segunda-feira, 12 de abril de 2021

A volta do Boêmio

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A volta do Boêmio

Sousa Filho

              É engraçado. Há momentos em que acontecem coisa em nossas vidas que se parecem muito com fatos ocorridos nos textos literários, guardadas as devidas proporções. Ontem me senti o próprio Quincas Berro d’Água. Não que meus amigos tivessem me levado para passear pelas ruas de Salvador e nos prostíbulos dentro de um caixão depois de morto.

Acontece que eu que sempre gostei de noitadas e bebedeiras, há muito tempo não sabia o que era isso devido a um problema de saúde que não vale a pena relatar o tipo de moléstia. Para aguçar a sua curiosidade, direi apenas que era um problema físico, sem maiores detalhes por enquanto.

Devo dizer que me deu uma vontade danada de tomar umas e requerer da boemia “minha mais nova inscrição”. Comecei então a pensar numa forma de como faria isso, uma vez que estou há algum tempo usando muletas. Mas como fazer isso? Lembrei do meu irmão, liguei pra ele para lhe contar minhas intenções de voltar pelo menos por algumas horas à boa a velha vida boêmia.

– Preciso de sua ajuda, irmão!

– Diga lá, irmão, disse ele.

– Você lembra o que os amigos do Quincas Berro d’Água fizeram com ele após a morte dele?

– Lembro, respondeu meu irmão já um pouco curioso com aquela proposta que fiz.

– Quero fazer parecido, falei.

– Entendi. Respondeu.

– Só tem um pequeno problema: onde vamos encontrar um caixão para lhe colocar dentro?

E mais: todos cabarés estão fechados devido à pandemia. Todos: Zilda Pé de Cansanção, Stefane Boca de Lata, Raimunda Cospe Fogo, Mata Cratera…

– Calma!

– Não precisa pegar as coisas ao pé da letra. Só preciso que você venha me buscar para que eu saia desse cárcere quase privado.

Enfim, deixando o entreatos e indo aos finalmente, saímos para voltear e tomar umas, escondidos, devido a um bendito decreto governamental, consequência da pandemia de corona vírus.

Depois de um nem tão breve regresso à boemia, eu já estava chamando cachorro de cacha, Jesus de Genésio e urubu de meu louro. Lembrei do Raul Seixas, tipo: “parem o mundo que eu quero descer”. Mesmo assim, ficamos mais algumas horas papeando; conversa de bêbado.

Decidimos ir pra casa. Não chegamos nem perto de fazer as loucuras que os amigos do Quincas fizeram com ele. Tudo bem. Não podia ser igual. Eu estava vivo. No caso do Quincas…

Cheguei em casa com minha cabeça latejando de dor, consequência do álcool ingerido. Parecia que o Hulk tinha dançado ula-ula em cima dela…

Depois dessa, acho que vou passar um bom tempo sem querer dar uma de Quincas Berro d’Água. Galinha que acompanha pato morre afogada. Por fim, nessas andanças, embora não tenhamos andado em nenhum “quebra”, acabei mesmo foi dormindo com uma puta dor de cabeça.   

3108.01

Fonte: Google


3108.01


Walter Lima

         Muito obrigado poeta Walter Lima, por esta lembrança natalícia poética. Nasci no mesmo dia em que nasceu Baudelaire, 135 anos depois.

Como se fizesse parte de um drama

Um belo-drama onde bela frase ecoa:

Lá vai lá vem

“Le Bateau Ivre” – no mar atroz

Lá vem firme o homem

Livre – El Mar feroz.

“homem livre, hás de ser sempre amigo do mar. ” (*)

O barco um homem

Trazem na Sina desde nascimento – o Mar.

Homem a Sina na data

Natalícia : homônimo do Baudelairianismo

Contendo tanto Mar e Air.

A herdade na ponta da pena

De quem navega datas e assina

Marcas nas ondas do dia a dia.

“homem livre, hás de ser sempre amigo do mar. “

RP, SP, 31.08.2018.

*trecho do poema O Homem e o Mar, de Charles Baudelaire – 09.04.1821 a 31.08.1867.

domingo, 11 de abril de 2021

EL MAR: MAR DE VIRTUDES E DE POESIAS



EL MAR: MAR DE VIRTUDES E DE POESIAS


Wilton Porto


Meu caro Elmar.

É justa as homenagens dos companheiros, uma vez que você vem se debulhando no Rosário da excelsa literatura e manifestando humildade a tantos que ainda não atingiram a maturidade da sua verve.

Poetaço, com versos ora num lirismo onde a grandeza do versar é iluminatória, ou poemas agigantados do aço puro, (el)mar é um mar de sabedoria, de fervor na humildade da amizade e luminar no elevar a estima dos companheiros.

Poeta Elmar é um literato por natureza, por amor, por opção, por valor e mais e mais adjetivos, substantivos, verbos, distribuídos com objetividade e subjetividade dos grande vates.


Homenagens mais do que merecida para quem, incansavelmente está na mídia espalhando luz de qualidade.


Este é Elmar

dado ao azul do mar

domador da dor no versejar.

Versos que se multiplicam na terra, no ar

pelo etéreo e eterno 

por ser luz no se derramar.


É amor

Sempre mor

porque antes que percebesse a cor 

do próprio valor

já era valor

no vale 

onde a Mais-valia dos poemas

era um diadema 

Tão tão como belo do Sol se pôr 

sábado, 10 de abril de 2021

Três poemas para Elmar (*)

 

Fonte: Google


A Elmar Carvalho, uma singela homenagem pela passagem do seu aniversário

 

Sousa Filho

 

O mar, o sol

El mar, el sol

Eres el mar, Elmar.

