domingo, 11 de agosto de 2013

Seleta Piauiense - Ednólia Fontenele


O rio deságua em mim!

Ednólia Fontenele (1960)

O rio deságua em mim!
Algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam no mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM

sábado, 10 de agosto de 2013

Nostálgicas Gaiolas de Transporte


Edmar Oliveira

Hoje eu acordei nostálgico. Nas minhas rugas vi o tempo distante e me deixei levar para bem muito longe quando esperava com impaciência dos meninos uma viagem de Teresina a Palmeirais ou de itinerário contrário. Mas foram tantas as idas e vindas que as modernagens foram aparecendo e o que era novidade são rugas perdidas nas circunvoluções da memória.

Lembro do vapor do Rafael. Uma gaiola de dois andares que apitava para chegar e partir deixando uma fumaça preta nos céus do carvão queimado em suas caldeiras de ferro. Ele se achegava e encostava-se ao barranco improvisado de cais e a gente tinha que se equilibrar numa prancha para adentrar na embarcação. Depois as famílias armavam suas redes no convés e a monotonia da paisagem era quebrada por lavadeiras e pescadores que viviam de trabalhar no rio. Pelo meio do dia destampavam-se as latas de frito e era um cheiro de comida que vinha abafado dentro das latas saltando pra fora. Até hoje sinto o cheiro do frito de galinha ou de carne de sol, comida fria de vaqueiros, que guardava seu aroma e sabor em latas bem tapadas. A água fria da quartinha matava a sede da comida seca. O vapor deslizava lento dentro da noite para chegar no outro dia. Em Teresina o imenso cais de concreto nos facilitava o desembarque junto com os côfos, embalagem feita da palha do coqueiro, que traziam galinhas vivas em uns, farinha, feijão e milho da roça noutros. Com a modernagem a lentidão do vapor nas águas do rio, que demorava muito mais pra subir a corrente que pra descer, deu lugar as rodovias. Também a estiagem do Parnaíba e seus bancos de arreia dificultavam a navegação. As rodovias chegaram mais ligeiras.

Rodovias era um modo de dizer. Ou buracos da estrada carroçal de apenas cento e poucos quilômetros eram feitos por quase um dia todo. Mas os paus-de-arara eram mais rápidos que o vapor. Quando chegaram os “mistos”, aí a viagem ficou mais confortável. Tinha até lugar numerado dentro do banco inteiriço. A demora se acentuava com o embarque e desembarque de gêneros alimentícios que o transporte, misto de ônibus e caminhão, tinha que receber e entregar. Mais tarde vieram as jardineiras, meio fechada nas laterais, avó dos ônibus modernos. Aí a viagem já ficava um luxo de conforto!

Mas nunca vou esquecer uma viagem que fiz com a mudança da minha tia Vangir e a família para Teresina. Pequei uma carona no caminhão de mudança. Tia Vangir e seu marido Antônio tinham uma prole muito extensa. Às vezes eu achava que ela nem sabia contar os primos e primas. Viemos, os meninos, em cima da carroceria carregada da mudança. Móveis, bilheira, potes e outros utensílios de fácil quebra que nós tínhamos de salvar dos buracos. Os trapos eram poucos, mas tomavam quase todo o espaço. A farra era boa nas nossas peraltices. Mas quando chegou a noite a meninada foi se agasalhando como podia em cima do caminhão. Lembro que ainda tinha um galão de gasolina, cujo cheiro irritante desencadeou em mim uma crise de asma. Chegamos tarde da noite numa casa no bairro da Vermelha que não tinha luz elétrica. Minha tia tentava acomodar aquele bando de meninos nas redes, algumas com dois ou três. Dei sorte de ficar sozinho numa rede porque “piava” muito e tinha grande falta de ar que só melhorou quando o dia clareou. No café, tia Vangir deu por falta de um dos meninos que devia ter de ter ficado em Palmeirais ou naquela parada no Castelhano, onde eles tinham uma propriedade e nós paramos para almoçar. É claro que o primo apareceu logo depois por ali mesmo, só tinha saído para fazer uma incursão na cidade grande de madrugadinha, que era costume da roça.

Mas a jardineira, na qual andei muito, ficou embalando minha nostalgia numa foto que o Paulo José me mandou por e-mail. Se ela veio da nuvem da internet eu andei nela nas nuvens das minhas lembranças nas estradas esburacadas parando em Nazária, Caititu, Estados Unidos, Capumba, Castelhano e Riacho dos Negros, antes de chegar nos Palmeirais. A nostalgia vem das rugas que vejo num espelho, como num poema do Climério.

Fonte: Blog Piauinauta

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Crime de lesa-língua?!


Cunha e Silva Filho

 Não sei se meus leitores  ficaram sabendo  de uma  Lei  Federal,  a de Nº 12.605, de 03 de abril de 2012, que dispõe  sobre a forma gramatical de, nos  diplomas do ensino superior brasileiro, referir-se ao diplomado ou graduado através de desinência  de gênero pela  troca  do morfema –o pelo morfema –a, assim  simplesmente e elaborada ao arrepio  de   fundamentação  linguísitca e de respeito  à índole da língua portuguesa e de sua  formação  histórica, ou melhor dizendo,  do  português brasileiro, sintagma  classificatório  que, a meu ver,  melhor  se adapta  às modalidades  e variantes  léxico-prosódicas  do português lusitano,  matriz  primeira  da língua  portuguesa.
Em questões  de ortografia  e morfologia,  não se alteram  formas  linguísitcas  ao bel-prazer  de alguém ou de uma autoridade,  ainda que  essa autoridade seja   o/a  Presidente da República.O fato  me recorda o tempo  da Reforma Ortográfica de 1943,  quando, por razões  de bairrismo,  inseriu-se a letra “h” no vocábulo  “Baía” para  designar  o  Estado nordestino apenas para  se atender  a um sentimento  de um imortal  ilustre  da Academia Brasileira de Letras  na época  em que era dela presidente José Carlos Macedo Soares, signatário do documento “Das Instruções  para a Organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Nacional, 12 de agosto de 1943),  natural  daquele  estado.Ora,  isso não tem cabimento nem a mínima   base  científica, porquanto,  para  designar  o natural  da Bahia,  o locativo  “baiano,”  não  se grafa com  um “h” epentético.
Vejam, leitores, o que  com justa  razão, para  reforçar o que  relatei acima,    afirmaram  sobre  esse  fato  o eminente professor  Enéas Martins e Barros e o  distinto  filólogo  e gramático  Modesto  de Abreu a propósito da Reforma Ortográfica  de 1943:

(...) “ Na reforma de 1943, até o bairrismo imperou. Por proposta de um acadêmico baiano, a palavra Bahia manteve o h, contra todos os princípios em que se  louvava a citada reforma, para satisfazer um único imortal, como se essas questões secundárias pudessem  influir num assunto de fundo científico (itálicos dos autores. Cf. M. Barros, Enéias e ABREU,  Modesto de. Curso de Português. 7 ed. Primeira série,Curso  Colegial. São Paulo: Editora do Brasil, 1958, p.154).

