segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A função da epigrafe em Da Costa e Silva


Cunha e Silva Filho

         Não se pode ignorar que poetas  e mesmo   ficcionistas  não  utilizem os recursos das  epígrafes com  intenção  inócua  ou  gratuita. As epigrafes, a nosso ver, configuram verdadeiros  ícones,  indiciam preferências, gostos, definem adesões ou filiações a  períodos  literários, fases  de vanguardismos   em voga ou  mesmo  já superadas. Podem  estar,  portanto,   fazendo alusões ao presente,  ao passado próximo  ou  mesmo  antiquíssimo,  recorrendo a autores   gregos e latinos ou de outras  procedências  não ocidentais. .No período  romântico  da literatura brasileira,  foi  largamente   empregado e é bem provável que,  a partir do Romantismo,  as obras  de  nossos autores   tornaram  o  recurso da epígrafe uma prática  generalizada, segundo  podemos ver  em  Gonçalves Dias(1823-1864), Castro Alves(1847-1871),  Álvares  de Azevedo(1831-1852),  Casimiro de Abreu (1839-1860), entre  outros.
      O crítico e ensaísta  Fabio Lucas, em  estudo bastante  original,, sintetiza bem  o nosso  ponto  de vista: “O clima intelectual, não há dúvida, transpira  copiosamente   das epígrafes.”[1]
     Dessa forma,  elas  podem  funcionar como   um indicador literário ou ideológico. Seu emprego é vasto na literatura universal, Amplo também no campo do ensaísmo em todos os ramos  do saber.
     Na definição do poeta, crítico e ensaísta  Gilberto  Mendonça Telles, as  epigrafes, para ele  são   um tipo de discurso  paralelo, atuam em dois  sentidos, servem  de abertura para um texto novo e ao mesmo tempo sinalizam a sua  própria  procedência: “... funcionando como elemento de relação do texto com o contexto e sendo, portanto,  um dos  indicadores culturais da obra.”[2]
     Por  sua vez,  o  estudioso  Carlos  Reis ainda lembra um outro  tipo  de   relação   intertextual, de que a epígrafe é um dos  exemplos, chamado de  paratexto, no qual  se enquadram outros  textos tais como  o prefácio,  o posfácio, a dedicatória. Segundo  Reis,  a epígrafe “... invoca  uma palavra  autoritária, que é a de um autor ou  obra com reconhecido peso cultural.  e ainda acrescenta  que   essa palavra   pode-se desdobrar em  mais de uma   finalidade ou função: temática, ideológica, “veladamente”   com   inclinação  axiológica ou ainda  uma função “meramente  reverencial” pela qual um autor estabelece uma forma  de  “ascendência” reconhecida de um autor citado  pelo  autor  que cita. [3]
    A escolha  de uma  epígrafe é um fato deliberado, consciente, um índice, como já  referi, pelo qual  um autor pressupõe sugerir  uma identidade ou  afinidade de uma dada situação da sua  própria  obra com o fragmento  citado. Neste sentido,  vale também como  relação  dialógica entre textos de um autor com  outro ou outros.
     Por outro lado, a epígrafe, mostra a escolha de um   trecho  de extensão  pequena ou um pouco maior   de uma  obra que representa uma espécie de ápice da semiotização  entre um  texto – o do autor que cita –e do autor ou autores citados. Esse cruzamento de textos, exprimiria, em  geral,  a ideia de uma comunhão  de visões pessoais, a chancela  de uma autor consagrado,  ou poderia até ser  usado   como  mera peça decorativa para  impressionar  terceiros.
     Na obra de Da Costa e Silva (1855-1950)[4] comparecem  pouquíssimas  epígrafes, ou seja,  somam ao todo, cinco. Os autores  das epígrafes,  na ordem,  em que  aparecem  na obra  dacostiana são: Verhaeren (1855-1916) na obra  Zodíaco (1917) em que, abaixo da citação  de Verharen há um outor paratexto, uma   comovente dedicatória ao Piauí,  estado  natal de Da Costa e Silva[5]   Verhaeren, no poema  homônimo, editado em 1917, constituído de um  único  poema; Rubén Darío(1867-1916), na obra   Pandora(1919);.Shakespeare(1564-1616 )na obraVerônica(1927), que se inicia com um poema isolado,  de  título homônimo e seguido da  primeira parte  dessa  obra, “Imagens da vida e do sonho.”  Na segunda parte da mesma obra, “Imagens do amor e da morte”,   existe uma epigrafe feita  apenas de  uma frase, fragmento  de  uma carta de Heloísa, sobrinha  do cônego Fulbert, dirigida a Abelardo, teólogo e filósofo francês.
     Ainda na segunda parte de Verônica,  há uma  dedicatória para  Alice,  a  primeira  esposa  de Da Costa e Silva, o que também, sendo uma dedicatória,   constitui uma paratexto, da mesma  sorte que em Pandora,  abaixo  da epígrafe de Rubén Darío,   há uma outra  dedicatória  em latim  dirigida a um irmão de Da Costa e Silva, formando mais um paratexto.
      As epígrafes poéticas,  ademais,     dão manifesta  evidência de uma autor sintonizado com o fenômeno  poético entendido  na sua mais  elevada  significação. Neste  ponto,  pode-se  perceber  o quanto  ele foi um  poeta  atualizado.
    Os grandes  expoentes da poesia  francesa da nova poética  ocidental, servindo  para ilustrar  Verhaeren,  Verlaine1844-1896),  Mallarmé (1842-1898), Baudelaire (1821-1867), entre outros,  foram-lhe leituras   frequentes e por  certo  por ele  assimiladas  em  alguns  aspectos, quer temáticos, quer  formais.
   Vejamos, agora,  a primeira   epígrafe, extraída de um dos  poemas  da obra Les forces  tumultueses (1902): de Émile Verhaeren, poeta da admiração  de Da Costa e Silva:

Oh! Ma misère et ma gloire, cerveau
PA
lais de ma fierté, cave de ma torturre,
Contradictoire amas de  problêmes nouveaux
Qui s’acharnent sur la nature.[6]

[Oh! Minha miséria e minha  glória, cérebro
Palácio de meu  orgulho, refúgio de minha tortura,
Contraditória soma  de problemas novos
Que se enfervoram  na natureza.]  [7]
Não custa nada  perceber  a tensão dialógica entre os versos  acima e a substância temática deZodíaco: a natureza e tudo  aquilo que ela  problematiza na consciência do  bardo, A consciência aguda dos problemas  torna muito mais  sofrida  a existência de quem  sobre eles medita. É glóriaporque se transmuda em Arte; é miséria porque não concorda com a  acomodação e a indiferença. A Arte é uma resposta à insatisfação,  à injustiça ou  indignação.
         A segunda  epígrafe de Verhaeren, que é retirada da obra La multiple splendeur(1906) abre o conhecido  poema  dacostiano dedicado ao poeta  belga:

Et le lent defilé  des trains funébres
Commence, avec ses bruits de gonds
Et l’entrechoquement brutal des  wagons
Disparaissant -  tells des cercueils – vers les tenèbres.[8]

[E o lento desfile de trens fúnebres
Principia, com o barulho de gonzos
E o entrechocar brutal dos  vagões,
Sumindo – que nem féretros –
                               rumo às trevas.]

