sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

VIDAL FREITAS - A TOGA E A CÁTEDRA




VIDAL FREITAS - A TOGA E A CÁTEDRA

Elmar Carvalho

Nesta quarta-feira, conheci a Dra. Myrtes Freitas, irmã de meu colega e amigo Vidal Freitas Filho, corregedora da Defensoria Pública do Estado do Piauí, que fora inspecionar o polo sediado na Comarca de Regeneração, cujo titular é o defensor público Ivanovick Pinheiro, que também exerce o magistério superior, com muita proficiência. É uma pessoa simpática, de agradável conversação e interessada em assuntos culturais.

Instigada por mim, falou-me de seu pai, o honrado e saudoso magistrado Vidal Freitas. Colho no livro Sua Excelência o Egrégio, da autoria do professor A. Tito Filho, a informação de que ele nasceu em Oeiras em 1901, e de que fundou e orientou jornais, em que escrevia sobre diversos assuntos. Foi professor de português, latim, inglês e história. Fundador e diretor de colégios. Bacharelou-se na Faculdade de Direito do Recife. Exerceu a magistratura em diversas cidades do estado.

Segundo a referida fonte, dominava o francês, o inglês, o alemão, o italiano e o espanhol, além de conhecer profundamente o latim. Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e à Academia Piauiense de Letras. Em 1971, aposentou-se como desembargador. Perguntei à Dra. Myrtes se era verdade certo caso interessante e um tanto anedótico de que ele fora protagonista. Contou-me o caso. O desembargador Vidal era um homem sério e honrado, e bom e justo.

Quando era professor da velha Faculdade de Direito, havia um aluno que trabalhava na então toda poderosa Casa Inglesa, que era rígida com relação ao cumprimento de horário. Por isso, esse aluno, forçosamente, chegava quase sempre um pouco atrasado às aulas. O diretor da faculdade, por alguma razão que desconheço, passou a fiscalizar a frequência dos discípulos. E certo dia foi inspecionar a frequência dos alunos do desembargador.

Disse haver notado que na lista de presença não constava a falta desse aluno, que ainda não chegara. Vidal Freitas respondeu que ele viria, que já estava chegando. De fato, naquele instante o aluno entrou na sala, e a sua presença ficou mantida. Esse aluno galgou importante cargo público e conservou pelo mestre Vidal uma amizade e gratidão, que perdurou até depois de sua morte.

Sua gratidão era tanta, que um dia comentou para familiares de Vidal Freitas, quando ele já havia falecido, mesmo sabendo que ele fora batista praticante, assim como sua família, de que havia sonhado com o velho professor, e de que este lhe pedira a celebração de uma missa.

A família, claro, sabia que as suas convicções religiosas jamais lhe permitiriam fazer esse tipo de solicitação, mas entendeu que a realização desse culto católico era uma maneira de esse homem demonstrar a sua mais profunda gratidão pelo desembargador Vidal Freitas, por quem nutria nobres e perenes sentimentos de reconhecimento e amizade pelos benefícios  recebidos. E a missa foi celebrada, com a presença da Dra. Myrtes Freitas.  

18 de abril de 2010

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A hora dos lisos



A hora dos lisos

Pádua Marques
Romancista, cronista e contista


José Mentor Guilherme de Melo e sua família foram quase os últimos convidados a chegar ao Cassino 24 de Janeiro naquela noite de 25 de janeiro de 1925, na rua do Miranda, centro de Parnaíba. Muita gente no meio da noite nas imediações esperando pra ver a chegada das autoridades e convidados. E no meio desses garapeiros estavam os estudantes da União Caixeiral, ali perto, caixeiros e donos de lojas e armazéns, que haviam saído do serviço e estavam perambulando, curiosos vindos dos Tucuns, Bebedouro, dos Campos, embarcadiços e até mulheres da vida e desocupados do ali próximo porto Salgado. 

Algumas famílias com dinheiro na burra chegaram a trazer modistas de São Luiz pra fazerem os vestidos de suas filhas. Joias, calçados aos olhos da cara, coisa que ninguém havera de adivinhar preço! Alfaiates da Travessa da Glória, rua Grande e até de fora da Parnaíba trabalharam duro meses e nas semanas antes pra entregar encomendas de ternos pra aquela que seria a festa das festas, a mais rica e elegante da Parnaíba naquele ano de 1925, motivo de muita conversa de salão de barbeiro e nas portas do Moraes pra cima.

Festa que teria sido um ano antes, em 1924 na mesma data, 24 de janeiro, mas que devido ao rigoroso inverno que levou centenas de famílias dos Tucuns a perderem o pouco que tinham, a ficarem só com a roupa do corpo, foi adiada por ordem do intendente José Narciso da Rocha Filho. Parnaíba passava por muitas obras rasgando seus mais distantes lugares e já se via preocupação com a construção do Grupo Escolar Miranda Osório, do Ginásio Parnaibano, no final da rua Grande, perto da estação de trens, indo pra o Macacal. 

