terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Metapoemas comentados

Fonte: Google

Metapoemas comentados

Alcenor Candeira Filho

NOTA PRELIMINAR

     Este livro se constitui de COMENTÁRIOS sobre quinze METAPOEMAS de minha autoria.
     Todos os poemas são anteriores aos comentários. Estes foram escritos no limiar de 2017, enquanto os poemas são dos anos 1990 (“No Reino da Poesia”) e 2006 (“Teoria do Texto”).
     A novidade neste livro está na inserção de comentários sobre os poemas, alicerçados na minha experiência de poeta desde 1967 e na de professor de português e de literatura brasileira a partir de 1972.
     Os poemas de “Teoria do Texto” foram escritos em poucas semanas, imediatamente após meu afastamento da atividade de professor para assumir o cargo de secretário municipal de educação.
     A distribuição dos poemas corresponde de certa maneira  à sequência de aulas que ministrei na Unidade Escolar Alcenor Candeira (Cobrão) no período de 1972 a 2005.
     Tanto  os poemas deste livro quanto os comentários só foram escritos em razão de  minha condição de poeta e de professor. Tudo em casa, portanto, como se  poema e crítica fossem capazes de preencher a ausência de sala de aula.               


             1ª  PARTE
    NO REINO DA POESIA

1.            INTRODUÇÃO

                     “Quanto  à ideia de, em poesia, falar de poesia
                         ou de  outras formas de criação, crê o autor que
                          ela só parecerá coisa estranha a quem ignora tu-
                          tudo do que escreveu.”
                                               (João Cabral de Melo Neto)

     Escrever poesia é uma atividade que requer muito trabalho. Quando se trata de metapoema, o trabalho torna-se mais extenuante, superado apenas pelo despendido na criação  épica. Por ser a expressão de um sentimento coletivo centrado em discurso de grande extensão, a epopeia exige do poeta um esforço inigualável. Por isso é que o número de poemas épicos é bem  inferior ao de líricos.
      A poesia lírica, gênero predominante na história da literatura de qualquer povo, não tem necessariamente o propósito de conceituar a matéria que trata, podendo até deixar de lado qualquer referencial conteudístico. As manifestações puramente sonoras e imagéticas  são suscetíveis de, por si mesmas, exprimir estados d’alma, enquanto a presença  do  dado definidor, sem exclusão dos outros elementos, é indispensável numa proposta metapoética, que só se realiza plenamente com a transmissão de ideias sobre a poesia.
     No gênero lírico, o significado e o significante do  signo  linguístico se alternam e se completam com um elemento podendo sobrepor-se ao outro, ou até mesmo um excluir o outro, resultando numa maior liberdade de ação criadora.
     Na poesia sobre a poesia, os elementos intelectivo, imagético e acústico se fundem tão intimamente, que é impossível a exclusão de um desses recursos, ou a qualquer deles atribuir maior importância.
     Tentar esboçar por meio de versos uma síntese recognitiva do fazer poético pode parecer enorme pretensão de um poeta provinciano. Contudo, o que me moveu a trabalhar em cima do complexo tema foi a experiência forjada ao longo de trinta anos de dedicação à literatura, como professor, crítico, poeta e, sobretudo, leitor.
     Na ARTE RETÓRICA E ARTE  POÉTICA, Aristóteles desenvolve a ideia de que a poesia é imitação (mimésis) pela voz e, dessa forma, se  diferencia das artes plásticas que imitam pela cor e pela forma. A mimésis, a que a expressão metafórica está intimamente ligada, é o ponto central na caracterização da natureza da poesia. Partindo dessa premissa, Aristóteles passa a estudar as diferentes espécies de poesia segundo os objetos imitados, a origem da poesia e seus gêneros.
     Se  a poesia é mimésis e metáfora, conclui-se que ela representa a verdade através da mentira. “A arte é uma mentira que revela a verdade” (Picasso).
     O entendimento de que o real é a verdade fingida se encontra num dos textos mais instigantes de outro gênio do século XX:

                                 “O poeta é um fingidor.
                                 Finge tão completamente
                                 Que chega  a fingir que é dor
                                 A dor que deveras sente”.
                                         (Fernando Pessoa – “Autopsicografia”)

     Adotando uma posição influenciada por Ezra Pound, que distingue a musicalidade verbal  (melopeia) , a imagística (fanopeia) e o jogo de conceitos (logopeia) como requisitos básicos  do  fenômeno    poético, - Mário Faustino reporta-se à poesia como aquilo que não pode ser conceituado :

                -  “Que é poesia ?
                - Nenhum de nós pode pretender, lucidamente, apresentar sobre isso um conceito definitivo. O mais que podemos fazer é procurar estabelecer, discutindo o assunto por algum tempo , o que representa para nós, a esta altura, aquilo que chamamos de poesia.”
    
     No Prólogo da primeira edição de PRIMEIROS CANTOS (1846), Gonçalves Dias, coerente com a sua posição romântica, refere-se à poesia como algo “indefinível” mas “compreensível”, concluindo que apesar de tudo vale sempre a pena o esforço:


“Casar assim o pensamento com o sentimento - o coração com o entendimento - a ideia com a paixão - colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo isto com o sentimento de religião e da divindade, eis a Poesia - a Poesia grande e santa - a poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir. O esforço - ainda vão - para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor, talvez seja este o só merecimento deste volume.”

     A noção de que a linguagem literária  -  expressão  intuitiva  e  individual  -  é impotente para representar a realidade real ou imaginada está presente em vários poemas de reflexão sobre o próprio fazer poético:

                             “Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
                             O que a boca não diz, o que a mão não escreve?”
                                             (Olavo Bilac  -  “Inania Verba”)

                             “Impotência cruel, ó vã tortura!
                             Ó Força inútil, ansiedade humana!
                                             (...)
                             Ó Sons intraduzíveis, Formas, Cores!...
                             Ah! que eu não possa eternizar  as dores
                             Nos bronzes e nos mármores eternos!”
                                     (Cruz e Sousa  -  “Tortura Esterna”)

                             “Que a voz do poeta nunca se levante   
                             Para ter ressonâncias nas alturas.
                             Que o canto, das contidas amarguras,
                            Somente seja a gota transbordante.”
                                 (Mauro Mota  -  “Humildade”)

     Embora partindo da premissa de que são muitas as limitações que a palavra impõe ao poeta, vários metapoemas realçaram bem a sensação de angústia que assalta o artista no seu labor, decorrente dessas forças antagônicas: “a vontade de dizer”  e  “a impossibilidade de dizer”:

                                         “Lutar com palavras
                                         é a luta mais vã.
                                          Entanto lutamos
                                          mal rompe a manhã.
                                                     (...)
                                          Luto corpo a corpo,
                                          luto todo o tempo
                                          sem maior proveito
                                          que o da caça ao vento.”
                                (Carlos Drummond de Andrade – “O Lutador”)

                                          “Também seu corte às vezes
                                          tende a tornar-se rouco
                                          e há casos em que ferros
                                          degeneram em couro.
                                          O importante é que a faca
                                          o seu ardor não perca
                                          e tampouco a corrompa
                                          o cabo de madeira.”
                          (João Cabral de Melo Neto  - “Uma Faca Só Lâmina”)

          Ao comparar o poeta ao albatroz imobilizado pela brutalidade humana, Charles Baudelaire expressou de forma admirável o conflito entre a “vontade” e a “impossibilidade”:

                           O Poeta se compara ao príncipe da altura
                           Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
                           Exilado no chão, em meio à turba obscura,
                           As asas de gigante impedem-no de andar.”
                                           Charles Baudelaire -  “O Albatroz”)

                      
     Apesar dos pesares, trabalhar é preciso, ainda que, como diz Mário Quintana em metapoema famoso, trabalhar

                               “com a ingrata linguagem alheia...
                               A impura linguagem dos homens.”