O que  fica  evidente  é sanção    de uma Lei  que  “aprova’  o uso  de um  erro gramatical para designar  os gênero  masculino e feminino em  substantivos  considerados do gênero  comum de dois, cuja   forma  de designar  o masculino   deve ser  pelo   uso  do artigo  ou adjetivo   masculino ou feminino,  conforme o caso, como,   por exemplo,  “motorista,”  “dentista”,  “presidente’ etc.
Entretanto,  ao tomar  posse na Presidência da República a Sra.  Dilma Rousseff   fez questão  de "inovar"  o português  brasileiro, ao se dar  o tratamento  de “Presidenta”, enfatizando  a flexão feminina em ” -a “ como se fora  correto  esse uso designativo  de sexo para a relevante  função pública. Exemplo de “feminismo”? De parecer  diferente  por ser a primeira mulher  brasileira a assumir  o mais alto  cargo  do país? A mim  pareceu apenas  um mero  capricho  de exibição do poder  da mulher, algo  bizarro, sem   importância alguma. Quanto à sua entourage,  essa  se  superou  no aulicismo,  na  bajulação palaciana  de serem  os primeiros  a empregar  o substantivo  no feminino. Felizmente,  o  jornalismo  não  aderiu  a essa bizarrice  infundida  de parti-pris de estofo  petista.
Um tipo de Lei  assim é aprovada, não tem repercussão e não me consta  que algum  estudioso  da língua portuguesa  tenha  feito  algum  comentário  sobre  ela. Não  é possível que tenham  ficado  calados os lingüistas,  os filólogos e os nossos gramáticos.  Não sei tampouco  que atitudes tiveram os membros  da Academia Brasileira  de Filologia ou outras entidades   ligadas  aos estudos   linguísticos e filológicos, tendo à frente a Academia  Brasileira de Letras.
Conforme  li  num texto  da internet,  será que, de agora em diante,  teremos   gente  que,  aderindo  a essa  excrescência de Lei,  irá  empregar, aproveitando os esquema de abusos contra  o nosso idioma cometidos  por  ignorantes (deputados federais )  dos usos  linguístico-gramaticais,   substantivos, para  designar  os dois gêneros no que diz  respeito a profissões e formas de tratamento   oficiais,  em moldes  bizarros tais como  “o dentisto,  a dentista,    o oftalmologisto, a oftalmologista,  o motoristo, a motorista, ou,  quem sabe, o presidento para combinar com a presidenta, conforme  ironizou um amigo espirituoso e criativo.. Eu não sabia que o português brasileiro era uma terra de ninguém, um vale-tudo, um samba de crioulo doido.

Têm a palavra  os gramáticos,  os linguistas e os filólogos. O que não  se  pode  continuar   é  com esse  tratamento  sem base científica e sem  o devido respeito  ao uso   escrito  de nossa  língua,  agora  submetida  a  humores e  caprichos  excêntricos  e fascistas, interferindo atabalhoadamente em campos de estudos  de linguagem  dos quais  não têm  nenhuma  formação sólida. Por acaso, foram consultados  os especialistas no  assunto   ou deles foram  solicitadas  opiniões criteriosas e  abalizadas? Creio que não. Daí o absurdo da Lei.Nº 12.603.
Pergunto-me: que ideia estapafúrdia é essa  de o  Congresso decretar  e a Presidente sancionar  uma lei  dessas?  Ou, como um  amigo  me  confidenciou: o Governo não tem coisas mais  importantes e urgentes a fazer, por exemplo,  - acrescento eu -, atender  aos  gritos  das manifestações nas ruas? 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

16 antimaravilhas de Teresina


José Maria Vasconcelos

A paixão manipula a razão para enxergar só maravilhas, e não o desagradável. Quantos amores acabaram mal por esses desvios!
Faltam alguns dias para o aniversário de Teresina, 16 de agosto. A mídia já começa a divulgar a programação festiva. Aniversário da cidade, 16 de agosto, se comemora com música alegre, esportes, cultos, inaugurações e medalhas. Não é tempo para cerimonial fúnebre e negativo. Todavia a louvação exagerada pode servir para esconder, debaixo do tapete, o sujo que faltava limpar para a festa se encher de maravilhas e encantamentos. Posso até chatear os exaltados, soprando contra a luz das velas, furando o bolo de aniversário. Quero, pelo menos, levantar o tapete.
Teresina encanta - não há de que lhe esconder as maravilhas - mas sem paixões que se inclinem para certas negligências. A mídia festiva conclama a população a escolher as 16 maravilhas de Teresina. São tantas, mais que 16, que até esquecem de limpar a casa para a festa. Relacionei 16 antimaravilhas, aliás maravalhas, que a visão míope da razão não vê ou tenta esconder. Vamos lá:
1. FEIJOADA VIP: A trepidante sociedade se esbalda, quase semanalmente, em feijão-afro, carregado de toucinho, canela de porco e calabresa. Há sempre um colunista promovendo banquete do colesterol. Os romanos já desfrutavam farras homéricas, que lhes abreviavam a vida.
2. MAU CHEIRO DA RAUL LOPES: Bela avenida, corpos esculturais em caminhada, magnífica natureza e deslumbrante Ponte Estaiada. Infeliz, porém, quem se arriscar a exercício respiratório nas proximidades dos esgotos que arrotam bafo insuportável.
3. DELEGACIA DO SILÊNCIO: Muito barulho no lançamento, que não ameniza irritantes decibéis. Casas noturnas chiques varam a madruga sem medo. Do Recanto das Palmeiras, a 2 km da minha residência, ouvem-se os estalos metálicos em pleno raiar do dia.
4- CANTEIROS DAS PRAÇAS: Sem cobertura de húmus e gramíneas, as árvores das praças e parques perdem resistência, devido ao solo desgastado pela erosão, expondo suas raízes por dez ou mais metros.
5. CALÇAMENTO CORCUNDA DE JACARÉ: Uma herança do tempo da administração Wall Ferraz, que beneficiou quebradores de pedras, mas enfeiam muitas ruas.
6- RODOVIÁRIA LUCÍDIO PORTELA: Cartão postal da cidade, inaugurada há 40 anos. Escadas rolantes sem funcionar, banheiros imundos, piso esburacado. Se pertencesse a empresa privada, sofreria pesadas multas pelo descaso. Por que não a privatizar?
7. BALNEÁRIO CURVA SÃO PAULO: Construído, em 2007, nas beiradas do rio Poti, 5 milhões de reais, sem previsão das enxurradas do rio, que já engoliram bocado das simpáticas barracas, além da malandragem reinante no local.Banheiros quebrados, desolação quase total.
8.PARQUE CIDADE: Inaugurado há 20 anos, nunca recebeu um reparo, explica-se a degradação por que atravessa.
9. SERVIÇOS DE TELEFONIA: Foi mais fácil aproximar-se do Papa Francisco, no Brasil, do que ser atendido pelas telefonistas.
10. CENTRO DE CONVENÇÕES: Insaciável consumidor de verbas públicas, inacabado. Ainda aparece ex gestor pretendendo voltar ao cargo, para celebrar a posse entre cascalhos e promessas.
11. RIO PARNAÍBA EMBRIAGADO: Constataram-se produtos de cervejaria lançados nas águas e engolido pelos canos da Agespisa. Quem enfrentar o bafômetro já era.
12. DEZENAS DE GALERIAS E ESGOTOS SEM TRATAMENTO: Destino? Claro, Parnaíba, tão decantado em tempo de aniversário da capital! O Poti virou cloaca, em que se misturam fezes e órgãos ambientais.
13. METRÔ DE SUPERFÍCIE: A velhice técnica pedindo uma maca para socorrer acidentados e continuar viagem.
14. TÍTULOS DE CIDADANIA: São mais distribuídos que Bolsa Família. Uma carícia parlamentar para muitos de poucos méritos.
15. AUDIÊNCIA PÚBLICA: A moda pegou.

