sábado, 19 de outubro de 2013

19 DE OUTUBRO – HERÓIS ESQUECIDOS NA HISTÓRIA CONTADA

Simplício Dias da Silva

19 DE OUTUBRO – HERÓIS ESQUECIDOS NA HISTÓRIA CONTADA

Vicente de Paula Araújo Silva “Potência”

Hoje, comemoramos 191 anos da data em que o Cel. Simplício Dias da Silva na frente do Senado da Câmara, onde atualmente funciona a Empresa dos Correios e Telégrafos, conclamou a comunidade da então Villa de São João da Parnahiba a aderir ao brado de Independência proclamado por Dom Pedro às margens do riacho Ipiranga em São Paulo, quando a partir daí muitos fatos se sucederam na região entre eles a perseguição , seqüestro dos bens e prisão de familiares dos líderes do movimento. Nesse contexto, dois nomes surgem como mártires daquele ato brasílico: O brasileiro Cap. Antonino Ferreira de Araújo Silva e o português Cel. Manuel Antonio da Silva Henriques (senador da câmara).

A respeito do primeiro, sabe-se que em 1822 era Capitão do Regimento de Milícias Portuguesa que foi comandada em Parnaíba pelo Coronel Simplício Dias da Silva. No movimento da Independência do Piauí, foi preso a bordo do Brigue de Guerra Infante Dom Miguel por ter remetido armas para as tropas em arregimentação no Ceará por Simplício Dias da Silva e o Alferes Leonardo de Carvalho Castello Branco. Assim como Simplicio Dias , em 1823, era um dos 19 donos da Ilha Grande de Santa Isabel e propriedades na Freguesia de Nossa Senhora do Carmo, Província do Piauí, Bispado de São Luiz do Maranhão. Boiadeiro, deixou muitos descendentes nos vales dos rios da bacia do Baixo Parnaíba. Era integrante do clã dos Dias da Silva, conforme atestam as procurações datadas de 9 de março de 1823, outorgadas ao cidadão Onofre José de Melo para resolver negócios em Campo Maior a mando de Simplício Dias da Silva e Justina Jozefa Dórea da Silva (viúva de Raimundo Dias da Silva), nas quais, foram testemunhas o referenciado Capitão Ferreira de Araújo e o Capitão Domingos de Freitas Caldas. Era filho de Domingos Dias da Silva, bem como, meio-irmão de Simplício Dias da Silva e Raimundo Dias da Silva. Exercia as funções de Juiz de Paz na Villa de São João da Parnahiba em 1832, quando se julgou suspeito para efetuar a partilha dos bens dos finados Simplício Dias e Raimundo Dias, por ser cunhado e tio das partes envolvidas, conforme consta no inventário de avaliação efetuado em 1832 , assinado pelos herdeiros Maria Izabel Thomázia de Seixas e Silva, seus filhos Coronel Antonio Raimundo de Seixas e Silva, Tenente Simplício Dias de Seixas e Silva, Dona Helena Amália de Seixas Dias da Silva, Capitão José Francisco de Miranda como Administrador de sua mulher Dona Carolina Thomazia Dias da Silva Seixas; e Dona Justina Josefa Dória da Silva e seus filhos, Capitão Simplício Raimundo Dias da Silva, Tenente Raimundo Dias da Silva, Dona Lucrécia Brígida Dias da Silva, Dona Eulália Lucinda Dória da Silva.

Após a morte de Simplício Dias, por ocasião da adesão dos oficiais da força armada de Parnaíba, José Benedito Ferreira de Veras, Domingos Ferreira de Veras e Luis Barroso de Veras, em Frecheiras (Cocal) a causa dos ‘BALAIOS”, foi destacado por Miranda Osório para conter o movimento naquela localidade, onde em 13/07/1839, foi assassinado. Face a isso, em 10/10/1839, os balaios são derrotados em Frecheiras, por tropas legalistas sob o comando de Miranda Osório, e finalmente em 15/10/1839, dá-se a batalha final da luta balaia no norte do estado do Piauí, quando no lugar Contendas, atualmente município de Cocal (PI), os revoltosos são derrotados tendo os chefes Cabral e Luiz Barroso Veras, fugido para o Maranhão.

O fundador de Piripiri – Padre Freitas - em seu testamento concluído em 10 de outubro de 1862, e aberto em Piracuruca no dia 28 de dezembro de 1868, menciona o seu nome no pagamento feito em favor do casal Tenente Coronel Raimundo Dias da Silva e sua esposa Justina Jozefa Dórea da Silva, quando o seu meio-irmão ainda vivia. 

Simplício Dias em carta a Dom Pedro I, em 1823, diz que ele é seu irmão, e que foi preso no vaso de guerra Infante Dom Miguel, porque enviou armas para o mesmo no Ceará, onde o mesmo organizava tropa para retomar a Villa de São João da Parnahiba, em poder do Major Fidié, após a sua invasão. Por essa razão, teve os seus bens saqueados pelos militares portugueses deixando-o arruinado financeiramente.

Entre seus descendentes, Domingos Ferreira de Araújo teve filhos com Felicidade Senhorinha de Jesus, entre eles, Mariano Ferreira de Araújo, nascido no Buriti dos Lopes em 1895, este, casado com Gonçala Ferreira Véras, oriunda da localidade Leitão, próxima ao povoado Bitupitá (orla marítima), hoje município de Barroquinha (CE) .

Mariano Ferreira de Araújo e Gonçala Ferreira Veras, tiveram como filhos, Maria das Dores Araújo Silva, José de Jesus Araújo, Mário da Cruz Araújo, Francisco de Assis Araújo e Luiz Gonzaga de Araújo. Todos os homens ingressaram nas forças armadas, exército, aeronáutica e marinha, estando ainda vivos em 2013, os oficiais da reserva remunerada do exército-José de Jesus Araújo, e marinha-Luiz Gonzaga de Araújo.

Da série : Estórias a Respeito da História da Parnaíba
Phb. 19/10/2013. Vic.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A LIÇÃO DO BESOURO


17 de outubro   Diário Incontínuo

A LIÇÃO DO BESOURO

Elmar Carvalho

Estava eu no salão de espera de um hospital de Teresina, aguardando a chegada da Fátima, que vinha me buscar, quando de repente vi um pequeno besouro vir em linha reta, em leve diagonal, no rumo da parede lateral do prédio. No percurso traçado pelo inseto havia um papel laminado, desses de embrulhar bombom; ele, porém, não se deteve e nem alterou sua direção. Atropelou a embalagem, bem maior e mais pesada que ele, como se fora um pequenino trator, e seguiu em frente. Aparentava ter um plano e um horário a cumprir, e por isso não pudesse admitir atraso e nem mudança de meta e rota.