Mentor não estava muito preocupado com a situação dos alagados, pois já havia passado o pior. Estava ainda contando os prejuízos de ter perdido no porto Salgado, na confrontação com a igreja dos pretos, o vapor gaiola Barão de Uruçuí, da Companhia de Navegação a Vapor do Parnaíba e que agora por não ter sido retirado, estava formando um enorme banco de areia e prejudicando ainda mais a entrada de outras embarcações vindas da Tutoia no Maranhão. E falando em Tutoia no Maranhão, os parnaibanos liderados por José Pires Lima Rebelo brigavam pelo porto de Amarração. 

Mas era justamente o porto de Amarração que não estava dando certo a ponto da Norton Griffths, a firma inglesa contratada para as obras, depois de ter desembarcado todos os equipamentos, ter rescindido o contrato. Havia já entre os empresários da indústria e do comércio uma descrença com o novo presidente Artur Bernardes. Mas nas proximidades do porto Salgado, pras bandas da Coroa e dos Tucuns, o sentimento da festa dos importantes e ricos de Parnaíba no cassino era de muita desfeita pra com eles. Mas pobre era assim mesmo, era bicho pra trabalhar e não reclamar de nada.

Seis anos antes Parnaíba havia tido outro prejuízo com a teimosia de atracar embarcações no Piauí. O vapor Cubatão, do Lloyd Brasileiro, de 1808 toneladas, encalhou na barra de Amarração e isso deu motivos pra que a Capitania dos Portos do Piauí proibisse que este porto fosse utilizado pelos vapores que ali faziam escala. A estrada de ferro ainda não era coisa pra se contar de certo, mas era a menina dos olhos de Miguel Bacellar. Muitos homens trabalhando nesta abertura por onde seriam fincados os trilhos. 

Chegavam do Maranhão e agora até do Ceará. Centenas de trabalhadores fazendo as obras no ramal de linha até a margem da lagoa do Bebedouro até a fábrica do Cortês, no distante Igaraçu. Muita gente adoeceu de mordida de cobra, de febre, de coceira e todo encalombado. Gente que morreu ou ficou aleijada e acabou pedindo esmolas nas ruas ou esperando ser curada nos corredores da Santa Casa de Misericórdia. 

Mas voltando pra festa, os convidados continuavam a chegar com suas famílias em seus carros sem se importar com quem estivesse fora. Muita gente convidada vinda do Maranhão. Lá dentro era tudo do bom pra melhor. Bebidas e comidas finas, champanhe, uísque, vermute. Constantino de Moraes Correia, Merval Veras, Delbão Rodrigues, Nestor Gomes Veras e tantos outros, gente de dinheiro na burra e com influência política no Rio de Janeiro! E esses convidados estavam ali naquela festa de inauguração do Cassino 24 de Janeiro cheios de pompa, mas muitos já preocupados com a crise que estava se avizinhando. 

Do outro lado, nos Tucuns e na Coroa, os cabarés estavam cheios de marinheiros e embarcadiços ouvindo e dançando ao som da orquestra do negro Pedro Braga. Os comandantes de vapores estavam no cassino, convidados da diretoria. No novo clube da gente rica, promessa de ser um dos maiores símbolos da Parnaíba. Muita gente chegou a ficar endividada pra comprar roupa e calçado apenas pra assistir a chegada dos convidados do outro lado da rua, na calçada. E entre essa gente humilde se espalhou a noticia de que o presidente Artur Bernardes estaria entre os convidados. 

O intendente José Narciso da Rocha Filho havia dado ordens ao chefe de polícia de que não queria os bêbados, arruaceiros conhecidos e mal afamados ali do porto Salgado, raparigas, desocupados, jogadores de baralho e de dominó, estivadores e outros tipos sem presença, sujos e maltrapilhos, não passassem pra dentro da região onde estava o clube. Parnaíba estava naquela noite em festa, toda iluminada e não podia ser perturbada! E a festa com seu baile de gala, suas senhoras com os pescoços e os braços ornados de joias caras e até emprestadas, não podia ser perturbada.

Mas nos lugares como os Tucuns, onde morava a população pobre, os desvalidos, o tempo de chuvas havia deixado muita gente desabrigada há um ano. Casas de barro e cobertas de palha de carnaúba, crianças sujas, despidas, ruas com poças de lama e de lodo. Gente que passava a semana toda procurando algum refrigério na porta da Santa Casa de Misericórdia. E a maioria voltava de mãos abanando porque o hospital não tinha mais recursos pra atender todo mundo.

Mas a festa dos ricos lá da rua Grande terminou pela madrugada. José Narciso e a família saíram por volta das duas horas da madrugada e estava preocupado ainda com a situação do rio Igaraçu e sobre as obras de uma escola. Muita comida, bebida, música, perfumes, flores, discursos inflamados, vestidos e joias caras. Lá fora na rua muitos corubijando algum sinal de que pudessem entrar ou pelo menos ficar nas janelas do Cassino 24 de Janeiro. 

Mas mais longe, nas quebradas dos Tucuns e da Coroa, infestadas de marinheiros, ferreiros, caixeiros de lojas de miudezas, estivadores, toda sorte de gente pobre e com algum tostão no bolso, a música corria solta e a navalha era o limite de valentia. E no outro dia cedo quando tudo já era esquecido, a rua Grande mal acordada por alguns bêbados que se perderam no caminho de casa ou do serviço, indo na direção da alfândega no porto Salgado, o chefe de policia registrava apenas a prisão de dois embarcadiços e uma rapariga velha. Coisa de ciúmes. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

“Nossa saída é pelo mar, Amarração...”



