terça-feira, 30 de dezembro de 2025

120 Anos de História do Futebol Piauiense

Goleiro Morcego, em imagem produzida pelo ChatGPT

Fonte: Portal O Dia


120 Anos de História do Futebol Piauiense

 

Elmar Carvalho

 

O livro Uma trajetória de 120 anos do futebol piauiense – história & fatos (1905-2025), do escritor, jornalista e desportista Celso Carvalho, foi lançado recentemente em Teresina e em Parnaíba.

Será lançado em outras cidades do Piauí, sobretudo nas que sediam os times de futebol referidos em suas páginas. Pode ser adquirido na Banca do Louro ou com o próprio autor, através de seus contatos. Segue abaixo o que já escrevi sobre seu livro.

Em sua trajetória de escritor, Celso Carvalho já escreveu livros sobre o Estádio Albertão, o Ginásio Esportivo Verdão e sobre os seguintes times do futebol mineiro: Cruzeiro, Atlético e América.

Relata a história do futebol piauiense, desde os seus primórdios em 1905 até o vertente ano de 2025.

Cita os principais fatos e realizações na seara do futebol.

Faz referência a todos os times profissionais do Estado, alguns já inativos, elaborando um breve histórico de sua fundação, trajetória, conquistas e realizações de obras físicas e eventos.

Cita os principais títulos de todos esses times.

Fala sobre as suas sedes e centros de treinamento.

Menciona os principais craques do futebol.

Sobre essa magistral obra de Celso Carvalho, em crônica recente, disse, falando sobre o lançamento dela em Teresina, em evento da Academia Piauiense de Letras:

“Em suas páginas, desfilam os grandes craques do futebol piauiense. Tendo sido um goleiro do futebol amador, fiz questão de citar os seguintes arqueiros: Coló, estiloso, espetacular e espetaculoso, em suas coreográficas defesas; Beroso, contido, eficiente e objetivo; Batista, seguro, eficaz, uma verdadeira muralha, cujo apelido – Mão-de-Onça – é o seu emblema e o seu melhor retrato; Hindemburgo, boêmio, mulherengo, um tanto controvertido e pinguço, que às vezes curava suas ressacas deitado sobre o travessão da meta.

Fiz uma referência e reverência à parte ao grande goleiro Morcego, inspirado no qual escrevi um conto, com umas pitadas de ficção. Quem primeiro me falou dele foi meu pai, Miguel Carvalho. Depois, o grande Carlos Said me confirmou o que sobre ele me dissera papai. Falei dele a Celso Carvalho, que em seu livro o homenageia. Bizarro, exótico e estrambótico, sobre ele eu disse, no livro em comento:

‘Morcego, grande goleiro teresinense, foi uma bizarra ave mamífera voadora – uma espécie de Higuita antes de Higuita – com suas pulutricas e acrobacias aéreas, em que muitas vezes parecia planar como uma asa-delta sem asas. Estrambótico e exótico, voava, defendia a bola e, no mesmo salto, ficava dependurado no travessão como um grande MORCEGO.’”

A obra discorre sobre os principais estádios do Piauí.

Menciona os principais dirigentes de cada agremiação futebolística.

De maneira especial, presta homenagem ao grande craque e dirigente esportivo Pedro Alelaf.

Narra fatos e histórias interessantes do futebol do Piauí.

Traz alguns textos e depoimentos de alguns autores de nosso futebol, bem como de grandes jornalistas e comentaristas esportivos, entre os quais Carlos Said, Severino Filho, João Eudes e Deusdete Nunes, o nosso Garrincha.

Sem dúvida, é a mais importante obra a contar a história do futebol em nosso Estado, seus principais fatos e realizações, desde o começo de sua prática – as primeiras disputas, a primeira bola, os primeiros clubes e ligas – até os dias de hoje, com referência a times recentemente fundados.   

domingo, 28 de dezembro de 2025

(IR)REAL

Criação da imagem: ChatGPT

 

(IR)REAL


Elmar Carvalho

 

Eu busco as

mais loucas sinestesias

em minha mente alucinada,

onde as cores aromáticas

se agregam a sons macios,

misturados com aromas térmicos.

A loucura vem do cosmo

em taças de cristal com sangue,

em aortas com água,

na alucinação total

de um homem que

se diz lúcido.

Na noite calma

um cão ladra

na solidão de

luzes irreais de

um cemitério de

cruzes partidas e

de esqueletos quebrados.

(E outro cão

responde em mim.)

De repente, eu levito

e me deixo transportar

em êxtase ao

país dos mortos-vivos

e lá eu vejo todos os mortos

e todos os vivos como simples

mortos-vivos.

