sábado, 10 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Vista panorâmica de José de Freitas, vendo-se a igreja de N. S. do Livramento

Velho trampolim do açude Pitombeira

9 de abril

PADRE DEUSDETE E O SANTOS DE LIVRAMENTO

Logo ao iniciar a caminhada, deparei-me com o colega Carlos Dias, que vinha em sentido contrário. Fiz meia-volta e o acompanhei. Envergava ele, que é natural do interior de São Paulo, uma camisa do Santos, que voltou à moda com os seus meninos alegres, moleques e bons de bola. Perguntou-me se eu torcia pelo Santos. Em resposta, contei-lhe o seguinte: quando eu tinha de treze para catorze anos de idade, morei na bela e bucólica cidade de José de Freitas, durante um ano. Foi um período muito feliz de minha vida. Quase todo dia, pela manhã, saía a passear, com o Carlos de dona Irá e o Itamar, e mais algum de meus irmãos ou outro garoto da vizinhança. Às vezes, alguns de meus colegas iam pegar vim-vim, com o uso de visgo colocado em uma haste posta na gaiola do “chama”; outras vezes, íamos escalar o morro do Fidié, que na época não era conhecido por esse nome, mas simplesmente como morro, que hoje preferiria chamar de Morro do Livramento, em homenagem ao nome antigo da localidade e a sua padroeira; muitas vezes nosso destino era o açude Pitombeira, de onde pulávamos do velho trampolim. Também banhávamos no olho d' água, perto do cabaré Jumento Velho, lá para as bandas do mercado público. Invariavelmente, à tarde, ia jogar futebol num campinho que havia na frente da casa do grande marceneiro Zezé Barros, que também era um peladeiro. Esse campo ficava dentro de uma quinta, tinha terreno arenoso, e era rodeado por belas e frondosas árvores, entre as quais uma imensa mangueira. Gostava muito desse campo, pois, sendo eu goleiro, a areia macia me possibilitava enfeitar as defesas, projetando-me no espaço, quase a levitar, na construção de belas pontes, que hoje classificaria de estaiadas. Certa vez, jogando na periferia da cidade, e sendo então pequeno e franzino, alcei um verdadeiro voo, para cair com a bola encaixada em meu peito. Essa estripulia acrobática arrancou delirantes aplausos de um torcedor, que gritava que eu parecia um “passarinzim”. Tempos depois esse terreno onde jogávamos foi comprado pela família do Pedro e do João Rocha, e as peladas foram proibidas. Por isso, certa tarde, em que estávamos batendo bola, perto da casa da família Santana, fomos avistados pelo padre Deusdete Craveiro de Melo, que era meu professor de Português, no segundo ano ginasial, e diretor do Colégio Antônio Freitas. O padre, de dentro do seu famoso fusca, me perguntou a razão de estarmos jogando na rua. Expliquei-lhe que o nosso campo fora fechado. Ele, então, sugeriu que fizéssemos outro, na frente do cemitério velho, conhecido por cemitério dos ricos, como se a morte fizesse algum tipo de distinção social, e acrescentou que nos daria uma bola de couro, as traves, apito, e os tornos para marcação do campo. Liderei os garotos da vizinhança e fizemos o campo. O padre cumpriu a promessa, inclusive mandando fincar as traves e os tornos. Diante disso, fiz uma carta ao Armazém Paraíba, narrando esses fatos, e pedi uma equipe de um time de futebol. Um ou dois meses depois, quando eu já perdia a esperança, a empresa mandou deixar a farda do Santos em minha casa. Depois, encetei uma campanha para a aquisição dos calções, o que também deu certo. Pouco depois, minha família retornou a Campo Maior, mas tenho notícia segura, através de meu amigo Francisco Costal, josé-de-freitense, fiscal do Estado e radialista, de que esse campo ficou em atividade durante muitos anos. De modo que, respondendo à pergunta do magistrado Carlos Dias, paulista e torcedor do Santos, posso dizer que sou santista desde menino, desde que joguei num time chamado Santos, que ajudei a criar, na aprazível e querida cidade de José de Freitas, outrora Livramento.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


9 de abril

NASCENTE, ZÊNITE E MORRENTE

Na quarta-feira, recebi a informação de que a família de uma interditanda não teve condição de trazê-la ao fórum, para o interrogatório, em virtude de sua doença e debilidade. O advogado, em nome da família, pediu-me que fosse fazer o ato na própria casa dela. Considerando sua idade, de mulher de quase um século de vida, fui imediatamente, em companhia do causídico, da promotora de Justiça e do serventuário. Morava em casa humilde, quase na periferia da cidade. Logo na chegada, constatamos que ela havia defecado na roupa e estava tomando banho em seu próprio quarto, com a ajuda de parentes. Quando o banho terminou, e pude iniciar o interrogatório, pronunciei o seu nome. Ela não teve a menor reação. Fiz outras perguntas, apenas para cumprir o ritual, às quais ela não fez o menor esboço em respondê-las. Uma das coisas mais sagradas para uma pessoa é o seu nome, que a identifica e é a sua grande referência na sociedade e na família. É o símbolo de sua própria pessoa, de sua própria personalidade, de sua história pessoal. Por mais bem administrado que seja um ego, o nome é algo muito forte, é como uma marca, como um emblema do seu dono, tanto que, outrora, quando um franciscano fazia seus votos de fidelidade à ordem, a primeira coisa que abandonava era seu nome, como símbolo de seu rompimento com a sua vida passada. Adotava outro nome, pelo qual passava a ser chamado e conhecido. Pela falta de reação a seu nome, entendi que seu caso era grave, e ao que tudo indicava o seu mal de Alzheimer era já muito avançado. Tudo isso foi para mim uma consequência da condição e vicissitudes humanas, a que todos estamos sujeitos. Jamais aquela senhora, assim como qualquer outra pessoa, no apogeu de sua juventude radiosa, referta de sonhos e de rosas, poderia imaginar passar por uma situação desse tipo. Por isso mesmo, minha mãe, sempre que ouve falar em pessoa enfatuada, cheia de petulância e empáfia, como uma advertência a si mesma e aos outros, repete que sequer sabemos como será nossa morte. Talvez por essa razão, quando no passado se tinha o costume de pedir bênção aos pais e avós, hoje costume quase em desuso, os velhos desejavam ao pedinte que Deus lhe desse uma boa morte. Faz parte da vida humana as alegrias do alvorecer da juventude, tão prenhe de risos e esperanças, as lutas e labor da maturidade, já temperadas pelas experiências, em que as ilusões foram sendo esfolhadas pelo caminho, como disse o poeta, e o crepúsculo do envelhecimento, que pode ser belo, que pode ser majestoso, mas a que não falta nunca uma pitada de melancolia, seja pelas coisas e pelos amores perdidos, seja pela proximidade da morte. E é por isso mesmo, que devemos passar por todas as fases da vida, para que nossa experiência neste nosso planeta seja completa, com nascente, zênite e morrente. Por tudo isso chego à conclusão que uma velhice saudável e uma boa morte, com que nos abençoavam os antigos, são duas dádivas maravilhosas, são um glorioso e sublime por-de-sol.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

NOTÍCIA CULTURAL


CONFERÊNCIA SOBRE JOAQUIM NABUCO

No próximo sábado, dia 10, às 10 horas, no auditório da Academia Piauiense de Letras, o acadêmico Dagoberto Ferreira de Carvalho Júnior irá proferir a conferência “A vida e a obra de Joaquim Nabuco”, em homenagem ao centenário desse grande político, líder abolicionista e escritor. O conferencista nasceu em Oeiras, mas reside em Recife há vários anos, onde exerce suas atividades de médico e intelectual. Já escreveu vários obras nos campos da história, sobretudo a religiosa, e da arte dos retábulos, bem como consagrados ensaios sobre a literatura de Eça de Queiroz, de quem é fervoroso admirador. Coroando os trabalhos, haverá uma mesa redonda, sob a coordenação de Manoel Paulo Nunes, presidente do Conselho Estadual de Cultura, que terá a participação dos acadêmicos Celso Barros Coelho, Fides Angélica de Castro Veloso Mendes Ommati e Antônio Fonseca dos Santos Neto. O presidente da Academia, Reginaldo Miranda da Silva, convida os interessados a que se façam presentes a essa festa cultural e literária.

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Derocy, Ofélia da Parnaíba,
não era um orador oral:
era um orador boçal
em seus discursos bestialógicos,
ilógicos, escatológicos. Tirava
do sério o homem sério quando
disparava seus disparates.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

BEROSO X COLÓ

Elmar Carvalho
Tela do grande artista campomaiorense Amaral, do acervo de Cineas Santos, exposta na Oficina da Palavra