16. FUTEBOL CLASSE D: A cada ano desce uma letra, só falta concluir o alfabeto. Campeonato, agora, é pelada da sobrevivência. Ainda vão aos tapas por uma vaga ou disputa de presidência.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Dicionário de Expressões do Piauí

Jornalista Toni Rodrigues, juiz Anchieta Mendes e o autor

Senhores e senhoras,

O livro que hoje se torna público traduz principalmente uma cidade, naquilo que ela tem de mais característico como elemento de identidade – sua linguagem, materializada no sentido das palavras de sua gente; o léxico comum de ruas, bares, casas, fazendas, o léxico empregado sobretudo em situações de comunicação informal ou na espontaneidade das conversas não monitoradas pelos falantes. Enfileiram-se em Dicionários de expressões do Piauí algumas centenas de vocábulos do Norte piauiense, grande parte delas genuinamente utilizada na cidade natal do autor.
Por isso, quero aqui, antes de apresentar breve visão geral deste livro, fazer longa digressão, a fim de remeter-me à representação historicamente construída sobre Barras do Marathaoan.  Torna-se quase impossível falar em Barras sem evocar sua natureza e a história de um passado oficialmente marcado, até a década de 1950, por conquistas e “heróis”.  
Barras é principalmente um rio – o Marathaoan, tão grandioso que um dia, registra o historiador Moisés Castello Branco, chegou-se a acreditar que o curso d’água a alguns quilômetros do perímetro urbano dessa urbe, o Longá, juntamente com o Marathaoan, tratava-se de um único rio. Acreditava-se, pois, segundo o historiador, que tudo era Marathaoan. Barras é principalmente um rio – o curso de águas que evoca de muitos dos aqui presentes, barrenses de nascimento ou coração, alguns dos mais memoráveis instantes de felicidade. Quanta alegria olhar para o espelho d’água serpenteando olhos e casas, e suas histórias de tempos idos de forte convivência comunitária e respeito mútuo.  O rio que é a própria cidade.
Torna-se quase impossível falar em Barras sem evocar sua história até meados  do século XX, sem evocar seu pioneirismo, bravura e vocação para a liderança. Sem evocar o pioneirismo de Estevão Lopes Castello Branco, que fundou a primeira associação com o fito de libertar escravos, marcando o compromisso dos homens de bem desta terra com a liberdade e a dignidade humana.  Sem evocar a bravura dos que corajosamente se enveredaram pela guerra e, como recompensa, aquilataram postos de destaque na política nacional durante a República Velha. Sem evocar a liderança de políticos, militares, médicos, advogados,  escritores, jornalistas e  professores que se projetaram para além das fronteiras geográficas de suas origens.  É uma visão bairrista – ás vezes, até ingênua – mas dela nos orgulhamos.
Evocar Barras é reverenciar a memória de Taumaturgo de Azevedo, Joaquim Pires, Teodoro Castello Branco, João Pinheiro, A. Tito Filho e tantos e tantos homens, de ontem e de hoje, apaixonados pelo trabalho, pela arte, pela vocação para servir e principalmente, movidos por um afeto que não cabe no peito, devotados à  elevação  do berço em que ao mundo vieram . Aludir a esse chão  é, pois, evocar a sua história. A história que é a própria cidade.
Torna-se quase impossível falar em Barras sem mencionar a religiosidade de sua gente, traço definidor da povoação dessas  terras situadas entre as seis barras de rios e riachos que formam cidade de paisagem física tão exuberante. Vibra nas ruas e no adro do templo católico, templo cuja história se iniciou em fins do século XVIII, o templo de ontem e o de hoje, a esperança e a fé de que a força da oração suplanta os mais árduos e dolorosos desafios.  Vibra nos corações barrenses a certeza de que Nossa Senhora da Conceição está ao seu lado, para ampará-los e protegê-los,  como o faz a generosidade de toda mãe. Nossa senhora da Conceição e sua igreja. A cidade é Nossa Senhora da Conceição e sua igreja.
Aí, que saudade eu tenho de lá”, cantou um dia a sua dor o poeta Franci Monte. Cantam os barrenses distantes, nas reminiscências  que o tempo não cansa de repetir: “Ai que saudade eu tenho de lá, às vezes me dá vontade até de chorar, de chorar”.
Senhores e senhoras,
Se  evoco uma cidade é porque se torna  quase impossível  a ela aludir,  a seus valores e  a suas tradições, hoje,  sem citar este nome: Antenor de Castro Rêgo Filho, para os mais próximos, afetuosamente, Tena Filho. Antenor, desde muito jovem, apaixonado pela cidade em que nasceu, organizou seus objetivos de existência para elevar o lugar de sua origem. Graças a ele, um pedaço significativo da memória de Barras do Marathaoan é conservado. Graças a seus livros, assim como aos de Wilson Carvalho Gonçalves, Afonso Ligório Pires de carvalho, Edgardo Pires Ferreira e Gilberto de Abreu Sodré de Carvalho, Barras tem o que recordar e, infelizmente, também, o que lamentar.
A história de Antenor é marcada, desde sempre, pela permanente contribuição com sua Terra-berço. Escrevendo sobre fatos do folclore de Barras-PI, sobre sua história e mais recentemente sobre a linguagem, o escritor, que presidiu com destaque a Academia de Letras do Vale do Longá, vem evitando que a ausência de arquivo público ou de quaisquer iniciativas para preservação da história de seu torrão impeçam que as novas gerações desconheçam o processo histórico e social de formação de Barras.
Resgatando fatos curiosos ou folclóricos da memória oral de uma  Barras ainda constituída em torno das antigas fazendas e seus coronéis, ou da religiosidade peculiar, elemento definidor da povoação desse rincão, Antenor construiu obra ímpar da literatura de tradição oral no Piauí, o consagrado livro Jacurutu. Nele, desfilam alguns dos personagens vivos do imaginário coletivo de Barras. O inventor Zeca Velho, que sonhava com a arte de voar e um dia construiu seu rústico aeroplano. O valentão Lima Verde, que pagou com crueldade as maldades que assombraram seu tempo. Os risos e os risos dos fatos pitorescos que a memória oral difundiu e Jacurutu arquivou.
Escrevendo sobre a História de Barras, Antenor lega para a posterioridade o indispensável “Barras – histórias e saudades”. Antes de ser trabalho de afinado memorialismo, com descrição de traços do cotidiano da Terra de José Carvalho de Almeida, o livro é pioneiro na sistematização de informações sobre a educação, a saúde, a comunicação, os serviços públicos e, principalmente, sobre o processo de colonização de Barras, com documento até então inédito: o testamento de Miguel Carvalho de Aguiar, o fundador da Fazenda Buritizinho, hoje Barras do Marathaoan.
Senhores e senhoras,
A inquietação em registrar seu tempo e os costumes da Terra-berço levaram Antenor Rego, agora, a presentear os conterrâneos com o Dicionário de Expressões do Piauí, livro que, como bem escreveu o professor e jornalista Carlos Said, revela a primorosa habilidade do autor para a pesquisa em filologia.
Este livro permite conhecer, por meio de expressões e frases feitas, típicas de contextos específicos, aspectos inerentes ao falar piauiense. Lúdico por natureza, este Dicionário de Expressões do Piauí cumpre o firme propósito de evitar que termos comuns da linguagem piauiense sejam suplantados pelas rápidas transformações, oriundas dos processos de aculturação que as modernas tecnologias possibilitam hoje, interferindo até mesmo sobre a linguagem pela inserção nela de termos e significados que deformam a cultura.
Pesquisas dessa natureza encerram uma função clara: além de divertirem, asseguram o sentido da língua enquanto manifestação cultural. A linguagem reproduz, pelo vocabulário, os símbolos e sinais da realidade e, desse modo, constrói significados que transcendem o aqui e o agora. Desse modo, como explicam Peter Berger e Thomas Luckmann, esclarecendo sobre a construção social da realidade:
A linguagem tipifica as experiencias, permitindo-me agrupá-las em amplas categorias em termos dos quais tem sentido não somente para mim, mas também para meus semelhantes. Ao mesmo tempo em que tipifica, também torna anonimas as experiências, pois as experiencias tipificadas podem ser repetidas por qualquer pessoa.” (p.57)
Nesse sentido, Termos e orações feitas, como símbolos que são conservam dada realidade social. Assim, os verbetes de Dicionário de expressões do Piauí, como registro da oralidade ou símbolos, conserva, pela linguagem oral, componentes da vida cotidiana da região de Barras do Marathaoan.
Não me estenderei sobre o significado de nenhum vocábulo, porque a curiosidade de vocês para passear pelos sentidos das palavras bem nossas é grande – não cabe na ansiedade de cada um comprar logo o livro e aproveitar do tempo de que aqui dispõem para o bom bate-papo, neste que é um dos espaços de sociabilidade mais sadios de Teresina.  Divirtam-se com os termos aqui catalogados. Tenho certeza de que revisitarão este livro muitas vezes, de que farão dele um precioso manual de consultas.
Divirtam-se! Obrigado pela paciência. Boa Noite.

