terça-feira, 23 de março de 2010

FERNANDO: A GOLPES DE ESTILETE

Detalhe de uma pintura de Fernando Costa, pertencente a Cineas Santos, exposta na Oficina da Palavra

Elmar Carvalho

Fernando era como um alquimista. Era um mago medieval, mas demasiadamente moderno – eterno. Um mágico sem truques, mas com muita magia em sua arte. Era um bruxo, um demiurgo e/ou taumaturgo. Um demiurgo, como dele disse Clóvis Moura. Demiurgo e demônio, tanto faz. Demônio e santo, tudo junto e algo mais.
Aquele algo mais que o fazia erguer do caos primordial do nada/ser suas belas gravuras a golpes de estilete. Traçava em longos e lestos e lentos gestos de prestidigitador o desenho na borracha. Depois, com o estilete, diligentemente, a desbastava, até arrancar a forma perfeita de sua linogravura.
Mas o seu arrancar era feito suavemente, quase como se não tocasse a matéria, tal era sua agilidade. Acaso não tivesse esse dom encantatório daqueles que sabem seu ofício como um deus, usaria fórceps para extrair sua arte dos umbrais do caos das formas informes.
Fernando Costa era uma pessoa delicada. Talvez por isso não teve a dureza necessária para enfrentar as vicissitudes do simples existir, do simples estar no mundo. E as crises existenciais se abateram como golpes de estiletes sobre sua alma sensível e gentil. E as angústias repercutiram em sua arte, principalmente em sua pintura, que por vezes tomava formas aparentemente desordenadas e sombrias. Ao criar como ninguém, ousou desafiar os deuses, e os deuses enciumados fizeram com que o Grifo da destruição se rebelasse contra o artista, na metafórica e literalmente lapidar expressão de Ivan Junqueira:
“Se o homem cria, ele o espedaça e pisa, triunfante, entre os escombros da agonia.”
Certa vez, Fernando, diante de um quadro do pintor e pirógrafo Sica, como se estivesse em transe, ou como se visse além das aparências óbvias, redundantes e vulgares, exclamou com viva admiração e júbilo pelo trabalho alheio, apanágio dos bons e dos não invejosos:
Mas que azul fundamental!...
E um dia, em pleno carnaval, sem nenhuma explicação aparente, como as grandes obras de arte, Fernando esvaiu-se em sangue, em vermelho, num ritual de morte digno de Mishima, ou das mutilações de Van Gogh, através de golpes de estilete contra si mesmo desfechados, arrancando à força, em seus últimos gestos, mais uma vez ousando contra a fúria dos deuses, o seu mais profundo vermelho.
O seu vermelho fundamental.

segunda-feira, 22 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Escultura da autoria de Carlos Martins (Carlão), idealizada e financiada pelo professor e escritor Cineas Santos, que a ofertou a Teresina

22 de março

A SAGA DO SANGUE

Vítima de brutal “engarrafamento”, na sexta-feira passada, fiquei preso no trânsito, exatamente no balão do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Raul Lopes. Em lugar de me debater e espancar o volante, ou proferir imprecações contra tudo e contra todos, como muitos fazem, optei por ficar observando, detidamente, a escultura instalada na rótula. É feita de arame, peças de ferro e vergalhões metálicos. É bela e imponente em sua singeleza. É como se fora uma catilinária ou verrina metálica contra os conquistadores e os preadores e matadores de índios. O vencedor montado em grande e robusto corcel, em pose típica das estátuas equestres, puxa com uma corda um prisioneiro, naturalmente derrotado na refrega, e que será escravizado. O enorme corcel passa sobre corpos tombados. Seu chapéu produz grande efeito plástico, pois parece o próprio Sol com os seus raios incandescentes. No simbolismo do monumento, o cavaleiro, na concepção dos nativos, poderia ser a própria encarnação do deus-sol, pois possuía o estrondo e o raio de armas de fogo. Conduz na destra enorme lança, que faz lembrar os heróis das pelejas medievais e os cavaleiros andantes da idade média. Mas apenas aparentemente, porque na verdade ele simboliza os chamados heróis da conquista, como os bandeirantes paulistas e os homens da Casa da Torre da Bahia. Entretanto, hoje se sabe que muito do morticínio das chamadas conquistas se deve a doenças transmitidas aos nativos pelos europeus, inclusive e talvez principalmente pelos espanhóis. Contudo, essa pecha de violência não é um “privilégio” e exclusividade de portugueses e espanhóis, mas também de ingleses, franceses, holandeses e outros povos, pois onde quer que tenha havido invasões, conquistas, houve entrechoque de civilizações, com a consequente reação dos invadidos, dos conquistados. Hoje, como todo mundo sabe, o Brasil é essa fecunda miscigenação, com essa diversidade e riqueza cultural, e esse caldeamento de raças, que possibilitou o surgimento da beleza morena, que nos encanta e encanta o mundo. Não houvera acontecido o que aconteceu, hoje o Brasil seria, talvez, ainda um paraíso selvagem, intocado, com os indígenas caçando, pescando e colhendo suas frutas nativas. Foi pior? Foi melhor assim? Deixo a resposta aos latifundiários da verdade, aos doutos, aos exegetas, aos proprietários das certezas absolutas. Aos que não aceitam o que somos ou o que nos tornamos, resta-lhes o consolo de que podem se despir, envergar uma tanga, armar-se de arco e flecha e tentar ser admitidos em alguma tribo do Xingu ou do Amazonas. No entanto, devo lhes recordar que o maior cantor indianista do Brasil, o grande bardo Gonçalves Dias, tinha orgulho de carregar em suas veias a mistura do sangue de três raças: a negra, a indígena e a branca. Mas a bela e significativa estátua pode ser um libelo de fogo contra todos as formas de dominação, como o patrão que espolia o empregado, o marido que tiraniza a mulher, o pai que sevicia o filho, o governante que tripudia sobre o povo que o elegeu... Tenho a esperança de que algum dia todos seremos irmãos, sem dominadores e dominados, sem conquistadores e conquistados. Ainda é possível sonhar e nutrir esperanças. No momento em que eu contemplava a escultura, um forte vendaval a fez oscilar, e tive a nítida impressão de que o cavalo, o cavaleiro e o prisioneiro ganhavam a vibração da vida. A vida que deve perpassar toda verdadeira obra de arte.

domingo, 21 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Casarões da Praça Bona Primo, em Campo Maior, terra natal do teatrólogo Francisco Pereira da Silva
As serras azuis, que o poeta Da Costa e Silva contemplava de sua bela e bucólica Amarante

Reunião ordinária da APL

21 de março

A BARRAGEM DE CASTELHANO E A BELA AMARANTE

Foi muito concorrida e participativa a reunião da APL, de ontem. O acadêmico Paulo Nunes levantou grave questão. Disse que há fortes suspeitas de que a barragem de Castelhano, a ser construída a jusante da cidade de Palmeirais, poderá inundar parte dessa cidade e das cidades de Amarante e São Francisco – MA, e que isso poderia trazer graves consequências ao patrimônio arquitetônico da terra de Da Costa e Silva, que é um dos mais ricos do Piauí. Na sua opinião, a terra dacostiana é uma das mais bonitas cidades do mundo. Entre outras edificações, seriam atingidas a Casa de Odilon Nunes e a Casa dos Azulejos. A primeira, além do seu valor histórico e arquitetônico, abriga o Museu Odilon Nunes, cujo patrono foi um dos maiores historiadores do Piauí. A segunda, de beleza ímpar, situada na Avenida Desembargador Amaral, tem a sua fachada externa toda revestida de azulejos importados da Europa, salvo engano de Portugal. Propôs que a Academia realizasse uma audiência pública. Evidentemente, o assunto foi debatido e, por fim, aprovado por unanimidade. O acadêmico Manfredi Cerqueira, com a sua conhecida verve, lembrou o temor que causou a construção da barragem do rio Piracuruca, e disse que esses tipos de obras sempre “algo dão”, e lembrou o recente episódio da barragem de Algodões, que até hoje traumatiza a população ribeirinha dos municípios de Cocal e Buriti dos Lopes. O acadêmico Jônathas Nunes explicou que barragem pode trazer problema tanto a montante, com as possíveis inundações, como a jusante, com o fantasma do rompimento da parede, que pode ocasionar catástrofe, como a lembrada tragédia de Algodões. Aduziu que a construção de Central Nuclear poderia ser uma alternativa, mas o acadêmico Nelson Nery não achou esta uma boa opção, por causa de possível vazamento radioativo. A confreira Fides Angélica lembrou outras matrizes energéticas, como a eólica e a solar. O professor Jônathas informou que, com relação à eólica, os ventos somente são suficientemente fortes no litoral e em região do município de Paulistana, e que, quanto à solar, o espaço deverá ser muito grande para uma produção muito pequena de energia. De qualquer sorte, ficou decidido que a Academia Piauiense de Letras promoverá um grande debate em torno do assunto, sobretudo por causa da possibilidade de inundação de parte da antiga e velha arquitetura da bucólica e bela Amarante.

