quinta-feira, 13 de maio de 2021

Mandu Ladino, mais que uma lenda!

Autor da ilustração: Moisés Rego


Mandu Ladino, mais que uma lenda!


José Luiz de Carvalho

Jornalista, poeta, contista e cronista

 

Ao contrário do cacique e pajé Nheçu que no vale do Ijuí, no Rio Grande do Sul, no início dos idos 1600, nunca aceitou a presença do homem branco em suas terras. Mandu Ladino, no vale Rio Longá, na região Norte do Piauí, teve uma vida tranquila até a idade adulta, morando em uma fazenda prospera, onde inicialmente foi escravo e depois virou homem de confiança do proprietário, exercendo as funções de vaqueiro.

 

 Na antiga terra de Nheçu, hoje a cidade de Roque Gonzáles, o escritor Nelson Hoffmann, em seu livro -  “Na história das Missões", apenas um único indígena levantou a sua voz, uniu o seu povo e enfrentou o homem branco invasor; não fez conluio com qualquer homem branco; não defendeu ideias que não fossem as de sua gente e só quis guardar o sagrado direito de permanecer na terra que sempre foi sua – a terra com as tradições que seu povo cultivava desde sempre.

 

O índio guarani, Nheçu, e o padre paraguaio, Roque Gonzáles de Santa Cruz, protagonizaram, nas terras sul-rio-grandenses, de forma irredutível, uma das mais vigorosas contendas da história das Missões Jesuíticas. Padre Roque, após fundar várias reduções no Paraguai, Uruguai e Argentina, recebeu a difícil missão de adentrar a região, onde é hoje o Estado do Rio Grande do Sul, exatamente nas terras de Nheçu. No dia 15 de agosto de 1628, padre Roque, com a ajuda do padre João Castilho, com a permissão de Nheçu, embora com restrições, fundaram a Redução de Assunção a qual durou apenas três meses. Durante o processo de catequese, as imposições dos padres não se coadunavam com as vivências indígenas. Nheçu resolveu cortar o mal pela raiz: ordenou a morte dos padres. Assim, entre os dias 15 e 17 de novembro daquele mesmo ano, com exagerada crueldade, em Caaro, foram mortos o padre Roque Gonzáles, Afonso Rodrigues e no dia 17, em Assunção do Ijuí, o padre João de Castilho os quais  tornaram- se os Mártires das Missões.

 

Naquela época, a reação dos brancos foi imediata e igualmente violenta. Em várias batalhas, mais de 200 índios foram mortos, inclusive os doze líderes da revolta, ficando apenas Nheçu que conseguiu fugir pelo Uruguai, a fim de que nunca mais fosse encontrado. A Terra de Nheçu, após a destruição de suas instalações e plantações e a consequente fuga dos índios sobreviventes, virou a “Terra de Ninguém”.

 

Quase um século depois, num outro extremo do Brasil, um índio rompe sua boa relação de convivência com os brancos. Por sua saga, Mandu jamais poderia ter vivido pacificamente com os homens brancos, pois, quando menino e muito pequeno, ao lado de sua irmã mais velha, assistiu à destruição de sua aldeia e a morte dos seus pais. Depois, eles foram levados pelos assassinos, para serem criados em fazenda na região de Campo Maior. O adolescente Manuel foi separado da sua irmã e levado para um aldeamento, no Cariri do Boqueirão, no interior da Capitania de Pernambuco, para estudar e ser cristianizado pelos religiosos da Ordem dos Capuchinhos.  Após uma rebelião, fugiu e retornou ao Piauí, onde desenvolveu um trabalho, conduzindo gado de Campo Maior para as indústrias de Charque da Parnaíba.  O motivo da revolta de Mandu Ladino foi o assassinato da sua irmã pelo Capitão Mor Souto Maior, por causas de ciúmes, uma vez que ele havia se apaixonado pela índia que  tinha um namorado, um homem branco e por essa razão, não havia correspondido às invertidas do “nobre capitão”.  Mandu juntou um pequeno grupo de índios e matou Souto Maior e todo o seu contingente policial,  depois fugindo para os   “Morros Azuis”, onde arregimentou um grande grupo de índios de várias tribos, de onde descia para saquear as fazendas, levando víveres, animais e armas.  Segundo alguns historiadores, o Cacique Mandu Ladino teria formado um verdadeiro exército, composto de milhares de índios, cuja atuação e movimento rebeldes  estenderam-se pelos sertões do Piauí e Maranhão, alcançando o  Ceará e que, sob o seu comando, muitos portugueses morreram e muitas fazendas foram arrasadas nessa grande região em três estados.

 

Diferentemente de Nheçu que combateu os brancos por razoes ideológicas religiosas,  Mandu combateu os brancos com sentimento de vingança de ordem pessoal. Na verdade, tornou-se um renegado e perseguido após ter matado Souto Maior.  Embora alguns estudiosos da história registrem que a sua luta teve também objetivo revolucionário, Mandu Ladino teria sonhado com a construção de uma grande nação indígena, em terras do Piaui. Na verdade, ele cometeu muitas atrocidades contra as pessoas, nas fazendas as quais invadiu com seu grupo de renegados, devolvendo na mesma proporção a violência praticada pelo homem branco nas invasões das aldeias indígenas. No período de 1712 a 1719, por quase  de 7  anos, durou uma  longa guerra entre fazendeiros  e índios, tendo terminado, somente, com a morte de Mandu Ladino que, após ser baleado, afogou-se, no rio Igaraçu, nas proximidades de Villa de Nossa Senhora de Montserrat da Parnaíba e com a prisão dos seus principais líderes rebeldes, diante das forças,   chefiadas por Francisco Cavalcante de Albuquerque e com a ajuda do Mestre-de-Campo da capitania do Piauí, Bernardo de Carvalho Aguiar.

 

Hoje, diante da falta de documentos históricos comprobatórios e à guisa da imaginação dos romancistas, contistas e poetas, Mandu Ladino, a cada publicação feita, distancia-se do homem índio, nascido na região de Alto Longá, que morou em Campo Maior e morreu na Parnaíba, virando apenas uma lenda cheia de glamour e de heroísmo, uma fascinante narrativa de ficção literária!   