Eres el sol

Eres sol y mar

És Carvalho: longevo, imponente.

Feliz cumpleaños, nobre Elmar Carvalho.

 

QUEM VEM DO MAR É (EL)MAR

 

Chico Acoram

 

Quem vem do mar é (El)mar;

do mar vem a maresia

trazendo brisa e as marés.

Do Elmar vem a poesia

que agrada os corações,

e uma prosa que extasia.

 

Acróstico: Elmar Carvalho (**)

 

Claucio Ciarlini

 

Ecletismo poético em linhas mais que reflexivas...

Letras que seu coração bem sabe transformar em arte

Mente extraordinariamente fértil, além de incansável,

Autor de obras que já alcançaram o nível de eternidade

Razão e Emoção em equilíbrio por deveras admirável

 

Cancioneiro do ar, do fogo, da terra, da água (Ventos Gerais).

Articulador de feitos, não apenas pessoais, mas coletivos!

Registra através de sua pena, o que lhe toca, comove ou fere

Viajando, ora pelo cosmos, pela natureza ou até pelo tempo!

Acadêmico, daqueles que não só pertencem, mas trabalham       

Literatura está no seu sangue, dela, faz uso, consome, bebe!

Homenageando figuras do bem, desde os celebres aos do povo.

Orientado pela bússola da moral e da sinceridade. Um amigo de verdade. 


(*) Fiquei muito, muito feliz e honrado com a homenagem que os três amigos me prestaram em forma de poemas, no dia em que completei 65 anos de vida. No grupo da Academia Piauiense de Letras vários confrades também me presentearam com versos, que foram publicados na crônica Duplo Aniversário, que pode ser vista na postagem abaixo.

(**) Este acróstico me é uma grande homenagem; pelo seu conteúdo, que não mereço em sua íntegra, e pelo valor pessoal de quem o escreveu.         

DÍSTICOS DESAUTORIZADOS À SÊNECA

  


DÍSTICOS DESAUTORIZADOS À SÊNECA

Antônio Francisco das Chagas Sousa

Escritor, cronista e poeta

 

Meu mui respeitado Sêneca, por que não dá para ser estoico,

quem quer ter livros e mais livros, feito um paranoico?

Falaste mal deles, ou de tê-los em abundância

aqueles aos quais não os livram da ignorância?

Para aqueloutro Mestre, se “a alma não é pequena”,

tudo, inclusive, livros em profusão, vale a pena.

Rechaçar livros, à mão cheia, aos montes,

e se não for filosofia, mas falta de horizonte?

Avaliar o outro, como a si próprio vê: pobre,

não seria atitude estoica, nem das mais nobres.

Fingir hipócrita humildade, às vezes, encobre

atos suspeitos de um demagogo esnobe.

Vivesses entre nós, hoje, Sêneca, não teria outro jeito,

ou te transmutarias de estoico em cínico, ou nada feito.

Precisa usar conhecimentos contundentes nas argumentações,

o filósofo que se porta preconceituosamente em suas pregações.

Não seria inveja, daquele, não querer estar lá,

para não ter que cruzar com alguém que já lá está?

Hipocrisia ou não, dizer que não quer ir longe demais,

quando o que mais teme é não ter forças e ficar para trás?

Se não é ato de covardia afirmar estar muito bem aqui,

chamar do que, o de quem fica por medo de partir?

Mestre Sêneca, muita tranquilidade e um certo cuidado:

pois, com alma que não quer reza, deve haver algo errado.

Relembras o que sobre Júlio Canus certa vez, tu disseste?

Apesar de contemporâneos, sua grandeza é inconteste.

No que tange ao filósofo, tu te redimiste, é bem verdade;

até para um estoico, Mestre, é difícil livrar-se de toda vaidade.

 

A buscar tranquilidade para a alma, Sêneca, tu nos inspiraste;

fazer toscos versos como estes, claro que não: era outra tua arte.

 

(Poema feito após leitura do Livro Sobre a Tranquilidade da alma, de Sêneca, em 09/04/2021, 23:00h)

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Duplo aniversário


Dez anos atrás, aos 55 anos, quando meus pais ainda eram vivos

Elmar em charge de Gervásio Castro
Homero Castello Branco, Milton Borges (médico e escritor), Ribamar Garcia, Elmar Carvalho e Des. Nildomar da Silveira Soares
Fátima, Elmar e Elmara, em de 09/04/2021



Duplo aniversário


Elmar Carvalho


Ontem cedo, quando fui verificar minhas mensagens de WhatsApp no grupo da Academia Piauiense de Letras, vi encabeçando outras a da amiga Vera Rocha, secretária do sodalício, me parabenizando pelo meu aniversário e me desejando muita saúde, paz e alegria. Na sequência vinham outras de vários colegas. Fiquei tão contente, que não fui conferir no calendário se era mesmo o dia de meus anos. Agradeci a todos, pelos votos formulados e pela gentil lembrança.

Somente muito mais tarde, quando quase todos os participantes do grupo me haviam enviado suas saudações, através de telefonema, o acadêmico Felipe Mendes, homem do planejamento, da organização e da lógica cartesiana, me indagou a respeito da possibilidade de engano, tendo eu, então, verificado no calendário que de fato eu só completaria meus 65 anos de vida no dia seguinte, sexta-feira, 9.

Diante disso, postei a seguinte nota elucidativa, em nosso grupo: “Meus queridos amigos e confrades, somente agora, através de um telefonema do acadêmico Felipe Mendes, é que me dei conta de que meu aniversário não é hoje, mas amanhã, dia nove. Porém, não tem importância; façamos de conta que eu antecipei a comemoração para hoje, e que já comi o bolo e apaguei com muito fôlego as 65 velinhas, o que prova que meus pulmões estão bons e não "covidados".  KKKKK. Muito obrigado, repito, pelos parabéns antecipados, que ficam validados.”