Caiçara Esporte Clube, vendo-se o legendário goleiro Coló
Desde garoto, quando meu pai me levava a assistir as acirradas pelejas futebolísticas entre o Caiçara e o Comercial, no estádio Deusdete Melo, em Campo Maior, passei a admirar a ingrata e espinhosa posição de goleiro, em que as falhas costumam ser fatais. É, portanto, a posição em que o atleta fica mais tenso e com os nervos em frangalhos, pois um “frango” pode ser o estopim de uma derrota, podendo o goleiro ser crucificado pela torcida e pelos seus companheiros, em verdadeira execração pública.
Por isso mesmo, tenho sido, ao longo de minha vida, um admirador dos fabulosos e imortais goleiros Coló e Beroso, tendo certa predileção pelo legendário Coló, não só pelo fato de ser eu um caiçarino, mas também pelo seu estilo. Talvez, em decorrência dessa admiração, tenha me tornado um goleiro razoável, com atuações quase sempre regulares ou boas, em que também perpetrei as minhas levitações acrobáticas e ornamentais, em defesa de minha baliza.
Pelo que consigo recordar e também pelo que tenho ouvido e lido, o Coló, magrinho, leve como uma ave, tinha umas “voadas” excepcionais, em que exercitava toda a sua elasticidade felina, projetando-se no espaço, para encaixar a bola em seu peito, ou segurá-la em suas mãos hábeis e precisas, ou espalmá-la, desviando o seu curso para fora de sua meta. Nessas “pontes”, conseguia arrancar aplausos longos e entusiasmados da torcida caiçarina. Nesses saltos ornamentais, verdadeiras acrobacias circenses, muitas vezes estraçalhava os nervos de seus torcedores, pois, quando o chute era propício, e a trajetória da bola o permitia, esse goleiro estiloso simulava deixar a bola passar, para em seguida saltar para trás e desviar o curso da bola, o que fazia a galera delirar e suspirar angustiada, em virtude do susto. Tinha um defeito em um dos dedos da mão, que não lhe permitia espalmá-la plenamente; entretanto, agarrava a bola com segurança, como se tivesse mãos de onça ou tenazes. Era um tanto nervoso, às vezes, nas disputas esportivas, mas era quase sempre elegante no trato pessoal. Conta-se que, em certa ocasião, irritado com a torcida, abandonou a meta, em protesto contra a sua ingratidão e volubilidade. Amado e aplaudido pelos caiçarinos, foi inventada uma modinha, muito conhecida no auge de sua carreira, cuja letra dizia: “Coló quebrou a perna, / eu também quebrei a minha. / Coló colou com cola / e eu colei com Mariquinha.”
Beroso, que tinha esse apelido em razão de ser algo retraído, como se fosse um matuto, tinha um estilo mais sóbrio, mais contido. Ao que tudo indica, procurava controlar os seus nervos e emoções. Talvez fosse mais pragmático e objetivo em suas atuações, procurando focalizar mais a defesa em si do que efetuar “enfeites” em suas intervenções, embora, quando necessário, a exemplo de Coló, também soubesse executar “vôos” extraordinários. Segundo o grande craque Zé Duarte, um dos maiores atletas campomaiorenses, esse lendário goleiro, em certa ocasião, foi coberto por um lance. Instintivamente, esse arqueiro executou o pulo-do-gato, arremessando-se de costas para trás, desviando o curso fatal da bola, e efetuando uma cambalhota em pleno ar, para cair de bruços no chão, em legítimo “salto mortal”, como se fora um acrobata circense.
Nessa época, os guarda-metas se vestiam de preto: camisa de mangas compridas e calções. Usavam um protetor branco, chamado suporte, que saía do calção e era dobrado por fora, formando uma espécie de cinta, que dava uma elegância toda especial à farda. Pelo que relembro, Coló e Beroso eram mais ou menos da mesma altura, sendo o segundo mais encorpado. Tinham uma boa estatura para a época, o que lhes dava uma boa presença e elegância em seus uniformes pretos.
Numa enquete pessoal e sem os requisitos metodológicos e científicos de uma pesquisa estatística, tenho procurado saber qual dos dois teria sido melhor arqueiro. Nunca cheguei a nenhuma conclusão definitiva. Os torcedores do Caiçara “puxam” um pouco para o Coló, e os simpatizantes do Comercial, evidentemente, acham que o Beroso seria um pouco melhor. Ambos, creio, tinham aproximadamente a mesma idade e atuaram na mesma época, anos 60 e começo dos 70. Talvez, para resolver o imbróglio, com eqüidade e um tanto salomonicamente, fosse mais adequado dizer-se que, em determinadas fases e partidas, um atuasse um pouco melhor do que o outro, sendo certo dizer-se que ambos estão entre os melhores goleiros do Piauí de todos os tempos. Foram ícones incontestes de seus times, aclamados e aplaudidos pelos seus fãs, que incendiavam as ensolaradas tardes domingueiras de outrora, fase áurea do futebol campomaiorense, em que o Estádio Deusdete Melo era um verdadeiro alçapão, onde os times forasteiros eram implacavelmente massacrados e trucidados.
Carlos Said, o Magro de Aço (mas aço inoxidável, acrescento), um dos melhores comentaristas esportivos do Brasil, homem erudito na literatura, na vida e na história, emérito divulgador do esporte e da arte literária piauiense, que igualmente foi um grande golquíper, jogando no River por vários anos, afirmou-me, categoricamente, que em determinada época o Coló foi o melhor guardametas do Piauí. Sem dúvida, em consonância com o que já afirmei acima, no intuito de resolver essa pendenga, o mesmo, suponho, poder-se-ia afirmar em relação ao Beroso. Como se fosse algo semelhante às vidas paralelas de que nos fala Plutarco, esses dois varões, mantendo o paralelismo biográfico, morreram sem alcançar a velhice.
Diz a música popular que morre o homem e fica a fama. Dizem que algumas pessoas não morrem, ficam encantadas. Esses dois excepcionais atletas, transformaram-se em mitos do futebol piauiense. Encantaram-se e se tornaram lendas do nosso futebol. Ou viraram duas estrelas na constelação do firmamento esportivo piauiense.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


7 de fevereiro

NOMES PRÓPRIOS IMPRÓPRIOS

Fui informado pela chefia do Cartório Eleitoral de que fora criada uma duplicidade de filiação por causa de um caso curioso. Duplicidade é quando um eleitor é filiado a dois partidos, o que não é permitido por lei. Em alguns casos, trata-se de pessoas diferentes, mas homônimas, mas logo se descobre a verdade através da filiação ou da data de nascimento. Porém, no caso que me foi informado, os pais tinham o mesmo nome e os dois filiados tinham nascido no mesmo dia. Os sobrenomes eram os mesmos e os prenomes eram praticamente iguais. Eram Luiz e Luís. A mãe, no auge da empolgação materna e no afã de homenagear o santo que lhe teria feito uma espécie de milagre, batizou os gêmeos com o mesmo nome, homófonos e homógrafos, com a única diferença da troca de um z por um s. É claro que o problema será resolvido, mas foi criada uma situação embaraçosa, que poderá acarretar algum constrangimento aos envolvidos. Contudo, tenho ouvido falar de situações mais graves, cujos nomes servem de zombaria e escárnio aos seus possuidores. Nomes como Flávio Cavalcante Rei da Televisão, Osama Bin Laden, Lady Diana devem provocar risos, ou até mesmo chacotas. Muitas vezes os pais sequer sabem pronunciar corretamente o nome do filho, quanto mais escrevê-lo. Antes de pensarem na satisfação que o exotismo e bizarrice desses nomes lhes causam, deveriam pensar nos problemas e traumas que eles poderão provocar em seu filho. Numa das cidades em que trabalhei, ouvia falar em certo Jamim. Pensei que se tratasse, evidentemente, de Jaminho, cujo pai se chamasse James. Somente por ocasião de uma audiência, em que esse Jamim era parte, foi que descobri que ele de fato se chamava James Dean, sendo ele naturalmente uma homenagem ao ator norte-americano. Acredito que o bisonho pai do menino Osama sequer soubesse ao certo quem era o verdadeiro Osama e a razão de sua triste e trágica celebridade. Soube que em certa cidade do Piauí, uma mãe, por causa de uma promessa ao santo de sua devoção, deu o nome Raimunda Cândida da Conceição a cinco filhas. Criou uma verdadeira dinastia de Raimundas: a primeira, a segunda, a terceira... Não satisfeita com tantas Raimundas, batizou quatro filhos com o nome de Raimundo. Drummond, obviamente para rimar com mundo, disse que se se chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Haja tantas Raimundas e Raimundos! Não sei por que razão, mas as pessoas de nome Raimundo parecem não gostar muito desse nome, e geralmente são chamadas de Rai ou Ray, Mundico, Mundoca, Mundinho ou simplesmente R. E as Raimundas, por causa da rima com certa parte protuberante e posterior do corpo, também são um tanto ariscas com esse nome próprio (ou impróprio?). Todavia, há os que assimilam bem os seus nomes esquisitos e até os ostentam com glória e orgulho, como o João Bosta da anedota, que foi consultar o juiz a respeito de mudar o seu nome. O magistrado disse que a mudança, em seu caso, não só era permitida como até recomendável, e lhe perguntou sobre que nome gostaria de ter, ao que o consulente respondeu que gostaria de se chamar Pedro Bosta. Sua implicância, portanto, não era com o Bosta, mas com o João, talvez por causa da estória do João Besta. Contudo, deixo a advertência aos pais: cuidado com o nome que irão dar a seus filhos. Lembrem-se de que quem irá usá-lo é o rebento, e é este que sofrerá as consequências de seu exotismo e excentricidade, através de risos, mofas, escárnios e zombarias. Consequentemente, é o filho que poderá amargar constrangimentos e mesmo traumas por causa de um nome próprio impróprio.

terça-feira, 6 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


6 de abril

MELANCOLIA DO ENTARDECER

Ontem, ao sair do trabalho, de tardezinha, estava um tanto melancólico. Por isso mesmo, resolvi dar uma volta de carro até o início da Chapada Grande, seguindo pela estrada que vai de Regeneração para Oeiras. O entardecer, na zona rural, em que se percebe com mais intensidade o cair da noite, sempre me entristece um pouco. Acho o amanhecer sempre mais alegre; até o cantar das aves me parece mais festivo, com a luz surgindo e fazendo tudo ressurgir. O cair das trevas é quase como se fosse um aniquilamento de tudo, com as coisas e a paisagem desaparecendo na escuridão. É como se fosse a antecipação ou o ensaio da morte. Dizem que o sono é uma pequena morte, mas o sono nunca me causou tristeza. Ao contrário, a falta dele é que causa uma certa ansiedade e até mesmo graves problemas psicológicos nas pessoas que têm dificuldade em dormir. Isso porque sentimos vontade e mesmo necessidade de dormir. Bandeira, num de seus poemas, fala que quando fora dormir, em certa noite de São João, havia conversa, risos, luzes, mas quando acordou, alta madrugada, já nada disso havia, porquanto estavam todos dormindo, dormindo profundamente. Há o dormir mais profundo, o dormir da noite eterna, o dormir da morte, de que jamais se acorda. Suponho que essa nostalgia ao entardecer é um sentimento atávico, ancestral, entranhado na alma e numa espécie de memória genética, se é que assim me posso exprimir, que aparentemente surge sem razão e para o qual não se encontra fácil e instantânea justificativa. Contudo, creio que o tombar da noite, nos lugares em que não existe luz elétrica, lembra o caos primordial em que nada existia, mas do qual tudo surgiu. Um caos primordial às avessas, que tudo vai destruindo, que tudo vai reduzindo a nada, porque as coisas vão desaparecendo de nossa vista, como se deixassem de existir de fato, e não apenas para a nossa percepção visual. Embora tenhamos fé numa outra vida, a morte nos entristece pela saudade que sentimos da pessoa que não mais veremos. A separação pela distância nos deixa triste, mas acalentamos a esperança de que sempre poderemos rever a pessoa amada. Talvez fiquemos tristes ao crepúsculo porque é como se as coisas morressem ao desaparecer nas trevas, e a noite se nos afigurasse como uma espécie de antecipação da morte; da morte de nós mesmos, e da morte do mundo que perderemos com a nossa morte. Mas, parafraseando a letra viniciana, chega de tristeza, chega de saudade.