Depois, eu me sinto preso

em todos os extremos do Universo

e sinto que conquistei

a liberdade cósmica,

pregado no infinito.

             Pba, 24.11.77

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

COMUNICADO sobre a igreja de Várzea do Simão



COMUNICADO sobre a igreja de Várzea do Simão

Em virtude da breve solenidade realizada no povoado Baixa da Carnaúba, por ocasião da viagem da APL a Parnaíba, na qual o confrade Fonseca Neto, em seu nome e no do Pe. Tony Batista, fez a doação da imagem de São José à igreja de N. S. Aparecida, situada na comunidade Várzea do Simão, e o confrade Valdeci Cavalcante doou o piso da referida igreja, julgo-me no dever de prestar as seguintes informações.

Foram concluídos os serviços de assentamento do piso, colocação das soleiras das portas e afixação de dois nichos — um destinado à imagem da padroeira e outro à de São José —, além de outros benefícios. No início do próximo mês, será realizada a pintura interna; razão pela qual a igreja encontrava-se sem as imagens e outros ornamentos.

No mês de março, a imagem de São José será trazida de Baixa da Carnaúba, em carreata e procissão, para a igreja de N. S. Aparecida, quando será colocada em seu respectivo nicho. Na oportunidade, será celebrada uma missa.

Esclareço, por fim, que a construção da igreja só está sendo possível graças às doações, à realização de bingos, rifas, leilões e a outros auxílios prestados por pessoas da comunidade e de povoados vizinhos, bem como por parentes e amigos dos moradores da Várzea do Simão. O terreno da igreja foi doado por Fátima Carvalho.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

DE LAVRADOR A DOUTOR

Francisco Almeida, advogado e cordelista  Criação: IA Gemini

 

DE LAVRADOR A DOUTOR


Elmar Carvalho

 

Estive lendo o livro “Zé Rosa: de Lavrador a Doutor”, em que Francisco de Almeida, através de poema de cordel homenageia seu irmão, no ensejo do seu cinquentenário. Fui contemporâneo do autor, quando fizemos o curso de Direito na UFPI. Creio que cursamos alguma disciplina na mesma classe. Ele era empregado do Banco do Brasil, tendo, posteriormente, exercido o cargo de advogado dessa empresa. Hoje, trabalha na Advocacia Geral da União, exercendo o cargo de advogado dessa repartição no Piauí. Como o título do livro indica e a sua leitura confirma, José Rosa de Almeida nasceu na zona rural, na localidade Flor da Almécega, na época pertencente ao município de Castelo do Piauí, e que hoje integra o de São João da Serra, em 14.08.1960.

 

Desde menino, ajudava seu pai nos serviços de vaqueiro, campeando gado bovino, e mesmo pegando e derrubando reses bravias, a envergar orgulhosamente o seu terno de couro. Trabalhou nesse difícil mister até os 17 anos de idade, quando veio estudar em Teresina, graças à ajuda de irmãos, sobretudo do Francisco de Almeida, que já trabalhava no Banco do Brasil. Esteve alojado na Casa do Estudante do Piauí, cujas condições de conforto e alimentação parecem testar o hóspede para as vicissitudes da vida. O livro conta a história de Zé Rosa, seus percalços e triunfos.

 

Registra que seu pai, em virtude de viuvez, foi casado duas vezes, e teve uma prole bem considerável, sendo que todos os filhos conseguiram vencer na vida. O protagonista do livro foi presidente do sindicato dos empregados dos Correios durante três vezes. Na condição de diretor regional adjunto da ECT (cargo que ainda exerce), esteve na titularidade da função de diretor durante mais de ano e em várias outras ocasiões. Conheci também o José de Ribamar Almeida, funcionário da Secretaria de Fazenda do Piauí, irmão de Zé Rosa, que foi meu colega no curso de Direito.

 

Portanto, essa família de pessoas humildes, nascidas na zona rural, filhos de vaqueiro, souberam triunfar na vida, graças ao próprio esforço, sem necessidade de “pistolões” e de benesses espúrias. O opúsculo foi prefaciado pelo professor doutor José Machado Moita Neto, que atestou ter o homenageado feito por merecer a louvação do mano, e foi apresentado pelo poeta Pedro Costa, em versos cordelistas, o qual certificou a capacidade de versejador de Francisco de Almeida, ao dizer que ele “do verso tem o domínio”.

 

Todavia, o novel poeta advertiu os seus pares, especialmente o apresentador, o “curió” Sebastião Evangelista e o repentista Edvaldo Guerreiro, de que não tenham receio de sua concorrência, uma vez que não pretende prosseguir na carreira de cordelista.