Parecia seguir para algum encontro, com hora determinada, e a pontualidade lhe fosse uma questão de honra. Era como se fosse elétrico, em sua frenética agitação, que lhe sacudia todo o corpo e as apressadas perninhas. Desenvolvia altíssima velocidade, se considerássemos o seu tamanho. Era como se fosse um brinquedo de corda, ao qual tivesse sido dado o máximo de tração possível. Pela maneira como ele enfrentou o obstáculo do invólucro da guloseima, demonstrava ter uma força extraordinária, muito desproporcional ao seu tamanho e peso.

Para esse inseto, cuja carapaça lhe dava um aspecto de tanque blindado, parecia não existir nenhuma pedra no meio do caminho, como no conhecido poema de Drummond. Aliás, este poeta tem um outro poema, intitulado Áporo, no qual é dito que um inseto perfura a terra. Segundo reza a lenda ou uma anedota, por um erro tipográfico, em certa publicação, constou que o inseto perfumava a terra. Certo hermeneuta, em obscura e sibilina interpretação, foi explicar o que o poeta queria dizer com a metáfora em que o animalejo perfumaria a terra.

Drummond, em cáustica ironia, comentou que seu poema era muito simples, mas o crítico o transformara num monstro de obscuridade, ou algo semelhante, já não recordo bem o comentário jocoso do vate. De qualquer sorte, o meu besouro não perfurava e nem perfumava a terra, apenas percorria a sua trilha imaginária, da qual não se afastava, dando-nos a lição de que devemos ser perseverantes e de que devemos nos focar, sem desnecessários desvios, em nossos objetivos.

Através da internet, colhi a informação de que, em “renomado dicionário”, áporo teria a acepção de: “Problema de difícil resolução. Bot. Planta da família das orquidáceas. Zool. Inseto himenóptero.” O meu besouro não parecia enfrentar nenhum problema de difícil resolução; pelo contrário, aparentava cumprir uma tarefa com muita determinação e resolutividade, sem titubeios e sem vacilos. Com certeza não era uma planta, muito menos uma orquídea. Com certeza, era um inseto, mas não himenóptero, uma vez que não era vespa, abelha ou formiga.

A diligência do meu besouro me fez lembrar um antigo texto, conhecido por muitos como “mensagem a Garcia”. O presidente dos Estados Unidos, Mac Kinley, precisando comunicar-se com esse Garcia, que se encontrava no interior de certa floresta, quase inacessível, procurou um homem capaz de cumprir essa missão. Disseram-lhe que apenas um homem poderia fazê-lo. Trouxeram-lhe essa pessoa, cujo nome era Rowan.

Esse intrépido mensageiro nada falou sobre as dificuldades que teria de enfrentar, como lagos, rios, serras, pântanos, feras, espinhos e urtigas; apenas guardou cuidadosamente a mensagem, protegendo-a de eventuais intempéries, e partiu imediatamente para cumprir o que lhe fora determinado. Parecia focado apenas no que teria de fazer, não lhe interessando cogitar sobre as dificuldades e percalços que certamente teria de enfrentar. Não preciso acrescentar que Rowan cumpriu o seu mister.

O besouro parecia ter o caráter desse homem; aparentava ter uma missão a cumprir, ter traçado uma meta para fazê-lo, e nenhuma circunstância lhe tirava o foco, como se costuma dizer atualmente. Não sei qual era o seu desiderato e nem para onde exatamente ele se dirigia. Sei que passou por mim, e seguiu em frente, com a mesma pressa e sempre na mesma direção.

Tenho certeza de que, se tivesse algum obstáculo intransponível, ele faria um desvio, mas seguiria seu caminho de forma imperturbável, porque o meu besouro não era de desistir. Espero que um descuidado pé humano não o tenha impedido de levar a sua “mensagem a Garcia”.     

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sexo


SEXO

(Aviso aos navegantes: proibido para menores de 100 anos.)

Elmar Carvalho

         vira
gira               desvira
         revira
reviravolta
         volta e meia volver
mete e tira
tira e mete
tiro ao alvo:
alvo preto cabeludo
dita dura:
fura tortura gostosura
fuça e funga
funga e fuça
suga e sunga
sunga e suga
geme e treme
treme e geme
gemidos e grunhidos
grunhidos e gemidos
vira e mexe
mexe e vira
sobe e cai
cai e pira
        tira delira
                      pinto
                             pinga
                                     ping
                                           pong  

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Celso.91.com.pb


Fonseca Neto

Diz o “benjamim” da Academia Piauiense de Letras, Homero Ferreira Castelo Branco Neto, apreciar, particularmente, as conversas que rolam, no “cisco”, ao final das sessões plenárias desse sodalício. E são mesmo das melhores –claro, as conversas rituais são também muito prazerosas. Aqui uma delas que repasso com muita satisfação.
No “cisco” de sábado, 5, disse-me o professor e acadêmico Celso Barros Coelho, com satisfação incontida, que começara a escrever usando o computador – “e já estou começando a escrever as memórias de minha vida política”. Chamei o companheiro acadêmico Zózimo Tavares Mendes para saber da novidade e partilhar a conversa. Muitas vezes instiguei mestre Celso a tentar a façanha, sabedor ser ele um bom datilógrafo. E calhou a compreensivelmente discreta sugestão das “memórias”. 
Mas o que teria de tão impactante nisso? 
Muito. Primeiro, relembro que ele é um notável advogado e professor de Direito, titular da Ufpi, fonte viva de saber jurídico, com a qualidade de jurista, pois intelectual firmemente lastreado nas indispensáveis referências da História e da Filosofia, assim das chamadas Humanidades ou Ciências Humanas e Sociais em sentido amplo. Além de orador de largos recursos é escritor com várias obras publicadas e sabe-se lá as milhares de folhas em matéria jurídico-peticional e memorial que já manuscreveu ou datilografou para o aconchego dos autos forenses; ultimamente, ditando para suas atentíssimas secretárias-digitadoras no PC. Aí está: Celso não havia “caído nas graças” dessa máquina colossal e de seu editor de textos, que ajuda escrever aos que não sabem, imagine-se o quanto potencializa o ato escritural de ases da palavra e da própria escrita, tal ele é. Em segundo lugar, diante da pergunta – “por que não o fizera, antes?” – vale assinalar que ele tem 91 anos de idade e não é fácil um ser humano ultrapassar tantas barreiras culturais/atitudinais diante de certas e radicais novidades, tal essa, significada no computador e aparato tecnológico de seus aplicativos. Superação formidável que motiva esta celebração, dele, e dos que queremos continuar lendo o que ele tem a dizer pela escrita.
Conhecendo-o – pois fui seu aluno de Direito Civil há mais de três décadas no curso de Direito da Ufpi, além do contato acadêmico –, acredito que isso é mais um sinal de seu labor incansável em prol das grandes causas que enredam o ser humano e, claro, grande amor à vida, que para ele deve caminhar sob o imperativo da realização do Justo. Prova de que, para ele, aos 91, “a vida começa amanhã”, tal lembra um antigo pároco de sua Pastos Bons natal.   
Como disse, escrevendo na luz da telinha de cristal líquido, as cintilações “tel/úricas” logo o convidaram a escrever suas lembranças e começou pela vontade de praticar o registro de algo que o apaixona, além do Direito –a militância política. Tem o que contar, do que muito dará o que falar. Mas somado a ele na condição de nossa sertanidade comum, e também com aquele pensar de que “o tempo não para”, renovei-lhe o apelo para nos contar também do seu nascimento e da aldeia que o assistiu: da infância nos sertões onde há serras que pingam; de como a vida operou seus rumos desde Pastos Bons; de Colinas, a antiga Picos, onde “inaugurou” o colégio João Pessoa, o pai um vareiro municipal no Itapecuru, na prefeitura de “Cravo” Reis, seu tio-afim. Quanto será instrutivo contar de como seguiu para a jovem cidade de Benedito Leite e dela passou a Uruçuí, no Piauí, de onde desceu para o Seminário diocesano, em Teresina; o magistério...
Agora que, qual um renascido no prazer essencial, mais uma vez descobre os encantos delas e se entrega a essa diva iluminada de nossa era, onírica, que conte também como, naquelas vizinhanças dos Fortes pastobonenses, ainda nos cueiros, dado como “anjo”, envolvido nos paninhos do enterro, “ressuscitou” para ser sujeito pleno de suas nove décadas e quase dois anos de vida e exemplo. 
Aguardamos, doutor. Afinal, como disse o nosso padre Vicente Britto, ao dobrar a esquina dos 80, “a vida começa amanhã”: Vicente, no Itacor, a quem dedico estas lembranças.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O sublime pela anarquia