SELETA NACIONAL


O VAGALUME

Fagundes Varela

Quem és tu, pobre vivente
Que vagas triste e sozinho,
Que tens os raios de estrela,
E as asas do passarinho?

A noite é negra; raivosos
Os ventos correm do sul;
Não temes que eles te apaguem
A tua lanterna azul?

Quando tu passas, o lago
De estranhos fogos esplende,
Dobra-se a clícia amorosa,
E a fronte mimosa pende.

As folhas brilham, lustrosas
Como espelhos de esmeralda;
Fulge o íris nas torrentes
Da serrania na fralda.

O grilo salta das sarças;
Piam aves nos palmares;
Começa o baile dos silfos
No seio dos nenúfares.

A tribo das mariposas,
Das mariposas azuis,
Segue teus giros no espaço,
Mimosa gota de luz!

São elas flores sem hástea;
Tu és estrela sem céu;
Procuram elas as chamas;
Tu amas da sombra o véu!

Quem és tu, pobre vivente,
Que vagueias tão sozinho,
Que tens os raios da estrela,
E as asas do passarinho?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

E AGORA, JOSÉ?

Pádua Santos

Carlos Drummond de Andrade, em sua última entrevista, declarou que nenhum poema seu tornou-se popular. No entanto, a expressão “E agora, José?”, como sabemos, passou a ser do domínio público. Isto aconteceu porque, quando as palavras penetram no sentimento comum, o povo as adota como se suas fossem. E tem mais: tal expressão, que é parte do seu poema José, tornou-se popular e conhecida no país inteiro a partir do momento em que a poesia foi musicada, na década de 70, pelo cantor e compositor pernambucano Paulo Diniz.
Hoje, quando perdemos um grande José, cidadão também popular porque bastante conhecido em quase todo o Norte do Piauí, é de se aproveitar o gancho do poeta itabirense para fazer algumas perguntas que sem dúvida encontram-se recolhidas nas gargantas daqueles que choram com sua despedida:

E agora, José? Para onde seguirão teus amigos, aqueles que à moda “Raimundo Lucas” e “Zé Baleco” sempre te esperavam para que num final de tarde, olhando o sereno vôo da asa branca, pudessem te contar pitorescas aventuras que tanto gostavas de ouvir e transmitir?

E agora, José? Para onde irão os políticos, aqueles homens atormentados pelas constantes súplicas dos seus eleitores? Aqueles que muitas vezes procuravam o teu convívio bom e honesto para desanuviar o espírito prenhe de súplicas impossíveis?

E agora, José? Quem receberá o grande bando de marrecas viúvas (veja a foto acima) - aquelas que trazem na cabeça o mesmo branco dos teus cabelos? Aquelas que, sagazes e barulhentas, enfrentam os dias e as noites de perigosos vôos, em busca da Mangabeira como lugar seguro para o merecido repouso depois de tanto viajar?

E agora, José Maria? Quem receberá o pequeno, mas ainda existente bando elegante das marrecas verdadeiras? Aquelas de corpos bronzeados, de bicos e pernas vermelhas; esbeltas e de requebro safado, sereno e disfarçado, como que imitando as dengosas morenas que amastes nos saudosos tempos de saúde e boemia?

E agora, José Maria Borges, ciente de que cada vez que eu percorra aquelas várzeas inundáveis, cheias de inscrições rupestres e de outros segredos, aquelas paragens que tantas vezes percorremos juntos, haverei de lutar para também não inundar os meus olhos em lágrimas ao imaginar que o teu espírito continuará ali, a vagar, à toa, por aquelas ribeiras; vigiando os bichos e reparando as coisas. E então, consternado, concientizo-me de que devo finalizar esta breve e fúnebre crônica lembrando outro grande nome da literatura brasileira. Não um José, mas um João - João Guimarães Rosa, por coincidência também mineiro como o poeta aqui citado, aquele que um dia disse, meu saudoso primo: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”.


Pádua Santos, 30-03-2010

domingo, 4 de abril de 2010

ELMAR CARVALHO: ENTRE O ABOIO E O ABRAÇO


Charge de Gervásio Castro
Charge de Gervásio Castro

Charge de Fernando di Castro


ELMAR CARVALHO: ENTRE O ABOIO E O ABRAÇO

Pádua Santos

O mito é o nada que é tudo - Fernando Pessoa
Deixo a vida artística para entrar na história - Cego Bento
Não morrerás, / meu quimérico e homérico cego. / Um mito não morre: / um mito se encanta e permanece - Elmar Carvalho


Dizer que neste ano de 2010 o Brasil deve comemorar os 100 anos do Sr. João Rubinato, cidadão falecido em 1982, praticamente abandonado, é nada dizer, pois sei que ninguém saberá quem estou descrevendo. Por também dizer que este homem foi um poeta dos maiores, que realmente morreu pobre e que até o início deste ano mantinha-se praticamente esquecido, também não haverá lembrança na memória dos que ouvem o que acabo de dizer.
Faz-se necessário, portanto, dizer que este poeta de quem vos falo não era conhecido por seu nome de batismo, daí a razão do desconhecimento. Foi, a vida toda, sambista, poeta e boêmio. Era conhecido como Adoniran Barbosa, autor de muitas letras bonitas, inesquecíveis e conhecidas como “Saudosa Maloca” e “Trem das Onze”. Foi não resta dúvida, o poeta que melhor retratou uma Paulicéia composta de bairros de pessoas importantes e audaciosas, mas também dos subúrbios de gente simples e boêmia.
Morreu abandonado e praticamente esquecido, repito, mas eis que neste início de ano, ano em que se deve, com merecida justiça, comemorar o seu centenário, este esquecimento será trocado por uma lembrança que nos chega através de um livro de 680 páginas, da lavra do escritor Celso Campos Jr., onde é minuciosamente traçada a biografia deste memorável poeta.

Lembro este episódio para vos dizer que as pessoas que passam por esta vida, sejam as que empolgam multidões, possuidoras que são de dotes de inteligência apurada, ou até mesmo aquelas portadoras da escassez de tal faculdade, e que por tal razão despertam risos às multidões, têm, ambas, o direito de não se tornarem esquecidas e abandonadas.


E é neste momento, e é com o propósito de que o passado não seja totalmente esquecido, que agora, no primeiro decênio do Século XXI, surge o importante livro denominado “PoeMitos da Parnaíba”, da autoria do poeta Elmar Carvalho. Livro que retrata e resgata, em versos ligeiros e agradáveis, agradáveis e ligeiras lembranças de 25 personagens que enfeitaram as ruas e praças de nossa Parnaíba no século XX que a pouco passou. Com especial atenção para os nossos artistas Bernardo Alves da Silva – o Bernardo Carranca e Bento de Araújo da Cunha - o Cego Bento – vultos que ilustram as folhas 55 e 63, respectivamente, e que souberam se manter atuantes, animando as noites parnaibanas com voz, dança, sanfona e teclado, conseguindo ultrapassar os séculos, fazendo com que suas vozes e mímicas continuassem vivas, até mesmo porque já viraram poemas. Mais que poemas – lembranças perpetuantes: Carranca, como candidato a vereador em nossa cidade, filiado ao partido que presido e de microfone na mão, não dá para esquecer; Cego Bento,quando fui Secretário da Cultura, fiz, com a ajuda e o incentivo de minha mulher Amparo, uma memorável festa na porta de sua residência, na comemoração de um aniversário seu, e ali, com muita sanfona e cerveja, dele pude ouvir, já naquele ano, uma oração que há de ficar na memória:
“Já me acho realizado, depois de tanto serviço prestado, deixo a vida artística para entrar na história.”
(Há um pouco de Getúlio nisto, mas vale a pena.)

E que história: 12 filhos, quase 90 anos de idade e também de sanfona.
História e poesia, a boa poesia de Elmar Carvalho, página 62 do livro agora comentado:

“Não morrerás,
meu quimérico e homérico cego.
Um mito não morre:”

José Elmar de Mélo Carvalho é o nome completo do autor deste animado livro que com orgulho a Academia Parnaibana de Letras lança nesta noite. Trata-se de um dos membros da casa, ocupa a cadeira de número 07 e já é reconhecido no Estado todo como poeta de primeira linha. Integrante, também, de outras academias, inclusive da APL – Academia Piauiense de Letras, na qual vem se destacando como o acadêmico que mais se manifesta através da Internet, que é hoje, sem dúvida, a “coqueluche” do momento.

Mas quem são os personagens deste livro? Muitos dizem que são “uns loucos” que Parnaíba manteve e que, como lembrei, ainda mantém. E se realmente são loucos, há de se perguntar: Tem o louco algum valor para a cidade e a sociedade onde vive a ponto de merecer virar poesia e figurar em livro? A resposta com José J. Veiga, um dos maiores contistas que o Brasil pode contar, no seu magnífico livro “A Hora dos Ruminantes”:

“Parece que toda cidade precisa ter um louco na rua pra chamar o povo à razão;”

Outras pessoas chamam estas interessantes criaturas de doidos. E João Guimarães Rosa, na sua sabedoria de excelente escritor, de médico e de bom mineiro, declara: “Ninguém é doido. Ou, então, todos.”
A verdade é que o livro agora lançado em nossa cidade não nasceu e nem deve continuar vivo com o propósito de caracterizar tais mitos como loucos ou doidos. Ele nasceu, e assim devemos entendê-lo, com o firme propósito de mostrar aos contemporâneos e também aos pósteros o comportamento individual de cada um dos personagens que lhe compõem, naquilo que eles tiveram ou têm de particular e interessante. Mais que isso: mostrar a todos que estas interessantes criaturas souberam, e algumas ainda sabem, conviver pacificamente com todos nós. E ainda: que temos o dever de entendê-los e aceita-los exatamente como são. Schopenhauer, em seu livro “A Arte de ser Feliz”, já ensinara:

“Para vivermos entre os homens, temos de deixar cada um existir como é, aceitando-o na sua individualidade ofertada pela natureza, não importando qual seja.”