18 de janeiro de 2011

domingo, 21 de dezembro de 2025

POESIA CÓSMICA

 

Fonte: Google

POESIA CÓSMICA


Elmar Carvalho

 

Duas lágrimas

de pedra nos olhos de vidro

e uma tristeza infinita na

alma de cristal.

O pensamento

voando além do infinito

e o corpo inerte

querendo voar.

As amarguras contidas

no soluço recalcado,

que morre antes de

ser gerado.

A insatisfação

dos atos inúteis

em cada palavra

dita em vão.

A vontade imensa

de alcançar a

realização total

de não ter desejos.

E a vida prática

e a matemática

e a rima que surgiu

por mero acaso.

A matemática

me enlouquece:

por isto meu pensamento

salta de mais infinito

a menos infinito

e explora as amplidões

do universo, enquanto

meus olhos vidrados

fitam a álgebra

sem vê-la.

E a minha abstração

me leva ao infinito

que meu corpo

me nega.

            Pba. 19.01.78

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A VERVE DO VELHO PREDADOR

Criação da imagem: IA Gemini

 

A VERVE DO VELHO PREDADOR


Elmar Carvalho

 

O velho amigo, em seu estilo mineirinho, é um grande conquistador, embora não seja considerado nenhum galã, o que, aliás, o torna ainda mais digno de admiração. No entanto, o que lhe falta no físico sobra-lhe em lábia e paciência no processo de uma conquista amorosa. Também possui a ousadia comedida, a coragem discreta e cautelosa na abordagem, sempre respeitosa e delicada, sempre a elogiar além do merecimento da presa ou prenda.

 

Contou-me ele que, estando um dia a bebericar uns goles de cerveja, à porta de um bar, viu aproximar-se, passando quase a desfilar na calçada, uma bela mulher, dotada de bem traçadas e sinuosas linhas, muito elegante em seu requebrado faceiro e atraente. O velho fauno apurou o olhar, e o fixou enfaticamente na diva que passava. Ela, que poderia ter fingido não o ter visto, e mesmo não o ter percebido, caso não tivesse olhado em direção ao predador, deu-se por incomodada e um tanto ofendida, razão pela qual perguntou a esse meu amigo se ele nunca tinha visto uma mulher.

 

O velho fauno lhe respondeu que já vira muitas, mas nenhuma tão bonita quanto ela. A mulher, então, lhe disse que iria contar o caso ao  marido, e queria saber o que ele iria dizer. O nosso dom Juan foi no outro mundo e voltou, mas não se deu por achado, e exclamou candidamente que ele iria lhe dar razão. Ante o inesperado da resposta, a ninfa abriu um sorriso, e foi embora, sem, literalmente, perder o rebolado; antes, redobrou em sua rebundolante faceirice.

12 de janeiro de 2011

domingo, 14 de dezembro de 2025

EM TRANSE

Imagem criada pela AI Gemini, sob minha orientação

 

EM TRANSE


Elmar Carvalho  

 

Superando a relatividade

do tempo e do espaço,

quero não estar ao mesmo tempo

no tempo e no espaço.

Indo além

da barreira do tempo e do espaço,

eu galguei o infinito

ao ficar infinitamente

pequeno.

Projetando-me

além do tempo e do espaço,

eu vi o caos

do nada.

Perdido no

tempo parado

e no espaço desfeito,

vi sangues azuis,

cobras multicores,

lagartas de fogo

e outras alucinações

girando vertiginosamente

em apocalíptica

coreografia.

E eu para sempre

fiquei perdido no

tempo e no espaço

perdidos em vão.

            Pba. 22.09.77

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

AS APARIÇÕES DO REDUZIDO

Charge da autoria de Gervásio Castro


AS APARIÇÕES DO REDUZIDO


Elmar Carvalho

 

Dias atrás, eu, o Canindé Correia e o Vicente de Paula, o Potência, fomos à praia Peito de Moça à procura do amigo Porfírio Carvalho, irmão do Jonas e do Neco Carvalho, também nossos amigos. Em virtude de equívoco em relação ao ponto de referência que nos deram, não conseguimos localizar a casa onde ele estava hospedado. Por esta razão, retornamos a Parnaíba e fomos ao Labino. À tarde, após um churrasco, seguimos em direção ao Tabuleiro, Rosápolis e adjacências. Vimos as novas ruas que estão sendo abertas e os trabalhos de urbanização que estão sendo feitos nessa zona da cidade de Parnaíba. Fizemos uma parada logística no bar do Raimundo José Clarindo, um misto de careca e cabeludo, que nos contou uma proeza pós mortem do Zé Maria Reduzido.