            Compare-se, para ilustração, com  os quatro últimos verso do poema “Verharen”:

                                        (...)

Na fogosa pressão da máquina, seguida,
Da longa procissão dos vagões de transporte,
Na indiferente  e célere corrida,
Ao ruidoso rumor dos seus carros  de morte” [9]

            Os versos acima, segundo  tive oportunidade de comentar linha atrás,  mantêm um dialogismo com o final do  poema dacostinao se  atentarmos  especialmente para a conclusão deste, i.e.,  uma velada alusão ao destino  do poeta belga.
           Ambas as estrofes verhaerianas  utilizadas como  epígrafes indicam ainda duas vertentes de Émile Verhaeren, o ambiente urbano tumultuado e o meio físico natural, aspectos  da sua temática,  de resto,  já  notadas  por  analistas de sua  poesia, e por outros  intérpretes   Tal contraste  de experiência  poética caracterizaria um  traço   de modernidade à  sua poesia.  Essa dupla vertente opositiva fora  apontada,  por sua vez,  pelo  arguto  crítico e ensaísta  maranhense Oswaldino Marques como  elementos presentes em Da Costa e Silva.[10]
           Para aquele ensaísta  o  “Poeta da  Saudade" fora da mesma forma  que o  belga “atraído  ao mesmo  passo, pela refulgência  dos grandes  centros culturais  europeus e  pelo   discreto sortilégio de sua  Amarante interiorana, dotada, não obstante,  do poder de nele  inflamar evocações ‘divinas’[11] Contudo,  em Da Costa e Silva só em parte  poeticamente   se realiza, ou seja,  em diversas  passagens  de Zodíaco o poeta  dá expansão em poemas versando  sobre a paisagem, o homem e a natureza  interioranas, como neste ponto o fora para  Verhaeren a sua  Flandres.    
         No plano da  experiência vivida, sabe-se que Da Cosa e Silva,  por  razões  profissionais,  morou em  muitas capitais brasileiras. Desta maneira,  no plano  da realização poética, a atração  também  pelas urbes, as grandes  capitais,  nada  produziu, apenas  ficou  nos limites da subjetividade,  admiração  e desejo.
         A epígrafe de Rubén Darío,  retirada da obra Cantos de vida y esperanza (1905), que dá entrada à obra Pandora sustenta também  um  diálogo intertextual com  o  poeta nicaraguense. Já nos reportamos antes ao ângulo em parte  confessional ou autobiográfico da  poética dacostiana. Não lhe  são anódinos à cosmovisão poemas como: “Ego..”(p. 203) e “...Sum” (, p.204),  nem tampouco “Paganismo” (, p. 209), “A sombra de ouro” (, p. 223), “Mater veneranda” I  e II (p.224-225). “Saudade” (p.75) e a série de sonetos “Sob outros céus” I, II,II,IV e V (p. 227-229. Neles Arte, vida, revelação e verdade se transfundem em poesia  estreme, consoante ressoam nos versos  rubendarianos: [12]

Vida, luz y verdad, tal triple lhama
Produce la interior lhama infinita;
El Arte puro como  Cristo exclama:[13]
Ego sum lux, et veritas et vita.

[Vida, luz e verdade, tal tripla chama
Produz a inteirior chama infinita;
A Arte pura como  Cristo exclama:
Eu sou a luz, a verdade e a vida.]