É isto fruto da afamada filosofia alemã.

O livro agora comentado, que conta com a valiosíssima parceria do artista plástico Gervásio Antônio Pires de Castro Neto, valoroso filho da terra, não deixa também de ser um somatório de experiências e de indiscutível talento de ambos: Gervásio, com a fixação artística e precisa de cada fisionomia; Elmar, com o seu intrínseco dom de poeta, qualidade que sempre lhe acompanhou ao longo da vida, lhe permitindo observar sutis detalhes do “Noturno de Oeiras”:

“ Nos campanários de antigas igrejas
algum falecido sineiro repica
os sinos para si mesmo.”
Ou admirar a elegíaca cantiga dos solitários vaqueiros na “Elegia a Campo Maior”:

“A tarde o aboio dolente do vaqueiro
partia a solidão que tudo presidia.
E o aboio sem resposta – eco de si mesmo – repetia-se
e se extinguia.”
E assim, entre sinos e sineiros, entre aboios e vaqueiros, chegou o poeta de Campo Maior e também de Parnaíba a cantar os mitos estampados neste livro. Mitos que se alguém ainda insista e acredite que sejam loucos, digamos, como disse Jurandir Barbosa – interessante e atual poeta, músico, ator e artista plástico de Montes Claros, Minas Gerais, no seu vibrante poema “Sejamos Loucos” que conheci há poucos dias:
“O louco é aquele que troca o valor das notas de dinheiro
pelo valor de um abraço.”

E sendo o abraço, no dizer de Aurélio Buarque, “uma demonstração de amizade”, tem este livro que agora lançamos o condão de nos mostrar a afeição, o carinho, a consideração e, sobretudo, externar o abraço que emana do seu autor a todos os mitos nele descritos.
Os parnaibanos que lerão este livro também haverão de agradecer pela lembrança que lhe trará cada página ou cada gravura, e por certo haverão de dizer: “Obrigado doutor, o senhor soube muito bem reproduzir, assim como Adoniran Barbosa, uma importante parcela de nossa gente.” E isto porque o hoje Magistrado foi antes o poeta das pessoas simples e às vezes mal entendias, e o livro, como sabemos, foi começado, tal qual a vida dos seus personagens, também no século passado.
Finalmente, meu caro Elmar, os parnaibanos que já lhe conhecem como o poeta que muito bem soube expressar a elegia dos valentes vaqueiros campomaiorenses (a voz que emana do aboio) e dos prazenteiros mitos parnaibanos (que hoje abraçamos) haverão de sempre lembrar que ficará Vossa Excelência, que hoje é cronista, contista, crítico literário e também Juiz de Direito (daí o pronome de tratamento específico) nos corações de todos como o poeta que melhor soube retratar o viver dos seus pares, através do poetar de diferentes lugares e de pessoas diversas e, sobretudo, a importante e imprescindível força contida entre o aboio e o abraço.

Pádua Santos, 27 de março de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Gervásio por Gervásio, a fazer a charge de Elmar

Solenidade de lançamento do livro PoeMitos da Parnaíba, no auditório Testa Branca da Academia Parnaibana de Letras, vendo-se, entre outros: Zé Hamilton, prefeito de Parnaíba, Pádua Santos, apresentador do livro e presidente da APAL, Dilma Pontes, Aninha, Arlindo Leão, Daniel Ciarlini, Alcenor Candeira Filho, apresentador dos autores dos poemas e das charges, Pe. Soares, Canindé Correia e Florentino Neto, vice-prefeito. Ao fundo, com sua indefectível indumentária preta, vê-se o autor das charges, Gervásio Castro, acompanhado por seu irmão, também chargista de alto talento, Fernando Castro

3 de abril

POEMITOS NA BERLINDA

No sábado passado aconteceu o lançamento de meu livro PoeMitos da Parnaíba, substancialmente enriquecido com as excelentes charges de Gervásio Castro, que se encontrava presente, assim como o seu irmão Fernando, também mestre nesse tipo de arte plástica. A solenidade aconteceu no auditório Testa Branca, na sede da Academia Parnaibana de Letras – APAL. Revi muitos amigos e confrades. O poeta Alcenor Candeira Filho, com a sua maestria de sempre, discorreu sobre os autores das charges e dos poemas e sobre o livro, analisando as produções escritas e visuais. Na minha explanação, falei que a História não é feita somente pelos chamados grandes homens, mas também pelas figuras simples e humildes, como as que inspiraram os poemas de meu livro. Reforcei o meu discurso citando o poema Quem faz a História, de Bertold Brecht. O presidente Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos, em ritmo de crônica, mas com grande proficiência, interpretou a obra e falou dos personagens que inspiraram os textos e as charges. O prefeito Zé Hamilton, mestre consumado do improviso, arrematou com chave de ouro o discurso de todos os oradores que o precederam. Já publiquei o belo texto do Alcenor em meus blogs. O Pádua ficou de me enviar o seu para essa mesma finalidade. Foi exibido o vídeo Parnaíba no Coração, em que há um pequeno depoimento meu sobre os tempos em que morei em Parnaíba e clips de alguns dos meus chamados poemas parnaibanos. Esse vídeo foi realizado pelo Sebastião Amorim, com imagens e textos que lhe forneci. Tudo parecia conspirar para que o DVD não fosse exibido. O meu computador e o aparelho de data show criaram uma incompatibilidade. A acadêmica Dilma Pontes foi decisiva para a solução do problema, pois mandou buscar em sua casa seu aparelho de DVD, que lhe auxilia em sua função magisterial na UFPI. Mesmo assim houve conflito entre seu aparelho e o cd. O conteúdo teve que ser transferido para um pen drive, e finalmente a incompatibilidade foi vencida e o audiovisual exibido. Creio ter sido válido esse esforço, pois o trabalho foi bastante aplaudido e elogiado pelos presentes. A confreira Dilma foi muito solícita e empenhada em resolver a dificuldade midiática, de modo que lhe sou muito grato por isso. Também contei com a ajuda e a solicitude da Conceição Teles, amiga de minha mulher. Entre muitos outros amigos, se fizeram presentes o Canindé Correia, o Antônio Gallas, Vicente de Paula, o Potência, Bernardo Silva, Florentino Neto, Régis Couto, Marçal Paixão, que levou um exemplar para o amigo Genésio Costa, que não pôde comparecer. Compareceram dois representantes do grupo d' O Piagüí, que é responsável pelo jornal impresso e portal de mesmo nome, o Daniel Ciarlini e o Arlindo Leão. É uma turma de muito valor, tanto pelo esforço em manter esses órgãos, como pelo mérito intelectual e literário. Noto neles outras grandes qualidades: reconhecem o valor alheio e não são dados a ciúmes e picuinhas, tão encontradiços nos mesquinhos e invejosos. Abrilhantaram a festa cultural os confrades padre Soares, Wilton Porto, Maria do Amparo Coelho, Cristina Moraes Souza e Dilma Pontes. Considerando as apresentações escritas do Alcenor, do Pádua Santos, um notável artigo escrito pelo poeta Wilton Porto e mais o prefácio do Cunha e Silva Filho, posso dizer que o livrinho já tem a sua fortuna crítica. Durante a sessão de autógrafo, no quintal, foi servido o coquetel. No final, já com menos pessoas, o Zé Hamilton, que é um mestre na arte da conversação, entreteve animada roda com uma sequência de casos anedóticos engraçados, coadjuvado por alguns dos presentes.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


Flagrantes do aniversário de Zé Francisco Marques, vendo-se sua mulher Rosinha, familiares, amigos e João Alves Filho, que o saúda ao microfone

2 de abril

ZÉ FRANCISCO NO ALTO DA OLARIA

No sábado passado foi comemorado o aniversário natalício do amigo Zé Francisco Marques. Ele é filho do senhor Gerson, amigo de meu pai, e que foi seu colega no velho DCT – Departamento de Correios e Telégrafos. De forte inclinação musical, toca violão e teclado eletrônico, além de cantar. Seu repertório é sofisticado, porém eclético, sem preconceitos elitistas. É ainda radialista e professor de inglês. Não pude comparecer a sua comemoração natalícia, em razão do lançamento de meu livro PoeMitos da Parnaíba, ocorrido nessa cidade do litoral piauiense, onde morei por muitos anos. Vi depois a notícia na internet, e sei que foi concorrida, com a presença de vários amigos. Houve forte libação e farto churrasco. De já advirto, não posso perder a próxima. No início de minha adolescência, fui goleiro de um time do qual faziam parte ele, seu primo João Bartolomeu e o nosso amigo comum Assis Capucho, hoje médico de nomeada em São Paulo, com direito a proferir conferências na área de neurologia pelo Brasil afora. Com a minha ida para Parnaíba, em junho de 1975, não mais nos vimos por mais de duas décadas. Voltamos a nos rever em 1996 ou 1997, na chácara Alto da Olaria, no bairro Flores, de belo, florido e cheiroso nome. Esse local aprazível, cheio de velhas e frondosas árvores, de onde se tem uma bela e panorâmica vista da velha Bitorocara, pertence ao amigo João Alves Filho, fundador e animador de várias associações, inclusive da Academia Campomaiorense de Artes e Letras. No Alto da Olaria disse certa vez (e se não disse deveria ter dito), parafraseando Napoleão, a contemplar a torre da catedral de Santo Antônio do Surubim: Velha Bitorocara, do alto desta colina quase três séculos te contemplam! Conversamos e logo nos identificamos, e restabelecemos fraterna amizade. Na época, meus pais haviam retornado a Campo Maior, enquanto quase todos os meus amigos tinham ido embora da cidade. Disse-lhe que quem me dava assistência e me fazia companhia quando eu vinha a passeio era o Zé Henrique, de quem minha irmã Maria José ficou viúva três anos atrás. Contei-lhe que o Henrique me havia dito que quem fosse seu amigo não mais o procurasse, pois pretendia entrar na lei seca, tornando-se radical abstêmio. O Zé Francisco, com providencial presença de espírito, respondeu-me que me pediria exatamente o contrário, e que eu não o deixasse de procurar quando viesse a Campo Maior. Retomamos a amizade a partir de então. Claro está que o saudoso Zé Henrique não cumpriu a promessa por muito tempo, e muitas vezes estivemos juntos com o Zé Francisco. Sempre que vou a minha cidade natal o procuro, e o faço quase mensalmente. Numa dessas vezes, Zé Francisco contou-me um fato que eu já esquecera completamente. Narrou-me que numa das vezes em que eu havia prometido defender a meta de seu time, eu fora a uma festa na noite anterior, de modo que quando ele e o Assis Capucho chegaram à residência de meus pais eu estava dormindo. Acordado de um sono profundo misturado com ressaca, que me puxava para a rede de dormir, e não para a das traves de um campo de futebol, que sequer as tinha, honrei a palavra empenhada e fui cumprir a minha sina de goleiro. Disse-me ele que eu era um bom goleiro. Creio que se eu não tivesse algum valor ele e o Assis não me procurariam, pois ambos moravam, na época, distante de minha casa. Cultivo a sua amizade porque é ele um cidadão de forte interesse cultural; mantém-se atualizado com o que acontece na chamada aldeia global, cada vez mais aldeia e mais global; gosta de arte, sendo ele próprio um artista musical; tem interesse literário, e além de bom de papo é bom de copo, ou vice-versa, sendo certo que é um boêmio no bom sentido da palavra, porquanto bebe com sabedoria socrática, é bom pai, bom marido, bom amigo e é ferrenho cumpridor de seus devedores magisteriais, pelo que tem o respeito de sua comunidade e de seus amigos.