O MEMORIAL DE CHICO PEREIRA

Nessa sessão, exibindo um impresso extraído do Blog do Zan, disse que não desejava explanar nenhum assunto, mas apenas fazer uma pergunta, dirigida ao presidente da APL, Reginaldo Miranda, e ao presidente do Conselho Estadual de Cultura, professor Paulo Nunes. Inicialmente, li o seguinte trecho, extraído do aludido blog: “Sábado passado, na residência do deputado Paulo Martins, conversamos eu [Zeferino Alves Neto, o Zan], o médico Domingos José e o gerente do BnB, Gilberto Alves, com a presidente da Fundação Cultural, Sônia Terra, sobre o andamento da concretização da instalação do Memorial [Francisco Pereira da Silva] em Campo Maior, criado pela lei 5.445, de 25 de maio de 2005. Sônia Terra disse que isso está no momento, na dependência das entidades que indicariam os membros que comporiam o Conselho Administrativo. Até o momento, apenas três entidades indicaram seus representantes”. Isto posto, perguntei ao presidente da APL e ao do Conselho de Cultura se haviam recebido pedido de indicação de representante, tendo ambos respondido que não tinham conhecimento de tal solicitação. O ex-presidente da APL, que passou quatro anos no cargo, também disse não se recordar de tal pedido. Ficou assentado que pedido dessa natureza não tem nenhuma dificuldade em ser deferido. Algumas observações desejo fazer. A lei já está com cinco anos, e nenhuma providência concreta foi tomada. Mesmo que a solicitação tivesse sido feita, poderia ter sido renovada, e acredito que o Conselho de Cultura e a Academia não iriam ter nenhuma dificuldade em indicar um representante, pois isso não demanda nem tempo, nem dinheiro e nem esforço. Além do mais, salvo melhor juízo, a obra poderia ser tocada sem a necessidade de criação desse Conselho, que segundo a referida lei, tem caráter deliberativo e consultivo, e, por isso mesmo, só seria efetivamente necessário após a criação do Memorial, uma vez que foi previsto para administrá-lo, e não para construí-lo. Obras muito maiores e mais caras o governo faz sem precisar de conselho nenhum, mas tão somente de sua vontade política e de recurso financeiro. Mas, se a dificuldade é mesmo essa, que se crie logo esse bendito conselho, sem mais delongas. De qualquer sorte, existe um ditado que diz que, quando se quer emperrar alguma coisa, basta que se criem comitês, ou conselhos, o que dá no mesmo.

sábado, 20 de março de 2010

A MANGUDA DE FLORES


Elmar Carvalho

Recebi, enviado pela escritora Amparo Coelho, o livro A Manguda de Flores, da autoria de seu irmão Arimatea Coelho. Ambos pertencem à Academia Arariense-Vitoriense de Letras, sendo que a primeira também pertence à Academia Parnaibana de Letras, em cujo município foi promotora de Justiça por vários anos. A capa do livro é a reprodução de uma bela xilogravura de Airton Marinho. Na ficha catalográfica a obra está classificada como sendo de contos. E de fato é composta de várias narrativas. Na orelha do livro constam pequenos textos, da lavra de Leila Jalul, Ivette Gomes Moreira, Fontes Ibiapina, Antero Cardoso Filho e Arlete Nogueira da Cruz, em que enaltecem as qualidades de Arimatea, como contista e como poeta. Amparo Coelho em sua notável e elucidativa apresentação afirma: “... Arimatea Coelho nos surpreende com A Manguda de Flores, revelando-se contista, seguro de si e da sua arte. Narrando com simplicidade e elegância, ele recria, nesta obra, com imaginação própria e força de expressão artística, ambientes e personagens que povoaram a nossa imaginação na infância”. Nos dias de hoje, em que muitos se intrometem na difícil e árdua e ardilosa tarefa de escritor, pululam por aí os contadores de casos ou “causos”, sem nenhum traquejo de linguagem, sem nenhuma habilidade na condução da narrativa, sem nenhum preparo em armar o necessário suspense, que deixa o leitor preso ao texto, até o desenlace da trama. Contar casos, alguns engraçados, outros pitorescos, outros sangrentos, é fácil: basta saber escrever. Contudo, escrever um verdadeiro conto requer engenho e arte, como diria o velho e sempre novo Camões. Arimatea Coelho não é um mero contador de “causos”, uma vez que tem o domínio da linguagem, e sabe construir com elegância os períodos, seja em frases curtas, seja em frases mais longas, mais elaboradas. Tem correção gramatical, sem gramatiquice. Mesmo quando seus textos são extraídos da realidade ou da tradição, nota-se que ele sabe urdir a trama, sabe atrair a atenção do leitor com pormenores e descrições atraentes, armando o suspense, para que o leitor siga a narrativa, como um cativo, até o epílogo. Seus textos, além de terem uma narrativa de alto nível, estão vertidos na melhor forma da linguagem.

sexta-feira, 19 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


19 de março – UM PESCADOR E SEUS AMORES

No sábado passado, tivemos uma bela festa cultural na APL, em comemoração ao Dia das Mulheres. O presidente Reginaldo Miranda passou o comando da solenidade à acadêmica Nerina Castelo Branco, decana da entidade, que proferiu belas e emocionantes palavras em memória de três mulheres, que foram ligadas à cultura, à educação e à Academia. Foram elas: Lourdinha Brandão, professora, que muito se empenhou na construção do auditório da entidade, na gestão de seu marido, o deputado estadual e professor Wilson Andrade Brandão, cuja família estava representada pelo filho da homenageada, o também deputado Wilson Nunes Brandão; Maria Helena, esposa do acadêmico Jônathas Nunes, cuja beleza espiritual e física, especialmente de seus olhos azuis, foi reconhecida por Nerina; e Magnólia Santana, cuja bondade e espiritualidade foram enaltecidas pela oradora. Era casada com o confrade Raimundo Nonato Monteiro de Santana, que, embora seja eminentemente um prosador, leu um belo e comovente soneto, que fez em sua homenagem. Mesmo já idosa, quando vim a conhecê-la, ostentava uma clássica e serena beleza. O poeta Altevir Alencar, célebre declamador de estilo clássico e sóbrio, recitou poemas em homenagens às mulheres. Como parte integrante da homenagem solene, foi lançado o romance Pedra do Sal – um Pescador e seus Amores, da autoria da escritora Rita de Cássia Amorim Andrade. Fui por ela escolhido para ser o apresentador. Obviamente, não discorri sobre a narrativa, posto que isso seria semelhante a contar a história de um filme a quem iria assisti-lo. Falei de seu estilo claro, objetivo, escorreito, sem presumidos hermetismos dos que se dizem da vanguarda. Assinalei os seus diálogos verossímeis, condizentes com a personagem, com a sua cultura e perfil psicológico, mas sem abusos caricaturais de supostos regionalismos e quase dialetos. A narrativa foi quase sempre conduzida em discurso indireto, com o narrador onisciente a perscrutar os pensamentos mais secretos e as intimidades mais recônditas das personagens. Embora a própria autora tenha afirmado que adotou a narrativa linear, observo que ela, em alguns momentos, cometeu o recurso de flashback, quando o narrador interrompia o momento presente e se voltava para fase do passado da personagem. O romance é ambientado no litoral piauiense, sobretudo em Pedra do Sal e sua colônia de pescadores, mas com incursões à bela cidade de Parnaíba. Em certas descrições, verdadeiras passagens de prosa poética, a gente fica com a impressão de estar ouvindo o marulho das ondas, de sentir as narinas impregnadas de maresia e como que sentimos o vento a nos acariciar a pele. Seu livro foi como um búzio, que colocássemos no ouvido, para ouvir o simulacro do ruído marítimo. O romance tem como protagonista um pescador de poucas letras, com a sua cultura machista, com as suas contradições e recalques, que se apaixonou, em períodos sucessivos, por duas mulheres elegantes, de nível cultural e social mais elevado, e oriundas de um meio diferente. Trata desses encontros e desencontros, de paixão e ódio, de amor e desamor. De forma discreta, como é o correto, por ser uma obra de arte, e não um mero panfleto, denuncia as mazelas ambientais. Acolhe as lendas, o lado mítico do lugar, que ainda estão no imaginário das pessoas simples, tanto em relação aos índios Tremembés, que outrora perlongaram o litoral piauiense, como no tocante aos Fenícios, que supostamente teriam estabelecido uma estação portuária em Pedra do Sal, cujos indícios seriam as pedras que dão nome ao lugar. Até há quem acredite que existiria um túnel a ligar o encantamento de Pedra do Sal ao misticismo de Sete Cidades, que também teriam sido reduto desses célebres navegadores da antiguidade. Foi uma festa notável, tanto na celebração da mulher piauiense, como por ter sido um grande encontro cultural.

SELETA INTERNACIONAL


NEVERMORE

Paul Verlaine

Ah, lembrança, lembrança, que me queres? O Outono
Fazia voar os tordos pelo ar desmaiado
E o sol dardejava um monótono raio
No bosque amarelado onde a nortada ecoa.

A sonhar caminhávamos os dois, a sós,
Ela e eu, pensamento e cabelos ao vento.
De repente, fitou-me em olhar comovente:
«Qual foi o teu mais belo dia?» disse a voz

De oiro vivo, sonora, em fresco timbre angélico.
Um sorriso discreto deu-lhe a minha réplica
E então, como um devoto, beijei-lhe a mão branca.

— Ah! as primeiras flores, como são perfumadas!
E como em nós ressoa o murmúrio vibrante
Desse primeiro sim dos lábios bem-amados!

quinta-feira, 18 de março de 2010

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR

Elmar, Miguel e Rosália, em Francinopólis, onde moramos, no início da vida de casados de meus pais. Meu pai assumiu seu cargo no DCT nessa cidade, então povoado de Papagaio.