“Nossa saída é pelo mar, Amarração...”

Pádua Marques
Romancista, cronista e contista

Demétrio, Raimundo Xexéu, Pompílio, Caveira, Saco, Chagas Ventania, Onofre, Araioses, seu Chico e tantos outros estivadores estavam naquele dia 20 de maio de 1920 no largo da igreja de Nossa Senhora da Graça e depois no porto Salgado pra ouvir o doutor José Pires de Lima Rebelo num longo discurso falar sobre a construção do porto de Amarração. Sete dias antes havia sido a vez dos ricos, bem apessoados, corta jacas de políticos se reunirem no Cine Éden pra uma conferência criticando a dependência do Piauí para o porto de Tutóia no Maranhão.

Todos aqueles estivadores saíram de casa bem cedo. Mal tomaram um gole de café que fosse, mas estavam alegres, rindo com os paus, tudo com os dentes na fresca. Nesse movimento tinha por trás Armando Madeira, o presidente da Associação Comercial de Parnaíba. Nunca se tinha visto uma festa tão bonita. As grandes casas comerciais na rua Grande, que ia dar no porto Salgado, hastearam bandeiras do Brasil, Inglaterra e da França. E a banda de Pedro Braga vinha lá da Caixeiral desfilando e tocando dobrados com os meninos, velhos, homens feitos, os bêbados e até os faltos de juízo batendo palmas.

Mulheres com crianças pequenas, mocinhas, meninos, embarcadiços e estivadores estavam naquela manhã na frente da Casa Inglesa e nas ruas próximas esperando o intendente Nestor Veras e James Clark falarem sobre a importância pra Parnaíba com o porto de Amarração. Veio gente viajando de canoa de Ilha Grande de Santa Isabel pra ajudar a formar aquela multidão. Era se olhar e se ver todo mundo limpo, de banho tomado, roupa passada e o tamanco novo grosando nas pedras em frente aos armazéns.

Domingas dos Reis veio com os cinco filhos lá dos lados do Bebedouro e se plantou de frente à Casa Inglesa tentando uma ajuda de barro e palha pra levantar sua casa que havia sido queimada. Encontrou sim foi tudo que era repartição do governo, lojas e armazéns fechados e a cidade cheia de bandeiras e banda de música do negro Pedro Braga tocando dobrados pra cima e pra baixo.

Mas Domingas dos Reis não foi de dar com a cara na porta. Se colocou a esperar o primeiro rico que descesse a escada. Mas ninguém naquela confusão deu atenção a ela. Mal satisfeita, acabou dando umas lapadas de chinelo num dos meninos, rogou praga, falou mal de seu James Clark e de seu Marc Jacob, resmungou e tudo o mais. Como ninguém lhe deu atenção, ficou por ali e acabou engrossando a multidão e pedindo de um aqui e outro ali um vintém, uma ajuda que fosse pra pelo menos colocar alguma coisa na boca daqueles meninos naquele dia.

Armando Madeira disse outra vez que Tutóia prejudicava o desenvolvimento de Parnaíba. E naquele momento estava lendo um longo documento tentando angariar apoio entre os operários de Parnaíba. Estava ao lado dos homens mais ricos e influentes como Marc Jacob, José Narciso, Delbão Rodrigues, James Clark, Francisco Correia, Josias Moraes e Merval Veras. E aquela gente, feito nuvem, estava ali naquele terror de sol, batendo palmas aqui e ali, indo e vindo, achando graça deste ou daquele pronunciamento mais engraçado ou promessa de uma vida de riquezas pra Parnaíba.

Os bêbados, rapazinhos, meninos, os avulsos, saíam no rumo do Cheira Mijo pra comprar nos botecos alguma coisa pra beber, fosse aguardente, bolos, cuscuz de milho verde e tapioca. Ricos como seu Marc Jacob e James Clark naquele dia eram de estar bebendo uísque, gim, vinho de boa procedência, licores. Os pobres estavam gastando o pouco apurado com tiquira, genebra, cachaça serrana, conhaque de alcatrão. Mascando fumo. E assim foi aquele dia de muita celebração em toda a Parnaíba. O intendente Nestor Veras veio até a beira do cais do porto Salgado falar com aquele povo suado e paciente.

Mas não veio sozinho o intendente que deixava o cargo e já logo haveria de ter um sucessor, José Narciso da Rocha Filho. Trouxe pelo braço Armando Madeira, Merval Veras, James Clark e outros de menos conhecidos, mas ricos, donos de terras, de gado, carnaubais e até de navios. Raimundo Xexéu foi um dos estivadores que apertaram a mão daqueles homens limpos, falantes, portando bengalas, bem vestidos, anéis de ouro nos dedos, perfumados de lavanda e usando lustrados sapatos ingleses.