Dílson Lages Monteiro
Editor de Entretextos

Discurso proferido em 02.08.2013, em apresentação ao livro Dicionário de Expressões do Piauí, de autoria de Antenor Rego Filho, editado pela Nova Aliança Editora e Portal Entretextos.


domingo, 4 de agosto de 2013

Seleta Piauiense - Elmar Carvalho


ELEGIAS INOMINADAS

Elmar Carvalho (1956)

        I

Seus olhos
tinham a melancolia
profunda dos crepúsculos.

Por vezes se escondiam
detrás das venezianas
dos cílios impenetráveis.

Em seus olhos verdes
boiava a tristeza
dos naufrágios

e a saudade
das naus que se foram
e não mais voltaram.

Seus olhos
tinham o sortilégio
e o mistério dos eclipses.

Nos seus olhos
meus olhos orbitavam
prisioneiros da gravidade

desses quasares binários
em que imergiam
e se perdiam.

sábado, 3 de agosto de 2013

LEMBRAR NOVAMENTE

Miguel e Rosália

LEMBRAR NOVAMENTE

Carlos Said

No livrete “Retratos de Minha Mãe”, o consagrado Elmar Carvalho (José Elmar de Mélo Carvalho: Campo Maior, Piauí, 1956), distinto acadêmico da Academia Piauiense de Letras, sodalício fundado no dia 30 de dezembro de 1917, transcreveu singelos singelos versos de imorredoura saudade: “Ainda assim acredito / Ser tempo tempo tempo / Num outro nível de vínculo”.

Necessária é a explicação concernente à presença do poeta Antero do Quental (Antero Tarquínio do Quental: Ponta Delgada, Açores, 1842-1891). Pertencente à geração dos intelectuais portugueses da Universidade de Coimbra, escreveu o livro de sonetos: “Odes Modernas”, publicado em 1892, um ano após a sua dolorosa morte. Num dos excepcionais sonetos: “Raios de Extinta Luz”, sublimou a frase que é o facho luminoso da expressão justificadora dos após morrer: “Na mão de Deus, na sua mão direita”. Evidentemente, Elmar buscou o formidável Antero como exemplo da fé cristã, uma vez que devemos entregar o corpo da pessoa querida aos cuidados da mãe terra. Tal como acentua a escritora Carson McCullers (Columbus, Estados Unidos, 1917 – Nyack, Estados Unidos, 1967): “Eu vivo com as pessoas que criei”.

Assim, brotou no coração do Elmar Carvalho a semente do eterno amor pela adorada mãe Rosália Maria de Mélo Carvalho. Daí, poeta convocando poeta, eis Antônio Sampaio Pereira (Esperantina, 1923), surgindo com tanta espontaneidade. Na ajuda (sic) a fim de Elmar memorizar para sempre o nome daquela que lhe deu o ser, Sampaio justificou os seus exuberantes versos: “Como eu, quanta gente existe, / Que quase não resiste / À cruel fatalidade” (…) “Lamento que já não possa / Matar o meu desejo / De dar em minha mãe um beijo / De amor e de ternura”.

O proveitoso apego do literato campomaiorense pela beleza da vida, mostra-nos quão é proveitoso retratar os instantes felizes dum passado sustentado por recordações familiares inexcedíveis. Diante do exposto, não nos importa a crônica d' agora ser ou não aprovada. O conteúdo prenhe de inspirações faz por onde lembremos as ocasiões de peregrinação e paz, fortalecimento do espírito e do respeito pelos que ainda vivem condicionados à roda da fortuna (sorte) ou não tê-la nos empreendimentos da jornada terrena. Consequentemente, não devemos debochar da dor que atormenta a gente que, após traumas, ainda acredita numa felicidade sem fingimentos.