 

O Clarindo, certo dia, não sei se de finados, foi ao túmulo do saudoso Reduzido, para fazer umas preces em sua intenção. Entretanto, teimosamente, as velas colocadas sobre a lápide não acendiam, mesmo após várias tentativas. Em vista disso, ele tentou acender uma delas encostando o seu pavio na chama de uma que havia num túmulo próximo, mas ainda assim não obteve êxito. Após novas tentativas, o Raimundo José perguntou-se em voz alta sobre a razão de as velas não acenderem.

 

Umas voz semelhante à do finado, que parecia vinda de dentro da sepultura, respondeu mansamente, quase num sussurro: - “Aqui dentro já faz tanto calor, e você ainda quer acender velas aí em cima...” Após essa narrativa, recordamos algumas aventuras folclóricas do Reduzido, e lembramos que ele era um talentoso mecânico.

 

Quando sua velha Variant marrom “negava fogo”, ele quase milagrosamente fazia com que as velas de ignição, ao contrário das de cera em seu túmulo, voltassem a emitir faíscas, fazendo com que o carro voltasse a funcionar. Ele era tão autoconfiante em sua capacidade técnica, que ao fazer alguma viagem levava apenas as ferramentas de praxe; entretanto, conduzia vários pneus estepes, em torno de meia dúzia, simbolizando com isso que os defeitos mecânicos não lhe causavam preocupação, mas sim os imprevisíveis furos dos pneumáticos.

 

Em face da história das velas inacendíveis, o Vicente de Paula (Potência) contou que o tenente (Bene)Dito testemunhou duas aparições do saudoso Reduzido. Uma de manhã cedo, quando viu o vulto do falecido a caminhar nas proximidades de sua casa; pouco depois, já não viu mais a visão, como se esta se tivesse desfeito no ar. Posteriormente, a imagem do Reduzido lhe apareceu de novo, com os cabelos bem pretos, bem lisos e luzidios.

 

O tenente não teve nenhum sobrosso porque no momento não se lembrou de que o Zé Maria já tivesse falecido. Como lhe achasse bonito os cabelos tão pretos e brilhosos, manifestou o desejo de lhes tocar, mas Reduzido não lhe permitiu o contato, afirmando que doía muito, e, logo em seguida, desapareceu misteriosamente, como por encanto. Quando o Vicente contou esse fato, o Clarindo ficou todo arrepiado, e eu então fiquei certo de que ele acreditava piamente no episódio das renitentes velas sobre o túmulo do Zé Maria.

 

O Reduzido tinha um humorismo peculiar, e participou de várias peripécias pitorescas e folclóricas. Algumas foram fruto de suas irreverências etílicas, satíricas, burlescas, mas sem ofensa e prejuízo ao semelhante. Eram apenas brincadeiras e “tiradas”, oriundas de sua verve e espirituosidade, voltadas para o riso e a alegria. Durante alguns anos foi o principal responsável pela brincadeira de malhação do Judas, que era dependurado e trucidado perto da igreja de São Sebastião.

 

Nunca ouvi falar de maldade que ele tenha praticado, e as suas duas aparições, se verdadeiras, e não apenas fruto da imaginação dos videntes, apenas revelam que ele era e é um espírito amante da irreverência inofensiva e do sadio bom-humor. 

11 de janeiro de 2011

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Caderno de Letras Meridiano[1]



Caderno de Letras Meridiano[1]

 

Carlos Evandro M. Eulálio
Da Academia Piauiense de Letras (cadeira 38)

 

É com grande alegria que celebramos hoje o lançamento do livro Meridiano Caderno de Letras, com apresentação primorosa da acadêmica Maria do Socorro Rios Magalhães. Numa edição crítica, nele reunimos os três únicos números dessa notável revista.

 

A revista Meridiano Caderno de Letras foi idealizada pelos imortais da Academia Piauiense de Letras, M. Paulo Nunes, H. Dobal e O. G. Rego de Carvalho aos quais rendemos efusivas homenagens. A revista teve curta duração, mas constitui valioso significado para a memória literária do Piauí. Circulou em Teresina, nos meses de outubro e dezembro de 1949 e setembro de 1950. Seu último número é todo dedicado à obra do poeta Da Costa e Silva, falecido no Rio de Janeiro em 29 de junho desse mesmo ano.

 

Agradeço sensibilizado o apoio que recebi da presidente Fides Angélica Ommati que compreendeu o propósito de minha iniciativa, viabilizando, por meio da Editora Nova Aliança e do governo do Estado do Piauí, a publicação desse importante periódico sobre o qual apenas se sabia de sua existência, mas se desconhecia a riqueza de seu conteúdo, inédito há quase 80 anos.  