     O fazer poético, efetivamente, mais do que inspiração é expiração:

                                “Longe do estéril turbilhão da rua,
                                Beneditino, escreve! No aconchego
                                Do claustro, na paciência e no sossego,
                                Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!”
                                         (Olavo Bilac  -  “A um Poeta”)

     E assim como a fruta faz o fruto, que é alimento material, é necessário que faça o poeta o poema, que é alimento espiritual:

                                “Elabora o poema como
                                a fruta elabora os gomos
                                a fruta elabora o suco,
                                a fruta elabora a casca,
                                elabora a cor e sobretudo
                                elabora a semente.”
                                    (Mauro Mota  -  “Arte Poética”)

     Embora trabalhando  sobre o indefinível, o poema metalinguístico, ao fazer a abordagem dos elementos básicos que coexistem no espírito do autor  -  forma e fundo  -  acaba formulando uma mensagem que fala à sensibilidade e principalmente à inteligência, conscientizando o leitor acerca da arte poética.
     Foi o que tentei, bem ou mal, nos poemas agrupados sob o título genérico de “No Reino da Poesia”.                                                  
                      
2.            COMENTÁRIO GENÉRICO

     Diferentemente do que ocorre com as sete poesias que integram a 2ª Parte deste livro, sob o título de “Teoria do Texto”, mais focados nos aspectos formais do poema (gêneros, espécies, ritmo, simetria, assimetria, metrificação, versos, estrofes, rimas, figuras de palavra, de sintaxe e de pensamento)
-  as oito composições da 1ª Parte (“No Reino da Poesia”) tratam da poesia nos seus aspectos essenciais: palavra, criatividade, fonte, fundo, forma ,  finalidade.
     Segundo o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”), metapoema é “um poema  em que o autor atua como crítico para analisar o próprio poema e julgar sua capacidade criativa”.
     Os poemas das duas partes deste livro, portanto, embora tratando do mesmo tema  -  a poesia  - se distinguem na medida em que a análise pode referir-se às duas camadas do texto literário: a) a que surge graficamente disposta, isto é, a “forma”;  b) o conteúdo ou o “fundo”.
     Na nomenclatura usada por Ferdinand de Saussure, no “Curso de Linguística Geral”, “fundo” e “forma” correspondem respectivamente a “significado” e “significante”.
    

(Continua na próxima quinta-feira)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Paru

Foto antiga de Campo Maior. Fonte: Blog Bitorocara

Paru (*)

Elmar Carvalho


Quando o ricaço Roland Jacob se deslocava para a capital ou de lá retornava, estacionava seu Land Rover na frente de sua filial da velha urbe. Paru, então, doido manso, ia limpar o carro. Quando indagado a respeito, invariável e laconicamente respondia: "Estou lavando meu carro." Tinha o sonho de ser o prefeito da cidade. A principal meta de sua plataforma eleitoral consistia em levar o riacho Pintadas para Parnaíba e em recompensa trazer o "mar da Parnaíba", como ele dizia com ênfase, a abarcar o mundo com os braços bem abertos. Sem se despedir de ninguém, desapareceu da cidade, como por encanto. Filho da estrada e do vento, nunca se soube de onde vi/era, nunca se soube para onde foi. Ou talvez tenha ficado - encantado.

(*) Texto acrescido ao anexo (Outras histórias de Évora) de meu romance Histórias de Évora.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Seleta Piauiense - Rubervam Du Nascimento

Fonte: Google

49

Rubervam Du Nascimento (1954)

todos
em comunhão
com o dia
a noite deu baixa
entregou as armas
luminosa
manhã
nas palavras

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

M. Paulo Nunes e os valores literários

Teresina Queiroz, M. Paulo Nunes e Vanessa Negreiros

M. Paulo Nunes e os valores literários

Reginaldo Miranda
Membro da Academia Piauiense de Letras

A Academia Piauiense de Letras lança mais um livro do acadêmico M. Paulo Nunes, um de seus decanos, como parte das comemorações alusivas ao centenário de fundação do Sodalício.


Incumbido de fazer a apresentação desse novo volume, peço venia para iniciar dizendo sobre seu autor algo de substancial em sua obra.


Manoel Paulo Nunes, ou simplesmente M. Paulo Nunes, como é geralmente conhecido, entrou pela vida no dia 11 de outubro de 1925, na então vila, hoje cidade de Regeneração, no Médio-Parnaíba piauiense, sucedânea dos velhos aldeamentos indígenas do passado. Foram seus pais o comerciante Francisco de Paula Teixeira Nunes, que mais tarde assumiria a chefia política municipal, e sua primeira esposa Raimunda da Silva Nunes, cujos braços maternos lhes foram arrancados pela “indesejada das gentes”, mal completara 7 anos de idade.


Menino triste e melancólico, como ele mesmo autodefine esse período de infância, assistiu à morte da mãe, fato que o impressionou profundamente e marcou indelevelmente a sua sensibilidade. Foi, então, criado sob os cuidados da avó paterna, a professora Florinda Teixeira Nunes(D. Sinhá), chamada pelos netos de “Buá”, “uma maranhense apaixonada pelos poemas de Gonçalves Dias”, sendo costume em sua casa os serões de leitura, fato que determinou o seu gosto literário.


No início do ano de 1932, em sua terra natal, ingressa na escola particular da professora Maria Luiza, onde foi alfabetizado. No ano seguinte foi matriculado na Escola Agrupada Dom João de Amorim Pereira, onde cursou as três primeiras séries do primário, sob a orientação das professoras Florisa Sampaio e Benedita Oliveira(D. Ditosa). Em 1936, para concluir as duas últimas séries primárias, está matriculado na primeira turma do Colégio Cristo Rei, então fundado pelo professor João de Siqueira Paes(Prof. Salu), um humanista extraordinário, cujas lições e estímulos o animaram em seu nascente gosto literário.


Porém, concluídos esses estudos iniciais e em busca de novos horizontes, muda-se para Teresina em princípio do ano de 1938, aos 12 anos de idade, matriculando-se no Colégio Diocesano “São Francisco de Sales”, depois de ser aprovado em exame de admissão, em cujo educandário cursa as quatro séries do ensino ginasial. Nesse período vivia sob os cuidados do tio paterno, o ex-deputado estadual Gonçalo Teixeira Nunes, residente em Teresina, cujo mandato havia sido cassado pelo Golpe de 10 de Novembro de 1937, que instituiu o “Estado Novo”.


Depois dessa fase, em 1943, ingressa no curso clássico do Liceu Piauiense, concluindo-o ao final do ano de 1945. No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Direito do Piauí, recebendo o grau de bacharel em dezembro de 1950. Foi, então, nomeado procurador do Domínio do Estado e, mais tarde, membro do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, na categoria de jurista, além de membro do conselho diretor da OAB-PI em dois biênios(1961 – 1962 e 1967 – 1968).