O exemplo do José Elmar de Mélo Carvalho é digno de aplausos. Descrever o trabalho da querida mãe Rosália Maria (quando viva), talvez nem todos saibam: é o convencimento do filho retribuindo generosamente o calor materno tantas vezes servindo de agasalho. Multiplicando explicações: família é como o orvalho da manhã que caindo revigora a planta e o perfume das flores que virão, reacendo no futuro o que a terra mãe e santa nos oferece. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

EU VI...


Na cadeira, o patriarca Nestor Rios, em seu centenário. Em pé: Batista Rios, ladeado por Eduarda (filha), Vera Lúcia (esposa), e os seus filhos Batista Filho e Saulus

EU VI...

João  Batista Rios (*)

Convidado pelos meus filhos, Batista Filho e Saulus Rios, fomos juntos ao Rio participar da JMJ.
Foram sete dias de muita adrenalina. Jovens de quase duzentos países chegaram ali para um encontro pessoal com o Papa Francisco.
Mas, afinal, o que vi por lá?
Sim, eu vi. Eu vi jovens com seus idiomas e dialetos se miscigenando e facilmente se comunicando, eis aí o grande milagre.
Eu vi o abraço de duas jovens (fui às lágrimas) do Irã e dos Estados Unidos com suas bandeiras, nada preocupadas com a rejeição diplomática que seus países fazem entre si.
Eu vi a juventude mundial sob um clima de treze graus ao lado do Arco da Lapa e sob chuva pulando e cantando louvores a Deus sob a batuta da bonita voz da religiosa Irmã Kely.
Eu vi muitos jovens pernoitarem na areia fria da Praia da Copacabana como forma de terem um lugar que melhor chegasse ao altar da Santa Missa.
Eu vi aquele lugar de lazer e entretenimento conhecido com a praia mais sensual do mundo transformar-se em praia de oração, fé e altar.
Eu vi o frenesi de três milhões e setecentos mil jovens nas longas caminhadas pelas ruas, avenidas e túneis, citando palavras de ordem, como: “Nós somos, a juventude do Papa” e “Viva Cristo”.
Eu vi uma senhora carioca chegar junto com alguns amigos na manhã da Santa Missa do Envio celebrada pelo Papa Francisco, cheia de felicidade, distribuir copos de Nescau quentinho aos peregrinos que dormiram dentro dos seus sacões em Copacabana.
Eu vi a reedição de um novo Pentecostes no Rio de Janeiro, onde igualmente jovens de diferentes línguas se confraternizavam sob a ação da linguagem do sorriso, do amor, do gesto, do respeito, do olhar, da fé.
Eu vi jovens chineses rasgando as ruas do Rio com suas grandes bandeiras exteriorizando toda sua fé, sua alegria, seu direito de ser livre e de ir e vir de filhos de Deus, atitudes que se lhe são coibidas em seu pais. (Chorei aqui também)
Eu vi um jovem esloveno desprender-se de seu casaco de frio e fazê-lo pousar sob um mendigo que deitado sob um banco do ponto de ônibus na Urca se protegia do frio sereno.
Eu vi uma plêiade de jovens argentinos de joelhos, no alto do Corcovado, aos pés de Cristo Redentor, orarem para o seu patrício Papa Francisco.
Eu vi a cidade do Rio de Janeiro parar para assistir a uma invasão de jovens dos quadrantes do mundo jamais vista que pra lá foram pregar a paz e a esperança para um mundo mais comprometido com a lição do evangelho de Jesus Cristo.
Eu vi a juventude esperançosa pelo futuro da Igreja Católica enrustido nos carismas franciscano e inaciano do Papa Francisco.
Eu vi, e o mundo inteiro ouviu, o Papa dizer: “Cristo bota fé nos jovens e que o futuro do mundo passa pela janela da juventude”.
Eu vi, finalmente, muitos jovens declararem que a extensão da JMJ do Rio será em Cracóvia, na Polônia, e para lá que vamos.
E eu também quero ir. Agora envolto pela mística e estro jovens, sobretudo dos meus filhos, que não os deixei me convidar. Eu os convidei. 

(*) O autor é juiz de Direito aposentado e católico fervoroso.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

FESTA E (SESQUI)CENTENÁRIO NA VÁRZEA DO SIMÃO

Várzea do Simão, vendo-se a casa que pertenceu a João Simão e dona Filomena

1º de agosto   Diário Incontínuo

FESTA E (SESQUI)CENTENÁRIO NA VÁRZEA DO SIMÃO

Elmar Carvalho

No domingo, dia 21, fui participar de um churrasco na Várzea do Simão. Haveria também uma reunião da diretoria de sua associação de moradores, da qual participariam Sidney, conhecido como Pimpim, e sua esposa Clara, secretária de Infra-estrutura do Município de Buriti dos Lopes, e minha mulher Fátima. Entre outros assuntos, seria discutido o melhoramento da estrada vicinal que vai da ponte do Jandira até o Rebentão.

Dessa forma o povoado ficaria mais bem ligado aos municípios de Buriti dos Lopes e Parnaíba, já que fica no limite entre essas duas unidades administrativas. Cabe informar que, na gestão do prefeito parnaibano José Hamilton Castelo Branco, a estrada carroçável que vai da BR 343 ao Rebentão foi restaurada, e se encontra em bom estado. Entretanto, a que liga o Rebentão à Várzea do Simão está em situação precária; na seca, apresenta-se cheia de enormes buracos e crateras, e, no período chuvoso, fica repleta de lamaçais e atoleiros, tornando quase impossível o tráfego, exigindo do motorista muita paciência, perícia e conhecimento dos pontos críticos. E sobretudo estar dirigindo um veículo com tração nas quatro rodas.

Inicialmente, participávamos do churrasco o Canindé, o seu genro Sávio, o Diá, meu cunhado, o Didi, que é o mais novo morador da localidade, e este que isto escreve. No início da tarde, quando as libações e degustações já estavam mais animadas, chegaram algumas pessoas que participaram da reunião da Associação, o Natim e sua namorada, além de outros convidados.

O Canindé Correia, que se autoproclamara Mestre de Cerimônia, porém aceito e aclamado à unanimidade, disse algumas palavras sobre a importância e significado da reunião da Associação de Moradores da Várzea do Simão, bem como da parte comemorativa e festiva, e me nomeou “orador oficial” do evento. Não tive como me escusar da missão que me foi delegada pelo meu velho amigo e compadre, posto que ele é o padrinho de meu filho João Miguel, que tem esses prenomes em homenagem ao seu avô materno João Simão, e ao paterno, Miguel Arcângelo.