 

  O Caderno de Letras Meridiano é considerada um marco na literatura do Piauí e um importante veículo de divulgação de nossos escritores que atuaram em Teresina na década de 1940 e 1950. Eram vozes diversas, inquietas, abertas ao novo — vozes que, mesmo em um contexto de escassos meios editoriais, compreenderam a importância do momento de transformação literária em nosso meio. Sobre o aspecto inovador que a revista representava na época, diz M. Paulo Nunes:

 

“O caderno de Letras Meridiano, mesmo sobrevivendo somente até o terceiro número, significou o momento de renovação da literatura piauiense e marcou época, inaugurando a tomada de consciência de que era preciso mudar algo na literatura piauiense”.

 

Em suas páginas lemos artigos de nomes da importância de Edson Regis, Da Costa Andrade, Martins Napoleão, Francisco Pereira da Silva e outros, além dos primeiros contos de O. G. Rego de Carvalho, dos artigos do professor Clemente Fortes, que só agora deles tomaremos conhecimento, dos magníficos ensaios de crítica literária de M. Paulo Nunes, das poesias e traduções de H. Dobal, que também escreve o admirável artigo D. Quixote versus Robson Crusoé.

 

Sobre esse ensaio diz o poeta e crítico literário Mário Faustino, em carta ao filósofo Benedito Nunes, residente em Belém do Pará. Mário se encontrava em Teresina, visitando parentes e amigos. Eis o trecho da carta datada de 27 de dezembro de 1950:

 

“[...] Agora a surpresa: sabes que aqui tem gente culta, inteligente, moderna e de espírito à beça. Se eu arranjar, vou te mandar os três números de uma revistinha de novos daqui: Meridiano”. Tem um rapaz que escreve uns belos poemas, muito simples, muita poesia e muito bom gosto, traduz otimamente ingleses e americanos (inclusive o Eliot e o Cummings). Eu dizendo tu não acreditas. Desse mesmo rapaz, que não só tem talento, mas também uma boa cultura, li um interessantíssimo artigo sobre o egoísmo inglês e a generosidade e o heroísmo espanhóis, sobre a solidão e a solidariedade dos saxões e dos latinos, intitulado “D. Quixote versus Robinson Crusoé”. Esse rapaz cita Santa Teresa, Lope de Vega, Quevedo, Calderón, Shakespeare, Unamuno, Bunyan, John Donne, com uma seriedade espantosa. Só tu vendo. Nessa revista tem gente que escreve falando em Claudel, Péguy, Rilke, Göethe, uma coisa incrível! Esse Norte é mesmo o tal! Tem muita gente estudiosa por toda a parte, até no Piauí!!!” (Faustino, 2017, p. 29)[2].

 

Ao organizar este livro, procurei não apenas compilar documentos, mas realizar um trabalho de pesquisa, visando aproximar o leitor de textos raros da nossa historiografia literária. Que esta obra cumpra não apenas o papel primordial de resgatar preciosos textos da literatura piauiense para a posteridade, mas também sirva como um material de pesquisa, indispensável aos nossos professores, estudantes e todos aqueles que apreciam a boa leitura.

 

[1] Lançamento da obra Meridiano Caderno de Letras, organizado por Carlos Evandro M. Eulálio, em sessão solene na Academia Piauiense de Letras, realizada no dia 6 de dezembro de 2025.

[2] FAUSTINO, Mário. Meu caro Bené: cartas de Mário Faustino a Benedito Nunes / Organização, apresentação e notas de Lilian Silvestre Chaves – Belém: Secult, -PA, 2017. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Indo de “Rio Abaixo, Sertão Arriba”

 

Elmar Carvalho, Fonseca Neto, Fides Angélica, Francisco de Assis Sousa e Zózima Tavares




Indo de “Rio Abaixo, Sertão Arriba” (*)

 

Elmar Carvalho

 

Neste sábado (06/12/25), em solenidade presidida pela Dra. Fides Angélica e pelo professor e historiador Fonseca Neto, em diferentes momentos, tive a honra de ser escalado para fazer a apresentação da antologia Rio Abaixo, Sertão Arriba, que, a meu ver, seria – e acredito tenha sido – o ponto culminante do 2º Encontro de Academias de Letras do Piauí.

Além dessa importante coletânea, a Academia Piauiense de Letras – APL, promotora do evento, também lançou mais de uma dezena de livros por ela editados, com o apoio do governo estadual, e várias obras de autores das academias participantes do encontro, bem como a magistral obra Uma trajetória de 120 anos do futebol piauiense – história e fatos (1905-2025), de autoria de Celso Carvalho, escritor, desportista e jornalista.

Em cumprimento à missão que me foi designada, pedi licença para fazer uma síntese da obra de Celso Carvalho.