José Maria Vasconcelos


A droga é o sol, em torno do qual tramita todo crime, inclusive para ganhar eleições. Os planetas são os chefes do crime organizado que estabelecem leis territoriais e alcançam aprovação no centro dos poderes constituídos. Asteroides servem para disparar chamas e balas nas favelas e avenidas, destruir patrimônio, acertar contas e executar sem dó. Governos tremem, afrouxam e cedem, até desarmam a polícia, porque se beneficiam do bolo, especialmente nas campanhas eleitorais.

A esperança de um Brasil mais justo anda por um fio, quando assisto ao noticiário de violência urbana, assaltos, crimes hediondos, corrupção desvairada, a desmoralização do poder, o avanço das drogas e do tráfico.

Esgotam-se as forças de combate ao mal que avassala mais e mais a nação. Em apenas uma semana, Teresina registrou mais de dez assassinatos em acertos de contas e tráfico de drogas. No Brasil, mais de 60 mil mortes em acidentes de trânsito, em 2012, um Iraque em guerra. Nesses campos minados, patinam crianças e velhinhos, cidadãos em geral, atônitos, vítimas da crueldade, entrincheirados em residências e comércio, e a bandidagem solta nas ruas. E clamam: “Meu Deus!”, por uma vida que sucumbiu, pelo patrimônio assaltado.

Mundo sem Deus! O sublime virou caretice; o abominável desfila prestigiado nas ruas e salões do poder. Crianças e jovens acompanham maus hábitos da família, imitam enredos novelescos e ídolos que exaltam o conflito familiar, a separação conjugal, a união homoafetiva (autores novelistas, em geral, assumidos), o sexo explícito, a vantagem a qualquer preço.

  Buscam-se respostas e soluções imediatas para o estado de desarmonia moral e social. Em vão. Não se encontram curas de conflitos nos consultórios médicos e psiquiátricos. As causas do avanço do mal estão na formação cultural da sociedade. Valores sublimes do espírito, como dignidade, honestidade, respeito ao próximo e ao patrimônio, enfim, a educação para a prática dos dez mandamentos divinos, que, no passado, pavimentavam as famílias e estruturas sociais, foi substituída pelo consumismo exacerbado, pela idolatria do corpo, pela ganância de n ter. E tudo começa muito cedo: bonzinho com os filhos, dando-lhes tudo como prova de amor, sem mérito, sem esforço, sem exemplo.
Só uma saída para a anarquia moral que se estabelece em escala assustadora: voltar-se para Deus, experiência com Deus, educação para Deus. Por Deus e para Deus. Sem vergonha de Deus.   

domingo, 13 de outubro de 2013

Seleta Piauiense - Taumaturgo Sotero Vaz


Coração

Taumaturgo Sotero Vaz (1869 – 1921)

Quando eu morrer, virgem formosa e pura,
Se acaso for o meu corpo cremado,
Vai e, entre a cinza que restar, procura
O coração que eu tenho em mim guardado.

Vai, que hás de vê-lo, doce bem amado,
Cheio de vida entre a poeira escura,
Como um astro que em pleno céu nublado
Surge valente e com vigor fulgura.

Hás de encontrá-lo palpitante e forte
Entre esses restos do que soube em vida
Amar-te e certo o saberá na morte...

Que o coração, querida, de quem ama,
Não se consome, pois é lei sabida
Que a chama não consome a própria chama.


Fonte: Antologia da Academia Piauiense de Letras, de Wilson Carvalho Gonçalves

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

TREMEMBÉS – O GENTIO NO LITORAL PIAUIENSE



TREMEMBÉS – O GENTIO NO LITORAL PIAUIENSE

Vicente de Paula Araújo Silva (Potência)

O homem americano pré-histórico habitou o Piauí há mais de 65.000 anos e outros povos também passaram na região em tempos mais próximos existindo até hoje marcas dessas vivências , encontradas em diversos sítios arqueológicos espalhados por todo o estado.

Já no final do século XV na região compreendida entre o atual litoral maranhense a partir do delta do Parnaiba até a foz do rio Acaraú no Ceará, o domínio da terra era mantido pelos tapuias Tremembés. Esse povo ameríndio vivia da caça , pesca e do comércio com corsários europeus. Eram exímios nadadores e se movimentavam nos manguezais com a mesma facilidade dos animais e crustáceos lá existentes que também eram base de sua alimentação.

Usavam o arco e a flecha como instrumento de sobrevivência natural. Eram artífices na fabricação de canoas, objetos de barro cozido, macuque (machado), jequi, landuá e curral de peixe feito de buriti, instrumentos estes ainda hoje utilizados pelos seus descendentes. Plantavam para o sustento principalmente a mandioca.

Comiam em suas épocas de produção o guajirú, o caju e o genipapo, sendo que desses dois últimos frutos silvestres faziam o vinho azedo denominado mocororó, o qual, bebiam em dias de festas trajados com suas vestimentas embelezados por conchas, búzios e sementes silvestres como o mulungu. Os Arajós ou Araiós pertenciam a essa nação e habitaram o delta do rio Parnaíba, transferindo-se posteriormente para as margens do rio Magu.