        Na epígrafe que antecede a obra Verônica, formado de um  pequeno  fragmento  retirado da  tragédia Macbeth,[14] de William  Shakespeare,[15] quero arriscar  duas  perguntas: 1) Por que Da Costa e Silva  acoplou, com leve modificação, uma parte da frase da rubrica  anunciando a presença de oito  reis, o último com  um espelho (glass, em inglês) na mão sendo seguido pelo fantasma de Banquo e com ela forma  a epígrafe  usada  como  introdução aos poemas  deVerônica? 2) Por que juntou duas  partes  antes  pertencentes a enunciados  formados  de orações  e com  isso  “criou”  uma  frase iniciada por um conector aditivo  “e”(and, em inglês) seguido de uma oração subordinada  adjetiva? [16]
      É curioso assinalar  que o fragmento da  rubrica se completa  harmoniosamente  com a fala de Macbeth, o assassino do rei Duncan da Escócia. Além disso, semanticamente, as duas partes, antes separadas espacialmente na página e  distantes, formam  um sentido  perfeito  e decisivo  ao contexto e à situação  física do ambiente da tragédia. Não seria  possível que Da Costa e Silva, de memória,  pudesse  engendrar  tal artifício  no qual  os fragmentos  fundidos  fazem   sentido  e   são  parte da ação dramática com a presença   das três feiticeiras?. Suponho que, na fusão dos  dois  fragmentos, haveria    antes um procedimento  gerado  pelo  poeta naqueles moldes que já o fizera  no que respeita ao  poema  “À margem de um pergaminho”,  da obra Pandora?[17] Por outro lado, atente-se, na referida  epígrafe  de Shakespeare, para o pronome “us”(“nos”, em português): “And in his hand a glass which shows us many more”.[“E nas mãos um espelho  que nos  revela muito mais”.] [18]
   No texto   do segundo fragmento, conforme  se vê acima,  aparece o pronome “us” (“nos”, em português), e não o pronome “me” (“me,” em português).  do  texto original de Macbeth. Não  implicaria  isso   num lapso de Da Costa e Silva? Pois esta troca, em princípio,   não combina com a realidade  dos poemas  de Verônica  em grande parte focando   a condição do sujeito lírico com status  autobiográfico.
    Ou, por outra,  não seria  deliberada a troca da citação com  a finalidade  de  agregar  a situação  pessoal do  poeta estendendo-a   a uma  plano  universal  da condição  humana? Paira o enigma ou senão o  erro  na citação da  fonte  original. Um crítico,   certa vez,  afirmou  ser um dos requisitos  básicos  dessa atividade suscitar  perguntas, visto ser o ato do intérprete uma sondagem da obra e, por  ser assim,  um perquirição de natureza  plural, multívoca,  aberta  a novos  ângulos   e percepções, sem dogmatismos  conclusivos e definitivos.
    Verônica não  trata da luta  pelo poder da riqueza  e do poder   político.  Em vez de uma  tragédia, é um canto elegíaco. A vida e a morte que nessa obra  se cruzam não são  produtos  da miséria dos homens contra os  homens,. Não se configura aqui a vingança contra a covardia. O “espelho,”  na  mão   do  derradeiro  rei visto através da  Macbeth, é apenas  a confirmação futura da  profecia  contada  pelas três  feiticeiras. Macbeth é a morte  anunciada na tragédia da avidez  e da cobiça do poder. Lady Macbeth, a sua mulher, é o instrumento  da persuasão ao  estado da malignidade  do marido. Na tragédia a culpa  do crime  é a certeza da morte do agressor. [19]
    Verônica, não,  é a vitória  do amor,   do sonho sobre a vida. O lirismo  vai permanecer entre o sonho e a realidade amarga  e desesperançada, entre  o desejo  da felicidade  térrea e  as dúvidas do além túmulo.O poeta vai  debater-se entre alternativas,     na dialética entre a carne e  o espírito,  da alegria e da  tristeza,  da certeza e da dúvida,  e desta a com o  imponderável,   ou com  os enigmas armados  pela  dor humana,  perda  do ente amoroso e,  contraditoriamente,  por certos  instantes  de  ludismo  irônico, em versos como “Mas seja tudo pelo amor de Deus.” Ou, em páginas anteriores,  aquele final de verso  em dísticos, que  diz “—Que reticências/ Nas existências!” O “espelho” dacostinao é de natureza diversa. Não traz  nenhuma  tragicidade,  apenas  recolhe  as alegrias,  tristezas e as dores do  homem. Faz-se transparente. A bela imagem do  aedo como  o “espelho do mundo,”[20] do poema  “Síntese”,  não traduz  o enigma  final mas recolhe todos os  estilhaços    da vida em sonhos,    perdas,  incertezas,  lamentos na travessia inexorável do tempo.
   A epígrafe  concernente  à mencionada  carta de Heloísa a Abelardo – “Faze de mim o que quiseres, menos  esquecer-me.” [21] - é,  de resto,  bastante  óbvia ao     associar-se  visceralmente  à perda  da bem amada, formando  um   sequência  dos  poemas  mais  liricamente amorosos  de toda a obra  do  poeta. É um longo e reiterado  desfiar  de lamento  pela  ausência da amada,  em poemas vibrantes   de saudade   e de  solidão, e não estou  falando  da  alta qualidade   das composições no  tom dolente  de ritmos e de musicalidade.
    O poeta aqui  se   revela   na sua condição  de simples  criatura  humana que, da matéria bruta da   dor   pela perda da amada,  passa a compor  poemas  de feição nitidamente  romântica, ainda que  só de longe possamos  encontrar ligeiros   traços  da imagética simbolista. Artista  habilidoso,   versátil e conhecedor  perfeito  e atilado   da arte  de  poetar, artesão  do poético,  Da Costa e Silva sabia se adequar  à forma  estética exigida pelo seus temas, afeito que era ao gosto  das  ousadias formais e experimentalistas, também  encontradas em outros  poeta  brasileiros, como,  por exemplo,  um Luís Delfino (1834-1910), um Manuel Bandeira(1886-1968), entre  outros vozes da  poesia brasileira.    
   O poeta nesse conjunto   de poemas de formatos  variados,  abre  o coração  e se entrega  de corpo e alma  a louvar  o bem  perdido. Nunca  foi  tão  autobiográfico  quanto  nesse  conjunto de versos  destinados  à sua  Alice Creio  que só no  último  poema  formado de um quarteto, o mencionado  “Síntese”, ele foge ao  tema  liricamente  amoroso   da segunda  parte  de  Verônica.





NOTAS:

[1] LUCAS, Fábio. O mundo das inscrições. In: _____.Fronteiras  imaginárias. – crítica. Rio de Janeiro: Edtiora Cátedra,  1971, p. 13-30.
[2]MENDONÇA TELES, Gilberto. Os limites da intertextualidade. In: _____.A retórica do silêncio. –  teoria e pratica do texto  literário. São Paulo: Cultrix/MEC,/INL, 1979, p. 21-37.
[3] Reis,  Carlos. O conhecimento da literatura – Introdução aos estudos  literários. 2 ed. Coimbra:  Livraria Almedina, 1999, p. 217.
Idem, ibidem.
[4] Neste ensaio,  todos  os textos citados da obra de Da Costa e Silva se referem à seguinte edição: Da Costa e Silva.. Poesias  Completas. 4 ed.  Nova edição  revista e ampliada e anotada por Alberto da Costa e Silva, com estudos sobre o  poeta por Oswaldino Marques e José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2000.
[5] SILVA,  da Costa e. Op. cit., p. 105.A dedicatória é: "Ao meu longínquo Piauí - na divina evocação de sua natureza maravilhosa."  Logo abaixo, a sigla " DCS."
[6] SILVA,  Da Costa e.  Poesias completas, op. cit., p. 106.
[7] As traduções  entre colchetes são de minha  autoria.
[8] SILVA, Da Costa e. op. cit., p. 190.
[9] Idem, p. 189.
[10] MARQUES,  Oswaldino. .Espelho do mundo: Refrações.  In: SILVA, da Costa e. Poesias completas,  op. cit., p.20
[11] Ibidem.
[12] Aqui apenas esboço  alguns  dados  básicos para ulterior  aprofundamento   das  relações  intertextuais   relativas  aos versos  de Rubén Darío.
[13] SILVA, Da Costa e. Op. cit., p.198.
[14] Idem, p. 245.
[15] SHAKESPEARE,  William.  Macbeth. In: ____.The complete works  of William Shakespeare. The Cambridge Editon  Text as edited by William  Aldis Wright, including  The Temple notes. Illustrated by Rockwell Kent, with a  Preface by Christopher Morley . Philadelphia: The Blakston  Company, 1936..
[16] Ver, na nota  anterior, a edição  citada de William  Shakespeare , onde se acha  a passagem de Macbeth, Act. IV, i, 73-108, p. 1045.
[17]Cf. . minha análise do  poema “Àmargem do Pergaminho” in: SILVA FILHO, Cunha e. Da Costa e Silva: uma  leitura da saudade. Teresina: EDUFPI- Editora  da Unversidade Federal do Piauí/APL – Academia  Piauiense de Letras, 1996, p. 37-39.
[18] Cf. a remissão à nota 13 acima.
[19] Igualmente,  no que concerne a maiores  reflexões intertextuais  entre   a epígrafe de Macbeth e Verônica o autor deste estudo deixa para uma  outra  oportunidade um desenvolvimento complementar .
[20] SILVA, da Costa e. Op. cit., p. 305.
[21],  Idem,. op. cit.,  p. 257.   

domingo, 17 de novembro de 2013

Seleta Piauiense - Da Costa e Silva


Nel Mezzo del Camin...