Expliquei que, em suas páginas, desfilam os grandes craques do futebol piauiense. Tendo sido um goleiro do futebol amador, fiz questão de citar os seguintes arqueiros: Coló, estiloso, espetacular e espetaculoso, em suas coreográficas defesas; Beroso, contido, eficiente e objetivo; Batista, seguro, eficaz, uma verdadeira muralha, cujo apelido – Mão-de-Onça – é o seu emblema e o seu melhor retrato; Hindemburgo, boêmio, mulherengo, um tanto controvertido e pinguço, que às vezes curava suas ressacas deitado sobre o travessão da meta.

Fiz uma referência e reverência à parte ao grande goleiro Morcego, inspirado no qual escrevi um conto, com umas pitadas de ficção. Quem primeiro me falou dele foi meu pai, Miguel Carvalho. Depois, o grande Carlos Said me confirmou o que sobre ele me dissera papai. Falei dele a Celso Carvalho, que em seu livro o homenageia. Bizarro, exótico e estrambótico, sobre ele eu disse, no livro em comento:

“Morcego, grande goleiro teresinense, foi uma bizarra ave mamífera voadora – uma espécie de Higuita antes de Higuita – com suas pulutricas e acrobacias aéreas, em que muitas vezes parecia planar como uma asa-delta sem asas. Estrambótico e exótico, voava, defendia a bola e, no mesmo salto, ficava dependurado no travessão como um grande MORCEGO.”

Antes ainda de entrar no mérito de meu pronunciamento, declarei que tinha a honra de estar participando de dois livros que estavam sendo lançados na solenidade: Avenida Frei Serafim em 18 vozes, organizado por mim e por Dílson Lages Monteiro, e Arte-fatos oníricos e outros, que reúne meus contos, de diferentes épocas, tamanhos, temáticas e formatos, alguns da vertente do neorrealismo, do realismo fantástico, do surrealismo e de outros ismos.

Sobre a obra Rio Abaixo, Sertão Arriba, fiz as seguintes considerações:

Expliquei que fora idealizada e organizada pelo acadêmico Fonseca Neto. Falei que era uma antologia, uma vez que os textos foram escolhidos pelos seus autores e por suas Academias. Enalteci a beleza de sua capa e de sua diagramação, além de sua excelente apresentação gráfica, em material de boa qualidade.

Acrescentei que todas as Academias tiveram direito a duas páginas para traçarem um breve histórico de sua criação, de seus objetivos e atividades, além de mais três para cada um dos cinco autores de cada entidade, o que totalizaria 17 páginas.

A antologia apresentou matérias em verso e prosa. Preponderaram os poemas, de diferentes temáticas e aspectos formais. Nos textos em prosa houve maior participação de artigos ou pequenos ensaios, crônicas – algumas memorialísticas e historiográficas –, contos e outros relatos e narrativas.

Como exemplificação, mencionei o texto Riachão, da autoria de João Erismá de Moura. Falei que essa crônica, a exemplo de outras, cantava a terra natal do autor, como o poeta Casimiro de Abreu fizera nestes versos do poema Minha Terra:

“Todos cantam sua terra,

Também vou cantar a minha,

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha”.

Em breve blague, observei que o Riachão poderia não ser um rio, mas também não seria um córrego ou um simples rego. Ilustrei minha assertiva com uma anedota: quando eu tinha dúvida, em virtude de o recinto se encontrar escuro ou por qualquer outra razão, sobre se a autoridade militar era um tenente-coronel ou um coronel, eu o chamava de coronel, uma vez que, se fosse coronel, por motivo óbvio, não poderia se aborrecer; e, se fosse tenente-coronel, também não, já que eu havia subido a sua patente. Em assim sendo, declarei que promovia o Riachão a um rio – um rio de verdade.

Complementando minha brincadeira, lembrei que o excelso poeta Fernando Pessoa, também enaltecendo sua terra, fizera os seguintes versos:

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

Dessa forma, para João Erismá de Moura, sem dúvida, o Riachão é mais bonito que o rio Parnaíba, o Velho Monge dos majestosos versos de Da Costa e Silva.

Fiz ainda referência ao texto Finada Alta, de autoria do professor Melquíades Barroso de Carvalho Filho, como exemplo de ótima redação aliada a um conteúdo denso, instigante e atraente, e que poderia ser considerado um rompimento de gêneros literários estanques, pois nele se percebe a interpenetração de crônica, memórias, conto e breve ensaio historiográfico e sociológico.

Nele perpassa a vida de Alta – uma vida dramática e mesmo trágica – que enfrentou as vicissitudes de preconceitos e discriminações, sem falar na pobreza, na doença e na morte. Até seu nome ficou perdido nos desvãos da história, porquanto Alta não era seu prenome, que deveria ser Auta, com u e não l. Alta era o seu apelido, já que ela era uma negra alta, corpulenta, que depois definhou, sem dúvida com a tuberculose de que veio a ser vítima.