Bem perto de onde moravam , nas cercanias da Serra da Ibiapaba e nos vales dos rios que lá nascem , transitavam outras tribos como os Tabajaras, Carirís, Tacarijus e Alongás , que nas suas andanças chegavam até o encontro dos rios com o mar, praticando o escambo com os valentes Tremembés que detinham o poder de comercializar com corsários estrangeiros a madeira e outros produtos notáveis em uso na época pelos europeus.

Esse, era o ambiente no habitat dos Tremembés quando os portugueses Diogo Leite em 1531 visitou o Delta do Parnaíba, Luiz de Melo em 1554 e Nicolau de Rezende em 1574 naufragaram na costa maranhense e percorreram o litoral piauiense passando pelas barras dos rios Portinho e Camurupim e indo até a foz dos rios Ubatuba e Timonha.

A respeito de Nicolau de Rezende existem lendas que tratam do seu tesouro perdido e de suas citações poéticas a respeito do delta, quando teria se expressado "As aguas são labirintos entre florestas intocadas e a vida acompanha o pulsar incessante das marés". E referindo-se ao porvir, continuou "Quantos no futuro colherão as riquezas desse tesouro ... Esse Paraíso resistirá aos futuros desbravadores ? "

Da Série : Estórias a Respeito da História da Parnaíba

Phb. O8/10/2013 - Vic.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

GIULIANO GEMMA E O VELHO CINE NAZARÉ

Charge: Gervásio Castro

Fonte: blog Bitorocara



10 de outubro   Diário Incontínuo

GIULIANO GEMMA E O VELHO CINE NAZARÉ

Elmar Carvalho

Pela televisão, soube da morte de Giuliano Gemma, no dia 1º, terça-feira, perto de Roma, vítima de acidente automobilístico. Na minha meninice e início de adolescência assisti a alguns de seus filmes, no velho Cine Nazaré, em Campo Maior. Era ele um dos mais famosos e atuantes atores da época. Foi um dos ídolos de minha geração.

Fez o papel de Ringo em vários filmes. Foi um dos mais célebres protagonistas do bang-bang italiano, também chamado de faroeste macarrônico ou spaghetti western. Considerado galã e bom ator, sua filmografia é extensa. Atuou, entre outros, nos seguintes filmes: Uma pistola para Ringo, O dólar furado, Dias de vingança, Dias de ira, O leopardo, Minha lei é matar ou morrer e Maciste l'eroe più grande del mondo.

O Cine Nazaré, pertencente ao Sr. Zacarias Gondin Lins Castelo Branco, ficava ao lado da matriz, hoje Catedral de Santo Antônio do Surubim, entre as praças Bona Primo e Rui Barbosa. Fui a algumas sessões levado por meu pai (que também me levou a partidas de futebol e a espetáculos circenses), quando ainda menino, e sozinho em minha adolescência.

Havia um grande anteparo com espelho, que separava o hall de entrada da sala de exibição propriamente dita. As cadeiras eram de madeira, e a parte para sentar era móvel, de forma que poderia ficar na vertical, quando desocupada. Parecia nele ter cadeira cativa a negra Dodó, esguia e um tanto espigada, descendente de escravos, trazida de Colinas (MA), segundo consta, pelo padre Benedito Portela; morava ela na Praça Bona Prima ou em seu entorno.

Como um Cérbero do bem, guardava-lhe a porta de entrada o senhor Estácio, pai do historiador padre Cláudio Melo. Só que, enquanto Cérbero era guardião do Hades, o reino das sombras subterrâneas, o velho Estácio vigiava a portaria de um paraíso, um Éden cinematográfico; ao passo que o monstruoso cão infernal fazia festas aos que entravam e impedia ferozmente a saída, o segundo exigia o bilhete de entrada e franqueava, com a maior prodigalidade, a saída.

Não havia ar condicionado, de modo que as várias portas laterais ficavam abertas, permitindo que o vento circulasse, pelo que o ar não se tornava viciado. Ademais, existiam grandes ventiladores, que mais pareciam as hélices de um teco-teco, o que dava certo conforto aos clientes. O proprietário era quem fazia as propagandas das películas, fazendo questão de enfatizar pelos alto-falantes, quando era o caso, de que eram em technicolor. Ele próprio anunciava as novidades pelas ruas de Campo Maior, com o uso de amplificadoras em sua Rural Willys vermelha e branca, que eram as cores do Caiçara, time famoso e valente na época, sobretudo nas vezes em que ele foi seu presidente. Por essa razão, eu lhe tinha simpatia, e não batia as bancadas das cadeiras de seu cinema.

Apesar disso, certa vez em que o Otaviano Furtado do Vale, após dizer que as coisas não mudavam em Campo Maior, que era sempre a mesma rotina e o mesmo tédio, pediu-me para dizer um relaxo sobre a propaganda feita por Zacarias Gondim, eu disse esses versos irreverentes, mas sem nenhuma maldade, ainda mais porque eu era e sou torcedor do Caiçara: “Mudam as noites / e mudam os dias / só não muda a voz / enfadonha do senhor Zacarias.” Em minha maturidade, saudoso dessa velha casa de exibição cinematográfica, no meu poema Vida in Vitro, assim me reportei em versos: “ainda assistes a filmes de bang-bang / só para sentires a emoção do tempo / em que teu pai te levava para o reino / encantado e mágico do velho cine nazaré / que em tua memória ainda remanesce.”   

Quando as velhas fitas de celuloide quebravam, e isso não era fato incomum, os assistentes, principalmente os mais jovens e mais rebeldes, movimentavam com certa violência o assento das cadeiras contra o encosto de modo a produzirem um barulho infernal, além de assobiarem com estridência. O Sr. Zacarias, quase apoplético, surgia, após acender as luzes, e passava severa descompostura nos “moleques”. Mais parecia uma figura egressa da tela de seu cinema. Felizmente, o projecionista logo emendava a fita, e quando a exibição recomeçava, como por encanto, tudo voltava ao mais completo silêncio e normalidade.

No Cine Nazaré pude assistir a alguns épicos, com temática da história ou da mitologia greco-romana, alguns protagonizados por Victor Mature, o fortão da época, mas considerado bom ator. Giuliano Gemma encarnou, sobretudo, o caubói Ringo, rápido e certeiro no gatilho. Quando os garotos saíam do cinema, pareciam ter incorporado o mocinho. O caminhado sutilmente mudava, na imitação do herói cinematográfico; as mãos se mantinham levemente afastadas dos quadris, como se a qualquer momento fossem sacar um imaginário revólver, que parecia pender do coldre.