Fotografia



FOTOGRAFIA


Alcione Pessoa Lima


Se eu pudesse sempre te encontrar sorrindo

Existindo, sem murchar tuas pétalas...

Na faceirice da mocinha que se acha mulher

Fotografaria o teu silêncio – a tua voz inimitável

Faria uma canção para te esperar. Serias sempre bela ao meu olhar.


Ainda que eu pudesse, não a fotografaria sem o teu consentimento

Seria o nosso momento – e te flagraria em êxtase

A silhueta passaria despercebida – o foco seria a tua felicidade

E como um vaga-lume acenderia o flash da tua lucidez

Para ver o teu rosto iluminado – a denunciar um olhar apaixonado.


Acho que não me desculparias se eu ousasse flagrar-te na tua fragilidade...

Ou em teus sonhos – ou pela fresta – o teu mundo

Não me concederias esse prazer – por isso apenas te observo

E toda a plástica de teu sorriso preenche o vazio emoldurado...

O quadro que imaginei, sem jamais tê-lo pintado.      

quarta-feira, 12 de maio de 2021

À MEMÓRIA DE MEMORÁVEIS MÚSICOS



À MEMÓRIA DE MEMORÁVEIS MÚSICOS


José Francisco Marques

Professor, instrumentista e escritor


Chagas Sitônio era mecânico de bicicletas. Grande, na arte de consertar as “magrelas”, dando fino trato às mesmas. Tinha esse honrosa função, mas detrás daquele homem simples e humilde, escondia-se um grande músico. Tão bom, que sempre que aparecia algum concurso à época(pasmem, hoje na modernidade, não aparece um evento similar), ele era agraciado com o primeiro lugar, carregando ao colo apenas  sua sanfoninha de oito baixos, companheira inseparável de seus momentos musicais.

Ele tinha uma oficina na Rua Coronel Antônio Maria e bem novo ainda, driblando meus pais e os estudos, lá estava eu em sua oficina. Lembro-me que certa feita, ao pegar o violão e arremedar algumas notas, ele, olhando por sobre os óculos me disse: essa sua mão direita é muito boa! Aquilo foi o maior elogio que recebi até hoje. De fato não me tornei músico por profissão, mas tenho sérias dificuldades ainda hoje com a minha mão esquerda, responsável pela elaboração dos acordes.

Tive sorte de nascer em uma rua extremamente musical. Lembro-me bem do grande cantor Chico Baú, possuidor de uma voz fantástica, pois o seu grave assemelhava-se ao grande Nelson Gonçalves. Como esquecer Valdir do Banjo, importado diretamente do Bairro Flores? Era um mago nesse instrumento, com um detalhe interessante: ele mesmo fabricava o seu instrumento. Era também frequentador da oficina de mestre Sitônio.

Na época propícia à apresentação do Bumba meu boi ou em tempos de Santo Reis, havia um encontro na madrugada desses verdadeiros artistas, que resgatavam em termos de cancioneiros, os mais belos registros. Lá estava eu, depois de sorrateiramente sair escondido obviamente dos meus pais, em verdadeiro transe para ouvir aqueles hinos que elevavam a minha alma muito além do mais profundo infinito. No percurso até o local, já de longe ouvindo a música que se fazia alcançar a minha audição, os paralelepípedos da rua, magicamente se faziam sobrepostos formando notas musicais em suaves movimentações sincrônicas. Eu levemente flutuava aos acordos inigualáveis daquele excelso concerto.  Jamais irei esquecer, pois ecoa ainda hoje em meus ouvidos os acordes preparatórios e em seguida a canção da qual, entranhada na minha memória, vem-me à mente saudosa os seguintes versos iniciais:

“ Catirina que só quer

Comer da língua do boi

Carne seca na janela

Quando alguém olha pra ela

Pensa que lhe dão valor”   

terça-feira, 11 de maio de 2021

NOVENTA E NOVE ANOS DE CELSO BARROS

Celso Barros em sua terra natal, entre os acadêmicos Fonseca Neto e Zózimo Tavares, em 2019. Ao fundo, a sede da Academia de Letras, História e Ecologia de Pastos Bons / Foto: Regina Tavares


NOVENTA E NOVE ANOS DE  CELSO BARROS        

 

Jonathas  Nunes                                                                                                    


Conhecer, ao longo da vida, homens da estatura intelectual de Celso Barros Coelho é honraria para poucos. Ainda jovem, ouvia referências elogiosas sobre sua presença na vida em clausura do Seminário Diocesano. Anos mais tarde soube da firmeza com que enfrentou os arreganhos da Ditadura militar ainda na década de sessenta. Advogado, exibiu destreza invulgar ao terçar armas na sala dos Tribunais. E também na antessala dos corredores da Justiça: certa feita foi visto engalfinhando-se em luta corporal com o prócer da parte contrária, ao relutar em levar desaforo para casa. Sua simples presença dava nome e renome à  cátedra universitária ufpiana.  Vi bem de perto, anos depois, Celso, meu colega na Câmara Federal, já na década de oitenta. Na Tribuna do Congresso, brandindo o chicote da palavra com maestria invulgar,  fosse na sutileza do argumento, na ironia da crítica, na instantaneidade do lampejo repentino. Certa feita, foi cáustico com o orador que esboçava queixume com ar de choro:.... “se V.Exa. tem vocação para carpideira, a Tribuna não lhe serve de assento.”

Em pelo menos duas oportunidades pude manifestar de forma explícita, minha sentida admiração pelo intelectual  Celso Barros Coelho.  Em 1984 e 1985, fui escolhido pelo  Parlamento Latino Americano para Reunião solene, a primeira em Washington e a segunda em Cartagena, na Colômbia. Declinei de ambas. Ao fazê-lo, transferi o Convite para o Colega  Deputado Celso Barros Coelho que me agradeceu e aceitou de plano. Um parêntese: dificilmente um Deputado Federal pelo Piauí pode ter uma presença física nos diversos municípios como o então Deputado Federal Jonathas Nunes. À época, não havia ainda as chamadas verbas parlamentares para distribuição a critério de cada Deputado. Pensei então com meus botões: já que não me é possível carrear algum recurso, irei pelo menos visitar o município em pessoa. Quando dos dois convites acima, declinei dos mesmos precisamente porque estava com visita marcada a São João da Serra e o outro me parece que a Landri Sales.

