quem  fizera a  compra do remédio se ele por acaso  não  vira uma identidade no chão, ou se um cliente  honesto  a pegara e entregara aos cuidados da farmácia. Qual nada! Ninguém  vira minha identidade. Voltou para casa  desolada.
   Enquanto minha querida cara-metade  estava  na rua para ver se encontrava a minha carteira,  em casa  eu revirava tudo: gavetas,  fichários,  armários,  pastas etc. Tudo fiz para  não ter nenhuma dúvida de que  a identidade não  estava comigo.
  Olhei,  examinei todas as divisões de minha velha  carteira de dinheiro e nada de encontrar a identidade. Meu medo era  que algum  malandro a encontrasse e fizesse algum mal  a mim, ou seja,   retirar a minha foto e, em lugar dela,  colocar a foto de alguém com  alguns  traços   que indicassem pertencer à minha   faixa etária ou,  por outras artimanhas, falsificar meus dados  pessoais,  inclusive  meu CPF, e transferi-los  para  terceiros. Meu pavor  era ser vítima  de um  estelionatário que até poderia usar meus  dados para fins de lavagem de dinheiro,  aposentadorias  falsas ou outras maldades  de que são tão  férteis  esses escroques em plagas basílicas...
   Foi, então, que pensei em São Longuinho, o santo dos que perdem  objetos  e outras  coisas. “Valei-me, meu São Longuinho!Valei-me,  meu São Longuinho!" Esse santo  é tiro e queda. Entretanto,  não desisti de  procurar em outros lugares do apartamento: quartos,  cozinha,  banheiro,  debaixo das cama,  das mesas, onde me fosse possível lobrigar  alguma   ponto do apartamento  em que pudesse  se ocultar a minha identidade.
     Exauridas  todas as minhas  energias, tomamos  minha mulher,  meu filho mais novo e eu uma decisão  para que  os meus receios  se tornassem menos penosos: ir à delegacia do bairro e fazer um  BO (boletim de ocorrência).  Nós três saímos  com passos  largos  em direção a uma  avenida  perto do meu prédio. Atravessamos e ficamos esperando acenar para o primeiro táxi  disponível que surgisse .Passaram  vários  sem  ligarem para o nosso  aceno até que um parou. Indicamos ao motorista  o nosso destino: a delegacia.
   Chegando lá, subindo uma rampa, entramos  no prédio e  nos dirigimos ao balcão de atendimento, atrás do qual havia uma funcionária de semblante amável. Lhe  contei todas as circunstâncias  do dramático incidente  e lhe disse que  desejava fazer  um BO. A funcionária  era  amável, simpática. No momento em que me pediu dados  pessoais consignados na  identidade,  de certa forma  involuntária, retirei minha carteira de dinheiro do bolso direito da calça e foi aí que  percebi um objeto  plástico que  surgiu de uma das partes da carteira. Era a minha identidade. “Milagre!  Milagre!- exclamei  numa alegria  incontida. A funcionária sorriu e entendeu tudo.
       Descemos a rampa. Na calçada, ainda cresceu a minha alegria. Queria compartilhá-la com  todos. Passou  um moço que,  pelos seus  modos de vestir,  via-se  que era um  investigador de polícia. Contei para ele o que ocorrera comigo. Ele mostrou-se receptivo.Nos despedimos e  caminhamos  em direção a outra rua que dava para uma praça.
        No caminho,  com voz embargada de tanta emoção, falei com a minha mulher: “É um milagre! O milagre existe.”  Sem perceber, estava  falando e chorando  baixinho. Nesse instante,  me lembrei  do meu apelo a São Longuinho. Ele me dera  ouvidos, me atendera. Era bem tarde da noite. Numa calçada,  acenamos para  outro táxi. Nele entramos e, com  o coração  esfuziante  de  contentamento,  resumi  o acontecido  para o motorista,  um moço   de fisionomia  bondosa.


