terça-feira, 31 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



31 de agosto

O GRITO

Elmar Carvalho


Atravessamos dias difíceis, conturbados, em que o egoísmo impera desabrido. Já tive ocasião de dizer que o egoísmo em excesso é o pai de todos os vícios, é a matriz de todos os pecados, é o estopim de crimes hediondos. Esse sentimento pode levar o indivíduo a cometer assalto, estupro e latrocínio. Por que? Porque se o indivíduo não tiver outros sentimentos e virtudes, que freiem o seu egoísmo e egolatria, poderá cometer esses crimes e pecados, porquanto o que lhe interessa é a satisfação de seu desejo, de sua vontade. Deseja ter uma mulher, a terá, ainda que para isso tenha que estuprá-la; deseja ter dinheiro, obtê-lo-á, ainda que para tal fim tenha que assaltar alguém ou tenha que matar o seu semelhante. Estamos numa época de muito hedonismo, em que o que interessa é o prazer, ainda que a altos custos, como o uso de drogas ou a agressão à suscetibilidade do outro. Vemos a cada passo os intolerantes, os que não aceitam limites, nem mesmo de um simples semáforo ou o limite de velocidade ou regras de trânsito. São os que têm de passar de qualquer maneira, mesmo arriscando sua própria vida ou, o que é pior, pondo em risco a vida dos outros. Muitos começam dentro de casa, quando forçam seus pais a lhes dar sempre mais, quando ficam a exigir cada vez mais supostos direitos, sem dar a mínima atenção aos seus deveres, mesmo os mais primários. Começam, muitas vezes, com pecadilhos que vão crescendo, que vão aumentando até que se tornam uma montanha de pecados cabeludos, que não raras vezes constituem crimes hediondos. Falei tudo isso como um prelúdio estridente para contar o que se segue.

Faz poucos dias dias minha mulher viu uma cena, quase diria dantesca, no estacionamento de um dos shoppings da capital. Um jovem, já adulto, insistia de forma intransigente para que sua mãe lhe fosse comprar um objeto, que ele dizia ser barato, posto que custava R$ 60,00. A mulher se recusava a ir, dizendo não ter dinheiro disponível. Mas ele não aceitava um não como resposta, e continuava a insistir para que sua mãe fosse comprar o objeto de seu desejo consumista, sempre martelando na tecla de que era um produto barato, uma vez que custava “apenas” a bagatela de R$ 60,00, como se ele, ao considerar arbitrária e unilateralmente um objeto barato, passasse a ter automaticamente o direito de possuí-lo, ainda mais às expensas de sua mãe. A senhora, já começando a gritar, disse-lhe que iria gritar. E como ele continuasse a persistir a mulher, transtornada, completamente fora de controle, emitiu um grito agudo, estridente, um grito de desespero, de desamparo, um grito de socorro, um grito de dor espiritual e de revolta, que ecoou pelo estacionamento, que atroou pelos ares em busca de anjos e santos. Creio que o grito foi semelhante ao que o pintor Edvard Munch tentou expressar no quadro que leva esse título. Ou seria mais semelhante ao que o sublime poeta Rainer Maria Rilke imaginou, quando disse na primeira das Elegias de Duíno: “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?” Suponho que algum anjo deve ter acolhido o grito dessa mãe desesperada, dessa mãe impotente ante a incompreensão do filho, que na verdade era o seu algoz.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



O ESPANTALHO CHARLES BRONSON

Elmar Carvalho

João Ribeiro era um caboclo muito trabalhador, e sempre ganhava as disputas sobre quem capinava mais rápido, quando eram feitos mutirões desse tipo de serviço, através de troca de diária ou troca de serviço. Esse é o sistema pelo qual um campesino trabalha para outro, para que este trabalhe para ele em outra oportunidade. Todos na localidade Morro Branco gostavam de trocar serviço com ele, porque sempre saíam ganhando, uma vez que João, seja para si ou para outra pessoa, era sempre disposto e despachado.

As chuvas foram boas. Bem distribuídas. Fortes, mas não torrenciais e tempestuosas, de modo que sua roça era uma verdura só. O milho já começava a embonecar, com os pendões despontando em alguns pés de milho. O feijão já principiava a botar os brotos, de onde nasceriam as favas. E o arrozal era só beleza; um verde maravilhoso se espalhava pela várzea. Até parecia arroz de presépio, sem uma falha sequer. Os cachos começavam a se desabotoar. Algumas melancias já amadureciam, assim como os melões. As pessoas admiravam a beleza e a fartura daquele roçado. Mas logo João notou que os passarinhos já revoavam sobre sua roça. Certamente, estavam a comer os grãos mais precoces. Por isso, resolveu encomendar a mestre Amaro, o mais afamado fabricante de Judas da região, um espantalho. Levou uma calça comprida e uma camisa de seu filho mais novo, ambas em bom estado, pois queria um boneco bonito. Recomendou ao artesão que fizesse um espantalho bem feito, com todos os órgãos dos sentidos bem acabados. Queria umas orelhas bem feitas, como orelhas de anjo, e uns olhos bem vivos e bem abertos, pois desejava que o seu “vigia” de pano cumprisse bem sua missão.

No dia da “inauguração” do boneco, resolveu fazer uma verdadeira festa, com a presença de seus filhos pequenos e das outras crianças do povoado. Sua mulher compareceu, juntamente com três amigas. Levaram sucos e até mesmo refrigerante, que era considerado um luxo na região, só usado raramente e com parcimônia nos dias de festa. Havia bolos doces e salgados. Levaram até mesmo pudim e creme. Partiram algumas melancias e melões que já estavam maduros. João estava feliz e levou um litro de vinho. Mandara fazer uma estaca de madeira de lei, devidamente lavrada e com uma cruzeta, para afixar o seu espantalho. Ficou com pena dele, e resolveu colocar-lhe na cabeça seu próprio chapéu, para não deixá-lo exposto ao sol cada vez mais inclemente. Ainda bem que a camisa do boneco era de mangas compridas, o que lhe daria mais proteção contra o sol e os mosquitos. Após tomar dois copos, achou por bem batizar o espantalho e fazer um discurso em sua homenagem. Molhou-lhe a cabeça com meio copo da bebida, e lhe deu o nome de Charles Bronson, seu ídolo televisivo, o homem mais valente que já conhecera. No discurso, não esqueceu de dizer que o seu espantalho seria o vigia mais valente, destemido e esperto da região; tão valente quanto o verdadeiro Charles Bronson.

No início, as aves temeram a presença do boneco. Contudo, começaram a notar que ele ficava o tempo todo no mesmo lugar, e que não movia os braços, a não ser muito levemente, quando ventava forte. Depois, perceberam que ele não girava a cabeça; que ficava olhando fixamente numa única direção. Uma ave mais esperta e mais afoita começou a comer os grãos mais distantes do boneco, e que ficavam por detrás dele. Como não reagisse, ela e as companheiras foram se aproximando dos grãos que lhe ficavam mais próximo. Até que de todo perderam o respeito e passaram a comer os cachos que ficavam aos pés dele, e à sua frente.

O espantalho começou a ficar cada vez mais triste, à proporção que a ousadia e o desrespeito dos passarinhos aumentavam. Seu dono já não lhe dava mais atenção e já não o prestigiava como no começo. Começou ele próprio a vigiar o roçado, juntamente com seus filhos. Soltavam tiros com a velha espingarda bate-bucha e disparavam foguetes, para espantar as aves que lhe desmoralizavam. Sua indignação e tristeza chegou ao auge no dia em que um insolente e sarcástico bentevi, num deboche sem precedente na biografia de qualquer espantalho, defecou em sua cabeça. Nessa ocasião não mais tinha chapéu, pois João Ribeiro, vendo que seu vigia já não merecia confiança, o retirara para dar a um de seus filhos, que lhe ajudava a espantar os pássaros. Charles Bronson, que o dono já chamava de covarde e “calça-frouxa”, chorou amargamente. Chorou e pediu ao anjo da guarda dos espantalhos que o libertasse daquela vergonha e humilhação. O anjo se apiedou do seu sofrimento e o transformou num duende protetor da fauna e da flora. Tornou-se o mais perfeito protetor das árvores pequenas e dos passarinhos, sua especialidade.

No dia seguinte, quando João e seus filhos vieram vigiar a roça, não mais encontraram o espantalho. Como era época da malhação de Judas, acharam que algum menino traquina da localidade o havia retirado para servir de Judas. João pensou que seria uma destinação bem empregada para um espantalho que não cumprira o seu dever, chegando ao ponto de ser cagado na cabeça por um pássaro irreverente. Um dos filhos de João, o menorzinho, descobriu uns passos na lama, e jurou que eram as pegadas do boneco; que tinha certeza disso, pois a chinela fora sua. Todos zombaram dele. Afinal, onde já se vira espantalho se libertar do tronco e sair caminhando por aí?...

sábado, 28 de agosto de 2010

DECÁLOGO


CLEA REZENDE NEVES DE MELO

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Sou filha do poeta, Osiris Neves de Melo que, por sua vez, é irmão de Antônio Neves de Melo, sobrinho de Abdias Neves e Eudóxio da Costa Neves, todos pertencentes à Academias de Letras do Piauí. Meu pai, de acordo com as nossas idades, estimulava a leitura dos clássicos.Iniciei muito cedo com o estímulo dele, de livros infantís, a infanto-juvenis.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

Na infância. As Irmãs do Colégio de Piripiri onde eu era interna estimulavam as competições entre alunas de interpretação de textos literários. Tomei gosto, passei a escrever poesias,crônicas e paródias.Com o falecimento da escritora, Judith Santana e a carência deixada por ela em Piripiri,nos bampos da pesquisa e historiografia me fizeram ingressar, também, na historiografia.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Sim, primeiramente, da família de escritores, depois por meio da leitura. Passei alguns anos em Teresina em casa dos tios Des. Arimatéa Tito e Edith Tito. Em convivência com o primo, A.Tito Filho ,admirava-lhe a inteligência, aprendi muito com ele. As minhas maiores influências literárias, das inúmeras leituras, com certeza são:Cecília Meireles, Florbela Espanca em língua portuguesa, Garcia Lorca e Rubén Darío, em língua espanhola.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

Sem dúvida ver os meus livros serem pesquisados e estudados em Piripiri, participar de inúmeras gincanas estudantis e ver o meu trabalho reconhecido em Brasília quando eleita para duas academias da capital federal.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

Com aquela luta por que passa o escritor brasileiro, pagando em parcelas, mas recebi apoio da Prefeitura de Piripiri, com dois prefeitos, que adquiriram livros para as Escolas Municipais.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

Livro é como filho, difícil de escolher pela importância que cada um teve dentro de um contexto a que me propunha. São iguais.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Como não resido no Piauí, à distância é difícil opinar sobre esta questão

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

Como na época de Abdias Neves em que ele não participou do Simbolismo brasileiro dado o distanciamento cultural em que se encontrava o Piauí, nosso Estado tem autores a nível de outros estados federativos, mas nem todos conseguem uma patamar mais alto.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

A rapidez da comunicação, o grande número de acessos à paginas da internet até mesmo em pequenos centros por meio de blogs, portais, acho de uma importância fundamental para divulgação da obra e do escritor.