Da Costa e Silva (1885 - 1950)

Passou de leve a Esperança
Pelo meu coração...
Encantou-me no azul do meu sonho de criança:
Ardeu como uma estrela... E era um pobre balão!

Passou de leve a Alegria
Pelo meu coração...
O Amor, dentro em meu ser, como um jardim, floria...
Como é triste, meu Deus, esta recordação!


Passou de leve a Ventura
Pelo meu coração...
Como foi que passou, se a busco com loucura,
Sentindo-me infeliz por desejá-la em vão?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

ETERNO RETORNO


ETERNO RETORNO

Elmar Carvalho

memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.

ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.

recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
          hoje boleros
                 bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.

evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito – porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.

as mulheres amadas
na juventude fugaz
            não envelhecem
            não se corrompem
            não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.

recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs,
oriundos dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
      subterfúgios e refúgios
da memória.

O passado poderoso e renitente
retorna e continua vívido e presente
se contorcendo se retorcendo
      e se reacontecendo.   

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

TANGOS À MÉDIA LUZ



TANGOS À MÉDIA LUZ

Antonio Gallas

Após um pequeno hiato em nossa participação neste periódico, retornamos, agora, nesta edição, para narrarmos fatos do segundo dia da programação da Semana da Imprensa 2013 que, apesar de ter caído numa sexta-feira 13, nada desagradável ocorreu, mas sim muita alegria que começou com o farto coquetel oferecido pela Associação Comercial e Industrial de Parnaíba em sua sede no Porto das Barcas.

Na oportunidade o atual presidente da entidade, o contabilista Luís Pessoa, reuniu os comunicadores num pequeno, mas confortável auditório, onde fez um breve relato das lutas e reivindicações que a Associação Comercial desenvolveu nestes seus 96 anos de existência, em prol do crescimento da cidade da Parnaíba. Falou também das lutas atuais, citando, inclusive, as reivindicações feitas com empresas de aviação comercial no sentido de priorizar voos regulares para Parnaíba tendo em vista a cidade contar com um aeroporto de categoria internacional com capacidade para pouso e decolagem de aeronaves de grande porte. O presidente Luís Pessoa, anunciou, dentre tantas notícias alvissareiras,uma dando conta de um decreto governamental que doou à Associação Comercial, em regime de comodato, o prédio do Complexo Porto das Barcas. Segundo o decreto, “o imóvel destina-se a utilização gratuita pela Associação Comercial de Parnaíba, que terá responsabilidade pela sua conservação e manutenção, além de ofertar atividades e projetos direcionados ao resgate cultural e histórico”. O local deverá ser utilizado na promoção de atividades artísticas, culturais e turísticas. A utilização do citado imóvel apara atividades diferentes das propostas pelo decreto, o prédio volta a pertencer ao Estado.

Encerrado o coquetel em que todos saíram satisfeitos, dada a variedade de salgadinhos e de bebidas oferecidos (pode ser também oferecidas, se você fizer a concordância verbal com bebidas), um pequeno grupo “esticou” até à tradicional Beira Rio, no afã de bebericar umas outras mais, não porque não se estivesse satisfeito com as bebidas oferecidas no coquetel (de cerveja a whisky de primeira qualidade), mas porque esse grupo composto por mim, pelos jornalistas Bernardo Silva e José Luiz de Carvalho, dr. Renato Bacelar (que demorou pouco), escritor Pádua Marques, historiador Cosmo Rocha e o sindicalista e político Sérgio Ricardo, gosta mesmo de dar uma “esticadinha” e aproveitar que “a noite é uma criança” (up the night) como se diz em inglês. Para felicidade nossa, boêmios por excelência, um peque grupo formado apenas por três músicos se apresentava nessa noite na Rua da Cultura, evento que acontece toda sexta à noite na Beira Rio. Os instrumentos musicais que eles utilizavam eram um violino, um acordeão (pode ser também acordeon ou sanfona) ) e um pandeiro, o suficiente para produzirem música de qualidade para o mais refinado gosto. Esse grupo, que não pude identificar o seu nome, conseguiu transformar o popular em erudito. No seu repertório eclético, além de MPB estavam também famosos tangos tais como “La Cumparsita”, “Uno”, “Corrientes”, “Mi Buenos Aires Querido” , e muitos outros. 

Ao escutarmos os tangos, eu e o Bernardo Silva comentamos sobre uma época na década de 70 quando residíamos na Rua Vera Cruz no Bairro São José e que todos os sábados, a partir da meia noite reuníamos na calçada da minha residência para escutarmos o programa Tangos à Média Luz levado ao ar pela Rádio Globo do Rio de Janeiro, AM 1220 KHZ. É claro, na companhia de uma “loura suada” ou de um tinto seco. Desse grupo seleto de apreciadores da boa musica portenha, legado deixado por Carlos Gardel, faziam parte além de mim e do Bernardo Silva, o poeta Elmar Carvalho, o “monstro” ou “enorme” Reginaldo Costa, algumas vezes o “potência” de Paula e alguns outros cujos nomes não me afloram à mente no momento.

A música nos transporta através dos tempos, nos enleva e nos traz recordações. E quando escuto um tango lembro-me de alguém que conheci em São Luís do Maranhão quando lá residi. Costumávamos escutar e tentávamos até dançar algumas vezes. Ela, apesar de morar em um prostíbulo, tinha um gosto refinado pela música e pela poesia. Muitas vezes quando ouvíamos o tango “la cumparsita” ao solo de um bandoneon ela costumava recitar o poema abaixo de autoria de Paulo César Pinheiro:

O tango é um coração nervoso de ansiedade,
Sangrando à meia luz de um cabaré esfumaçado.
O tango é melodia da dor e da saudade,
da mágoa e do abandono, do ciúme e do pecado.
O tango conta histórias de corações marcados,
de amores clandestinos e paixões desiludidas.
O tango é o desabafo dos desesperados, o alívio dos amantes, consolo das perdidas.
A alma das mulheres tristes vive presa ao lancinante som de um bandoneon sem calma.
O tango é um espelho a refletir tristeza.