Mais tarde, o presidente Zózimo Tavares, prosador de primeira água, com vários e importantes livros publicados, alguns dos quais verdadeiros bestsellers piauienses, mas que por vezes se transforma em competente poeta, que até já me havia enviado as suas profalças, me mandou a seguinte trova, por sinal muito sintética e criativa:

Feliz de quem pode, Elmar,

Soprar vela e fazer plano

Para o niver festejar

Dois dias a cada ano!

Não lhe tendo o mesmo talento para a elaboração de quadrinhas, respondi-lhe com os seguintes versos de pés e mãos quebrados:

Amigo, na rima

Você prima,

E não há

Como lhe superar.

Assim, o mais prudente

É em silêncio ficar. E Kkkkk.

Para ainda ficarmos no campo da poesia e das musas, o nosso comandante-mor, o professor e confrade Jônathas Nunes me enviou um magnífico poema, que muito me desvaneceu:

As Velas estão ao  mar!

Bom Dia Vibrante Elmar!

Rosa dos Ventos Gerais,

Elmar, você é demais!

Canta a “orgia” do espaço,

Viaja sem dar um passo,

Com engenho e muita arte,

Da Terra a Vênus e Marte ,

Fobos, Deimos, lupanares!

E, sentindo em outros mares,

Da madrugada o orvalho,

Esse Elmar é do Car(v)alho!

Imediatamente, em agradecimento por seus lindos e marulhantes versos, cheios de beleza e emoção, lhe enviei esta resposta: “Comandante Jônathas, que grande presente natalício você acabou de me dar em forma de poema. Quero publicar amanhã esses belos e criativos versos em meu blog. Excelentes. Acaso habemos um neófito poeta na Casa do Poeta Lucídio Freitas? Parabéns e muito obrigado.”

Quando foi hoje cedo, verifiquei que a história ainda não estava encerrada, pois o acadêmico Magno Pires, pensando ser retardatário, me enviou a seguinte mensagem whatsappiana, com pedido de desculpa:

“Amigo, primo e colega Elmar,

Ontem tive problemas com o meu celular. Estava desativado e só voltou a funcionar agora. Foi um dia muito ruim.

MAS, você entende isso. É um humanista-cristão de escol.

Assim, receba meus cumprimentos pelo seu aniversário ontem transcorrido. SEJA muito feliz em toda a sua vida e esse amigão de todo instante; que continue produzindo muito em todos os espaços literários; você enobrece a literatura nacional. Abraços com as desculpas antecipadas pelo atraso nas felicitações.”

Desfiz o engano do amigo, primo e confrade com estas palavras: “Não há de quê. O certo foi você. Meu aniversário é hoje, dia nove. Os colegas e amigos terminaram  antecipando para ontem. E eu, por não ter conferido o dia no calendário, não desfiz o equívoco, a não ser muito mais  tarde, quando o confrade Felipe Mendes me advertiu quanto a isso. Muito obrigado por suas excelentes palavras e por sua amável lembrança.”

E já no apagar das luzes, quando o ponto final já estava caindo sobre esta crônica, o meu amigo e parente, escritor e maçom do mais alto valor,  médico Domingos José de Carvalho, me enviou estes versos, amáveis e de bons augúrios:

       Se tantos já fizeram

       Eu também vou sublinhar

       Mesmo sem rimas perfeitas

       Ao poeta vou desejar

       Planuras de vida sem fim

       Aos deuses vou suplicar

       Que conserve cada vez melhor

       A inteligência do grande poeta Elmar.

Posso dizer que foi uma espécie de “mal” que veio para o meu bem. Porquanto, com esse involuntário equívoco de nós todos, foi como se eu tivesse tido dois aniversários, pelos quais recebi duplas e calorosas felicitações. Deus, em sua Onipotência, até quando escreve torto é por linhas certas. Obrigado a todos os amigos e confrades, que me apresentaram suas congratulações. Devo dizer que fiquei muito satisfeito com esse engano natalício.  

quinta-feira, 8 de abril de 2021

POETA FRANCISCO (IN MEMORIAN)



POETA FRANCISCO (IN MEMORIAN)

 

Analfabeto que aprendeu a ler com carta de ABC e

Escrever poemas como júbilos celestes

Deu-me o nome de um romancista, e romântico foi

Até a peste invisível, conduzir-lhe a casa do seu amado Deus

Em vida, leu o livro que escrevi com teus dos transferidos a mim

Em morte, será a tinta sem falha de minhas canetas até que

Meu fim chegue

A morte é um aprendizado que nos conduzirá além

Do infinito

Missão cumprida: mestre, poeta, Shaman e avô Francisco!

Em breve nos encontraremos...

 

08/04/2021

(Lord Gualberto)

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Todo poeta é eterno

Jorge Carvalho em foto recente

Casa dos pais dos poetas, onde morava
Grupo de intelectuais da Geração 70, a que pertencia o poeta. Ele tem poemas em vários dos livros acima.