A fala dos homens mais ricos da Parnaíba pra aquela multidão de gente pobre vinda de tudo quanto era canto deixou a muitos satisfeitos. Aquela novidade sobre a construção do porto de Amarração deixando a Tutóia morrer à míngua era significado de mais trabalho pra toda aquela gente. Parnaíba ia sair do cabresto da Tutóia! Os parnaibanos iam deixar de ser bestas, diziam. Era mais dinheiro pra Parnaíba e pra os estivadores, a gente do porto, mais trabalho pra todos.

E teve deles, daqueles pais de família, saídos de suas casas com o cantar do galo, com a melhor roupa, que acreditaram naquelas promessas ditas da sacada da Casa Inglesa pelos maiorais da Parnaíba, Armando Madeira, Nestor Veras, James Clark e Lima Rebelo e depois no meio dos caboclos no porto Salgado quando muitos daqueles homens rudes e sem instrução acabaram molhando os cantos dos olhos. Mas o porto de Tutoia estava sendo era perseguido por aquela campanha comandada por Madeira Bastos.

E tanto era que a campanha fez com que muitos barcos deixassem de atracar no porto Salgado naquele dia e nos dois seguintes com medo de agressões à tripulação, de serem incendiados e até afundados. Naquele dia ninguém trabalhou na Parnaíba. Era tudo festa, era tudo contentamento. E aquele povo todo já pela hora do almoço foi saindo no rumo das bancas de frutas do Mercado Central, tomando as quitandas na Coroa, Cheira Mijo e Tucuns esperando que o porto de Amarração chegasse logo.  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

AVISO

Fonte: Google


AVISO

Comunico aos colaboradores e frequentadores de nosso blog que o meu e-mail da UOL está há alguns dias sem funcionar. Segundo a empresa, eles estão tentando resolver um problema técnico, e que oportunamente fariam contato comigo. Para minimizar o problema, resolvi criar o seguinte e-mail alternativo: poetaelmarcarvalho@gmail.com

Teresina, 11 de fevereiro de 2020.

Elmar Carvalho  

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A MALDIÇÃO DO POETA



A MALDIÇÃO DO POETA

Elmar Carvalho

Lobo solitário
e maldito das estepes
nas quais nunca estive,
açoitado pelos estiletes do vento e do frio,
uivando para a Lua
que jamais verei porque
para não a ver
meus próprios olhos ceguei.
Cão danado
cão condenado
por si mesmo
a uma eternidade
de trabalho forçado.
Judeu errante
e sem remissão
– por sobre desertos de areia e de gelo –
fugindo sempre
de si mesmo.
Poeta maldito
até a infinita geração.
Cosmopolita proscrito
das fronteiras do
tudo e do nada.
Prometeu acorrentado
dilacerado pelas aves
agourentas e de rapinas
que saíram de seu cérebro
– caldeirão vulcânico
em contínua erupção –
a vomitar monstros e fantasmas
de milhares de membros e cabeças. 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

APODRECEU O PAPA?

Fonte: Google


APODRECEU O PAPA?
  
José Maria Vasconcelos
Cronista e articulista
  
       Não. Não apodreceu o corpo de JOÃO PAULO II, falecido em 2003, nobremente vestido, fora da urna, exposto na BASÍLICA DE SÃO PEDRO. Dos pés à tiara na cabeça, fila quilométrica  para vê-lo por alguns segundos. Até presidente BUSH tirou sarro de popularidade, à custa do homem mais famoso do planeta.

      O corpo de JOÃO PAULO II conservou-se exposto ao público, durante três dias de veneração. Tão cedo não decomporá na sepultura. A cúria romana agradece à ciência as peripécias científicas realizadas no esquife do PAPA: turbinaram veias e músculos com formol e quimioterapias, extraíram vísceras e órgãos.

      Olhando pela televisão aquele corpo de feições suaves, lembrei-me de ANDRÉAS VESALIUS e de tantos cientistas que, fugindo à chibata da INQUISIÇÃO, realizavam experiências, dissecavam corpos de condenados, descobriam o sistema circulatório e anatômico do corpo humano, em busca de respostas e soluções. Para as autoridades eclesiásticas, pecado mortal a “prática do CURANDEIRISMO, bruxaria, desrespeito à vida e a Deus”. Amaldiçoados, quase sempre desapareciam nas masmorras e na FOGUEIRA SANTA.

      Graças à audácia e teimosia da CIÊNCIA, cardeais poderão eleger o próximo papa, com a próstata cirurgicamente consertada, com pomadas e pílulas para hemorróidas.

      O PAPA não fedia. Fede a intolerância, avançar no terreiro de CÉSAR como fosse de DEUS. “Daí a CÉSAR o que é de CÉSAR; a DEUS o que é de DEUS” – respondeu JESUS às elites religiosas interessadas nos assuntos do ESTADO.

     A IGREJA, durante séculos, tomou partido, brigou, dividiu-se. Sem saber geografia, colocou-se ao lado da ESPANHA na questão das TORDESILHAS, em prejuízo para o BRASIL. Interveio em disputas de ESTADO, beneficiando facções. Excedeu-se nas relações com nobreza medieval e exacerba-se no populismo de esquerda contemporânea. Se o mundo tivesse ouvido a doutrina da anti-pesquisa da anatomia humana, morrer-se-ia, hoje, até de diarréia. Logo mais, as discutidas questões de genoma humano, clonagem e controle de natalidade transformar-se-ão em modestos curativos. 