E todos têm, no fundo, um tango dentro d’alma…”

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Esperantina: cem anos hoje do anjo cigano



Fonseca Neto

Antigos narradores e historiadores já afirmavam ser o Piauí uma terra de transição. E é: não somente de povos, mas o é igualmente sua natureza dadivosa entre as matas abertas amenas e a imensidão da selva amazônica. Até antes de ser Piauí a população deste vale movia-se pelo que hoje se chama de Ceará, Maranhão, Tocantins. 
Claro, não seria por uma terra assim que deixariam de transitar os ciganos, espécie de linhagem que há mais de quinze séculos, a partir da Índia, vive em permanente diáspora. Para este lado do Atlântico, vieram rente às primeiras levas de colonizadores e, em geral, na condição de “degredados”. E degredados, além de misteriosos, e sempre perseguidos, vivem pelo Brasil afora. Na minha Passagem Franca natal, décadas atrás, nos dias em que passavam “os ciganos”, crianças ficavam mais em casa que na rua para não ser “enganadas” por eles. Na França, a propósito, relembre-se, há um mês, ninguém menos que o presidente da República arbitrando conflito envolvendo uma família “cigana”.     
Em 1913, intensa foi a movimentação deles em terras piauienses, especialmente no norte, caracterizando certo mal-estar na população de povoados, vilas e cidades. Forte boataria espalhou-se desde a microrregião da velha Barras, de que por ali havia entrado uma horda de ciganos e por isso grande era a “correria” de todos. Telegramas alarmantes chegavam aqui em Teresina e governo e jornais se encarregavam de atemorizar ainda mais a população. No Peixe, hoje NS dos Remédios, houvera saque. Ameaçada estaria, inclusive, a antiga povoação do Retiro da Boa Esperança –naquele ano de 1913 completando duzentos de sua fundação, dada em 1713. 
Um enorme bando de ciganos, [...] errantes, malfazejos e exploradores, que não têm pouso fixo e vivem de terra em terra a explorar e iludir o nosso sertanejo na sua boa fé, [...] invadiu e saqueou a próspera povoação do Peixe, [...], a quatro léguas da margem do Parnaíba, roubando e cometendo desatinos inqualificáveis. Logo depois de terem praticado semelhantes atos de barbaria, retiraram-se da povoação [...] ameaçando de fazerem o mesmo na Cidade de Barras [...]” (notícia do jornal “Correio de Teresina”, de 10/11/1913). E imagine-se o pavor de famílias, com conversas do tipo as que a documentação policial registrava, acusando “... jovens ciganos [de] raptar donzelas, no intuito de integrá-las ao grupo. O cigano Gaspar tentara raptar Rosina; Mundico faz tentativas à moça Maria. Um dos casos mais curiosos foi o da jovem Maria da Cruz de Medeiros, assediada pelo cigano Aguiar, filho do Rodolfo. O jovem cigano oferecia presentes, dirigia-lhe gracejos e pedia-lhe insistentemente os cachos de seus cabelos. Como a moça não correspondia a suas expectativas, Aguiar prepara-se para raptá-la...”. E note o leitor a atualidade deste tema: em matéria publicada no jornal “Piauí” (29/11/1913), havia suspeita que “entre os ciganos andam também facínoras acusados pela polícia [...] que se aproveitam da companhia desses bandos nômades de vagabundos para praticar verdadeiras depredações”. “Suspeita também conferida no Inquérito pelo tenente da tropa policial que reprimiu o grupo cigano: ‘[...]. É certo, conforme verifiquei que nos bandos dos ciganos, existiam muitos cangaceiros conhecidos, vindo de estados limítrofes...’.”
Para aliviar os lugares Peixe, Marruás, Retiro, Campo Largo, além da própria Barras, sede municipal, o governo estadual montou um batalhão policial para expulsar os “bandoleiros”. Na área, com superioridade armada, a volante fuzilou vários ciganos e até não ciganos. O mais grave episódio ocorreu na povoação do Retiro – hoje cidade de Esperantina, na manhã de 11/11/1913 – quando vários deles foram mortos e ali mesmo enterrados a esmo.
Passados cem anos, a memória dessa tragédia sinaliza que teria ficado a sensação de mortes desnecessárias, num recorrente ato de covarde-tirania contra o “outro” que se revela enfraquecido. E sobretudo marca certa consciência local o sacrifício de um ciganinho inocente que tombou na estrada. Há uma mística católica em torno dele que parece crescer – e naquele tempo já se dizia que criança morta vira anjo. 

(Citações havidas da dissertação de mestrado de Maria Auxiliadora Carvalho, esperantinense, feita na Ufpi, fixando relevante contribuição para que essa tragédia de lesa-humanidade não caia no completo esquecimento dos pósteros e previna outras). 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Arquivo delicioso


Arquivo delicioso

Gutemberg Rocha 
Sócio do Instituto Histórico de Oeiras

Arquivo silencioso, este é o título do recém-lançado livro do historiador oeirense Francisco de Moraes Rêgo, título emprestado de uma das mais de quarenta crônicas que compõem a obra, prefaciada por Dagoberto Carvalho Jr., autor do consagrado Passeio a Oeiras. Arquivo silencioso também é um fascinante passeio, e bem poderia ser Arquivo delicioso, pois é uma delícia passear pelas ruas e becos, igrejas e casarões, morros e riachos, fatos e lendas da Velha Capital; é delicioso pisar os lajedos da doce colina, tocar as grossas paredes dos sobrados centenários e contemplar os telhados envelhecidos, testemunhas da História e de mil histórias que não podem ficar perdidas no passado.

É delicioso perambular pela cidade, integrando-se ao burburinho da feira; mergulhar no Mocha, deleitando-se com o canto das lavadeiras; ouvir os sinos da Matriz a badalar finados, missas e batizados; adentrar os templos vetustos, relicários da fé de um povo temente a Deus; ajoelhar-se ante a imagem do Bom Jesus dos Passos; participar da Festa do Divino e das procissões da Semana Santa; visitar os presépios com cheiro de alecrim...

É delicioso cruzar com figuras emblemáticas da Velha Urbe, seja pela loucura, como Antônio Bocão e Dorete, seja por outras singularidades, como o jardineiro Zé de Helena (carregador oficial do tamborete da Maria Beú), o seresteiro Ciço Cego (proprietário do famoso CCC: Cabaré de Ciço Cego), o Padre Freitas (que abandonou o celibato sem deixar a batina), o músico e artesão Batata Tabaqueiro (que optou por viver recolhido como um monge), o folião Eurico, o sineiro Manoel do Padre, o engraxate Cosme...

É delicioso festejar São Benedito em antigas novenas animadas pelas bandas “Triunfo” e “Vitória”, na Igreja do Rosário; dançar ao ritmo do badalado conjunto “Os Falcões”; ouvir a música celestial que flui dos bandolins de Petronília Amorim, Lilásia Freitas, Maria José Cabeceira, Rosário Lemos e Antonieta Maranhão, carinhosamente chamadas de “bandoleiras”...