18 de março   Diário Incontínuo

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR

Elmar Carvalho

Domingo passado, recebi de meu pai breve anotação manuscrita, feita a meu pedido, sobre os nossos avoengos. Ele registrou apenas o que sabia de memória, sem consulta a registros de livros cartorários e outros alfarrábios. Muitas informações contidas nesta nota estão nos livros “Vultos da História de Barras”, de Wilson Carvalho Gonçalves, e em “O Ponta-de Rama” e “Ruas, Avenidas e Praças de Piripiri”, ambos de meu primo Fabiano Melo, de onde as colhi. Meu pai tinha apenas treze anos de idade quando foi chamado ao gabinete do diretor do tradicional Colégio Diocesano, do qual era aluno interno, numa época em que pouquíssimos piauienses conseguiam cursar o antigo ginásio.

Para que se tenha uma pequena ideia de como era restritivo, excludente e elitista o sistema de ensino, basta que eu diga que muitos de seus antigos colegas se tornaram governadores, senadores, deputados, magistrados e detentores dos mais altos cargos públicos do estado. Foi chamado, logo após concluir a prova parcial do dia 30 de setembro de 1939, para receber do diretor Padre Chaves, que depois se tornou um dos maiores historiadores do Piauí, a impactante notícia de que seu pai havia morrido. Era filho único do terceiro casamento de meu avô. Padre Chaves, que conheci e que concedeu a mim e ao jornalista Domingos Bezerra excelente entrevista, que publiquei na revista Cadernos de Teresina, editada pela Fundação Cultural que leva o seu nome, foi afetivo e cuidadoso ao dar a notícia, proferindo palavras de conforto e resignação; recomendou que meu pai fosse repousar.

Meu avô tivera oito filhos do primeiro consórcio e nenhum do segundo. Diante desse inesperado acontecimento, papai voltou para Barras, a chamado de sua mãe, e só veio a concluir o ginásio muitos anos depois. Meu avô paterno se chamava João de Deus Nascimento; era filho de Emiliana e Silvestre Ribeiro do Nascimento. Graças a seu esforço e labor, fez prosperar uma gleba de terra, situada na data Luiz de Souza, e conseguiu amealhar algumas reses, engenho de cana e casa de farinhada. Era respeitado em sua localidade e na cidade de Barras, onde era muito conhecido. Para que se tenha uma idéia de sua personalidade marcante, basta que eu conte dois episódios de sua vida.

Certo dia, uma de suas noras, deu-lhe a notícia de que o marido estava de namoro com uma mulher da redondeza. Meu avô chamou um agregado de sua confiança e se dirigiu até certo ponto, perto da casa da amante de seu filho, de onde dava para ouvir as gargalhadas e arrulhos dos dois pombinhos nos colóquios e conciliábulos amorosos. Constatada a infidelidade cometida pelo rebento, ficou de tocaia. Quando ele retornava para casa, o abordou de forma enérgica, e lhe disse que se voltasse a “pular a cerca”, iria aplicar-lhe uma sova caprichada, de que ele jamais esqueceria. Não se soube da surra, porque não mais se soube de transgressão do rapaz. Eram os costumes severos da época, de fortes reprimendas.

Morava, na vizinhança, uma parenta de meu avô, creio que sobrinha, cega de nascença e entrevada, como se dizia antigamente. Levava a vida a cantar hinos religiosos e a rezar, em perpétua vigília e penitência. Meu avô, falecido em 1939, pedira para ser enterrado perto de sua cova. Talvez tenha sido recebido por ela, sarada de seus males, coberta pelo manto de glória e beatitude que deve ornar os que levaram uma vida de sofrimento, renúncia e conformação. No cemitério campestre da chapada de Luiz de Souza, perto de faveiras, sambaíbas, paus-d'arcos e pequizeiros, repousam, lado a lado, os restos mortais de meu avô João de Deus e dessa parenta, que aceitou com fé e resignação o sofrimento que lhe coube, e que viveu como um anjo, a orar e a entoar cânticos e “excelências” a Deus.

Meu avô conheceu minha avó na cidade de Barras, onde ela morava em companhia de seu irmão Elpídio Lucas Furtado de Carvalho. Chamava-se Joana Lina de Deus Carvalho e nascera em Piripiri. Era filha de Miguel Furtado do Rego. Era sua mãe Izabel Lina, de antigas estirpes cearense e piauiense. Muitas décadas após meu pai deixar o seu pago, fui com ele conhecer o local onde ele nascera, que fica a poucos quilômetros da cidade de Barras. Vi meu pai tomado de profunda emoção, com os olhos marejados, a olhar o olho-d'água de sua infância, que ainda corria perene, a rever o buritizal da várzea e o morro verdejante onde se erguera outrora a casa de seu pai.

Meu avô materno se chamava José Horácio de Melo, nascido no lugar Campestre, município de Piracuruca, no dia 5 de agosto de 1893, e falecido em 13 de agosto de 1965. Era filho de Horácio Luiz de Melo e Antônia Quitéria de Carvalho. Horácio Luiz era filho de Antônio Luiz de Melo e Hygina Rosa de Menezes. Antônia Quitéria tinha como pais João Bartolomeu de Carvalho e Mariana Rosa de Carvalho. Eram do município de Piracuruca. Minha avó materna se chamava Maria Carlota, e era chamada de Paroara, dizem que por causa de sua tez alva e rosada como essa flor. Pertencia às famílias Sousa e Mendes, de Piracuruca. Morreu jovem, quando minha mãe tinha apenas onze anos de vida.

Por essa razão, mamãe foi morar com sua tia, irmã de seu pai, Maria Cristina Lima de Melo. Com a morte desta, passou a morar com sua prima Mirozinha, minha madrinha, até casar-se com meu pai. Devo muito a essa madrinha, que me emprestava, através de meu pai, os livros da biblioteca do Grupo Escolar Valdivino Tito e os de seu próprio acervo. Mamãe não guardou traumas e nem mágoas de sua orfandade, e nem de ter morado com esses parentes. Pelo contrário, tinha uma quase veneração por sua tia e por sua prima, e lhes tinha uma devoção de filha e irmã. Quando falava delas, era sempre com saudade e respeito.

Nunca tive paciência para empreender pesquisa histórica e muito menos genealógica, que acho importante, mas um tanto tediosa, de modo que desejei fazer apenas um breve registro, para que meus descendentes e irmãos conheçam um pouco dos nossos ancestrais. Aliás, meu pai, homem humilde, mas altivo a seu modo e no bom sentido da palavra, sempre foi avesso a empáfias e blasonarias de presumidas e pretensas nobiliarquias genealógicas, sabedor de que todos somos pó e de que ao pó da terra voltaremos. Só me falou, com mais detalhes, de nossos avoengos quando eu já tinha cinquenta anos de idade, por sinal em Piripiri, terra a que somos ligados por laços de sangue, no Auditório Osíris Neves de Melo, quando eu representava várias academias a que pertenço, a convite da professora Clea Rezende Neves de Melo, na solenidade em que foram lançados um livro dela e outro meu, o Lira dos Cinqüentanos.


Meu pai, ainda bem moço, veio para Campo Maior, onde trabalhou na Casa Inglesa. Posteriormente, ingressou no antigo Departamento de Correios e Telégrafos - DCT, através de concurso público, no ano de 1958. No início de sua vida de casado e de servidor público, morou no povoado Papagaio, hoje cidade de Francinópolis, por cerca de dois anos. O DCT virou ECT, e meu pai terminou indo para Parnaíba, onde por vários anos chefiou a agência local dessa empresa. Mas, amante inveterado e incondicional de Campo Maior, terminou regressando mais uma vez a minha terra natal, onde, aposentado, pratica dominó todos os dias com os irmãos Vicente, Antônio Wilson e Chico Andrade. Minha mãe consagrou todo seu esforço e dedicação a cuidar do marido e dos filhos. E como cuidou!...

quarta-feira, 17 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


17 de março – ZEFERINO E A MATEMÁTICA MODERNA

No meu périplo campomaiorense, por ocasião da inauguração do Memorial e da sede da Academia Campomaiorense de Artes e Letras revi o Zeferino Alves Neto, um guerrilheiro da cultura e agora blogueiro. Foi meu professor de matemática, creio que em 1969, no meu primeiro ano do antigo curso ginasial, no único ano em que estudei no Colégio Santo Antônio, de que foram fundadores, entre outros, os velhos mestres padre Mateus, professor Raimundinho Andrade e o juiz Hilson Bona. A seguir, estudei o segundo ano ginasial na cidade de José de Freitas, da qual guardo ótimas lembranças. Fiz o terceiro e o quarto ano, de volta a Campo Maior, no Colégio Estadual, que hoje, com muita justiça, tem o nome do professor Raimundinho Andrade. Devo dizer que Zeferino, o ZAN, foi o único professor de matemática de que não tive medo, e observo que foi através de suas aulas o meu primeiro contato com a então chamada Matemática Moderna, cheia de sinais gráficos, desenhos geométricos e noções de conjunto, e outros artefatos pavorosos. Sempre tive terror dessa matéria, e por isso escrevi em versos: A matemática / me enlouquece: / por isto meu pensamento / salta de mais infinito / a menos infinito (…). Alguns professores dessa disciplina aparentam ter certa inclinação para o sadismo, e parecem se comprazer com o medo que infringem aos discípulos. ZAN sempre foi um humanista, um guerreiro do bem, e não torturava seus alunos com ameaças e perspectivas de reprovação. Como em 1975 deixei definitivamente Campo Maior, com minha ida para Parnaíba e depois Teresina, por décadas o perdi de vista. No começo dos anos 2000, quando lancei meu livro Rosa dos Ventos Gerais em Brasília, voltei a vê-lo, uma vez que ele foi a essa solenidade cultural. Depois, consegui rastreá-lo através dos mares internéticos. Com o seu retorno a nossa cidade natal, tenho-o visto mais amiúde. Conversamos algumas vezes. Em seus comentários em blogs e sites, nota-se o seu apurado senso de humor e a sua preocupação com a cultura e o bom andamento da administração pública. Além de escritor, radialista, jornalista, blogueiro, é eminentemente um homem de teatro, tanto como teatrólogo, como também na qualidade de ator e diretor. Embora a sua veia humorística esteja sempre afiada e armada, noto-lhe a preocupação constante em não ferir as pessoas, mas apenas em divertir-se e diverti-las. Portanto, o caríssimo ZAN sempre será Zeferino, mas jamais Zé Ferino, para fazer um trocadilho cretino, e continuar no meu rimar genuíno, sem perder o tom e o tino.