       Por conta de algumas passagens bíblicas, tortuosamente interpretadas, masturbar-se virou pecado mortal ou os contraceptivos, porque um tal ONÃ, no ANTIGO TESTAMENTO, fora castigado por fazer sexo, derramando sêmen no chão (Gênesis, 38). Durante o primeiro milênio da IGREJA, o casamento era livre no CLERO. Elegeram um PAPA extraído das cavernas da rigidez religiosa, que estabeleceu CELIBATO OBRIGATÓRIO aos sacerdotes e freiras. Até hoje, encontram argumentos bíblicos em favor do CELIBATO. Tadinhos de santos sacerdotes e freiras sufocados com prisões de sexo. Só não encontraram respostas bíblicas para pedofilia e bovarismo.

     Olhando aquele corpo entupido de formol, admiro CRISTO ressuscitado. Como é simples o MESTRE! Por que complicar sua doutrina? Por que tantas formalidades conservadas com formol da intolerância?  

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

DALILÍADA

Fonte: Google


DALILÍADA

(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho

           XXXVII

O discóbolo do cosmo
em vigorosa e rigorosa torção
arremessa o disco do Sol
para uma outra desconhecida dimensão.

           XXXVIII

A sede de infinito foi tão grande
que as asas dos anjos cresceram tanto
e tanto pesaram que esses entes alados
não mais voaram.

           XXXIX

Galamante!      Galamada!      Galáxia!
Galáctica!         Galharda!        Galatéia!
Gala!                  Gala!               Gala!
                            Galante galardão de
galáxias de pérolas de conchas bivalves
extraídas dos cornos dos unicornes.
Triunfo de Gala(téia) de novo mito
em teu trono de peças justapostas
       –intocáveis entre si –
te sentas nuamente recatada
       – mas todavia suspensa –
em teu gesto delicado de mulher.

           XL

Evoé Baco e bacantes!
Os vinhos mais finos
emanam do bigode de Dalí
onde os relâmpagos do gênio
são paridos – onde os raios
celestes são (a)colhidos por
Salvador Felipe Jacinto Dalí.  

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Caribé, o branco mais preto do Brasil


Júlio Caribé, Des. Tomaz Gomes Campelo e Aci Campelo, no dia do lançamento do livro


Caribé, o branco mais preto do Brasil

Elmar Carvalho

Participei, ontem à noite, do lançamento do livro Guia Turístico Afro-Cultural da Região Meio Norte, da autoria do professor, pesquisador e escritor Antônio Júlio Lopes Caribé. Estavam presentes familiares, amigos, artistas e escritores, entre os quais Tomaz Gomes Campelo, Aci Campelo, Ruimar Batista da Costa, Rosinha Amorim e José Fortes Filho.

A apresentação foi feita pelo escritor e jornalista Zózimo Tavares, que se desincumbiu da missão com a competência que lhe é peculiar, abordando os principais aspectos do conteúdo do livro, de forma breve, mas jamais superficial, com o poder de síntese, que lhe é caraterístico, fazendo lembrar, por esse aspecto e também por sua capacidade de observação e análise, o seu colega de APL e de jornalismo Carlos Castelo Branco.

Depois, o autor fez a sua explanação, e com a generosidade, que lhe é inerente, expressou os seus agradecimentos às pessoas que, de uma forma ou de outra, lhe ajudaram a conceber e publicar o livro. Livro completo, naquilo a que se propôs, tem uma bela orelha, escrita pelo contista e professor da UFPI Airton Sampaio, da qual julgo de bom alvitre extrair o seguinte: “Estruturado como Guia, o livro não deixa, no entanto, de trazer textos descritivo-dissertativos, em forma de artigos, sobre os mais diversos temas, entre os quais avultam, a meu ver, o Carnaval, a Literatura e o Cinema”.

O livro é um grande inventário afro-cultural do Piauí e do Maranhão, e, portanto, trata dos principais eventos, arrola as principais casas e instituições ligadas aos temas que aborda, e se reporta às lendas, folguedos, danças, literatura, religiosidade e ao folclore em geral desses dois estados, citando as principais personalidades dessas manifestações culturais.

Facultada a palavra, resolvi prestar um breve depoimento. Inicialmente, fiz referência à sintética e eficiente apresentação do Zózimo, e em cretino trocadilho disse que ele não nos encheu o saco e nem encheu linguiça, e que não encheu o saco exatamente por não ter enchido linguiça, ou seja, por não ter entrado em minudências e digressões enfadonhas, com a finalidade apenas de delongar a fala, como sói acontecer em muitos e quilométricos discursos.

Expliquei que conheço o Caribé há muitos anos, desde o final dos anos 80, quando presidi a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI. Com o seu apoio e de outros valorosos companheiros, lutei para que a Literatura Piauiense fosse inserida em dispositivo da Constituição Estadual, cuja campanha terminou vitoriosa, com o respaldo decisivo do deputado constituinte Humberto Reis da Silveira. Eu, o Caribé e outros membros da UBE-PI participamos de várias peripécias lítero-culturais no interior do estado, em cidades como Oeiras, Amarante e Luzilândia.