RESENHA LITERÁRIA

Elmar Carvalho


CERTA TRAVESSIA POÉTICA

Segundo leio na orelha do livro Incerta Travessia, o padre e poeta Paulo Gabriel, seu autor, nasceu em 1950, na Espanha, mas veio para o Brasil em 1972, onde se ordenou sacerdote três anos após. Pela beleza das palavras, transcrevo o que dele disse Dom Pedro Casaldáliga, na contracapa: “A poesia de Paulo Gabriel é telúrica. É uma confirmação também da confissão de Rilke: 'O poeta é sua infância'. Todos os poemas de Paulo Gabriel são de um realismo forte, de uma certa dramaticidade entre a ternura e a paixão, entre o mistério da “incerta travessia” e a terra suada e por vezes sangrada. Têm seus poemas uma geografia da alma, com santuários definidos: Castilla, Minas Gerais, Araguaia. A poesia de Paulo Gabriel é apaixonadamente autobiográfica, como, aliás, toda boa poesia”. Concordo inteiramente com as palavras de Dom Pedro, ele também notável escritor e poeta, mesmo quando não faz poesia, e por isso mesmo as transcrevi na íntegra. Sempre há algo de confessional, de autobiográfico, nos escritos literários, mesmo dos maiores mestres, porquanto a ninguém é dado criar do nada, exceto o Supremo Criador. Nota-se que quando ele fala do amanho da terra, dos sulcos dos arados, não o faz apenas por modismo ou pose, através de uma cultura apenas livresca, mas porque vivenciou o que descreve; por isso mesmo, transmite emoção, com a autoridade de quem sabe do que está falando. Senão vejamos os seguintes versos disseminados em seu livro:

Carrego no corpo estepes e trigais
minha infância vestida de paixão e medo.
(…)
Há dentro de mim tardes de incenso e nostalgia
o silêncio total diante do tirano.
[Vazios]

Calados
os homens mastigavam a tristeza
definhavam as mulheres de saudade nas tardes sem sol.
[Volta à origem]

Ainda na orelha, colho a informação de que entre os poetas que influenciaram sua poesia encontram-se Juan Ramón Jimenez, Pablo Neruda, Ernesto Cardenal, Ferreira Gullar e Manoel de Barros. Está em ótima companhia e não desmerece os companheiros, antes fez por onde merecer estar entre eles. Por outras palavras, a sua poesia tornou-se digna de suas matrizes na medida em que tem a mesma dignidade literária. Luís Paiva, no Prólogo, assevera: “Paulo Gabriel é um outro tipo de padre, é um outro tipo de artista. É um padre démodé. Gosta de literatura, de música, de teatro e de cinema”. Cotejando essas palavras com as seguintes, de Dom Pedro Casaldáliga: “Paulo é tão bom no altar como no palco, fazendo teatro”, chego à conclusão que ele deve ser um grande intérprete de seus poemas, e certamente deve fazer as suas performances poéticas com muita maestria, até porque, como já assinalei, muito do conteúdo de seus poemas foi vivenciado por ele, o que contribui, decerto, para o realismo e convencimento dessas atuações. Quando envereda pela denúncia, o faz de forma sutil e artística, sem jamais descambar para o meramente panfletário da poesia engajada menor. É uma bela poesia, vertida em linguagem simples, de fruição e interpretação imediatas, mas embebida de vida, paixão, a avivar os sentimentos e o lado emocional do leitor.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO - A GALLÁTICA TUTOIA

Elmar Carvalho


Elmar e os tutoienses Rubem Freitas e Antônio Gallas Pimentel, na Praça da Graça, em Parnaíba

1º de abril

A GALLÁTICA TUTOIA

Elmar Carvalho

Por ocasião da solenidade de lançamento de meu livro PoeMitos da Parnaíba, entre vários amigos, como o prefeito Zé Hamilton, os poetas Alcenor Candeira Filho e Wilton Porto, o jornalista Bernardo Silva, vários confrades da Academia, encontrei Antônio Gallas Pimentel, que conheço desde o início de minha chegada a Parnaíba, no começo da segunda metade da década de setenta. 

Ele era professor de inglês, jornalista e diariamente uma crônica sua era transmitida pela Rádio Educadora, a mais antiga do Piauí e, então, a única emissora da cidade, através da bela voz do locutor Gilvan Barbosa. O professor Joaquim Furtado de Carvalho, primo de meu pai, que falava o inglês fluentemente e era um grande causeur, recomendou-me fizesse amizade com o Gallas. 

Um dia, vencendo a minha timidez de ainda adolescente, fui à sede do jornal Folha do Litoral perguntar se o hebdomadário aceitava colaborações literárias. Estavam na redação o Gallas, B. Silva e o Xixinó, um grande compositor; bem entendido, compositor tipográfico. Tinha extraordinária habilidade de recolher cada tipo de sua respectiva caixa e colocá-lo no componer, na composição dos vocábulos e períodos. 

Gallas era professor de minhas irmãs Maria José, Josélia e Joserita. Em acidente automobilístico, em que, entre várias outras pessoas, eram passageiras minhas três irmãs, Josélia veio a falecer. No dia do seu enterro, o diretor suspendeu as aulas para que os estudantes pudessem ir assistir à missa na catedral e acompanhar o sepultamento. Nesse dia, foi lida na Educadora uma crônica do amigo Gallas, sobre minha irmã, o que muito comoveu a nossa família. 

Às vezes, na boca da noite, eu e o B. Silva íamos até a casa dele, para ouvirmos um tangos, pelo rádio, enquanto degustávamos umas três doses de boa pinga. Eram uns belos e vibrantes tangaços, como dizíamos. Um dia o Gallas me convidou a ir até sua residência ouvir uns tangos e tomar umas duas ou três talagadas de calibrina. Para me convencer, como se estivesse falando de uma raridade quase impossível disse: - Elmar, eu tenho até dinheiro!... Verdade que naqueles tempos inflacionários e de vacas magérrimas, dinheiro era um tanto difícil e arredio. 

Certa feita, eu e ele fomos ao aniversário do Moreira, meu contemporâneo no Campus Reis Velloso - UFPI, hoje ocupante de importante cargo de carreira jurídica do governo federal. Fui convidado ou me autoconvidei a fazer uso da palavra. Entretanto, na empolgação do discurso terminei chamando o Moreira de Monteiro, ato falho provocado porque um meu colega de turma tinha este último nome. A mulher do Moreira, me aparteou, e perguntou como é que eu, que me dizia amigo de seu marido, trocava o seu nome. Não me dei por achado, e respondi que o fizera de propósito, para saber se estavam prestando atenção a meu discurso, e, ao mesmo tempo, porque Monteiro se referia a monte, e o Moreira havia atingido a culminância da cultura e do saber. As palmas espocaram e preferi encerrar o discurso nesse momento estratégico.

Já estive com o Gallas na sua bela e histórica Tutoia, outrora importante cidade portuária da região do Delta do Parnaíba. Contemplei as suas lindas praias, como a de Andreza, e a sua exuberante lagoa, ornamentada de coqueiros e outras árvores. Nessas ocasiões, tomei agradáveis banhos nos córregos e rios do percurso. Certa época correu a notícia de que Tutoia estava prestes a ser soterrada pelas dunas; mas, pelo visto, ela continua impávida e inabalável como a conheci. Sempre que vou a Parnaíba tenho encontrado o Gallas. E sempre na condição de bom amigo, e de mestre de sábias libações.