terça-feira, 16 de março de 2010

CÂNTICO DO CORPO AMADO



ELMAR CARVALHO


Teus cabelos
às vezes são filigranas escorridas
tecidas em pura maciez.
Às vezes são algas e caracóis
encrespados em ondas e espumas
esculpidas pelo vendaval.

Tua tez
revestindo a superfície
veludosa e bela de tua carne
é película de esplêndida
fruta tropical.

Teus olhos
às vezes sombrios
pelos enigmas e mistérios
de tua alma de mulher
às vezes resplandecentes
pelo relâmpago do riso
são dois lagos – calmos ou agitados –
em que os meus imergem e se perdem.

Tuas orelhas
são conchas
em labirinto de perfeito lavor
e nelas escutas e escuto as vozes
dos búzios e o chamado do mar.

Teu nariz
ergue-se em cordilheira
e de suas cavernas
emerge o vento de teu respirar.

Tuas sobrancelhas
são arcadas góticas
e teus cílios tessituras persas
do frontispício de teu altar.

A tua boca
onde as palavras lavras
em forma de canção
são retábulos e ornatos
do sacrário de teu ser.

Teus sorridentes lábios entre-
mostram o dique/arrecife
de concha, ostra e coral
do límpido colar dos dentes.

Pedestal firme e flexível
de teu rosto é o teu pescoço
- belo e singelo colosso.

Teus braços
são baraços que
enforcam e fascinam
serpentes que
atraem e traem.

Tuas mãos
são plumas e verrumas:
afagam e esmagam.

Teus seios
alçados em sublime formosura
de tenras carnes e tênues epidermes
são Olimpos
que meus dedos alpinistas escalam
para (re)colher o hidromel
no céu dos mamilos sensitivos.
Os pomos
de teus seios tomo
e eles me enchem as mãos.

Pelas dunas do deserto
de teu ventre fértil e belo
encontro o oásis na cacimba
de teu umbigo em que naufrago
perigo e me embriago.

De teu umbigo
minhas mãos e meus olhos
correm e escorrem
pelas vertentes e grotões
de tuas passagens/paragens
mais secretas e seletas
e se saciam
no frescor de tuas nascentes,
onde estão o lodo e o húmus
de um Nilo todo dádiva.

Na tecelagem da púbis
- tapete mágico de penugem e babugem –
e na fenda dos lábios
que são pétalas e conchas
recende a maresia
que reacende a velha flama
de um deus pagão.

Minhas mãos apalpam
tuas coxas roliças
de macia carnação
e descem pelas dobradiças
perfeitas de teus joelhos
circundam teus artelhos
e giram ávidas em torno
de teus pés de artesanal contorno.

Tuas pernas formam arcos
de onde são arremessadas
as flechas de meus braços
em busca de outros acidentes
geográficos anatômicos.

Tuas nádegas
às vezes árdegas gazelas
às vezes mansas aves de estimação
às vezes retesas setas acesas
às vezes quedas texturas de veludo e seda
desenham arcos e penhascos
rochedos e penedos
desfiladeiros e socavões
em que meus olhos
de tamanha beleza se abismam
na vertigem que alucina e ilumina.

Meus dedos
cegos de tanto encanto
tateiam e tenteiam
se enlevam e se enleiam,
pelos enlevos e relevos
mimos e cimos
atavios e baixios
côncavos e recôncavos
entrâncias e reentrâncias
da geomagia de teu corpo.

Navegam minhas mãos
pela sinuosidade litorânea
da enseada de tuas ilhargas
e do cabo bojador
de tormentas e esperanças
de tuas ancas – âncoras –
e desbravam/devassam
as volutas voluptuosas
de tua coluna (grega) dorsal
e se perdem na voragem/miragem
das ondas revoltas
de teus cabelos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




15 de março – No bar do Zé Lira

Estive ontem, no que eu chamo de “rápida circulação etílico-cultural periférica”, no bar do Zé Lira. Gosto de ir para lá porque fica perto da linha férrea, onde outrora passaram trens e locomotivas diversas, inclusive velha, negra e enfumaçada maria-fumaça, que passava bufando, resfolegando, enfeitada com o seu penacho de fuligem, a apitar saudosamente, como a dizer adeus a um tempo que não perduraria muito, e nas proximidades da casa grande da Fazenda Estrela, que ainda está de pé, embora quase em ruínas. Mas vou, principalmente, porque de lá tenho uma bela visão da pequenina Serra Grande, na verdade morros isolados de Santo Antônio do Surubim, além de que, na ida e na volta, contemplo o pequeno, porém grande em beleza, Açude Grande. Ali perto, existiu um campo de futebol, chamado de rabo-da-gata, onde eu me transformava em verdadeiro gato, a fazer belas, elásticas e acrobáticas defesas, segundo dizem alguns amigos “pebolistas”. Zé Lira é um cidadão sério e trabalhador, e que imprime respeito ao ambiente. Ontem, admirado com a qualidade das músicas que estavam sendo tocadas em seu aparelho de som, perguntei sobre quem as pedira. Com um sorriso traquina, respondeu-me que fora ele mesmo que as pedira. Tornou a repetir que gostava de pescarias e caçadas. Acredito que a afirmativa não é história de caçador e nem de pescador porque ele teve a humildade de dizer que era caçador de mocós, preás e outros pequenos animais, e não de onça. Falou que é natural do município de Barras, de uma localidade situada entre Cabeceiras e e a sede daquele município, porém depois foi residir num local perto do cruzamento da estrada que vai para Boqueirão com a BR. Quando estava já quase de saída, em companhia do Zé Francisco Marques, chegaram o Sílvio Andrade e o Leni, meus velhos conhecidos. Sílvio é irmão de meu saudoso cunhado Zé Henrique, filho de dona Conceição e senhor Antônio Almeida, ambos falecidos. Fomos vizinhos na adolescência, quando nossos pais moraram perto, em casas que ficavam na rua do Estádio, a Capitão Félix. Quando morei nessa rua, costumava jogar bola no campinho que ficava na beira do açude, numa praia de alvas e finas areias, em que perpetrei algumas “pontes” ornamentais, verdadeiras pontes estaiadas, na posição de goleiro. Esse campo ficava detrás da casa do tenente Jaime da Paz, ex-prefeito de Campo Maior, em cujo quintal verdejavam e se requebravam vários coqueiros, que me lembravam o mar que eu ainda não conhecia, a não ser por fotografias e pelos filmes exibidos no inesquecível Cine Nazareth. Esse campo depois foi soterrado pela avenida de contorno da laguna, mas teima em existir na minha saudade. Nesse tempo ditoso, o açude praticamente não era poluído, e após o jogo tomávamos gostoso banho nas suas águas tépidas e de pequeninas ondas. Depois, passei a jogar no campo do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco, que era ingrato, áspero e intratável, como o cacto do poeta Bandeira, por causa da piçarra do terreno, que era uma verdadeira lixa a esfolar a pele dos atletas, principalmente goleiro, como era o meu caso. O imperador da época e do pedaço era o Otaviano, que até tem mesmo nome de imperador romano; era o dono da bola e do time. Como não poderia deixar de ser, falamos do Zé Henrique, que, além de irmão do Sílvio, era amigo de nós três. Lembramos que, algumas vezes, quando tocado de leve pelo álcool, ele chegava a dar a própria camisa, quando se comovia com a pobreza de algum pedinte que o abordava. Foi bom rever esses amigos, e com eles ter confraternizado e conversado.