É delicioso trilhar as sendas da Igreja, dos clérigos que deixaram suas marcas na Paróquia de Nossa Senhora da Vitória e na Diocese de Oeiras: Dom Expedito Lopes, Dom Edilberto, Cônego Cardoso, Monsenhor Leopoldo, Padre João de Deus (ainda na ativa) e tantos outros; viajar pelos mistérios das lendas: o Pé de Deus, o Carneirinho de Ouro, a Baleia da Igreja da Conceição, o Cavaleiro da Meia-Noite...


É delicioso, sim, embora algumas narrativas remetam à mais crua realidade, desde conflitos pessoais que resultam em vingança e morte até episódios chocantes da época da escravatura. Mas isso também faz parte da vida da cidade, e essa é a matéria-prima usada por Francisco Rêgo, que mistura acontecimentos reais com preciosidades do folclore e do imaginário popular. Uma valiosa contribuição do escritor para a preservação da memória sentimental, cultural e social de Oeiras. 

domingo, 10 de novembro de 2013

Seleta Piauiense - Jônatas Batista


A ARANHA

Jônatas Batista (1885 - 1935)


Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.

E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dança executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...

O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...

O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

ZUENIR VENTURA – UM PAPO NO DELTA


ZUENIR VENTURA – UM PAPO NO DELTA

Vicente de Paula Araújo Silva (Potência)

A programação da 4ª edição do SALIPA- Salão doLivro de Parnaíba, teve início, ontem 07/11/2013, a partir da “ Conversa com Zuenir Ventura” notável jornalista que virou escritor famoso no país e exterior. Está de párabéns a equipe organizadora do evento, pois, quando as coisas se iniciam com sucesso certamente continuarão até o final.

O públicou que estava no auditório da Associação Comercial da Parnaíba, no Porto das Barcas, foi surpreendido logo no início quando o hino da Parnaíba foi executado com um arranjo em rítimo e musica caraterizando a nossa história e cultura , amparado no palco pela plumagem e dança de descendentes dos nossos antepassados Tremembés. Prosseguindo, apresentou-se um grupo vocal de deficientes visuais de Teresina entoando canções da música popular brasileira, entre elas, a conhecedíssima Assum Preto. Finalmente, chegou a vez do mineiro de Além Paraíba, Zuenir Ventura.

As pessoas que participaram do 3º SALIPA no ano passado, ainda guardam na memória a participação do também conceituadíssimo escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, quando, no mesmo autidório, encantou a gente parnaibana que lá estava.

Zuenir Ventura não foi diferente. A conversa foi habilmente conduzida pela Jornalista Tatiane Correia, e pelo formato descontraido da comunicação agradou plenamente aos participantes. Dentro desse contexto, três afirmativas do inspirado palestrante marcaram a sua fala :
1 - A resposta em definir a diferença entre os jovens que foram as ruas em 1968 e os que estão indo hoje ao dizer – O jovem de 1968 quebrava paradigmas e o de hoje quebra vitrines ;
2 - A honestinade e modéstia em reconhecer o erro pela não publicação do artigo escrito que tratava da razão do suicídio do eminente escritor Pedro Nava em13/05/1984.
3 - O compartilhamento do seu sucesso com a Esposa Mary Akienstein;
A respeito da noite de ontem, fico com ele no seu posicionamento a respeito da publicação de biografias,e diante das últimas declarações de Roberto Carlos nos meios de comunicação tratando do assunto, tenho que conceituar a abertura do SALIPA pelo Zuenir Ventura como um papo legal.


Phb, 08/11/2013-Vic.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

POETAS OEIRENSES LANÇAM LIVRO NO FESTIVAL DE CULTURA


Fruto de co-edição entre Livraria Nova Aliança e Associação Cultural Rua das Portas Verdes, será lançado dia 16, o livro 12 Poetas de Oeiras, dentro da programação do Festival de Cultura de Oeiras. Trata-se de uma coletânea de poemas de 12 autores oeirenses contemporâneos. Não é uma antologia, pois não há o rigor seletivo que caracteriza esse tipo de publicação.

Os poetas que participam do livro são Anna Bárbara Sá, Dagoberto Carvalho Jr, Edilberto Vilanova, Jadson Santos, João Carvalho, Paula Nunes Alves, Pedro Igor, Rogério Freitas, Rogério Newton, Stefano Ferreira, Vivaldo Simão e Xico Carbó. Dois artistas plásticos fazem parte da coletânea: o oeirense Evandro Veras assina as ilustrações e Antonio Amaral, o projeto gráfico e a capa. A organização da obra ficou a cargo de Rogério Newton.

Embora Oeiras seja considerada terra de poetas, o livro é o primeiro do gênero entre nós. A escassa publicação de poesia pode ser sintoma de certa estagnação na vida poética da cidade, mesmo se considerar-se a existência de blogs na rede de computadores. Apesar da ocorrência de outros veículos, o livro ainda é o meio mais aceito pela tradição cultural do Ocidente.

Mas a coletânea não pretende apenas romper o silêncio e preencher uma visível lacuna poética. Por ser constituído apenas de poetas vivos em franca atividade, a obra vem também desmistificar arraigado equívoco segundo o qual “autor bom é autor morto ou com mais de 80 anos de idade”.

De um modo geral, os poetas que integram a publicação são líricos, o que é bastante sintomático, já que não temos tradição de épicos e dramáticos. Mas trata-se de um lirismo moderno, ou contemporâneo, como queiram, em que a subjetividade – muitas vezes dilacerada – exprime-se em frases sintéticas. Por isso, a concisão é uma característica presente em muitos poemas da coletânea.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Tragédia brasileira: a morte de um bebê e da avó