Mas a grande paixão do mestre M. Paulo Nunes, foi mesmo o magistério, onde ingressou no ano de 1945, aos 19 anos de idade incompletos, como professor de português no Colégio “Demóstenes Avelino”, pelas mãos de seu primo Amandino Teixeira Nunes, que ali lecionava e também foi outro grande orientador em sua vida pessoal, profissional e literária. Em 1947, aos 22 anos de idade, assumia a cátedra de Português do velho Liceu Piauiense, onde estudara e então a mais conceituada escola do Piauí. Em 1958, assume a cátedra da mesma disciplina na recém-fundada Faculdade de Filosofia do Piauí, onde permanece até a aposentadoria, já então integrando a Universidade Federal do Piauí, a partir do início da década de setenta, de que foi um dos principais organizadores. Nesse tempo foi também inspetor federal do ensino, no Piauí.


Na literatura, M. Paulo Nunes começou desde muito moço. Ainda adolescente lia na biblioteca municipal criada por seu pai em Regeneração. Aos 15 anos, leu Vidas secas, de Graciliano Ramos, apaixonando-se pela obra desse magistral escritor. Desde então, passou a ler com certo método todos os clássicos, desde os literatos aos grandes pensadores, formando, assim, sólida cultura humanística. Pode-se enumerar entre os escritores de sua predileção, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Marcel Proust, e mais recentemente, Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa, Jorge Luís Borges, José Saramago e Josué Montello, sem esquecer as obras de Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Paulo Bonfim, Sérgio Buarque de Holanda, Anísio Teixeira, entre outros.


Já portador de vasta cultura, considera o ano de 1945, um marco em sua vida intelectual, ao encontrar a sua geração, isto é, jovens com os mesmos propósitos, dando início a várias iniciativas culturais ao lado de José Camilo da Silveira Filho, José Maria Soares Ribeiro, H. Dobal, O. G. Rego de Carvalho, Eustachio Portella Nunes, Vítor Gonçalves Neto, Edmar Santana, Celso Barros Coelho, Afonso Ligório Pires de Carvalho, José de Ribamar Oliveira e tantos outros. É esta a geração de 45 no Piauí.


Como fruto dessa efervescência cultural, em 1946, fundam o “Clube dos Novos”, de que foi o presidente, de certa forma para fazer frente à Academia, com o propósito de revisar o modernismo na literatura nacional. Em 1949, por sugestão de O. G. Rego de Carvalho esse grupo edita o Caderno de Letras Meridiano, considerado por M. Paulo Nunes “um marco na história literária e cultural do Estado”. Antes havia colaborado nas revistasGeração, dos alunos do Liceu Piauiense e Zodíaco, do Colégio Demóstenes Avelino. Dada essa intensa atividade intelectual, em 1967, no cinquentenário da Academia Piauiense de Letras, quando foram ampliadas as cadeiras de trinta para quarenta, passou a ocupar como titular a de n.º 38.


Mais tarde, insatisfeito com o veto de seu nome para a reitoria da Universidade Federal do Piauí, mudou-se para Brasília, no Distrito Federal, onde se demorou até o ano de 1992, trabalhando no Ministério da Educação e Cultura(MEC), onde desempenhou algumas funções até aposentar-se. De regresso a Teresina, vem desempenhando importante papel no meio cultural, primeiro como presidente da Academia Piauiense de Letras(1992 - 1996) e depois no Conselho Estadual de Cultura(desde 1992 à atualidade), onde tem implementado grandes iniciativas. Desde então, tem sido intensa e marcante a sua atuação nas colunas dos jornais e revistas, sobretudo na revista Presença, do Conselho Estadual de Cultura, de que é o mentor, na da Academia Piauiense de Letras e no jornal Diário do Povo, onde manteve uma coluna semanal até bem poucos dias, colaborando ainda esporadicamente neste e em outros órgãos da imprensa local e nacional.


Como fruto dessa intensa colaboração vem reunindo e transformando em volumes seus artigos ou miniensaios onde condensa, de forma extraordinária, o seu pensamento, no dizer abalizado do Embaixador e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva. Um exemplo do que venho de afirmar é a quarta série de seu Modernismo & Vanguarda, que ora vem a lume, abordando as literatura portuguesa e hispano-americana, ao contrário da terceira que abordou apenas a literatura nacional. Constitui-se, pois, esse quarto volume numa interessante análise da obra de grandes escritores, sempre buscando o essencial de cada um.


Assim é que, através do ilustrado mestre tomamos contato e somos guiados pelas obras de José Saramago, Jorge Luís Borges, Eça de Queiroz, Pablo Neruda, Miguel Torga, Garcia Lorca, Padre Vieira, Vargas Llosa e Alexandre Herculano, entre outros.


De Saramago procura surpreender “seu pensamento vivo”, “seu amor à natureza, aquele centro de toda a harmonia que deveria existir entre o homem e a terra que Deus lhe deu”(p. 23), também ele, um menino “triste e melancólico”, de pequena vila portuguesa, a sua “cidade da memória”, porque “no fundo habitamos em uma memória”; assim ainda “se volvesse hoje à minha povoação, essa já não seria minha povoação, mas está na minha memória. Eu não poderia viver agora no povoado que haja sido o meu. Aí não conheço ninguém, já não tenho ninguém, haveria que começar de novo, como se estivesse nascendo outra vez”(p. 12 e 14). Essa passagem lembra M. Paulo Nunes e a sua Regeneração natal, que hoje também habita apenas em sua memória. Admirador de Saramago, desde antes do Nobel, realça o seu “estilo literário próprio” “transpondo para a sua obra o ritmo da linguagem oral dos camponeses do Alentejo” (p. 52); também, a “luta do artífice para polir a peça da maneira mais perfeita possível (...), o esforço pelo estilo que aquele jovem aprendiz(de serralheiro mecânico) iria tentar nos transmitir, em sua carreira literária, para nos dar, durante toda a sua vida, obras imperecíveis” e “a atualização do maravilhoso, sobretudo, o seu uso metafórico”(p. 34 e 50). Por fim, realça “o seu destino de escritor engajado” (p. 53), a sua estatura de “humanista, um ser engajado na defesa dos valores essenciais do ser humano e da excepcional dignidade de todos os homens, independentemente de sua condição social”, ressaltando que “sua obra tem sido, neste particular, uma cidadela no combate indormido pela redenção do ser humano” (p. 34).


Também, a sua admiração pela obra do argentino Jorge Luís Borges vem de longa data e de vários estudos, advertindo que o mesmo constitui-se em “um tema fascinante na literatura de nosso tempo”, sobretudo por “seu destino literário, de quem viveu a vida toda para a literatura e em função dos valores literários”(p. 75). É como se falasse de si próprio, engajado no magistério e vida literária desde o alvorecer da adolescência.


Por seu turno, Eça é sua velha paixão, sobretudo porque transformou “a sua escrita em um modelo de expressão perfeita”(p. 92), concentrando no estilo “o ponto mais fundo do seu sofrimento”, entendendo ele que “uma obra de arte somente subsiste pelo estilo” (p. 95).


Aliás, essa questão do estilo é uma preocupação constante de M. Paulo Nunes, enfatizando “que toda arte é estilo. Sem estilo não há literatura” (p. 49). E adverte aos neófitos: “quando se fala em estilo, muita gente pensa que se trata de algo artificial que se possa justapor à expressão própria do autor, quando, ao contrário, o estilo perfeito é aquele que possa adequar-se, de maneira natural, ao temperamento do artista e cuja regra de ouro passa a ser a da sinceridade, ou seja, a de ser fiel a si mesmo. Nada que se faça em desacordo com tal preceito poderá resultar na perfeição do estilo. Não será portanto a construção artificial que dará grandeza e permanência à obra literária, mas o ajustamento de sua expressão ao sentimento pessoal do autor” (p. 96).