Ainda bem antes da pandemia, alegrava a todos a presença do querido Acadêmico Celso Barros a nossas reuniões semanais. A pandemia tem de certa forma subtraído a visão daquelas centelhas de luz que promanam de cada intervenção do Celso em reunião da APL. Agora que ele transpõe a marca dos noventa e nove, a certeza me diz que em breve, na reunião da APL, vou rever de perto as fagulhas de luz que emanam dessa mente centenária.    

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Lírica e Hermenêutica



Lírica e Hermenêutica


Weliton Carvalho

Juiz de Direito e poeta


Nunca escrevi um verso para minha mãe,

porque ela me deu todos os poemas:

 

inclusive os que nunca li nem consegui escrever.

 

Num dia da minha infância, mãe olhou pro céu e disse:

 

─ Sabe por que o céu é azul?

Pra colorir a nossa vida em preto e branco.

 

Menino treloso que era,

percebi que ela guardava cacarecos:

 

copos quebrados, páginas soltas, roupas manchadas,

         tocos de velas da primeira comunhão dos filhos.

 

─ Por quê, mãe?

─ A vida se faz aos pedaços, filho.

 

Como se vê, aprendi com ela lírica e hermenêutica

para me espantar ante o despedaçar da vida.    

domingo, 9 de maio de 2021

RETRATO DE MINHA MÃE

Tela da autoria do pintor Rogério Albino




RETRATO DE MINHA MÃE


Elmar Carvalho

 

Fernando Pessoa, em versos, disse que após sua morte, se quisessem escrever sua biografia, não haveria nada mais simples, porquanto tinha apenas duas datas: a de sua nascença e a de sua morte. Minha mãe nasceu no dia 20/11/1933 e faleceu na sexta-feira passada, 26/04/2013. Era de poucas letras, embora tivesse enorme sabedoria de vida, e tinha o que hoje chamam de inteligência emocional. Com efeito, em sua modéstia e simplicidade, era uma mulher muito inteligente e perspicaz. Se eu quisesse resumir este perfil, que tento fazer de minha mãe, diria que o texto insuperável de Don Ramon Angel Jara, bispo de La Serena – Chile, a ela se aplica com exatidão, como se aplica a todas as verdadeiras mães.

Não exerceu cargos e nem funções públicas. E nunca os almejou. Cristo disse que quem desejasse ser o maior, deveria ser o que mais servisse. Portanto, deveria ser o maior e o melhor dos servos. Mamãe (quase) renunciou a si mesma, para servir aos outros. Sua missão, à qual se dedicou de forma obstinada e contínua, sem tréguas, sem férias, sem feriado, sem queixas e sem lamentações ou mágoas, foi cuidar do seu marido e dos seus oito filhos. E como soube cuidar... Nisso foi inexcedível.

Desde o amanhecer até o momento em que ia dormir, não sabia ficar quieta. Sempre tinha algo a fazer. Nisso se incluíam todos os misteres domésticos. Cuidava do marido e dos filhos; limpava a casa; lavava as roupas e as louças; fazia as refeições e chegou ao ponto, durante vários anos, de confeccionar as roupas dos filhos, mormente numa época em que não era costume comprar-se roupas feitas.

Nossas roupas eram bem-feitas, tanto no corte, como na costura, e bem se ajustavam ao nosso porte. Em determinada época, apenas por passatempo, no período em que morava em Parnaíba, passou a confeccionar animais e bonecas de pano ou plástico, para presentear os filhos e alguns amigos, e também ornar sua casa. Eram trabalhos feitos com esmero, com observância de detalhes, enfeites e adereços, que lhe revelaram a sua faceta artística, a que não deu continuidade, porquanto sua vocação ou devoção era, efetivamente, ser esposa, mãe e exímia dona de casa.

Mesmo quando passou a ter colaboradora, jamais deixou de exercitar esses trabalhos. Nunca lhe ouvimos lamúrias por causa de sua dura labuta doméstica. Sentia-se realizada em ser dona de casa e mãe de família. Parecia encarar esse labor extenuante e repetitivo como uma missão sagrada, que lhe dava íntima satisfação e à qual não desejava e nem poderia fugir, ainda que apenas aos domingos.

Das várias mensagens que os netos divulgaram através da internet (facebook) e que publiquei em meu blog, pinço trecho de duas. Este, de meu filho João Miguel, cadete da Polícia Militar do Amazonas, e que, por isso mesmo, não pôde comparecer ao enterro de sua avó: “Hoje o céu está mais alegre. Os anjos cantam. Chega mais uma estrela para brilhar no paraíso. Passa agora um filme na minha cabeça dos momentos que passamos juntos, da alegria que cativava todos, da cumplicidade com a família, da sinceridade que transparecia em seu rosto”. E este outro, escrito por Raquel Guedelha: “Certa vez, vovó comentou com meu irmão, que a imagem da felicidade dela era olhar para o passado e lembrar a época em que o meu avô chegava do trabalho em Campo Maior, e todos os filhos dela, que brincavam na frente da casa, saíam correndo ao encontro do pai para trazê-lo para casa”.

Tinha mamãe o espírito forte e uma grande energia vital. Mantinha sempre o ânimo alegre, sem mágoa, sem ira e sem temores. Não tinha inveja de nada e nunca se maldizia. Não gostava de fuxicos, futricas e fofocas, e, portanto, não se comprazia em falar da vida alheia. Embora não fosse de visitar amiúde as casas alheias, mesmo porque não tinha tempo para isso, tinha a amizade e a estima dos vizinhos, aos quais tinha o mesmo apreço, amizade e consideração. Creio que a sua força e vitalidade provinham de uma Fé singela, mas inabalável em Deus, que ela não alardeava, pois a conservava em seu íntimo, em recanto secreto.

Essa Fé a fez ser sempre uma mulher forte, decidida, embora de trato suave, e mesmo delicado. Cultivava discreta alegria, sem ostentação e espalhafato. Ao trabalhar, em sua faina diária e contínua, cantarolava algumas músicas de sua predileção. Não obstante essa sua postura, soube disciplinar os filhos, com a palavra, com o castigo e com os corretivos, para que fôssemos pessoas do bem e buscássemos a virtude. Nessa seara tivemos, também, o seu exemplo e o de nosso pai, que lhe sobrevive. Contudo, não fomos criados presos, amarrados à barra de seu vestido. Fomos livres e brincamos a valer.