Cunha e Silva Filho

Através de um  programa  de TV  que  o elitismo  brasileiro  chama de  imprensa sensacionalista,  classificação  da qual  discordo, pois,  por detrás dessa  natureza  de  programa é que, em  primeira mão,  fico sabendo  do que alguém já chamou  com  propriedade  de “Brasil real,” não o  país  dos  programas  televisivos   que abordam, em considerável  proporção,  a chatice  de imbecilidades  da  tevê brasileira, a qual é desnecessário exemplificar  visto que os leitores  sabem  do que estou  falando.
Foi num desses  programas  que tomei conhecimento  de um crime  escabroso perpetrado por um avô  ensandecido contra a própria  esposa e o próprio neto, um bebezinho de sete meses, de nome Luís Eduardo. O crime  aconteceu  em São Paulo.
Um avô,  ex-presidiário por homicídio  e ex-interno  para tratamento  psiquiátrico, num dia  de fúria,  por motivo  torpe,  assassinou dois entes queridos utilizando-se de um porrete. Segundo  seu  depoimento na delegacia,   ele confessou  tudo friamente e ainda  deu detalhes  sobre  a monstruosidade  que  fez contra  dois  seres  de sua família. Declarou  estar arrependido. Já estou  cansado  de arrependimentos  de  “monstros”  de nossa sociedade em confissões  que não nos causam  mais nenhum sentimento  de  comiseração  para com eles.
O avô, segundo a reportagem,  era pequeno comerciante  de um bairro simples, pelo que  indicavam  as imagens  da tela. O avô alegou  que cometera  os dois homicídios em razão de que não mais  queria  conviver  com  o netinho,  que não o deixava dormir, naturalmente porque  chorava  como  qualquer  bebê.  Com isso, achava o  assassino que   a presença  do bebê   estava  atrapalhando-lhe   os negócios, já com   queda de lucro. E a culpa  punha sobre os ombros do netinho. 
Entretanto,  a história ainda tem  mais um  ingrediente, a avó de Luis Eduardo, em discussão  sobre a situação  em casa envolvendo o bebê,   ameaçara o marido  de  que,  se o netinho fosse embora,  ela iria também. Foi o bastante para,  um dia,  o avô  tirar-lhe a vida e a do  bebê, de resto,   uma criança  lindíssima,  com  olhos de cor violeta.
Esta tragédia  provoca profunda  indignação  em  todo mundo e, além disso,  nos  conduz a uma reflexão sobre o estado de degradação  moral  e mental do que se está vendo no país. Fica além da imaginação  o fato  de que  um tipo de violência  dessas possa ter  acontecido. Passamos,   então,  a ir mais fundo na questão  do relacionamento   familiar, na estrutura da  família e nos  diversos   sintomas  de  patologia  social  por que  estamos passando  no mundo contemporâneo, em  muitos  aspectos muito  mais graves  do que  em séculos  anteriores da história da Humanidade. 
A tragédia de Luís   Eduardo e de sua avó, pela natureza  do duplo  crime cometido,  é algo que  se poderia  afirmar   como sendo  uma  tragédia anunciada e, ao  aprofundarmos   a questão,  vamos  encontrar   responsabilidades  que  se alojam   nos setores  da saúde mental e da Justiça  brasileira. O avô, sem dúvida, um  psicopata  enrustido  em casa de família, tendo  seus negócio  para sobrevivência,  de comportamento aparentemente   discreto, segundo  testemunhos  de vizinhos, já carregava nos ombros  um homicídio e um atentado  quase fatal  contra  um  moço em quem  dera  dois tiros num dos braços. Um vizinho   relata  um  comportamento   estranho  desse avô desmiolado: ele tinha  o costume  de rir quando via  pessoas, prato  cheio para os estudiosos  da psiquiatria..
O criminoso  tem antecedentes   que lhe agravam mais   a situação   de   assassino. Como  já acentuamos,   tinha  passado  por uma internação  de doente  mental. Agora,  não é difícil,  unindo-se todos  os  dados  pregressos  do avô,   levantar   três questões gerais e  fundamentais:  1) Por que, tendo cometido  um  homicídio há duas décadas, conseguira, graças   às brechas e  imperfeições  de nossas leis criminais,    ter recuperado a liberdade pouco tempo depois – é o que presumo -   do encarceramento? 2) Que tipo de  prisão  teve ele, foi num manicômio   judiciário, foi  prisão  comum para pessoas  consideradas normais? 3) Que tipo de tratamento  psiquiátrico  foi o dele, e como  obteve  a alta da instituição  de saúde mental? Qual foi  a duração da internação? Como foi  o laudo que  o liberou  para a  vida em sociedade?
Ora,  todas   estas   implicações de ordem  criminal e  de saúde mental   são  complexas demais  para  que, a meu ver, se tenha  posto um indivíduo psicopata  no meio social e, por cima de tudo,  ainda  tendo  constituído  família, tendo  uma filha, a esposa, além de  ser dono  de  um barzinho.
             No plano da  estrutura  jurídico-social-mental cabe, na minha  opinião  apenas  de leigo  e observador  da sociedade,  um parcela  grande de culpa ao Estado  brasileiro. Se  dispuséssemos de uma   estrutura  de estado  séria,  cuidados,  competente em  todos os níveis de  administração e gerenciamento  da  políticas  públicas, muitas tragédia  familiares  seriam  evitadas. A sociedade  brasileira paga um alto preço  pelas deficiências  gritantes de nossas instituições.
O que  aconteceu com  o bebezinho  inocente,  desprotegido, vítima  da atrocidade  de um  tresloucado que  deveria estar era, sim,  num manicômio e não no seio  da  sociedade, pode se multiplicar   por outros casos   semelhantes.
Se nos detivermos   atentamente para o que   ocorre no dia-a-dia do pais,   nas grandes e  às vezes pequenas cidades, constataremos um  elevado número de  crimes  hediondos,  inacreditáveis,   porque praticados  no seio da própria família,  ou  entre  relacionamentos  amoroso  com final  trágico e por  motivos que poderiam ser contornáveis se no país  as leis  de penalidades  fossem  endurecidas, até mesmo  não descartando  o limite da prisão  perpétua  para  crimes de grande  selvageria   praticados  por  pessoas de todas as idades.
Uma sociedade que se nos apresenta  neste grau  de periculosidade  em potencial  nos  espanta e nos deixa perplexos. Alguma coisa  deve ser  feita de imediato  no que tange a   esses crimes   abomináveis.
O país, assim,  dá irretorquível   mostras  de  um estado  doentio  na sociedade e no  meio  familiar.  O grande salto de qualidade  que  poderá  amenizar  tais  aberrações  patológicas tem que  passar  por uma   mudança  profunda na educação brasileira,  na qualidade  de nossas escolas  públicas  e algumas privadas e no melhor   preparo de nossos  professores,  sem esquecermos  de que  estes profissionais  urgentemente   necessitam  de   ser valorizados  nos seus salários de forma   definitiva  com planos de carreira    que sejam   cumpridos  pelos governos  independentemente   de  troca  de  orientação  política e   adaptáveis  às condições   de um país    que,  em  alguns setores,   mostra  melhoria  de qualidade  da população, conquanto   ainda  -  e infelizmente  - em  tantos outros setores esteja   patinando  no mesmo lugar  e em nível  semelhante  a nações  subdesenvolvidas.
Espero  que a morte de Luis Fernando  e da  avó seja uma contundente  advertência a nossos  governantes   que, lamentavelmente,  de Brasília  ainda persistem em dar as costas  para os mais graves  problemas  enfrentados  pelo Estado  brasileiro. Não dar  ouvidos aos protestos  da Nação se me afigura, em tempos  atuais,  como  apostar  no suicídio do resultado das urnas para reis que  ainda  pensam  que  estão vestidos.   