        Não fora um grande milagre como  o daquela criança doentinha, pobre,  que procurava  pelo Salvador, o Rabi,   o Messias. No momento em que não esperava,  Jesus anunciou-se a ela:  “_Aqui estou.” O meu  pobre grande   milagre igualmente  se realizou. São Longuinho, que tantas  vezes  invoquei com sucesso,  naquela delegacia se fez  presente e o milagre, mais uma vez,   me convenceu  pela fé. Ó incrédulos,  não duvideis  dos milagres!     

sexta-feira, 17 de julho de 2015

FUTEBOL DOS VOVÔS

Coronel Walker Prado

FUTEBOL DOS VOVÔS
(JOGO DE CONFRATERNIZAÇÃO)
FIM DE VIDA X PÉ NA COVA
(3º ANO DE COMPETIÇÃO – FUTEBOL SOCIETY)

Texto: Luís Alberto Soares (Bebeto)

LOCAL: Campo da Associação dos Amigos do Esporte e Lazer – AAMEL (Bairro Limoeiro) – AMARANTE – PIAUÍ
DATA:  25 de julho de 2015 - HORÁRIO: 16h
CRIAÇÃO:
Um grupo de amigos da terceira idade num ideal de confraternizar periodicamente e resgatar a história futebolística gloriosa de Amarante formou dois times de futebol society denominados: “FIM DE VIDA FUTEBOL CLUBE” e “PÉ NA COVA ESPORTE CLUBE”. A designação se deu em 27 de julho de 2013, da brilhante ideia do amarantino Orlando Soares Ribeiro, ex-craque de futebol, conhecido como ZAGUEIRO MURALHA.
 FINALIDADE:
- Confraternização de atletas que marcaram história no cenário esportivo amarantino e no Brasil afora.
- Motivar a juventude para cultivar o futebol arte de nossa AMARANTE que tanto nos  trouxe glória.
COMISSÃO ORGANIZADORA:      
Antonio Soares Ribeiro (Tota) - Luís Alberto Soares (Bebeto)- Denison Duarte- Irene Silva - Paulo Afonso Alencar Cunha Júnior - Fátima Freitas - Gonçalo Freitas (Gonçalinho)- Virgílio Queiroz - Edvaldo Ferreira Lima (Bobô)
HOMENAGEM PÓSTUMA:
Como forma de reconhecimento pela relevante contribuição ao futebol amarantino, externar gratidão aos inesquecíveis atletas:
ANTÔNIO AYRES LIMA – amarantino nato, considerado por muitos como um dos melhores jogadores de Amarante de todos os tempos, conhecido como o “Pé de Ouro”. Jogou no Amarantino Futebol Clube e na Seleção de Amarante.
VICENTE LIMA  amarantino, um dos atacantes mais respeitados que Amarante já teve.  Um apaixonado por futebol. Habilidoso jogador, ajudou o Amarantino Futebol Clube e Seleção de Amarante em muitas glórias.
SANATIEL PEREIRA DA SILVA – Filho de Amarante. Foi zagueiro do Fortaleza Esporte Clube, considerado um dos melhores do norte-nordeste. Atuou nos times: Amarantino Futebol Clube, Flamengo, Botafogo, Piauí e River (Teresina), Maranhão (São Luís – MA), América (Fortaleza) e nas seleções do Piauí, Maranhão e Ceará.
FRANCISCO EVARISTO DE SOUSA o popular “Chico do Antonhão”, um craque amarantino. Era habilidoso, chutava forte com os dois pés, cabeceava bem e tinha um passe preciso. Inteligente, criativo, boa estatura.  Jogou longos anos como volante em times e Seleção de Amarante.
VICENTE ALVES VIEIRA o popular “Vicente Zumba”, natural de São Francisco do Maranhão, marcou história no futebol amarantino. Considerado o maior zagueiro de Amarante de todos os tempos. Tinha uma grande paixão pelo futebol de nossa Terra. Dizem, se o inesquecível craque fosse da geração de hoje, jogaria em qualquer time de grande expressão do mundo, talvez, até na Seleção Brasileira.
 JOSÉ NUNES LIMA – o popular Zé Mambira, foi um grande ídolo do futebol de Amarante e da região. Meio campista, um craque - comparado como clone de “Mané Garrincha” devido sua habilidade e de dribles desconcertantes e com o famoso “SAI DOIDO” que tanto irritava os adversários. Inesquecível velho Mamba, como também era tratado, principal atração de longos anos do Amarantino Futebol Clube e da Seleção de Amarante. RAIMUNDO NONATO DA SILVEIRA – vulgo “Nonatinho”, amarantino nato, também conhecido como “Nonato do Né” e “Meu Bode”. Fez história no futebol de Amarante, era um centroavante habilidoso, rápido e goleador. Com ele não tinha esse negócio de amarelar em jogos aqui e fora. Jogou no Amarantino Futebol Clube, Seleção de Amarante e River de Teresina.
LUIZ GONZAGA BEZERRA – natural de Amarante, conhecido comoDezoito”, apelido adquirido no futebol. Fez história como centroavante na Seleção de Amarante, Buriti dos Lopes (PI), no Amarantino Futebol Clube, no Parnaíba e Paissandu (PI).
JOSÉ RIBAMAR FREITAS amarantino nato, o popular Ribinha Cudanta, destacou-se tanto no futebol como na música. Como jogador, fez fama (ponteiro esquerdo) no Amarantino Futebol Clube e na Seleção de Amarante. Tinha como característica principal as brincadeiras agradáveis com os amigos.
ONÉSIO E JOSÉ PAULO – goleiros amarantinos de significativa contribuição ao futebol de Amarante. Defenderam por longos anos o Amarantino Futebol Clube e a Seleção de Amarante.
JURANDIR SOARES RIBEIRO – amarantino nato, lateral direito arrojado e eficiente na função de neutralizar o adversário. Posteriormente, destacou-se como juiz de futebol amador caracterizando-se principalmente pela rigorosidade na condução da arbitragem. Herança essa advinda da formação de militar do Exército Brasileiro. Seu entusiasmo era tanto que mesmo sendo soldado, era chamado pelos colegas da corporação como “CABO JURA”.