10 – Como e por que se fez literato?

Primeiramente, por uma necessidade interior de criar, de produzir, de dividir aquele meu mundo, minhas emoções, minhas ideias, depois, ajudar a minha cidade a sair do marasmo cultural a que estava condenada.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


AMÉLIA BEVILÁQUA

Amélia Carolina de Freitas Beviláqua nasceu na fazenda Formosa,em Jerumenha, no Piauí, no dia 7 de agosto de 1860, filha do Desembargador José Manuel de Freitas e de D. Teresa Carolina da Silva
Freitas. Amélia teve nove irmãos. Deixou a terra natal ainda criança, indo morar em São Luís (MA), onde o pai era juiz de direito e posteriormente presidente da província. Ali passou parte da infância e também iniciou sua educação, concluindo-a em Pernambuco. Amélia casou-se com o jurista Clóvis Beviláqua no dia cinco de maio de 1883.
Morou, inicialmente, em Alcântara, cidade onde seu esposo assumiu a promotoria pública. No ano seguinte, após o casamento,o casal mudou-se para Recife. Em 1906, o casal Clóvis e Amélia Beviláqua passou a morar no Rio de Janeiro, local em que a escritora faleceu, em 17 de novembro de 1946. Eles tiveram quatro filhas. Amélia Beviláqua iniciou cedo sua vida literária, quando estudante em São Luís. Colaborou com o jornal do colégio, publicando contos e poesias. Em 1889, publicou trabalhos em jornais de Recife e na Revista do Brasil de São Paulo. Atuou, também, como redatora oficial da revista Lyrio, de Recife, em 1902. Foi ocupante da cadeira 23 da Academia Piauiense de Letras e patrona da cadeira 48 da Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno-Ceará. De sua obra, constam crônicas, contos e poesias e romances – todos eles publicados em diversos jornais e revistas do país.
(*) Charge e texto de João de Deus Netto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


O “milionário” Paulo Afonso
coiceou com um seco não
o boêmio e compositor Zé Bispo,
quando este lhe foi dar
um filho como afilhado.
Bispo, numa música em que dizia
que o Deus do “milionário” era
o mesmo seu e que o ouro
dele não o levaria ao céu,
sua branda mágoa de protesto
nas placas de bronze do tempo lavrou.
O ouro de Paulo Afonso
como o orgulho e a soberba
pelo ralo da vida se foi.
A música de Zé Bispo
cantando na boca do povo
é folha verde/viva que a voragem
do vento do tempo não levou.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



25 de agosto

A MORTE DA BARATA

Elmar Carvalho

Ontem uma barata, por várias vezes, tentou tocar-me os pés. Eu os batia, enxotando-a, mas logo ela investia novamente. A insistência desse inseto, pavor das mulheres em geral, acabou por me torrar a paciência. Devo dizer que faz alguns anos não gosto de eliminar nenhum tipo de ser vivo, nem mesmo baratas, moscas e grilos. Aliás, já fiz uma crônica em que tratei de um grilo. Godofredo Rangel, antes de mim, escreveu um texto sobre o caso de um grilo, em que ele, para dar liberdade a esse impertinente e enfadonho cantor, o conduziu para o quintal. Seu gesto caridoso, porém, foi fatal ao inseto, porquanto ele terminou indo parar no papo de uma faminta e gulosa galinha. As cigarras foram cantadas em verso e prosa; em fábulas, e em sonetos de Olegário Mariano. Um dos personagens de Kafka, como é sabido por todos, acabou por se metamorfosear num inseto. Tornou-se página antológica, recolhida em muitas seletas, o capítulo XXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual a personagem ficou incomodada com a presença de uma grande borboleta, pelo simples fato de ela ser negra. Um golpe de toalha encerrou sua vida. A personagem, em irônica autocomplacência, ainda se perguntou, como atenuante, por que não era ela azul. Recentemente, ao vivo e em cores, como se dizia outrora, ou em tempo real, como se fala agora, viu-se o presidente Barack Obama, em piparote certeiro e fulminante, abater uma mosca que lhe importunava durante uma filmagem de televisão.

Mas, como eu dizia, faz muitos anos que não gosto de tirar a vida de nenhum ser, por menor que ele seja, mesmo nocivo, como aranhas e caranguejeiras. Não me sinto bem em fazê-lo. Contudo, como a personagem machadiana, terminei ficando aborrecido com a insistência da barata em querer lamber-me os pés. Resolvi fulminá-la com leve golpe de chinela japonesa. Brandi a arma sem raiva e a contragosto, sem muita vontade de eliminá-la. O inseto ficou completamente imóvel, de forma que o dei como morto. Em seguida, o afastei para um canto do compartimento, onde ficou de patas e papo para o ar. Para minha surpresa, hoje à tarde, não mais vi o menor vestígio dele. Dizem que é um dos animais mais resistentes, e talvez seja o único espécime que sobreviveria à radiação de uma guerra nuclear. Sendo assim, é bem possível que tenha mesmo resistido ao golpe de minha alpargata. Melhor assim. Mas se assim não foi, que descanse em paz.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



24 de agosto

ROLINHA FOGO-APAGOU

Elmar Carvalho

Nos últimos dias, aqui em Regeneração, ou lá em Teresina, ao amanhecer, ou ao crepúsculo, tenho ouvido o cantar dolente de uma rolinha fogo-apagou. Muitos poetas têm cantado os passarinhos. Muitos têm se comparado a uma ave canora. Manuel Bandeira, em mais de um poema, falou nas andorinhas. O nosso H. Dobal fez versos às golondrinas e também ao sabiá. Este último foi cantado por Gonçalves Dias, que o colocou no alto de uma palmeira. Alguns fazem crítica, alegando que sabiá não pousa nessa árvore. Não sei se a crítica procede; o que sei é que daria uma bela imagem: a plasticidade do sabiá agregada a uma linda palma de coco da praia ou mesmo de coco babaçu, e melhor ainda se fosse um imponente buritizeiro, pejado de brônzeos frutos. O cronista Rubem Braga também teve por tema esse passarinho de tão belo e aflautado canto.

Voltemos à fogo-apagou. Seu nome é a onomatopeia de sua cantiga. Pode ser entendido positivamente, como regozijo por um incêndio que tenha terminado; ou negativamente, como o fogo vital que se tenha transformado em cinzas e tristeza, como o facho emborcado do simbolismo das catacumbas e cemitérios. Seu canto, quase cantochão monocórdio, de timbre grave, sonoro, severo, solene, mesmo ao amanhecer, que é sempre alegre, traz certa ponta de tristeza. Quando ouço esse canto ao por-do-sol, a melancolia me tomba na alma, me impregnando de suave tristeza, que aceito sem nenhum problema, pois todos temos os nossos momentos sombrios. Manuel Bandeira já advertia para que procurássemos amar a nossa tristeza, que um dia aprenderíamos a amá-la.

O canto dessa rolinha me fez recordar minha infância. Acostumado com o movimento e o burburinho da cidade, nas poucas vezes em que fui passar uns poucos dias de férias em Ameixas, zona rural de Barras, ao ouvir esse cantar tão dolente, tão melancólico, ficava saudoso de minha casa, sobretudo do aconchego de meus pais. Ao entardecer campestre de então, quando tudo parecia que se ia finando, esse canto tão sentido, tão magoado, me caía na alma como punhais, que me feriam de uma tristeza acachapante e de uma saudade avassaladora. Mas esse canto, para mim tão tristonho, tão desconsolado, tem uma beleza inefável, como a beleza que persiste nas ruínas dos monumentos, nos escombros do que já foi belo, nas rugas das deusas envelhecidas.

O AMOR

Alcione Pessoa Lima


A vida nos deixa tão perto e tão longe do que desejamos...
Mas o coração aproxima, alheio aos vendavais...
Sentimentos fazem parte do nosso senhorio e podemos escondê-los, lapidá-los, devolve-los...
Um olhar pode dizer tudo, até contrastar as pulsações de um coração...
As mãos podem retrair-se para não tocar o objeto do desejo...
A boca, calar e resmungar...
Mas a certeza de que o amor é fiel encoraja...e faz ver tudo belo, perfeito, possível...
Uma palavra, apenas, sela o início ou recomeço: SIM.
E tudo parece simples.
O amor é mágico! Por isso eterniza-se.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

DOIS MUQUIRANAS

Elmar Carvalho

João Pedro viveu até os dezoito anos de idade na zona rural de Cabrobó. Desde bem novo, o pai o explorou o máximo que pôde. Primeiro, em serviços mais leves, como levar água e comida para ele e seus outros filhos mais velhos. Depois, o fazia buscar água em cacimbas distantes, escanchado sobre uma rústica cangalha, com duas ancoretas de cada lado, a cavalgar um lerdo jumento. Quando atingiu catorze anos, foi para a roça, para fazer os serviços menos árduos, como semear e fechar a cova, apanhar garranchos etc. Aos dezesseis, já taludo, pois era um caboclo fornido, entroncado, embora de baixa estatura, foi posto para fazer todos os serviços, inclusive os de derrubada, a manejar um machado, e os de capina, agarrado ao cabo da enxada. Inteligente, com alta dose de esperteza, razão pela qual era considerado ladino, sentiu que seria um quase escravo de seu pai, até constituir sua própria família. Sabia que seria mais um matuto a amargar um trabalho estafante e de parco rendimento. Assim, mesmo contra a vontade do pai, quando fez dezenove anos, resolveu tentar a sorte na sede do município.