Por isso, M. Paulo Nunes é chamado de Mestre, porque continua ensinando, não mais na sala de aula, mas nas colunas dos jornais, revistas e em sua obra literária. Lê-lo é adentar num mundo de cultura, (re)visitando os grandes escritores e extraindo o que eles têm de melhor, porque conduzidos pelas mãos de um profundo conhecedor de suas obras.


Assim, Modernismo & Vanguarda, 4.ª série, vem fazer justiça à bibliografia desse mestre das letras e enriquecer a literatura de língua portuguesa. É uma obra que se impõe, como aliás toda a obra de M. Paulo Nunes. Com esse novo livro ganhamos todos nós, cultores da boa literatura, só restando abrir as suas páginas e descortinar esse mundo mágico e maravilhoso.


 · REGINALDO MIRANDA, é membro e ex-presidente da Academia Piauiense de Letras.
  
· O presente ensaio serviu de apresentação ao volume Modernismo & Vanguarda, de M. Paulo Nunes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Morcego



Morcego (*)

Elmar Carvalho

Foi o maior e melhor goleiro de Évora. Era uma espécie de Higuita antes de Higuita. Em suas “voadas” espetaculares e espetaculosas, parecia planar ou até mesmo levitar. Daí dizer que somente ele, helicóptero e beija-flor paravam no ar. Mais louco que Higuita, inventou o chute jornada nas estrelas, ao chutar a bola vertical e vertiginosamente para cima, com o bico da chuteira. Num desses chutes, a bola venceu a barreira da gravidade, e ganhou o espaço sideral; hoje, orbita a Lua, como satélite de nosso satélite. Às vezes, deixava sua meta e ia para o campo adversário jogar de atacante, chegando ao ponto de driblar e fazer gols.


Nas ocasiões propícias, simulava deixar a bola passar, quando então saltava para trás para executar a defesa, o que deixava os torcedores assustados e com os nervos em frangalhos. Vez ou outra, com a bola encaixada nas mãos ou ao peito, fazia verdadeiras acrobacias, inclusive dando saltos mortais e outras cambalhotas. Seu curioso apelido se devia ao fato de que, não raras vezes, ao saltar para fazer uma defesa, conseguia ficar dependurado no travessão, à imagem e semelhança de um morcego.

(*) O vertente conto teve como ponto de partida uma informação que me foi prestada pelo grande cronista esportivo Carlos Said, que foi goleiro do River por muitos anos. Devo dizer que também fui goleiro do futebol amador. Segue abaixo uma nota da APIBOL - Academia Piauiense de Futebol, em que são ranqueados os maiores goleiros do Piauí:

"A APIBOL, ATRAVÉS DE SEUS 11 MEMBROS, CADA UM VOTANDO EM 3 GOLEIROS, TOTALIZANDO 33 VOTOS, ESCOLHERAM HIDEMBURGO O MELHOR GOLEIRO NOS 100 ANOS DO FUTEBOL PIAUIENSE. A VOTAÇÃO FOI APERTADA, SENDO HIDEMBURGO O VITORIOSO COM 8 VOTOS, FICANDO TOINHO EM 2º COM 7, BATISTA 6, GUARÁ E CAXAMBU 2 E OUTROS 8 CITADOS (DUÍLIO, NILSON e MANGUITA DO RIVER; BOI, MÁRIO BOI e RAIMUNDO BOI DO PARNAHYBA; COLÓ DO CAIÇARA; EDGAR DO BOTAFOGO) COM 1 VOTO CADA. NO MÊS DE FEVEREIRO SERÁ A VEZ DE ESCOLHER O MELHOR LATERAL DIREITO. NO FINAL DE 2017 TEREMOS A ONZENA COM O TREINADOR."

Entre os grandes goleiros de nosso estado, acho que poderiam ainda ser incluídos o Beroso, do Comercial de Campo Maior, e o Wilson, do Flamengo de Teresina.  

Delícias da Cozinha Piauiense



No dia 14 de dezembro último foi lançado no auditório do edifício sede da FIEPI o livro Delícias da Cozinha Piauiense, da autoria do professor Antônio Júlio Lopes Caribé, que teve de empreender longa e exaustiva pesquisa para fazê-lo, tendo que percorrer longínquos rincões de nosso estado, do extremo sul ao extremo norte. No livro consta as mais diferentes receitas, de doces, bolos a ensopados e grelhados. O livro poderá ser adquirido com seu autor, através do telefone (86) 3233-1829. Segue abaixo o discurso de seu lançamento.

DISCURSO DE LANÇAMENTO DO LIVRO NA FIEPI

Exmo. Sr.

Dr.Antônio José de Moraes Sousa Filho – DD. Presidente da FIEPI

Exmo. Sr. 

Dr. João Henrique de Almeida Sousa – DD. Presidente do Conselho Nacional do SESI

V. Em.a Revm.

Dom Jacintho Brito – Arcebispo Metropolitano de Teresina

Revm.o Pe. José de Pinho Borges Filho – Pároco da Igreja Nossa Senhora do Amparo

Revm.o Pe. Tony Batista – Pároco da Igreja Nossa Senhora de Fátima

Revm.o Fr. Edmilson Vieira da Cruz – Pároco da Igreja de São Benedito

Ilmo. Sr..

José Couto Castelo Branco Filho

MD. Presidente do Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria de Teresina – SINDPAN

Ilmo. Sr. 

James Hermes dos Santos- MD. Presidente do Sindicato dos Gráficos do Piauí-SINDGRAPI

Ilmo. Sr.

Kenard Kruel Fagundes dos Santos – MD. Presidente do Sindicato dos Escritores do Piauí – SEPI

Ilmo. Sr. 

Dr. Joseli Lima Magalhães – MD. Presidente da UBE-PI

Exmo. Sr. 

Dr. José Elmar de Melo Carvalho – Acadêmico e Meritíssimo Juiz de Direito Aposentado do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí

Ilma. Sra. Noêmia Oliveira – Administradora –Proprietária do FeijoArtes Buffet.

Senhoras e Senhores

É com grande satisfação e júbilo que estou fazendo esta noite – o Lançamento do meu 5º livro: “Delícias da Cozinha Piauiense” – fruto de uma atribuição de trabalho de pesquisa designado pelo então Presidente da UBE – Acadêmico ilustre e meu amigo Dr. José Elmar de Melo Carvalho. Aplicou-se então um Formulário-Diagnóstico, com vistas a uma futura publicação de um livro – contendo 479 itens, em 50 páginas, em torno de 27 municípios e resumindo-se a 67 receitas da culinária piauiense que envolvia: molhos, temperos, pratos principais, sobremesa, compotas, tortas, bebidas, ponches e coquetéis. Para tanto solicitei mediante uma Exposição de Motivos datada de 22/02/90 ao Sr. Secretário da Educação do Estado do Piauí – DR. JOÃO HENRIQUE DE ALMEIDA SOUSA – uma ajuda de custo ou suporte financeiro para os meus gastos com hospedagem e alimentação, no que fui prontamente atendido pelo Senhor Secretário – que entendeu outrossim, tratar-se não de uma obra individualista, mas de um trabalho sério que certamente enriqueceria e contribuiria de algum modo com a Culinária Piauiense e consequentemente colocava num patamar mais alto a nossa cultura popular tão pouco explorada e sem apoio substancial na época.