Todo poeta é eterno

Luiz Ayrton

Médico, poeta e escritor


Morreu um poeta. Desses parnaibanos cheios de cenários. Dr. Jorge Antonio da Costa Carvalho com as mãos vazias fazia poesia, com as mãos atiradas tirou de si a tirania. A vida. Semana passada havia conversado com ele. Ansioso com a Covid, fechava sua casa às 17h todos os dias. Não queria andar mais nem no jardim. Nos quarenta minutos que ficamos juntos, lavou as mãos várias vezes. Lamentava não dominar mais o computador e nem as mídias sociais. Em qual mundo estamos? Tinha um carinho por esse meu primo hiperlativo e curiosamente ininteligível para os simples mortais. Lembro dele segurando a bandeira brasileira bem no alto de um caminhão no centro do Recife em 1977. Era líder na Faculdade de Direito e, nos finais da ditadura militar, ao lado do Senador Marcos Freire, conclamava a juventude a lutar pela anistia. E nos deixou poemas. E nos deixou uma das maiores coleções de arte do Piauí. Quando soube de sua morte, veio-me o silêncio do casarão onde morava, uma das casas mais belas do Estado, que guarda histórias nas paredes, no sótão e no chão. Que guarda histórias nas suas portas de vitrais austríacos. Quando morre um poeta, morre-se parte de uma cidade. Ele sabia de toda a genealogia piauiense, poesia que não escrevia. A Covid não o atingiu, mas escolheu tirar sua vida pela depressão. Armas não computadas nessa pandemia. Que Deus guarde nosso Jorge! Ficaram os poemas no chão voando como folhas secas na bela Parnaíba...  

segunda-feira, 5 de abril de 2021

FLERTES DITATORIAIS

Fonte: Google

 

FLERTES DITATORIAIS

Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                 Nasceu ao final dos anos cinquenta, do século passado. O golpe militar o pegou na primeira década de vida. Até há algum tempo, pensava que os efeitos nefastos causados pelas maracutaias patrocinadas pelas forças armadas no governo não o houvessem atingido. Enganou-se. Anos depois de empossado em cargo público, soube pelo seu chefe que sua vida pregressa, antes do ingresso, havia sido examinada, fuçada e pesquisada pelo Serviço Nacional de Inteligência, o famigerado SNI do General Golbery do Couto e Silva. Certamente, segundo ele, devem ter descoberto, sem muito esforço que, além de estudar, e das coisas que todo jovem saudável fazia, assistir cinema e jogar futebol ocupavam seu tempo livre

                Foi contemporâneo de todos os governos militares, do General Castelo Branco a João Figueiredo. Não lhe aconteceu nada de extraordinário naquele período, do ensino primário à Universidade Federal, todo feito em instituições públicas; mas soube de amigos e, mesmo, pessoas de quem se aproximou vida afora, que sofreram nas mãos de torturadores e perseguidores militares. Não lembrava de ter ouvido de quaisquer daqueles, em algum momento, alguém admitir que o golpe militar não teria sido um mal, uma chaga à nação, mas um bem necessário, como ousam afirmar obtusos hodiernos. Manter a disciplina e a ordem perseguindo ou eliminando desafetos, ou melhor, quem não comungava dos ideais políticos ou administrativos defendidos pelos governos militares, somente uma visão canhestra ou mente recalcada para perceber ou vislumbrar naquelas ações alguma virtude.

                Com o fim do regime ditatorial e dos presidentes biônicos – não eleitos diretamente -, ele e todos nós passamos a experimentar os governantes civis, eleitos pela população, não o primeiro, ainda escolhido por um colégio eleitoral, Tancredo Neves, que, morto antes de tomar posse, deu lugar ao vice José Sarney, em cuja gestão, possivelmente, o único ato digno de nota haja sido a promulgação da atual Constituição Federal. Ele e o próximo, Fernando Collor, este, já escolhido pelo voto do eleitor, por pouco, não levaram o país à bancarrota; o primeiro, ao permitir que uma inflação cavalar quase nos descarrilasse peremptoriamente; o outro, por falta de tempo: pseudoalgoz dos “marajás” aprontou tanto e tão rapidamente, que foi defenestrado do poder, passando a cadeira a Itamar Franco, cujo grande feito foi o estabelecimento do Plano Real que, desde então, vem domando a inflação, um dos maiores pesadelos vividos por nós; plano, aquele, fruto dos esforços de seu ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso, o próximo presidente e primeiro reeleito; que fez um governo razoável, mormente, no primeiro mandato; privatizou muito, incrementou a industrialização, inseriu o país no neoliberalismo, controlou a inflação, mas nos deixou deveras endividados junto ao Fundo Monetário Nacional e outros bancos internacionais. Seu sucessor, Luís Inácio da Silva, teve como ato de gestão a questionável e populista quitação de dívidas “baratas” para com o FMI. O proselitista presidente petista, contrariamente, ao seu antecessor, saiu com boa aceitação popular - depois, cairia em desgraça, em razão dos desmandos e atos de corrupção cometidos durante seu governo -, tanto que conseguiu eleger seu sucessor, Dilma Rousseff, um desastre desde os primeiros dias no governo, o que fez corroer a paciência do parlamento e mesmo do poder judiciário, culminando com seu impeachment e a assunção do vice Michel Temer. Seguindo-se-lhe, veio Jair Bolsonaro, eleito na esteira do desgoverno da petista e de seu partido, por uma maioria que o viu como salvação da lavoura.

                Nesse interregno pós ditadura militar, até a chegada do atual presidente, pouco se ouviu a respeito de um possível golpe do governo; ainda com Lula em alta na aceitação popular, soube-se de suposta pretensa consulta às forças armadas sobre a possibilidade de lhe ser estendido o mandato, como já vinha acontecendo com ditadores latinos e sul-americanos. Pelo que restou comprovado, parece que a mosca azul apenas pousou na figura, mas não a picou de fato.