Outros atores dessa inesquecível época foram Franco Nero, Anthony Quinn, Kirk Douglas, Burt Lancaster, Charlton Heston, Charles Bronson. Sim, quase ia esquecendo, ainda havia Johnny Weissmuller, travestido de Tarzan, a emitir uns gritos escalafobéticos, a se locomover dependurado em cipós e a enfrentar crocodilos e bandidos em plena selva africana. Todos eles encantaram a minha meninice e juventude em películas admiráveis. Indefectivelmente, na Semana Santa, era exibida uma velha fita da vida de Jesus, geralmente a Paixão de Cristo, que assistíamos contritos, tristes, quase como se os fatos tivessem acabado de acontecer.

Ainda alcancei o Cine Nazaré em franca prosperidade, com algumas exibições alcançando lotação plena (ou quase), e depois, com o advento da televisão, o início de sua derrocada, com a assistência minguando cada vez mais, até o salão ficar com apenas uma dúzia de espectadores, e às vezes nem isso. Quando me mudei para Parnaíba, em junho de 1975, ainda testemunhei o Cine-Teatro Éden em atividade.

Lembro-me que assisti ao Conde Drácula, protagonizado por Christopher Lee, nesse afamado cinema. Depois, com a decadência do Éden, foi criado em Parnaíba o Cine Gazeta, no qual presenciei John Travolta, com sua dança e rebolados, nos Embalos de Sábado à Noite; Moisés, na pele ou na figura de Charlton Heston, abrir ao meio o Mar Vermelho, e a longevidade e a paz serem alcançadas em Shangri-La.

Como eram diferentes os filmes dessa época. Essa versão do velho e vampiresco Conde tinha antigas carruagens, misterioso castelo, paisagens nevoentas e penumbrosas, uivos de lobos, esvoaçantes morcegos... Era muito diferente das concepções contemporâneas, com excesso de ação e de violência, em que o filme se desenrola de forma vertiginosa, como se o tempo fizesse parte de uma outra dimensão do espaço-tempo.

Os faroestes dos idos de 60/70 não tinham as pancadarias, efeitos visuais exagerados e correrias desenfreadas dos chamados filmes de ação dos tristes tempos de hoje, em que uma arma de fogo destrói um caminhão e transforma em ruínas, cinzas e chamas uma mansão. Tinham verossimilhança e se desenvolviam num ritmo não muito diferente do da vida real. Os seus eventuais exageros, comparados aos das películas hodiernas, mais parecem brincadeiras pueris.


Sinto saudade dessas antigas casas de exibição, que foram, pouco a pouco, se extinguindo com o lento e gradual desaparecimento dos espectadores, subtraídos pela televisão, pelas fitas cassetes, pelos DVDs e outras parafernálias tecnológicas. O Éden deixou de ser um paraíso, e se transformou em vários pontos comerciais. E o Cine Nazaré encantou-se, e hoje é uma prosaica Escola de Contabilidade. Até o seu nome desapareceu, restando apenas a fachada, que ainda nos faz recordar a magia do cinema, que na minha infância foi um mistério que eu nunca quis desvendar.  

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

UM CONVITE À REFLEXÃO


Marcos Damasceno
(escritor)

Repreendemos iniciativas de algumas mídias e/ou pessoas que insistem em rotular e, até, reduzir o significado existencial de povos e lugares. Tacham lugares de isolados (que não são mais) e de atrasados (que não são mais). Nossa região, por exemplo, é vista por brasileiros arteiros (isso mesmo: arteiros) – por questões sociais do passado – como lugar de miséria, atraso, ignorância, isolamento, etc. Mobilizam apenas as imagens negativas. Fatos negativos existem em todos os lugares do mundo.

Estamos bem localizados (para o governo desses arteiros), mais do que outras regiões do país. Estamos nessa frente oceânica que se segue para a América do Norte e para a Europa. Ah, e as metrópoles? Temos também. Cidades como Salvador-BA, Recife-PE e Fortaleza-CE são metrópoles. Os mesmos arteiros insistem no clichê imagético de serem metrópoles apenas as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Esses mesmos, que falam uma língua descaracterizada, sem nenhuma originalidade. Nós sertanejos somos brasileiros igualmente quaisquer povos nascidos no território brasileiro; do Oiapoque (Amapá) ao Chuí (Rio Grande do Sul).

Os dramas sociais alarmantes vividos por aqui, em outras épocas, foram essencialmente superados. Aliás, há dramas sociais alarmantes a serem superados no Sudeste, nos tempos atuais, como a violência desenfreada. O império da mídia imperialista, em notável parte da televisão, insiste no mesmo noticiário, recorrente durante décadas, sobre um contexto social que não mais existe por aqui. Tais discursos e tais práticas são inadequados para descrever uma atualidade totalmente diferente. Impróprios para descrever um povo essencialmente bom, hospitaleiro, original (está aí a palavra certa!) e trabalhador.

Fato social que demonstra tais mudanças: segundo o IBGE, hoje quase 70% da população do Nordeste vivem em cidades; implica dizer que não é mais eminentemente rural. Sentindo-se superiores, alguns impõem, até, a (re) colocação dessa imagem negativa, dando a entender que existe hierarquia regional. Lamentável isso! Digno, até, de piedade. Aí é onde está o grande equívoco! O país de privilégios para uns e infortúnios para outros é algo superado, e que deve fazer parte do passado.

Não somos atrasados (ó, seus arteiros!). Há desenvolvimento aqui. E prezamos muito, e isso é da essência do nosso povo, pela nossa originalidade. Não somos arteiros. O que o pré-conceito constrói de bom? Pergunta fácil de responder: nada. Por fim, deixo o meu convite à reflexão.  