Começou a trabalhar num armazém, que vendia cereais e outras mercadorias a grosso. Também foi explorado a valer. Era um faz-tudo. Estivador, quando pegava os sacos pesados, deles de mais de 50 quilos, tanto para carregar, como para descarregar os caminhões. Varredor, no início e no final do expediente. Mas, muito vivo e trabalhador, foi ganhando experiência e a confiança do patrão, que lhe tinha certa estima, a estima que um homem tem pelo seu burro de carga. Sentiu que tinha de ter sua própria independência, seu próprio negócio. Mas não falou disso para ninguém, pois temia olho gordo e a desconfiança do patrão. Este terminou lhe oferecendo um pequeno quarto no fundo do empório, mesmo porque lhe fazia economizar despesas com vigilante. Em contrapartida, João Pedro se livrava do aluguel do cubículo em que morava. Também o patrão, para agradá-lo, lhe fornecia, diariamente, um prato de comida, trazido de sua casa, que ficava perto. Claro que a refeição era composta por muito arroz e feijão e apenas dois pequenos pedaços de carne de segunda ou terceira. Já era, naturalmente, muito econômico, e com o objetivo de montar sua própria quitanda passou a roer as unhas, como diz o ditado. Poupava quase todo seu salário. Nada de farras, nada de cabaré, nada de mulheres. Era tudo poupado, ainda que, às vezes, as tripas ficassem a roncar, queixosas da pouca comida. Arranjou uma namorada, e logo notou que ela era trabalhadora e também muito econômica. Quando amealhou o suficiente para iniciar um pé de bodega, pediu as contas e se estabeleceu na praça de Cabrobó. Tratou de casar e de explorar a mulher, que era muito prendada, e fazia quitutes diversos, bolos e doces, que ele vendia na pequena mercearia, tão pequena que as pessoas chamavam de casca de coco. Para não me alongar, na década de 1960 tornou-se o mais importante merceeiro da cidade, sendo considerado um dos homens ricos da comunidade, embora com a pecha de extremamente sovina, miserável mesmo.

O único homem que se ombreava a ele, em riqueza e sovinice, era o velho Ildefonso Polidoro, que tinha veleidades intelectuais e era considerado inteligente, além de dono de uma conversa agradável, desde que nada gastasse com os ouvintes, nem mesmo aguado cafezinho. Quando se encontravam palestravam um pouco, sobre amenidades e sobre o comércio local. Passaram a ser amigos, conquanto não se frequentassem. Para se ter uma ideia do quanto Polidoro era apegado aos metais, basta que eu conte um fato anedótico, porém verídico, de que ele foi protagonista. Quando precisou de novo empregado, achou que deveria encontrar um que fosse uma espécie de 3 em 1, ou seja, um servidor multifuncional, como hoje se diz. Ele mesmo se encarregou de fazer o teste seletivo. O candidato tinha que ter noções de contabilidade, ter boa redação e ainda possuir habilidade para vendedor, para que sempre tivesse o que fazer, e o salário pago tivesse uma boa recompensa para a firma. Apareceram quatro candidatos que diziam preencher os requisitos. Fora outras perguntas e questões, que me dispenso de comentar, havia a principal, que consistia em indagar do candidato o que ele faria com um diminuto retângulo de papel, que lhe era apresentado. Os dois primeiros disseram não imaginar o que poderiam fazer com tão insignificante retalho. O terceiro, porém, não titubeou, e logo disse que seria suficiente para embrulhar pedras de isqueiro, que então estava na última moda. Foi aprovado e admitido imediatamente no emprego. Esse episódio basta para que se tenha uma ideia do perfil de Ildefonso Polidoro.

Um dia, com o crescimento da amizade, João Pedro, por volta de sete e meia da noite, resolveu visitar Polidoro. Bateu a aldraba, que não precisava de energia elétrica e não precisaria nunca de conserto. O dono da casa perguntou quem era, e abriu a porta ao receber a resposta. A sala de visitas estava completamente escura, sem luz elétrica ou outra qualquer. João Pedro perguntou o motivo de tamanha treva. O dono da casa disse que estava sozinho, que não estava fazendo nada, e portanto não precisava de iluminação, até porque estava apenas pensando na vida e nas coisas. Acrescentou que, como a visita não era de cerimônia e um não precisava ficar olhando para a cara do outro, poderiam ficar no escuro, para não haver desperdício desnecessário. Conversaram durante quase uma hora, quando o visitante anunciou que já ia embora. O dono da casa, num gesto de magnanimidade e lhaneza, resolveu acender as luzes, como prova de sua amizade e deferência para com o colega e amigo. Estarrecido, percebeu que João Pedro arriara as calças. Um tanto chateado, perguntou o motivo desse procedimento estranho. O visitante, sem nenhuma alteração de voz, candidamente respondeu que, como estavam sozinhos e em completa escuridão, resolvera economizar os fundos da calça, que já estavam um tanto puídos.

domingo, 22 de agosto de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Danilo Melo, José Hamilton, Assis Brasil e Alcenor Candeira Filho

Sucesso do II Salão do Livro de Parnaíba

F. Carvalho

O II Salão do Livro de Parnaíba (Salipa) foi encerrado com clima de comemoração na noite deste sábado, 21 de agosto, após a palestra “Outras margens da mesma língua”, do escritor angolano Ondjacki, assistida por mais de 600 pessoas no auditório da Associação Comercial ou através de um telão e uma televisão, instalados ao lado. O sucesso do evento foi destacado pelo prefeito José Hamilton Castelo Branco que ressaltou o interesse do público que lotou o auditório durante as palestras e na área dos estandes das editoras e livrarias, montados na Praça de Eventos do Porto das Barcas. Ele também destacou o alto nível dos palestrantes e das apresentações artísticas levadas ao espaço do Salipa e manifestou o interesse do município em investir mais no incremento da festa literária parnaibana, na edição de 2011. José Hamilton ressaltou que o sucesso do II Salipa é resultado da parceria da Prefeitura com a Fundação Quixote, que repassa experiência à equipe do município encarregada pelo evento, formada pelas secretarias de Cultura, Comunicação, Educação e Chefia de Gabinete. O presidente da Fundação, professor Luiz Romero Lima, foi representado no encerramento pelo professor Welligton Soares, um dos fundadores da instituição, que também se declarou satisfeito com os resultados.

Instituído no ano passado, o Salão do Livro de Parnaíba ampliou o sucesso da sua primeira edição, com aumento de público visitando os estandes, assistindo as apresentações artísticas e participando de oficinas e bate-papos literários. “O Salipa é o único evento em Parnaíba que além de lotar um grande auditório, ainda acomoda pessoas diante de um ambiente com telão e outro com televisão, transmitindo as palestras”, ressaltou o secretário de comunicação, professor F. Carvalho, um dos organizadores do Salipa. O interesse dos parnaibanos pelos livros demonstra a viabilidade da festa literária parnaibana, na opinião do prefeito José Hamilton.

Entre os palestrantes do II Salipa estiveram Salgado Maranhão, Cinéas Santos, Danilo Melo, Amparo Coelho, Manuel Domingos Neto, Márcia Tiburi, Fonseca Neto, Diva Figueiredo, Luiz Romero Lima, Antônio José Fontinele e o angolano Ondjacki. Entre os artistas que se apresentaram estavam Besouros da Silva, Soraya Castelo Branco e Patrícia Melodi. Nas três noites de palestras, o publico foi recebido no auditório por apresentações artísticas, como chorinho, voz e violão e saxofone.

Na sala de bate-papo literário foram lançados os livros “A cor da palavra”, de Salgado Maranhão; “Por um triz”, de Welligton Soares; “(In)Certos Versos e Alguma (P)Rosa”, de Danilo Melo; “O Morro da Casa Grande”, de Dílson Lage; ”Representação e identidade cultural do vaqueiro no cinema novo”, de Halan Silva; “Conjunto Histórico e Paisagístico de Parnaíba”, uma produção coletiva de iniciativa do Iphan; “Memorial da Virgem”, de autoria do ex-ministro João Paulo Reis Veloso; “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, de Manuel Domingos Neto; “Parnaíba na história da aviação”, de Tércio Solano Lopes” e Tom do dom da dor”, do poeta Wilton Porto.

O Salão do Livro de Parnaíba recebeu caravanas de escolas públicas e particulares para visitação aos estandes e participação nos bate-papos literários palestras.