Ressalto porém, que as passagens rodoviárias e intermunicipais – foram-me concedidas gentilmente, por cortesia, ida e volta, de nosso grande amigo – José Ribamar Lima & Filhos – proprietário das Empresas Expresso Princesa do Sul, Transpiauí e a Empresa Expresso Floriano com sede na Rua Delfim Moreira, 1800 – Bairro Lourival Parente. Eu tinha de prestar conta, senhoras e senhores, da publicação deste livro, porquanto se não o fizesse , seria considerado pela sociedade de um charlatão. As despesas com a diagramação gráfica e publicação do livro propriamente dito – foram todas alocadas através do meu orçamento próprio e pessoal. Todas as receitas colhidas através de entrevistas foram feitas por gravação de fita cassete e via expressa do Correio. Elas são autorizadas pelos autores e, são assinadas no formulário-diagnóstico por eles, embaixo de cada receita, portanto não há nenhuma violação de direitos autorais neste meu trabalho que ainda inclui uma pequena ficha sócio-econômica no pé da página de cada município pesquisado – para que o leitor possa tomar conhecimento de algumas potencialidades turísticas ou educacionais das quais o município faz jus.

As receitas tomadas nas cidades que compõem o Extremo Sul Piauiense co mo: Parnaguá, Curimatá, Cristalândia do Piauí, Corrente, Sebastião Barros e Avelino Lopes recebem grande influência do substrato culinário, dos hábitos e dos costumes das cidades fronteiriças que ficam na BA como: Barreiras, Formosa do Rio Preto, Santa Rita de Cássia e Barras. Já no Estado do Tocantins recebe influência do substrato linguístico e culinário d cidades como: Porto Nacional e Gurupi devido à grande proximidade destas últimas com aquelas citadas no Piauí.

No que diz respeito ao Litoral Piauiense – as cidades de Barra Grande, Barrinha, Cajueiro da Praia, Macapá e Luís Correia – ficam bastante hostilizadas na elaboração e formação do seu cardápio de frutos do mar – por causa da escassez do camarão que é todo exportado em grandes barcos cotidianamente para abastecer os bares e restaurantes de Fortaleza – ficamos nós, piauienses, a ver navios, prejudicados porque só podemos desfrutar das peixadas, das caranguejadas e moquecas de arraias. Isto é um fato público e notório do Porto dos Tatus à Ilha Grande de Santa Isabel. De sorte que minha pesquisa no Litoral Piauiense ficou muito restrita a umas poucas iguarias.

Chamei todos os senhores para este encontro também com o objetivo precípuo de relatar um fato às autoridades da área sanitária que pode representar uma grande ameaça para todos nós e para nossos filhos: moro numa casa no bairro Jockey Club, na Zona Leste de Teresina, há cerca de 17 anos. Desde esta data encontra-se uma casa completamente abandonada num terreno encravado com o fundo para o meu quintal, que fica na Av. Nossa Senhora de Fátima, 610 entre a antiga lanchonete Romeu e Julieta e a Papelaria Bate Cópias -- esta casa está bastante suja e cheia de matos em seus arredores, portanto serve de proliferação do Zika Vírus, da Chikungunha e do aedis egipti e todos os outros insetos infecciosos. Minha esposa, por tabela, chegou até a contrair a doença da dengue. A proprietária, ninguém sabe o nome dela, mas já telefonei insistentemente para todos os órgãos da Vigilância Sanitária, tanto órgãos estaduais, municipais e federais pedindo uma inspeção na casa, mas eles alegam que não podem fazê-lo porque sem o o nome da proprietária, caracteriza invasão de domicílio. Se houver alguma autoridade sanitária aqui presente que possa me ajudar – mandando fazer uma vistoria naquela referida casa – ajudem-me pois já esgotei todos os meus recursos.

Finalizando esta minha fala, quero desejar a todos os meus convidados – um Feliz Natal e um próspero Ano Novo-2017, com muita saúde, paz, solidariedade, abnegação, trabalho, amor e fé para todos os meus amigos. Não deixem de dar uma colaboração para a aquisição do meu livro que será de 20 Reais. Obrigado pelo comparecimento dos senhores e tenho dito.


Antônio Júlio Lopes Caribé
Teresina, 14 de Dezembro de 2016

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

1205.01 (*)

Elmar em 2011, na comemoração de seus 55 anos de vida. ladeado por seus pais, Rosália e Miguel, e por sua esposa Fátima

1205.01

Walter Lima

Na terra que cada vez mais aterram
Heróis – verdadeiros totens – persistem:
Um jequitibá: cariniana rubra
Capaz é de contar do ancestral cabral
Uma castanheira: quantas visões vista
Uma peroba-rosa: aspidosperma polyneuron
Apesar disso ainda perduram nalguma mata

Verdade desejo relatar
O esplendor das espécies – Carvalho: querus perdunculata
Na terra que mais aterram
Verdadeiro(s) herói(s) persiste(m)

Nestes abris, 9.

(*) Este poema se encontrava perdido, mas foi encontrado recentemente pelo seu autor, o poeta Walter Lima, que me enviou por e-mail datado de 29.01.2017; portanto, quase 16 anos após haver sido escrito, conforme se comprova pelo seus título. Muito obrigado, caro amigo Walter, por esta bela e comovente homenagem.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

JOSÉ HORÁCIO E O IQE EM PARNAÍBA

                      
JOSÉ  HORÁCIO  E  O  IQE  EM  PARNAÍBA

Alcenor Candeira Filho

     José Horácio Gayoso e Almendra, piauiense de Teresina, faleceu em São Paulo em 30-01-2017, aos 72 anos de idade. Era casado com Araci Martins de Sousa Gayoso e Almendra, com quem tinha filhos.

     Lembrando o verso de Mário de Andrade  -  “São Paulo! comoção de minha vida...”  -  acho que São Paulo, depois de Teresina, foi uma das maiores comoções de sua vida. Residiu durante décadas na capital paulista, onde está sepultado.

     Viajava  frequentemente para  a cidade natal, onde mantinha apartamento no Flat Executivo Rio  Poti, e às vezes esticava a viagem e visitava outros municípios piauienses, inclusive Parnaíba.

     Formado em Ciências Contábeis em 1966 pela Faculdade Nacional de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, laureado como primeiro aluno e pós-graduado em Finanças (Financial Management Program-General Eletric Academy).

      Trabalhou na General Eletric (GE) do Brasil de 1965 a 1974,  quando iniciou sua carreira na Philips, onde ocupou diversos cargos,  até chegar a vice-presidente da empresa na América Latina, cargo exercido até a aposentadoria em 2005.

     Antes da aposentadoria trouxe para o Hospital Estadual Dirceu Arcoverde – HEDA, em Parnaíba  uma UTI toda equipada com instrumentos de última geração (doação da Philips).

     Com a aposentadoria não ficou seduzido pelo merecido  pijama. Assumiu logo a presidência executiva do Instituto Qualidade no Ensino – IQE, sediado em São Paulo : “associação civil de caráter educacional e de assistência social, criada em 1994 e mantida com apoio de empresas privadas e parcerias com governos.      

     Sua missão é promover e desenvolver projetos educacionais que tem por objetivo a inclusão social através da melhoria da qualidade do ensino público básico”.

     Conheci pessoalmente o dr. José Horácio no dia 1º de janeiro de 2015, durante a solenidade de posse de José Hamilton Furtado Castelo Branco no cargo de prefeito municipal de Parnaíba. Na mesma solenidade os secretários municipais foram empossados em seus cargos, inclusive eu como secretário de educação.