Na bela e bucólica Amarante, estávamos passeando na beira do cais, com a presença casual de bela ninfa, aliás mais ninfeta que ninfa, quando vimos cair do alto do passeio umas pétalas douradas. Era um velho fauno, companheiro nosso, destemido e aguerrido conquistador, que tentava angariar a simpatia da moça.  Claro que o seu esforço romântico resultou infrutífero, mas valeu a pena a beleza daquela improvisada chuva de belas pétalas silvestres.

De longo tempo, conheço-o como escritor, umbandista e amante da religiosidade, da cultura, da arte e da beleza negra, o que restou provado com o seu livro. Por isso mesmo disse, e tenho repetido isso muitas vezes, que o Caribé, branco dos olhos azuis e casado com uma mulher branca e loura, depois da morte de Vinícius de Moraes, tornou-se o branco mais negro do Brasil.    

16 de abril de 2010

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

DALILÍADA

Fonte: Google


DALILÍADA

(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho


           XXXIII

Dalí menino,
transmudado em menina,
levanta a orla do mar
e contempla o cão adormecido
à sombra das águas.
Dalí adulto
suspendeu a borda do mar,
as fúrias das ondas aplacou,
a contemplar o ritmo das esferas
que o rosto da amada desenhavam.
O cão sonolento ainda dormia
sob o tapete das águas. 

           XXXIV

A cabeça de Rafael é
uma cúpula de catedral
estalando em fragmentos
com os quais seu gênio
construía as obras em
que seu crânio se refazia.

           XXXV

Nos justapostos cubos suspensos
em forma de cruz, um Cristo
dolorido retorcido pelos séculos
ainda sente as mesmas dores
dos cravos, da lança e da maldade
humanamente desumana.
Uma Madona solitária contempla
triste rainha em xeque –
mate no chão de xadrez
a agonia do “corpus hipercubicus”.

           XXXVI

Na natureza morta de Dalí
a morte ganhou vida
na rosa ceifada que levitava. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

PROCURA-SE UM AMIGO


Fonte: Google


PROCURA-SE UM AMIGO

Carlos Henriques Araújo
Cronista e memorialista
                                                                            
Fim de férias. Domingo à tarde. Estou só, na varanda do meu apartamento na praia do Coqueiro. São quase seis horas da tarde e o sol está sumindo dentro do mar, sob um céu avermelhado, e ao longe, escuta-se o ruído das ondas se quebrando na praia.

Diante desse espetáculo maravilhoso da natureza, um sentimento de solidão me invade o peito. E me traz à lembrança uma carta de Vinicius de Morais a Tom Jobim quando ele estava morando sozinho em Paris. Da varanda do quarto do hotel em que estava hospedado, de frente para uma praça, refletia sobre a solidão das pessoas num mundo tão movimentado e distante. Para descrever esse momento de solidão ele a simbolizou na ausência dos amigos.

Como ele, eu, também, longe de meus amigos, digo: Procuro um amigo que goste de viajar, de conhecer outros lugares, outras culturas; que goste de ler, de escrever, de uma boa música, de conversar, de um bom vinho, de ver a lua.

Um amigo que goste do sol, do mar, de campos verdes, de montanhas e rios; que goste de ouvir o canto dos pássaros e do murmúrio silencioso da brisa; que goste de praça, de ruas, de uma casa no campo e o cheiro da chuva na terra molhada.

Um amigo que respeite a natureza, que proteja os animais, que goste ver os bichos brincando e pássaros cantando; que ame o próximo e respeite a dor alheia; que seja solidário e paciente; que tenha piedade das pessoas tristes e compreenda a solidão dos velhos, dos doentes e dos sem amigos.

Um amigo que tenha um sonho, um ideal e que lute por ele; amigo que se emocione com as coisas simples da vida, que tenha prazer em fazer o bem ao próximo, que se realize com suas realizações e com a dos outros também.

Um amigo que curta a vida e diga que vale a viver, porque a vida é bela por causa dos amigos.

Muito obrigados a todos os meus amigos, vocês são a causa da minha felicidade. 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Seleta Piauiense - José Newton de Freitas

Fonte: Google


À mulher

José Newton de Freitas (1920 – 1940)

Durante muito tempo eu contemplei o céu
e embriaguei-me de azul.
Demorei meu olhar dentro das matas,
encantei-me com tanto verde,
embeveci-me com tanto mistério.

Olhei profundamente o mar enraivecido
e admirei-me de tanta majestade.
Vi luares de maio e vi tantas manhãs de abril,
vi o sol, vi a lua, vi planetas e estrelas.
Extasiei-me com tanta poesia.

Eu olhei deslumbrado todas as grandezas,
tudo o que Deus fez para o homem admirar.
Depois notei que esquecera alguma cousa.
Foi então que eu te contemplei.
Perdoa-me o meu esquecimento, ó Mulher que muito amo!

Meus olhos te fitaram indefinidamente,
passearam na estrada das tuas linhas,
na beleza indizível do teu corpo.
Ajoelhei-me a teus pés.
Veio a veneração, veio o amor.
E eu esqueci tudo o que tinha olhado.  