RELEMBRANDO A VELHA MESTRA


Casarão da Praça Bona Primo, em que residiu a professora Briolanja Oliveira. Recentemente, foi doado pelo município, na gestão do prefeito Joãozinho Félix, para ser a sede da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, sob a presidência do escritor e historiador João Alves Filho.
SIMÃO PEDRO ANDRADE

Uma sensação muita estranha senti quando vi nosso casarão invadido. Relembrei minha infância e os tempos felizes; domingo ao cair da tarde na Praça da Matriz, uma multidão de crianças a correr e brincar. Recostado ao painel do boi, meus olhos percorriam a imensa paisagem, de lonje avistei o casarão solitário, entre os portais cor de vinho, ela ali estava, sentada na cadeira de palinha elegante como uma rainha.Corri em direção ao que avistara, com a respiração ofegante beijei suas mãos, e como numa prece falei: "Abença Tia Briolanja", abençoado atendi ao convite para sentar,quieto esperei a pergunta de sempre: " Meu filho, como vai o Turuka?" ao tentar responder a pergunta uma nuvem de andorinhas rasga o céu, o sino da igreja anuncia, se aproxima a hora de Maria;do corredor do casarão uma voz é ouvida,é a Maria José, preta velha querida, anunciando o jantar a ser servido.Fico quieto esperando o convite, e escuto uma voz suave fazendo um pedindo: "Maria José, ponha mais um prato, hoje temos um convidado". Assentado à mesa olhando a porcelana branca e fina, aguardo o momento para ser servido.Três crituras ao redor da mesa se postam, cada uma na sua função,servindo-nos com amor e zelo, expressando um largo sorriso.Ouso levantar minha vista e aqueles olhos amendoados e tristes me fitam com carinho como se agradecesse a companhia,com um sorriso tímido respondo e de novo me inclino. A boa Teresa de mim se aproxima, com uma jarra me serve água pura e cristalina. Ao fim da refeição,ela se recolhe ao quarto grande,mais uma vez deixo meu ósculo naquelas mãos, peço sua benção,e uma voz suave me diz: "Deus te abençoe meu filho". Aquele pequeno e frágil corpo entra em seus aposentos,a porta é fechada,saio dali feliz, sem saber que aquele era nosso último encontro.

sábado, 13 de março de 2010


REVISTA NOSSA GENTE – Nº 02

Recebi, das mão de seu criador e editor-chefe, Raimundo Belchior Neto, a revista Nossa Gente – nº 02, cuja bela capa foi concebida pelo grande artista plástico João de Deus Netto. O escritor, dramaturgo, radialista e blogueiro Zeferino Alves Neto, de quem tive a honra de ser aluno, figura como seu redator. A revista, pelo que pude observar, pode ser considerada informativa, formativa e cultural, porquanto traz reportagens sobre fatos e decisões administrativas, memória histórica, embora sobre acontecimentos mais recentes, poemas, entrevistas, etc. No número em comento, foi publicada uma excelente entrevista concedida pelo pintor, chargista, caricaturista, capista e blogueiro Netto, bem como uma outra entrevista com o governador Wellington Dias. Um ótimo artigo comenta a brilhante trajetória do grande craque campomaiorense Edmar Pinto, que deu brilho às ensoladas tardes domingueiras do futebol piauiense. Corinto Filho escreveu notável artigo sobre o velho e inesquecível Cine Nazaré, que foi um símbolo de cultura e civilização a espantar o tédio, que muitas vezes ensombrecia as cidades interioranas daqueles idos, sem muitas opções de lazer. E como não poderia deixar de ser, em se tratando de uma revista de interesse geral, e não apenas da cultura, aborda assuntos relacionadas à política. Em suas páginas, os pesquisadores poderão colher subsídios da história recente e mesmo imediata da comunidade campomaiorense. A revista está sob a responsabilidade da jornalista Edna Maria Gomes. Foram colaboradores desse número, Corinto Araújo Filho, Daniel Paixão e José Ricardo Alves Reis Reis Neto. Estão de parabéns Belchior Neto e sua equipe pela bela revista que produziram.

INAUGURAÇÃO DO MEMORIAL HISTÓRICO E DA SEDE DA ACALE



Aconteceu ontem, no início da noite, dois fatos culturais da maior importância para o município de Campo Maior. Um, foi a inauguração do Memorial Histórico do Município, erigido pela prefeitura, na Praça Bona Primo, em que a cronologia dos principais fatos históricos, desde a criação da fazenda Bitorocara, por Bernardo de Carvalho e Aguiar, e a criação da primeira capela, sob a invocação de Santo Antônio do Surubim, através do padre Tomé Carvalho, com a ajuda decisiva de Bernardo, que forneceu material de construção, trabalhadores e recursos financeiros, até os dias atuais. As principais datas foram pesquisadas pelo escritor e pesquisador João Alves Filho, que teve o auxílio de Vinício Lima, José Omar Brasil, Adrião Neto e Elmar Carvalho, e estão expostas em belas placas metálicas. Nessa solenidade, usaram da palavra João Alves Filho, presidente da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, e os acadêmicos Elmar Carvalho e Raimundo Nonato Monteiro de Santana, que enalteceram a obra, e falaram de sua importância para o resgate e conservação da memória histórica de Campo Maior. Encerrando a primeira solenidade cultural, o prefeito Joãozinho Félix falou de algumas de suas realizações e de sua satisfação em ter realizado esse Memorial, que fixou em placas de metal os principais fatos da História de Campo Maior, sendo que alguns se confundem com a própria História do Piauí. Em seguida, todos os presentes se deslocaram para a casa que foi a residência da professora e intelectual Briolanja Oliveira, uma das patronas da ACALE, onde foi realizada a entrega oficial desse patrimônio, pelo município, através do prefeito Joãozinho Félix, ao presidente da ACALE, escritor e historiador João Alves Filho, que nessa mesma solenidade, tomou posse da presidência da entidade, para exercer o seu segundo mandato, que começou, portanto, com a consecução da sede própria da Academia. Compareceram aos dois eventos pessoas representativas da comunidade campomaiorense, entre as quais Antônio Wilson Andrade, Dácio Bona, Raimundo Belchior Neto, Marko Galeno, Vinício Saraiva de Lima, Zeferino Alves Neto, Tote Portela, José Francisco Marques, César Loiola e Neto Chuíba. Marcaram presença os acadêmicos Cardosinho, Helano Lopes, Jesus Andrade, Jesus Araújo, Antônio Loiola, Moacir Ximenes, Domingos José Carvalho, João Borges Caminha, José Omar e Corinto Brazil. Também estiveram presentes Heitor Castelo Branco, Elmar Carvalho e Raimundo Nonato Monteiro de Santana, membros da Academia Piauiense de Letras e da ACALE. Vindos de Teresina, notou-se a presença dos escritores Antenor Rêgo Filho, Adrião Neto e Homero Castelo Branco Neto e do deputado federal Ciro Nogueira. A Banda Municipal Honório Bona Neto, sob a batuta do maestro e acadêmico Corinto Brazil, abrilhantando as duas solenidades culturais, executou belos dobrados e marchas do cancioneiro nacional e uma excelente valsa do ilustre compositor que lhe deu o nome.

sexta-feira, 12 de março de 2010

MONS. CHAVES – UM ÍCONE DA HISTORIOGRAFIA PIAUIENSE




Elmar Carvalho

Um grande esquecido por Campo Maior, sua terra natal, terra por ele muito amada, é o notável historiador e sacerdote Monsenhor Chaves, que foi um grande educador de nosso Estado. Membro da Academia Piauiense de Letras, tem o respeito dos historiadores piauiense pela profundidade e honestidade de suas pesquisas.Em Teresina – Subsídios para a história do Piauí não apenas traçou a memória histórica dessa capital, mas discorreu sobre seus primeiros edifícios públicos, suas festas antigas, sobre a instrução primária e secundária, posturas municipais, vida cultural e religiosa, sobre seu comércio e suas ruas, episódios importantes da cidade e do Estado, além de seus aspectos pitorescos. Em sua visão de vanguarda da História, foi um dos primeiros a inserir os vencidos e os humildes em nossa historiografia, quando concebeu o livro O índio no solo piauiense e ao registrar a participação dos escravos, vaqueiros e roceiros, inclusive tendo o seu livro Apontamentos biográficos e outros, em que traça a biografia de ilustres piauienses, um capítulo exclusivamente dedicado aos vaqueiros e roceiros, já alertando que a história é construída por todo o povo e não apenas pelos vencedores e pelos chamados grandes homens. Foi ele o maior divulgador e estudioso da Batalha do Jenipapo, tanto no opúsculo Campo Maior e a Independência – a Batalha do Jenipapo, que faz parte de seus Cadernos Históricos, em que fala nos antecedentes da batalha, na Batalha do Jenipapo e no que se lhe seguiu, como, principalmente, no livro O Piauí nas lutas da Independência do Brasil, onde discorre com autoridade e conhecimento de causa sobre a guerra de Fidié e especialmente sobre essa célebre batalha, talvez a mais importante e a mais sangrenta página da Independência do Brasil, injustamente negligenciada pelos grandes historiadores nacionais. Nos Cadernos Históricos o nosso historiador trata, além da batalha, da história de Teresina, da escravidão no Piauí, de nossa participação na Guerra do Paraguai e da evangelização no Piauí. Trago a colação o que dele disse Teresinha Queiroz, mestra e doutora em História, uma das mais respeitadas e acatadas vozes da historiografia e do magistério piauiense:

“Quando, no início da década de cinqüenta, Padre Chaves começou a produzir sua obra, ela já vinha revestida de um novo sabor, que lhe conferia não só leveza e graça, como abria novas possibilidades para a compreensão da história de Teresina e do Estado. Ela anunciava uma outra forma de registro dos eventos históricos, alargando esse registro para a inclusão das classes subalternas. Vinham à cena, em Teresina – Subsídios para a história do Piauí e logo mais em O índio no solo piauiense, na vivência de seus dramas cotidianos – os pobres, as mulheres, as crianças, os escravos, os trabalhadores urbanos, os índios subjugados e esquecidos. Mais adiante, já historiador maduro e experimentado, os vaqueiros, os roceiros e outros segmentos da invisível arraia-miúda dos rincões nortistas do Brasil seriam exibidos nas cenas epopéicas de que foram arautos.”