Em minha fala, expliquei que a Várzea do Simão era uma comunidade mais do que centenária, uma vez que João Simão (João Rodrigues de Sousa), se vivo fosse, teria mais de cento e dez anos de idade, e o pai dele, o patriarca Pedro Simão, fora um dos primeiros moradores da comunidade. Portanto, a história da Várzea, no entendimento do Diá, considerando os primórdios de seu povoamento, já vai para mais de 150 anos. Acrescentei que Severiano Neves, irmão de João Simão, é considerado o fundador do município de São Félix do Araguaia, tendo sido seu primeiro prefeito, conforme pode ser visto através da internet, com a ajuda do “doutor Google”.

Falei que a rodovia estava tão deteriorada, que praticamente não mais existia, vez que desaparecera todo vestígio de piçarra; que praticamente era apenas uma trilha feita por carros, motocicletas, bicicletas, pessoas e animais, que a percorrem com razoável intensidade. Não será apenas uma restauração, mas, sim, uma verdadeira reconstrução de estrada. Aproveitei para prestar uma homenagem ao Didi, que nos preparava um delicioso manjar, com o engenho e a arte dos grandes mestres churrasqueiros.

O Mestre-de-Cerimônia, economista Canindé Correia, que foi operoso e probo secretário da Educação do Município de Parnaíba, na primeira administração de Zé Hamilton, conforme ressaltei em minha alocução, facultou a palavra, porém não houve quem dela quisesse fazer uso, de sorte que dou as minhas palavras como bem ditas. Arremato dizendo que o prefeito de Buriti dos Lopes, o advogado Bernildo Duarte Val, tempos atrás, havia prometido a restauração da estrada. Por coincidência, de manhã cedo, ainda em Parnaíba, eu havia encontrado o Val, velho funcionário do BNB, que me disse ter ciência de o prefeito haver tomado essa decisão.


Na reunião da Associação, o Pimpim e a sua mulher Clara, entre outros assuntos debatidos, afirmaram que o Dr. Bernildo Val tem o firme propósito de reconstruir a estrada que integra a região que vai da Ponte do Jandira ao Rebentão. Sem dúvida nenhuma será uma grande, útil e necessária obra, que dignificará a sua gestão.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

XVII ENCONTRO CULTURAL DE AMARANTE


O XVII ENCONTRO CULTURAL DE AMARANTE é uma das maiores festas do Estado do Piauí. Nesse encontro são valorizadas as manifestações populares locais, notadamente a riqueza do folclore amarantino em suas danças, lendas e culinária. Além disso, durante o período do evento, serão focalizadas ações públicas que visam integrar governo e sociedade. Fortalecendo o acontecimento, grupos musicais locais e de outros municípios se farão presentes, inclusive com uma banda musical de renome nacional.


A PROGRAMAÇÃO É A SEGUINTE:

DIA 02/08 – A partir das 19:00h – ABERTURA DO ENCONTRO CULTURAL
- Participações de Igrejas Evangélicas, louvores e show com a Banda Petrus uma referência da música gospel em todo território nacional
DIA 03/08 – A partir das 19:00h – Apresentações culturais de vários municípios do Piauí, incluindo Teresina.
- Noite dos Talentos – Participações de artistas de Amarante
DIA 04/08 – 08:00h – Missa na Igreja Matriz de São Gonçalo do Amarante em homenagem aos 142 anos da cidade de Amarante.
- 16:00h – Inauguração de calçamentos no “Residencial Amarante Novo”
- Inauguração da reformas empreendidas no Posto de Saúde Mamede Rodrigues
- Inauguração da Básica de Saúde “Auta Rosa” no Residencial Amarante Novo
- Recepção das autoridades: senadores, deputados, prefeitos de diversas cidades e lideranças políticas.
19:00h – Atrações culturais populares, bandas musicais
- Encerramento – Grande Show com a “Banda Musical Moleca Sem Vergonha”.

terça-feira, 30 de julho de 2013

RÉQUIEM AO INESQUECÍVEL

Neto e Zé Francisco Marques
No sítio Karajás, Elmar, Neto e Zé Francisco

Neto com amigos e familiares, no sítio Karajás


José Francisco das Chagas Marques

Se alguém pedisse para descrever o meu compadre Neto, eu usaria, sem dúvida, palavras como: honesto, prestativo, solidário, amigo... Enfim, palavras que embora tragam no bojo substanciais significados certamente não definiriam o caráter e presteza da grande figura humana por ele representada.

Conheci-o logo assim que comecei a lecionar. Aproximou-se de mim com aquele olhar paternal a um filho que se sentia perdido em mundo recém adentrado. Recebi dele as primeiras lições de como me portar na atividade letiva, como também recebi dele vasto acervo didático que trago comigo até os dias presentes. Era o irmão que me faltara até então. Tínhamos gostos semelhantes e nos nossos momentos de lazer formávamos uma “dupla sertaneja” que recebia nomes jocosos a cada encontro.

Recebi do meu amigo diversas lições que modestamente procuro por em prática. Devo a ele o significado e entendimento de algumas palavras que antes eu não tinha a dimensão e muito menos a clareza de como são importantes quando postas em prática. Ele era a própria personificação da bondade e disponibilidade, não somente para os seus familiares, como também daqueles que precisassem de seus tão bem vindos préstimos.

Vem-me à mente um flashback dos momentos maravilhosos que podemos compartilhar. Das pescarias, dos bate-papos noite adentro, das “violadas” ao pôr de sol e das inevitáveis piadas que construíamos para de certa forma “driblar” os nossos problemas cotidianos em comum. Dividimos também o lado amargo que a vida nos apresenta. Fui, por vezes, o seu aconselhador ao ouvir-lhe pedido de socorro aos problemas que a vida insistentemente nos remete. Tenho a satisfação de dizer que contribuí em muitos momentos para amenizar as “culpas” que o meu querido compadre dizia trazer consigo.

E... veio a doença fatal e impiedosa, dessa vez mais avassaladora e letal. Tentei utilizar, de todas as formas possíveis, palavras que o trouxessem de volta à realidade, que parecia ter sido substituída por um mundo de desesperança e conflitos internos gigantesco. A doença que o acometera lhe tirou o brilho do olhar, extirpou do seu ser a enorme fé que o acompanhava, e esse turbilhão de fatores negativos certamente o levaram a sucumbir da tão preciosa vida que Deus generosamente nos ofertou.

A sua energia ficara para sempre na sua querida Chácara Karajás. A brisa costumeira da noite, ondulando as vastas árvores do lugar, será canção àqueles que jamais o esquecerão. Na bonita paisagem que se afigura do local, estará sempre a sua face a reluzir. Os pássaros que recebiam dele terna proteção, habitando os frondosos galhos das árvores do lugar, entoarão para sempre a canção melodiosa da paz, em lindo e harmonioso concerto divinal.

Será difícil ultrapassar os portões da chácara e não sentir incontinente a sua presença tão substanciosa, como também difícil será não ver os seus braços abertos prontos para um abraço como só ele sabia dar. Será difícil não ver aquele sorriso terno e não ter aquelas palavras amigas e reconfortantes.