COMISSÃO ORGANIZADORA DO EVENTO

CORONEL E MÉDICO AMARANTINO SE DIZ
PRONTO PARA ENFRENTAR O “FIM DE VIDA”

          Em conversa por telefone com seu conterrâneo major e engenheiro civil, segurança e clínico Antonio Soares Ribeiro, um dos organizadores do duelo futebolístico entre “Fim de Vida Futebol Clube x “Pé na Cova Esporte clube, no próximo dia 25, em Amarante, o extrovertido amarantino coronel e médico Walker Rodrigues Prado, atleta do “Pá na Cova” e um dos maiores nomes de Amarante, se diz fortalecido para enfrentar seu eterno rival, o “Fim de Vida”.
      Vale ressaltar que o amarantino ilustre brilha muito no Piauí com seus relevantes serviços de médico-cirurgião e militar. Coronel da Polícia Militar do Piauí (aposentado). Presta expressivos trabalhos no Hospital da Polícia Militar do Estado. Foi candidato a deputado estadual e federal e a prefeito de Amarante. Dr. Walker como é mais conhecido em nosso meio, é portador de uma inteligência significativa. Gosta de atender com muito prazer todo povo de Amarante.
O coronel e médico Walker é um apaixonado por futebol – jogou muito futebol no Amarantino Futebol Clube e na Seleção de Amarante. Tem um campo particular onde promove jogos com times amadores (Teresina). Casado com Vera Lúcia Gomes Prado, também, muito famosa. Doutora em odontologia, professora da Universidade Federal do Piauí. Pais de três dedicados filhos maiores de idade.

Luís Alberto (Bebeto Soares)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

GENEALOGIA, HISTÓRIA E ECOLOGIA EM ESPERANTINA


(c) Foto:Isael Lustosa. Boa parte das pessoas vistas na fotografia foram referidas no texto


16 de julho   Diário Incontínuo

GENEALOGIA, HISTÓRIA E ECOLOGIA EM ESPERANTINA

Elmar Carvalho

I PARTE

Dias atrás recebi um e-mail do Valdemir Miranda de Castro, me convidando para umas homenagens que seriam prestadas ao grande piauiense, herói e poeta, Leonardo de Carvalho Castelo Branco, que depois adotou o nome literário de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco. Haveria um réquiem, um panegírico sobre sua vida e obra e a fundação do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico Leonardo Castelo Branco. Depois recebi um convite formal (impresso) e um telefonema do Valdemir, reforçando o teor do e-mail.

Tive a satisfação de reencontrar ou conhecer ilustres literatos, intelectuais, historiadores e genealogistas, radicados em diferentes municípios, entre os quais cito, pedindo desculpas por eventual e involuntário esquecimento: Dílson Lages Monteiro, Elias Medeiros (o Júnior e o pai), Paulo de Tarso Batista Libório, Assis Fortes, Adrião José Neto, José Luiz de Carvalho, Diderot Mavignier, Antônio de Pádua Marques, Ailton Pontes, Ramon Vieira de Carvalho, João Barros da Silva Filho, Adauto Fortes de Sá Meneses, major Leonardo Castelo Branco e o principal articulador do evento, Valdemir Miranda.