De Camões diz-se não apenas amou tanto sua pátria que, não se contentou em apenas nela morrer, mas quis morrer com ela; de padre Chaves direi que amou tanto a Batalha do Jenipapo que deseja ser sepultado no lugar que lhe serviu de cenário, ao mandar fazer o seu túmulo junto às campas rasas onde jazem os heróis humildes que ele tanto exaltou, pelo extremado de seu heroísmo e sacrifício, sem recompensa, e que não visavam à conquista de riquezas e metais.

Monsenhor Chaves já recebeu, com justiça, muitas homenagens de Teresina, que não é a sua terra natal. Lá existe a Fundação Cultural Monsenhor Chaves, criada pelo professor Wall Ferraz, que já lhe editou a obra completa, por mais de duas vezes. Sua memória é reverenciada por instituições e professores de História. Mas Campo Maior ainda não lhe tributou as merecidas homenagens. Algum hipócrita poderá dizer que ele ainda está vivo. Mas a esse sacripanta responderei com Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito:

... Por isso é que eu penso assim
se alguém quiser fazer por mim
que faça agora

me dê as flores em vida
o carinho, a mão amiga
para aliviar meus ais
depois que eu me chamar saudade
não preciso de vaidade
quero preces e nada mais.

Padre Chaves não precisa nem de vaidade nem de homenagens. Vive recolhido em sua humildade e mergulhado no silêncio. Campo Maior é que precisa homenageá-lo, para não receber a pecha de cidade ingrata e sem memória. Aliás, quando quiseram homenagear o excelso poeta Manoel Bandeira, perguntaram-lhe se ele não se incomodava pelo fato de recebê-la em vida, ao que ele respondeu que não, que até se recusava a morrer enquanto não lhe fosse outorgada a honraria. Campomaiorenses, homenageemos, pois, o querido padre Chaves, que de qualquer maneira, mesmo contra a sua vontade, vai permanecer imortal, através de seus livros.

quinta-feira, 11 de março de 2010

SELETA PIAUIENSE


CREPÚSCULO

Celso Pinheiro

Crepúsculo. Dlin, dlon... Sinos gemendo aos dobres
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...


A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...


Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...


Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...


Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...

quarta-feira, 10 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


O PLANO DE DEUS
10 de março

Releio, pela enésima vez, este texto de Epicuro: “Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?” Nunca me inquietei com essas indagações, e sempre tive resposta para elas. Apenas nunca externei o que sempre esteve em minhas convicções e fé. Enfrentarei a problematização da primeira parte da citação e tentarei encontrar uma resposta. Em momento algum Epicuro negou a existência de Deus. Portanto, a admitiu. Aliás, todas as perguntas partem do pressuposto de que Deus existe. Faz tempo venho adiando escrever uma crônica, que forceja em meu cérebro, louca para ser dada à luz da publicidade. Escrevê-la-ei agora, e com ela tentarei responder aos questionamentos epicurianos.

Quando fiz minhas primeiras viagens aéreas, tinha muito medo, e sequer olhava para as belezas que poderia ver da janela, fosse uma bela e verdejante colina ou uma caprichosa enseada marinha, ou fosse o celestial alumbramento das nuvens, nas quais gostaria de deitar e rolar. Entendi que esse medo de nada adiantava, já que eu era forçado a enfrentar a viagem. E se houvesse algum acidente, de nada me valeria essa inquietação. Portanto, era inútil, e apenas me incomodaria durante o voo. Além do mais, considerando que avião é o meio de transporte mais seguro, exceto elevador, eu apenas sofreria por algo que dificilmente iria acontecer. Por outra parte, raciocinei que o avião fora construído por quem sabia o que estava fazendo, por quem tinha conhecimento, ciência, experiência, e a mais avançada tecnologia e os mais adequados e sofisticados materiais. Também pensei com os meus botões: quem o pilotava sabia o que estava fazendo, estudara, tinha um plano de voo e igualmente seria vítima de eventual erro que cometesse, pelo que agiria sempre com responsabilidade e prudência. Assim, decidi confiar, mesmo porque não poderia fazer outra coisa, uma vez que resolvi entrar na aeronave.

Da mesma forma, para responder às indagações do filósofo, direi que Deus, cuja existência ele admite no enunciado de seu silogismo, tinha e tem pleno conhecimento de sua obra e, certamente, tem um plano maravilhoso e perfeito, como só podem ser as obras divinas. O que sucede é que nossa inteligência e nossos conhecimentos são diminutos, para que possamos entender a mente e a inteligência infinita de Deus, como igualmente não conhecemos os pormenores de seu plano. Ora, quanto mais o homem tenta perscrutar os umbrais do infinito, do infinitamente grande, mais novas grandezas ele descobre no espaço sideral. E, quanto mais se volta para o infinitamente pequeno das partículas e da mecânica quântica, mais se surpreende com subpartículas cada vez menores e cada vez mais sutis. Até já disse, num de meus poemas, que atingi o infinito ao ficar infinitamente pequeno. Dessa forma, entendo que não devemos nos preocupar com as indagações do velho Epicuro. Confiemos no criador da aeronave, que é Deus, e confiemos no plano de voo do piloto, que também é Deus. Talvez Ele, que é perfeito, não tenha desejado criar uma obra pronta e acabada, mas uma em construção, em permanente marcha para a perfeição, apesar dos momentâneos e aparentes retrocessos. E, no final dessa odisseia, que é a própria existência, chegaremos ao porto final, sãos e salvos, puros e redimidos, recolhidos ao corpo místico de Deus, como pequeninos agasalhados em colo aconchegante e protetor. Para finalizar, considerando que Epicuro fez várias perguntas, seguindo as pegadas e as lições de Lavoisier, quero fazer apenas uma: será se algo ou alguém que obteve a existência poderia algum dia perdê-la, ou haverá apenas uma transformação existencial, uma nova dimensão do existir, do ser? Sem ansiedades, confiemos e esperemos. Em Deus.

terça-feira, 9 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


9 de março

O grande Machado de Assis disse que teria meia dúzia de leitores. Ora, se Machado que era o Machado dizia isso, que direi eu? Bem, o fato é que um de meus poucos leitores, no caso o professor Nelson Rios, de Regeneração, dizendo que amanhã será o dia do sogro, e que ele gosta muito do seu, o senhor Raimundo Rodrigues Coimbra, pediu-me escrevesse alguma coisa sobre esse parente por afinidade. Inicialmente, devo dizer que nunca fui dado a escrever poemas de circunstância ou a pedido. Nunca tive habilidade para isso, mas desta feita abrirei uma exceção, mesmo porque o texto será em prosa. Por falar em parente por afinidade, se realmente houvesse afinidade, entre genro e sogro, sem dúvida seria uma grande dádiva e bênção. E se houvesse amizade, melhor ainda. O fato é que não escolhemos nossos parentes, simplesmente nascemos em determinada família. Já os amigos, não; nós os escolhemos, pelas afinidades, pelas identidades, simpatia e admiração. Diz-se que os opostos se atraem. Isso pode ser verdade na física, no eletromagnetismo, mas não creio ser na amizade e nem no amor. Por que um homem bom e de bem seria amigo de um bandido, sobretudo perverso? Não creio haver motivo para isso, mesmo porque um homem mau e do mal não é amigo de ninguém, mas apenas cultiva os seus interesses e finge amizade, na defesa de suas conveniências momentâneas. Agora, a mulher ou o marido são escolhidos por nós. Consequentemente, vamos ser genro ou nora de um parente de nosso cônjuge, que ele não escolheu, e que veio de contrapeso com o casamento. A Bíblia diz que, quando uma pessoa casa, deixa o pai e a mãe, para ir ser carne da mesma carne de outra pessoa. Claro, o texto sagrado não está recomendando a ninguém o abandono de seus pais, mas advertindo-o de que a sua preocupação, em primeiro lugar, deve ser com a família que irá constituir, principalmente com a vinda dos filhos. No Brasil, seja por brincadeira ou por preconceito, as sogras são estigmatizadas, e consideradas verdadeiras megeras, vítimas das mais sarcásticas piadas. Em outros países, essas parentas afins são consideradas uma espécie de segunda mãe, e até são chamadas e tratadas como tal. No Brasil, talvez a sogra seja considerada uma espécie de mãe postiça, e muito desse preconceito venha de velhas estórias infantis, em que as madrastas maltratavam os enteados, sendo que uma delas enterrou uma orfãzinha, que, com um fio de voz, sumida e chorosa, vinda das entranhas da terra, pedia ao capineiro de seu pai para não lhe cortar os cabelos, que haviam nascido e crescido do ventre da terra. Esse conto cortava o coração dos lacrimejantes pequenos que o ouviam. Há o ditado popular que diz: “Mateus, primeiro os meus”. Quiçá, em muitas mulheres, haja mesmo uma nítida preferência pelos seus filhos do que pelos enteados, mas isso não pode ser generalizado. Muitas madrastas foram mães extremosas para os enteados, e cuidaram deles com todo o desvelo de uma mãe de verdade. A mesma coisa sucede em relação a sogros e sogras: muitos são verdadeiros pais para seus genros e noras, e lhes dedicam um verdadeiro amor familiar. Estimo que o meu leitor Nelson Rios, professor de matemática, mas versado em Humanidades, nesse aspecto seja um privilegiado, por ter um sogro de sua máxima estima e benquerer.