Conquanto tivesse mamãe uma personalidade forte, e tenha enfrentado com galhardia as dificuldades e vicissitudes da vida, que se abatem sobre todas as famílias, sejam percalços financeiros ou doenças, sem nunca esmorecer ou perder a Esperança e a Fé, entretanto, quando a tragédia, pela primeira e única vez, atingiu a nossa família, eu pude imaginar o quanto ela nos amava. Foi quando minha irmã Josélia, aos quinze anos de idade, no auge de sua beleza, carisma e simpatia contagiante, linda e odorífera flor que mal desabrochara, foi colhida brutal e inesperadamente pela morte, vítima de acidente automobilístico.

Minha mãe passou vários dias imersa em imensa tristeza, prostrada em sua alcova, a derramar profusas e sentidas lágrimas; chorou sua filha, como Raquel chorou seus filhos, “sem aceitar consolação por eles, porque já não existem”. A duras penas, sabe Deus com que esforço, conseguiu sair de sua profunda prostração, para cuidar do seu marido e de seus filhos, que dela ainda muito precisavam. Aos poucos, retomou a sua rotina e voltou a tomar posse de si mesma, do modo como sempre fora.

Tinha senso de humor, embora o usasse de forma moderada, e jamais para diminuir ou ridicularizar quem quer que fosse. Certa feita, o meu saudoso cunhado Zé Henrique disse que, quando morresse, gostaria de ser um urubu. Um pouco por influência minha, creio, ele passara a admirar essas negras aves, a sua saúde, a sua missão de limpar o mundo, a sua magnífica coreografia aérea, e até mesmo o seu gingado caminhar de malandro carioca. Minha mãe, sorridente, retrucou-lhe que preferia ser um bem-te-vi, pela sua beleza e alegria. Na tarde de sua morte, ouvi o canto alegre desse passarinho, que já não ouvia há algum tempo, e tive o lampejo de que seu espírito partia para o infinito.

Décadas atrás, minha mãe ganhou um casal de papagaios. Criou-os com muito zelo, carinho e estima. Não lhes ensinou palavrões e nem cantigas indecorosas, como as que hoje nos agridem os tímpanos e a alma em quase todo lugar. Ensinou-lhes belas e alegres canções, inclusive religiosas, conquanto não fosse carola, avessa que era a hipocrisias e falsidades farisaicas.

Graças à sua obstinada determinação nesse mister, o Louro e a Rosa aprenderam um vasto repertório de palavras, frases e cantigas. Era muito engraçado ouvir-se a algazarra festiva dos papagaios, quando eles estavam de bom-humor, pois essas aves, como os humanos, cuja voz eles imitam, parecem ter os seus caprichos, em que alternam momentos de alegre expansão com momentos de sisuda introspecção, ou mesmo de certa melancolia.

Deus concedeu a minha mãe que ela nos preparasse para a sua morte. Ela sempre disse não ter medo de morrer. Quando teve de encarar duas ou três cirurgias, resolveu enfrentá-las de imediato, sem desânimo e sem receio. Os sentimentos negativos, que deve ter tido, em sua condição de humana, guardou-os para si; parecia não desejar contaminar os outros com queixas, medos, mágoas ou desesperanças. Em virtude de sua hepatopatia, um ano atrás, começou a definhar e a apresentar alguns problemas de saúde, ela que sempre fora tão saudável e incansável.

Esses problemas começaram a amiudar, e culminaram com a necessidade de ser internada em hospital de Teresina. Poucos dias depois, com a alteração de suas taxas, como a de potássio, que se elevou muito, e a de sódio, que caiu demasiadamente, seu coração, que era forte e vigoroso, sofreu uma fibrilação atrial, tendo ela que ir para a Unidade de Tratamento Intensivo.

Disso lhe adveio outras complicações, como uma embolia, numa das pernas, tendo ela que ser submetida a pequena cirurgia para retirada do coágulo sanguíneo. Finalmente, ocorreu o seu falecimento, aos 79 anos de idade, na tarde do dia 26, às 15:45 horas. Esse lento e gradativo declínio de sua saúde, contribuiu para que meu pai, minhas duas irmãs, meus quatro irmãos e eu suportássemos a sua morte sem desespero, e com resignação. Os choros foram contidos, silenciosos, ou apenas internamente, sem convulsivos soluços e clamores.

Minha mãe, como já falei, dizia não temer a morte. Dizia isso de forma humilde, sem empáfia e sem ostentação; apenas como quem, de há muito, entendeu-a como parte integrante da vida, ou mesmo como um portal para a continuação da existência, em novo estágio ou nova dimensão do espaço-tempo. Por essa razão, numa das vezes em que a visitei na UTI, disse-lhe para ser forte, rezar e confiar em Deus. Ela, com um fio de voz, dada a sua fraqueza física, porém com firmeza e serenidade, reafirmou-me não temer a morte.

O meu irmão César Carvalho (Neném), quando contei esse diálogo, disse-me, aludindo à circunstância de ser eu poeta:

– Você é doido mesmo... Todo poeta é um pouco doido. Você foi puxar um assunto desse!?

Sou, talvez, mas quem não é? Dizem que todo mundo tem um pouco de poeta e de louco. Além do mais, quiçá, tenha contribuído para reavivar a sua coragem e Fé.

Quando se aproximava a sua viagem a Teresina, para consulta e tratamento, se fosse o caso, minha mãe deu alguns de seus vasos de plantas a uma vizinha, Lindalva, esposa do comerciante Zé Francisco, amigo nosso. Ambos são pessoas boníssimas, e Deus os está abençoando em seus filhos, que estão a concluir os cursos de Radiologia e de Medicina. Recomendou, ainda, que os seus queridos papagaios fossem entregues a um dos filhos. Provavelmente, antevia que meu pai fosse sofrer muito com a visão e as cantigas deles, a lhe provocar lancinantes evocações e saudade, o que já está acontecendo.