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

BELINHA

Elmara e Anita


Anita
Belinha

BELINHA

Elmar Carvalho

Pedi que a Elmara Cristina, que é a primeira dona da prima-dona Anita, me mandasse, por e-mail, fotos da Belinha e da Anita, nossas duas mimosas cadelinhas, mas quem terminou por enviá-las foi o João Miguel. Isto porque decidi, hoje, escrever sobre Belinha, coisa que já venho adiando há algum tempo, por razões diversas. Essa cachorrinha chegou a nossa casa faz alguns anos. Não podia ouvir fala masculina que ficava nervosa, se agachando, se escondendo debaixo dos móveis. Dizíamos que era traumatizada. Depois, soubemos que um homem, que fora seu dono, a maltratava.

Foi, em seguida, para uma outra casa, onde não era muito bem cuidada, embora não sofresse  maus-tratos, até que nos foi dada. No início, a Anita, que veio morar conosco desde recém nascida, e que desde então foi sempre bem-amada, travou uma verdadeira “guerra” contra a Belinha, apesar de que esta, conquanto também pequena, fosse bem maior que ela; suponho que por ciúme da sua família humana e porque achasse que a intrusa invadira seu território.

Mas Belinha, com humildade e paciência, evitava confrontos, e se afastava de perto da mandona e madona Anita. Parecia provida de uma verdadeira inteligência emocional, que lhe impulsionava para a diplomacia e para a resistência pacífica, talvez temerosa de novo abandono ou rejeição. Sendo a Anita menor, mais graciosa e a “dona do pedaço”, já que era a pioneira, Belinha passou a nos cativar e a nos atrair a atenção caminhando e dançando sobre as duas patinhas traseiras.

Com efeito, terminou por conquistar todos da casa. Mas, um tanto tímida e esquiva, muitas vezes procurava os lugares esconsos,  e se retraía ante a Anita, que sempre foi mais ousada e voluntariosa, já que sempre foi o mimo da casa, talvez por ser a “primogênita” e por causa de sua graciosidade miúda. Não resta dúvida, Anita sempre foi a prima-dona, sempre foi a predileta. Mas Belinha foi galgando posições, angariando simpatias, e ao que tudo indica foi se libertando de seus traumas, embora se mantendo humilde e cordata com a outra cadela.

A Pantica (Francisca Maria) passou a ser a sua “madrinha”, cuidando dela com desvelo e carinho, mas também a repreendendo, em certos momentos, como se estivesse lidando com um ser humano, coisa que a cachorrinha quase o é, mas sem os defeitos dos humanos. Houve correspondência nesse apego e afetividade. Contudo, tinha seu brio e seu amor próprio, e, certa vez em que a Anita foi muito abusada, reagiu, como para mostrar que sabia se defender e defender os seus direitos, apesar de não gostar de briga, futrica e intriga.

Com o passar do tempo, Anita, conquanto não morresse de amor por ela, foi deixando de implicar; passou a tolerá-la, e ambas passaram a ter uma coexistência pacífica. Recentemente, Anita, que tinha uma hérnia há algum tempo, passou a ter o seu problema agravado, e um dia sentiu fortes dores, pois gania/gritava de dor. Belinha, bela e boa cadelinha, foi solidária, e correu desesperada, subindo os degraus em desabalada carreira, para latir à porta do quarto onde estava minha mulher; latiu fortemente, até a Fátima abrir a porta.

Em seguida, desceu as escadas, como chamando minha mulher para socorrer a Anita. Somente sossegou quando a Fátima foi olhar o que estava ocorrendo. Felizmente, a cachorrinha foi operada pela médica Tita, e hoje está recuperada. Essas duas cachorrinhas, fofas e graciosas, de biografias e temperamentos tão díspares, como que se complementam e completam a plenitude de nossa família, pois nos amam e por nós são amadas. 


14 de abril de 2010

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ACUSAÇÕES QUE TÊM O VENTO POR TESTEMUNHA DE DEFESA

Fonte: Google


ACUSAÇÕES QUE TÊM O VENTO POR TESTEMUNHA DE DEFESA

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                        Foi reportagem de jornal, assunto de televisão - possivelmente, com desdobramento jurídico-ambientalista provocado pelos defensores dos animais de estimação -, o resgate de um cão encontrado amarrado, faminto e maltratado em lugar ermo qualquer. Descoberto o proprietário, este falou, enfim, ter localizado o animal que, havia meses, fugira de casa.

 Quem sabe não estivesse falando a verdade o dono do arisco animal? A propósito, será que as tão preocupadas e diligentes pessoas ou autoridades que, se não aconselham, também não condenam a castração/esterilização como forma de evitar a proliferação de animais vadios nas vias públicas – não foi o caso do pet em questão -, deixados lá por indivíduos que não têm condições de cuidar deles, sugeririam àqueles prolíficos, mas imprudentes pais e mães de vários filhos, que não tendo como bancar a tantos, não evitam que alguns busquem as ruas, sucumbam às drogas, tornem-se párias sociais, submeterem-se à histerectomia ou outra forma de esterilização?