EMOÇÃO NO CIRCO


Para João Miguel e Elmara Cristina

Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.

Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado a lado
pelas piruetas de
capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.

As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...

A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança.

segunda-feira, 8 de março de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A BARCA E OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE

O céu começou a ficar carregado, como se fosse chover. Partículas sólidas e sujas pairavam no ar, prenunciando uma chuva ácida. Bruscamente sobreveio a tempestade. Nuvens giravam no céu em alucinante velocidade, formando um torvo torvelinho. Quando a velocidade giratória das nuvens diminuiu observei que vinha um grande e arcaico barco, com um grande rombo em seu casco remendado, conduzindo os quatro cavaleiros do apocalipse. Achei estranho o fato de que eles vinham naquela velha banheira, e não em seus árdegos e fogosos corcéis, como anunciado na profecia, ou, ao menos, numa lancha movida a jato, ou num caça supersônico, que seria o mais adequado a sua missão de extermínio. Estranhei, mas achei que fosse mesmo coisa do final do mundo ou dos tempos, o que daria no mesmo nonsense. Quando eu dava tudo como consumado, diante daquelas figuras apocalípticas, eis que as nuvens, por onde o barco singrava, voltaram a girar vertiginosamente, numa velocidade cada vez mais alucinante, até que se transformaram num buraco negro e tragaram o barco e seus tripulantes. Mais uma vez o final do mundo não se consumara. Respirei aliviado e segui em frente, quando vi o buraco negro devorar-se a si mesmo, e transformar o céu tempestuoso em ameno e azul céu de brigadeiro.

domingo, 7 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Componentes da mesa de honra: Carlos Alberto (reitor UESPI), Paulo Nunes (pres. Conselho Estadual da Cultura), Nerina Castelo Branco (decana APL), Oton Lustosa (representante TJ-PI), dom Juarez Sousa (bispo de Oeiras), Wilson Martins (vice-governador), Reginaldo Miranda (pres. APL), Temístocles Filho (pres. Assembleia Legislativa), Pe. Vicente (pároco de Passagem Franca), Fonseca Neto (novel acadêmico), Eliana Sampaio (Conselho Estadual da Educação) e Antônio José Medeiros (secretário da Educação).

7 de março

Após sua concorrida festa de posse, encontrei ontem, na APL, o novel acadêmico Fonseca Neto. Perdi o posto de “benjamim” para ele, que fica agora na extremidade dos modernos, enquanto a professora Nerina Castelo Branco continua na extremidade dos mais antigos, ocupando o decanato. Seu longo discurso, foi bastante encurtado pela emoção e beleza do conteúdo, que nos prendeu a atenção e nos arrancou aplausos. Tive a honra e a satisfação, na qualidade de 1º secretário da Academia, de ler o seu termo de posse, e fiz questão de fazê-lo em alto e bom som. Conheço-o faz mais de trinta anos, quando ele esteve na solenidade em que tomei posse do cargo de presidente do Diretório Acadêmico “3 de Março”, em Parnaíba. Depois, o apoiei em sua campanha vitoriosa para o Diretório Central dos Estudantes – DCE-UFPI. Em 1979, encontrei-me com ele na praia de Atalaia, oportunidade em que sorvemos umas cervejas, e entramos em altos “papos”, de conteúdo cultural, político, ideológico, histórico, que a nossa ardente e emotiva juventude impulsionava. Estiveram conosco outras pessoas, que as brumas do tempo já diluiu em nossa memória, mas, eu e ele, achamos que poderiam ser, entre outros, o Reginaldo Costa e o Bernardo Silva, do jornal Inovação, e talvez o poeta Alcenor Candeira Filho. Afinal, assim já se passaram mais de trinta anos. No calor e empolgação da conversa – e por que não confessar? - da libação etílica, perdemos a noção da passagem do tempo, e o fato é que o nosso bravo e novel acadêmico Fonseca Neto perdeu o bonde, mas não perdeu a esperança, como Drummond, em seu poema. Seguiu comigo para Parnaíba, em minha motocicleta CG-125. Mas, para novo infortúnio do Fonseca, quando nos aproximávamos da cidade, minha moto parou de funcionar por falta de gasolina. Para atenuar a minha culpa, pela possível imprevidência, devo esclarecer que esse modelo de veículo não possuía, na época, mostrador de combustível. Quando nos sentíamos desamparados, eis que um automóvel Brasília parou ao nosso lado. Era o deputado Elias Ximenes do Prado, meu conhecido, que nos oferecia carona. Aliás, em muito boa hora, pois o Fonseca conseguiu embarcar em ônibus da extinta empresa Marimbá, cuja agência ficava na avenida Capitão Claro, quase no cruzamento com a Álvaro Mendes. Consta que no outro ônibus, que trouxera o Fonseca, os seus colegas voltaram entristecidos, achando que ele teria se afogado ou teria sido arrebatado por alguma entidade marinha, e ido para as encantadas terras do sem fim. O deputado Elias me levou a um posto de combustível, onde adquiri gasolina, e me conduziu até onde ficara minha motocicleta, que voltou a funcionar a pleno vapor. E voltei a varar o tempo e o vento, parafraseando um poema de Alcenor, dos nossos bons tempos de motoqueiros.

sábado, 6 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


6 de março

Finalmente, entreguei ontem o meu trabalho, para que possa ser avaliado pelo professor Luís Carlos Martins Alves Júnior, que ministrou o curso O Positivismo Jurídico e a Jurisprudência, para qualificação de magistrados do Piauí. O mestre é procurador da Fazenda Nacional, junto ao Supremo Tribunal Federal, é lente de alto gabarito de universidade do Distrito Federal, e é meu conterrâneo de Campo Maior, filho de um amigo meu. Cada juiz deveria ter como base para esse trabalho a sua mais difícil decisão judicial. Entre outras sentenças em causas complexas, escolhi uma em que o impetrante do mandado de segurança fora demitido de seu cargo de motorista oficial do município porque supostamente teria se apropriado indevidamente da importância de dez reais. Segundo ele, na petição inicial, viajou a Teresina, conduzindo a ambulância municipal e quatro pacientes, portando a verba de sessenta reais, fornecida pela Secretaria de Saúde. Logo na consulta do primeiro paciente, gastou cinquenta reais. Diante dessa situação, comprou um cartão telefônico para pedir instrução a seu chefe, sobre o que deveria fazer. À tarde, com fome, gastou a bagatela restante. Alegou que não recebeu diárias e nem suprimento de fundos para pagamentos de pequenas despesas. Em suas informações, o prefeito alegou que ele se apropriara indevidamente dos dez reais, e que por essa razão fora demitido, através de processo administrativo, em que lhe fora dado o direito a ampla defesa, e em que fora observado o princípio do contraditório, mas que ele, embora intimado, se mantivera inerte. Nada disse sobre os fatos alegados pelo impetrante e muito menos os negou. Não juntou o tal processo administrativo. Ora, ao longo de meus mais de doze anos de magistrado já vi grandes ignomínias, e já vi, algumas vezes, o gestor municipal, por questiúnculas pessoais e picuinhas políticas, querer massacrar humilde barnabé municipal, que, não raras vezes, só tem por si a razão e o direito.

Entendi que não cabia na cabeça de ninguém, detentor de um mínimo de raciocínio, que um servidor público, tendo recebido apenas sessenta reais, fosse ter a insanidade de fazer um alcance de dez reais, pois isso daria logo na vista da pessoa a quem prestaria conta, quando retornasse da viagem, pelo imediatismo e visibilidade do fato. Também seria rematada loucura que ele fosse arriscar o seu emprego por causa da ínfima quantia de dez reais. Seria um completo bocó, um consumado beócio. O lógico é que ele pretendia que a administração arcasse com essa despesa, como seria o correto, já que o gasto ocorrera em virtude da viagem, ou pelo menos, na pior hipótese, que esse “astronômico” gasto fosse descontado da diária que o município lhe devia, posto que não lhe pagou diária e nem suprimento de fundos para pequenas despesas. Portanto, tudo bem equacionado e sopesado, o município é que lhe devia, e não ele à unidade administrativa. Afirmei, sem dúvida com certa dose de ironia, que nem o célebre sensor romano Catão estaria à altura da exação administrativa de Cocal de Telha; que nem mesmo o rigorismo do formidável e legendário legislador Dracon equiparar-se-ia ao fundamentalismo, quase diria xiita, da austeridade da referida administração. Terminei por acrescentar que esse rigor atingira o paroxismo, pois superara a famosa Lei de Talião, do vida por vida, dente por dente, olho por olho, uma vez que o emprego, mesmo de um barnabé municipal, excedia incomensuravelmente em importância a bagatela de dez reais. Não houvera a menor proporcionalidade entre a aplicação da pena e a falta cometida, que a meu ver sequer existira, pelas razões que explanei acima.