Tempos atrás, ela firmou contrato com a funerária Pax União, naturalmente antevendo que o termo de seus dias já se aproximava. Também preveniu a familiares que desejava ser sepultada em Campo Maior, no cemitério do bairro Cidade Nova, ao lado do sepulcro de seu irmão Antônio Horácio de Melo, que fica perto do túmulo de sua irmã Maria dos Remédios e de seu cunhado Zeca Quaresma. Ela, pessoalmente, foi escolher o local, e pediu a sua reserva e marcação. Disso podemos inferir que ela tinha a premonição de que sua hora final já se avizinhava.

Josélia, filha de minha irmã Maria José (Mazé), contou que, na tarde em que minha mãe partiu para a eternidade, sonhara que ela retornava a sua casa em Campo Maior, entrando pelo quintal, cheio das árvores que ela plantou e dos arbustos ornamentais e flores que ela cultivava. Minha sobrinha, admirada de ela haver saído do hospital, lhe perguntou:

– Vovó, a senhora está bem?

Minha mãe, então, lhe respondeu:

– Agora, estou.

Quando Josélia acordou desse sono/sonho ouviu o telefone tocar. Era o meu irmão César Carvalho que ligara para lhe dar a notícia de que mamãe acabara de falecer. Certamente está bem, no lugar de beatitude que o Pai lhe deve ter destinado.

Na manhã do dia em que mamãe morreu, os papagaios começaram a cantar uma das cantigas que ela lhes ensinou. Como uma espécie de premonição, o Louro e a Rosa cantaram o seguinte trecho de hino religioso: “Mãezinha do céu, eu não sei rezar / Eu só sei dizer quero te amar”. O Solimar, um de nossos vizinhos, acrescentou que, após o cântico católico, uma das aves teria pedido: “Vovô Miguel, traz o café”, tendo a outra acrescentado que o queria com leite. Que avezinha mais exigente!...

Pouco antes da chegada do corpo de mamãe, fato ocorrido à noite, os papagaios novamente cantaram o refrão acima transcrito, e também o seguinte trecho de melancólica marchinha carnavalesca: “Oh! jardineira por que estás tão triste / Mas o que foi que te aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho / Deu dois suspiros e depois morreu”. Há quinze dias que meus pais já se encontravam ausentes, ficando eles aos cuidados da Alba, que também os ouviu cantar os versos iniciais do hino religioso. Os animais, que muitos dizem não ter raciocínio, parecem ter os seus mistérios e segredos.

Somos agradecidos a todos os parentes e amigos que nos deram a sua solidariedade, pessoalmente, por telefone ou pela internet, tanto nas visitas ao hospital, como no comparecimento ao velório e ao sepultamento. Na longa noite em que mamãe foi velada, muitos ficaram até o raiar do dia, rezando e nos reconfortando com sua presença. No quintal da casa, os xarás Zé Francisco, o professor e o nosso vizinho, ficaram a noite toda conversando comigo, por mais que eu lhes tenha dito que deveriam ir repousar, pois ambos têm as suas ocupações profissionais.

Muitos choraram copiosamente, embora de forma sóbria. Outros contiveram as lágrimas. Meu pai, minhas irmãs e alguns irmãos derramaram seus prantos, em alguns momentos, mas sem lamentações e sem desespero, porque sabiam que a vida de minha mãe continua em alguma das casas do Senhor da Eternidade – “na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito”, garantiu-nos o Cristo (João, 14.2). Ao tombar do dia, mas ainda com sol, entregamos o corpo de mamãe aos cuidados da mãe terra. Sua alma, esta se encontra numa das moradas celestiais, ou “na mão de Deus, na sua mão direita”, como nos versos sublimes de Antero de Quental.

Encerrando redação sobre as mães, que valeria como prova da disciplina Educação Moral e Cívica, no antigo Ginásio Estadual, da qual era professor o impoluto juiz de Direito Dr. Hilson Bona, em que obtive nota máxima, disse, em pleno adolescer: “E agora direi, como disse Paulo Setúbal: 'Minha mãe, Deus lhe pague!'” Repito, agora, finalizando este singelo retrato, em plena maturidade: Minha mãe, Deus lhe pague.

…............................................

Sobrevivem a minha mãe, o marido, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, e os filhos José Elmar, João José, Antônio José, Maria José, Paulo José, Joserita e Francisco José Nonato César (César), todos com o sobrenome “de Mélo Carvalho”. Minha irmã Josélia faleceu em 02/07/1978, aos 15 anos de idade. Meu pai veio a falecer em 05.11.2017.

 

sábado, 8 de maio de 2021

Dois desenhos de Poncion Rodrigues


O médico Poncion Rodrigues, de ancestrais parnaibanos, vem aproveitando seu tempo de ócio, por motivo da pandemia, para produzir excelentes desenhos, em que vem prodigalizando seu talento, ele que também é hábil com as palavras, sobretudo em ótimas crônicas que vem escrevendo ao longo dos anos, e que, se reunidas, formariam um belo livro, que bem poderiam ser ilustradas por ele próprio.     

sexta-feira, 7 de maio de 2021

DEUS & DESTINO

Fonte: Google


DEUS & DESTINO

 

José Expedito Rêgo

Médico e Escritor

 

Nas poucas entrevistas que dei a imprensa, quando me perguntam se eu sou ateu, respondo sempre: - mais ou menos – o que provoca risos.

Ninguém pode negar categoricamente a existência de um Deus. Não sabemos quem ele é. Talvez exista como criador desse universo maravilhoso e perfeito e dessa coisa fantástica que é a vida no planeta Terra.

O universo e a vida, no entanto, são regidos por lei que o próprio Deus teria estabelecido. Algumas dessas leis são conhecidas pela inteligência humana, são imutáveis. Não creio, por conseguinte, que o Deus criador deva nem possa modificar suas leis para atender a súplica de pessoas devotas. Seria um absurdo Deus conceder a vitória a um rei católico ou de qualquer outra religião, que a suplicasse no campo de batalha. Nem que deva ser atendido um doente que implora a cura de sua moléstia, a qual segue um curso determinado pelas leis naturais da bio-patologia.