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A noite é uma criança



A noite é uma criança

Gutemberg Rocha (do Instituto Histórico de Oeiras)


Café Oeiras, sexta-feira, 13 de setembro de 2013. A noite cobre a Velha Capital. A lua quarto crescente já vai alta quando os convidados começam a chegar à praça para prestigiar o lançamento da segunda edição de Sonetos & Retalhos, obra póstuma do poeta e cronista oeirense Gerson Campos, publicada pela Fundação Nogueira Tapety – FNT, presidida por Carlos Rubem, sobrinho do autor. Devagarzinho o espaço vai sendo ocupado. O Passeio Leônidas Melo resplandece resplendente. Multiplicam-se os sorrisos e abraços das pessoas se encontrando sob o fundo musical de clássicos da Bossa Nova e valsas possidonianas.
Músicos de Teresina – Davi ao violino – executam antigas canções dedicadas a dona Amália Campos, irmã de Gerson, pelos seus noventa anos de vida. Fascinação, Marina, Deus abençoe as crianças... A homenagem é reforçada por demonstrações de carinho de crianças e professoras, muitas destas suas ex-alunas. Flores, bolo, parabéns! Confundem-se as homenagens à matriarca dos Campos e ao seu irmão poeta, falecido há quatro décadas, aos trinta e nove anos de idade. Mas ele está aqui, nos poemas, nas cantigas e no coração das pessoas. Amigos e admiradores de se perder a conta. Pedro, Paulo e João, Socorro, Celina e Conceição, Antônio, José, Geraldo e Sebastião, Teresa, Bernadete, Benedito, Francisco e... não sei, não... Não dá pra enumerar. A praça parece um chão de estrelas.
As falas são poucas e breves. Fazem uso da palavra este escriba, como editor, Wellington Dias, como apresentador do livro, e Rita Campos, em nome da família dos homenageados. O clima não está para discursos. É hora de poesia, de música, de descontração, de relembranças. A cerimonialista Cassi Neiva, mui digna presidente da Confraria Eça-Dagobertiana, conduz com maestria o evento. A professora Elimar Barros declama o soneto Pesadelo atroz, de Nogueira Tapety (1890-1918), patrono da FNT e tio de Gerson Campos. O ator Bonifácio Lima veio da capital para recitar, em delirante performance, Monólogo de uma rosa, poema até então inédito de Gerson.
Os Beletristas de Oeiras são pura harmonia. Chico, Vanda e Rodrigo, do clã Queiroz, e mais Vinícius e Felipe, compõem a constelação à qual se integra a exímia bandolinista Petinha Amorim. O repertório é impecável: Linda Morena (de Raimundo e Chico Queiroz), Olhos Verdes (de Gerson Campos e Levi Carmo), Pensando em Ti (de Possidônio Queiroz) e outras maravilhas do gênero. Olhos verdes nos reserva uma grata surpresa: a interpretação de Ferrer Freitas, em dueto com Vanda Queiroz.
E eis que vem chegando a madrugada. É a hora da Serenata do Adeus, é a vez de Wilker Marques. Acompanha-o uma banda composta basicamente por integrantes da Orquestra Sinfônica de Teresina. O show nos faz viajar no tempo, e o vento que sopra traz a recordação daquela fatídica tarde de 11 de fevereiro de 1973, quando o coração de Gerson Campos sucumbiu às emoções de uma partida de futebol. Neste momento, uma voz entoa os versos de Balada nº 7 (Mané Garrincha), composição de Alberto Luiz imortalizada por Moacyr Franco: Sua ilusão entra em campo no estádio vazio / Uma torcida de sonhos aplaude talvez... Não nos resta, então, nada a fazer, a não ser matar a saudade no peito e driblar a emoção. E aproveitar a festa, porque a noite é uma criança.  

domingo, 3 de novembro de 2013

Seleta Piauiense - Antônio Chaves


DESCENDO O PARNAÍBA

Antônio Chaves (1883 - 1938)


Nas águas, vê que límpidas bonanças...
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.

Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!

Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...

Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!

sábado, 2 de novembro de 2013

...E se você morresse hoje?


José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

        Visita ao cemitério pode não ser agradável, porém desperta reflexão sobre a transitoriedade da vida. Ir e voltar, antes que seja último e derradeiro passeio. Não adianta dissimular, bater na mesa, em atitude mórbida, corpo mole e lânguido: você vai morrer, talvez hoje, amanhã, em breve, anos mais. Sem exceções. Nada de medo e assombrações de meia-noite. Visitei um cemitério em cidade cearense, parece-me Redenção, ainda adolescente. Logo na entrada, letreiro acima do portão: “Hodie mihi; cras tibi = Hoje, a mim; amanhã, a ti.” Um epitáfio realista para nenhum vivente ou defunto reclamar.
        Quão democrática a posse de terra no condomínio dos mortos, onde ricos e pobres ocupam o mesmo espaço e profundidade, sem invasões, sem carne, sem beleza. Só sete palmas, sem direito à conta bancária, nem à chave da empresa, nem ao contracheque polpudo. Anônimos. Felizes os que acreditaram, em vida, na eternidade. Que somos como lagartas, presas à comida, depois o sono profundo, libertação da carne em crisálidas, enfim o voo de borboleta.  
Figurões da política e do capital jazem, em túmulos de mármore, flores e metais, foto e estátua, sobremesas do que lhes restaram. “Tu és pó, ao pó voltarás.” Mais um bocado de tempo, eles desaparecerão da memória coletiva. Conhece algum barão do dinheiro que ficou na História além de cem anos? Privilégio apenas de inventores, filósofos, descobridores, heróis, escritores e artistas, missionários, líderes do bem, governantes comprometidos com a pátria, não o prato.
        Plotino, filósofo espiritualista, nascido no Egito, viveu no início do cristianismo, em Roma: “Se a vida e alma existem depois da morte, a morte é para o bem da alma, porque esta exerce melhor sua atividade sem o corpo”. Não há povo sequer, nem índios da América, que não tenha cultivado o sentido da eternidade, com ritos próprios. Em Madagascar, banquetes, danças, foguetório e alegria acompanham cerimônias fúnebres.

         A principal missão de Jesus Cristo, neste planeta, foi romper o mistério e as dúvidas dos humanos sobre a vida após a morte. Ele devolveu vida a mortos, exerceu poder sobre o impossível aos olhos da matéria, serviu de expiação até a última gota de sangue, para ressuscitar no terceiro dia. Deu-nos a certeza de que a vida continua após a morte. Nenhum profeta ou líder religioso conseguiu espetacular comprovação. Ademais, Jesus adiantou como abrir caminhos para um mundo melhor, de olhos para eternidade feliz. Aceitar esse mistério não é fácil, especialmente quem se arvora de conhecedor de princípios científicos de vã sabedoria. Talvez a visitinha ao cemitério desperte a fé no infinito, antes que a morte bata à porta e desligue aorta. Rima perfeita, dói, mas compõe o soneto da existência.