     Em pouco tempo foi celebrada  a parceria entre a Prefeitura Municipal de Parnaíba e o Instituto Qualidade no Ensino – IQE, destinada a promover projetos para melhorar a qualidade do ensino no município.

     A parceria foi iniciada através do Programa Qualiescola, implantado em trinta e duas escolas municipais,  alcançando até dezembro de 2012 cinquenta e quatro escolas.

     O Programa Qualiescola foi formalizado através de  dois convênios: um, para implantação do Programa Qualiescola, objetivando a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem dos alunos de escolas públicas de 1ª a 8ª séries, por meio de um conjunto  de ações  articuladas de intervenção na prática escolar; o outro, para implementação do projeto Leitura na Escola (Programa Qualiescola) objetivando que o Instituto Qualidade no Ensino disponibilize para as escolas os acervos modulares dos livros que compõem as bibliotecas de classe. Em abril de 2007, o IQE entregou para  as 32 escolas envolvidas no Programa um acervo de 12.515 livros de  leitura infantil, marco efetivo do início do “Leitura na Escola”, em Parnaíba.

     São cinco as linhas de ação do Qualiescola: formação continuada de professores em serviço; assessoria aos gestores escolares; avaliação de aprendizagem dos alunos; reforço escolar; construção de gestão participativa.

     A implantação em três escolas municipais do Projeto Flauta Mágica  e Coral/Encantos, sob o comando e regência do maestro Antônio Carlos Lehmkuhi, se deve a mais uma parceria PMP/IQE, através da qual o município recebeu instrumentos musicais diversos e algumas centenas de flautas doces. O projeto foi executado no município até 31.12.2016. Um dos seus  maiores incentivadores  foi  o professor José Djalma de Lacerda, que exerceu na Seduc (2005/2012)  o cargo de diretor de administração escolar. Acredito que o importante projeto terá continuidade na atual administração.

     Durante os oito anos de administração de José Hamilton, os resultados do Índice do Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, divulgados em 2007, 2009 e 2011, indicam que o município de Parnaíba superou as metas projetadas pelo Ministério da Educação.

     Além do esforço dos  professores  e servidores da educação, pais e alunos  -  a participação do IQE também foi importante no resultado.

     O dr. José Horácio  será  sempre lembrado em Parnaíba como um executivo que trouxe para a cidade  importantes projetos e programas nas áreas da educação, saúde e cultura.

     Ele era cidadão parnaibano por lei  municipal e sobretudo pelo imenso amor que sentia pela cidade.     

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Seleta Piauiense - Durvalino Couto Filho


Quem mais te ama menos viu

Durvalino Couto Filho (1953)

Se há no céu, o poço azul do firmamento,
Alguma estrela mais deserta que esse fado;
Se existe um astro de tristezas mais pesado
- Não há na terra, num vivente, mais tormento.

Quem mais te ama menos viu todo esse tempo.

Olhos da noite, agonia que não lembro,
Pois se lembrar provoco em mim nova agonia.
Rios na face, uma torrente noite e dia.
Tempo noturno que me vem desde novembro.

Quem mais te ama menos viu todo esse tempo.

Ciúmes, ódios - as sementes desse campo
Onde plantar de novo o amor já não podia.
E se tua mão tenta colher minha magia,
No coração dessa ferida arranca um tempo.

Quem mais te ama menos viu todo esse tempo.

Fonte: A poesia piauiense no século XX, org. Assis Brasil  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Raimundo Artur de Vasconcelos



Raimundo Artur de Vasconcelos (*)

Reginaldo Miranda (**)

Hoje desejamos realçar a personalidade do ex-governador Raimundo Artur Vasconcelos, nascido na antiga vila de Barras do Marataoan, hoje cidade de Barras(PI), no dia 29 de maio de 1866. Foram seus genitores o capitão José Raimundo de Vasconcelos e D. Rosa Regina de Caldas Vasconcelos. Casou-se em primeiras núpcias com Maria Luiza Nogueira e em segunda núpcias com Amélia Mendes Nogueira(1896), esta filha do coronel Lizandro Francisco Nogueira, prestigioo chefe político piauiense e de sua esposa D. Belise Mendes Nogueira. Faleceu em 31 de outubro de 1922, na cidade de Rio de Janeiro.

Engenheiro, militar e político, ainda moço abraçou a carreira das armas, sentando praça no Exército em 4 de setembro de 1883, na cidade de Teresina(PI). Dois anos depois seguiu para a cidade do Rio de Janeiro, matriculando-se na Escola Militar. Por esse tempo ali pontificava o mestre Benjamim Constant, em verdadeira pregação republicana. Raimundo Artur de Vasconcelos, que já trazia no sangue o germe republicano, vez que era sobrinho materno do jornalita David Caldas, maior expressão da causa republicana no Piauí, não demorou a ser atraído para a causa.

Em 1889, na qualidade de alferes-aluno tomou parte ativa na preparação do golpe que derrubou o Império. Tamanho foi o seu ardor republicano que já em julho daquele ano figurou numa lista de oficiais que deveriam ser demitidos do Exército por causa de sua extensiva participação nos festejos do dia 14, quando, nas ruas, enfrentaram a polícia, que tentou dispersar a manifestação. Pertencia ele então à famosa corte que na madrugada de 15 de novembro constituiu a vanguarda da 2.ª Brigada. Em virtude dessa ativa participação na derrubada do império, com a consolidação do regime republicano recebeu duas promoções no intervalo de apenas três dias: 2.º tenente por decreto de 4.2.1890 e 1.º tenente no dia 7 do mesmo mês e ano. Essas informações foram colhidas pelo notável historiador Monsenhor Chaves, seu melhor biógrafo.

Em seguida veio ao Piauí. Todavia, verificando que as cousas aqui pouco haviam mudado denunciou o fato ao Diretório do Partido Republicano, no Rio, onde gozava de largo prestígio Como consequência, foi, de fato, efetivada a mudança de regime no Piauí, com a adesão, é claro, dos monarquistas. Em reconhecimento os republicanos piauienses lhe ofereceram uma vaga de deputado estadual que não pôde aceitar por recusa de licença do Exército. Pertencia à Artilharia do Exército.

Continuando os estudos, Raimundo Artur de Vasconcelos bacharelou-se em matemática, ciências físicas e naturais e concluiu o curso de engenheiro militar em 1891. Nesse ano tomou partido ao lado do vice Floriano Peixoto na cisão republicana que levou à renúncia do presidente Deodoro da Fonseca, em 23 de novembro e a consequente assunção daquele.

De regresso ao Piauí, tomou parte ativa na política ao lado do capitão Coriolano de Carvalho e Silva(1858 – 1921), seu conterrâneo de Barras, que assumiu o governo do Piauí em 11 de fevereiro de 1892, em virtude de aclamação popular. Foi nomeado engenheiro-chefe do 9.º Distrito Telegráfico, trabalhando primeiro no Piauí e depois no Ceará. Em 1893, foi promovido a capitão e adido ao Batalhão Acadêmico.

Em 1894, mais uma vez retornando ao Piauí vai eleito deputado federal em dezembro do mesmo ano. Retorna, assim, ao Rio de Janeiro, no desempenho do mandato parlamentar. Por esse tempo sofre rude golpe com a morte da esposa e de seu filho primogênito.