Acredito, isto sim, que o Homem possa interferir naquilo a que se costuma chamar destino. Júlio César com certeza influiu na criação do Império Romano e tudo que veio depois dele, na história do mundo ocidental. Jesus Cristo, com sua doutrina de persuasão e amor, exerceu grande poder na propagação do cristianismo, em todo o mundo, ajudado por seus apóstolos, principalmente Paulo.

Mais recentemente, Winston Churchill mudou o nosso destino, pela ação decisiva que resultou na derrota do nazismo alemão.

Essa mudança na história da humanidade não implica em violação das lei naturais. Elas foram determinadas pela inteligência e pela força de vontade de homens excepcionais, criados de acordo com as mesmas leis imutáveis da Mãe Natureza.

As descobertas de vacinas, soros e antibióticos modificaram o destino de muita gente que, em condições anteriores, morriam de infecção puerperal, de hidrofobia, tuberculose e outras doença antes incuráveis. Nada disso, porém, foge às leis biológicas.

O destino não é predeterminado, muda de acordo com as circunstâncias. Muita gente morre antes da hora. 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

O retrato



O retrato


Carlos Rubem


Década de sessenta. Era menino. Sentado num antigo sofá na “Casa das Moças”, em Oeiras, observando a ambiência local, indaguei a minha tia-avó Quinquina, quem era aquele homem do quadro da parede.


– É meu irmão

– Como é o nome dele?

– Doutor Benedito. Morreu há muitos anos. Ainda moço.

– Ele era padre?

– Não. Isto é uma roupa de formatura. Era poeta.

– Morreu de quê?

– De uma doença horrível...

– Qual?

– Eita menino curioso!


Foram estas a primeiras informações que tive a respeito de Benedito Francisco Nogueira Tapety. Desde então passei a admirá-lo. Mais crescido, outros dados fui colhendo, obviamente. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife, em 1911. Promotor Público. Professor do Liceu Piauiense. Delegado Geral de Teresina. Assessor do Governador Miguel Rosa. Faleceu aos 27 anos, vítima de tuberculose. 


Ao ensejo do centenário de nascimento do “Mulato Genial”, em 1990, foi lançado o livro “Arte e Tormento”, sua obra póstuma.


Para tanto, fiz minuciosa pesquisa sobre a fundação da União Artística Operária Oeiras em sua rica documentação. Consta da ata inaugural, datada do dia 25.12.1938, após o discurso do Cônego Cardoso, levantou-se o Dr. João Carvalho que disse que fora Nogueira Tapety “...quem primeiro teve a ideia da organização de uma sociedade de artistas nesta terra...”. Depois de outras considerações, em homenagem à memória de Nogueira Tapety, propôs aos presentes que se conservassem em silêncio e de pé, por um minuto.


Por ter sido Nogueira Tapety o pioneiro do movimento classista em Oeiras, a União Artística, em 1950, providenciou uma duplicata da aludida fotografia para expô-la no seu Salão Nobre. Por esta época, quem presidia tal entidade era Raimundo Nonato Rêgo, o conhecido Raimundinho de Zezinha.


Muito bem relacionado no meio social, Raimundinho de Zefinha endereçou uma carta ao conterrâneo Dr. Petrarca Sá, Engenheiro Civil, então radicado no Rio de Janeiro, tendo sido portador da mesma o Sr. Clóvis Freitas, solicitando a ampliação do retrato em apreço.


Estas informações me chegaram ao ler, hoje (01.05.2021 – Dia do Trabalho), a carta-resposta daquela missiva, a qual encontrei no meu escritório particular entre velhos jornais. Teria eu surrupiado mencionada correspondência dos arquivos da União Artística?


Vale ressaltar o seguinte trecho: “Quero lembrar ao amigo, que o orçamento em apreço [Cr$ 1.200,00, incluindo boa moldura] foi feito pelo Halfeld, um dos melhores profissionais do Rio e meu amigo particular, desde Ouro Preto. Quanto ao trabalho, posso garantir-lhe, será executado por mão de Mestre”.


Magnânimo gesto de gratidão da União Artística!   

domingo, 2 de maio de 2021

Eu vivo numa ditadura



Eu vivo numa ditadura


Claucio Ciarlini 

 

Eu vivo numa ditadura!

Mas não é a mira de um fuzil,

Que procura me silenciar…

É a intolerância de uns mil,

Constantemente a me perturbar!

 

Eu vivo numa ditadura!

Não daquelas oficiais,

De prisões, censura e atos institucionais…

Mas de golpes contra a nossa já frágil democracia

Disfarçados de boas intenções, numa eterna hipocrisia!

 

Eu vivo numa ditadura!

Mas não daquelas que torturam com crueldade

Que despacham para o exílio, todo aquele que questionar…

É daquelas que fingem ser a favor da liberdade,

Enquanto acabam lentamente com o direito de protestar!

 

Eu vivo numa ditadura!

E a prova cabal é este simplório poema,

Que em outros tempos, não causaria qualquer problema…

Mas que certamente será motivo de contestação

Quando não muito, de olhos insensíveis que o ignorarão.

 

(2019)

sábado, 1 de maio de 2021

Reminiscências


 

Reminiscências


Sousa Filho

 

Hoje retornei ao passado.

Relembrei o tempo de outrora.

Ouvi Década explosiva romântica;

Fiquei “perdido em teus olhos”,

mais uma vez (lembra a Debie...)?

Recordei The lady in red.

Queria com você

One moment in time,

para novamente curtir Nikita

Ainda com Elton “vivo”.

Sem luta de boxe, ouvir Roxette;

Já é “Midnight” e não ouvi

Nika Costa. Entretanto, I Just call to say

 I love you.

 Espere!

Lembrei que não tenho Two hearts.

Não posso amar-te, mas posso fazer um

Sacrifice de fugir

às minhas convicções, pois para mim.

És um zero sempre à direita.

Hoje, o passado é atual.

Paradoxal? Talvez.

As reminiscências preponderam;

Minha mente não ousa interferir,

pois sabe que os momentos vividos

Noutros tempos jamais se apagarão

Da minha mente.