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Zé Preto da Pixurica

Foto meramente ilustrativa

Fonseca Neto

Famoso na Passagem. Marceneiro com oficina num pequeno salão de porta para o largo da Matriz. Altivo. Amigo de todos. Brincalhão e festeiro.
De menino, lembro dele, alto, esguio, rosto marcado, com peças de cedro e de outras madeiras, suor pingando, a confeccionar os mais diversos tipos de artefato. E a lembrança é ainda mais forte dos velórios e caixões de defunto, tipo de acontecimento que, de uma ou de outra forma, sempre impactou a vida comunitária desde os primeiros ajuntamentos humanos: Zé Preto era o mais exímio fazedor de urnas funerárias de nossa cidade. Dependendo das condições financeiras dos encomendantes, fazia caixões mais ou menos fornidos e enfeitados. Para defuntos “adultos/casados”, caixões cobertos de tecido preto, com galões prateados pregados com tachinha pelas laterais e na tampa; caixões de solteiro com pano azul; de crianças (“anjos”), branco. 
Cidade com iluminação elétrica até às nove e meia da noite, Zé Preto tinha a habilidade de ajeitar Petromax e os tinha em quantidade para aluguel. Assim, nas noites de velório, no pacote da encomenda do caixão, incluía o fornecimento desses então sofisticados candeeiros de luz. Guardo viva a lembrança do Zé descendo a rua do Grajaú com seus Petromax acesos. Ou por outra, carregando um caixão vazio ao ombro rumo à casa do falecido. Se a morte ocorria à tarde, todos já ficavam sabendo que naquela noite a cidade não dormiria porque a batida do martelo lá na sua oficina seria ouvida até à “ponta da rua...”. Eram os anos de 1960 e em alguns velórios ainda se cantava as incelências, assustadoras. Mas o Zé também era quem socorria a iluminação dos bailes de família e até as noitadas da zona do “pecado” lá do Morro do Mandacaru –e da baixa do Pau d’Arco.
Uma figura o Zé, ligado às tradições negras do povo negro do Bom Lugar, fora a vida inteira um acatado capitão do Mastro, na festa da Lavandeira, “dia de preceito”. Sua ronqueira célebre, uma das primeiras a anunciar o início da festejo de São Sebastião, à meia noite de nove para dez de janeiro. Quando o mastro chegava à sua porta, na tarde do dia 10, mais tiro de ronqueira, pinga, frito, ovos; e um tiro de velho rifle 44... E são quase indescritíveis as feições ardorosas dele, à frente, e de muitos negros naqueles instantes de celebração dessa folgança devota –aliás, vi algo parecido recentemente, em São Luís, numa celebração de 29 de junho, uma dúzia de nonagenários negros, belos, portando e fazendo rufar enormes caixas e bombos rituais feitos de tronco, na festa dos bumba-bois da tradição. 
Além do dia da Lavandeira, toda a quermesse do padroeiro São Sebastião parecia feita para ele, morador nos vagos dos fundos da Igreja, vizinho do “pade”. Nessa época, o “terreiro” de Zé e Pixurica ficava repleto de vendedores de balão e suas cápsulas de carbureto; vendedores de refresco, pirulitos e bombons diferentes dos que se via nas quitandas o ano todo; por ali, malas-tabuletas de joias de verdade e de “fantasia”; Zé acolhia uma ou outra banca de Roda do Jogo do Bicho em sua porta...  
Nas festas de negro, no salão de seu quase vizinho João Preto, assim nas festas dos “artistas” e “operários”, na União, dia 1º de Maio, lá estava o Zé, de paletó branco. E no mesmo lugar, nos bailes de branco, em mangas de camisa, era o porteiro. 
Boas lembranças dele e de dona Maria Pixurica, esposa dedicada. Ele morreu relativamente novo e, pelo inesperado, chocou a cidade por muito tempo e a crônica do fato assim se resume: caiu doente e aplicaram-lhe uma injeção; infeccionou absurdamente, virou um abcesso e morreu de um dia para o outro. Pixurica prostrou-se em luto profundo e dizia que não o tiraria nunca mais. Os filhos ficaram já criados.
O nome dele de registro era José Pereira de Sena. Serviu à cidade, respeitado em sua arte, ofício e bem-querença. Das Áfricas: cidadão da Passagem Franca da minha infância.  

domingo, 6 de outubro de 2013

Seleta Piauiense - Hermínio Castelo Branco


Em viagem ao amazonas

Hermínio Castelo Branco (1851 – 1889)

Retirando-me saudoso,
De minha terra querida,
Rompendo os laços mais doces
(Se há doçura na vida),
Vou desferir este canto
De saudosa despedida.

Qual um batel sem piloto,
Que se lança ao mar, sem norte,
Que aos ventos abriu as velas,
O resto deixando à sorte,
Assim, nas ondas da vida,
Vou lutando contra a morte.

Mas caro, bem caro, custa
A quem tem peito sensível,
Deixar os lares queridos,
Que ama quanto é possível,
Para sofrer no estranho
Mágoa cruel, indizível.

Porém tu, fado inconstante,
Que és a trena da vida,
Que sorris quando soluça
de dor, minha alma transida,
Não me farás esquecer
De minha terra querida.

Das verdejantes florestas,
Onde a infância passei;
Das campinas matizadas,
Onde de tarde brinquei,
E dos humildes regatos,
cujos gemidos notei.

Do chico-preto saudoso,
Que lá na moita cantava,
Na florida ribanceira
Da corrente que passava;
Daquelas noites sublimes,
Que aos meus suspiros juntava.

De tudo, sim, quanto guardo
No meu triste coração,
Afagarei na memória
Imortal recordação
E nas cordas desta lira
Acharei consolação.

            *

E quando, saudosa terra,
Dos mares não te avistar;
Quando o sol no seu zênite
Nas ondas se mergulhar,
Te enviarei um suspiro
Pela brisa que passar.  

sábado, 5 de outubro de 2013

Francisco de Assis em Teresina



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Majestoso templo de São Benedito, esplêndida Avenida Frei Serafim, dois cartões da identidade de Teresina. Coração de Teresina. Impossível não os integrar à presença e atividade franciscana na capital. Nem o pomposo nome de Getúlio Vargas, que construiu enorme hospital na avenida, na década dos anos de 1940, pegou como denominação da via. A população foi seduzida pela simplicidade dos capuchinhos, desde os primórdios da cidade. Portanto, 4 de outubro,  dedicado a Francisco de Assis, um reconhecimento ao trabalho da comunidade franciscana e suas várias vertentes missionárias.

Em 1874, a minúscula Teresina, fundada em 1852, acabava no rústico cemitério de negros e expurgados, no Alto da Jurubeba, hoje Igreja de S. Benedito, inspirado no santo frade leigo, nascido na Sicília, Itália, de pais etíopes e escravos. Dali estendia-se a Estrada Real, futura Avenida Frei Serafim, cercada de florestas e sítios até o Rio Poti, de onde escravos extraíam pedras e areia para construção da igreja.

Frei Serafim de Catânia, Itália, nascido em 1811, chegou a Teresina em 1874, depois de longas missões pelo Nordeste, e iniciou a construção do templo. Gente simples frequentava o templo, ao contrário da Igreja do Amparo, dos socialmente privilegiados, inclusive sepultados no Cemitério S. José. Concluída a construção, em 1886, o frade regressou à Itália e morreu no ano seguinte. Não havia ainda comunidade de frades, só vigário.

Em 1939, a pedido e doações do arcebispo D. Severino, capuchinhos instalaram-se numa casa, na Chácara Tabajara, atual Convento de S. Benedito. Frei Heliodoro construiu parte do convento, em 1941. Depois, ergueu, no fundo, escola primária, salão paroquial e Pia do Pão dos Pobres de Santo Antônio. D. Severino ainda ampliou a paróquia até a Piçarra, onde os frades construíram a capela de São Raimundo Nonato. Nos anos 50, o vigário Frei Eliézer edificou o atual templo em substituição à capela. Em 1967, os capuchinhos entregaram a administração da paróquia de S. Raimundo aos frades franciscanos, vertente da mesma Ordem.