BERNARDO DE CARVALHO E AGUIAR E A VILA DA PARNAHIBA

Vicente de Paula Araújo Silva - “Potência”


Capa do livro do historiador Pe. Cláudio Melo sobre Bernardo de Carvalho e Aguiar

Nasceu em Vila Pouca de Aguiar (Portugal), filho do nobre Antonio Silvestre de Aguiar e faleceu em 1730, em São Bernardo (MA). Ao chegar ao Brasil, domiciliou-se na Bahia, onde constituiu família casando com Dona Mariana da Silva, com a qual, teve os filhos Miguel de Carvalho Aguiar e Dona Antônia Aguiar, que se casou com o Sargento-Mor, Manuel Xavier. Iniciou suas atividades militares em meados de 1690, por intermédio de José Garcia da Paz, que havia recebido de Dom Frei Manuel da Conceição, Bispo de Pernambuco, governador interino da Capitania de Pernambuco, a missão de combater os Percatís, que estavam provocando danos e desassossegos aos moradores do sertão das Rodelas. Ali, em lutas sua bravura destacou-se.
Ainda no verão de 1690, aventureiros lusitanos, pernambucanos e baianos, passaram a ocupar os vales oriental e ocidental da Ibiapaba, onde missionários jesuítas haviam pacificado os índios. Então, os Crateús, sentindo-se oprimidos pela invasão colonizadora, fizeram fortes ataques a esses curraleiros, que atemorizados pediram socorro ao Governo do Brasil.
Diante desse fato, Iniciou-se então, a participação do Capitão Bernardo de Carvalho e Aguiar na região , que chegou ao campo de operação, vindo pelo sertão das Cajazeiras, conseguindo a pacificação daqueles selvícolas, possibilitando o aldeamento dos mesmos pelos padres da Companhia de Jesus. Daí, veio o seu prestígio junto aos selvícolas da região, pois sabiam que ele não usava a prática da época em que era permitida a escravização e venda de presas de guerra. O seu intuito, era afastar o gentio das proximidades das fazendas ocupadas pelos curraleiros lusitanos, baianos e pernambucanos. Vendo reais possibilidades de ganhos econômicos, resolveu também criar currais de gado . Assim, instalou-se inicialmente, em cabeça do Tapuio (São Miguel do Tapuio), de onde seguiu em 1694 para o lugar onde hoje é a cidade de Campo Maior e posteriormente para São Bernardo (MA). É considerado o fundador dessas cidades.
Em 1696, morava na Faz. Bitorocara, no rio do mesmo nome, com 04 negros, quando recebeu a patente de Cap. mor de infantaria da Ordenança do distrito da Cachoeira – BA. Mais tarde, foi elevado a patente de Coronel do mesmo regimento. Ao se instalar em Bitorocara, convidou no ano de 1696, o missionário jesuíta Pe. Ascenço Gago, para fundar no lugar,uma missão jesuíta, a qual foi instalada no final daquele ano.
Antonio da Cunha Souto Maior, comandante da Campanha anti-indígena do Governo do Maranhão,em 1708, com a Patente de 1º Mestre de Campo do Piauí, pediu a colaboração de Bernardo Carvalho, e nas suas terras fez o seu acampamento, onde o mercedário Frei Manuel de Jesus e Maria, passou a ser o responsável pela implantação da fé cristã. Após esse fato, o então Coronel, Bernardo de Carvalho, desvinculou-se da hierarquia pernambucana, ficando a serviço do Maranhão. Após, quatro anos de atividades desastrosas junto aos índios que lhe eram fiéis e desentendimentos com o seu irmão então Capitão-Mor, Antonio da Cunha Souto Maior, o primeiro Mestre de Campo do Piauí, foi assassinado por aldeados, incitados por Mandu Ladino, em 12 de julho de 1712. O Capitão-Mor, seu próprio irmão, foi denunciado como principal suspeito pelo mando.
Após o assassinato de Antonio da Cunha Souto Maior, a revolta dos índios espalhou-se na região, então os fazendeiros do norte em reunião, redigiram um abaixo assinado indicando o Coronel Bernardo de Carvalho e Aguiar, para substituir o sinistrado, ato aprovado pelo governador do Maranhão, Cristóvão da Costa Freire , em 30 de dezembro de 1712, com a assinatura de sua Carta Patente como Mestre de Campo.
Entretanto, em 20 de setembro daquele ano, antes de receber a Carta Patente, iniciou as operações de combate ao gentio rebelado. Depois da caça aos anacês em fuga e de muitas escaramuças com prisões, mortes e recuperação de bens seqüestrados de curraleiros, já retornando da área da Ibiapaba, chegou a ribeira do rio Piracuruca , onde teve notícias de que os índios Araíós e Anapurus, haviam atacado a chamada Vila da Parnaíba, capitaneada na época por João Gomes do Rego Barros.
Então, reunindo a sua tropa disponível e reanimando-a das canseiras das lutas travadas, rumou para a povoação atacada, com a finalidade de socorrer os parnaibanos aflitos. A respeito dessa empreitada, o padre franciscano Frei Lino Demescent , se referiu ao Mestre de Campo, escrevendo o trecho a seguir – doc.13/01/715 : “ E vendo a desolação que nos tinha feito o gentio, pelos seus repetidos incursos e cercos, matando-nos alguns homens e quantidade de cavalos e eguas, roubando a seu Missionário, profanando a Igreja e, com uma sacrílega temeridade, cortando as narinas dos santos, se resolveu, com todo o rigor do tempo, a mandar, como o fez, uma bandeira escolhida de sua tropa, me escolhendo por Capitão dela. Partindo aos 8 de dezembro”.
Logo depois do envio desse aparato militar, o experiente Mestre das Conquistas, seguiu com outros comandados e juntando a tropa sob seu comando, avançou ao confronto com os sublevados, resultando positivamente a sua ação..
Após o resgate da vila, o Mestre de Campo teimava em perseguir os nativos, no delta do Parnaíba, mas atendendo a conselhos de colaboradores, optou em enviar uma proposta de paz aos índios , que responderam nada quererem com os brancos, mas sim viverem nas suas terras, sem o nosso comércio. Pediram apenas um sacerdote para morar com eles e lhes administrar o sacramento. Os moradores da vila, acharam viável a posição dos mesmos e assim, Frei Lino Demescent, ficou com eles durante um ano, quando curraleiros da região da Parnaíba e do Ceará, não se contentando com índios livres próximos a eles, forçaram a saída do mentor espiritual cristão, encerrando o primeiro aldeamento no delta parnaibano. Após 11 anos desse fato, esses selvícolas foram aldeados por missionários jesuítas, sob custódia maranhense, fato que resultou na perda da maior parte deltense do rio Parnaíba para o estado do Maranhão.
Sabe-se que apenas uma ordem superior não foi cumprida prontamente pelo arrojado militar. É que a mando da metrópole, se fazia necessária a prisão dos proprietários do sítio Buriti dos Lopes, por questão que envolvia a invasão dos mesmos às terras dos índios Tremembés. Talvez pela amizade e respeito a família pelo fato de ser lusitana como ele, essa missão não foi cumprida. Posteriormente, um membro dessa família – Antonio de Oliveira Lopes – solicitou a confirmação no posto de Sargento-Mor da Vila de Nossa Senhora de Monserrate da Parnaíba, em substituição ao português Manuel Peres Ribeiro, ato consumado em 07 de maio de 1724.
Tudo isso, é estória que tem a ver com a história da Parnaíba.

DA SÉRIE:
ESTÓRIAS A RESPEITO DA HISTÓRIA DA PARNAÍBA

sábado, 21 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Meus pais, Rosália e Miguel, em viagem saudosista a Francinópolis, antigo povoado Papagaio, onde moraram em 1957/1958, no início do casamento.

21 de agosto

AINDA JOSÉLIA

Ontem, quando vinha a Parnaíba, com a missão de fazer a apresentação de Manuel Domingos Neto e de seu livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, resolvi passar pela casa de meus pais em Campo Maior, sobretudo com o objetivo de lhes entregar cópia da crônica que publiquei neste Diário, datada do dia 17, sob o título “A morte de Josélia”, uma vez que eles não são navegantes da internet, na qual fora publicada. Talvez nisso tenha havido certa dose de recôndito e dissimulado sadismo sentimental e vaidade artística, que nem Freud saberia explicar. É que meu pai é muito emotivo e eu sabia que derramaria lágrimas. Enquanto esperava a refeição num restaurante de Piracuruca, liguei para minha mãe. Ela me informou que papai chorou copiosamente, e lhe leu, com voz embargada e entre lágrimas e soluços, a crônica elegíaca sobre a morte de minha irmã. Posteriormente, já em Parnaíba, após ter cumprido minha missão literária no SALIPA, verifiquei que no meu blog havia um comentário de minha filha Elmara sobre esse texto, em que ela se declarou emocionada, sobretudo na parte em que narrei o sofrimento de meus pais. Havia um outro, da lavra do escritor e professor Cunha e Silva Filho, do qual, algo cabotinamente, pinço o seguinte trecho: “A sua querida Josélia teve o destino dos que se vão cedo e têm sua biografia brutalmente interrompida (…) A poesia, ou a crônica poetizada, como esta que lhe dedicou de corpo e alma, tem suficiente poder de tornar sua irmãzinha sempre viva e doce, e bela e alegre junto de você e de sua família”. Com efeito, ela não é apenas uma fotografia na parede, como no poema de Drummond. Continua muito viva na memória e na saudade de nossos pais e de todos aqueles que a conheceram e lhe tinham estima e amizade.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Márcio Freitas, Elmar Carvalho e Neto Leal, presidente da Câmara Municiapal de Regeneração, durante a solenidade de posse de Elmar na ALMP, ocorrida em Amarante

POSSE DE MÁRCIO FREITAS

No próximo domingo, às 10 horas, o advogado e escritor Márcio Freitas, natural de Oeiras, tomará posse na Academia de Letras do Médio Parnaíba, cujo presidente é o literato Virgílio Queiroz. A solenidade acontecerá no auditório da Câmara Municipal de Regeneração, terra natal da consorte do empossando. Márcio Freitas passará a ocupar a cadeira nº 25, cujo patrono é Nestor Moreira Ramos, e tem como último ocupante Osvaldo Soares do Nascimento. O discurso de posse está a cargo do advogado e historiador Reginaldo Miranda, atual presidente da Academia Piauiense de Letras, que escreveu o mais importante livro sobre a História de Regeneração. Sem dúvida será uma bela festa de letras e cultura, em que certamente serão proferidos dois belos discursos. Segue abaixo um breve currículo do Dr. MARCIO ANTONIO SOUSA DA ROCHA FREITAS.

MARCIO ANTONIO SOUSA DA ROCHA FREITAS nasceu em 04 de novembro de 1966 em Teresina. Filho de Benedito da Rocha Freitas Filho (advogado e natural de Floriano) e Maria de Jesus Sousa Freitas (advogada e natural de São Pedro do Piauí).
Cidadão Regenerense e Florianense.
Bacharel em Direito pela UFPI. Bacharel em Engenharia Agronômica pela UFPI. Especialista em Gestão de Recursos Hídricos e Meio Ambiente. Especialista em Perícia e Auditoria Ambiental. Mestre e Doutorando em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Pesquisador bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí – FAPEPI.