Apresentação de Rosa dos Ventos Gerais

1ª edição

2ª edição

3ª edição

 

Apresentação de Rosa dos Ventos Gerais (*)

 

Rossana Silva

 

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

                               Fernando Pessoa

 

               Assim disse o poeta português Fernando Pessoa. Reportando-nos a esses versos, enalteceremos a realização do sonho de um menino chamado José Elmar de Melo Carvalho que aos dez anos de idade manifestou a sua vocação literária através da leitura prazerosa e incansável dos livros da pequena biblioteca de seu pai Miguel Arcângelo; como também, dos livros que foram enviados pela grande incentivadora deste hábito tão saudável, sua madrinha Mirozinha.

                De origem campo-maiorense, aquele menino, tornou-se um adulto. Residiu por vários anos em Parnaíba, onde se formou em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Piauí. Participou efetivamente dos jornais e revistas desta cidade nos anos 70, proporcionando aos amantes da Literatura uma leitura prazerosa de suas poesias.

                Em 1982 mudou-se para Teresina, onde se bacharelou em Direito pela Universidade Federal do Piauí. Casou-se com Fátima, com quem tem dois filhos: João Miguel e Elmara Cristina. O Dr. Elmar tornou-se um magistrado, mas nem por isso abandonou sua vocação literária e o sonho de ser imortal. E’ membro da Academia Parnaibana de Letras – APAL, da Academia do Vale do Longá, da Academia Maçônica de Letras do Estado do Piauí, da Academia de Letras e Belas Artes de Floriano e Vale do Parnaíba. É poeta, contista, cronista e crítico literário. Participou de várias obras coletivas e como realização de um sonho, publicou de forma individual o livro de poesias: A Rosa dos Ventos Gerais (1ª edição – 1996) e hoje, seis anos depois, temos a honra de, nesta noite memorável, fazer a apresentação de “Rosa dos Ventos Gerais (2ª edição – revista, aumentada e melhorada). É uma grande responsabilidade fazer a apreciação desta obra,  já que o autor é dono de uma fortuna crítica invejável. Suas poesias foram lidas e apreciadas por grandes nomes da Literatura, dentre eles o renomado escritor Assis Brasil;  assim, a escolha para tal apreciação nos honra e nos envaidece.

                O vate Elmar Carvalho pertence ao Modernismo Piauiense, precisamente à Geração Mimeógrafo, ou seja, a geração dos anos 70 à atualidade. Geração essa, de poetas corajosos que enfrentaram obstáculos próprios da ditadura e passaram a divulgar sua arte de contestação, produzindo textos com um vigoroso conteúdo social, econômico, político, sem esquecer o lírico e telúrico.

                Concordamos de forma plena com o poeta e crítico literário Alcenor Candeira quando diz que Elmar Carvalho é um dos melhores poetas da Geração dos anos 70.

 

 

O LIVRO

 

                Falemos agora especificamente do livro “Rosa dos Ventos Gerais”.

                Partindo da definição de que a “rosa dos ventos” indica os diversos rumos a serem tomados, o título nos sugere os vários caminhos que a vida nos oferece. Qual deles seguir? Seguiremos o que for melhor para a nossa vida, o que nos faz bem e nos traz felicidade.

                O autor, com uma rosa dos ventos, nos conduz à leitura prazerosa de uma temática bem diversificada que enfatiza a paixão avassaladora pela mulher amada envolta de sensualidade e erotismo, a natureza, o telúrico, problemas sociais e a angústia existencial do homem moderno.

                Lembrando os cancioneiros da época do Trovadorismo e do Humanismo, o poeta se utiliza dessa forma medieval para reunir quase toda a sua produção poética, acrescentando alguns poemas inéditos ao lançamento anterior. Essa coletânea grandiosa está dividida em quatro partes denominadas: Cancioneiro do ar, Cancioneiro do fogo, Cancioneiro da terra e da água e Cancioneiro dos Ventos Gerais. Nos quatro cancioneiros há referências à nossa querida Parnaíba. O poeta é parnaibano de coração, dessa cidade, ele tem fortes lembranças que são mencionadas de uma forma muito especial. Trabalhando artisticamente as palavras, fazendo uso da fanopeia (imagem) e da melopeia (musicalidade) o poeta diz:

 

De Parnaíba jamais esquecerei

o vento dedilhando a harpa eólia

da palma dos coqueiros

e uma música divina destilando.

jamais esquecerei a ventagonia fiando

e desfiando os novelos de meus cabelos

encrespados em espumas e salsugens

e arrastando minha alma

             veleiro de aventureiros e corsários

    bandoleiros e libertários –

                pelo largo mar onde

                                                   onda após onda

                o sonho vai quebrar.

 

                Na primeira parte: Cancioneiro do Ar, o poema de abertura “Autobiografia Zodiacal” revela a forte ligação do poeta com a poesia concreta, tão festejada na metade da década de 50 por Décio Pignatari e os irmãos Campos. Essa tendência contemporânea aparecerá nas outras partes do livro. Encontramos um poema de forma fixa (soneto) ao lado de poemas de versos livres sem rima e sem métrica. E’ a conciliação do tradicional com o moderno. Predominantemente líricos, os poemas retratam a sensibilidade do poeta ao falar de amor, sexo, sensualidade e erotismo envolvendo elementos da natureza. O poeta utiliza belíssimas metáforas com o corpo da mulher amada conforme vemos em “cântico do corpo amado”:

 

                “Teus olhos

                são dois lagos – calmos ou agitados –

                em que os meus imergem e se perdem.”

 

                “Tuas orelhas

                são conchas

                em labirinto de perfeito lavor

                e nelas escutas e escuto as vozes

                dos búzios e o chamado do mar.”

 

                Pelas dunas do deserto

                de teu ventre fértil e belo

                encontro o oásis na cacimba

                de teu umbigo em que naufrago

                perigo e me embriago.

 

 

                Chamou-nos atenção o longo poema “Vida in Vitro” (um dos preferidos do poeta). Monólogo de 161 versos livres sem a divisão de estrofes, com iniciais minúsculas, exercendo a tão sonhada liberdade de forma dos poetas da 1ª fase do Modernismo. Neste poema, encontramos o homem moderno: estressado, perdido, angustiado, sem rumo, com uma “Vida In Vitro”, ou seja, preso, à procura de sua identidade, sem saber o que fazer da vida, procurando direção na busca incessante do seu eu, da sua identidade sem, contudo, perder a esperança de um dia encontrá-la. Observemos os versos iniciais e os finais:

 

“andavas pelas ruas de outrora

à procura de ti mesmo

que se encontrava aos pedaços

bêbado nos bares

aos trancos e barrancos

se arrastando pelos lupanares

tortuosamente andando pelas ruas tortas."