Capuchinhos popularizaram-se em Teresina, a partir do frade Frei Serafim, pioneiro missionário da capital. O baixinho Frei Heliodoro era conhecido pelo cognome de paizinho. Ninguém tinha pecado ao confessar-se. O frade, viciado em torrado de fumo, conseguia tudo a cada aspirada. Frei Mariano, início dos anos 70, transformou parte térrea do convento no colégio público e misto S. Francisco de Assis. Abocanhou 2 mil alunos da melhor sociedade, desesperando escolas religiosas, que se viram obrigadas a adotar o sistema misto. Frei Mariano modificou a forma arredondada da Igreja de S. Benedito, no fundo, para retilínea e retirou candelabros históricos e clássicos. A Justiça exigiu correção ao estilo original. Quanto aos belíssimos candelabros, segundo se comentava, foram parar em privilegiadas mansões. O vigário, nacionalmente conhecido na mídia, Frei Memória, prestigiado no meio político, reformou o fundo do templo à forma original, ergueu belo altar e estátuas de madeira, mas não conseguiu resgatar os preciosos candelabros.

Neste dia 4 de outubro, imagino aquele menino de outrora, que aproveitou a distração do sacristão, subiu as escadas do templo e se aproximou dos sinos e da imagem de S. Benedito. Do alto das torres, arrepiado, contemplou a cidade de ponta a ponta. Esta e outras aventuras, acompanhando frades. O franciscanismo plasmou a capital do Piauí. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ACADÊMICO REGINALDO MIRANDA LANÇA LIVRO EM REGENERAÇÃO


Hoje, às 18h:30min, no auditório da Câmara Municipal de Regeneração, o presidente da Academia Piauiense de Letras, Reginaldo Miranda lança livro de resgate do massacre dos índios, da colonização do Piauí e da fundação e desenvolvimento do município de Regeneração, sucedâneo de um aldeamento indígena. Trata-se de uma segunda edição, bastante ampliada do livro São Gonçalo da Regeneração – marchas e contramarchas de uma comunidade sertaneja: da aldeia indígena aos tempos atuais. A obra é uma co-edição da Academia Piauiense de Letras com o Senado Federal e faz parte da Coleção Centenário, comemorativa do primeiro século de fundação da Academia, a ser celebrada em 2017.
A obra traz textos de apresentação dos acadêmicos M. Paulo Nunes, Fonseca Neto e do crítico catarinense Enéas Athanázio. Porém, a apresentação de lançamento será feita pela escritora regenerense Nileide Soares.
O livro aborda a instalação da capitania e a conquista dos índios Acoroás ou Akroás, em 1772, quando foi fundado o aldeamento de São Gonçalo, no Médio-Parnaíba piauiense. E acompanha o cotidiano desse aldeamento, abordando a insatisfação e fuga dois índios, a reconquista, o massacre, bem como alimentação, trabalho, catequese, educação e exploração da mão-de-obra dos indígenas.
Em outra parte aborda a elevação da missão indígena em freguesia, vila e comarca, a transferência para as margens do Parnaíba, a fundação do município de Regeneração, enfim, toda a história do lugar até a atualidade. É uma obra completa que tem entusiasmado todos que a lêem. Interessante é a denúncia de um índio contra o governador da capitania, com documento de próprio punho denunciando o abuso de uma filha pela referida autoridade.
Essa segunda edição traz como novidade outros documentos interessantes sobre os índios, a relação de todos os diretores do aldeamento, a relação dos vereadores da nova vila desde o ano de 1833, a listas dos comerciantes, dos vigários, dos prefeitos e dos professores das primeiras escolas. Enfim, é um livro que honra o Piauí, na expressão de Enéas Athanázio. Para Fonseca Neto, Reginaldo Miranda consegue avançar nos estudos indígenas no Piauí.
É, pois, uma obra que merece ser lida por tantos quanto se interessem pelos estudos indígenas e pelas cousas do Piauí.

O evento está sendo organizado pela Secretaria Municipal de Educação, à frente o secretário James Moreira e contará com a participação da banda de música do município, apresentação teatral pelo teatrólologo José Teixeira Pacheco e documentário organizado pelo professor Alexandre Rodrigues, além da participação dos professores municipais.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

CONVERSA NA TARDE


3 de outubro   Diário Incontínuo

CONVERSA NA TARDE

Elmar Carvalho

Na tarde desta terça-feira, fui à casa do Des. Hilo Almeida buscar um medicamento, que ele me havia prometido, para tratamento de uma doença sobre a qual não desejo falar nesta oportunidade, após o que pretendia fazer caminhada na Av. Raul Lopes. Fui recebido com a cortesia que lhe é peculiar. Fomos conversar em seu escritório, no qual ficam expostos seus livros, além de alguns outros objetos, inclusive artísticos.

Ali estavam mais de uma dezena de chapéus, de diferentes tamanhos, formatos, cores e texturas. Brincando, disse-lhe que os chapéus poderiam combinar com as cores de seus diferentes ternos. Chamou-me a atenção um volumoso álbum, em dois grossos volumes, com fotografias de postais sobre o patrimônio arquitetônico e paisagístico de São Luís, mormente prédios, praças e monumentos.

O álbum era da autoria de seu cunhado, o professor, poeta e historiador Antonio Guimarães de Oliveira, e tem o título de São Luís: Memória & Tempo, e o subtítulo de São Luís em cartões postais e álbuns de lembranças. Trata-se de uma bela obra de arte, impressa com esmero em papel couché. O Des. Hilo presenteou o historiador e meu confrade da Academia Piauiense de Letras Fonseca Neto, pelo qual tem estima e amizade, com um exemplar. Disse-lhe que o Fonseca é um velho amigo meu, desde o final da década de 70, quando participamos de política estudantil, ele no DCE, em Teresina, eu no Diretório Acadêmico 3 de Março, em Parnaíba.

Na parte superior da estante, havia uma excelente escultura de um formoso cavalo. Indaguei-lhe a respeito. Disse-me ser a réplica de um corcel de sua estimação, morto há algum tempo, fato que lhe entristecera. Fora feita por um artesão de Campo Maior, cujo nome não me foi revelado. Contei-lhe que este ano não estava sendo bom para mim, pois minha mãe falecera em 26 de abril, e um mês depois morria uma cadelinha de nossa máxima estima, além de me ter advindo problema de saúde, que me fará enfrentar um tratamento um tanto invasivo e incômodo.

Por causa do álbum, que folheei com interesse, falamos um pouco sobre a História do Maranhão, em que meu interlocutor nascera, na cidade de Colinas. Disse-lhe que durante muitos anos o Piauí fora vinculado administrativamente ao estado colonial do Maranhão, e não ao do Brasil. Terminei falando sobre Sousândrade, que fizera uma poesia de vanguarda, revolucionária em relação ao romantismo praticado em sua época. O poeta fora rico e correra mundo.