No domingo, dia 12, cedo da manhã, segui para Esperantina, em companhia de meu irmão Antônio José. Não consegui alcançar a missa em intenção da alma do ilustre homenageado, mas cheguei antes do início do panegírico, de modo que o assisti na íntegra. Valdemir, ao sabor do improviso, sem necessidade de anotações, com segurança e domínio de todo o conteúdo, discorreu sobre a vida do homenageado.

Com riqueza de detalhes, falou dos principais acontecimentos e obras de sua longa existência. Enalteceu as suas virtudes e principais realizações. Analisou e interpretou as suas mais notáveis produções literárias. Falou de sua busca inglória do legendário moto-contínuo, ainda hoje por ser inventado, que lhe consumiu boa parte da existência, e que lhe fez despender esforço, labor, tempo e dinheiro.

Também se referiu às suas participações em lutas libertárias, em virtude das quais sofreu mais de uma prisão. Valdemir é a pessoa mais indicada para escrever a mais completa biografia do notável poeta e patriota Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, cuja rica existência não precisa ser romanceada, porque na verdade já é um romance, cheio de peripécias e de fatos heroicos, quixotescos e interessantes. Leonardo é, no bom sentido da expressão, um legítimo Dom Quixote de carne e osso, cavaleiro andante das causas libertárias piauienses e brasileiras.

Em minha intervenção, após o término do belo panegírico feito pelo Valdemir, seu descendente, outro cavaleiro andante das causas culturais, ambientalistas e de preservação do patrimônio arquitetônico esperantinense, lembrei o belo poema épico moderno “Leonardo” de H. Dobal, de quem tenho a honra de ser o sucessor na Academia Piauiense de Letras – APL, que enaltece e louva a figura ímpar e exemplar do homenageado, em versos extraordinários como os seguintes: “No campo raso vai galopando / Leonardo de Nossa Senhora / das Dores Castello Branco / que também outrora / se assinou de Carvalho. // A vária fortuna de Leonardo / vai governando os astros da manhã. / Leonardo capitão de campo / conhece o nome o nume desses campos (...).”

Ressalto que, tanto nos versos que acima transcrevi, como nos fragmentos do texto historiográfico (em prosa), estes da autoria de F. A. Pereira da Costa, contrapostos às várias estrofes, o nome literário adotado pelo poeta e herói aparece como sendo “Leonardo de Nossa Senhora das Dores”, quando na verdade deveria ser Leonardo da Senhora das Dores. De qualquer modo isso é apenas um mero detalhe, que em nada desmerece o fulgor e a beleza do poema dobaliano e nem o valor e a veracidade do texto em prosa.

Quero lembrar que no ano de 1997 foi publicada a Lei Estadual de nº 4.993, que previa a criação do Memorial Leonardo de Carvalho Castelo Branco. Essa lei, a exemplo do artigo 226 da Constituição Estadual de 1989, que determinava o ensino de Literatura Piauiense, tornou-se verdadeira “letra morta”. Ao longo desses mais de 14 anos nenhuma das sucessivas gestões estaduais executou esses dois dispositivos legais, o que bem demonstra o apreço que os nossos governantes têm pelas coisas e causas culturais e artísticas.


Aproveitei, em meu outro aparte, em que também fiz a apologia de Leonardo, para elogiar a obra Enlaces de Família, de Valdemir Miranda de Castro. Recomendei a sua aquisição aos interessados em história e genealogia. É uma rigorosa pesquisa genealógica dos ascendentes do autor, sobretudo tomando como ponto de partida o grande poeta, inventor e patriota. Mas não é somente isso, o que já seria demais.