Até na morte o preconceito a acompanhou, uma vez que seu sepultamento suscitou uma divergência política, em que lhe negaram uma cova do lado de dentro do cemitério da Paróquia. Mas, na tragicidade de sua vida, aparece a figura de uma espécie de anjo protetor: uma senhora da alta sociedade, de nome Amélia, esposa do capitão Adão Rodrigues, que tentou ajudá-la como pôde. Contudo, o povo de Amarante, tempos depois, a “canonizou” como uma alma milagrosa, uma santa popular. 

No poema Parapente, ficamos sabendo que o historiador e poeta Antônio Pinto deixou a limitação de sua cadeira de rodas para alçar voo em seu sonho de Ícaro e se inebriar com as belezas da serra da Ibiapaba, ao sobrevoar suas florestas, suas encostas deslumbrantes e seus vales férteis e verdejantes. Do mesmo modo, em paramotor, sobrevoou as águas do Bezerro e se encantou com as verdes quintas freitenses, para enfim adejar sobre o velho morro do centro da cidade, que me fascinara em minha adolescência.

Por fim, afirmei que essa antologia trazia o panorama da literatura produzida em nosso estado. Era uma espécie de radiografia da qualidade de nossos prosadores e poetas. Disse que ela abrigava escritores experientes ao lado de outros que ensaiavam seus primeiros voos sobre o campo largo da literatura.

Proclamei que não bastava serem fundadas novas academias, mas que as existentes não fossem afundadas pelo abandono e pela inércia de seus membros e dirigentes; que elas deveriam ser mantidas vivas, pulsantes, através de eventos, de oficinas literárias, de publicações impressas e das possibilitadas pelos sites e pelas redes sociais.

Essa rica e bela antologia foi o coroamento do 2º Encontro de Academias de Letras do Piauí. Foi a chave de ouro que encerrou esse memorável conclave de nossos literatos.

(*) Tentativa de reconstituição de meu discurso pronunciado no dia 06/12/25, por ocasião do lançamento da antologia Rio Abaixo, Sertão Arriba. A reconstituição foi feita com a ajuda de meu esquema mnemônico.

domingo, 7 de dezembro de 2025

REALIDADE FANTÁSTICA

Criação: AI Gemini

REALIDADE FANTÁSTICA


Elmar Carvalho

 

Velhas borboletas empoeiradas

saídas do fundo dos baús.

Velhas borboletas obsoletas

              e de

              asas

enferrujadas querendo

aprender de novo a arte de

     bor-    bor-       bor-

  bo-    bo-      bo-

       le-      le-         le-

   to-      to-                to-

        a-          a-               a-

                vo-      vo-           vo-

ar.                  ar.                      ar.

              Lâmpadas

votivas destroçadas, estrelas

cadentes geladas, luzes

apagadas pelos inimigos da

          claridade.

Antigos

            alfarrábios cheios

            de traças e cupins

            com as amareladas

            páginas dissecadas

reescritos. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

FLAGRANTES DE UMA VIAGEM NO TEMPO E NO ESPAÇO

(c) Elmar Carvalho

Imagem elaborada pela IA Gemini, com base em minha foto acima, sob minha orientação.


FLAGRANTES DE UMA VIAGEM NO TEMPO E NO ESPAÇO

 

Elmar Carvalho

 

Neste final de semana fiz uma breve viagem a Parnaíba.

Retornei no domingo, às 10 horas, em ônibus da Guanabara. Quando cheguei à minha poltrona, no piso superior, situada à janela, havia um homem na poltrona do corredor, que gentilmente me cedeu passagem. Tinha barba e calculei que estivesse no início de sua maturidade. Fizemos a viagem sem nenhum tipo de conversa até a cidade de Piripiri.

No final de minha adolescência e início da juventude, fiz várias vezes essa viagem (ida e volta), sobretudo no período de setembro de 1975 a março de 1977, quando assumi meu emprego nos Correios, e depois, entre agosto de 1982 e junho de 1985, quando me casei.

No primeiro período, morei em Teresina até meu retorno a Parnaíba; a partir de agosto de 1982, passei a morar definitivamente nessa capital. Nessa época, na viagem de ida, seguia com incontido contentamento e, na volta, ficava melancólico, imerso em lembranças e saudade, sobretudo de meus pais.

Almoçamos em Piripiri. No self-service fiquei atrás de um rapaz muito jovem e muito magro. Admirei-me com a quantidade de arroz que ele colocou em seu prato. Fez uma verdadeira montanha. Admirei-me mais ainda com a quantidade das outras iguarias que ele foi acumulando no prato em suas sucessivas escolhas.