Professor Efetivo de Direito Ambiental, Direito Agrário, Direito Urbanístico e Direito Administrativo da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, do Instituto Camillo Filho, da Faculdade Novafapi e da Escola de Ensino Superior do Floriano (atualmente licenciado para cursar doutorado).
Assessor técnico da Promotoria de Meio Ambiente da Procuradoria Geral de Justiça/ Ministério Público do Estado do Piauí.
Presidente da Fundação Médio Parnaíba para o Desenvolvimento Sustentável do Meio Ambiente e do Agronegócio (com sede em Regeneração). Presidente da Fundação Velho Monge (com sede em Teresina).
Membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Teresina – CONDEMA.
Representante Regional da Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRH e da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES.
Diretor de Assuntos Trabalhistas e Jurídicos do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Piauí – SENGE.
Consultor Jurídico da Associação de Proteção aos Animais – APIPA.
Ex-Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção do Piauí e Presidente da Comissão de Defesa do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos.
Ex-Conselheiro do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – CREA-PI e Coordenador da Comissão de Defesa do Meio Ambiente.
Fundador e Editor do Jornal Folha da Vila.
Ex-Secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Regeneração.
Ex- Professor do Colégio Agrícola de Regeneração.
Editou a Legislação de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, escreveu mais de 100 pareceres técnicos para a Curadoria do Meio Ambiente, publicou mais de 10 artigos científicos sobre meio ambiente e recursos hídricos.
Tem inéditos os livros: Normas de Proteção do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de Teresina; Aspectos Jurídicos do Gerenciamento Costeiro; Ações e Pareceres sobre Meio Ambiente.
Diretor da Academia de Ciências para Regeneração. Mantenedor do Ponto de Leitura de Regeneração.
Advogado e ambientalista.
(Freqüenta Regeneração há mais de 27 anos)

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Bernardo Carranca
com sua carranca de artesanato
artefato – mas não
arte de fato – de cantor/ator/à toa
atropela uma música
com seus gemidos e grunhidos e ganidos.
E canta: “De noite eu rolo
na cama...” E sai rolando, se enrolando
se contorcendo e se retorcendo pelo salão
por entre mesas e pelo chão
– bailarino de mola
sem molejo de cintura –
criador e criatura
de sua própria loucura.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




18 de agosto

A ÁRVORE

Elmar Carvalho

Era por volta de sete e meia da manhã. Tudo bem claro, mas nada de excesso de luminosidade. A temperatura estava agradável; nada de calor, nem de frio. Contudo, eu não estava feliz naquele momento. Estava um pouco preocupado, por causa de coisas que não dependiam de minha vontade. Coisas que dependiam dos outros e das circunstâncias para serem resolvidas ou melhoradas. De repente, atentei para a beleza daquela árvore. Todo dia passava por ela, mas nunca havia reparado em sua nobre beleza. Embora não se destacasse por ser de grande porte, era altiva e copada. Seu verde era incomum, peculiar; tinha tonalidades ímpares. Suas folhas eram lustrosas, e pareciam ser de uma textura levemente esmaltada. Conforme as folhas estivessem contra ou a favor da luz solar, atingiam diferentes gradações esmeraldinas. Às vezes pareciam foscas, outras vezes, translúcidas. Algumas pareciam espelhos verdes, a refletir a luz do sol; daí a intensidade com que brilhavam. A folhagem da copa era densa, fechada, e se recortava contra o límpido azul do céu daquele dia, em que apenas alguns fiapos de nuvens se esgarçavam tênue e esparsamente. Pela primeira vez percebi suas flores. Eram grandes e belas. Algumas mal começavam a desabrochar. Outras estavam no apogeu de sua beleza madura e completa. Algumas ainda não eram; eram apenas botões, que ainda haveriam de se desabotoar em pura magia, no esplendor de sua glória. As pétalas róseas formavam uma espécie de coroa em torno de uma bolota, que certamente era o embrião do fruto que viria. As pétalas centrais pareciam ter uma franja dourada, arremate de pura e caprichosa ourivesaria. Aquelas gradações de verde e de brilho eram como que o símbolo da esperança, que nos deve alimentar a cada dia. Os diferentes estágios das flores, de broto a botão, de botão a flor, de flor a fruto, me fazem lembrar as etapas de nossa própria vida. Mesmo as flores que se não convertem em frutos são frutos; frutos de beleza e graça. Naquela árvore abençoada colhi o fruto da esperança, e segui confiante e já restituído a mim mesmo em minha integralidade. Rilke, na primeira das Elegias de Duíno, falava de uma árvore sobre a colina, que a cada dia poderíamos rever. Desejo que essa árvore possa sempre ser vista e revista, e se mantenha distante dos golpes brutais de um machado.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Pintura de Rogério Albino

17 de agosto

A MORTE DE JOSÉLIA

Elmar Carvalho

No domingo, Dia dos Pais, fui a Campo Maior. Na casa paterna encontrei a minha irmã Maria José, que passou a minhas mãos um envelope contendo vários recortes de jornais, que ela cuidadosamente colara num papel de boa qualidade, de modo que esses recortes estavam em perfeito estado de conservação. Eram pequenas notas tipográficas, do final da década de 1970, dos jornais Folha do Litoral, Norte do Piauí e O Estado. A maioria continha poemas de minha autoria, do final de minha adolescência. Alguns desses textos, embora não os renegue, não os recolherei em livro. Havia breves notas sobre o lançamento do livro Galopando, primeira obra a agasalhar meus versos, e que mais me causou emoção, por isso mesmo. Também faziam parte do opúsculo os poetas Paulo de Athayde Couto, Josemar Neres, Paulo Couto Machado e Rubervam Du Nascimento.

E havia, no meio dessa relíquia de celulose, duas notas sobre o trágico acidente automobilístico em que faleceu minha irmã Josélia, no apogeu de sua beleza e na plenitude de suas quinze primaveras. Ali estava uma elegia que escrevi sob o impacto de sua morte, e que se encontra estampada no meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No meio desses velhos papéis, havia um texto manuscrito, de que já não tinha a menor lembrança, vazado em nervosa prosa poética, em que eu extravasava as minhas emoções ao ferir essa tragédia familiar. Ela faleceu no dia 2 de julho de 1978, e mal completara quinze anos de vida. Era bela. Era alegre. Era cheia de vida. Sua alegria era verdadeiramente contagiante. Exercia feliz e natural liderança sobre suas amigas. Soubemos que no último dia de aula, quando viriam as férias de julho, ela abraçou todos os seus colegas de classe, um a um, meninos e meninas, e lhes disse que fazia aquilo porque lhes desejava umas férias tão alegres como as que ela teria. Também escreveu num caderno uma breve crônica em que pedia que, quando morresse, fosse posto um ramo verde sobre seu túmulo. Parecia ter a premonição de que morreria no verdor dos anos. E um ramo verde apareceu no local em que ela foi sepultada. E – quem sabe? - talvez as suas férias, em outros infinitos páramos de Deus, tenham se convertido numa eterna festa de paz e beatitude.

Recordo muito bem. Eu estava sob uma das traves do estádio de futebol de Buriti dos Lopes, em minha posição de goleiro, quando vi umas moças virem em minha direção. Reconheci que eram umas amigas de minha família e de minhas irmãs. Logo, salvo engano, a Clotildes Duarte me disse que minhas três irmãs haviam sofrido um acidente, mas que estavam bem. Quando percebeu que eu havia assimilado o golpe, acrescentou que não iria me enganar; que a Josélia havia morrido, e que seus parentes iriam me levar a Parnaíba, para eu ficar ao lado de meus pais. Soube, depois, que meu pai, homem extremamente emotivo e sentimental, ao saber da notícia estendeu-se no solo, prostrado, arrasado. Um de meus irmãos teve a presença de espírito e inteligência emocional para cantar uma música religiosa da predileção dele, que dizia para a pessoa segurar na mão de Deus e ir em frente. Imediatamente, o velho levantou-se e criou forças para fugir do desespero. Minha mãe, que sob certos aspectos sempre fora mais forte e mais contida que meu pai, ficou arrasada, e ficou prostrada por vários dias. No dia seguinte, o meu amigo Antônio Gallas escreveu uma de suas Crônicas da Cidade, dedicada a Josélia, que era sua aluna. O texto foi lido por Gilvan Barbosa, de bela e vibrante voz. Dessa época, o poeta Jorge Carvalho encontrou entre os pertences e pequenas lembranças de sua mãe um pequeno impresso, em sua memória, que me repassou de forma muito atenciosa através de e-mail. O diretor dispensou os alunos do Colégio Comercial, onde minhas irmãs estudavam, e eles encheram a catedral, de onde saiu o cortejo fúnebre em direção ao Cemitério da Igualdade, de nome tão sugestivo quanto apropriado.

Tentei ajudar a levar o caixão. Mas como o senti pesado, embora minha irmã fosse tão leve em sua beleza esbelta, em sua espiritualidade alegre. Acho que ele me pesou na alma, porque eu sabia que aquela era uma viagem de onde não se regressa jamais. A não ser na saudade dos que nos amam, dos que sentem a nossa falta. Certamente por isso, meu pai mandou gravar numa placa, que contém a imagem de seu rosto eternamente jovem, os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!”

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O JORNAL DAS MULTIDÕES

Edmílson Caminha

Foto ilustrativa

Duas emoções, pela grandeza e pela força com que chegam, devem ser das maiores e mais sublimes experiências por que o homem pode passar. Fazer o gol que decide o campeonato aos 45 minutos do segundo tempo, a torcida em peso festejando e gritando o nome do jogador, é uma delas; a outra é reger a Nona Sinfonia de Beethoven à frente de uma grande orquestra, guiar músicos e cantores com o poder de um simples gesto, saber-se responsável pela magia e pela beleza que sobem aos céus como se ao encontro de Deus. Junte-se a essas, para quem possui alguma vocação literária, a alegria de se ver publicado em jornal pela primeira vez. Foi o que senti no dia 10 de outubro de 1964, um sábado, quando a edição do jornal O Povo trouxe o pequeno artigo "Mestre acima de tudo", assinado por Edmílson S. Caminha Júnior, "aluno da 1ª série ginasial do Ginásio 7 de Setembro". Aos doze anos, quis homenagear o meu professor de geografia, José Maria Campos de Oliveira, nomeado pelo Ministério da Educação inspetor seccional em Fortaleza.