Enfoca ainda outras famílias ilustres, no corpo principal, pelas afinidades, ou no apêndice, que ele pretende ampliar, que contribuíram para a povoação do vale do Longá, mormente as que se fixaram em Campo Maior, Barras, Batalha, Esperantina, Piracuruca e Parnaíba. Traz interessantes fotografias e notas biográficas sobre as principais figuras históricas referidas. Elucida o início histórico desses municípios, discorrendo sobre os principais fatos e atos que determinaram a sua criação e desenvolvimento.     

terça-feira, 14 de julho de 2015

Gramática pra home nium recramá


Gramática pra home nium recramá

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Conheci Ademar, balconista de uma casa de produtos agrícolas. Pense num rapaz habituado a leituras sadias. Ao me atender, sempre me surpreendia com indagações úteis da última leitura. Trocou de emprego por outro mais em conta, menos as perguntas e curiosidades. Repare o e-mail cheinho de inteligência e profundidade: “Gostaria de saber sua opinião sobre o livro "POR UMA VIDA MELHOR",  adotado pelo Ministério da Educação. É digno de um escorregão ou não? Eu achava que sim, mas vendo algumas entrevistas com os linguistas Ataliba Castilho e José Luiz Fiorin, fiquei duvidoso”.

         Educação, nobre Ademar, é um processo lento e esforçado de construção do caráter, conhecimento científico, habilidades e virtudes, a partir da linguagem. A esquerda populista, porém, entende cultura como preservação de museu de minhocas primitivas. Daí não subestimar líder político de muita lábia que nunca leu um livro. Ou preservar índio eternamente despido nas tocas, isolado da civilização. Ou guetos sem escola de qualidade. Ou pobre articulando e escrevendo português peba. A ignorância alimenta de votos a demagogia.

         Desde 2011, o Ministério da Educação vem adotando o livro didático, POR UMA VIDA MELHOR, que, de melhor, só a gorda conta bancária que o livro rende. Professora aposentada da rede pública de São Paulo, Heloísa Ramos, autora,  ministra cursos de formação para professores: “A proposta da obra é que se aceite, dentro da sala de aula, todo tipo de linguagem, ao invés de reprimir aqueles que usam linguagem popular”.

         O livro ensina aos alunos que é válido escrever “nós vai de ônibus” ou “as garotas pega carona”. Doutora em Linguística, professora Viviane Ramalho, da Universidade de Brasília, defende a linguagem popular ensinada, abertamente, nas escolas, para se respeitar o interlocutor que usa outras variedades da língua, como forma de a escola se aproximar do estudante. Imagine eu tentando resgatar jovens da droga fumando maconha com eles. Que paradoxal pedagogia!

         A linguista Juliana Dias acredita que a escola deva ensinar exclusivamente a norma culta e usar a linguagem popular apenas como exemplo durante as explicações. O popular, por conseguinte, não cabe para o ensino. Cabe somente para reflexão e, até mesmo, para o combate ao preconceito com formas mais simples de falar.

Em palestra sobre Produção de Texto, ministrado em escola privada, comparei a linguagem ao guarda-roupa, no qual se escolhem peças, conforme o evento e oportunidade. Ridículo ir à praia de terno ou à cerimônia da igreja de calção.

A língua culta, gramaticalmente correta, é indispensável nos textos oficiais, científicos e veículos de comunicação. Reservam-se os méritos da linguagem popular nas geniais canções de Luís Gonzaga e de tantos outros notáveis artistas. Imperdoável, todavia, o uso da vulgaridade e do besteirol, fartamente explorados em músicas de suprassumo mau gosto. Respeitar o gosto de cada um, mas aceitar o insosso e medíocre, condena-se a retornar ao primitivo tribal. Ademar conseguiu sua carta de alforria do atraso, estudando, lendo, trocando ideias. O moço vai longe, sem promessas demagógicas  “Por Uma Vida Melhor”.   

segunda-feira, 13 de julho de 2015

OS MORCEGOS DA CAPELA


OS MORCEGOS DA CAPELA

Chico Acoram Araújo

            Certa feita estava eu, como de hábito, a fechar a janela de um dos quartos da minha casa, logo após a fuga dos últimos raios solares daquele calorento dia do mês de setembro. Contudo, através dessa janela que dava para o pequeno quintal da casa, ainda se via alguns ralos clarões reluzentes no poente, ao longe, entre as nuvens. Contemplei aquele cenário; um ar de felicidade e melancolia me abateu. Ao sair, ouvi um inopinado ruflar de asas no forro do recinto. O ambiente estava escuro.  Deduzi que fosse algum inseto ou um pequeno pássaro. Acendi imediatamente a lâmpada. De imediato, não vislumbrei o que voava sobre minha cabeça, pois o bicho se deslocava, sem bater nas paredes, em uma incrível velocidade. Só depois de um olhar atento, identifiquei que era um Chiroptera, conhecido vulgarmente como morcego, ou andirá ou guandira como os índios o denominavam em língua Tupi Guarani; o único mamífero que voa na face da terra, e possuidor de um extraordinário sentido da ecolocalização, que não é nada menos do que um biossonar ou orientação por ecos, que utiliza para orientação, busca de alimentos e comunicação. Reabri a janela, pequei de uma vassoura, pus o inusitado hóspede para fugir; desapareceu na noite já escura.