Mais tarde, em franca decadência econômica, dizia estar comendo pedras. Quase a frase não seria uma metáfora nem uma anedota. O poeta vendia tijolos do muro de sua casa, para sobreviver. Era a irônica derrocada final da bela Quinta da Vitória, de onde se vislumbrava a beleza sinuosa do rio Anil e do mar de São Luís, em cujo quintal o excêntrico bardo, de bruços, à sombra de frondosa árvore, lia Homero e Virgílio, no original, segundo conta Humberto de Campos em suas Memórias Inacabadas. Também Josué Montello, em várias passagens de seu Diário Completo (Editora Nova Aguilar, em 2 volumes), faz referência ao velho vate bizarro.

No decorrer de nossa conversa, chegou Carlos Machado Resende, velho conhecido meu, e amigo do anfitrião. Sabendo ser ele natural de Piracuruca, disse-lhe ter ligações sanguíneas com sua terra, por parte das famílias Sousa, Mendes, Meneses, Carvalho e Melo. Falei que havia iniciado minha carreira de magistrado na Comarca de Piracuruca, em janeiro de 1998, após minha posse no Tribunal de Justiça, no dia 19 de dezembro de 1997, quando atuei como juiz auxiliar do Dr. Dioclécio Sousa.

Nesse curto período de 20 dias, tive a satisfação de escrever meu poema Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental, que desejava escrever há muitos anos. Mandei cópia, em primeira mão, para o general João Evangelista Mendes da Rocha, herói da luta contra o nazifascismo em terras italianas, que escreveu um belo artigo sobre esse texto, que depois enfeixou em livro. Transformei a parte inicial do poema em cartaz e promovi uma pequena solenidade, em que o apresentei a alguns intelectuais piracuruquenses.

Acrescentei haver escrito um conto, intitulado Tragédia Shakespeariana em Sete Cidades, que bem poderia ser transformado em filme. O poema e o conto foram publicados na grande rede. Tanto o magistrado Hilo Almeida como Carlos Resende disseram que iriam lê-los, com a ajuda do Google. Quando me despedi, a noite já começava. Perdi a caminhada que pretendia fazer, mas ganhei uma boa tarde, recheada de cultura, história, letras e outras amenidades.   

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O patriarca dos lúcidos


Fonseca Neto

Uma história de certa matriarca contada por um patriarca. Tudo assim – ela, ele e a própria história –, qual metáforas de uma prosa irresistível e doida de bonita.
O cenário de suas vidas em percurso é, outrora, o Piauí árido e marcado por uma serrania quase nua, onde é difícil distinguir os piauizeiros de antigos pernambucanos e de baianos... Por lá, as leis que separam as gentes, pela autonomia política, p. ex., não separam as famílias e sua ancestralidade forjada na comunhão de valores que as singularizam. Mas é cenário dessa trama, sobretudo,a estação do tempo presente, quando os escaninhos do ser-mãe essencial da matriarca sertãse abrem e sua memóriafoge qual perfume do vidro... A alquimia do patriarca, furtando ao esquecimento seu butim, consiste em capturar nessa fluidez a matéria memorial plena de sua matriarca.
Dona Purcina – a matriarca dos loucos”, lançado em 2012:claro que muitos amigos leitores já leram ou pelo menos ouviram falar desse livro do professor Cineas Santos. Trata-se da história de uma mulher singular sob vários aspectos, cuja vida revisitada revela as dimensões entre fantástica e dramática da sertaneja típica do nosso sertão recuado.
Uma matriarca dos loucos? E por que não o direito dos loucos ao aconchego de uma matriarca? Examinem-se os materiais cognitivos de alguém capaz de amá-los e na certa se descobrirá u’alma grandiosa. Segredo? Purcina os acolhia qual “normais”.
Contando em crônicasassim cheias de muita graça, Cineas compõe um painel biográfico de sua mãe, Purcina, com aquele hálito da memória dela quando partia em regresso “para dentro de si” e pesponta a narrativa com os fios puxados de seu próprio acervo memorial, cultivado com orvalho poético.
Purcina era filha dos camponeses José Malaquias das Chagas, um caripina, e Ana Rosa, nascida em 14 do século passado, no lugar São Braz, antigo município de Caracol. Antes de se casar com Liberato, em 1935, sua vida certamente foi marcada pelas duas mais graves secas nordestinas do Novecentos, a de 15 e a de 32, além de ter saído incólume, vantagem de morar naquele ermo, da tristemente famosa gripe braba, de 19.
Camponesa assim temperada, nela as sabedorias virtuosas encontrariam uma possibilidade de manifestação e expansão. Purcina e Liberato fundaram um lugar de morar e cultivar a sobrevivência, batizado por ela de Campo Formoso; aqui tiveram e criaram os filhos. Ela, com um olhar no futuro, tendo na miragem dos estudos deles a âncora do futuro feliz.Ele, tranquilo, “cidadão respeitável”, provendo as soluções encaminhadas pelo senso intrépido dela.
Tempo de escola dos meninos, rumam, ela à frente, e eles, para a cidade de São Raimundo Nonato, ali nas redondezas. De São Raimundo para a distante Teresina, já adiantado nos estudos, vem um deles, o Cineas, ao que parece o mais campoformosino de todos, e aqui, aldeão sem errâncias abissais, sertanejará de sabedoria maior, e até hinará, a capital que o Piauí criou, noutro contexto, com certo sentido de insertanejamento.
Matriarca sertaneja no sentido de Purcina, além da têmpera pétrea, significa, a varoa de palavra firme, mandatória, mas que a limpidez da vontade incontida de justiça, releva eventuais ranhuras da aspereza...
Cineas Santos presenteia a nós todos com esse inventário de memórias de dona Purcina – e de seu Liberato. Vida tiveram relativamente comum.Sua história fixada em sede da melhor escrita, porém, engrandece o presente ofertado, dizendo aos esnobes de certa modernidade, que a ética/estética dos valores dos povos da roça, são esperança e não sinal de desvanecimento da condição humana.
A matriarca do Campo Formoso, valente e doce, foi surpreendida pela “insidiosa” trama do Alzheimer. Sua memória e referências centrais foram “sequestradas” em direção ao pretérito, numa espécie de descronologia que desumaniza.
O matriarcado purcinense e os valores universais da vida humana dos que viveram e vivem para cuidar é a essência que Cineas Chagas Santos compartilha conosco nesse livro que, até mesmo os que não tiveram a ventura de saber ler e escrever, gostariam de ter feito para dizer coisas assim...
-Chegando para encontrá-la, de camisa amarrotada..., levantou-se, e começou a alisar-me a camisa... 
Salve! Oh! Patriarca dos lúcidos.