Escrevera-o a mão, em folha de caderno, e pedira a meu pai que o entregasse na portaria do jornal. Não sei que alma caridosa datilografou o original para publicação, fazendo-me sentir a figura mais brilhante do colégio, a pessoa de maior destaque na família... – afinal de contas, era um autor, meu nome estava nas bancas! Abertas as portas, vez por outra redigia algumas linhas sobre grandes cearenses, fatos importantes da história do Brasil – textos que, não viessem com assinatura, todos reconheceriam como de um adolescente que se esforçava por escrever bem. Passava pelo jornal e entregava à recepcionista o envelope com o artiguete, ouvindo o barulho ensurdecedor das máquinas a imprimir a edição que logo mais sairia às ruas. Na tarde em que não a encontrei, fui entrando corredor adentro até o gabinete onde se achava, sozinho, o diretor comercial, José Raimundo Costa. Leu rapidamente a matéria, indagou-me a idade, se dispunha de tempo livre, e fez a pergunta que quase me deixa sem voz: "Você gostaria de trabalhar no jornal?" Antes que fechasse a boca, respondi-lhe que sim, lógico! – como se não tivesse pais a quem pedir autorização para assumir o emprego... Estávamos em 1967, e eu, com quinze anos incompletos, me orgulhava de ser o mais jovem redator de O Povo, "o jornal das multidões", como se autoproclamava.

No colégio até às onze e meia da manhã, pegava o ônibus pra casa, almoçava correndo e à uma da tarde era o primeiro a chegar à redação, na Rua Senador Pompeu, 1082, centro de Fortaleza. O ambiente me fascinava – pela desordem dos birôs, em que mal se viam as máquinas de escrever, tamanha a quantidade de papel; pelo barulho da rotativa, que abafava o quarteirão; mas, sobretudo, pelo cheiro da tinta, tão forte que se difundia por todo o prédio. Quase diariamente, descia às oficinas para acompanhar a produção do jornal: as linotipos, tocadas como pianolas de ferro por homens nus da cintura para cima, e que até hoje não sei como funcionam; a mesa comprida, onde se ajustavam textos e manchetes para o fechamento da página; a fundição do chumbo, matéria das placas em forma de telha; e a enorme impressora, barulhenta como uma locomotiva, os cilindros a girar a não sei quantas rotações por minuto, quilômetros de papel correndo nas entranhas do monstro até que por cortes e dobras se transformassem nos cadernos de que se fazia o jornal; depois, a edição deslizava na esteira sob o olhar sereno do Piloto, de quem só guardei o apelido.

Logo no primeiro dia fui entregue, como aspirante a redator, aos cuidados de Marcelo Pontes, pouco mais velho do que eu mas, já naquele tempo, um dos melhores nomes do jornalismo cearense e, mais tarde, da imprensa brasileira. Seria o seu pica-fumo, o foca a quem teria de ensinar, entre outras coisas, que o algarismo 1 é o l minúsculo na máquina de escrever... Com Marcelo Pontes, querido colega e amigo fraterno, aprendi a lição da grande reportagem e a ciência do bom texto, e ao jornal O Povo devo muito do conhecimento satisfatório e da segurança razoável com que escrevo. Se o curso de comunicação me poderia ter iniciado em programação visual e fotojornalismo, não precisei frequentá-lo para saber redigir: nessa cadeira, a melhor escola é a redação do jornal, a ditadura da pauta, a obrigação da notícia, a guerra contra o tempo. Foi o que me provaram Agladir Moura, Odalves Lima, José Maria Andrade, José Mário Pinto, Macário Oliveira, Morais Né, Edmundo Vitoriano e Francisco Lima, entre tantos mais.

O dono de O Povo era Paulo Sarasate, ex-governador do Ceará e, naquela época, senador da república. Conta-se que Castello Branco o teria feito vice-presidente, não fosse o câncer de que já sofria por ocasião do golpe militar e que o mataria quatro anos depois. Quando em Fortaleza, Sarasate fazia tremer o jornal como um terremoto, pois não apenas assumia a direção da empresa mas a transformava em escritório político, para receber deputados e prefeitos, promover reuniões e atender eleitores. Impressionava-me o conhecimento que aparentava ter de todos os setores da casa – da redação às oficinas, do consumo de papel à corretagem de anúncios. Tanto se cria capaz de reescrever a matéria de um repórter quanto de ensinar a um linotipista como compor com perfeição. Sempre aos gritos, autoritariamente, no estilo nervoso que o caracterizava.

Certa vez, sozinho na redação, atendo ao telefone e recebo a ordem do senador para que lhe corresse em casa com as provas do discurso que fizera pela manhã, e no qual não admitiria erros. Nunca fora ao sobrado, no centro de Fortaleza, onde a governanta me recebe e convida para entrar – um momentinho só, o patrão está repousando no pavimento superior. Acomodo-me no sofá e espero dez, quinze, vinte minutos sem que chegue ninguém. Resolvo, então, subir a escada e bater à porta que me pareça a da alcova senatorial. Escolho a primeira à esquerda, e quem surge é Paulo Sarasate em pessoa
– de cueca samba-canção, as pernas muito finas e pálidas, a blusa do pijama entreaberta sobre o peito branco:

— O que você quer, meu rapaz?!

— Eu sou repórter do jornal, vim trazer o discurso que o senhor pediu...

— E você vai entrando assim?!

— Eu falei com a governanta, mas parece que ela se esqueceu de avisá-lo...

— Não se esqueceu não, ela me disse, era só esperar! Você é foca?

— Não, senhor. ("Se fosse, eu ainda estaria lá embaixo, sem saber se o senhor iria descer...", quase que dizia.)

— Vamos, entre!

Devo ter interrompido a sesta do casal na rede em que se encontrava Dona Albaniza, conforme o hábito bem cearense de dispor-se no sentido da largura, um meio termo entre o sentar-se e o deitar-se, para que o chão ao alcance dos pés proporcione o balançar confortável e gostoso. Foi a única vez que estive com Paulo Sarasate, homem que alguns temiam, muitos bajulavam e outros tantos criticavam, mas em cuja atuação todos reconheciam o gosto da política e a marca da inteligência.

Chegou 1968 e, com ele, uma dúvida: continuar no jornalismo – profissionalizando-me como autodidata, até que dispuséssemos de um curso de comunicação – ou me preparar para fazer medicina, realizando por meu pai o sonho que ele próprio não pudera concretizar. Na ilusão de que seria médico, passei no vestibular mas acabei desistindo da faculdade no terceiro ano, por absoluta falta de vocação para ambulatórios ou centros cirúrgicos. Longe da imprensa, não tive forças para abandoná-la de vez: escrevi sobre cinema, pratiquei a crítica literária e entrevistei alguns dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea. Às redações só voltaria vinte anos depois, em 1987, para dirigir o departamento de jornalismo da rádio e da televisão educativas do estado do Piauí.

Passei, portanto, pelos três grandes meios de comunicação do mundo moderno: se a câmera fascina e o microfone seduz, o que me conquistou para sempre foram as teclas da máquina de escrever, o desafio do texto, a perfeição da manchete, o barulho da impressora, a corrida do papel, o cheiro da tinta, que me levam de volta a Fortaleza para um encontro, à uma da tarde, com o menino de quinze anos que me espera sozinho na redação de O Povo, "o jornal das multidões"...

(*) Veja abaixo a seção Decálogo, focalizando o escritor Edmílson Caminha.

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O COURO DO LOBISOMEM

Elmar Carvalho

Na cidadezinha de Brocotó, na década de 1960, começaram a surgir os rumores de que um lobisomem percorria algumas ruas da cidade. Falavam que já fora visto ou escutado no beco do Fogo ou na rua Grande. Quando passava, se ouvia o som de chocalho e um uivo, semelhante ao de um lobo. Asseveravam que seu pelo era escuro e que andava sobre duas patas, mas levemente curvado para frente. Esses boatos diziam que fora visto perto da meia-noite ou alta madrugada. Geralmente, segundo os comentários, a fera só circulava mais na quarta ou na quinta-feira. Entretanto, só duas pessoas diziam ter avistado a assombração, de longe e no escuro, de sorte que não lhe viram nenhum detalhe, exceto que tinha pelo escuro.

Naqueles idos a luz em Brocotó era fornecida por velha usina termoelétrica, comprada de segunda mão, de outro município, cujo combustível era lenha. Funcionava de sete às dez horas da noite. Quando faltavam quinze minutos para o encerramento da luz, a usina soltava um longo apito, com o vapor da caldeira, e a energia era interrompida brevemente, por três vezes consecutivas. As pessoas diziam que a onça iria ser solta e tratavam de voltar para casa. Os boatos ficaram mais acentuados, e vários moradores do beco do Fogo juravam ouvir o som de chocalho e o uivo, por volta de zero hora ou de três para quatro horas da madrugada, como se fossem os horários em que o lobisomem saía para caçar e o de seu retorno, antes do nascer do sol, quando iria para o espojeiro, e ficaria a rolar no chão até voltar a ter a sua forma humana. As pessoas estavam assombradas, e já ninguém saía de sua casa depois de a luz elétrica apagar. Chico Paulo, ao ouvir uma dessas versões, que dava a hora, o itinerário e o dia da semana em que o bicho fazia as suas incursões diabólicas, disse que iria tirar essa boataria a limpo, e iria esperá-lo. Todos acreditaram porque ele era um homem de palavra e considerado corajoso, ao ponto da quase temeridade.