            A presença daquele pequeno mamífero voador, possuidor de mão e asa, daí o nome Chiroptera, de origem etimológica nos respectivos termos gregos cheir e pterón, que significa mãos transformadas em asas, me fez viajar, pelo túnel do tempo, para um determinado período de minha infância, na periferia de Barras do Marataoan. Era final dos anos cinquenta. Com cinco ou seis anos de idade, minha mãe cuidou logo de me colocar em uma escola. A única existente no bairro funcionava em uma antiga capela; atualmente igreja da Paróquia de Santa Luzia, no Bairro Boa Vista. A escola funcionava de forma precária e improvisada. A sala de aula era o grande salão da capela. Os longos bancos de madeira, onde os fiéis se sentavam nos dias de missa e novenas, serviam de carteiras escolares para os alunos. Uma bondosa senhora, de nome que não recordo agora, era a professora da escola; aliás, a única para ensinar cerca de 30 ou 40 alunos que se dividiam em duas turmas, sendo a primeira dos meninos iniciantes, e a segunda dos mais adiantados. O corredor que separava os bancos da igreja era o divisor das duas salas de aulas. O material escolar da criançada resumia-se em apenas um caderno de caligrafia e uma caneta-tinteiro. Os poucos livros, provavelmente pertencentes à professora, eram utilizados de forma coletiva. Hoje, creio que a metodologia pedagógica aplicada naquele rudimentar estabelecimento de ensino era positiva, pois quando minha família mudou-se para Teresina, em certo janeiro de 61, eu já sabia ler e escrever, razão esta que me fez ser promovido para uma série imediatamente superior, ou seja, para o “Primeiro Ano B” do Grupo Escolar João Costa, localizado na Rua Jônatas Batista, ao lado do Estádio Lindolfo Monteiro, no centro da cidade. Isso é uma outra história. Talvez, em outra oportunidade, poderei fazer uma dissertação sobre o assunto.

            No primeiro dia aula, ainda cedinho da manhã de uma provável segunda-feira, acompanhado da minha saudosa mãe, entrei na escola, ou melhor, na capela, onde já se encontravam a professora e mais alguns alunos. A mamãe bastante alegre me apresentou à mencionada educadora. Todo acanhado, dirigi-me para uma improvisada carteira escolar que ela apontara com um gesto de mão. Minha mãe me observou, e sorriu; voltou para casa, feliz. Logo depois, as duas salas de aula, separadas por uma parede invisível, estavam lotadas. A aula teve seu início. Não prestei muita atenção ao que a professora falou no começo, pois meus olhos estavam fixos no teto da capela. Boquiaberto, descobri vários morcegos pendurados, de ponta-cabeça, nas ripas do telhado. Estavam quietos, adormecidos. Voltei minha atenção para a professora. De vez por outra, olhava para aqueles engraçados ratos voadores.  Flagrei, algumas vezes, que eles também nos observavam, com seu olhar de olhos cegos, brilhantes e misteriosos. A capela, além de escola, também servia de dormitório diurno para aqueles pequenos animais, saindo os mesmos apenas durante a noite para se alimentarem de frutos, sementes, folhas, néctar, pólen e pequenos vertebrados. Acho que não se importavam com a presença dos alunos. Eles faziam parte do cenário escolar; tornaram-se indiferentes.

            Retornando-me dessa viagem de saudosas lembranças de criança lá do meu torrão natal, meus pensamentos voltaram para o hóspede que minutos atrás tomou rumo ignorado no breu daquela noite. Passei um bom tempo matutando porque muitas pessoas têm concepções fantasiosas sobre os morcegos, que geram comportamentos hostis e estimuladores de atitudes agressivas a esses animais tão importantes para a natureza. Sabe-se que quando há uma grande colônia de morcegos em uma região, estes facilitam o controle de peste, pois eles são predadores naturais de insetos. Além disso, os morcegos são importantes na polinização, pois estes ao visitar as flores para consumir néctar, acabam por transportar o pólen de uma flor a outra da mesma espécie, ajudando assim a reprodução das plantas visitadas. Da mesma forma, eles são responsáveis pela dispersão de sementes durante o ato de pegarem os frutos de diferentes plantas para comerem e, ao fazerem isso, ingerem ou carregam as sementes, dependendo do tamanho.