Em 7 de abril de 1896 vai eleito governador do Piauí, sendo empossado em 12 de junho do mesmo ano. Embora sua eleição tenha sido pacífica, sem oposição, cedo acirraram-se os ânimos contra seu governo. Foi este marcado por uma séria crise na economia do Estado, sobretudo na agricultura, com escassez de alimentos e de mão-de-obra, essa última afetada pelos inúmeros contingentes de voluntários para o exército e a vertiginosa emigração para a Amazônia. Sem apoio financeiro do governo central, propôs uma série de medidas enérgicas e impopulares, como a redução da força policial do Estado, transformação do Liceu em Escola Normal, redução do número de cadeiras do ensino primário, redução de despesas na repartição de Obras Públicas, redução de comarcas e supressão de vencimentos dos juízes distritais. Felizmente, muitas dessas medidas não foram efetivadas dada a resistência dos setores prejudicados e falta de apoio popular.

Porém, durante essa gestão administrativa foi instalado o Tribunal de Contas do Estado(TCE), em 1º de agosto de 1900.

Findo o seu governo vai novamente eleito deputado federal em 1900, cujo mandato se estende até 1904. Nesse último ano vai eleito senador da República. No Senado participou das Comissões de Marinha e Guerra, de Obras Públicas e de Empresas Privilegiadas. Depois desse último mandato caiu em ostracismo político, não mais se elegendo para qualquer cargo público.

Dedicou os últimos anos de sua vida à profissão, executando obras de vulto como a ponte pênsil “Almirante Alexandrino de Alencar”, que ligava a Ilha das Cobras ao continente, no Rio e Janeiro, inaugurada em 1915 e funcionando até 1930, quando foi substituída pela “Arnaldo Luz”.

Na carreira militar continuou prosperando. Foi promovido a major graduado em 1907, major efetivo em 1908, tenente-coronel graduado em 1912, coronel graduado em 1918, coronel efetivo em 1919 e, finalmente às vésperas da morte foi reformado no posto de general.

Raimundo Artur de Vasconcelos foi um grande piauiense, que com suas múltiplas atividades, em todas elas vitorioso, soube honrar o seu povo e engrandecer a sua terra. É a razão dessa homenagem.

* Este perfil foi publicado inicialmente no jornal Meio Norte, de Teresina.

** REGINALDO MIRANDA, é advogado, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ANEXO: Outras Histórias de Évora

Dourado e Augusto na arte de Gervásio Castro
Marechal visto por Gervásio Castro


Capa da autoria de Gervásio Castro

ANEXO

Outras Histórias de Évora

Elmar Carvalho

Ao completar 62 anos de idade, Marcos Azevedo publicou o livro Outras Histórias de Évora. Eram textos curtos, densos, que a crítica e os doutos não souberam classificar ao certo se seriam crônicas memorialísticas, contos ou apenas simples “causos” anedóticos. Segue, abaixo, uma pequena amostra desses artefatos literários.


               Marechal

            Vi-o muitas vezes a percorrer as ruas e praças de Évora. Metido em velhas fardas que lhe davam, algumas vezes esfarrapadas e amarrotadas, não andava, marchava. Com um velho quepe na cabeça, parecia participar de um desfile na caserna. Certa feita, em meados de 1980, entrou em minha repartição. Os colegas mais brincalhões foram logo tirando lorotas com ele, chamando-o de soldado, que para ele tinha uma conotação pejorativa e de menoscabo. Vendo que eu não sorria, veio até onde eu estava e disse baixinho: “Eles não sabem quem eu sou... Sou alta autoridade do planalto”. Pedi-lhe, então, que os perdoasse, tendo ele assentido. Perdi-o de vista; achei que tivesse ido para outra cidade. Muito anos depois soube que passara a morar no abrigo para idosos. Fui visitá-lo. Recebi a informação de que fugira, dois dias antes. Como certos animais que voltam para morrer no lugar em que nasceram, o velho Marechal fora morrer em seu pago, no meio dos seus.

            Roberto Carlos

            Seu nome era Raimundo, mas desde que enlouquecera, dizem que por causa de uma paixão não correspondida, adotara o “nome artístico” de Roberto Carlos. Um dia, em minha adolescência, vi-o nas calçadas altas da Zona Planetária, bem na esquina de Júpiter, o principal “planeta”. Fazia mímicas para ninguém ou talvez para o vento ou para espíritos que só ele via. Simulava segurar um microfone; acenava para a turma do gargarejo e para “ouvintes” do fundo da inexistente plateia. Fazia meneios, trejeitos e requebros dignos de um pop star.
Julguei fosse mais feliz do que eu, imerso na ilusão de sua loucura. Muitos anos depois perguntei ao acadêmico e psiquiatra Humberto Guimarães se o Raimundo, o nosso popular Roberto Carlos, não seria mais feliz do que qualquer um de nós, porquanto ele viveria na melhor realidade que imaginara para si. Humberto disse-me que não, pois quando um louco melhora de sua doença e volta a piorar, e sente que vai perder a consciência de si mesmo, sofre muito. Em minhas palavras e interpretação: é como se ele sentisse o aniquilamento de seu mais profundo eu; é como se fosse a morte da consciência de seu verdadeiro eu.

Tobago

A primeira vez que o vi, ele se encontrava no Bar Carnaúba. Fazia gestos e esgares. Acenava e fazia reverências, como se estivesse cumprimentando alguma pessoa no recinto. Não o conhecia e nem nunca ouvira falar dele. De repente, olhou em minha direção, e acenou. Respondi-lhe, mas notei que ele não me via. Com efeito, seus olhos vagos fitavam o vazio, talvez o infinito de algum ponto imaginário. Informei-me a seu respeito, e soube que, de segunda a sexta-feira, era um funcionário exemplar do Banco do Brasil, rigorosamente pontual e que nunca faltava, sempre monossilábico, introvertido, ensimesmado. Mas no final de semana se transformava naquele excêntrico e sociável boêmio, a cumprimentar espíritos ou, talvez, os fantasmas de si mesmo. Ou talvez fosse apenas um esquizofrênico dos finais de semana, a evadir-se da rotina e do tédio.

Paru


Quando o ricaço Roland Jacob se deslocava para a capital ou de lá retornava, estacionava seu Land Rover na frente de sua filial da velha urbe. Paru, então, doido manso, ia limpar o carro. Quando indagado a respeito, invariável e laconicamente respondia: "Estou lavando meu carro." Tinha o sonho de ser o prefeito da cidade. A principal meta de sua plataforma eleitoral consistia em levar o riacho Pintadas para Parnaíba e em recompensa trazer o "mar da Parnaíba", como ele dizia com ênfase, a abarcar o mundo com os braços bem abertos. Sem se despedir de ninguém, desapareceu da cidade, como por encanto. Filho da estrada e do vento, nunca se soube de onde vi/era, nunca se soube para onde foi. Ou talvez tenha ficado - encantado.

Ester

Hoje bem sei quanto é triste a loucura. Mas em minha infância, sem a devida consciência dessa enfermidade, achava alegre quando a Ester estava “atacada”. Nos surtos mais severos de sua doença, ela parecia a encarnação da própria primavera, pois se cobria de ramos e flores, e saía a dançar, a cantar e a pular pelas ruas de Évora. Ela era a alegoria viva da flora – das folhas, das flores e das ramadas. Um séquito de moleques a seguia. Alguns, mais extrovertidos, dançavam com ela. Às vezes, no paroxismo de sua loucura, tirava a roupa, e mostrava os seus “recantos mais secretos, mais seletos”. Sem dúvida, muitos adolescentes se “vingavam”, na prática do vício solitário. Hoje, tenho arrependimento de ter sentido alegria dos seus “ataques”, que nunca soube se ocorriam apenas na época de plenilúnio. Hoje sei o quanto a loucura é triste.