                Infelizmente, o mesmo não vem acontecendo com o governo vigente. Desde o início, resolveu superlotar o poder executivo com oficiais superiores das forças armadas; há quem diga que, nem no período de regime militar, tantos deles ocuparam postos tão relevantes no governo. Em não raras ocasiões, vendo contrariadas pretensões ou intenções, ou ouvindo a quem não deveria escutar, supondo que pudesse dispor da força necessária, andou ameaçando ou blefando com a possibilidade de fechamento do supremo tribunal federal e de outras instituições, em claros flertes ditatoriais. Com a chegada da pandemia, não há como negar, tem metido os pés pelas mãos, ao tomar decisões que fogem ou se antepõem à lógica sanitária adotada mundo afora. Muito do estado de calamidade por que passam nossos sistemas de saúde e, consequentemente, a população, deve-se à sua teimosia. Sem o respaldo das forças armadas, tem mudado de tática, porém, não de opinião: recentemente, aliados seus andaram tentando fazer chegar ao parlamento projeto de lei concedendo-lhe poderes ultraconstitucionais, como os que lhe permitisse invadir atribuições de governadores e prefeitos, talvez visando tolher-lhes boas atitudes tomadas em relação à pandemia e suas consequências, dentre outras intervenções. Como o poder legislativo não compactuou com essas ideias, típicas de golpistas, nossa democracia e seus poderes constituídos ganharam sobrevida.             

domingo, 4 de abril de 2021

FELIZ PÁSCOA

 

Charge da autoria de mestre Gervásio Castro

Agnaldo Timóteo em Oeiras (em 2 tempos)




Agnaldo Timóteo em Oeiras (em 2 tempos)

Carlos Rubem

A última vez em que Agnaldo Timóteo se apresentou na minha cidade foi no dia 10 de maio de 2017, no Cine Teatro Oeiras, no âmbito do Projeto Seis & Meia, patrocinado pelo Governo do Estado em parceria com o município.


Previamente combinado com os seus familiares, fui buscar a Dona Petinha, exímia Bandolinista, Professora de Cântico Orfeônico, em sua casa, para assistir aquele memorável show.


Conduzi-a em sua cadeira de roda. Coloquei-a na primeira fila. Estava satisfeita com o que presenciou.


Em dado momento, o aludido artista, na plateia, dela se aproximou, pegou na sua mão, cantando.


Ao final, queria tietar Agnaldo. A fila estava grande, o acesso aos camarins há degraus. Recuou. Mas adquiriu um CD do cantor. Dei um jeitinho de colher um autógrafo, disse ao Agnaldo de quem se tratava. — Senti que ela tem bom astral, pontou. Deixou-lhe a seguinte dedicatória: “Petinha, eu te amo - Timóteo”.


Doze dias antes deste fato, rabisquei uma crônica intitulada A fã - adiante transcrita - na qual narrei o desejo da tia Amália Campos, Professora, 97 anos, de participar daquele espetáculo, o que de fato ocorreu.


Hoje (03.04.2021), tomamos conhecimento da morte do grande Agnaldo Timóteo, vítima da COVID-19. E estas lembranças me são recorrentes!


A fã

Carlos Rubem                                                         

Hoje (28/04/2017), a minha querida tia Amália Campos, 93 anos, mandou fazer uma faxina no quarto de Gerson, onde, há muito, instalou sua biblioteca, expõe fotografias de familiares e outros trecos. Todo dia, neste ambiente, dá seu expediente.

Lê livros, revistas, jornais, escreve cartas, cartões, bilhetes. Enfim, mantêm intensa correspondência epistolar com amiga(o)s e parentes.

Os cupins deixaram marcas de sua presença por lá. Todos os objetos foram retirados de seus lugares visando a limpeza necessária. Entre os tais, uma velha coleção de LP's. Enfim, localizou-se dois discos de vinil de seu ídolo, o cantor Agnaldo Timóteo, um, de 1967 e um outro, de 1969, em ambos, consta sua assinatura.

Está sabendo que aquele artista vai se apresentar no Cine-Teatro Oeiras, no próximo dia 10, terça-feira. Discretamente, demonstrou interesse de assistir a este show musical.

Claro que a incentivei a tanto. Mas me fez duas exigências. Gosta de complicar as coisas. Queria saber quem a acompanharia. Não faltará quem assim o faça, respondi. Metódica, ponderou:  – Só vou se me garantirem uma poltrona na primeira fila, naquele mesmo lugarzinho de sempre. Ouviu Stefano Ferreira?

Forçando a barra, sugeri que ela levasse os seus discos para colher o autógrafo de seu astro. – Não, não vou dar este espetáculo!, enfatizou.      

sábado, 3 de abril de 2021

Carta virtual sobre a live Gerações Literárias Contemporâneas



Carta virtual sobre a live Gerações Literárias Contemporâneas

Recebi do escritor e pastor evangélico Cícero Veras a carta virtual abaixo, comentando o evento virtual Gerações Literárias Contemporâneas de Parnaíba, que pode ser visto através do You Tube.

Nobre poeta, boa noite!

Assisti todo o conteúdo da Live e confesso que fiquei admirado, como os anos afastados nos deixam ignorantes do que está acontecendo pelas nossas bandas daí. Apesar de Tutoiense, assim como você, campomaiorense (creio que seja essa a grafia), nos causou profundas marcas que nos ligam de uma forma incólume, a essa maravilhosa terra de muitas histórias ainda a serem contadas, a qual amamos muito. Como lhe havia dito, foram muitos anos sem pegar na caneta ou tecla para escrever nada, de repente e do nada, saltou-me ao coração, novamente o desejo de escrever, embora não tendo deixado de ler, me senti um tanto quanto obsoleto. 