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro

Situava-se entre o feio e o horrível
mas se dizia BG: bonito e gostoso.
Metido a conquistador de mulheres
conseguia o inverso efeito:
as mulheres – lebres assustadas –
de Alain Delon fugiam.
Se Alain Delon muito fosse
Alain Delonge seria.

quarta-feira, 31 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Fundadores da Loja Maçônica Hiram Abib nº 3069: 1ª fila: Acídio, Juscelino, Olímpio, Eurivan Sales, prof. Soares, Francisco Augusto e Ribamar Gomes; 2ª fila: Juvenal, Luardo, Edilberto, José Augusto Ximenes e Antônio Carlos; 3ª fila: José Ataíde, Carlos Cardoso (1º venerável), José João Magalhães Braga e Elmar Carvalho.
31 de março

AS PONTES DO CARLOS

Estive hoje no escritório de contabilidade de meu amigo Carlos Cardoso. Conheço-o desde a nossa adolescência. Quando o conheci, no início da década de 70, ele era vizinho de seu primo, o Otaviano, meu amigo e colega de turma no velho Colégio Estadual, quando fazíamos o terceiro ano do antigo ginásio. Moravam perto do Centro Operário de Campo Maior. O Otaviano era nosso líder no futebol. Foi ele quem nos iniciou na prática do esporte de arremesso de copo, por outros chamado de libações etílicas. Passados tantos anos, lembro vagamente que foi numa noite, por ocasião dos festejos de Santo Antônio do Surubim, numa mercearia, salvo engano, da chamada rua da pista. Foram umas largas talagadas de Ron Montilla. O Carlos engasgou-se com uma dose, e o Otaviano passou-lhe umas duras reprimendas. Mais adiante, já no centro da cidade, ri não sei por que motivo ou mesmo talvez sem motivo; ele aborreceu-se, naturalmente achando que aquilo era uma “mancada”, o que denotaria a ingestão de álcool. Pouco tempo depois, o Carlos, seus irmãos e seus pais foram embora para Fortaleza, e o perdi de vista por algumas décadas. Quando vim assumir meu cargo de fiscal da extinta SUNAB, em agosto de 1982, voltei a encontrá-lo. Amigo fraterno, convidou-me para morar em sua república, na avenida Jockey Club, em Teresina. Não era uma república de estudantes, onde imperasse a bagunça e a baderna; ao contrário, ali havia ordem e organização, com divisão de responsabilidades administrativas, financeiras e de tarefas. Moravam com ele dois administradores postais da ECT, o Humberto Nadal, paranaense, e o Robério, cearense, hoje juiz do Trabalho. Depois o Carlos deixou a república, em virtude do casamento, e eu nela continuei por mais alguns anos, até perto de meu casamento em meados de 1985. Ingressei na maçonaria a convite do Carlos e de seu irmão sanguíneo, Zé Ataíde, que também conhecia há muitos anos. Posteriormente, nós três e mais um punhado de irmãos valorosos fundamos a Loja Hiram Abib nº 3069, filiada ao Grande Oriente do Brasil – PI, da qual o Carlos foi o primeiro venerável. Meses atrás o Carlos nos pregou um grande susto, quando, perto de um infarto, foi submetido a intervenção cirúrgica, e teve que receber três pontes de safena e uma mamária, em virtude de herança genética, segundo o histórico familiar. O Otaviano não deixou por menos, e, ao telefone, passou-lhe outra dura carraspana, e disse-lhe que não admitia que, na qualidade de primo e amigo mais velho, o Carlos lhe tomasse a dianteira, e construísse três pontes de safena e uma mamária antes dele; aquilo não estava certo e era uma tremenda injustiça que o primo mais moço lhe fazia. Nesse ponto, devo esclarecer que a alegada diferença de idade é de apenas um ano. Contudo, dias depois voltou a ligar, e disse que já estava reconciliado com ele, pois adquira uma hipertensão arterial, e pelo menos nisso o Carlos não lhe levara a palma e nem os louros da vitória. Claro, tudo isso era uma brincadeira do imperador Otaviano, e uma maneira peculiar, toda sua, de animar e alegrar o primo e amigo. O certo é que, benza-o Deus, o Carlos está muito bem, e a “indesejada das gentes”, no dizer do poeta Manuel Bandeira, terá que bater em outra porta.

terça-feira, 30 de março de 2010

O POETA ELMAR CARVALHO LANÇA LIVRO EM PARNAÍBA

Wilton Porto

Charge de Gervásio Castro, ilustrando o "poemito" Mestre Ageu

O poeta Elmar Carvalho lançou na noite do dia 27 (março/2010) o livro “PoeMitos da Parnaíba”, num conjunto de 25 PoeMitos, em que ele retrata figuras populares, pitorescas, excêntricas e jocosas da cidade, “mas sempre no que elas tinham de mais comovente e de mais humano”.

O livro conta com as ilustrações de Gervásio Castro, parnaibano ora morando no Rio de Janeiro, e considerado um gênio nesse tipo de arte, aqui navegando pela charge, outras vezes pela caricatura. Cunha e Silva Filho, na apresentação do livro diz: “...Os recursos de criatividade já conhecidos dos seus principais exegetas, saltaram do espaço poético para o desenho ilustrado, adquirindo ainda mais vida e complementando as descrições físicas, morais e psicológicas pelas quais ficaram conhecidos na crônica social da cidade de Parnaíba”.

Assim, o livro fora apresentado pelo poeta Alcenor Candeira Filho, e depois pelo Presidente da Academia Parnaibana de Letras, cronista e poeta Antônio Ribeiro dos Santos, como de autoria de Elmar Carvalho e Gervásio Castro, tal a sintonia entre arte literária e arte em forma de figuras.

Existe uma forma elmarcarvalhiana de escrever. Isso significa que Elmar Carvalho é reconhecido pela maneira de poetar. Como a maioria dos poetas de hoje, ele não usa da rima metrificada, rígida do parnasianismo. Ele está para o modernismo. Os temas são variados, primando pela crítica, lirismo, social, políticos e, como se pode ver nos poemitos, o lado jocoso, pitoresco, excêntrico, como lemos no primeiro comentário do livro. Porém, eu capto rimas espalhadas por cada poema escrito. Vejamos no próprio livro aqui comentado, no poemito Derocy: Oral (final do segundo verso) com boçal (final do terceiro verso). Bestialógicos (final do quarto verso) com ilógicos, escatológicos (segunda e terceira palavras do quinto verso, que conclui esse verso com a palavra “tirava”.

Em “Meio-Quilo”, no sexto verso, surgem: “estrambóticas e eróticas”. Em Alarico da Cunha ele tomou mão de quixótico e exótico no quarto verso. No poeMito Lobaia, ele vai um pouco mais longe nas sequências de rima da terceira à sétima estrofes, no tocantes aos finais: monstruoso, mastruoso, famoso. Lobaia, cobaia. E assim o poeta se agiganta, trazendo musicalidade, cores, harmonia, síntese... Em Maria das Cabras, por exemplo, vejamos essa sequência que traduz beleza rítmica: “Passava com seu passo leve/ - quase voo de pássaro”. Confira o leitor as palavras: passava, passo e pássaro. Não existe uma repetição de fonemas? Uma aliteração, recurso poético? Gostaria que o leitor do livro parasse um pouco do poemito “Bernardo carranca”. As rimas, como costumamos ver, não têm: a rima que está presente no final de cada verso. Exemplo: primeiro verso rimando com o terceiro e segundo rimando com o quarto. Todavia, nesse poemito, o autor do livro imprimiu rimas por todo o poema. Uma marca registrada de Elmar, que dá beleza, musicalidade e gostosura em se apreciar o poema.

Poeta Elmar Carvalho está entre os grandes literatos do Piauí. Não fica a dever a nenhum bardo deste país. E como morou muito tempo em Parnaíba, aqui estudou e viveu uma grande efervescência literária, é considerado filho desta cidade, apesar de ter nascido em Campo Maior. PoeMitos da Parnaíba mostra o amor que o vate tem pela cidade litorânea. E o parnaibano agradece a esse Juiz: o carinho que ele dispensa a esta terra, o muito que legou em termos de literatura e de amizade.

Do livro ora lançado, publico – aqui – o poemito “Mestre Ageu”, porque além de nos legar obras “escultóricas” de grande valor, esse homenageado no livro de Elmar é meu amigo e por quem tenho grande respeito. A consideração que há entre nós dois é das mais brilhantes.



MESTRE AGEU

Mestre Ageu
Mago das artes escultóricas,
Novo rei Midas do antigo mito
A transformar em estátuas
Troncos toscos de madeira
Com os toques de suas mãos.
Mestre Ageu
Pigmalião dos mágicos toques
Faz mais uma escultura:
Ninguém se espantaria
Se ela gesticulando
Lhe desse “bom dia”.
Mestre Ageu
De arte tão exata
Que lhe força fabricar
O seu cinzel de cortar.
Mestre Ageu
Em sua agrura
Agora chora ora e deplora
Afagando/abraçando/agarrando
A escultura, sua cria/tura:
O compra/dor a veio buscar.

Notem o jogo de palavra dos seis últimos versos.



ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


SEREIAS ENGAIOLADAS
Elmar Carvalho
Fazia horas caminhava pela estrada arenosa, que serpenteava pela floresta, a se desviar de obstáculos, como se fosse um regato à procura do percurso mais fácil. Ao vencer a última curva, deparei-me com o portão monumental do povoado. Na verdade era uma bela obra de arte, um verdadeiro portal, uma espécie de arco do triunfo. Mas não poderia imaginar de quem aquele povoado quase perdido poderia haver triunfado. Não vi guardas, nem soldados, de modo que quem entrou triunfalmente fui eu. Logo reparei que não havia ninguém na larga alameda que começava a partir do pórtico, já referido, com suas colunas esculpidas caprichosamente, com fustes e capitéis muito bem delineados e torneados, sem imperfeições e sem arestas. As grandes árvores da alameda formavam uma espécie de túnel. Eram de diferentes folhagens; algumas pareciam de pinheiros, outras de tabocas, outras pareciam finas filigranas de angico branco. Por entre elas, via pequenas casas coloridas, quase iguais, exceto na cor. Não demorou muito comecei a ver umas grandes gaiolas dependuradas nos galhos. Como não visse uma única pessoa, senti-me à vontade para me dirigir até elas, e verificar se havia algo preso entre suas grossas grades. Havia. A figura parecia saída de algum livro de mitologia; a metade era uma linda mulher de cabeleira ruiva e a outra metade parecia com o corpo de enorme pássaro, de belas plumas, semelhantes às de um pavão. Não me deu nenhuma importância, quase como se não me notasse. Parecia triste, mas de uma tristeza contida, reservada, ensimesmada, voltada para si mesma. Fui verificar as outras gaiolas. Cada criatura tinha a sua beleza própria, única, com as feições do rosto bem diferentes das demais Também as plumagens eram bem diferentes, mas todas lustrosas e muito coloridas, de variadas texturas e padronagens de desenho. Eram sereias, chamemo-las de sereias. Algumas cantavam, com uma voz muito melodiosa e bela, envolvente, atraente, que fascinavam e extasiavam. Ao escutá-las me quedava sem ação, absorto apenas naquele canto encantatório, mas triste, de uma tristeza infinita, que se infiltrava na alma, inebriando-nos a vontade e os sentimentos, anestesiando-nos a vontade. Lutei contra mim mesmo, contra a minha vontade, mas deixei aquele lugar misterioso, mágico, mas de melancolia mortal. Não vi nenhum ser humano. Talvez estivessem ocultos em suas casas; talvez tenham abandonado aquele lugar. Mas quem cuidava das sereias? Quem as alimentava? Quem fazia a higiene das gaiolas? Ou aqueles seres não precisavam de comida? Quem as capturou e prendeu naquelas gaiolas, e por que motivo? Não encontrei ninguém que me pudesse dar as respostas. Depois de muito andar, estugando os passos para fugir do encanto das sereias engaioladas, cheguei a uma pequena cidade. Ao falar do que vira e procurar informações e explicações, notei que olhares desconfiados se voltavam para mim. Olhares perscrutadores e irônicos. Certamente pensavam que eu era apenas mais um desses doidos de estradas, eternos caminhantes, que parecem não ter local de origem e nem de destino.