Escondeu-se na esquina de uma das ruas perpendiculares ao beco do Fogo, no vão de uma porta. Quando ouvisse o chocalhar da fera, iria se posicionar, e o laçaria. Quando o tivesse dominado, desfecharia uma forte pancada no cabelouro. Assim planejou e assim fez. Não teve nenhuma dificuldade para laçar a besta, porquanto andava ereta, quase como se fosse um ser humano. Admirou-se de seu tamanho, pois sua compleição era a de um homem pequeno e franzino. Também ficou pasmado com sua fragilidade e submissão. Quando se preparava para lhe aplicar o golpe mortal, ouviu uma voz feminina pedir clemência. Logo descobriu que se tratava da mulher de um comerciante da cidade. Ela terminou por lhe confessar que o couro que usava e o chocalho eram um artifício para não ser reconhecida, quando ia encontrar-se com seu amante, um jovem e fogoso estudante, que morava sozinho num quarto de aluguel. O motivo do dia do encontro ser na quarta ou na quinta-feira, é que esses são os dias em que seu marido ia fazer compras na capital, pois são dias de pouco movimento comercial em Brocotó. Pediu pelo amor de Deus que Chico não lhe revelasse o segredo; que, em troca de seu silêncio, se entregaria a ele.

Chico Paulo, embora fosse um caboclo forte e destemido, não era luxurioso, e ao prazer do sexo preferia contar sua proeza, com as fanfarronices de praxe, e inclusive a prova inquestionável, que seria a exibição do couro do lobisomem. Dizem que nunca alguém viu rastro de alma e nem couro de lobisomem. Mas o Chico mostraria não só o pau, mas também a cobra; ou seja, o chocalho e o couro do bicho. Poucos dias depois, o marido traído mudou-se para a cidade grande. Ali, seus chifres não seriam vistos e ele não seria alvo de deboche e zombaria, na qualidade de marido de lobisomem. A mulher foi com ele, pois sua filosofia pragmática era de que, puta por puta, preferia ficar com aquela a que já estava acostumado. E dizem as más línguas que foram felizes para sempre. Apenas nunca mais apareceu outro lobisomem na pacata e acanhada Brocotó.

domingo, 15 de agosto de 2010

FUGA AO PASSADO

ELMAR CARVALHO


Uma da tarde. O apito da Moraes
estridula no ar. Emocionado
sinto como se o tempo houvesse parado
e eu me encontrasse ainda
preso às âncoras do passado.

O apito me deixa comovido
e eu não sou mais eu
mas alguém que já fui e que
no esquecimento se deixa escondido.

E aquele tempo perdido
inverte a rota da ampulheta
e retorna intacto como se jamais
deixasse de ter existido.

E o tempo se embaralha
sem passado, sem futuro e sem presente
e as recordações comovem tanto
que a própria alma de tanto
sentir não se sente
e evola para um tempo
sepulto pela areia da ampulheta.

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


CLODOALDO FREITAS

Clodoaldo Freitas (7.9.1855, Oeiras – 1924, Teresina), cujo nome completo era Clodoaldo Severo Conrado Freitas, bacharelou-se na Faculdade de Direito de Recife, em 1880. Sua atuação sócio-cultural não se cingiu apenas ao Piauí e Pernambuco: estendeu-se por outros Estados (Amazonas, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro), tendo residido em alguns desses estados e ajudado a fundar a Academia Maranhense de Letras, da qual era membro. Foi muito atuante como jornalista, político e magistrado. Mas sua ação avulta também na literatura, deixando publicados cerca de 14 obras e muitas outras inéditas. Começou com “Os Fatores do Coelhado”, 1892, obra política, e entrou pela história com “História do Piauí” (sinopse), 1902; “Vultos Piauienses” (apontamentos crítico-biográficos), 1903; “Memórias de um Velho”, romance publicado em rodapés do jornal “Pátria”, em 1905; “O Bequimão”, 1908; “Em Roda dos Fatos”, 1911; e “Contos a Teresa”, 1915. Mas praticamente, o que se conhece hoje de Clodoaldo Freitas se resume a “História de Teresina ”(1988), “Em Roda dos Fatos”(1996) e “Vultos Piauienses” (1998), todos reeditados pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, a partir de 1988. Últimamente a Academia Maranhense de Letras anunciou a reedição do romance histórico “O Bequimão”, por editora do Sul, sob os auspícios do Governo do Maranhão. Literariamente foi romancista, contista, cronista e a poeta já reconhecido, embora no último gênero tenha produzido bem pouco.
(*) Texto e charge: João de Deus Netto

SELETA NACIONAL


LOUCO

Junqueira Freire

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele.

Foi uma repulsão de dois contrários;
Foi um duelo, na verdade insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe do nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim - o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Ou sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas,
E zombando o chamais, portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
aproxima-se mais à essência etérea.

sábado, 14 de agosto de 2010

DECÁLOGO


EDMÍLSON CAMINHA

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Na infância ainda, com a História do Mundo para as Crianças, de Monteiro Lobato, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

Por volta dos 12 anos, com a publicação dos primeiros textos no jornal O POVO, de Fortaleza (CE).

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Creio que todos que escrevemos somos influenciados pelos grandes nomes da literatura. Todo escritor é, antes de tudo, um leitor apaixonado.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

À maneira de Eça de Queiroz, diria que "sou um pobre escritor de Fortaleza". Minha obra é modesta e pequena, sem grandes marcos que a enalteçam. A assinalar alguma coisa, destaco os elogios de quem sinceramente gosta do que escrevo.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

À minha custa, sempre, em edições reduzidas de 500 exemplares.
6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

Entre os livros, aponto o Lutar com Palavras, diário literário que publiquei em 2001. Das crônicas, ressalto "O jornal das multidões", em que lembro os primeiros passos que dei no jornalismo.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Penso que sim, a exemplo da Fundação Monsenhor Chaves e do Conselho Estadual de Cultura, embora sempre se possa fazer mais...

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

É da maior importância, não obstante pouquíssimos leitores a conheçam nos outros estados do País. Uma literatura em que se inscrevem os nomes de Da Costa e Silva, O. G. Rego de Carvalho, Assis Brasil e Cineas Santos, entre tantos outros, engrandece o Piauí e honra o Brasil.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

Vejo-a como tão revolucionária quanto os tipos móveis inventados por Gutemberg, se pensarmos no mundo novo que vai do twitter aos e-books.

10 – Como e por que se fez literato?

Repito o que escrevi na apresentação do Lutar com Palavras: "No fundo, escrevemos para não morrer, para não desaparecer de todo, para vencer a efemeridade da vida e o silêncio do futuro. É como se disséssemos: 'Eu sou assim! Esses, os meus valores e as minhas crenças, daí as ações que pratico e as atitudes que tomo'. Os livros são, pois, bilhetes engarrafados que lançamos ao mar, cartas que endereçamos à posteridade — como compreendia Villa-Lobos a sua obra —, na vã ilusão de que nos faremos lembrados e queridos pelos séculos afora." É isso.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



13 de agosto

A CADELA, A ELEFANTA E O BURRO

Elmar Carvalho

Nesta sexta-feira, 13, deste corrente mês, cujo dia seria dupla ou triplamente aziago, por ser sexta-feira, por ser dia 13, e por ser agosto, que os supersticiosos consideram mês agourento, enquanto esperava ser atendido pelo barbeiro e irmão maçônico Chagas Vieira, fiquei folheando um jornal de uma denominação religiosa. Nele, li uma matéria sobre prótese em animais. Um dos casos se referia a uma cadela que, por causa de uma hérnia de disco, acabou perdendo o movimento das patas traseiras. Sua dona não a abandonou e não aceitou sacrificá-la. Envidou esforços, com considerável gasto de dinheiro e tempo, em tratamentos, que não surtiram o desejado efeito. Mas a guardiã da cadela conseguiu fosse feito um engenhoso aparato que lhe dava sustentação, e permitia que ela, com as patas dianteiras, se locomovesse, e até mesmo corresse, nos momentos em que se encontrava mais alegre e eufórica.

O outro caso abordado era o de uma elefanta, que tivera uma das patas dianteiras mutilada, por causa da explosão de uma mina terrestre, espalhadas por causa dessas guerras fratricidas e completamente insanas, como são todas ou quase todas as guerras. Cientistas conseguiram desenvolver uma prótese, semelhante às usadas pelos seres humanos, que lhe permitiram voltar a andar. O caso aconteceu quando a elefanta tinha apenas sete meses. O fato é que os animais vêm sofrendo muito por causa das ações humanas, como desmatamentos, queimadas, caçadas, acidentes provocados pelo trânsito nas estradas, etc. Felizmente, além dos insensíveis, egoístas e perversos, que cometem verdadeiras atrocidades contra os nossos irmãos menores, existem os que são legítimos anjos da guarda dos animais, e lhes dispensam todo cuidado, carinho e amor, às vezes até com sacrifício pessoal.

Ao sair da barbearia, fui fazer minha caminhada. Quando retornava, vi um homem fazendo o burro que puxava sua carroça correr, ao girar o chicote. Suponho que o animal temia ser açoitado, e por isso seguia a galopar. Ora, depois de um dia inteiro de trabalho, em prol do sustento do carroceiro e de sua família, evidentemente já cansado das cargas que deve ter conduzido, ainda tinha que fazer um esforço enorme com a corrida, para que o seu dono se desse ao luxo de voltar mais rapidamente para casa.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

FLAGRANTE DO GERVÁSIO CASTRO


POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Vulgo Mário Bola, tinha
a graça de um tatu bola.
Orfeu de novos carnavais
carregava o encantamento
dos sopros (marítimos) que
transformava em música em
sua gaita – caixa de mágico som.
Entre a música e a fofoca
uma piada de recheio.

A MESOPOTÂMIA PIAUIENSE E SUAS PONTES

JOÃO BORGES CAMINHA (*)


Por sua estratégica localização entre os rios Parnaíba e Poty; pelo volume d’água destes rios que corre em seus leitos, engrossados por inúmeros afluentes; pelo grande número de lugares, povoações e cidades que banham ou cortam, ou ainda por sua importância econômica e social no contexto piauiense e nordestino, Teresina pode ser cognominada a Mesopotâmia Piauiense. O Parnaíba nasce na Chapada das Mangabeiras, próximo às divisas dos estados da Bahia e Tocantins no extremo sul do Piauí e percorre todo o estado de sul a norte. O Poty tem sua fonte na serra da Joaninha, próximo ao município cearense de Crateús, corta o Piauí em na largura e corre ora manso, ora impetuoso, de leste a oeste até sua confluência com o Velho Monge no bairro Poti Velho. Tem um curso de 450 quilômetros de extensão dos quais 300 quilômetros ficam no Piauí.