E assistindo a live, me regozijei muito, ao tomar conhecimento dessas novas gerações de poetas que sacodem nossa Parnaíba, nos dias de hoje, com seus versos afiados. Embora, ainda havendo em mim, e porque não dizer em nós, aquele apego aos nossos tempos de geração mimeografo, nunca tão atuais, como agora. Se é que você me entende o sentimento. Creio que se trata de, com todos respeito aos novos, uma geração maior e que mudou a forma de pensar verso, prosa e afins, e que nos faz deslizar por uma folha de papel em branco, como um surfista em sua onda predileta. Outra coisa, essa forma colocada pelo Poeta Ciarlini de transformar essas gerações por fases de 15 em 15 anos, me deixou boquiaberto, e como ele mesmo disse com suas Palavras, todos bebem da velha geração mimeógrafo, pois de lá nascem suas ideias a partir da admiração pelos poetas maiores como Elmar Carvalho, Alcenor Candeira Filho, vou ficar nesses dois, pra não pecar, visto que sou um homem que ensino à não pecar.

De forma, meu nobre poeta, que fui muito acrescido ao assistir essa live, tanto que, nas próximas, tentarei participar. Digo tentarei por causa das tarefas que se avolumam no meu trabalhar, mas, com esforço, haverá de dar. Revi o Galas, Ben-Hur, já de cabelos brancos, que muito me alegrou, também. Quero agradecer por me enviar o link, para que eu pudesse rememorar tantas coisas boas, principalmente na sua fala, tão esclarecedora e prodigiosa, ressaltando uma geração de Titãs, que nunca será mumificada, como bem dissestes.

A propósito, tenho um irmão, compositor, poeta e também, um dos nomes da geração mimeógrafo em Brasília; Nonato Veras.

Vou ficando por aqui, porque o dever do ofício me chama, mas quero deixar um grande abraço. Fica com Deus!    

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Bucha de canhão e sobejo de guerra!

Fonte: Google

 

Bucha de canhão e sobejo de guerra!


Pádua Marques

Contista e romancista

 

Ninguém na casa de Mundica Brandão, nos Tucuns, dormiu um pingo que fosse naquela noite de 31 de agosto, depois de terem ouvido na Rádio Educadora a notícia de que o Brasil havia entrado na guerra contra os alemães. No outro dia bem cedo correu na praça da matriz a mesma notícia e chegou pelas ruas e casas de comércio, na mercearia de seu Bembém e tudo o mais, que era lugar de ajuntamento de gente importante na Duque de Caxias, o porto Salgado e arredores. Pouca gente meteu a cabeça e os pés fora de casa, tamanho era o medo.

Mundica Brandão tinha dois filhos, rapazes feitos, de pouco mais de vinte anos. José de Arimateia e Genário, de boa altura, trabalhadores no comércio na rua Grande, ali nas proximidades dos Franklin Veras. De madrugada a mãe teve um tino de arrumar as malas deles dois e mandar incontinenti pra casa da avó, num povoado pra além da Barra do Longá, lugar que ninguém, nem mesmo doutor Mirócles e seu Acrísio Furtado, haveriam de ir buscar e mandar pra guerra. Pelo que se andava falando na Parnaíba inteira o governo tinha preferência por homens solteiros.

Muita gente já estava se escondendo na casa de parentes ou até casando assim de uma hora pra outra. Tudo pra evitar o recrutamento. Muita gente pelo que se contava, que havia sido apanhada em jogatina de damas, baralhos e palito, de noite nas ruas escuras dos Tucuns, nos cabarés da Coroa, no cais do porto, agora estava preso no Arsenal pra depois ir direto pra guerra na Itália! Muita gente agora presa, era o que se contava e aumentava a conversa, chorava noite e dia arrependida de ter passado o tempo todo na vagabundagem na Parnaíba.

Dona Mundica Brandão e outra vizinha, de nome Celestina, marcaram de ir até na casa de doutor Raul Bacellar, na rua Vera Cruz, pedir pelo amor de Deus que desse uma força de livrar os filhos de serem levados pra o Arsenal. Até que Mundica pensou em padre Roberto Lopes, amigo da sua família e que batizou e casou muita gente nos Tucuns. Quem sabe ele não ajudasse evitando aquele sentido medonho que vivia fazendo ninguém dormir um pingo na Parnaíba.

Mas as conversas, vindas das rodas mais bem informadas, eram de que pouca gente na Parnaíba tinha condições de ir pra guerra na Itália. Os comerciantes da rua Grande já andavam se pelando de medo daquele estado de beligerância no mundo com as encomendas de cera de carnaúba rareando e tudo o mais. Havia sido atacado um navio brasileiro no Mar Adriático em março de 1941 e naquele ano afundado um navio cargueiro nas costas do Caribe, o Cabedelo. O momento era de muito desassossego.

Mas entre os ainda poucos estivadores e corretores de cargas no porto Salgado, aquelas noticias ouvidas pela Rádio Educadora de Parnaíba deixavam qualquer conversa igual fosse saída de velório. Dona Mundica Brandão agora estava pronta a ir até a casa de doutor Mirócles pedir por tudo quanto era santo pelos seus filhos. Seus meninos não poderiam ir pra uma guerra na Itália! Cobria Getúlio Vargas de tudo quanto era nome feio. Filho dessa, filho daquela! Se fosse preciso ela tinha coragem de ir falar com o presidente no Rio de Janeiro, pedindo ajuda a seu Zeca Correia e outros mais homens de poder na Parnaíba e se ajoelhar nos pés deles e pedir que não deixassem seus filhos irem morrer longe de seus olhos. Virarem bucha de canhão, sobejos de guerra!

Encasquetou até que se fosse preciso iria até Teresina falar com o interventor Leônidas Melo. Mas aconselhada por uns poucos acabou caindo das carnes.  Enquanto isso tinha muita gente fugindo na calada da noite pra de madrugada no rumo da lagoa da Prata e entrando de Maranhão adentro, se escondendo com medo de numa hora pra outra chegasse na sua porta um pelotão pra levar direto pra o Arsenal. E a notícia era de que lá entrando ninguém saía!