É amigo, você na vida foi o mestre da doação, do dispor e ... esqueceu-se de sua própria pessoa. Quem, além dos grandes homens da história, possuíram tais dons beneméritos? Quem, além daqueles que desconhecem do seu vocabulário a palavra egoísmo, se dispuseram a tais feitos filantrópicos?

Quando o vi pela última vez, recebi o mais forte abraço que eu recebera até então. Mas, falível que sou como humano, não pude entender que mais que um abraço, aquele gesto era um pedido de socorro ou – quem sabe? – a despedida de alguém que da vida finalmente vira o brilho de todas as cores cessarem. Não pude lhe agradecer pelo enorme bem que me fez, da pessoa que, espelhada em seus exemplos, tenta a cada dia melhorar no plano em que habitamos.

Vá em paz, meu compadre, e que Deus lhe conceda as benesses celestiais dignas de sua postura em nosso convívio.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Não tenho ouro nem prata, mas..."


José Maria Vasconcelos

Este MAS, inserido no enunciado da mensagem do Papa Francisco, em visita ao Brasil, exige reflexão: "Não tenho ouro nem prata, MAS vos trago Jesus Cristo." Certas autoridades que lhe apertaram a mão sentir-se-iam envergonhadas, se caíssem em si, em contrição, diante de um servo de Deus simples, despojado de vaidade e fome de poder.
Postei, no Facebook, a preciosa saudação, e desafiei: "A frase não é do Papa, mas inspirada na Bíblia. Em que livro se encontra e quem a pronunciou?" Danilo Damásio, Rafael Almendra(IFPI), Allan Ribeiro, Doroteia Linhares(Brasília), Liete Sampaio(Feira de Santana), Pastor Tiago(Recife) e Fernando Sá acertaram na mosca.
O Papa evocou belo trecho extraído dos Atos dos Apóstolos, narrado por Lucas, capítulo 3: Pedro e João dirigiram-se ao templo para orar. Encontraram um homem coxo, nas escadarias do belíssimo monumento sagrado, que lhes pediu uma esmola. Pedro, chefe dos apóstolos, respondeu: "Olha, não tenho ouro nem prata, MAS o que tenho, eu te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda."
Ouro e prata, fruto proibido que alimenta o pecado insaciável da ambição a qualquer custo. Quando se alia a satanás, para subir escadarias, dando pé na bunda dos coxos e excluídos. Ouro e prata roubados dos hospitais, escolas e serviços públicos. Ouro e prata por banalização do sagrado em troca de milagres. Pelo ouro e prata, até se trai o Mestre.
Papa Francisco esquentou, quando disse:"Jesus bota fé nos jovens". Oportuno momento em que multidões clamam, nas ruas, contra o ouro e prata surrupiados pela corrupção desenfreada. Jovens sabem que certas mãos que apertam à do Papa dão bananas pra Jesus, por exclusiva ambição áurea e argêntea. O coletivo que se dane. Aliás, essa gente que comanda o país nem vai ao templo. Já viu Lula ou Dilma em culto evangélico ou missa? Querem até eliminar ensino religioso nas escolas, detonar a família, acasalar o que é par, criar o reino de Sodoma.
A riqueza, às vezes, cega e penaliza o espírito, resvala para avareza. Senhora oitentona, vestida de terceira categoria, estacionou seu velho corcel, quarentão e desgastado, frente à loja. Comentei com o balconista:"Tadinha! O carro dela se arrasta por milagre!" Que nada, tratava-se de uma dama, viúva, herdeira de imensurável fortuna amealhada por empresa próspera, durante governo de um membro da família... imóveis dentro e fora do país. Tadinha, novamente! Nem a carcaça do quarentão irá acompanhá-la para a eternidade. Pena que ela, naquela idade, desconhece a segunda oração: MAS...
Não esqueço Frei Higino, no velho seminário, durante palestra: "Ai do homem, depois dos quarenta anos, que ainda não conheceu a Deus!" E este país, há séculos, ainda não aprendeu a separar o ouro e a prata da simplicidade cristã, dos interesses coletivos acima das ambições pessoais. Só apertar a mão do sereno e abnegado servo de Deus, Francisco, é pouco, é festivo e eleitoreiro. Falta ir fundo no recado trazido à nação brasileira. Nem ouro nem prata, MAS Jesus Cristo, o amor coletivo acima de tudo, de olho nos coxos das escadarias da vida. Aí, sim, o milagre vai acontecer: "Levanta-te e anda". 

domingo, 28 de julho de 2013

Seleta Piauiense - Raimundo Alves de Lima – RAL


Inventário

Raimundo Alves de Lima – RAL (1956)

Teus olhos
cendrados
como duas lâminas na sombra.

Teus braços fincados
nos orifícios
do poema.

Como lavar o cérebro
desse povo,
dessa bandeira angustiada?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O POETA E O INSETO


O POETA E O INSETO

Elmar Carvalho

Uma música longínqua
e melancólica cria ressonâncias
na concha acústica de minha alma.
A bebida eu a tomo em longos goles.
Um inseto pousa sobre
a mesa e me faz companhia.
Sorve um trago da porção/poção
(derr)amada. E se embriaga.
A tristeza imensa me deixa cruel:
enxoto o pobre inseto bêbado que
ensaia um atropelado vôo. E cai.
A tristeza continua a crescer e a cair
em minha alma como infiltrações de estalactites
em (f)urna mortuária ......................................


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Minha escola aos 50 anos


Fonseca Neto 15/07/13

Estudei a vida inteira em escola pública: o curso primário, fiz em Passagem Franca, onde nasci; depois, três anos ginasiais numa escola fundacional ligada à paróquia de Colinas, MA; em Teresina concluí o ensino médio no Liceu Piauiense; graduei-me e fiz mestrado, na Ufpi; agora o doutoramento na Ufma.

Na Passagem, depois de estudar a “carta de abc” e a “cartilha”, na escolinha Getúlio Vargas, fui para o primário na escola Clodomir Cardoso, funcionando em salões alugados. No dia 12 de julho de 1963, a cidade inaugurou o seu primeiro prédio escolar e nele criada uma nova escola, o Grupo Escolar Estado do Paraná. Fiz nela do primeiro ao quinto ano primário –com breve passagem pela escola paroquial Pio XII.

Agora completando 50 anos da inauguração “do Paraná”, as lembranças batem. Por isso escrevo. Eu fazia o 2º ano no dia da inauguração, um prédio enorme para a cidade: quatro salas de aula, boas e arejadas, piso “mosaico” (quadro negro na parede), diretoria, cantina, sentinas e um grande salão de recreio. Tempo de férias, mas todos fomos chamados à escola, pela manhã, de farda, porque haveria – como houve – distribuição de material escolar e merenda. A parte solene ficou para “gente grande”: professoras, prefeito, padre, pais. Cada sala recebeu um nome: a do 1º ano, “Raimundo Correa”; do 2º (?); 3º, “Padre Manoel Oliveira”; 4º, “Padre Vicente Britto”; 5º/diretoria, “Governador Newton Bello”; salão de recreio, “Senador Vitorino Freire”.