Sobre o Parnaíba, um rio genuinamente piauiense com cerca de 1500 a 1700 quilômetros de extensão, sem o qual não haveria um Piauí autônomo, foram construídas poucas pontes, se comparadas com as que se ergueram sobre o Poty, das quais se cogita neste artigo.

Até meado de 2010 eram oito as pontes construídas sobre o rio Poty, na zona urbana da Capital, visando descongestionar seu trânsito de veículos, trens, bicicletas e pedestres, adiante designadas, de montante (nascente do rio) para jusante (para onde corre o rio).

Tancredo Neves, ligando o conjunto Dirceu Arcoverde e lugares vizinhos à Estação Rodoviária de Passageiros;

Metálica, construída em 1960 pelo 2º Batalhão de Engenharia de construção (2º B.E.Const) e Wall Ferraz, nas proximidades do Terminal de Petróleo (zona sudeste) ligando à zona sul da cidade (Quartel da Polícia Militar, maternidade Evangelina Rosa, Avenida Miguel Rosa, Estádio Albertão, Justiça Federal de Primeira Instância, etc.);

Dupla denominada Presidente Juscelino Kubitscheke ligando as zonas centro e leste através das avenidas Frei Serafim e João XXIII, com duas pistas de ida e volta.

Estaiada Mestre João Isidoro França. O jornal Diário do Povo, de 2 de abril de 2010, informou que já existe uma via pública (alameda) com o nome desse mestre-de-obra, no bairro Poty Velho. Para fundador de Teresina desse jaez, toda homenagem é pouca. Com seu elevado e imponente mirante, a Ponte Estaiada Mestre Isidoro França liga as zonas leste e norte da Capital, entre si, pela avenida Dom Severino (leste) e alameda Parnaíba (norte), nas imediações do bairro Porenquanto e não muito longe do Tribunal de Justiça, Centro de Convenções, Assembléia Legislativa, OAB-PI, praça do Marquês, parte norte da Avenida Miguel Rosa, 25º BC e adjacências. A cognominada ponte Estaiada, Mestre João Isidoro França (é nome que realmente pegou bem), construída sobre o rio Poti, a meio caminho eqüidistante um quilômetro entre a ponte dupla da Frei Serafim ou Jucelino Kubtscheke e Primavera, foi efusivamente inaugurada, a partir das 18:30 horas da noite de 30.03.2010. Inauguração festejada no local onde fora edificada, com a presença de piauienses de todas as classes, ministro, governador, governados, prefeito, parlamentares, engenheiros e construtores (mestres-de-obras, pedreiros, serventes e outros trabalhadores), todos efusivamente animados pelo show (som, movimentos corporais e voz) de Elba Soares, que emprestaram ao ambiente intenso brilho e valorização sócio-econômico e cultural. Disseram que pela ponte passarão cerca de 40.000 mil veículos e o problema do congestionamento do tráfico será solucionado na capital. Ótima a iniciativa do ex-Prefeito Municipal, Sílvio Mendes, ao homenagear numa placa metálica memorável os nomes de todos aqueles que participaram com sua direção e trabalho. Informes registrados em jornais de ampla circulação local dão conta de um razoável descongestionamento do trânsito pela ponte dupla da Avenida Frei Serafim e João XIII, de que reduziu por metade o tempo gasto no trajeto entre a região leste, centro e vice-verso.

Petrônio Portela ou do bairro Primavera, unindo este à zona leste, nas proximidades da Universidade Federal do Piauí, por intermédio das avenidas Universitária e Petrônio Portela à região norte, bairros Aeroporto, Buenos Aires e Mocambinho, a qual está sendo alargada com a implantação da terceira faixa de trânsito reversível.

Heráclito Fortes ou do Poty Velho. Depois de gerar muitas curvas em sua rota final, preparar-se e endireitar-se para a emocionante confluência, barra, embocadura ou comunhão indissolúvel com o Velho Monge, pouco antes desse emocionante encontro, foi construída a ponte adequadamente batizada com o topônimo de Poty Velho, que é o mais ancião, legendário e tradicional bairro da Capital Piauiense. Liga-o ao bairro de Santa Maria da Codipe e ao do Aeroporto, todo o norte e parte do centro da Capital. Traz, também, o nome de Heráclito Fortes, por ter sido construída durante sua gestão de prefeito e, em apenas, 100 dias.

Opa. Ia me esquecendo que se encontra em construção, para ser concluída até o fim deste ano (2010), mais uma ponte sobre o rio Poty. Desta feita, ligando entre si os bairros Mocambinho e Pedra Mole com as zonas Norte e Leste da capital, através da avenida Freitas Neto. Segundo o jornal O DIa, de 02.07.2010, a nova ponte custará dezesseis milhões de reais, terá 190 metros de extensão e 3,20 metros de largura. Assim, já não são mais somente oito pontes, mas nove, no final do ano.

Comenta-se que, não obstante a grande contribuição das pontes para o melhoramento do trânsito em Teresina, seu máximo aprimoramento só acontecerá com a seleção, direcionamento e preparo de muitos outros logradouros por onde possam transitar normalmente os veículos, vindos e fluindo naturalmente de um lado e do outros das margens do rio. Demais disso, à semelhança do que existe na Escandinávia, urge desafogar o trânsito, também, por meio da construção de diversificadas passagens para pedestres e bicicletas, túneis e viadutos em quaisquer vias públicas que se fizerem necessárias. Foi o que se notou, por exemplo, na Suécia, Noruega e Dinamarca, ao saber do empenho desses governos e percorrer por terra algumas de suas cidades e capitais.

Por escassez de pontes de união sobre o Poty, em matéria de tráfico, o teresinense não tem mais o direito de reclamar, a não ser de aqui a uns 20 anos. Não se tem certeza, se na velha Babilônia, localizada entre os rios Tigres e Eufrates e na atual Istambul, esta dividida numa parte européia e outra asiática pelo estreito do Bósforo (ou seja, unindo o Ocidente e Oriente através dos continentes europeu e asiático), o sistema de trânsito de veículos flui sem congestionamento. Contudo lá, proporcionalmente, não existem tantas pontes como em Teresina (PI). A atual Istambul, com mais de nove milhões de habitantes, afora os numerosos barcos que sulcam diuturnamente aquele belo e inebriante estreito (continuação do mar de Mármara, vindo do Mar Egeu, ligando este ao Mar Negro) não tem mais do que uma ponte de mais ou menos mil metros de largura, sobre o Bósforo. Mas nem por isso o trânsito era tão caótico em 1996. Aqui as ligações, uniões ou separações através das pontes sobre o rio Poty fazem-se apenas em logradouros da mesma cidade. Lá esse laço de união abrange, cidade e continentes.
(*) Professor de Direito da UFPI. Especialista em Direito Constitucional. Mestre em Filosofia e Teoria do Direito. Advogado militante.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



11 de agosto

DOIDO POR CARROS

Elmar Carvalho

Sempre o vejo, perto do semáforo do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Duque de Caxias. Vem de longe ou vai para longe, a descer ou a subir a ladeira do Parque da Cidade. Caminha puxando o seu minúsculo carro de brinquedo. Mas não é nenhuma criança. Deve ter mais de trinta anos. É o que o vulgo convencionou chamar de doidinho. Todos os dias fica, pontualmente, no semáforo, como se estivesse a cumprir uma jornada de trabalho, a passar sua esfarrapada flanela nos carros, que esperam a abertura do sinal verde. É como se fosse um ritual; contorna o veículo a lhe esfregar o velho trapo vermelho. Parece estar cumprindo uma obrigação. Não espera receber moedas, pois nunca as solicita. Se algum motorista lhe oferta alguma, não lhe dá a mínima importância, e a guarda displicentemente no bolso, quase como se estivesse a fazer um favor a quem a deu.

Soube que uma pessoa bondosa lhe deu um carrinho novo de presente. Parece não ter dado importância ao mimo, uma vez que continuou a puxar o seu diminuto e velho brinquedo. Talvez tenha ficado com pena de deixá-lo esquecido, no canto, como se costumava dizer antigamente, por causa de um novo amor. Poucos dias atrás, o vi a puxar por um cordão um de seus velhos carrinhos. Era um caminhão, com duas desproporcionalmente grandes rodas dianteiras, sem nenhuma na parte de trás, que lhe faziam empinar a frente, como um avião sem asas e sem voo. Vi quando ele fez o brinquedo dar o chamado “cavalo de pau”, a rodopiar sobre si mesmo. Admirei-me disso, pois ele é muito circunspecto, e até mesmo a usar um brinquedo não gosta de brincadeira, e não sorri. Aparenta viver hermeticamente fechado em seu mundo de silêncio e demência, porquanto não liga a mínima para os passageiros, mas apenas cumpre religiosamente a sua auto-imposta tarefa de “abanar” os carros com a sua escassa tira de flanela. Tudo indica que vive num mundo só dele.

Em sua mansa loucura, nunca o vi furioso ou revoltado, mas apenas a cumprir, como um autômato, o mister que impôs a si mesmo. Mas me contaram que outro dia ele se revoltou contra uma ambulância. Ficou bastante agitado, e em lugar de seus afagos flanelísticos, quis espancar o carro. Embora sem nenhuma vocação detetivesca a la Sherlock Holmes, e sem o adjutório do bom e elementar caro Watson, deduzi que, numa de suas crises, pois até os chamados sãos têm as suas, alguma ambulância deve tê-lo levado para longe de seu rebanho de carros, para confiná-lo em algum hospício, onde lhe devem ter aplicado alguma dolorosa injeção medicamentosa, ou onde lhe podem ter ministrado alguma dosagem/voltagem de choque elétrico, que, segundo ouvi um psiquiatra dizer, ainda tem a sua eficácia, não se tornando, ainda, de todo obsoleto e banido do mundo da medicina. Oxalá, tenha sido excluído das práticas de tortura, que não mais deveriam existir; que, aliás, nunca deveriam ter existido.