Chico Delmiro, rapaz solteiro, trabalhando de carroceiro, uns vinte e seis anos, seu Sebastião Pinto, sapateiro, homem casado com Conceição e pai de um menino de dois anos, Antero Conceição, ajudante de quitanda, filho de seu Júlio Conceição, o Júlio do Sabão e por fim Raimundo Pestana, também solteiro, jogador de baralho. Todos se juntaram pra entrar de Maranhão adentro e só saírem de lá quando a guerra um dia acabasse. Não houve despedida.

Quem chorou, chorou escondido pra não levantar suspeitas. Naquela hora não tinha mãe, pai, filho e mulher. Era fugir e ligeiro. Muito vizinho andava agora com o ouvido na parede da casa alheia escutando o que se passava. No cair da noite daquela semana de início de setembro de 1942 os fugitivos foram chegando no canto da rua Vera Cruz e a um sinal tomaram uma canoa e entraram na Ilha Grande de Santa Isabel.

Do outro lado iriam tomando chegada e caminhando a noite inteira. Pouca coisa pra carregar. Mudas de roupa, dinheiro, fumo pra fazer cigarros, dois litros de cachaça, uma faca e um lampião, mas tomando cuidado. Iriam procurando as veredas até chegarem já nas terras do Maranhão, Araioses e Tutoia, isso já no amanhecido do dia. Nisso estariam livres. Deles, os quatro, a Parnaíba nunca mais teve notícias.   

quinta-feira, 1 de abril de 2021

BOB, o palhaço - um artista de rua


 

BOB, o palhaço - um artista de rua

 

José Luiz de Carvalho

Escritor e Presidente da APAL

 

                Estou finalizando, para publicação ainda este ano, um livro denominado “Hilários – Contos e Causos” que reúne várias estórias engraçadas as quais venho escrevendo ao longo de várias décadas e nesse trabalho resolvi fazer uma homenagem ao palhaço Bob, um artista que eu conheço há mais de 30 anos.  Ele morava em uma pequena favela, o “Inferninho” onde havia várias construções abandonadas, localizada entre a Avenida São Sebastião e o Mercado de Fátima, naquela época, aparentemente ele tinha já uns 50 anos. Sempre gentil, atencioso e principalmente muito falante. Todas as vezes que nos encontrávamos, contava um pouco da sua história. Mesmo sem ter muito tempo para conversar, pois como sempre ando muito apressado, cuidando das muitas coisas que gosto de me envolver. Além dos mais, eu tinha acabado de assumir a chefia do Grupamento da TASA no aeroporto de Parnaíba.

Em 1986, aquele aeroporto apresentava pouco movimento de aeronaves e não tinha uma equipe completa de profissionais especializados. Muitas vezes eu tinha que trabalhar no expediente e depois concorrer na escala de serviço, operando a estação aeronáutica. Mesmo assim, nas minhas poucas folgas estive muitas vezes ali na praça da Graça ouvindo-o, contar suas piadas ou mesmo cantar, imitando cantores conhecidos, principalmente: Valdick Soriano, Caubir Peixoto e Nelson Gonçalves, dentre outros. Bom que se diga, sempre teve uma bela voz e interpretava muito bem.

Bob dizia que era oriundo da Paraíba, nascido na cidade de Catolé do Rocha de onde muito jovem foi embora para São Paulo, tentar arranjar algum emprego, e acabou morando pelas ruas e trabalhando de cara pintada e vestido de palhaço. Também se tornou cantor, se apresentando nas freiras e praças. Afirmava que já tinha participado de importantes programas na Rádio Piratininga.  Nos anos 50, costumava abrir os shows dos cantores Agostinho dos Santos e de Nelson Gonçalves e que participou de programas com Silvio Santos, na época, o “Peru que Fala”, na Rádio Nacional.  Também garantia que tinha se apresentado nos programas do Silvio Santos, Hebe Camargo, Raul Gil e também no canal 5 da TV Globo em São Paulo, da qual fez a propaganda e participou de sua inauguração no ano de 1960.   Ele relembrava o seu sucesso com orgulho, falava das suas apresentações em espetáculos de grandes circos nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, nessas capitais e também nas cidades interioranas.   Ele me contou que decidiu retornar para o Nordeste, na caravana do cantor Mauricio Reis, que era também paraibano. 

Na verdade, nada se pode garantir sobre a veracidade ou não de suas histórias. Valdemar Costa, é esse o seu nome de batismo, porém ele prefere ser chamado pelo nome do seu personagem, o Palhaço Bob.  Longe dos holofotes e dos picadeiros, imaginários ou não! Ele viveu as últimas décadas aqui em Parnaíba, na região central da cidade, interpretando o palhaço e cantor que sempre foi.

 

Hoje, o idoso cidadão, Valdemar vive no abrigo São José, no bairro de Fátima, ainda alegrando com a sua arte aos seus pares; pessoas muitas vezes sem parentes e nem aderentes, ali recolhidos e protegidos pelo Estado do Piaui.

 

“No dia do Circo, apresento a minha singela homenagem a este grande artista, o Bob”.    

quarta-feira, 31 de março de 2021

A título de posfácio

 


DIÁRIO

[A título de posfácio]

Elmar Carvalho

31/03/2021

Quando a pandemia foi dada como já estabelecida no Brasil, tomei a decisão de tentar manter a deliberação que havia tomado quando me aposentei na magistratura estadual, em 20 de dezembro de 2014, com mais de 39 anos de serviço público e 17 de atividade judicante, qual seja, diminuir meu horário diante da televisão, diversificar meus interesses e atividades culturais e outras, dar continuidade às postagens em meu blog, e prosseguir em minhas caminhadas na Avenida Raul Lopes.