Vangogue

Lindalva fazia jus a seu nome: era linda e alva. Além de alva e linda, era loura e simpática. Sempre que passava pelo seu vizinho Ribamar, doente mental, chamava-o de “meu noivo”, a cujo cumprimento ele correspondia com paixão. Sucede que um dia Lindalva noivou de verdade, com seu primo Clemilton, médico e guapo rapaz, com quem veio a se casar. Riba, quando soube da notícia, surtou, e num impulso trágico, como se fosse um novo e diferente Van Gogh, cortou o próprio pênis, cerce, rente à base, como se dissesse em seu gesto tresloucado que se “ele” não fora de Lindalva não seria de nenhuma outra mulher. Medicado a tempo, a hemorragia foi estancada e ele escapou. O rábula Possidônio Vogado, quando soube do acontecido, exclamou em admirável arroubo retórico: “O Riba vai continuar tendo desejo, porém como um direito fulminado pela prescrição ou como um revólver municiado, mas sem gatilho. Como no dizer do poeta, será um fósforo que não dará luz”.

Mudinha

Certo dia em que eu estava no Isabelão, ouvi, vindo de uma das espeluncas, um forte alarido, uns gritos que se assemelhavam a um bodejar. Um tanto apreensivo sobre o que poderia estar acontecendo, perguntei a uma das mulheres o que significavam aqueles sons desconexos e guturais, que sequer pareciam humanos. Obtive a seguinte e concisa resposta: “É a muda gozando. Quando ela goza parece que ela ou o mundo vai se acabar. Toda vez é essa latomia!”

Dourado

Além de boêmio, era compositor, carnavalesco, humorista e exímio churrasqueiro. Em cada período momesco, ele se caracterizava como um personagem nacional, que estivesse em evidência. Certa feita, encarnou PC Farias. Ficou tal e qual. Era múltiplo. Era plural. Dourado era ele próprio e seus “heterodoxos heterônimos pessoanos”.

Romualdo

Era um triste “rapaz alegre”. Patético e passional, era condecorado por inúmeras cicatrizes ao longo dos braços, feitas por ele próprio. Eram as marcas visíveis e concretas das cicatrizes que lhe feriam a alma, a cada amor desfeito ou não correspondido. Pelo que se via estampado na pele, foram inumeráveis as suas decepções amorosas. Viveu intensamente, creio, e cedo morreu.

Hermes e Afrodite

Em minha juventude, sempre que eu e meu amigo Raimundo íamos para o povoado Cantagalo, passávamos pela casa de uma sua tia, onde morava uma moça muita feia e triste, sua prima. Era mais do que feia; na verdade, era uma verdadeira assombração. E o que era pior, tinha um buço, que lhe realçava a fealdade. Seu corpo magro era linheiro como uma estaca, e não tinha nada que pudesse atrair um homem, nem mesmo o vestígio dos seios, que parecia não ter. Fui morar em outra cidade e a esqueci. Três décadas depois, ao reencontrar o meu amigo, perguntei-lhe por sua prima feiosa. Ele foi curto e grosso: “Minha prima se tornou primo, e com certeza já comeu mais mulheres do que nós dois juntos”. Creio esse rapaz fosse hermafrodita. E depois, com cirurgia ou não, se tornou Hermes, libertando-se da Afrodite em que seus pais tentaram transformá-lo.

Mistério

Era a mais bela rapariga do lugar. Contudo, era um enigma; os homens só ficavam com ela uma única vez. E nunca nenhum dos fregueses revelava o que acontecera na alcova. Alguns anos depois, um desses clientes frustrados contou o segredo dessa linda mulher. Apesar de sua enorme beleza e de sua anatomia perfeita e completamente feminina, com curvas acentuadas e belos seios, tinha um avantajado clitóris, que provocava a repulsa da clientela. Terminou se casando, alguns anos depois, com um freguês que lhe apreciou o “defeito”.

Pompoarismo

Quando não se conhecia essa palavra e muito menos se sabia existir o que ela significava, apareceu na cidadezinha uma rapariga que arrebanhou enorme clientela. É que ela tinha uma importante novidade; tinha o que passaram a designar como sendo “bezerro”. E era um bezerro famélico, tal a voracidade e vigor como ele sugava e espremia o membro masculino. Comentava-se que era um verdadeiro torniquete. Quando Possidônio Vogado explicou que a mulher podia ser treinada na arte do pompoarismo, um seu assíduo e ardoroso cliente explicou que o dela era natural, e acontecia quando ela ficava excitada, e ela era muito fogosa. Vogado fez então magistral trocadilho: “Ela não se excitava; se exercitava”. 

Engate

Romildo passou a frequentar a casa de Dolores, sua namorada. Muito formal e sisudo, ganhou a confiança dos irmãos e pais da moça. Certo dia em que ambos ficaram sozinhos na casa, o namoro, que se não era casto era pelo menos cauto, avançou muito, e os dois terminaram indo às vias de fato, com uma completa conjunção carnal. Quando eles estavam no bem bom, já no segundo ou terceiro round, os pais da moça entraram, de súbito, na sala. Com o susto, Dolores teve uma rigorosa contração vaginal, e ensarilhou o sexo do namorado. Não houve maneira de apartá-los, de sorte que foram levados ao hospital da cidade, numa maca, cobertos por um lençol, onde foi providenciado o desengate. O fato apressou o casamento dos jovens, para que a moça não ficasse mal falada.

A papa-anjo

Cremilda era uma “moça velha”, como se dizia na cidade. Não casara e nem tinha amantes. Ganhava a vida ensinando deveres de casa aos pequenos alunos da redondeza. Comentava-se que tinha os seus favoritos, que ela aliciava aos poucos, para os seus propósitos libidinosos.  Só se interessava por menores de doze anos, com medo de engravidar. Fazia o garoto jurar pela salvação de sua alma e pela vida de sua mãe que não revelaria o que se passasse entre eles. Na primeira vez, masturbava-o, para ter certeza de que ainda não tinha líquido seminal. Só após se certificar disso, permitia que o infante a penetrasse, e só até o ponto em que não lhe tirasse o cabaço. Ainda tinha o sonho de se casar virgem, de branco, e com véu e grinalda.

Morcego

Foi o maior e melhor goleiro de Évora. Era uma espécie de Higuita antes de Higuita. Em suas “voadas” espetaculares e espetaculosas, parecia planar ou até mesmo levitar. Daí dizer que somente ele, helicóptero e beija-flor paravam no ar. Mais louco que Higuita, inventou o chute jornada nas estrelas, ao chutar a bola vertical e vertiginosamente para cima, com o bico da chuteira. Num desses chutes, a bola venceu a barreira da gravidade, e ganhou o espaço sideral; hoje, orbita a Lua, como satélite de nosso satélite. Às vezes, deixava sua meta e ia para o campo adversário jogar de atacante, chegando ao ponto de driblar e fazer gols.


Nas ocasiões propícias, simulava deixar a bola passar, quando então saltava para trás para executar a defesa, o que deixava os torcedores assustados e com os nervos em frangalhos. Vez ou outra, com a bola encaixada nas mãos ou ao peito, fazia verdadeiras acrobacias, inclusive dando saltos mortais e outras cambalhotas. Seu curioso apelido se devia ao fato de que, não raras vezes, ao saltar para fazer uma defesa, conseguia ficar dependurado no travessão, à imagem e semelhança de um morcego.