  

“queres apenas morrer, esquecer.

queres viver eternamente num mundo

que não é teu. Contudo, tens esperança

e agora teces um poema sem fim

com o novelo infinito de tua vida

que se desdobra do nada ao tudo...

 

                Ainda na primeira parte, encontramos a belíssima elegia que retrata a dor da perda irreparável de Josélia (irmã do poeta que falecera aos 15 anos de idade):

 

                Fui pisado

                pela terra.

                Fui pisado

                pela terra

                eu que sempre

                procurei pisar

                nas nuvens e

                no céu.

 

                Sonhei que minha

                irmã morrera,

                mas ela não morreu.

                Era tão cheia de vida

que continua viva

na lembrança dos

que ficaram.

Ela continua viva

porque houve apenas

uma metamorfose

existencial.

 

Josélia (ou groselha, a fruta)

tinha a pureza dos inocentes

a inocente malícia dos felizes

e a beleza

dos que não são

deste mundo cão.

Por isso foi

Para o céu de

onde (vi)era.

 

               

                Em “Cancioneiro do Fogo” (2ª parte) o poeta se volta para a poesia social, enfatizando problemas tais como: a fome, a miséria humana, o descaso e a falta de sensibilidade das autoridades diante de tanta miséria. A palavra é a arma poderosa que o poeta tem para fazer denúncias e comover os insensíveis. Façamos uma reflexão com alguns versos de “sonata em dor maior”:

 

                A mesa está posta,

                mas os pratos estão vazios.

                O meu povo não tem

                               talheres, nem colheres,

                               por isso come com

                               as mãos o que não

                               existe nos pratos.

 

                O meu povo deseja bater

                palmas para as estátuas dos

                               heróis libertários.

                               Mas como se as mãos

                               e os pés estão atados?

                Em 1888 acabaram com a

                escravidão no Brasil. Mas que escravidão?

                               Se antes os escravos eram pretos,

                               hoje são de todas as cores,

                e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”

               

Os poemas  de Cancioneiro da Terra e da Água (3ª parte) enfatizam os elementos da natureza (mar, vento, concha, búzio, onda...) que o poeta de forma telúrica insere-os aos poemas e faz reverência a Parnaíba, Teresina, Oeiras, Campo Maior (cidade em que o poeta nasceu), Luzilândia, Barras, José de Freitas, Sete Cidades e Amarante. É um verdadeiro tributo ao Piauí. Merece destaque “cromos de Campo Maior” pela descrição imagética de sua cidade.

 

“Açude Grande

apenas no nome, mas pequeno

na paisagem ampla dos descampados.

Tuas águas cinzentas

azularam-se em minha saudade.

Tuas águas barrentas

são tingidas de azul pelo

azul do céu que se espelha

em tuas águas de chumbo.

Em ti os pobres lavam

coisas e se lavam.”    

                              

    Em Cancioneiro dos Ventos Gerais (4ª e última parte) temos como abertura o belíssimo poema “Desiderata”. Nele o poeta utiliza de forma brilhante a técnica da colagem, inserindo no poema passagens da bíblia, da Desiderata de Max Ehrmann e outros textos. E’ um poema de muita reflexão que nos induz a conviver melhor com os nossos semelhantes. Citemos um trecho:

 

“A ninguém te compares,

               para que não fiques vaidoso ou amargurado,

               porque hão de existir

               maiores e menores,

               melhores e piores do que tu.”

 

                Nesta última parte, encontramos dois poemas épicos modernos (assim denominados pelo autor) que merecem destaques especiais: “Dalilíada” que é uma homenagem ao pintor espanhol surrealista Salvador Dali e “Zona Planetária” que é um longo poema inspirado em uma zona de meretrício de Campo Maior. Nele o poeta associa elementos mitológicos, astronômicos à sociologia dos cabarés. De uma forma clássica, o poeta enfatiza a vida sofrida das meretrizes. Mostremos alguns versos:

 

“Nas calçadas altas da Zona Planetária

meretrizes expõem suas carnes

em varais de açougues imaginários

aos transeuntes ou faunos eventuais,

nas horas em que Hélio esboça a Aurora.

Ali, os desejos são Ícaros leves que sobem

nas asas de cera do pensamento, quando

Nyx, filha do Caos, com seu negromanto

Lantejoulado de estrelas e sua

coroa de dormideiras, a noite,

o sonho e a orgia instaura

Cupido passa com seu

séquito de sátiros e de ninfas

pelas calçadas e salões da Zona Planetária

e Eros proclama seu reinado

de orgia, prazeres, orgasmos e pecados.”

 

                E para finalizar o livro, o filho adotivo de Parnaíba faz uma alusão, com o título de poemitos da Parnaíba, a figuras ilustres, populares, estimadas e muito conhecidas pelos parnaibanos, como: Alarico da Cunha, Cego Bento, Bernardo carranca, Pacamão, Meio – Quilo e outros mais.

                Enfim, toda a temática abordada pelo poeta possibilita-nos uma associação com os seguintes versos do poeta modernista Mário de Andrade: “A gente escreve para amar e ser amado, para atrair e encantar.” Dessa forma: atraindo e encantando, Elmar Carvalho nos apresenta Rosa dos Ventos Gerais, pois, é através da leitura de sua poesia que constatamos que o poeta fala com o coração. Mas, como é o seu coração?

 

                “é uma moeda

                de várias faces

                mas de um só

                sentimento: o amor”. 

 

Rossana Carvalho e Silva Aguiar

Parnaíba, 13.04.2001

 

(*) Texto com que a professora Rossana Carvalho e Silva Aguiar fez a apresentação da segunda edição de Rosa dos Ventos Gerais, em Parnaíba, em solenidade da Academia Parnaibana de Letras, então presidida pelo historiador Renato Neves Marques, ocorrida no dia 13/04/2001.