            Quanto aos mitos e famas dos morcegos, fiz uma pesquisa na Internet onde descobri algumas curiosidades sobre a nossa personagem agora em comento. Com relação aos vampiros, os morcegos estão impregnados em nossas mentes, pois os vampiros transformavam-se, às vezes, em morcegos, e saíam voando por aí, conforme mostram os filmes do gênero. Isso porque a lenda dos vampiros é muito conhecida e difundida em todo o mundo. O filme mais visto sobre vampiros foi aquele baseado na lenda do Conde Drácula, um romance escrito em 1897 pelo autor irlandês Bram Stoker. Daí muitos outros filmes foram produzidos e vistos no mundo inteiro. Dizem que a associação dos morcegos com essa lenda deve-se a três espécies de morcegos, sendo a mais conhecida a espécie do morcego-vampiro, encontrado no México e América do Sul. Importante salientar, que esse tipo de morcego não chupa, e sim lambe o sangue que sai da mordida desferida por ele. A outra identificação dos morcegos com os vampiros é o fato de esses animais terem hábitos crepuscular e noturno. Algumas espécies de morcegos gigantes são encontradas na África, Oceania e Ásia, que chegam a dois metros de envergadura, são conhecidas como “raposa-voadora”. Quanto ao mito de os morcegos serem cegos deve resultar da imaginação de que estes usam exclusivamente a ecolocalização. Pelo contrário, os morcegos têm uma visão excelente. A ecolocalização, ou o sexto sentido, vamos assim dizer, é um recurso adicional que os morcegos possuem.

            Para finalizar, transcrevo a seguir uma interessante fábula criada pelo grego Esopo que conta a história envolvendo a nossa personagem desta crônica: o enigmático morcego. A princípio, imaginei não existir nenhuma fábula com o protagonista aqui evidenciado. Antes, porém, creio ser oportuno dizer quem foi Esopo. Segundo a enciclopédia Wikipédia, ele foi escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade das fábulas como gênero literário. As suas fábulas serviram como base para recriações de outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine. O fabulista grego teria nascido no final do século VII a.C. ou no início do século VI. O local de seu nascimento é incerto.
Eis a história do fabulista grego Esopo:

O Morcego e a Doninha

Um morcego desajeitado caiu acidentalmente no ninho de uma Doninha, que, com um bote certeiro o capturou.
Atemorizado, o morcego pediu que esta lhe poupasse a vida, mas a Doninha não queria lhe dar ouvidos.
“Você é um rato, ela disse, “e eu sou por natureza inimiga dos ratos. Cada rato que pego, evidentemente, me serve de jantar, essa é a lei.” “Mas, a senhora veja bem, eu definitivamente, não sou um rato!”tentou explicar o infeliz Morcego. “Veja minhas asas. Você já viu um rato que é capaz de voar? Claro que sou apenas um tipo de pássaro, de uma variedade, podemos afirmar, um tanto exótica. Por favor, me deixe ir embora!”.
A Doninha, olhando melhor para sua vítima, concordou que ele não era um rato e o deixou ir embora. Mas, alguns dias depois, o mesmo atrapalhado Morcego, cegamente, caiu outra vez no ninho de outra Doninha.
Ocorre que Esta Doninha era inimiga declarada de todos os pássaros, e logo que o tinha em suas garras, preparou-se para abocanhá-lo.
“Você é um pássaro,” ela disse, “por isso mesmo o comerei!” “O que?” Exclamou o Morcego, “eu, um pássaro! Isso é quase um insulto. Todos os pássaros possuem penas! Cadê minhas penas, você é capaz de vê-las? Claro que não sou nada além de um simples rato. Tenho até um lema que é: Abaixo todos os Gatos!”
E o Morcego teve sua vida poupada pela segunda vez.
Moral da história:
1.     Sábio é aquele que é flexível, que sabe analisar a situação e agir de acordo com as circunstâncias.
2.     O sábio aprende a tirar do problema uma solução incapaz de criar outros problemas ...                

domingo, 12 de julho de 2015

LÍRICA 2.222


LÍRICA 2.222

Elmar Carvalho

Eu vi teus olhos
de pedras verdes musgosas,
dissolvendo-se em líquido
no verde móvel do mar.
Teu corpo vi tomando
a forma da praia
e a tua voz assumindo
a cadência da música
das ondas.