Lembro que, naquela manhã, recebemos das mãos das professoras e das filhas do prefeito, cadernos novos, lápis, borracha – mas o mino maior, a “máquina de fazer ponta de lápis”, só para professores... Houve mais de uma rodada de distribuição de bombons “sortidos”. Nossas carteiras novas eram muito bonitas (“cimo”), daquelas que sentavam dois estudantes em cada uma, com um engavetado para guardar os materiais, a cavidade de repousar lápis e canetas, e, ao meio, o lugar para se encaixar o tinteiro. O quintal da escola era enorme, parte dele, com laranjeiras, cajueiros, pés de ata; mas outra parte era chão recém brocado; distinguia-se um pequizeiro erado, no pátio descoberto –na época deles, da sala de aula, ouvia-se o som dos pequis caindo ao chão... A cantina, a parte menos cuidada: uma bilheira com dois potes de água fria, que logo secavam; as sentinas eram uma fábrica de brigas, confusão todo dia.

Naquela primeira metade dos anos 60, pelo “Estado do Paraná” ou nas demais escolas que por lá funcionavam, o magistério era somente de professoras; lembro das minhas: Maria da Paz Almeida, Mocinha Saraiva, Jesus Angeline, Carmelita Saraiva, Maria da Luz Lopes, Oscarina Ventura, Jacira Fernandes e Clóris Labre da Silveira Dias. Antes disso, fizera o “jardim” com dona Eurides Borges (minha primeira professora, do ABC) e dona Teresinha Moreira (a Cartilha).

A testemunhar esta história que agora tiro da cabeça, há centenas de colegas do tempo, com suas próprias memórias. Mas três pessoas são testemunhas da vida desse grupo escolar, como poucas: as vizinhas dele, dona Chiquinha do Mané Corró e dona Maria do Leó; também dona Sidona do Zé Cearense (já falecida), que desde o primeiro dia montou uma banquinha de venda de bolos e manga rosa e vivia às voltas com as professoras que não liberavam a saída de quem tinha um trocado para ir comprar –também nos davam água.

A cada dia, no início de tudo, “tia” Clóris, a diretora, fazia a formatura, regia o hino e a oração do dia. Cada dia, um hino: nacional, do Maranhão, Independência, à Bandeira e até o do Descobrimento do Brasil, que nunca mais vi cantado em lugar nenhum. Aqui e acolá aparecia alguma “autoridade constituída” para participar. O inspetor estadual era a autoridade educacional mais reverenciada – e temida – das que vinham de fora: lembro-me bem do professor Tony Macedo, perfilado, de terno.

Friozinho bom o da Passagem, era coisa ruim acordar cedo para ir à escola. Vida dura: encanto? Desconfio que a escola pública mudou.

(Dedico esta crônica aos padres Manoel e Vicente; donas Chiquinha, Maria e Sidona; a Anastácio Borges, prefeito que a inaugurou – falecido há seis dias.)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pablo Neruda/Isla Negra/Campeira e Frei Pedro


Pablo Neruda/Isla Negra/Campeira e Frei Pedro

José Itamar Abreu Costa

I
Neruda cantou e divulgou sua terra
Altevir Alencar, canta também a sua
William Soares, Pedro Costa na viola
Jonasalles, pintas as paisagens do longá

II
Neruda, têm sua Isla Negra
Altevir Esteves, sua Campeira
Neruda têm Valparaiso
NetoPacifico tem Frei Pedro

III
Neruda, compôs tomando vinho,
Itamar, escreve no Pernambuquinho
São Universais, divulgam seus ninhos


IV
Neruda, fala de amor, política e paz
Valmira descreve sobre seus pais
Evaldo, compra os sonhos dos demais. 

Quem são os líderes despojados?


Quem são os líderes despojados?

José Maria Vasconcelos

De tempos em tempos, surge avalanche de neologismos, às vezes, totalmente deturpados no sentido tradicional e etimológico. A década de 1960 foi pródiga em neologismos e significados exóticos (psicodélico, prafrentex, engajado, alienado, esquerda, direita, long-play, inserido no contexto, anticoncepcional, sex-appeal, brasa, mora!, tira (militar), amizade colorida, hippie). Anos 70-80, pouca invenção. Nas últimas décadas, avanços tecnológicos e a "internet"(olha aí o novo), centenas de neologismos e esquisitices verbais invadiram as comunicações. É o caso da palavra "despojado".
Descobri, em loja do centro comercial de Teresina, anúncio que dizia: "Alugamos e vendemos looks(olha o novo) de luxo despojados para noivas." E se inspirava em desfiles chiques de marcas famosas. Apaixonados por motos turbinadas e caras criaram, no Rio, a "tribo"(olha de novo o novo) dos "Despojados do Asfalto".
No programa televisivo,"Pequenas Empresas, Grandes Negócios", a empresária exibia "perucas despojadas" a preços acima de 10 mil reais, além dos serviços de "cachos despojados". E por aí vai colando o vocábulo em todo produto bom e caro.
Desidério Murcho, filósofo e escritor português, escreveu o livro, "Os Despojados", sobre utópica organização política e social em um planeta fértil e imaginário. Uma colônia de anarquistas, sem dinheiro, sem classes sociais, sem leis. Aos poucos a sociedade dos despojados começa a utilizar princípios comunistas e capitalistas. O termo "despojado", neste caso, adequa-se à terminologia.
Finalmente, qual o verdadeiro significado do termo "despojado"? Vamos ao latim clássico, "spoliare", em português vulgar, virou "esfolar", extrair as tripas. Daí, o sentido figurado, "roubar", e, em português erudito, "espoliar. Por fim, o sentido cristão de "tirar de si e oferecer", "simples", "desambicioso", "enxuto", "informal". Nos evangelhos, Jesus ensina o despojamento da vaidade, do sentar-se nos primeiros lugares, do exibir-se em prejuízo dos mais humildes e excluídos. Despojar-se da soberba nos banquetes e ceias, de exigir lava-pés da submissão. Despojar-se de avançar no cônjuge alheio. "Nisto conhecerão que sois meus discípulos."
A verdadeira liderança se conquista com o exercício do despojamento, através da generosidade, espírito público, ética, transparência. Na hora da eleição, é o candidato mais lembrado. Toda espiritualidade, especialmente cristã, ensina a se despojar do excessivo apego ao material. A comunidade agradece e venera. Louvável exemplo, Papa Francisco, conquista cristãos e não cristãos.
Políticos por aí posam de despojados, abraçando povo humilde, rezando fervorosos, comendo panelada com os pobres. Que despojamento? Esfolando o alheio e a própria consciência? Portanto, não colar a palavra em produto de fantasia comercial, em desfavor da pureza e do exercício cristão.