segunda-feira, 29 de março de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Solenidade de lançamento do livro PoeMitos da Parnaíba, no auditório Testa Branca da Academia Parnaibana de Letras, vendo-se, entre outros: Zé Hamilton, prefeito de Parnaíba, Pádua Santos, apresentador do livro e presidente da APAL, Dilma Pontes, Aninha, Arlindo Leão, Daniel Ciarlini, Alcenor Candeira Filho, apresentador dos autores dos poemas e das charges, Pe. Soares, Canindé Correia e Florentino Neto, vice-prefeito. Ao fundo, com sua indefectível indumentária preta, vê-se o autor das charges, Gervásio Castro, acompanhado por seu irmão, também chargista de alto talento, Fernando Castro
Flagrante da sessão de autógrafo: Acadêmica Dilma Pontes, Elmar Carvalho e Conceição Teles

POEMITOS DA PARNAÍBA

Alcenor Candeira Filho

O lançamento do livro POEMITOS DA PARNAÍBA me proporciona o grande prazer de falar, perante público tão qualificado, de dois grandes amigos: Gervásio Pires de Castro Neto e José Elmar de Melo Carvalho, que conheço desde 1965 e 1975, respectivamente.
O caricaturista Gervásio Neto e a esposa Ana Maria são funcionários aposentados do Banco do Brasil e têm duas filhas: Vanda e Natacha. Ele reside no Rio de Janeiro há mais de quarenta anos, mas vem anualmente a Parnaíba.
Acredito que se Gervásio Neto houvesse ao longo da vida tentado conciliar a profissão de bancário com uma atividade artística mais constante, divulgando trabalhos através de jornais, revistas, internet e exposições, teria hoje um número bem maior de admiradores. Mas ele sempre foi avesso a holofotes. Só desenha quando quer, nunca por obrigação ou dever.
Já retratou com mágicos traços cômicos vários parnaibanos, como o Prefeito José Hamilton Castelo Branco, o músico Weber Mualem de Moraes, o desenhista Fernando Pires de Castro, o escritor Carlos Henriques de Araújo, o desenhista Francisco de Assis Lemos, conhecido como Guerreiro, e outros.
À sua arte devo as capas de dois livros de minha autoria, um já publicado “Teoria do Texto” e outro a ser lançado brevemente.
Quem vê o artista vestido sempre de calça e camisa pretas, com o inseparável boné preto, poderá imaginar que ele vive de luto, ensimesmado, macambúzio, sorumbático. Mas tudo isso não passa de aparência. Quem conhece bem o Gervásio Neto sabe que ele adora conversar, especialmente em rodadas de cerveja em bares e botecos modestos. Discorre com desenvoltura sobre assuntos gerais, opinando, argumentando, concordando, discordando. Enfim, um cidadão bem in/formado, que não abre mão das próprias convicções.
Na juventude, em períodos de férias escolares, eu e ele participamos em Parnaíba de um bloco carnavalesco denominado “Negro Gato”. A turma só entrava nos clubes (AABB e Igara) ao som da música “O Negro Gato”, de Roberto Carlos, executada em ritmo de carnaval. Não lembro se à época, fins dos anos 60, Gervásio Neto já se trajava todo de preto, como não sei se a mania pela indumentária da cor da noite de lua e de estrelas ocultas no blecaute de nuvens espessas nasceu a partir do “Negro Gato”.
Gervásio Neto re/criou na sua especialidade de desenhista os vinte e cinco personagens poeticamente retratados por Elmar Carvalho.
O caricaturista não conheceu pessoalmente vários desses personagens, mas os caracterizou fidedigna e artisticamente através de traços e cores a partir dos perfis poéticos criados por Elmar Carvalho, resultando no livro ora festivamente lançado na Academia Parnaibana de Letras. O trabalho do artista plástico revelou-se tão valioso quanto o do artista da palavra, na medida em que, fiel ao exemplo deste, expressou aspectos físicos e morais dos personagens que desfilam no livro.
Passo agora a falar do autor dos poemas Elmar Carvalho.
Formado em Administração de Empresas e em Direito. Magistrado, jornalista, poeta, cronista, critico literário, autor de vários livros em prosa e em verso, destacando-se “Rosa dos Ventos Gerais” e “Lira dos Cinqüentanos”, que enfeixam seus melhores textos.
Durante o tempo em que morou em Parnaíba, 1975/1982, Elmar participou de vários movimentos culturais, principalmente como Presidente do Diretório Acadêmico 3 de Março (CMRV/UFPI) e membro do Movimento Social e Cultural Inovação.
Poucos escritores piauienses da atualidade possuem uma fortuna critica tão rica quanto a de Elmar Carvalho. A reunião dos ensaios e criticas sobre a sua obra formaria um livro volumoso.
Em duas ocasiões me manifestei por escrito sobre a obra do nosso grande poeta: ao fazer a apresentação de “Rosa dos Ventos Gerais” no dia de seu lançamento em Parnaíba (1996) e ao proferir o discurso de recepção na solenidade em que o poeta foi empossado na cadeira n° 07 da Academia Parnaibana de Letras (1994).
Na festa cultural desta noite, o escritor e presidente da APAL Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos ficou com a missão de se estender nas considerações críticas sobre o livro POEMITOS DA PARNAÍBA.
De minha parte desejo apenas assinalar que com os “Poemitos”, Elmar Carvalho revela mais uma faceta de seu talento poético: a produção jocosa, alegre, graciosa, satírica, retratando anatômica e psicologicamente pessoas que foram ou são bastante conhecidas em Parnaíba, a maioria gente humilde: Alain Delon, Meio-Quilo, Xigau, Jibóia, Hosana, Boa Idéia, Maria das Cabras, Marechal, Maria Onça, Cego Bento ... Nessa categoria cito um exemplo:
ALAIN DELON

Situava-se entre o feio e o horrível
mas se dizia BG:bonito e gostoso.
Metido a conquistador de mulheres
conseguia o inverso efeito:
As mulheres lebres assustadas
de Alain Delon fugiam.
Se Alain Delon muito fosse
Alain Delonge seria.

O poeta Alarico da Cunha, o ex-Prefeito João Orlando de Moraes Correia, o bancário Mário Reis e o escultor Ageu completam a galeria dos personagens do livro.
Elmar Carvalho é casado com Maria de Fátima de Sousa Carvalho, com quem tem dois filhos. Pertence a varias agremiações culturais e literárias. Ocupa a cadeira nº 10 da Academia Piauiense de Letras.
Encerro, Senhores e Senhoras, minhas palavras pedindo uma salva de palmas para os dois grandes artistas que (re)uniram artes e vocações para nos premiarem com os POEMITOS DA PARNAÍBA.

Parnaíba, 27.03.2010.

sábado, 27 de março de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

O LOBISOMEM DA APERTADA HORA

Elmar Carvalho

Há algum tempo corriam boatos, na localidade Canafístula, de que na proximidade da passagem da Apertada Hora aparecia um lobisomem. Diziam que algumas pessoas já o teriam visto. As pessoas acreditavam que a besta surgia em noites de lua-cheia; que era algum compadre amancebado com comadre. Eu achava que isso era uma injustiça contra os homens: se o compadre virava bicho, por que a comadre também não virava, e se transformava numa loba-mulher? Ou mesmo numa mula-sem-cabeça? O certo é que o pecado, se é que tal fato era pecado, não poderia ter dois pesos e duas medidas, com o homem sendo punido com a maldição da licantropia e a mulher sendo poupada. Ambos eram culpados. Se um não aceitasse o acasalamento ou fornicação, como diz a Bíblia, o outro também não poderia pecar. Mas os encantamentos são mesmo misteriosos, e se não fossem misteriosos não seriam encantamentos. Os boatos sobre o lobisomem da Apertada Hora iam crescendo e tomando proporções assustadoras, e já poucas pessoas passavam à noite pelo indigitado lugar. Essa passagem, cheia de mistérios, lendas e assombrações, ficava mais ou menos na metade do caminho entre os povoados Canafístula e Boqueirão. Com os moradores de Boqueirão não havia problema, pois moravam a cerca de 15 quilômetros da sede do município, onde ficava o posto de saúde mais próximo, e onde morava o único médico da região; lá também ficava o único estabelecimento que merecia, embora com ressalva, o nome de farmácia. Mas com Canafístula a situação era muito mais difícil, pois esta ficava a 18 quilômetros de Boqueirão, de onde a estradinha seguia para a sede municipal. Seria quase impossível não se passar pela passagem da Apertada Hora, pois o desvio seria pela mata fechada, sem caminho, subindo as encostas íngremes da serra, contornando obstáculos que encompridariam consideravelmente a distância entre os dois povoados. A coisa chegou a tal ponto, que ninguém de Canafístula foi ao festejo de Santo Antônio, em Boqueirão, que era muito animado, com novenas, quermesses, leilões, bancas de jogos e festas dançantes. Mas era diversão, dava para se passar sem diversão. Era o que se dizia, como um triste consolo.