Considerei que, talvez, a exação do gestor do município de Cocal de Telha só encontrasse paralelo no apego formalista dos fariseus à lei mosaica. Os fariseus se celebrizaram pela ostentação exagerada de suas pretensas virtudes, pois se compraziam na aparência e nas exterioridades, e não na essência espiritual, pelo que mereceram umas boas sovas e vergastadas verbais de Cristo, que deles disse serem semelhantes a sepulcros, caiados por fora, mas podres por dentro. Da mulher de César se disse não bastar ser virtuosa, mas também que deveria aparentar sê-lo. Da administração impetrada, disse esperar, sinceramente, o contrário: esperava que não apenas aparentasse, mas que, de fato, fosse impoluta, como quisera deixar transparecer ao demitir o seu servidor, em conseqüência do suposto desfalque de dez reais. Diante dos mensaleiros, valeriodutos, sanguessugas e outros ralos e buracos negros em que o dinheiro público se esvaía, asseverei que estava certo de que essa demissão por causa do pretenso desvio de dez reais, diante das circunstâncias em que teria ocorrido, não passava de uma descomunal ironia ou de um formidável e desconcertante blefe. Invocando princípios do Direito Penal, aduzi que poderia falar em estado de necessidade, quando o impetrante teve que comprar o cartão para fazer o telefonema, no próprio interesse do serviço público, em decorrência da falta de suprimento para pagamento de pequenas e eventuais despesas, e que poderia falar em estado famélico, quando o impetrante precisou saciar sua fome, já que não lhe foi paga a sua diária, como igualmente poderia invocar o principio da insignificância ou da bagatela, ante a “desmesurada” importância de dez reais. Em suma, além de outros argumentos, fundamentei minha decisão, em seara do Direito Administrativo, com princípios do Direito Penal, e mandei que o humilde servidor fosse reintegrado em seu cargo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

SELETA NACIONAL


SONETO

Carlos Pena Filho

O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas, prefiro o que se esconde
nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.

quinta-feira, 4 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



4 de março

Recebi a visita do professor Alexandre Costa. Fazia meses que não o via. Estava feliz, porque foi eleito delegado de Regeneração em um congresso cultural e porque irá cursar mais uma especialização. Lembrei-lhe que, desde que assumi a Comarca de Regeneração, tanto para pessoas com interesse cultural, como nos eventos culturais de que tenho participado, venho defendendo a ideia de que o município deve restaurar os folguedos das danças e cantigas de São Gonçalo. Tenho dito que, bem ou mal, o folguedo bumba meu boi vem sendo preservado, tanto na capital como em vários municípios do estado. Defendo que em terras gonçalinas, mormente em Regeneração, cuja matriz foi erigida sob a invocação desse santo alegre, violeiro e festeiro, o grande diferencial seria o cultivo das rodas de São Gonçalo, que outrora eram praticadas em vários municípios. Já observei que Amarante, situada a dezoito quilômetros de Regeneração, vem preservando as suas tradições, a sua cultura e os seus folguedos, como a dança do cavalo piancó, as danças portuguesas, o seu patrimônio arquitetônico, que é um dos mais ricos do Piauí, o cultivo do poeta maior Da Costa e Silva e da literatura amarantina. O professor Alexandre revelou-me que, para minha satisfação, a comunidade de Morro Branco vem realizando as rodas de São Gonçalo, e que, de uniforme novo, patrocinado pelo município, fez bela apresentação no dia 2 de dezembro passado. Contou-me que o Ponto de Cultura de Regeneração, dirigido pelas Irmãs Franciscanas, conseguiu aprovar o projeto “Fulô de Piqui”, que contempla, entre outras metas, o apoio e incentivo a esse grupo gonçalino de Morro Branco, para que a dança e as cantigas de São Gonçalo voltem a ter a pujança que já tiverem no passado. E isso fará jus à história da Vila de São Gonçalo da Regeneração, outrora habitada pelos índios gueguês e acoroás, que tanto gostavam de cantar e dançar, como igualmente gostava o padroeiro São Gonçalo, conquanto para finalidades pias.

quarta-feira, 3 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


3 de março

Encontrei há pouco, no restaurante Gula-Gula, em Regeneração, a professora Dolores Maria. Com o seu jeito alegre e expansivo, disse que estava com saudades de mim, mas do poeta, e não do juiz. É que estive de recesso e de férias, e fazia meses que não nos víamos. Tempos atrás, num ato falho, chamei-a de professora Maria da Cruz. Pareceu-me que ela não me ouviu, o que me causou estranheza. Explicou-me haver pensado que eu não estava falando com ela, uma vez que seu nome era outro. Imediatamente, respondi-lhe, em tom de blague, que Cristo morrera na Cruz, mas que certamente sentira muitas “dolores”, e fora por isso que eu a chamara de Maria da Cruz, e não, Dolores. De qualquer modo, a cruz tornou-se o símbolo da Fé em Cristo.

Soube, por uma nota do Simão Pedro, publicada no blog Bitorocara, que faleceu em Campo Maior o decano dos comerciantes. Vendia miudezas, como equipamentos de pesca, tubos de linha, balas, guloseimas etc., no centro comercial da cidade. Morava num pequeno apartamento, no fundo de sua loja. Pelo que interpretei do texto e da conversa que mantive com Simão Pedro, ao telefone, ele era um celibatário, de hábitos um tanto esquisitos. Embora fosse comerciante, e como tal tivesse que manter contatos com seus clientes e fornecedores, levava uma vida reclusa, quase um ermitão, fechado em si mesmo e no seu pequeno aposento. Tempos atrás, saía a noite, para passear em sua Rural, provavelmente no intuito de se desanuviar de suas tristezas e preocupações. Criava, no quintal, mais de duas centenas de gatos, o que, só pela quantidade, já era uma excentricidade. Por que ele criava tantos gatos? Dois ou três não lhe seriam o bastante? Seria uma maneira de driblar e compensar a tristeza e a depressão, se é que as tinha? Gato é um animal que aguça e excita o imaginário popular, inclinado a acreditar em crendices, lendas e superstições. Diz-se que o gato tem sete vidas e que vê e pressente coisas, que ninguém mais percebe. Esse comerciante, de nome Moisés, não recebia visitas, não tinha amizades íntimas. Era recluso, calado, sem expansões emotivas, embora fosse educado e tratasse bem os seus clientes. Sentia-se uma nota de tristeza, escondida em seu olhar. Fico imaginando em que pensaria ele, na solidão de seu quarto, à noite, morando num local que era movimentado durante o dia, mas que, nas madrugadas, transformava-se numa cidade morta, num quase cemitério. Que emoções sentiria ele? Que segredos guardaria ele? Seria infenso às emoções humanas? Seu segredo seria não ter nenhum segredo, e levar a vida comum de um homem simples e bom, mas que optou em viver sozinho? Não sei. Talvez ninguém saiba. E ele, para sempre, levou as respostas consigo. Respostas que – quem sabe? - nem mesmo ele as tivesse, posto que, muitas vezes, o homem é a esfinge de si mesmo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A MALDIÇÃO DO POETA


Elmar Carvalho

Lobo solitário
e maldito das estepes
nas quais nunca estive,
açoitado pelos estiletes do vento e do frio,
uivando para a Lua
que jamais verei porque
para não a ver
meus próprios olhos ceguei.
Cão danado
cão condenado
por si mesmo
a uma eternidade
de trabalho forçado.
Judeu errante
e sem remissão
– por sobre desertos de areia e de gelo –
fugindo sempre
de si mesmo.
Poeta maldito
até a infinita geração.
Cosmopolita proscrito
das fronteiras do
tudo e do nada.
Prometeu acorrentado
dilacerado pelas aves
agourentas e de rapinas
que saíram de seu cérebro
– caldeirão vulcânico
em contínua erupção –
a vomitar monstros e fantasmas
de milhares de membros e cabeças.

DIÁRIO INCONTÍNUO




1º de março

Neste sábado, na Academia, foi-me entregue o opúsculo do “XXVIII Sarau Lítero-Musical Ágora”, evento que vem sendo organizado, mensalmente (última quinta-feira de cada mês), por João Carvalho, há um ano e meio, como a numeração indica. Seu organizador é um médico humanitário, que realiza um trabalho social relevante, voltado especialmente para os portadores do mal de Alzheimer, de cuja Associação Brasileira [de Alzheimer] – Regional do Piauí é ele presidente. Tem promovido constantes palestras sobre essa devastadora doença. Quando fui juiz em Capitão de Campos, já ouvia falar no João Carvalho, que havia sido médico nessa cidade, como um cidadão bem-humorado e cordato. Depois, o conheci pessoalmente e atesto essa opinião. O Sarau Ágora conta com o apoio decisivo dele, que gasta um bom dinheiro em sua realização, embora tenha o apoio de algumas entidades. Ajudam-no a levar adiante essa difícil empreitada os poetas William Melo Soares, velho amigo, desde meus tempos parnaibanos, Kátia Paulo, Graça Vilhena, e mais Ilza Bezerra e Dionísio Neto. No evento são recitados poemas, intercalados por belas apresentações musicais, com músicos e cantores especialmente convidados. Em cada mês é homenageado um poeta diferente. No sarau de dezembro todos esses poetas são homenageados conjuntamente, como apoteose dessa sequência lítero-musical. As pessoas presentes podem recitar poemas de sua autoria ou da lavra de outros poetas. Além de bardo traquejado, de muita sensibilidade e sutileza, João Carvalho também é músico competente, seja manejando um teclado ou empunhando um sonoro pinho. Para gáudio meu, já tive a ventura de ser um dos poetas homenageados, numa das edições do sarau, com direito à publicação de uma bela plaqueta, que coligia uma seleta de meus poemas preferidos. Vida longa ao sarau de nosso bravo e boa-praça João Carvalho!