                        Evitar a superpopulação de animais de estimação que, bom que se diga, não nascem como o capim depois das primeiras chuvas, mas são fruto da conjunção carnal entre machos e fêmeas – como ocorre à maioria dos animais -, em vez de tentando educar criadores sobre a necessidade de dispensar-lhes os necessários cuidados, evitando que venham morar/viver nas ruas, ou sugerindo a esterilização e/ou castração – quem alimentaria os irracionais eunucos abandonados? –, parece algo dicotômico, contraditório, pois, ao tempo em que defendem a vida dos pais, quando apenas os castram, evitam a dos filhos que, um dia, os animais esterilizados poderiam ter.

                        Continuando na linha das intervenções desautorizadas, intempestivas. A jovem mulher, às costas do cidadão, porém, um tanto distante dele, de repente, começa a gritar por socorro. Ele se volta, assustado, mas somente percebe que seria o motivo do pedido de ajuda, quando a mesma, pondo-se a seu lado, começa a acusá-lo de assédio e tentativa de estupro.

                        O sujeito, atônito, não entendia a razão da acusação verbal, tampouco o desespero da moça.

                        -Foi ele! Foi ele! Gritava. Polícia! Queria me estuprar! Uma pequena multidão de curiosos já se formara em torno dos dois. Alguém a ajude, falou uma mulher, em meio à aglomeração, sem se dignar, sequer, a aproximar-se da “assediada”.

                        - Que é isso? Não te conheço, nem te dirigi a palavra, não te fiz nada! Andava à tua frente: estás maluca! Dirigindo-se à estranha samaritana, disse: eu nem sei que é esta cidadã! Deixa-me em paz, tenho mais o que fazer, criatura! Ele quer fugir, acusava a boquirrota salvadora. Nenhum de vocês - apontando para alguns homens - vai intervir? Por que – falou um deles -, se o rapaz disse que nem a viu ou tocou nela, pois seguia à sua frente? Ah, é? E ela, como fica? Vejam seu estado, coitada, desesperada! A propósito, quem é a senhora – manifesta-se o acusado - que toma as dores dela, sem ter certeza do que eu teria feito? Ela falou que o senhor tentou estuprá-la... E isso lhe pareceu suficiente para me condenar? Nenhuma marca ou arranhão! Não sou um tarado que ataca mulheres em plena via pública. Ela é uma desmiolada, ou coisa pior. Assuma, sujeito - não era mais a primeira benemérita que falava, mas outra que também se condoera da “coitadinha” -, você assediou a garota e agora quer tirar o corpo fora? Quem vai tomar providências? Não ouviram o que ela disse? Apontando para a moça - que, de repente, acalmara-se como se o efeito de algo ou de alguma ação esquizofrênica houvesse cessado.

                        Encurralado, então, pelas preocupadas senhoras donas da verdade, já temia por sua segurança. A multidão não diminuíra. A “vítima” não mais chorava, apenas soluçava baixinho, sempre que apontava o dedo em sua direção. Olhem, ou as senhoras perguntam-lhe por que ela achou que eu estava tentando estuprá-la, se eu seguia bem distante dela, ou vamos a uma delegacia policial registrar a ocorrência! Ora, ora, não se faça de sonso, moço: deixe de lorota – ela, a primeira senhora, com a anuência gestual da outra pia cidadã.

                        Eis que chega a polícia e, primeiramente, trata de afastar os curiosos; depois, um policial chama as senhoras, de lado, e lhes pergunta o que estaria acontecendo. Um estupro: este homem tentou currar aquela moça – apontando a “vitima”. Antes de olhar para ela, o militar virou-se para o acusado: é fato o que elas dizem, cidadão? Claro que não, é uma grande mentira, uma acusação grave. Antes que o senhor me pergunte: jamais vi essas mulheres. Ela deve ser louca, desequilibrada! Falou um monte de sandices e, depois, calou-se, emudeceu. E as senhoras, seriam parentes da vítima? Não. Viram, pelo menos, ele tentando estuprá-la? Não, em coro, as duas.

                        Naquele momento outro guarda, alertado pelos colegas que haviam examinado a moça, falou: senhores, esta jovem é nossa velha conhecida. Não é a primeira vez que ela acusa estranhos nas ruas de a terem tentado estuprar. Além de ter problemas esquizofrênicos, deve ter sofrido algum trauma, no passado Voltando-se para o acusado: sabemos que o senhor se sentiu bastante ofendido e, dirigindo-se às “boas samaritanas”: cuidado para não saírem por aí fazendo o mesmo que ela: acusando alguém por um crime que não o viram cometer; todavia, releve essa situação vexatória, cidadão, ela é doente e precisa de ajuda; quanto a essas senhoras, infelizmente, são duas falastronas. Não devia, seu guarda, mas vou aceitar seu conselho. Agradeceu-lhe e partiu, sem nem olhar para trás.

                        Fato é que, acusar, atualmente, é ato tão fácil de realizar, quão difícil é de ele defender-se; notadamente, quando, ou se, a prova da acusação forem palavras atiradas ao vento, que também seria a principal, senão única, testemunha de defesa.