Chico Doca era um caboclo calado, desconfiado, arisco, e considerado homem de coragem e decidido. Quando perguntado sobre se acreditava nas estórias sobre o lobisomem, limitava-se a dar de ombros, e resmungava que não acreditava nem desacreditava; que o mundo era composto, e nele havia de tudo. Acrescentou, num rasgo verborrágico, inusitado em se tratando de sua pessoa, que não gostava de gastar sua coragem à toa, mas que se houvesse necessidade enfrentaria o problema, ainda que fosse numa noite de lua-cheia. Era solteiro, filho único e órfão de pai. Morava sozinho com a sua velha mãe. Uma tarde, por volta das cinco horas, a anciã sentiu uma coisa ruim, com febre e fortes dores de cabeça. Chegou a gritava de dor. Chico Doca não contou conversa. Imediatamente selou seu cavalo e seguiu para a cidade, à procura do médico e de medicamentos para sua mãe. Sequer por um momento, pensou no lobisomem. Ainda que tivesse pensado, iria do mesmo jeito.

Quando retornava, alta noite, já na saída de Boqueirão, e ao ver a lua-cheia brilhando no céu, foi que se lembrou do lobisomem e da passagem da Apertada Hora, que era uma garganta estreita entre dois desfiladeiros abruptos. Destemido, seguiu adiante, em marcha firme, levando os remédios aviados pelo médico e comprados na farmácia da cidade. Era um homem prevenido, e por isso, para se defender de algum ladrão ou de alguma onça ou outra fera, levara um facão e um forte bordão de jucá, que derrubaria qualquer novilho, com uma pancada no cabelouro. Quando se aproximava da temida passagem, viu um vulto escuro. Pareceu-lhe que o cavalo refreava os passos, até empacar de vez, como se estivesse cismado de alguma coisa, deste mundo ou do outro. Pensou que se voltasse a sua missão não estaria cumprida, e sua mãe poderia morrer por falta de socorro. Por outro lado, teria que dizer que vira o lobisomem, quando não tinha nenhuma certeza sobre o que realmente via, diante da pouca claridade da lua, escondida entre nuvens, e porque a fera estava quase oculta entre as folhas. Fosse por causa do refugo do animal ou porque preferisse enfrentar a marmota em terra firme, para melhor desferir o golpe com o facão ou com o porrete, marchou a pé em direção ao local onde estava o bicho, de tocaia, meio encoberto por uma pequena moita de mufumbo. Ante o inelutável, marchou rápido, empunhando o cacete na mão esquerda e levando o facão na destra. Esperando o salto da fera a qualquer momento, caminhou para a luta, para a vida ou para a morte. Ao se aproximar, resolveu passar o jucá para a mão direita e o facão para a canhota, e desfechou um violento golpe na besta, que saiu em louca disparada, a escoicear o vento e a rinchar desesperado. O temido lobisomem era apenas um pacato jumento. Foi a última vez que se ouviu falar do lobisomem da passagem da Apertada Hora.

sexta-feira, 26 de março de 2010

LANÇAMENTO DE POEMITOS DA PARNAÍBA


Elmar Carvalho, visto pela genialidade e flamenguice de Gervásio Castro, autor das charges do livro

Será no dia 27, sábado, às 20:30 horas, no auditório Testa Branca da Academia Parnaibana de Letras – APAL, na rua Alcenor Candeira, pertinho da Praça da Graça, o lançamento do livro PoeMitos da Parnaíba, do poeta Elmar Carvalho, com charges coloridas do artista plástico Gervásio Castro. A apresentação do autor e do chargista será feita pelo poeta e acadêmico Alcenor Candeira Filho, secretário da Educação de Parnaíba. A obra será apresentada pelo contista e cronista Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos, presidente da Academia. O irmão de Gervásio, Fernando Castro, que tomou todas as providências logísticas para o lançamento, é também exímio artista plástico e chargista. O livro retrata, em verdadeiras caricaturas poéticas, 25 figuras populares de Parnaíba, que marcaram época, seja pelo aspecto folclórico, seja pela excentricidade, seja pelo pitoresco de suas atitudes. As charges captaram os poemas com beleza e graça, e refletem todo o talento de Gervásio Castro, que reside no Rio de Janeiro há muitos, mas que nunca perdeu o contato com sua terra, na qual passa longas temporadas, todos os anos. A obra tem um instigante e elucidativo prefácio, da autoria de Cunha e Silva Filho, mestre e doutor em Literatura Brasileira, que analisou tanto os poemas como as charges com muita percuciência. O autor ainda conheceu vários dos Mitos poetizados, mas quase todos já faleceram. A obra tem a finalidade, além da fruição artística, de preservar a memória dessas personalidades, a maioria pessoas humildes e simples, mas que fizeram parte da paisagem humana de Parnaíba, e que estavam incrustadas no imaginário de crianças e adultos da época. Na solenidade, será exibido um pequeno vídeo com alguns dos Poemas Parnaibanos de Elmar Carvalho, produzido por Sebastião Amorim.

quinta-feira, 25 de março de 2010

ELEGIA DO AMOR FINAL




Elmar Carvalho

Teus braços
que poderiam
tudo me dar
num simples abraço
se fecharam para sempre
para mim.
E teus seios perfumados
teus lindos seios sedosos
não mais me abrigarão
e neles não mais porei
minha boca sequiosa.
E teus olhos que
poderiam devassar e possuir
meu ser interior
mesmo que me fitassem
não mais me veriam porque
para mim para sempre
se fecharam com suas longas
pálpebras de sonho e de medo.
E tuas belas mãos
tuas delicadas mãos para mim
se fecharam e me esmurraram.
E teus lábios
teus lindos lábios
emudecerem e se fecharam
num longo beijo sempre negado.
E teu sexo
me foi sempre uma
concha eternamente fechada.
E teus cabelos
à brisa eram lenço
acenando em despedida.

NOTÍCIA CULTURAL

Reginaldo Miranda, presidente da APL

PARCERIA CULTURAL ENTRE PREFEITURA DE TERESINA E APL

A Prefeitura de Teresina firmou parceria com a Academia Piauiense de Letras para publicação de obras literárias, além de promoção de palestras, mesa redonda e outros eventos culturais. O objetivo é reforçar a cultura e a educação na capital com a publicação de obras de escritores do Estado.
A parceria está sendo bem vista e comemorada pelos imortais do Piauí. "O apoio será muito bem vindo, principalmente, neste ano em que temos programação de publicação de obras, palestras de poetas e literatos piauienses”, garante o presidente da Academia Piauiense de Letras, Reginaldo Miranda.
Para o prefeito, o apoio vai reconfigurar o panorama educacional de Teresina com a promoção e publicidade da literatura da capital. “Vamos melhorar os conhecimentos dos professores e o acesso de crianças e adolescentes ao saber”, pretende o prefeito.
Essa parceria será muito importante para a implementação da programação da Academia, uma vez que as comemorações de alguns centenários, tanto de literatos piauienses como nacionais, já estão programadas.
Com essa conquista, vários outros eventos e atividade editorial poderão ser acrescidos aos já planejados pela entidade acadêmica. Ideias e esforço para o trabalho não hão de faltar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Charge do Cineas Santos, feita pelo incomensurável Netto, minino ladino e arteiro de Bitorocara

24 de março

O VELHO ANCIÃO

No sábado passado, estive na Oficina da Palavra, pertencente a Cineas Santos, para tirar fotografia de um belo quadro do Amaral, em que aparece um goleiro em um voo espetacular e talvez um tanto espetaculoso, para ilustrar uma crônica que fiz em homenagem a dois grandes goleiros de nosso estado: Coló e Beroso, que marcaram época, o primeiro a defender o Caiçara, e o segundo, como guardameta do Comercial. Como goleiro, com atuações quase sempre regulares ou boas, ao menos segundo meus amigos, fui admirador dos dois, embora, por ser caiçarino, tivesse certa predileção pelo Coló, goleiro estiloso, cujas enfeitadas “pontes” admirava e aplaudia. Também queria fotografar um quadro do saudoso Fernando Costa, que conheci, cujo talento artístico apreciava. Lamentei sua morte trágica e precoce, décadas atrás, em pleno carnaval. Quando eu estava nesse mister, chegou o Cineas Santos, que foi meu professor em 1976, no Cursão. Nós, todos os alunos, o admirávamos, mesmo os que não eram tão interessados em literatura. Garoto interiorano, fanático por literatura, gostava imensamente de suas aulas. Acompanhei o lançamento de Ciranda, no Theatro 4 de Setembro, e com muito gosto li suas páginas. Rapaz um tanto tímido, um dia criei coragem e lhe mostrei alguns poemas e um ou dois contos meus. Cineas os leu, e com a sua proverbial franqueza me disse, com ênfase, que eu tinha “garra”, mas me aconselhou a ler os poetas modernos, dos quais, entre os que ele citou, me lembro bem de João Cabral de Mello Neto. Nessa época, deslumbrei-me com o jornal de cultura Chapada do Corisco, editado pelo Cineas, que estampava os belos versos do poeta Paulo Machado, intelectual do mais alto valor e honesto, como cidadão e como ser cultural. Entretanto, já no início do ano seguinte (1977) retornei a Parnaíba, para cursar Administração de Empresas, pois fora aprovado no vestibular, bicho papão na época, uma vez que existia apenas, como entidade de ensino superior, a Universidade Federal do Piauí. Devo acrescentar que Cineas era um verdadeiro mestre; suas aulas eram fascinantes e atraiam o aluno, mormente aqueles que, como eu, amavam literatura. Como pessoas físicas, e não instituições, ele e o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana são os dois maiores editores do Piauí. Apesar de vigoroso, enérgico e dinâmico em seus sessenta e poucos anos de vida, em auto-ironia ou talvez como catarse, para afastar o fantasma da velhice, que ainda vem longe, deu para chamar-se a si mesmo de o “velho ancião”, com a proposital ênfase da redundância. Conquanto, pelas circunstâncias da vida, não tenha sido um amigo próximo, acompanhei os seus permanentes e constantes sucessos, como escritor, editor e promotor de eventos culturais. E sempre lhe reconheci e aplaudi os méritos.