No início, fiquei com certa inveja, mas depois — por que não confessar? — tive saudade de mim mesmo, quando, no auge de minha juventude saudável, igualmente devorava com muito apetite uma quantidade semelhante de repasto. Só não atinei em como um corpo tão franzino poderia suportar tal volume de alimento.

Recomeçamos a viagem. Vi que o rapaz da poltrona contígua à minha, de vez em quando, retirava um livro da mochila, que conduzia a seus pés, e o folheava ou lia durante alguns momentos. Terminei sendo vencido pela curiosidade e lhe perguntei se ele lia apenas livros técnicos ou informativos, ou se lia também obras literárias, tendo ele me respondido, com certa ênfase, que gostava de livros de ficção e de poemas, o que me causou perplexidade e alegria, neste tempo em que a literatura vem perdendo prestígio, mormente pelo excesso de escritores e pela falta de leitores. São escritores demais para leitores de menos.

Perguntou qual era o meu nome. Ante minha resposta, indagou se eu fazia parte do Clube dos Poetas Mortais, ao que respondi afirmativamente. Disse que participou de uma das coletâneas dessa agremiação literária e era ativo em seu grupo de WhatsApp. Falei que esse clube fora criado por Paulo Couto, velho amigo, que também organizou suas obras coletivas.

Comentou que a poltrona do ônibus era de boa qualidade, e eu afirmei que era melhor que a dos aviões em que já viajara.

Aludi a uma das músicas românticas de Belchior, em que ele dizia: “Foi por medo de avião / Que eu segurei / Pela primeira vez a tua mão”. Contei-lhe que, em minhas primeiras viagens aéreas, eu tinha medo e, para driblar o meu pavor, observava as aeromoças — que, então, eram chamadas mesmo de aeromoças, e eram, de fato, moças e bonitas. Disse-lhe que, por causa disso, fizera o meu poema A Ero Moça, publicado na internet.

No decorrer da conversa, fiquei sabendo que o poeta se chamava Daniel Santos e que se interessara por literatura aos cinco anos de idade, quando leu um pequeno livro que ainda guardava. Acrescentou que tinha uma empresa especializada em consertar máquinas de lavar roupa. A título de velada sugestão, perguntei se ele não pretendia ingressar na área de limpeza e conserto de ar-condicionado, tendo ele dito que já estava montando uma equipe com esse objetivo.

Relatei-lhe que, alguns meses atrás, mandara consertar uma máquina de lavar roupa e que a empresa não conseguira efetuar com eficácia o serviço, pelo que tive de comprar uma máquina nova. Diante disso, pedi redução no preço proposto, tendo enviado à empresa a nota fiscal de compra da nova máquina. Contudo, o dono da firma insistiu em manter o preço do orçamento, embora o serviço prestado me tivesse sido inútil.

Quando passamos por uma casa situada no entorno do Açude Grande, em Campo Maior, disse-lhe que ela havia sido sede de um cabaré e posteriormente fora o entreposto de uma empresa, com matriz em Minas Gerais, que comprava jumentos para exportação, segundo os rumores. Assim, poderíamos dizer, de forma metafórica e literal, que servira ao comércio da carne, para diferentes finalidades.

A conversa não foi contínua. Às vezes eu ruminava meus silêncios na contemplação da paisagem, da qual tirei umas poucas fotos, sobretudo da chapada ornada de cupins, faveiras, sambaíbas e pequizeiros. Aliás, disse ao poeta Daniel Santos que gostava de viajar perto da janela exatamente para olhar a paisagem, e que desse labor do ócio me viera o estalo para alguns poemas que estão em meus livros.

Para encurtar esta crônica dessa conversa intermitente e desses “flagrantes”, quando chegamos ao início da ladeira do Morro do Uruguai, relatei-lhe que, em 1984 ou 1985, antes do meu casamento, fui esperar Fátima, que vinha de Parnaíba, em um ônibus da extinta empresa Marimbá. Por distração, desci a estrada até uns setecentos metros e, quando retornava, escapei de morrer por um átimo ou uma diminuta fração de segundo. Com um preciso e exato golpe do guidão, livrei-me de ser colhido por um automóvel em altíssima velocidade.

Vi a fragilidade e fugacidade da vida. Pude contemplar suas frágeis e delicadas engrenagens. Eu teria sido uma vida interrompida em seu ápice. Não teria tido o que conquistei a partir de então. Não teria me casado, não teria tido meus dois filhos, não teria concluído o curso de Direito, nem me tornado juiz de Direito, nem feito os vários poemas, contos, crônicas e romance que fiz depois. Não teria me tornado quem eu hoje sou.

Tinha menos de 30 anos de idade, e a vida ainda me floria, com as Graças me espargindo rosas em meu caminho.