Portanto, com o advento da pandemia mantive essa situação, menos a parte da caminhada, até porque ficou proibida no local em que eu a praticava. Posteriormente, passei a fazê-la na quadra de nosso condomínio. A outra coisa com que me preocupei, e para isso fazia as minhas orações e leituras de edificação espiritual, foi trabalhar a minha mente, no sentido de não me contaminar por tristeza e depressão, inclusive com o objetivo de não transmitir a familiares e outras pessoas eventuais negativismos.

Por conseguinte, continuei a ler, a escrever, sobretudo crônicas, a ver meus filmes pela Netflix e pela Prime/MGM. Como disse, reduzi o período em que assistia aos noticiários televisivos, para que me sobrasse mais tempo para as minhas atividades intelectuais e literárias. Ainda no início da pandemia, mais precisamente no dia 20/03/2020, resolvi iniciar o meu “Diário em tempos de pandemia”, que por conseguinte completou mais de ano. Vem sendo publicado como uma espécie de folhetim internético, mas pretendo publicá-lo no formato impresso, quando cessar estes dias sombrios.

Devo dizer que este meu Diário, a exemplo do “Diário Incontínuo”, que mantive por mais de seis anos, não se destinava a registros de “abobrinhas”, de fatos vulgares do cotidiano ou quaisquer outras banalidades. Na verdade, o meu objetivo era nele publicar textos, mormente crônicas, que pudessem ter algum valor literário. Essas matérias deveriam ser suscitadas por leituras, conversas, lembranças ou mesmo algum fato que eu julgasse interessante, seja pela jocosidade, pela estranheza ou pela importância cultural ou histórica, que pudesse ter. Algumas notas foram originadas de mensagens de WhatsApp, que recebi ou enviei. Em duas ou três oportunidades fiz uma montagem delas. Procurei escrever um, dois ou três textos a cada sete dias; no mínimo um foi a minha meta, que eventualmente pode ter sido quebrada por algum motivo alheio à minha vontade.  

Assim, esse livro diarístico contém crônicas puras e as crônicas que denomino de memorialísticas e/ou ensaísticas, além das que abrigam críticas ou comentários literários. Em muitos desses textos comentei livros, assuntos culturais e até mesmo fatos históricos. Como não quis elaborar um simples diário, devo dizer que em algumas destas páginas publiquei contos, microcontos e poema, feitos nestes tempos pandêmicos. Alguns foram suscitados por sonhos. De forma que, bem ou mal comparando, este volume é um bazar de variedades ou um baú de guardados, e de espantos e surpresas.

Ao longo desse mais de ano de distanciamento social, participei de várias reuniões e palestras virtuais. Quase todas foram publicadas no You Tube. Muitos desses eventos virtuais considero tenham sido importantes, tanto que os reduzi a textos, e os publiquei nestas páginas diarísticas. Entre eles cito apenas estes: as reuniões da APL em que discutimos o ensino de literatura piauiense nas escolas, importante conquista da gestão do presidente Zózimo Tavares; a que teve como tema a cidade de Teresina, em comemoração a seu aniversário; a em que discutimos a conservação do pouco que ainda resta do Meduna; Chá das 5 (TV Nestante/APL), em que palestrei sobre a Oficina Literária da APL; e as várias lives promovidas pelo confrade Dílson Lages Monteiro, através de seu site Entretextos, referentes às comemorações dos 179/180 anos em que Barras passou à categoria de vila; Leituras Compartilhadas de Rosa dos Ventos Gerais, livro de minha autoria; a que tematizava a Esperança e uma que abordava as gerações literárias contemporâneas de Parnaíba (em que houve a participação dos poetas e escritores Claucio Ciarlini e Jailson Júnior).

Posso dizer, e este Diário é um retrato e uma prova disso, de que estive bastante ativo até este momento, em que as vacinas já começam a ser aplicadas, embora de uma forma muito lenta. Essa lentidão concorre para que o cenário atual seja o de aumento elevado no número de mortes e de infecções; estas, muitas vezes, deixam sequelas graves, que perduram por muito tempo.

Creio que a pandemia não foi uma praga lançada por Deus, por causa dos abusos cometidos pela humanidade nos dias de hoje, como excessos no consumismo, na busca desvairada por riquezas, prazeres, sejam sexuais, gastronômicos, etílicos ou proporcionados por substâncias químicas, etc., fora os grandes crimes e pecados que se cometem a todo momento, inclusive contra o meio-ambiente. Dessa forma, entendo que o homem apenas está tendo o retorno de tudo quanto vem praticando de errado, ao infringir as leis naturais e as de Deus, inclusive com certos experimentos e indústrias, nem sempre éticos, como fabricação de armas químicas e biológicas. Cabe a cada um de nós refletirmos e nos corrigirmos. Não precisa de nenhum sacrifício, basta que sigamos a Lei de Ouro, deixada há dois mil anos por Jesus Cristo.

Contudo, mantive a Fé e a Esperança. Tenho Fé e Esperança em Deus de que a covid-19 será vencida, com o surgimento de outras vacinas e medicamentos mais eficazes. Reconstituindo o que disse na live sobre a Esperança, lembro que no portão de entrada do inferno dantesco se vê o terrível e acabrunhante letreiro: “Lasciata ogni speranza, voi ch’ entrate”. Deixai toda a esperança, ó vós que entrais.

Mas com toda Fé e Esperança que mantenho e tento manter todo dia, através de livros de edificação moral e espiritual e mormente através de orações, eu ouso afirmar que não perdemos a Esperança ao entrar no inferno, mas que o inferno é a própria perda da Esperança. Assim, exorto, persistamos, e mantenhamos a Fé e a Esperança.