De você me veio
uns longes veios de saudades
e maresias
invadindo meu ser.

Os teus cabelos
eram loiras algas,
encrespadas em ondas do mar.

As curvas
da terra e do mar
são apenas projeções
da poesia selvagem de teu corpo.

Sim, sinto ainda te amar
a leste, oeste, ao vento e ao mar,
com a mesma paixão incontida
de um gesto feito de raiva,
do tempo em que eu tinha
a inocência e o pecado
de um deus feito de pedra.  

sábado, 11 de julho de 2015

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Foto meramente ilustrativa

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Jacob Fortes

Certa feita, visitando uma dessas feiras populares, deparei-me com um vendedor de orações, ancião atópico para não dizer esquisito. Atendia pelo apodo de “Louro”, arruivado, corpo pesado, protuberância abdominal e papadas pletóricas. Caricaturado de frade capuchinho, quiçá rabino, vestia uma espécie de sobrepeliz, de cor solferino e barrete, na cor branca, sobre a coroa descalvada. Sua barba branca e hirsuta completava o caricatural fradesco. De sorriso blandicioso e mansuetude distintamente imperturbável, apregoava, em tom de veracidade, que as orações à venda, cada qual com seu propósito, eram de virtudes prodigiosas. A cada dezena de orações adquirida o comprador recebia de brinde um frasco de água benta que, segundo afirmava, depois de espargida no interior da residência tinha o condão de impedir a entrada do “sujo” ou quaisquer dos seus emissários satânicos. Por meio de um pequeno inquérito pude saber desse vendedor, propagandista da fé, a serventia das tais orações de salvação. (É o meio que cada um engendra para amealhar tostões valedores; melhor que pilhar a algibeira de quem trabalha).

Vendia orações para todas as finalidades possíveis e inelutáveis, em vários idiomas, inclusive em árabe. As súplicas, em cada uma, se endereçavam, conforme o caso, aos mais diversos Santos, dentre eles Santo Elesbão. Nessa lista figurava os que ainda não haviam passado pelo rito da canonização, portanto desconhecidos do Santo Papa. Exemplificativamente, eis a serventia das orações: em favor do bom parto, do perdão eterno, da saúde e segurança pública; contra vícios e defeitos, dores em geral, raios, tremores subterrâneos, mau-olhado, afogamentos, mordida de cão, picada de cobra, desilusões amorosas, corrupção, propina, suborno, caixa dois, ditadura, analfabetismo, injustiças, malversação, cooptação, fisiologismo, despotismo, nepotismo, tráfico de influência, ateísmo, celibato, etc. O “Louro” tinha particular predileção pela reza que prometia sono bem dormido: (“Nesta cama me deito, desta cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com seu manto”). Mas não se podia descuidar de certos rituais sem o que as orações não surtiam os efeitos desejados: umas haviam de ser penduradas ao pescoço do suplicante, em forma de escapulário, outras ao cós da saia e assim por diante. Também, que as rogativas fossem formuladas de modo fervoroso.
Nas palavras do “Louro” os santos, educados na humildade evangélica, não se fazem de rogados: se esmeram em atender tolerantemente todos os pleitos, requerimentos e cartas de empenho.

E eu, pobre mortal “borra-papeis”, que não ouso contraditar a existência de Deus e do poder das orações, (isso fica para os agnósticos), tratei de adquirir não apenas uma, mas o maço completo: quarenta orações. Afinal, além de asceta e espiritualizado, também sou crendeiro brasileiro. Espero em Deus que as orações sejam de grande valimento não apenas para este modesto escriba, mas para os seus ledores. Que elas nos valham nas aperturas; que possam remediar as nossas precisões sobremodo mitigar os duros momentos do ajuste fiscal, imposição do governo que aflige, dia e noite, o cérebro dos brasileiros: que porejam na faina para honrar as suas obrigações e bancar os que vivem parasitariamente.